Quando vi a premissa e toda a história por trás do filme, fiquei bastante interessado. Depois de ver, quase defendi o figurão da warner que não queria lançar. Um humor quase infantil, mas que se finge de um pouco mais adulto, lembrando o (terrível) Inspetor Bugiganga. Tenta retratar alguma sátira ao sistema judiciário dos Estados Unidos, mas não engata em momento algum. Os personagens de desenhos aparecem do modo mais genérico possível, tirando o Coyote, que realmente é usado de modo muito criativo na ausência das palavras e no seu humor físico. De resto, ruim à beça. Vejo que A Crônica Francesa, do Wes Anderson, usa animação de modo muito mais criativo.
-Achei que você tivesse ficado com medo. -Você tinha razão. Estou com medo. Será que todos os amantes têm a impressão de estar inventando algo? Eu conheço os gestos. Imaginei tudo enquanto esperava por você. -Você sonhou comigo? -Não. Eu pensei em você.
Revendo um filme que provavelmente é meu favorito, junto com outro, que não vem ao caso.
Vejo que há infinitas coisas pra se falar aqui, mas dá pra se ater a duas, basicamente.
Uma delas é como o filme é sobre uma pessoa pintando a outra, sobre um quadro a ser pintado, e se torna um filme sobre quadros não pintados. Sobre histórias não contadas. Tudo que a gente vê nesse filme poderia ser um quadro, é feito como se fosse pra ser uma pintura. Há então vários momentos em que Marianne apenas vê Heloise. Depois de muito ver, ela nunca a pinta da maneira que a vê, é sempre algo mais contido, como a própria Heloise deixa claro ao dizer que o primeiro retrato não era próximo da realidade tampouco próximo de quem o realizou. Então tudo o que acontece ali pode ser contado, pintado, mas no final não é. Porque na verdade não se pode. E Heloise não é um sujeito passivo a isso, apesar de ser o "objeto" do retrato. Ela inclusive quer que o aborto que ela presenciou seja retratado, ela quer registrar e se lembrar daquilo, quer esta história sendo contada.
E o segundo ponto de destaque do filme, que é meio batido, é o olhar. Marianne o tempo todo tem que olhar para Heloise para pintá-la, tentando captar tudo o que existe nessa pessoa, decifrar a outra através da observação. Novamente, Heloise não é passiva a isso. Ela, inclusive, fala a Marianne: por que você acha que só você tá me olhando? Veja onde eu estou, nós estamos no mesmo local. Eu também estou olhando diretamente para você. Posteriormente, é a própria Heloise que decide agir igual a Eurídice. Elas não possuem escolhas. Não é aquele último olhar que acabou com a história das duas, tampouco com a de Eurídice. Aquele olhar é apenas uma ausência de arrependimento, é a presença da lembrança, é a vulnerabilidade de se permitir ser visto, é o momento em que Marianne deixa escapar o fato de que é uma pintora justamente por estar vulnerável, é a primeira vez que Heloise escuta uma música que não é sacra, é a liberdade de se andar sozinha e entrar no mar pela primeira vez. Conforme falei da primeira vez que assisti, eu discordo de Marianne: Heloise olhou para ela diante da orquestra, olhar para a música era olhar pra ela afinal.
Há milhões de filmes/diretores que refletem sobre o tempo. O Linklater, por exemplo, fez Boyhood e a trilogia basicamente para tentar mensurar o efeito do tempo sobre as pessoas e relações. Tem também outras obras, como Primavera, verão, outono, inverno e... Primavera, que falam sobre um aspecto específico da vida no tempo. Nesse caso, sobre como tudo é cíclico e como retornamos para onde viemos. E entre todos os diretores que falam sobre o tempo, acho que o Kiarostami e a Chantal Akerman são os que mais trazem uma proposta não necessariamente de reflexão ou de dissertação, mas de meditação acerca do tempo. A Chantal segue muito a linha de esticarmos o tempo ao máximo, mostrar coisas muito próximas a nada acontecendo. Então quando vamos ver a filmografia dela vamos encontrar longuíssimos momentos em que vemos ruas sem rosto algum, hotéis vazios e, principalmente, uma mulher cortando legumes. O nada e o ninguém estão lá, tomando o nosso tempo. Não me parece nem chegar a ser contemplativo porque, afinal, o que estamos contemplando? O Kiarostami, principalmente em O vento nos levará, também gosta de trazer este tempo esticado, porém de um jeito mais aberto e menos vazio. E aqui falo "vazio" não com o objetivo de esvaziar a obra da Chantal, mas mais como um adjetivo pra falar que as cenas dela muitas vezes não tem ninguém. O Kiarostami traz sim seus personagens, diálogos, histórias, porém estas pessoas não são ninguém frente ao tempo. Aqui, um homem chega a um local claramente esperando uma morte eminente. Morte que simplesmente não acontece. E enquanto a esperamos, o tempo passa. Não vemos exatamente o dia virar noite nem tantas mudanças conforme as semanas avançam, ao mesmo tempo que vemos. Explico-me melhor: todo dia parece igual, mas o tempo vai passando e vemos como o ambiente traz essa passagem. Animais andam pra lá e pra cá, alguém que começou a cavar um buraco agora está tão fundo que precisa ser resgatado, crianças nascem, tartarugas se viram, um médico vai pra lá e pra cá filosofando em cima da sua motinha, ordenhas subterrâneas feitas por uma moça que não mostra seu rosto. E o que mais? O que mais existe nesse filme? Talvez nada. Talvez apenas imagens abertas da paisagem montanhosa e pouco arborizada do interior iraniano. Resta contemplar. Assistir sentindo que o tempo passou e, por mais que tenha parecido arrastado, assim como são os dias, muita coisa se passou, muita coisa indicou essa passagem de tempo. Pra quem gostou, recomendo tudo o que eu gosto do Kiarostami e da Chantal: a trilogia Koker, Close-up, Gosto de cereja, Jeanne Dielman, Hotel Monterey, Notícias de Casa e tudo mais o que pode ser visto.
