Apesar de ser interessante como se mostra o trabalho das pessoas ali, eu vejo que essa narração dá muito o tom do que deve ser pensado sobre o que acontece. Isso, por si só, já não me agrada, porque as pessoas não podem falar por si, as imagens tampouco. Agora, falar de uma população negra que buscou uma vida fora das cidades (das quais esta população foi excluída), e dizer que a vivência que se possui neste modo alternativo de vida é primitiva e atrasa, aí já é demais, pobreza narrativa. Ar de superioridade terrível. Vejo que a Agnes Varda, por exemplo, sempre usou muito melhor da narração em seus documentários. Os panteras negra é um grande expoente.
Há algo que beira o farsesco nesse filme, principalmente quando se decide deixar claro que todas as mulheres expostas ali são da mesma classe social, e evidenciando o eterno verão que é a vida delas. Um certo contraponto ao próprio cinema novo, que normalmente não se privava de mostrar pessoas pobres de modo tão ampliador de suas misérias. Deste modo, vejo que A Entrevista quer se colocar no seu lugar, dizer "estamos aqui, falando destas mulheres, sob este ponto de vista". Vejo que essa delimitação é importante, principalmente num filme de 20 minutos. É bom também ver como as mulheres aqui possuem algo a dizer entre elas. O cinema novo sempre se notou por ter homens ricos fazendo filmes sobre homens pobres, com representações femininas muito aquém, como a Helena Ignez sendo totalmente castrada na sua atuação em O padre e a moça. Aqui, por outro lado, vemos mulheres de uma classe social sendo mostradas por uma mulher do mesmo círculo: elas falam sobre virgindade, sobre casamento, o papel da mulher na sociedade, o papel de homens na vida das mulheres. Gosto de como o final contrasta com a voz de quem fala. As personagens continuam sendo mostradas, porém caladas pelo que dizem os militares. Pra quem gostou, recomendo A mulher de todos. Helena Ignez no auge.
Na minha cabeça, o filme era mais caricato. Só me lembro de ter visto na escola, há mais de 15 anos. Apesar de eu ser contra o cinismo, gosto de como algumas narrativas irônicas, principalmente no cinema. Acho que aqui a Crítica Social Fuderosa se disfarça bem por trás da ironia. Gosto também de como cada imagem adquire seu significado e, em frações de segundos, quando ditas novamente, elas nos tiram um sorrisinho. Em contraponto a esse (um curta verborrágico), recomendo Alma no olho, sem palavras
A maneira como o corpo é mostrado desde a origem até o momento em que se é acorrentado é muito envolvente. Após o acorrentamento, vem tudo o que sabemos, porém retratado com pouquíssimos elementos. As correntes tentam ser escondidas, mas no fundo não há como. Não há futebol, livros, roupas, chapéus ou esmolas que as eliminem. O final curiosamente é esperançoso, não decide ir pra um caminho melancólico. Filmaço. A maneira como mostra o corpo me lembrou um pouco Barravento.
É engraçado ver que esse conceito de videoclipe se estende pra hoje. Não só como uma narrativa que usa de diferentes formas de trazer imagens: stopmotion, edição frenética, narração acelerada, etc. Mas também com a camada de certo experimentalismo ao qual os clipes normalmente se permitem. Me lembrou o clipe de Everlong, que era meu favorito quando eu era adolescente.
É legal ver um filme que é um épico recente, coisa que me parece rara. A epicidade vai pra além de só contar das expedições vez ou outra, mas sim trazendo todas como se fossem um grande recomeço de algo árduo. Há também as tramas políticas na qual Percy está envolvido e, claro, a guerra. Contar uma história assim de modo tão grandioso só é possível levando-se a sério tudo o que se passa, coisa que o James Gray sempre consegue, sem o menor cinismo. Entre todos os filmes que vi dele, nenhum tem uma risadinha piscando pra câmera, ao mesmo tempo que não tenta fugir de momentos de possível fantasia. Outra combinação rara em filmes recentes.
A selva é mostrada como um local hostil e fascinante, porém destaco o papel que o rio tem aqui. Os barcos que os viajam se parecem com naves espaciais olhando para outros mundos que aparecem ao longo da margem. Esse elemento que transforma vários filmes em road movies aquáticos parece longe do esgotamento e sempre traz um encanto a mais. Apocalypse now, O último azul, O abraço da serpente, todos nos encantam no deslizamento sobre as águas, como se aquele transporte fosse um meio de nos levar para um mundo que deixa de ser real, trazendo histórias que, quando contadas, sempre parecem mentira, delírio.
Acho que vale falar também sobre como o cinema do James Gray mudou e, apesar de eu gostar bastante de Ad Astra, Era uma vez em Nova York e de Z, é estranho ver como estes diretores do cinema americano (sejam eles americanos ou não) vão para um caminho de filmes de maior orçamento e as tramas mais simples deixam de ser exploradas por eles. Talvez os filmes do Gray ficassem uma porcaria se ele passasse a vida inteira filmando o Joaquin Phoenix sad boy na periferia de Nova York? Talvez. Mas eu acho que ainda dava pra tirar alguma coisa dali. Ele parou de fazer estes filmes justamente depois de Os donos da noite e Os amantes, seu auge até então. Não que eu veja que todos os diretores devessem ficar em filmes de baixo orçamento a vida inteira, mas é curioso ver que quase nenhum realizador volta a eles, mesmo que apenas uma vez. O prêmio de quem é abraçado pelo prestígio é sempre seguir para filmes de época megalomaníacos, grandes histórias de guerra ou projetos gigantescos de ficção científica. Tarantino não voltou desse caminho, Nolan também não, nem a Bigelow, nem o Villeneuve. Vamos ver se o Gray volta agora em Paper Tiger.
Aqui vale indicar O abraço da serpente, para temos um olhar mais próximo do que um indígena tem da amazônia. Também gosto de pensar em Roma, do Cuaron, que talve seja o único ou um dos únicos diretores que foram para estes filmes gigantes que comentei, mas que pelo menos ensaiou uma volta.
