Apesar de ser interessante como se mostra o trabalho das pessoas ali, eu vejo que essa narração dá muito o tom do que deve ser pensado sobre o que acontece. Isso, por si só, já não me agrada, porque as pessoas não podem falar por si, as imagens tampouco. Agora, falar de uma população negra que buscou uma vida fora das cidades (das quais esta população foi excluída), e dizer que a vivência que se possui neste modo alternativo de vida é primitiva e atrasa, aí já é demais, pobreza narrativa. Ar de superioridade terrível. Vejo que a Agnes Varda, por exemplo, sempre usou muito melhor da narração em seus documentários. Os panteras negra é um grande expoente.
Há algo que beira o farsesco nesse filme, principalmente quando se decide deixar claro que todas as mulheres expostas ali são da mesma classe social, e evidenciando o eterno verão que é a vida delas. Um certo contraponto ao próprio cinema novo, que normalmente não se privava de mostrar pessoas pobres de modo tão ampliador de suas misérias. Deste modo, vejo que A Entrevista quer se colocar no seu lugar, dizer "estamos aqui, falando destas mulheres, sob este ponto de vista". Vejo que essa delimitação é importante, principalmente num filme de 20 minutos. É bom também ver como as mulheres aqui possuem algo a dizer entre elas. O cinema novo sempre se notou por ter homens ricos fazendo filmes sobre homens pobres, com representações femininas muito aquém, como a Helena Ignez sendo totalmente castrada na sua atuação em O padre e a moça. Aqui, por outro lado, vemos mulheres de uma classe social sendo mostradas por uma mulher do mesmo círculo: elas falam sobre virgindade, sobre casamento, o papel da mulher na sociedade, o papel de homens na vida das mulheres. Gosto de como o final contrasta com a voz de quem fala. As personagens continuam sendo mostradas, porém caladas pelo que dizem os militares. Pra quem gostou, recomendo A mulher de todos. Helena Ignez no auge.
Na minha cabeça, o filme era mais caricato. Só me lembro de ter visto na escola, há mais de 15 anos. Apesar de eu ser contra o cinismo, gosto de como algumas narrativas irônicas, principalmente no cinema. Acho que aqui a Crítica Social Fuderosa se disfarça bem por trás da ironia. Gosto também de como cada imagem adquire seu significado e, em frações de segundos, quando ditas novamente, elas nos tiram um sorrisinho. Em contraponto a esse (um curta verborrágico), recomendo Alma no olho, sem palavras
A maneira como o corpo é mostrado desde a origem até o momento em que se é acorrentado é muito envolvente. Após o acorrentamento, vem tudo o que sabemos, porém retratado com pouquíssimos elementos. As correntes tentam ser escondidas, mas no fundo não há como. Não há futebol, livros, roupas, chapéus ou esmolas que as eliminem. O final curiosamente é esperançoso, não decide ir pra um caminho melancólico. Filmaço. A maneira como mostra o corpo me lembrou um pouco Barravento.
É engraçado ver que esse conceito de videoclipe se estende pra hoje. Não só como uma narrativa que usa de diferentes formas de trazer imagens: stopmotion, edição frenética, narração acelerada, etc. Mas também com a camada de certo experimentalismo ao qual os clipes normalmente se permitem. Me lembrou o clipe de Everlong, que era meu favorito quando eu era adolescente.
Muito interessante a forma como uma ficção científica é contada de maneira tão simples. A imersão, que pode parecer difícil, aconteceu (comigo) de maneira muito natural. Mesmo sem movimentos, o mundo e os personagens se tornam muito reais. O momento em que apenas batidas do coração e imagens do narrador vendado aparecem trouxe uma tensão que não sentia há tempos. Tem um quê de A curva do sonho, da Ursula Le Guin. Recomendo Ascent, da Fiona Tan, a quem gostou desse. Possui uma narrativa parecida, apesar da temática bem diferente.
O que a vida deu às crianças mostradas no final? O Brasil dos anos 70 (e antes e depois disso, nesse inferno de capitalismo tardio) era demasiadamente cruel.
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Aruanda
4.1 30Apesar de ser interessante como se mostra o trabalho das pessoas ali, eu vejo que essa narração dá muito o tom do que deve ser pensado sobre o que acontece.