Gosto de como os visuais são muito bem explorados aqui e de como a história é amarrada ao final, porém acho que se arrasta em alguns momentos, principalmente quando a história está focada no Zé Mayer. Vejo que A dama do Cine Shanghai é um filme muito mais completo do Guilherme de Almeida Prado.
O cinema europeu (dizendo isso apesar de ser um filme que também foi feito na Colômbia) fez muitos filmes de suspense divertidos no começo do século XXI, como esse: consegue criar uma tensão, consegue fazer ter algumas reviravoltas, ir e voltar com a história algumas vezes. Legalzinho demais.
Há alguns pontos muito interessantes desse filme, a meu ver:
Um deles é como o que é dito é sempre muito mostrado. Exemplo: em uma cena, o personagem do James Stewart fala sobre como alguém sentou-se numa cadeira para olhar para a janela, então instantaneamente o plano se abre e podemos ver a tal janela. É tudo muito indicativo, sempre somos direcionados para o que devemos ver.
Outro ponto é atuação do James Stewart. Nessa meiuca de anos 40 até anos 60 poucos fizeram chover tanto quanto ele no cinema mundial. Verborrágico, contraditório, ranzinza, magnético.
Vale a pena também falar um pouco sobre sobre o papel da mulher aqui: há questões que são discutidas ainda hoje que estão nesse filme, como por exemplo o modo que Laura é mostrada como uma mulher que faz o que bem entende o tempo todo, não é uma santa, gosta de sair, é encantadora, dá suas escapadas, porém em momento algum isso é mostrado como uma desculpa para que ela tenha sido vítima do que foi, mesmo quando os promotores tentam seguir essa linha.
Tudo isso sendo possível, claro, apenas com uma grande ausência de pressa. 2h40min ótimos, envolventes, angustiantes, divertidos.
Pra quem gostou, recomendo Glória feita de sangue. Outro bom filme de tribunal, porém que vai pra outro caminho.
Nessa segunda parte da trilogia há um grande valor que também está na primeira: uma história sendo contada enquanto outra coisa maior acontecendo por trás. Aqui, acho interessante também como se desenvolve a questão da grande revelação que existe na vida da protagonista enquanto há uma grande investigação acontecendo. A conclusão de uma leva à da outra. Bem amarrado, gostei.
Pra quem gostou, recomendo Undine. Também tem uma coisa acontecendo enquanto há outra maior por trás.
Tem três caminhos que que eu gostaria de seguir para falar desse filme.
O primeiro é um pouco confuso, talvez: ele me fez pensar sobre o que é fazer comédia pastelão ou comédia que não é pastelão, mais precisamente, no cinema brasileiro. Primeiramente porque pastelão é um conceito, obviamente, muito confuso e não é uma coisa que tá escrita na pedra. Mas, principalmente, vejo também que a comédia brasileira é um pouco calcada em uma comédia pastelão. O Brasil não cresceu vendo os comentários irônicos (e sem a menor graça) do Monty Python ou com alguém parado na frente de uma de uma plateia antes de uma entrevista fazendo piadas com a deixa especial pra plateia rir. O humor brasileiro ele se construiu em cima de humor de personagem, em cima de piada, de certo absurdismo, certa frontalidade. O humor brasileiro é frontal. E a questão é: isso necessariamente é ruim? Eu acho que esse filme vai para um caminho um pouco do pastelão, recorre a certa construção que é muito ligada a essa frontalidade do humor brasileiro. E isso não necessariamente é ruim, é muito engraçado, o filme é muito divertido, feito em um estado que é famoso pela sua comédia e seus comediantes. Acho que que tem seu valor a gente pensar nesse humor um pouquinho frontal, um pouquinho pastelão que constitui a cultura brasileira, ou pelo menos o audiovisual brasileiro. Os Trapalhões que deram muito mais audiência do que qualquer outro grupo de humor por aqui. Isso não é pouca coisa e não vejo de jeito nenhum que Os Trapalhões são menores ou menos relevantes do que Monty Python ou outros grupos de comédia mais discretos ou supostamente elevados, por exemplo.
O segundo ponto que eu acho interessante é talvez o mais óbvio: as reflexões trazidas sobre um filme que é sobre fazer um filme no Brasil. E eu acho que, aqui, o que vai um pouco além do óbvio é trazer realmente muitos dos problemas que envolvem uma gravação. Coisas que a gente nem imagina: o trabalho no vermelho, gente que tem problema e não pode ser substituído, problema de roteiro, problema de locação, barulho, falta de equipe, tudo que for possível e imaginado. Isso talvez já tenha sido abordado por outras obras até famosas do cinema brasileiro. Só que aqui eu acho que tem uma coisa a mais, que se confunde um pouco até com o terceiro ponto que eu acho interessante nesse filme.