Tudo bem que o filme é importante pra mostrar como se contar uma história apenas por imagens há mais de cem anos. Tudo bem que o Murnau era foda, mas ô historinha besta. Ganga Bruta, por exemplo, também consegue se expressar muito bem, mesmo que (quase) sem palavras e o Humberto Mauro também era foda.
Eu entendo perfeitamente a importância desse filme, mas me desagrada muito a maneira como os personagens são humilhados. O próprio cinema novo foi muito questionado devido a como os mais pobres eram mostrados com certa condescendência - muito inspirados pelos filmes italianos, claro - porém vejo que os principais expoentes do movimento não cometiam um erro que é aqui cometido, que é o da falta de potência dos personagens. Sim, tenta-se dizer que todos ali são oprimidos pelo capitalismo, pela pobreza, pelo mundo ou o que quer que seja, mas mostrar que o personagem é incapaz até mesmo de retribuir a violência que sofre me soa um pouco humilhante. É quase como dizer "esses pobres nem pra roubar prestam". Acho que Deus e o Diabo na Terra do Sol fala muito melhor sobre como a violência é a consequência da miséria. Há um momento em que um assassino diz "Matei porque não posso viver descansado com essa miséria", e isso pra mim resume como pode-se mostrar quem alguém é vítima da vida que vive, ao mesmo tempo em que possui força para tentar atacar de volta, mesmo que de maneira ineficaz e apenas contribuindo para a deterioração da realidade.
O gênero de máfia é deixado um pouco de lado para que o filme se aproxime mais de uma história de vingança. Só que essa tal história de vingança não engaja muito. A ação é até bem construída, mas os personagens são pouco explorados. Há um momento em que um personagem se questiona para que serve a vingança se você não se lembra de nada, e realmente os problemas de memória do protagonista traz à pauta a ideia de que vingança muitas vezes serve mais para delimitar territórios do que para propriamente honrar quem foi injustiçado. Nada além disso, porém. Se é pra falar sobre memória em filmes de crimes, vejo que a terceira temporada de True Detective age muito melhor.
Esse filme pode muito bem ser imaginado sem nenhuma palavra. Sem cartelas, sem título, sem nada. E a história seria muito bem contada. Todo o modo que se mostra a cidade superior e a inferior, a Torre de Babel, o robô, tudo grita para nós e nos joga nesse mundo silencioso ao mesmo tempo que é muito barulhento. Vale o destaque para quando a robô se torna humana, que é uma cena que, se feita hoje, ainda seria muito impactante. Tudo o que se fala sobre Um corpo que cai também está aqui: O sobrenatural feminino de uma mulher que é sacerdotisa. O duplo. O olhar masculino sobre uma mulher robotizada pelos homens criadas.
Tudo isto posto, não dá pra negar que, se um filme termina com uma frase de efeito, a intenção é que aquela seja a mensagem que este filme quer passar. Não há como desvencilhar essa mensagem do filme. E essa tal moral da história é extremamente desmobilizadora. Ela vai contra todo o ideal de classe que a Maria e o Freder possuíam. Toda essa mobilização que eles tinham foi boicotada pelo cientista, sim, porém o Joh também tentava articular este boicote. Então existe uma estrutura opressora muito bem construída visualmente, sem a necessidade de palavras, esta estrutura é colocada em xeque por personagens muito bem desenvolvidos, com suas contradições e fraquezas, o principal beneficiado pela opressão e um quase aliado tentam desarticular uma resposta a essa opressão, mas ao final nos é dito que tudo bem, todos devem se aliar, não tem um certo e um errado, a cabeça e o coração devem andar juntos. Vejo que O gabinete do doutor Caligari é muito mais interessante. Ele também possui mensagens reacionárias, porém deixa certa margem de interpretação, ao contrário de Metrópolis.
Eu gosto de como o Abel Ferrara consegue transformar estes homens da máfia, estes homens ruins, em personagens por quem nós consigamos empatizar, mas sem que exista uma glorificação deles - ao contrário do Scorsese Também gosto do fim que se dá a eles sem que soe como uma punição, algo que o Michael Mann faz muito, por exemplo - punir os personagens, no caso. O glamour na vida de quem está aqui é puramente visual. A cena da festa que se faz no galpão é encantadora, ao mesmo tempo que todos são extremamente melancólicos. Sobre melancolia e máfia, recomendo Os Donos da Noite, do James Gray.
Eu gosto do filme não ter medo de mostrar as cenas de sonho com tudo o que elas têm a oferecer: cores, objetos grandiosos, pessoas vestidas de modo extravagante, cenas que não fazem muito sentido, etc. Este mundo dos sonhos realmente contrasta com o mundo real. Não há uma racionalidade nele. Os personagens e o desenvolvimento da história não são lá essas coisas, mas vejo como uma experiência válida. Pra quem gostou, recomendo Paprika. Sonhos sem medo.
Dos anos 60 pra cá, vejo que há outros dois filmes que dialogam muito bem com Peões: Cabra marcado para morrer e ABC da greve. O primeiro mostra como as ligas camponesas foram destruídas pela ditadura, enquanto o segundo explora o que estas pessoas, que saíram do campo para fugir da miséria, conseguiram fazer lutando em conjunto. O terceiro capítulo desta história, claro, é Peões: Chegou o momento em que um operário se tornou presidente da república. Como chegamos aqui? A fórmula do Coutinho responde primorosamente todas as questões colocadas, como sempre. Alguns se arrependem de terem passado pouco tempo com os filhos, outros contam histórias que claramente não são verdadeiras, enquanto outros não desejam a ninguém que se passe pelo que se passou. O otimismo vigora entre todos. O Hirszman e o Coutinho já morreram, então nunca saberemos quem eles entrevistariam em 2026 para seguir essa narrativa. Depois do fim das ligas camponesas, da luta dos que migraram para as cidades, de um operário se tornar presidente, o que se tornou o Brasil? Qual foi a reação a estes avanços? O que as pessoas pensam disso? Que história agora é contada frente a uma câmera sentado num sofá de casa?