Isso, por si só, já não me agrada, porque as pessoas não podem falar por si, as imagens tampouco.
Agora, falar de uma população negra que buscou uma vida fora das cidades (das quais esta população foi excluída), e dizer que a vivência que se possui neste modo alternativo de vida é primitiva e atrasa, aí já é demais, pobreza narrativa. Ar de superioridade terrível.
Vejo que a Agnes Varda, por exemplo, sempre usou muito melhor da narração em seus documentários. Os panteras negra é um grande expoente.
A Entrevista
3.9 9 Assista AgoraHá algo que beira o farsesco nesse filme, principalmente quando se decide deixar claro que todas as mulheres expostas ali são da mesma classe social, e evidenciando o eterno verão que é a vida delas. Um certo contraponto ao próprio cinema novo, que normalmente não se privava de mostrar pessoas pobres de modo tão ampliador de suas misérias. Deste modo, vejo que A Entrevista quer se colocar no seu lugar, dizer "estamos aqui, falando destas mulheres, sob este ponto de vista".
Vejo que essa delimitação é importante, principalmente num filme de 20 minutos.
É bom também ver como as mulheres aqui possuem algo a dizer entre elas. O cinema novo sempre se notou por ter homens ricos fazendo filmes sobre homens pobres, com representações femininas muito aquém, como a Helena Ignez sendo totalmente castrada na sua atuação em O padre e a moça. Aqui, por outro lado, vemos mulheres de uma classe social sendo mostradas por uma mulher do mesmo círculo: elas falam sobre virgindade, sobre casamento, o papel da mulher na sociedade, o papel de homens na vida das mulheres.
Gosto de como o final contrasta com a voz de quem fala. As personagens continuam sendo mostradas, porém caladas pelo que dizem os militares.
Pra quem gostou, recomendo A mulher de todos. Helena Ignez no auge.
Ilha das Flores
4.5 1,0KNa minha cabeça, o filme era mais caricato. Só me lembro de ter visto na escola, há mais de 15 anos.
Apesar de eu ser contra o cinismo, gosto de como algumas narrativas irônicas, principalmente no cinema. Acho que aqui a Crítica Social Fuderosa se disfarça bem por trás da ironia. Gosto também de como cada imagem adquire seu significado e, em frações de segundos, quando ditas novamente, elas nos tiram um sorrisinho.
Em contraponto a esse (um curta verborrágico), recomendo Alma no olho, sem palavras
Alma no Olho
4.4 24A maneira como o corpo é mostrado desde a origem até o momento em que se é acorrentado é muito envolvente. Após o acorrentamento, vem tudo o que sabemos, porém retratado com pouquíssimos elementos. As correntes tentam ser escondidas, mas no fundo não há como. Não há futebol, livros, roupas, chapéus ou esmolas que as eliminem.
O final curiosamente é esperançoso, não decide ir pra um caminho melancólico. Filmaço.
A maneira como mostra o corpo me lembrou um pouco Barravento.
A Velha a Fiar
4.2 71É engraçado ver que esse conceito de videoclipe se estende pra hoje. Não só como uma narrativa que usa de diferentes formas de trazer imagens: stopmotion, edição frenética, narração acelerada, etc. Mas também com a camada de certo experimentalismo ao qual os clipes normalmente se permitem. Me lembrou o clipe de Everlong, que era meu favorito quando eu era adolescente.
A Pista
4.4 194 Assista AgoraMuito interessante a forma como uma ficção científica é contada de maneira tão simples. A imersão, que pode parecer difícil, aconteceu (comigo) de maneira muito natural. Mesmo sem movimentos, o mundo e os personagens se tornam muito reais. O momento em que apenas batidas do coração e imagens do narrador vendado aparecem trouxe uma tensão que não sentia há tempos.
Tem um quê de A curva do sonho, da Ursula Le Guin.
Recomendo Ascent, da Fiona Tan, a quem gostou desse. Possui uma narrativa parecida, apesar da temática bem diferente.
Vinil Verde
3.7 184 Assista AgoraTrouxe tudo de casa mesmo.
Culpa, amor, cumplicidade, agonia.
O Pistoleiro de Serra Talhada
3.8 4O que a vida deu às crianças mostradas no final?
O Brasil dos anos 70 (e antes e depois disso, nesse inferno de capitalismo tardio) era demasiadamente cruel.