O terceiro ponto, no caso, é o legado. Vejo que lida-se muito bem com o legado de um pai que era um cineasta e a filha que quer fazer um filme em homenagem ao pai. E tudo o que esse pai deixou de legado foi basicamente lutar contra as dificuldades que se apresentam quando se faz cinema no Brasil. Então ele traz uma narrativa surreal que ele nunca conseguiu filmar, que mostra a coisa de outro mundo, a surrealidade que é fazer ou querer fazer cinema no Brasil. Não é uma história dele falando sobre pai e filha, ou um grande épico sobre a vida dele. Ele quer falar sobre uma luta espacial, quer falar sobre um policial galático que chega num lugar e que acaba acaba sendo vítima de uma explosão. Falar de tiro, de cinema de gênero. Essa é a surrealidade que é fazer cinema brasileiro, principalmente quando esse cinema brasileiro não é o que se espera: é uma space opera. E todo esse legado é muito respeitado pela filha. Ela não quer falar sobre ele, ela quer continuar sua obra. As vontades que ele tinha eram um retrato do que foi sua vida lutando pra conseguir fazer seus filmes. Seu legado, para o cinema e para sua filha, foi principalmente se permitir sonhar. Apesar disso parecer muito piegas, esse filme mostra como se lida com o legado de alguém, legado esse que é basicamente construir um mundo surreal em um mundo que já é surreal o suficiente. E isso é muito rico. Esse respeito da Madalena pelo pai é trazido nos lindos visuais que ela cria, com a personificação da galáxia que está ali, diferindo em muito da bagunça que ela vê de fora, apesar de ter sim seus momentos coloridos e barulhentos de êxtase e cantoria. O Guto Parente é muito bom em construir esses ambientes um pouco menos pé no chão. Provavelmente o melhor diretor brasileiro em atividade, o mais original. Filmaço. Não é uma carta de amor ao cinema brasileiro, mas é talvez um incentivo ao cinema brasileiro. Fico um pouco inconformado que existe um diretor igual ao Guto, que consegue fazer um filme sobre uma filha lidando com um pai que era um cineasta, que vive um luto ao mesmo tempo que tenta seguir seu legado, enquanto há uma valorização tão grande de um filme horrível e sem sal quanto Valor Sentimental. Brasileiro que gosta de Valor Sentimental e que não gostar desse aqui já pode entrar na fila das Olimpíadas do Mau Gosto.
Pra quem gostou, recomendo Inferninho, também no Guto: momentos coloridos e barulhentos de êxtase e cantoria.
Os elogios a esse filme são simplesmente inadmissíveis, a meu ver. Eu não entendo essa boa vontade com o David Robert Mitchell apenas por ele tentar referenciar outras histórias ou outros cineastas. Aqui, por exemplo, ele usa o plano dividido várias vezes, sempre em momentos que soam aleatórios em que nem o plano da frente nem o de trás trazem nada a agregar. Também fico muito irritado com as comparações feitas com o De Palma. Pelo amor de deus, ver Hitchcock qualquer um vê, agora quero ver construir histórias envolventes, com personagens contraditórios e cativantes, além de prender a nossa atenção do começo ao fim. Nada disso é feito aqui. Há muito mais valor em Síndrome de Caim, por exemplo. Cabe na Sessão da tarde e nem por isso é horrível igual e esse.
Este filme tem algo que o Petzold consegue fazer como poucos: mostrar personagens questionáveis enquanto protagonistas. Quem tem a história contada ali é muito questionável, muito dúbio, equivocado. Também é legal como ele gosta de contar uma história menor frente a algo maior que ocorre por traz: é como se fosse um grande romance épico de época, mas não é um grande romance nem é épico tampouco é de época, é só uma história cotidiana sobre uma coisa cotidiana e contemporânea. Gosto também da projeção que o protagonista tem sobre a namoradinha dele. A forma como ele fica bravo quando ela repete uma coisa que fez com outro rapaz, ao mesmo tempo em que ele claramente repete várias coisas com ela que ele faz com outra namorada. Um belo exemplo do quão nocivo é um adulto que não sabe falar 'não'. Pra quem gostou, recomendo Afire. Tem um protagonista desprezível.
Os dois crimes/investigações do início parecem não ter muita relação um com o outro e acho que esse já é um charme inicial pro filme: uma história de detetive bem amarrada não é superada por quase nada nesse mundo.
Daí pra frente, aqui tem de tudo: extrema direita higienista, plano de contra ataque que dura mais do que décadas, corpos encontrados em situações esdrúxulas, um mosteiro, uma faculdade no meio do nada, uma gêmea que cortou o próprio dedo quando criança e foi criada nas sombras. O que mais a gente quer?
Pra quem gostou, recomendo A rainha Diaba. Não tem muito a ver, mas meio que tem tudo a ver.
O que é o diabo aqui? O progresso? Alguém que se aproveita do progresso? Ambos? São muitos os filmes do cinema brasileiro dessa época que mostram como o povo fica de um lado pro outro igual a um pião sem conseguir se firmar ou prosperar, mesmo quando a chance brota do chão, e vejo que aqui o sobrenatural é muito bem usado a serviço da história: há Eurídice, um profeta, o diabo, transformações e tudo o que se tem direito.