Soa fácil criar uma narrativa de equívocos, vícios, mentiras e terminar com certa punição ao personagem. Os Safdie estão fazendo isso há mais de uma década. Go go tales vai no rumo contrário: Ray é jogado para baixo e depois é arremeçado para cima. Há um triunfo quando não havia nenhuma outra esperança. Quando as pessoas ao seu redor (que o amavam) já haviam cansado de fechar os olhos para a materialidade. É cada noite maluca que a gente vive: não dá pra ver muito bem os rostos, as madrugadas parecem longas, com cantorias malucas, brigas que não sabemos bem onde começam e terminam. Tudo isso envolvendo um personagem que ama estar ali. Ele não consegue deixar de sorrir quando vê que a noite seguinte será igual. Que delícia o cinema do Ferrara. Pra quem gostou, recomendo O Vício. Outra noite do Ferrara.
Eu não conhecia o Abel Ferrara até pouco tempo atrás e a cada filme que vejo dele eu me divirto mais. Acho muito interessante como vampiros aqui são simplesmente viciados niilistas metidos a intelectuais. Assim como na vida real existe um glamour destas pessoas (vampiros e viciados niilistas metidos a intelectuais), aqui também há, porém é um brilho vazio. Ao final das noites nós vemos que tudo o que existia de mais interessante se torna apenas restos. Não dá pra se livrar facilmente dessa vida. Nem com sol nem com reza. Pra quem gostou, recomendo Drácula de Bram Stoker, o melhor filme de vampiros de todos, que fala de desejo ao invés de vícios.
O delírio do Nelson Rodrigues não me pareceu plenamente atingido, apesar dele estar envolvido na produção. A tragédia do ambiente se desenvolve bem, mas o final não parece muito integrado entre si, falando das duas mortes. O patriarca da família realmente é o mal primário e ele é pior que todos os outros homens, mas não é nem de longe a melhor adaptação que já vi do Nelson. Toda nudez será castigada, por exemplo, é muito melhor em todos os sentidos.
As cenas mostradas sempre envolvem meios de transporte. É tudo transitório num nível além de falarmos de "não lugares". Não são mostrados bares, restaurantes, parques, shows, arenas esportivas, lares, consultórios, hospitais, reuniões. O que vemos é basicamente lugares por onde as pessoas passam apenas por instantes. É até interessante vermos como isso contrasta com o que a mãe fala sobre a vida da filha: ela diz "que bom que você está trabalhando e fazendo amigos" e nós não vemos o menor indício destes fatos. Não necessariamente os dias são corridos, mas tudo é passageiro. Não há interação entre ninguém. Para além do que vemos, pensando no que ouvimos, a mãe fala sobre o que a Chantal falou a carreira inteira: não há nada que acontece de tão impressionante na vida. As notícias de casa são cada vez mais banais. O filme parece quase uma resposta aos pedidos da mãe para que a filha escreva: nada acontece. Ela está pra lá e pra cá, as ruas são todas iguais, as pessoas do metrô nem se olham. O que mais dá pra dizer? A ida de alguém pra longe é quase uma morte. Não dá pra ficar demandando respostas.
O título do filme talvez dê força para o que mais tem destaque durante a narrativa, que é o drama que Charlie faz durante todo o tempo.
E eu entendo bem a intenção de usar de gatilho uma história que foi planejada por Emma, que é grave, porém não se concretizou. Por outro lado, confesso que não me pegou muito não. Tentando entender a razão, cheguei à conclusão que isso acontece basicamente porque a personagem da Emma é muito melhor que o Charlie e a tonha lá que fica resmungando o tempo todo. Os motivos pra ela pensar em fazer o que faria são muito expostos. Uma reversão na rota é apresentada. Nós entendemos tudo. E aí, o que sobra ao protagonista? Talvez seu próprio carisma, que não é muito.
Vejo também um uso um pouco repetitivo de imagens da paranoia dele. Imagens pouco criativas depois de um tempo, que não nos fazem mais rir depois da terceira ou quarta aparição.
Além dos pontos citados acima, o desconforto é um trunfo muito mal usado. Usando um exemplo: a colega de trabalho do Charlie fala de seu marido como alguém forte e que pode ser violento. Assim que nós o vemos, essa imagem está posta em nossa mente, nada mais precisa ser dito. Charlie então faz um discurso para inflamar o que ainda não queimou, porém no momento em que teríamos o prato principal do constrangimento, a cena é cortada. De novo, o que resta? Um final em clima de romance trazendo uma emotividade que sequer foi apresentada anteriormente.
A Zendaya aqui, vale destacar, mais uma vez é uma atriz mal utilizada. Ela tem sempre muita potência em sua presença, mesmo quando não fala. Ela não precisa gritar para ser a principal personagem mesmo quando não protagoniza seus filmes. E essa força da natureza que ela é possui aqui muitos maus-tratos de personagens aquém dela. Não dá pra comprar esse drama do Robert Pattinson, da Haim ou da DJ que usa heroína.
Com isso, entendo que o filme se esvazia pouco a pouco de seus bons elementos, ao contrário do que o próprio Kristoffer Borgli faz em Doente de mim mesma.
O De Palma cansa um pouco de usar os mesmos elementos sempre. Não sei nem se são elementos do cinema noir, mas é sempre uma investigação que envolve alguém meio que por acaso. Não vejo, porém, uma tendência dele usar não policiais na investigação, ao contrário dos filmes noir. Outro elemento do qual ele não enjoa são as loiras, mas isso é outro assunto.
E a forma como tudo escala de algo muito pequeno pra uma conspiração gigantesca é uma delícia, sempre. Esse filme começa com um plano-sequência um pouco frenético em que temos que tentar prestar atenção a tudo, algo que é muito explorado depois, já que o protagonista tenta o tempo todo se lembrar do que aconteceu em meio ao caos de alguns instantes.
