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Data de lançamento
21 Março 2011Duração
Trancada contra sua vontade, Babydoll não perdeu a vontade de sobreviver. Determinada a lutar por sua liberdade, ela se une a quatro garotas internas – a falastrona Rocket, a malandra Blondie, a leal Amber e a relutante Sweet Pea – para tentar escapar de seu terrível destino e das mãos dos inescrupulosos Blue, da Senhora Gorki e de High Roller.
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Tem Alguns Spoilers...
O trailer parecia um pesadelo em movimento; eu não acreditava que "When the Levee Breaks", do Led Zeppelin, embalava aquelas cenas. "Sucker Punch", o que era aquilo? HQ? Mangá? Anime? Videogame? Que filme é esse que Zack Snyder mandava para as telas?
À primeira vista, "Sucker Punch: Mundo Surreal" passava a nítida impressão de ser a adaptação de algum gibi obscuro, de um mangá hiper-estilizado ou de um videogame de ação frenética que eu desconhecia. A estética de anime, as garotas em trajes que remetem ao universo pop das HQs e as cenas de ação com lutas contra samurais gigantes, robôs e dragões reforçavam essa impressão. Mas o elemento mais impressionante dessa obra de Zack Snyder é justamente o fato de ser um roteiro original: uma ideia autoral corajosa que usa a linguagem dos quadrinhos para mascarar uma história profundamente dramática e sombria.
Por trás de todo o espetáculo visual, o filme carrega uma carga pesadíssima. A jornada da protagonista Babydoll (Emily Browning) começa na dor pura. Após tentar proteger a irmã do abuso do próprio padrasto, uma tragédia terrível acontece, resultando na morte da caçula e no envio injusto de Babydoll para uma instituição psiquiátrica corrupta e decadente, que mascara um local de escravidão e abuso sexual — uma espécie de prostíbulo de luxo disfarçado. Ali dentro, ela encontra outras jovens — vividas por Jena Malone, Vanessa Hudgens, Jamie Chung e Abbie Cornish —, onde homens ricos e poderosos pagam fortunas para ter seus desejos realizados.
O trunfo e o dilema fa obra estão na sua estrutura mental e psíquica na construção da história. A prostituição, o controle e o abuso a que elas são submetidas no mundo real são tão insuportáveis que a narrativa nunca nos mostra a dor crua no momento do ato. Em vez disso, a mente de Babydoll dispara para a fantasia toda vez que a realidade se torna insustentável. A dança, portanto, vira a válvula de escape do trauma: enquanto a gente assistia um sonho misturado com videogame, com lutas épicas e cenas de ação, o pano de fundo continua sendo o plano desesperado das garotas tentando encontrar uma brecha para fugir daquele inferno.
Criticar o filme ou o diretor hoje pela estética sexualizada das personagens é ignorar o próprio DNA do gênero que ele homenageia. Mangás, animes, quadrinhos e games sempre utilizaram essa linguagem visual sensualizada, e Snyder apenas abraça essa estética para traduzir o universo mental das personagens. O problema de "Sucker Punch" não está na sua premissa — que é brilhante e dolorosa —, mas sim em partes da sua execução, onde o excesso de camadas e a grandiosidade das batalhas imaginárias às vezes ofuscam a gravidade do drama humano que se desenrola no plano real.
A fotografia do filme acompanha tanto a realidade cruel quanto o mundo onírico de Babydoll. Sombras escuras dividem as cenas com cores fortes, chamuscadas no vermelho, verde, laranja e amarelo, que parecem chamas de alguém que queima seu corpo nas dores do dia e sua alma nas lembranças do passado. É um tom de poeira, sombra e pesadelo que faz a transição perfeita entre o cinza morto e claustrofóbico do manicômio e o brilho irreal e exaggerated das batalhas imaginárias. Os efeitos visuais, mesmo com o passar dos anos, mantêm aquela textura estilizada de graphic novel e videogame que impressionou demais a mim e ao meu pai na época.
A trilha sonora é um espetáculo à parte porque é quase toda composta por covers e versões reinventadas cantadas por artistas incríveis e pela própria atriz principal, Emily Browning. Músicas clássicas ganham arranjos sombrios, operísticos e industriais — é a rádio que toca na mente perturbada de Babydoll. A versão de "Sweet Dreams (Are Made of This)", do Eurythmics, cantada por Emily Browning na abertura, arrepia. "White Rabbit", do Jefferson Airplane, e "I Want It All / We Will Rock You", do Queen, ganham releituras mais pesadas de outros artistas. A versão de "Army of Me", da Björk, fica épica embalando a cena de luta no templo samurai. E o clássico "Where Is My Mind?", do Pixies, fecha o ciclo do filme.
A sequência final não entrega um desfecho comum; o filme não cede seu último bloco para a catarse fácil dos filmes de super-heróis. O final é trágico, melancólico e triste, trazendo a ideia de sacrifício e libertação, mesmo que seja na morte.
"Sucker Punch: Mundo Surreal" é um filme incompreendido e injustiçado pela crítica e pelo público da época. O longa de Snyder recusou ser apenas um entretenimento superficial e buscou algo além. Por baixo das camadas de câmera lenta e dos cenários surreais (exagerados), ele contou uma história de trauma, medo, abuso e desespero, usando a estética do mundo das HQs, mangás e animes quase que num jogo de videogame em movimento.
Incompreendido ou não, é um dos trabalhos mais amargos e pesados do gênero, e passa muito longe de ser ruim. E revendo o filme hoje, confesso que gostei ainda mais.
Muito bom!
Eu achei muito criativo e interessante, mas no fim deixou um gostinho muito amargo.
Acabei de assistir e ainda estou tentando processar a genialidade (e a tristeza) desse filme. A obra discute o poder da mente de criar armaduras contra um mundo que só quer nos destruir.
A estrutura de "sonho dentro de um sonho" é muito bem amarrada, usando o cabaré e as missões de guerra como metáforas perfeitas para os abusos que as meninas sofrem no mundo real. As sequências de ação são divertidas e criativas, funcionando como válvulas de escape para a tensão constante da realidade, com a assinatura visual do Snyder em cada frame.
As atuações estão impecáveis, entregando personagens que são, ao mesmo tempo, ícones de ação e vítimas de uma tragédia humana. A trilha sonora completa a experiência, transformando cada cena em um videoclipe épico e melancólico.
12/02/26 (inglês)