O sofrimento de todo mundo que está ali é muito evidente, porém trabalhado um pouco à exaustão, creio eu. O narrador também prepara pra algo que nunca vem. Ou até vem, mas aí é um evento mundial que todos nós já conhecemos e que vemos poucos efeitos em tela. Parece aquele romance lá que no final o cara tava no world trade center (não que eu tenha assistido):
ao final nenhuma daquelas vidas importa muito porque a guerra vem aí. Ok, porém onde está a guerra? Onde está a consquência dela?
Por isso, sinto que tem uma certa fetichização da dor. Toda aquela miséria não dá em lugar nenhum. Vejo que "O som da queda" é um filme que consegue retratar toda essa dor, porém chega a alguma lugar. A dor é o meio, não o fim, por mais trágico ou desesperançoso que esse fim seja.
Legal ver que nesse começo de carreira o De Palma já trazia elementos que traria mais pra frente em todos seus filmes. Claro que sempre há muito destaque às referências que ele faz a outros diretores/filmes, mas o que mais me chama a atenção é como ele sempre consegue criar tramas muito enroladas: tudo vai dando meio errado devido a uma coisinha que aconteceu antes e no final sempre tem alguma ponta meio solta que foi propositalmente deixada assim. Além disso, claro, a forma como ele contrói as imagens sempre é muito encantadora. Quebrando a tela em duas, mostrando coisas em dois planos diferentes, ou criando uma tensão gigantesca da qual os personagens não sabem. São mais de 40 anos fazendo filmes que parecem caricatos, não soam como reais e que conseguem mesmo assim prender todo mundo que vê. Não é fácil. Muita gente tenta até hoje e não consegue. Pra quem gostou, recomendo Ilha dos prazeres proibidos, do Reichenbach, também é caricato, não soa como real e consegue prender a atenção como poucos.
Meus parabéns pra esse filme que conseguiu me fazer falar mal de traduções de título para o português, coisa que nunca faço, mas pelo amor de Deus, isso aqui é claramente um jornas querendo exaltar a curiosidade da própria profissão. Deixando este ponto de lado, o personagem perdido, querendo viver outra vida, logo nos conquista. Do que ele quer fugir? Do tédio, da esposa, da vida em si? Talvez nem ele saiba. As paisagens são lindamente mostradas junto com sua ausência de arrependimento. A movimentação de câmera tem seu ápice já ao final, quando não sabemos o que acontece dentro do quarto, apenas temos indícios de certas reações de fora do quarto e pequenos ruídos dentro dele. O tédio faz a gente se enfiar em cada coisa estranha. Me lembrou Close Up, do Kiarostami, com alguém fingindo viver outra vida.
Um épico do homem contra a natureza sempre parece uma boa ideia. Talvez este seja o pai de filmes com essa temática. É maluquice pura, principalmente porque vemos que o adversário dele não é a selva e sim a própria insanidade. O filme acaba sendo uma metáfora de si próprio, porque temos um estrangeiro chegando na América pra levar tudo o que há aqui, matar e escravizar indígenas, desmatar o quanto julga necessário e tudo mais. Coisa que o próprio Herzog fez, trocando apenas borracha pelo próprio filme. Complexo, sem dúvidas. A cena final é muito divertida. A coroa do delírio. Uma ópera na selva, que onda. Pena que não morreu antes. Pra quem gostou, recomendo O último azul. Outro road movie na água, muito mais sossegado.
Filminho noir que dá vontade de ver outros filminhos noir, coisa boa. Pra quem gostou, recomendo Rebecca, do Hitchcock. Filmes nos quais a pessoa que inspira o nome do filme não aparece desde o começo.
Assisti a esse aqui quase seguido ao Bang Bang e entendo que a experimentalidade do Tonacci funciona melhor aqui do que lá. A história parece até forçada demais pra ser verdade, e mesmo assim existe a impressão de que ela é a vida de muitas outras pessoas. Sobre o que foi construído o Brasil? Quantos Carapirús ainda estão por aí? Pra quem gostou, recomendo O Abraço da Serpente.
Eu gostei da atmosfera de terror e da inquietude que o personagem maluco do maluco do Vincent Gallo tem o tempo todo. Também é legal o rumo que a história toma ao final, mas acho que nada além disso. Vejo que O Vício, do Ferrara, fala muito melhor sobre o que esse filme quer falar.
O tempo passa, eu vejo mais filmes, e acho que na verdade eu gosto do Sganzerla, mas não gosto de cinema marginal. Não que eu não veja valor nos momentos em que os diálogos param e vemos apenas momentos que claramente o Tonacci queria gravar pra colocar ali no meio: Uma perseguição na estrada, cenas de dança soltas, mágicas de troca de corpo/lugar possibilitadas pela edição. Tudo isso é muito divertido e bem filmado, claro. Mas acho que falta certa coesão, mesmo em meio à experimentalidade presente. O Sganzerla conseguia, pelo menos. Vejo que Sem Essa, Aranha consegue colocar muito mais loucura, porém mantém tudo mais amarrado também.
Talvez eu já tenha visto algum filme que carrega o nome de alguém que não é mostrado, mas não me lembro de algum com tamanho impacto. Rebecca está ali. O momento em que a morte dela é descrita pelo marido e a câmera aponta para onde ela estava em cada ação narrada, enquanto suas palavras são trazidas pela boca de outros, é o auge de sua presença. Queria dizer também que vi na Secretaria de Cultura de São Caetano do Sul e que esqueceram de colocar a legenda, então caso eu tenha perdido algo, foi por isso. Pra quem gostou, recomendo Laura, de 1944.