Em relação a relembrar o que passou e utilizar as imagens das câmeras - sejam de segurança ou da TV - para chegar a alguma conclusão, vejo que há uma tentativa de se estabelecer um diálogo com Blow-up, e aqui vale destacar como penso que, quando tenta referenciar muito diretamente e literalmente outras obras, o De Palma acaba dando uma pecada. Explicando de outro modo: tem um texto da Linda Hutcheon sobre adaptações em que ela fala "a adaptação pode ser descrita do seguinte modo: Uma transposição declarada de uma ou mais obras reconhecíveis; um ato criativo e interpretativo de apropriação ou recuperação; ou um engajamento intertextual extensivo com a obra adaptada. Assim, a adaptação é uma derivação que não é derivativa, uma segunda obra que não é secundária". Eu vejo que, em filmes como Dublê de corpo e Blow-out, o De Palma acaba criando adaptações que são secundárias frente às obras originais. São obras que praticamente não fazem sentido sem Janela Indiscreta/Um corpo que cai e Blow-up, respectivamente. A meu ver, Olhos de serpente consegue fugir disso. A busca por uma imagem que possa trazer luz ao mistério é claramente um engajamento intertextual extensivo com Blow-up, porém sem perder seu próprio caminho. Além dos novos fatos trazidos pelas tais imagens, há também novas verdades trazidas por cada pessoa. Cada um que fala sua versão é embasado pelo que é mostrado em tela, sem contradições com suas falas, sempre levantando mais dúvidas do que certezas sobre qual imagem é real, nos levando a repensar também o que vimos desde o início. Há um abuso de certas coincidências, mas vejo que há permissão para isso em um filme que tem Nicolas Cage todo arrebentado falando "snake eyes". Que delícia. Pra quem gostou, recomendo o tal do Blow-up.
O final basicamente tenta interromper o ciclo destrutivo que reina aqui. As mulheres obviamente não morrem porque não são ativas neste ciclo, ao contrário dos homens, que sempre estão extremamente angustiados e conviveram com a violência desde a infância. A destruição é tudo o que eles conhecem e engloba tudo o que existe em suas vidas. Chez possui apenas relações destrutivas, Johnny é engajado políticamente e a força é sua maior alma nessa luta, enquanto Ray o tempo todo se vê como o menino que foi obrigado a matar alguém. Essa obrigatoriedade do Ray com a morte vale um destaque, porque sempre nos vemos indo e voltando no tempo e através de seus olhos temos a certeza de que ele ainda é a mesma pessoa que precisa matar, é seu dever. Ele foi obrigado enquanto uma criança, assim como não pode deixar que Gaspar sobreviva depois de tudo o que aconteceu, bem como também deve matar o assassino de seu irmão, que não lhe deixa outra escolha. Ray, na verdade, mata por medo. Medo de ser morto ao invés de suas vítimas. É complexo fazer um filme de máfia sem vangloriar quem é representado, ao mesmo tempo em que consegue-se criar uma empatia com quem é mostrado. Bom demais. Pra quem gostou, recomendo Donos da noite, do James Gray. A tragédia também está ao redor todo o tempo.
Acho interessante a ideia de mostrar uma jovem como a protagonista de uma história de exilados. Ela não sabe muito bem o que se passa ali, apesar de ter uma noção do que pode e não pode ser feito, ao mesmo tempo que não quer deixar de ter uma vida de uma adolescente normal, tudo isso unido, é claro, a hormônios que não a deixam raciocinar direito. O Petzold faz aqui o que já fez em Barbara, por exemplo, de focar no indivíduo ao invés de dar um contexto mais amplo do que se passa. Em Barbara, ao contrário daqui, vejo como uma péssima escolha, basicamente porque lá ele não tem a coragem de dizer que a refugiada em questão estava presa em um campo de concentração destinado a nazistas. Mas aqui isso não vem ao caso. Por outro lado, vejo que o filme peca ao mostrar um pouco mais sobre como esta protagonista pensa e se porta. Adolescentes acabam caindo, em vários filmes, num problema de representação: Ou eles agem como gênios maduros, ou acabam sendo um pouco ingênuos demais. Aqui, Jeanne toma atitudes que sabe que não pode tomar, agindo não de maneira imatura, mas de modo burro. Acho que isso perde um pouco o desenvolvimento da personagem.
Pra citar um melhor exemplo de personagem infantil/juvenil, vejo que Chihiro consegue um desenvolvimento muito digno.
Eu não sei porque ainda vejo coisas que envolvem o Mike Flanagan. Chega uma hora que ele simplesmente larga mão de tentar fazer um documentário fake e parte pra uma narrativa mais tradicional. Mais pra frente ele acaba desistindo da história toda e só joga alguém pela janela numa história meio A Profecia que não faz sentido nenhum. Pelo amor de Deus sabe. Vejo que um filme como A Visita usa melhor uma estética de filmagem amadora do que esse faz com o documentário falso, por exemplo. Sabe explorar melhor casas e todo o resto do gênero de terror.
A máfia aqui não é vangloriada ou romantizada como algo que deixa os homens mais prósperos ou másculos. Eles se tornam mais burros, isso sim. O filme cria belíssimas imagens, critica o capitalismo, dá uma mostrada no modo que os imigrantes chegam aos EUA sem muita opção e por isso seguem para caminhos tortuosos, e, claro, critica Fidel Castro do jeito mais vazio possível. Vejo que não é um dos melhores do De Palma. Falta um pouco o que sobra em outros filmes dele, que é o descaramento, a ausência do medo de passar vergonha. Os Intocáveis é muito mais solto na hora de criar uma narrativa de máfia, por exemplo;
Aruanda
4.1 30Apesar de ser interessante como se mostra o trabalho das pessoas ali, eu vejo que essa narração dá muito o tom do que deve ser pensado sobre o que acontece.
Isso, por si só, já não me agrada, porque as pessoas não podem falar por si, as imagens tampouco.
Agora, falar de uma população negra que buscou uma vida fora das cidades (das quais esta população foi excluída), e dizer que a vivência que se possui neste modo alternativo de vida é primitiva e atrasa, aí já é demais, pobreza narrativa. Ar de superioridade terrível.
Vejo que a Agnes Varda, por exemplo, sempre usou muito melhor da narração em seus documentários. Os panteras negra é um grande expoente.