Dá pra começar pensando em como os segredos de uma criança parecem ser muito pequenos, mas que podem sim ser muito grandes. O luto, a infância, a vida em família e tudo no mundo pode ser muito custoso a uma criança. É necessário buscar refúgio em algum lugar. Não que seja muito mais fácil para os adultos que ali estão, muito pelo contrário.
Aliás, os adultos e a família como um todo me lembrou, a princípio, Marte Um. Não que as famílias tenham alguma semelhança tão notável, além de serem famílias negras e mineiras. Mas me soou como um drama que acompanharia os dilemas familiares existentes de modo lento, sem muitas reviravoltas, algo que me agrada muito em Marte Um. Porém gosto como aqui todo o desenrolar da vida familiar resulta no grande segredo que todos possuem. Somos apresentados a uma família que não é disfuncional, longe disso, mas que está meio atrapalhada, meio confusa após a morte de uma pessoa muito querida. A forma como cada um lida com essa dor é até um pouco escondida. A gente se esquece do luto, depois nos lembramos, depois ele é deixado de lado novamente. Parece até a vida real
Ao final, é legal como o único legado deixado pelo pai é o que ele poderia contribuir mesmo: uma lista de compras pra uma obra, que é justamente o que soluciona todo o problema que surgiu. Acho que é o que a gente deixa mesmo.
Vale destacar dois aspectos muito ricos aqui também. O primeiro é como é construído o momento em que todos descobrem o que está se passando ali. Cada um volta mais desolado que o outro. Até que chega o momento em que o irmão mais velho praticamente protagoniza um filme de terror abrindo as portas e pisando no barro até quase morrer do coração.
O segundo é a construção da casa. O cinema brasileiro é muito bom em construir lares, historicamente. A gente pode falar do Khouri em suas casas de campo sinistras em Amor Voraz, As filhas do fogo, O anjo da noite, Estranho encontro, O desejo. Da Anna Muylaert em suas casas de família disfuncionais em Que horas ela volta, Além de tudo me deixou mudo o violão, Durval discos, Mãe só há uma. Dos filmes baseados em textos do Nelson Rodrigues em seus lares ruídos por patriarcas em Os sete gatinhos, Toda nudez será castigada, As gêmeas, Beijo no asfalto. E de tantos outros: Edifício Master, Aquarius, Ainda estou aqui, O som ao redor, O Novelo, Carvão, Ela e Eu, Marte Um, Dois Córregos, Cidade Campo, Excitação, Os enforcados, São Bernardo, Dona Flor e seus dois maridos, Malu, Gravidade, A praia do fim do mundo, etc.
Nosso Segredo entra nesta longa lista. Dá pra falar sobre vários aspectos do funcionamento da casa aqui e de como ela é construída, mas acho que dá pra ficar num ponto específico: a luz branca da cozinha. É difícil falar sobre algo que é essencialmente brasileiro porque isso não existe realmente. Mas em um momento em que existe quase que um lobby anti luz fria a gente olha pra essa casa com as lâmpadas acesas e se lembra de tantas casas em que vivemos e frequentamos.
Coisa linda meu deus. Pra quem gostou, recomendo Gravidade, do Leo Tabosa, que também fala de uma casa meio atrapalhada.
Há algumas comparações que podem ser feitas entre esse filme e Vício Frenético, a principal é como o Harvey Keitel interpreta homens muito destrutivos em ambos.
A principal diferença, claro, é onde atuam estes personagens. Um é um policial corrupto e o outro é um diretor. Esta distinta função de ambos não impede que o diretor seja nocivo a todos ao seu redor. A princípio nós até o vemos como alguém que não quer ser mau com seus atores e família, porém descobrimos o impacto de seus atos com o passar do tempo. A relação entre seu elenco parece ser o principal problema, mas enxergamos que é ele quem mais os manipula. Sua esposa não pode contar com ele nem no pior momento de sua vida.
Ao final, toda essa destruição do protagonista é voltada para si mesmo, e ele tem o fim natural dos personagens do Ferrara, que é uma morte trágica e amargurada. Vejo, porém, que aqui há uma distinção grande: Eddie é muito parecido com o próprio Ferrara. A morte de Sarah (no filme dentro do filme) soa como a morte do próprio Eddie. Então quem Ferrara estava matando quando seus personagens morriam nos anos 90? Em quem seus mafiosos eram inspirados? Algum deles, com todos os crimes cometidos, era tão nocivo aos outros ao seu redor quanto Abel Ferrara era na vida real? Ele próprio parece dizer que não.
Vejo que em Napoli, Napoli, Napoli o Abel está um pouco mais otimista, mais compadecido.
Ver um filme do De Palma é sempre uma coisa agradável. Parece haver muita diversão na galhofa que se passa em tela. Em meio a tudo isso, alguns malabarismos narrativos e estéticos: piadas com sonhos, a câmera se inclinando ao descer escadas, o uso do mesmo ator para papéis diferentes, plot twist, tudo de bom. Pra quem gostou, recomendo meu favorito dele: Olhos de serpente.
Coyote vs. Acme
3.7 96Quando vi a premissa e toda a história por trás do filme, fiquei bastante interessado. Depois de ver, quase defendi o figurão da warner que não queria lançar.
Um humor quase infantil, mas que se finge de um pouco mais adulto, lembrando o (terrível) Inspetor Bugiganga. Tenta retratar alguma sátira ao sistema judiciário dos Estados Unidos, mas não engata em momento algum. Os personagens de desenhos aparecem do modo mais genérico possível, tirando o Coyote, que realmente é usado de modo muito criativo na ausência das palavras e no seu humor físico.
De resto, ruim à beça.
Vejo que A Crônica Francesa, do Wes Anderson, usa animação de modo muito mais criativo.
Retrato de uma Jovem em Chamas
4.4 974 Assista Agora-Achei que você tivesse ficado com medo.
-Você tinha razão. Estou com medo. Será que todos os amantes têm a impressão de estar inventando algo? Eu conheço os gestos. Imaginei tudo enquanto esperava por você.
-Você sonhou comigo?
-Não. Eu pensei em você.
Revendo um filme que provavelmente é meu favorito, junto com outro, que não vem ao caso.
Vejo que há infinitas coisas pra se falar aqui, mas dá pra se ater a duas, basicamente.
Uma delas é como o filme é sobre uma pessoa pintando a outra, sobre um quadro a ser pintado, e se torna um filme sobre quadros não pintados. Sobre histórias não contadas. Tudo que a gente vê nesse filme poderia ser um quadro, é feito como se fosse pra ser uma pintura. Há então vários momentos em que Marianne apenas vê Heloise. Depois de muito ver, ela nunca a pinta da maneira que a vê, é sempre algo mais contido, como a própria Heloise deixa claro ao dizer que o primeiro retrato não era próximo da realidade tampouco próximo de quem o realizou. Então tudo o que acontece ali pode ser contado, pintado, mas no final não é. Porque na verdade não se pode. E Heloise não é um sujeito passivo a isso, apesar de ser o "objeto" do retrato. Ela inclusive quer que o aborto que ela presenciou seja retratado, ela quer registrar e se lembrar daquilo, quer esta história sendo contada.
E o segundo ponto de destaque do filme, que é meio batido, é o olhar. Marianne o tempo todo tem que olhar para Heloise para pintá-la, tentando captar tudo o que existe nessa pessoa, decifrar a outra através da observação. Novamente, Heloise não é passiva a isso. Ela, inclusive, fala a Marianne: por que você acha que só você tá me olhando? Veja onde eu estou, nós estamos no mesmo local. Eu também estou olhando diretamente para você.
Posteriormente, é a própria Heloise que decide agir igual a Eurídice. Elas não possuem escolhas. Não é aquele último olhar que acabou com a história das duas, tampouco com a de Eurídice. Aquele olhar é apenas uma ausência de arrependimento, é a presença da lembrança, é a vulnerabilidade de se permitir ser visto, é o momento em que Marianne deixa escapar o fato de que é uma pintora justamente por estar vulnerável, é a primeira vez que Heloise escuta uma música que não é sacra, é a liberdade de se andar sozinha e entrar no mar pela primeira vez.
Conforme falei da primeira vez que assisti, eu discordo de Marianne: Heloise olhou para ela diante da orquestra, olhar para a música era olhar pra ela afinal.
Não existe nada igual a esse filme
O Ventos nos Levará
3.9 45Há milhões de filmes/diretores que refletem sobre o tempo. O Linklater, por exemplo, fez Boyhood e a trilogia basicamente para tentar mensurar o efeito do tempo sobre as pessoas e relações.
Tem também outras obras, como Primavera, verão, outono, inverno e... Primavera, que falam sobre um aspecto específico da vida no tempo. Nesse caso, sobre como tudo é cíclico e como retornamos para onde viemos.
E entre todos os diretores que falam sobre o tempo, acho que o Kiarostami e a Chantal Akerman são os que mais trazem uma proposta não necessariamente de reflexão ou de dissertação, mas de meditação acerca do tempo.
A Chantal segue muito a linha de esticarmos o tempo ao máximo, mostrar coisas muito próximas a nada acontecendo. Então quando vamos ver a filmografia dela vamos encontrar longuíssimos momentos em que vemos ruas sem rosto algum, hotéis vazios e, principalmente, uma mulher cortando legumes. O nada e o ninguém estão lá, tomando o nosso tempo. Não me parece nem chegar a ser contemplativo porque, afinal, o que estamos contemplando?
O Kiarostami, principalmente em O vento nos levará, também gosta de trazer este tempo esticado, porém de um jeito mais aberto e menos vazio. E aqui falo "vazio" não com o objetivo de esvaziar a obra da Chantal, mas mais como um adjetivo pra falar que as cenas dela muitas vezes não tem ninguém. O Kiarostami traz sim seus personagens, diálogos, histórias, porém estas pessoas não são ninguém frente ao tempo.
Aqui, um homem chega a um local claramente esperando uma morte eminente. Morte que simplesmente não acontece. E enquanto a esperamos, o tempo passa. Não vemos exatamente o dia virar noite nem tantas mudanças conforme as semanas avançam, ao mesmo tempo que vemos.
Explico-me melhor: todo dia parece igual, mas o tempo vai passando e vemos como o ambiente traz essa passagem. Animais andam pra lá e pra cá, alguém que começou a cavar um buraco agora está tão fundo que precisa ser resgatado, crianças nascem, tartarugas se viram, um médico vai pra lá e pra cá filosofando em cima da sua motinha, ordenhas subterrâneas feitas por uma moça que não mostra seu rosto. E o que mais?