A Entrevista
3.9 9 Assista AgoraHá algo que beira o farsesco nesse filme, principalmente quando se decide deixar claro que todas as mulheres expostas ali são da mesma classe social, e evidenciando o eterno verão que é a vida delas. Um certo contraponto ao próprio cinema novo, que normalmente não se privava de mostrar pessoas pobres de modo tão ampliador de suas misérias. Deste modo, vejo que A Entrevista quer se colocar no seu lugar, dizer "estamos aqui, falando destas mulheres, sob este ponto de vista".
Vejo que essa delimitação é importante, principalmente num filme de 20 minutos.
É bom também ver como as mulheres aqui possuem algo a dizer entre elas. O cinema novo sempre se notou por ter homens ricos fazendo filmes sobre homens pobres, com representações femininas muito aquém, como a Helena Ignez sendo totalmente castrada na sua atuação em O padre e a moça. Aqui, por outro lado, vemos mulheres de uma classe social sendo mostradas por uma mulher do mesmo círculo: elas falam sobre virgindade, sobre casamento, o papel da mulher na sociedade, o papel de homens na vida das mulheres.
Gosto de como o final contrasta com a voz de quem fala. As personagens continuam sendo mostradas, porém caladas pelo que dizem os militares.
Pra quem gostou, recomendo A mulher de todos. Helena Ignez no auge.
Ilha das Flores
4.5 1,0KNa minha cabeça, o filme era mais caricato. Só me lembro de ter visto na escola, há mais de 15 anos.
Apesar de eu ser contra o cinismo, gosto de como algumas narrativas irônicas, principalmente no cinema. Acho que aqui a Crítica Social Fuderosa se disfarça bem por trás da ironia. Gosto também de como cada imagem adquire seu significado e, em frações de segundos, quando ditas novamente, elas nos tiram um sorrisinho.
Em contraponto a esse (um curta verborrágico), recomendo Alma no olho, sem palavras
Alma no Olho
4.4 24A maneira como o corpo é mostrado desde a origem até o momento em que se é acorrentado é muito envolvente. Após o acorrentamento, vem tudo o que sabemos, porém retratado com pouquíssimos elementos. As correntes tentam ser escondidas, mas no fundo não há como. Não há futebol, livros, roupas, chapéus ou esmolas que as eliminem.
O final curiosamente é esperançoso, não decide ir pra um caminho melancólico. Filmaço.
A maneira como mostra o corpo me lembrou um pouco Barravento.
A Velha a Fiar
4.2 71É engraçado ver que esse conceito de videoclipe se estende pra hoje. Não só como uma narrativa que usa de diferentes formas de trazer imagens: stopmotion, edição frenética, narração acelerada, etc. Mas também com a camada de certo experimentalismo ao qual os clipes normalmente se permitem. Me lembrou o clipe de Everlong, que era meu favorito quando eu era adolescente.
Z: A Cidade Perdida
3.4 323 Assista AgoraÉ legal ver um filme que é um épico recente, coisa que me parece rara.
A epicidade vai pra além de só contar das expedições vez ou outra, mas sim trazendo todas como se fossem um grande recomeço de algo árduo. Há também as tramas políticas na qual Percy está envolvido e, claro, a guerra. Contar uma história assim de modo tão grandioso só é possível levando-se a sério tudo o que se passa, coisa que o James Gray sempre consegue, sem o menor cinismo. Entre todos os filmes que vi dele, nenhum tem uma risadinha piscando pra câmera, ao mesmo tempo que não tenta fugir de momentos de possível fantasia. Outra combinação rara em filmes recentes.
A selva é mostrada como um local hostil e fascinante, porém destaco o papel que o rio tem aqui. Os barcos que os viajam se parecem com naves espaciais olhando para outros mundos que aparecem ao longo da margem. Esse elemento que transforma vários filmes em road movies aquáticos parece longe do esgotamento e sempre traz um encanto a mais. Apocalypse now, O último azul, O abraço da serpente, todos nos encantam no deslizamento sobre as águas, como se aquele transporte fosse um meio de nos levar para um mundo que deixa de ser real, trazendo histórias que, quando contadas, sempre parecem mentira, delírio.
Acho que vale falar também sobre como o cinema do James Gray mudou e, apesar de eu gostar bastante de Ad Astra, Era uma vez em Nova York e de Z, é estranho ver como estes diretores do cinema americano (sejam eles americanos ou não) vão para um caminho de filmes de maior orçamento e as tramas mais simples deixam de ser exploradas por eles. Talvez os filmes do Gray ficassem uma porcaria se ele passasse a vida inteira filmando o Joaquin Phoenix sad boy na periferia de Nova York? Talvez. Mas eu acho que ainda dava pra tirar alguma coisa dali. Ele parou de fazer estes filmes justamente depois de Os donos da noite e Os amantes, seu auge até então. Não que eu veja que todos os diretores devessem ficar em filmes de baixo orçamento a vida inteira, mas é curioso ver que quase nenhum realizador volta a eles, mesmo que apenas uma vez. O prêmio de quem é abraçado pelo prestígio é sempre seguir para filmes de época megalomaníacos, grandes histórias de guerra ou projetos gigantescos de ficção científica. Tarantino não voltou desse caminho, Nolan também não, nem a Bigelow, nem o Villeneuve. Vamos ver se o Gray volta agora em Paper Tiger.
Aqui vale indicar O abraço da serpente, para temos um olhar mais próximo do que um indígena tem da amazônia. Também gosto de pensar em Roma, do Cuaron, que talve seja o único ou um dos únicos diretores que foram para estes filmes gigantes que comentei, mas que pelo menos ensaiou uma volta.
A Última Gargalhada
4.2 108 Assista AgoraTudo bem que o filme é importante pra mostrar como se contar uma história apenas por imagens há mais de cem anos. Tudo bem que o Murnau era foda, mas ô historinha besta.
Ganga Bruta, por exemplo, também consegue se expressar muito bem, mesmo que (quase) sem palavras e o Humberto Mauro também era foda.
Ladrões de Bicicleta
4.4 547 Assista AgoraEu entendo perfeitamente a importância desse filme, mas me desagrada muito a maneira como os personagens são humilhados.
O próprio cinema novo foi muito questionado devido a como os mais pobres eram mostrados com certa condescendência - muito inspirados pelos filmes italianos, claro - porém vejo que os principais expoentes do movimento não cometiam um erro que é aqui cometido, que é o da falta de potência dos personagens.
Sim, tenta-se dizer que todos ali são oprimidos pelo capitalismo, pela pobreza, pelo mundo ou o que quer que seja, mas mostrar que o personagem é incapaz até mesmo de retribuir a violência que sofre me soa um pouco humilhante. É quase como dizer "esses pobres nem pra roubar prestam".
Acho que Deus e o Diabo na Terra do Sol fala muito melhor sobre como a violência é a consequência da miséria. Há um momento em que um assassino diz "Matei porque não posso viver descansado com essa miséria", e isso pra mim resume como pode-se mostrar quem alguém é vítima da vida que vive, ao mesmo tempo em que possui força para tentar atacar de volta, mesmo que de maneira ineficaz e apenas contribuindo para a deterioração da realidade.
Vingança
3.2 33O gênero de máfia é deixado um pouco de lado para que o filme se aproxime mais de uma história de vingança. Só que essa tal história de vingança não engaja muito. A ação é até bem construída, mas os personagens são pouco explorados.
Há um momento em que um personagem se questiona para que serve a vingança se você não se lembra de nada, e realmente os problemas de memória do protagonista traz à pauta a ideia de que vingança muitas vezes serve mais para delimitar territórios do que para propriamente honrar quem foi injustiçado.
Nada além disso, porém.
Se é pra falar sobre memória em filmes de crimes, vejo que a terceira temporada de True Detective age muito melhor.
Metrópolis
4.4 657 Assista AgoraEsse filme pode muito bem ser imaginado sem nenhuma palavra. Sem cartelas, sem título, sem nada. E a história seria muito bem contada. Todo o modo que se mostra a cidade superior e a inferior, a Torre de Babel, o robô, tudo grita para nós e nos joga nesse mundo silencioso ao mesmo tempo que é muito barulhento.
Vale o destaque para quando a robô se torna humana, que é uma cena que, se feita hoje, ainda seria muito impactante.
Tudo o que se fala sobre Um corpo que cai também está aqui: O sobrenatural feminino de uma mulher que é sacerdotisa. O duplo. O olhar masculino sobre uma mulher robotizada pelos homens criadas.
Tudo isto posto, não dá pra negar que, se um filme termina com uma frase de efeito, a intenção é que aquela seja a mensagem que este filme quer passar. Não há como desvencilhar essa mensagem do filme. E essa tal moral da história é extremamente desmobilizadora. Ela vai contra todo o ideal de classe que a Maria e o Freder possuíam. Toda essa mobilização que eles tinham foi boicotada pelo cientista, sim, porém o Joh também tentava articular este boicote. Então existe uma estrutura opressora muito bem construída visualmente, sem a necessidade de palavras, esta estrutura é colocada em xeque por personagens muito bem desenvolvidos, com suas contradições e fraquezas, o principal beneficiado pela opressão e um quase aliado tentam desarticular uma resposta a essa opressão, mas ao final nos é dito que tudo bem, todos devem se aliar, não tem um certo e um errado, a cabeça e o coração devem andar juntos.
Vejo que O gabinete do doutor Caligari é muito mais interessante. Ele também possui mensagens reacionárias, porém deixa certa margem de interpretação, ao contrário de Metrópolis.
O Rei de Nova York
3.7 94Eu gosto de como o Abel Ferrara consegue transformar estes homens da máfia, estes homens ruins, em personagens por quem nós consigamos empatizar, mas sem que exista uma glorificação deles - ao contrário do Scorsese
Também gosto do fim que se dá a eles sem que soe como uma punição, algo que o Michael Mann faz muito, por exemplo - punir os personagens, no caso.
O glamour na vida de quem está aqui é puramente visual. A cena da festa que se faz no galpão é encantadora, ao mesmo tempo que todos são extremamente melancólicos.
Sobre melancolia e máfia, recomendo Os Donos da Noite, do James Gray.
A Cela
3.2 403 Assista AgoraEu gosto do filme não ter medo de mostrar as cenas de sonho com tudo o que elas têm a oferecer: cores, objetos grandiosos, pessoas vestidas de modo extravagante, cenas que não fazem muito sentido, etc. Este mundo dos sonhos realmente contrasta com o mundo real. Não há uma racionalidade nele.
Os personagens e o desenvolvimento da história não são lá essas coisas, mas vejo como uma experiência válida.
Pra quem gostou, recomendo Paprika. Sonhos sem medo.
Vestido de Noiva
4.1 6Faltou delírio. Não sei se foi o formato meio nem lá nem cá entre cinema, TV e teatro.
O beijo no asfalto supre esse vão de caos.
Peões
4.1 57Dos anos 60 pra cá, vejo que há outros dois filmes que dialogam muito bem com Peões: Cabra marcado para morrer e ABC da greve.
O primeiro mostra como as ligas camponesas foram destruídas pela ditadura, enquanto o segundo explora o que estas pessoas, que saíram do campo para fugir da miséria, conseguiram fazer lutando em conjunto.
O terceiro capítulo desta história, claro, é Peões: Chegou o momento em que um operário se tornou presidente da república. Como chegamos aqui?
A fórmula do Coutinho responde primorosamente todas as questões colocadas, como sempre. Alguns se arrependem de terem passado pouco tempo com os filhos, outros contam histórias que claramente não são verdadeiras, enquanto outros não desejam a ninguém que se passe pelo que se passou. O otimismo vigora entre todos.
O Hirszman e o Coutinho já morreram, então nunca saberemos quem eles entrevistariam em 2026 para seguir essa narrativa. Depois do fim das ligas camponesas, da luta dos que migraram para as cidades, de um operário se tornar presidente, o que se tornou o Brasil? Qual foi a reação a estes avanços? O que as pessoas pensam disso? Que história agora é contada frente a uma câmera sentado num sofá de casa?