O que mais existe nesse filme? Talvez nada. Talvez apenas imagens abertas da paisagem montanhosa e pouco arborizada do interior iraniano. Resta contemplar. Assistir sentindo que o tempo passou e, por mais que tenha parecido arrastado, assim como são os dias, muita coisa se passou, muita coisa indicou essa passagem de tempo.
Pra quem gostou, recomendo tudo o que eu gosto do Kiarostami e da Chantal: a trilogia Koker, Close-up, Gosto de cereja, Jeanne Dielman, Hotel Monterey, Notícias de Casa e tudo mais o que pode ser visto.
Perfume de Gardênia
3.3 28Gosto de como os visuais são muito bem explorados aqui e de como a história é amarrada ao final, porém acho que se arrasta em alguns momentos, principalmente quando a história está focada no Zé Mayer.
Vejo que A dama do Cine Shanghai é um filme muito mais completo do Guilherme de Almeida Prado.
O Quarto Secreto
3.7 374O cinema europeu (dizendo isso apesar de ser um filme que também foi feito na Colômbia) fez muitos filmes de suspense divertidos no começo do século XXI, como esse: consegue criar uma tensão, consegue fazer ter algumas reviravoltas, ir e voltar com a história algumas vezes. Legalzinho demais.
Esse título em português dá um puta spoiler.
Pra quem gostou, recomendo Rios Vermelhos.
Anatomia de um Crime
4.1 150 Assista AgoraHá alguns pontos muito interessantes desse filme, a meu ver:
Um deles é como o que é dito é sempre muito mostrado. Exemplo: em uma cena, o personagem do James Stewart fala sobre como alguém sentou-se numa cadeira para olhar para a janela, então instantaneamente o plano se abre e podemos ver a tal janela. É tudo muito indicativo, sempre somos direcionados para o que devemos ver.
Outro ponto é atuação do James Stewart. Nessa meiuca de anos 40 até anos 60 poucos fizeram chover tanto quanto ele no cinema mundial. Verborrágico, contraditório, ranzinza, magnético.
Vale a pena também falar um pouco sobre sobre o papel da mulher aqui: há questões que são discutidas ainda hoje que estão nesse filme, como por exemplo o modo que Laura é mostrada como uma mulher que faz o que bem entende o tempo todo, não é uma santa, gosta de sair, é encantadora, dá suas escapadas, porém em momento algum isso é mostrado como uma desculpa para que ela tenha sido vítima do que foi, mesmo quando os promotores tentam seguir essa linha.
Tudo isso sendo possível, claro, apenas com uma grande ausência de pressa. 2h40min ótimos, envolventes, angustiantes, divertidos.
Pra quem gostou, recomendo Glória feita de sangue. Outro bom filme de tribunal, porém que vai pra outro caminho.
Dreileben: Não me siga
2.9 1Nessa segunda parte da trilogia há um grande valor que também está na primeira: uma história sendo contada enquanto outra coisa maior acontecendo por trás.
Aqui, acho interessante também como se desenvolve a questão da grande revelação que existe na vida da protagonista enquanto há uma grande investigação acontecendo. A conclusão de uma leva à da outra. Bem amarrado, gostei.
Pra quem gostou, recomendo Undine. Também tem uma coisa acontecendo enquanto há outra maior por trás.
Morte e Vida Madalena
3.9 10Tem três caminhos que que eu gostaria de seguir para falar desse filme.
O primeiro é um pouco confuso, talvez: ele me fez pensar sobre o que é fazer comédia pastelão ou comédia que não é pastelão, mais precisamente, no cinema brasileiro. Primeiramente porque pastelão é um conceito, obviamente, muito confuso e não é uma coisa que tá escrita na pedra. Mas, principalmente, vejo também que a comédia brasileira é um pouco calcada em uma comédia pastelão. O Brasil não cresceu vendo os comentários irônicos (e sem a menor graça) do Monty Python ou com alguém parado na frente de uma de uma plateia antes de uma entrevista fazendo piadas com a deixa especial pra plateia rir. O humor brasileiro ele se construiu em cima de humor de personagem, em cima de piada, de certo absurdismo, certa frontalidade. O humor brasileiro é frontal. E a questão é: isso necessariamente é ruim? Eu acho que esse filme vai para um caminho um pouco do pastelão, recorre a certa construção que é muito ligada a essa frontalidade do humor brasileiro. E isso não necessariamente é ruim, é muito engraçado, o filme é muito divertido, feito em um estado que é famoso pela sua comédia e seus comediantes. Acho que que tem seu valor a gente pensar nesse humor um pouquinho frontal, um pouquinho pastelão que constitui a cultura brasileira, ou pelo menos o audiovisual brasileiro. Os Trapalhões que deram muito mais audiência do que qualquer outro grupo de humor por aqui. Isso não é pouca coisa e não vejo de jeito nenhum que Os Trapalhões são menores ou menos relevantes do que Monty Python ou outros grupos de comédia mais discretos ou supostamente elevados, por exemplo.