Pra quem gostou, recomendo O ABC da greve.
Go Go Tales
3.5 12Soa fácil criar uma narrativa de equívocos, vícios, mentiras e terminar com certa punição ao personagem. Os Safdie estão fazendo isso há mais de uma década.
Go go tales vai no rumo contrário: Ray é jogado para baixo e depois é arremeçado para cima. Há um triunfo quando não havia nenhuma outra esperança. Quando as pessoas ao seu redor (que o amavam) já haviam cansado de fechar os olhos para a materialidade.
É cada noite maluca que a gente vive: não dá pra ver muito bem os rostos, as madrugadas parecem longas, com cantorias malucas, brigas que não sabemos bem onde começam e terminam. Tudo isso envolvendo um personagem que ama estar ali. Ele não consegue deixar de sorrir quando vê que a noite seguinte será igual.
Que delícia o cinema do Ferrara.
Pra quem gostou, recomendo O Vício. Outra noite do Ferrara.
O Vício
3.8 70 Assista AgoraEu não conhecia o Abel Ferrara até pouco tempo atrás e a cada filme que vejo dele eu me divirto mais.
Acho muito interessante como vampiros aqui são simplesmente viciados niilistas metidos a intelectuais.
Assim como na vida real existe um glamour destas pessoas (vampiros e viciados niilistas metidos a intelectuais), aqui também há, porém é um brilho vazio. Ao final das noites nós vemos que tudo o que existia de mais interessante se torna apenas restos.
Não dá pra se livrar facilmente dessa vida. Nem com sol nem com reza.
Pra quem gostou, recomendo Drácula de Bram Stoker, o melhor filme de vampiros de todos, que fala de desejo ao invés de vícios.
Os 7 Gatinhos
3.2 180O delírio do Nelson Rodrigues não me pareceu plenamente atingido, apesar dele estar envolvido na produção.
A tragédia do ambiente se desenvolve bem, mas o final não parece muito integrado entre si, falando das duas mortes.
O patriarca da família realmente é o mal primário e ele é pior que todos os outros homens, mas não é nem de longe a melhor adaptação que já vi do Nelson. Toda nudez será castigada, por exemplo, é muito melhor em todos os sentidos.
Notícias de Casa
4.1 35 Assista AgoraAs cenas mostradas sempre envolvem meios de transporte. É tudo transitório num nível além de falarmos de "não lugares". Não são mostrados bares, restaurantes, parques, shows, arenas esportivas, lares, consultórios, hospitais, reuniões.
O que vemos é basicamente lugares por onde as pessoas passam apenas por instantes.
É até interessante vermos como isso contrasta com o que a mãe fala sobre a vida da filha: ela diz "que bom que você está trabalhando e fazendo amigos" e nós não vemos o menor indício destes fatos.
Não necessariamente os dias são corridos, mas tudo é passageiro. Não há interação entre ninguém.
Para além do que vemos, pensando no que ouvimos, a mãe fala sobre o que a Chantal falou a carreira inteira: não há nada que acontece de tão impressionante na vida. As notícias de casa são cada vez mais banais. O filme parece quase uma resposta aos pedidos da mãe para que a filha escreva: nada acontece. Ela está pra lá e pra cá, as ruas são todas iguais, as pessoas do metrô nem se olham. O que mais dá pra dizer?
A ida de alguém pra longe é quase uma morte. Não dá pra ficar demandando respostas.
Sobre nada acontecer: recomendo Hotel Monterey.
O Drama
3.8 184O título do filme talvez dê força para o que mais tem destaque durante a narrativa, que é o drama que Charlie faz durante todo o tempo.
E eu entendo bem a intenção de usar de gatilho uma história que foi planejada por Emma, que é grave, porém não se concretizou. Por outro lado, confesso que não me pegou muito não. Tentando entender a razão, cheguei à conclusão que isso acontece basicamente porque a personagem da Emma é muito melhor que o Charlie e a tonha lá que fica resmungando o tempo todo. Os motivos pra ela pensar em fazer o que faria são muito expostos. Uma reversão na rota é apresentada. Nós entendemos tudo. E aí, o que sobra ao protagonista? Talvez seu próprio carisma, que não é muito.
Vejo também um uso um pouco repetitivo de imagens da paranoia dele. Imagens pouco criativas depois de um tempo, que não nos fazem mais rir depois da terceira ou quarta aparição.
Além dos pontos citados acima, o desconforto é um trunfo muito mal usado. Usando um exemplo: a colega de trabalho do Charlie fala de seu marido como alguém forte e que pode ser violento. Assim que nós o vemos, essa imagem está posta em nossa mente, nada mais precisa ser dito. Charlie então faz um discurso para inflamar o que ainda não queimou, porém no momento em que teríamos o prato principal do constrangimento, a cena é cortada. De novo, o que resta? Um final em clima de romance trazendo uma emotividade que sequer foi apresentada anteriormente.
A Zendaya aqui, vale destacar, mais uma vez é uma atriz mal utilizada. Ela tem sempre muita potência em sua presença, mesmo quando não fala. Ela não precisa gritar para ser a principal personagem mesmo quando não protagoniza seus filmes. E essa força da natureza que ela é possui aqui muitos maus-tratos de personagens aquém dela. Não dá pra comprar esse drama do Robert Pattinson, da Haim ou da DJ que usa heroína.
Com isso, entendo que o filme se esvazia pouco a pouco de seus bons elementos, ao contrário do que o próprio Kristoffer Borgli faz em Doente de mim mesma.
Olhos de Serpente
3.2 142 Assista AgoraO De Palma cansa um pouco de usar os mesmos elementos sempre. Não sei nem se são elementos do cinema noir, mas é sempre uma investigação que envolve alguém meio que por acaso. Não vejo, porém, uma tendência dele usar não policiais na investigação, ao contrário dos filmes noir. Outro elemento do qual ele não enjoa são as loiras, mas isso é outro assunto.
E a forma como tudo escala de algo muito pequeno pra uma conspiração gigantesca é uma delícia, sempre. Esse filme começa com um plano-sequência um pouco frenético em que temos que tentar prestar atenção a tudo, algo que é muito explorado depois, já que o protagonista tenta o tempo todo se lembrar do que aconteceu em meio ao caos de alguns instantes.
Em relação a relembrar o que passou e utilizar as imagens das câmeras - sejam de segurança ou da TV - para chegar a alguma conclusão, vejo que há uma tentativa de se estabelecer um diálogo com Blow-up, e aqui vale destacar como penso que, quando tenta referenciar muito diretamente e literalmente outras obras, o De Palma acaba dando uma pecada.
Explicando de outro modo: tem um texto da Linda Hutcheon sobre adaptações em que ela fala "a adaptação pode ser descrita do seguinte modo: Uma transposição declarada de uma ou mais obras reconhecíveis; um ato criativo e interpretativo de apropriação ou recuperação; ou um
engajamento intertextual extensivo com a obra adaptada. Assim, a adaptação é uma derivação que não é derivativa, uma segunda obra que não é secundária".
Eu vejo que, em filmes como Dublê de corpo e Blow-out, o De Palma acaba criando adaptações que são secundárias frente às obras originais. São obras que praticamente não fazem sentido sem Janela Indiscreta/Um corpo que cai e Blow-up, respectivamente. A meu ver, Olhos de serpente consegue fugir disso.
A busca por uma imagem que possa trazer luz ao mistério é claramente um engajamento intertextual extensivo com Blow-up, porém sem perder seu próprio caminho.
Além dos novos fatos trazidos pelas tais imagens, há também novas verdades trazidas por cada pessoa. Cada um que fala sua versão é embasado pelo que é mostrado em tela, sem contradições com suas falas, sempre levantando mais dúvidas do que certezas sobre qual imagem é real, nos levando a repensar também o que vimos desde o início.
Há um abuso de certas coincidências, mas vejo que há permissão para isso em um filme que tem Nicolas Cage todo arrebentado falando "snake eyes". Que delícia.
Pra quem gostou, recomendo o tal do Blow-up.
Os Chefões
3.7 39 Assista AgoraO final basicamente tenta interromper o ciclo destrutivo que reina aqui.
As mulheres obviamente não morrem porque não são ativas neste ciclo, ao contrário dos homens, que sempre estão extremamente angustiados e conviveram com a violência desde a infância. A destruição é tudo o que eles conhecem e engloba tudo o que existe em suas vidas. Chez possui apenas relações destrutivas, Johnny é engajado políticamente e a força é sua maior alma nessa luta, enquanto Ray o tempo todo se vê como o menino que foi obrigado a matar alguém.
Essa obrigatoriedade do Ray com a morte vale um destaque, porque sempre nos vemos indo e voltando no tempo e através de seus olhos temos a certeza de que ele ainda é a mesma pessoa que precisa matar, é seu dever. Ele foi obrigado enquanto uma criança, assim como não pode deixar que Gaspar sobreviva depois de tudo o que aconteceu, bem como também deve matar o assassino de seu irmão, que não lhe deixa outra escolha. Ray, na verdade, mata por medo. Medo de ser morto ao invés de suas vítimas.
É complexo fazer um filme de máfia sem vangloriar quem é representado, ao mesmo tempo em que consegue-se criar uma empatia com quem é mostrado. Bom demais.
Pra quem gostou, recomendo Donos da noite, do James Gray. A tragédia também está ao redor todo o tempo.
A Segurança Interna
3.5 7 Assista AgoraAcho interessante a ideia de mostrar uma jovem como a protagonista de uma história de exilados. Ela não sabe muito bem o que se passa ali, apesar de ter uma noção do que pode e não pode ser feito, ao mesmo tempo que não quer deixar de ter uma vida de uma adolescente normal, tudo isso unido, é claro, a hormônios que não a deixam raciocinar direito.
O Petzold faz aqui o que já fez em Barbara, por exemplo, de focar no indivíduo ao invés de dar um contexto mais amplo do que se passa. Em Barbara, ao contrário daqui, vejo como uma péssima escolha, basicamente porque lá ele não tem a coragem de dizer que a refugiada em questão estava presa em um campo de concentração destinado a nazistas. Mas aqui isso não vem ao caso.
Por outro lado, vejo que o filme peca ao mostrar um pouco mais sobre como esta protagonista pensa e se porta. Adolescentes acabam caindo, em vários filmes, num problema de representação: Ou eles agem como gênios maduros, ou acabam sendo um pouco ingênuos demais. Aqui, Jeanne toma atitudes que sabe que não pode tomar, agindo não de maneira imatura, mas de modo burro. Acho que isso perde um pouco o desenvolvimento da personagem.
Pra citar um melhor exemplo de personagem infantil/juvenil, vejo que Chihiro consegue um desenvolvimento muito digno.
Terror em Shelby Oaks
2.4 84 Assista AgoraEu não sei porque ainda vejo coisas que envolvem o Mike Flanagan. Chega uma hora que ele simplesmente larga mão de tentar fazer um documentário fake e parte pra uma narrativa mais tradicional. Mais pra frente ele acaba desistindo da história toda e só joga alguém pela janela numa história meio A Profecia que não faz sentido nenhum.
Pelo amor de Deus sabe.
Vejo que um filme como A Visita usa melhor uma estética de filmagem amadora do que esse faz com o documentário falso, por exemplo. Sabe explorar melhor casas e todo o resto do gênero de terror.
Scarface
4.4 1,8K Assista AgoraA máfia aqui não é vangloriada ou romantizada como algo que deixa os homens mais prósperos ou másculos. Eles se tornam mais burros, isso sim.
O filme cria belíssimas imagens, critica o capitalismo, dá uma mostrada no modo que os imigrantes chegam aos EUA sem muita opção e por isso seguem para caminhos tortuosos, e, claro, critica Fidel Castro do jeito mais vazio possível.
Vejo que não é um dos melhores do De Palma. Falta um pouco o que sobra em outros filmes dele, que é o descaramento, a ausência do medo de passar vergonha.
Os Intocáveis é muito mais solto na hora de criar uma narrativa de máfia, por exemplo;