O segundo ponto que eu acho interessante é talvez o mais óbvio: as reflexões trazidas sobre um filme que é sobre fazer um filme no Brasil. E eu acho que, aqui, o que vai um pouco além do óbvio é trazer realmente muitos dos problemas que envolvem uma gravação. Coisas que a gente nem imagina: o trabalho no vermelho, gente que tem problema e não pode ser substituído, problema de roteiro, problema de locação, barulho, falta de equipe, tudo que for possível e imaginado. Isso talvez já tenha sido abordado por outras obras até famosas do cinema brasileiro. Só que aqui eu acho que tem uma coisa a mais, que se confunde um pouco até com o terceiro ponto que eu acho interessante nesse filme.
O terceiro ponto, no caso, é o legado. Vejo que lida-se muito bem com o legado de um pai que era um cineasta e a filha que quer fazer um filme em homenagem ao pai. E tudo o que esse pai deixou de legado foi basicamente lutar contra as dificuldades que se apresentam quando se faz cinema no Brasil. Então ele traz uma narrativa surreal que ele nunca conseguiu filmar, que mostra a coisa de outro mundo, a surrealidade que é fazer ou querer fazer cinema no Brasil. Não é uma história dele falando sobre pai e filha, ou um grande épico sobre a vida dele. Ele quer falar sobre uma luta espacial, quer falar sobre um policial galático que chega num lugar e que acaba acaba sendo vítima de uma explosão. Falar de tiro, de cinema de gênero. Essa é a surrealidade que é fazer cinema brasileiro, principalmente quando esse cinema brasileiro não é o que se espera: é uma space opera. E todo esse legado é muito respeitado pela filha. Ela não quer falar sobre ele, ela quer continuar sua obra. As vontades que ele tinha eram um retrato do que foi sua vida lutando pra conseguir fazer seus filmes. Seu legado, para o cinema e para sua filha, foi principalmente se permitir sonhar. Apesar disso parecer muito piegas, esse filme mostra como se lida com o legado de alguém, legado esse que é basicamente construir um mundo surreal em um mundo que já é surreal o suficiente. E isso é muito rico. Esse respeito da Madalena pelo pai é trazido nos lindos visuais que ela cria, com a personificação da galáxia que está ali, diferindo em muito da bagunça que ela vê de fora, apesar de ter sim seus momentos coloridos e barulhentos de êxtase e cantoria.
O Guto Parente é muito bom em construir esses ambientes um pouco menos pé no chão. Provavelmente o melhor diretor brasileiro em atividade, o mais original.
Filmaço. Não é uma carta de amor ao cinema brasileiro, mas é talvez um incentivo ao cinema brasileiro.
Fico um pouco inconformado que existe um diretor igual ao Guto, que consegue fazer um filme sobre uma filha lidando com um pai que era um cineasta, que vive um luto ao mesmo tempo que tenta seguir seu legado, enquanto há uma valorização tão grande de um filme horrível e sem sal quanto Valor Sentimental. Brasileiro que gosta de Valor Sentimental e que não gostar desse aqui já pode entrar na fila das Olimpíadas do Mau Gosto.
Pra quem gostou, recomendo Inferninho, também no Guto: momentos coloridos e barulhentos de êxtase e cantoria.
O Fim da Rua
3.0 303 Assista AgoraOs elogios a esse filme são simplesmente inadmissíveis, a meu ver.
Eu não entendo essa boa vontade com o David Robert Mitchell apenas por ele tentar referenciar outras histórias ou outros cineastas. Aqui, por exemplo, ele usa o plano dividido várias vezes, sempre em momentos que soam aleatórios em que nem o plano da frente nem o de trás trazem nada a agregar.
Também fico muito irritado com as comparações feitas com o De Palma. Pelo amor de deus, ver Hitchcock qualquer um vê, agora quero ver construir histórias envolventes, com personagens contraditórios e cativantes, além de prender a nossa atenção do começo ao fim. Nada disso é feito aqui.
Há muito mais valor em Síndrome de Caim, por exemplo. Cabe na Sessão da tarde e nem por isso é horrível igual e esse.
Dreileben
3.7 2Este filme tem algo que o Petzold consegue fazer como poucos: mostrar personagens questionáveis enquanto protagonistas. Quem tem a história contada ali é muito questionável, muito dúbio, equivocado.
Também é legal como ele gosta de contar uma história menor frente a algo maior que ocorre por traz: é como se fosse um grande romance épico de época, mas não é um grande romance nem é épico tampouco é de época, é só uma história cotidiana sobre uma coisa cotidiana e contemporânea.
Gosto também da projeção que o protagonista tem sobre a namoradinha dele. A forma como ele fica bravo quando ela repete uma coisa que fez com outro rapaz, ao mesmo tempo em que ele claramente repete várias coisas com ela que ele faz com outra namorada.
Um belo exemplo do quão nocivo é um adulto que não sabe falar 'não'.
Pra quem gostou, recomendo Afire. Tem um protagonista desprezível.
Rios Vermelhos
3.6 141Os dois crimes/investigações do início parecem não ter muita relação um com o outro e acho que esse já é um charme inicial pro filme: uma história de detetive bem amarrada não é superada por quase nada nesse mundo.
Daí pra frente, aqui tem de tudo: extrema direita higienista, plano de contra ataque que dura mais do que décadas, corpos encontrados em situações esdrúxulas, um mosteiro, uma faculdade no meio do nada, uma gêmea que cortou o próprio dedo quando criança e foi criada nas sombras. O que mais a gente quer?
Pra quem gostou, recomendo A rainha Diaba. Não tem muito a ver, mas meio que tem tudo a ver.
Proezas de Satanás na Vila de Leva-e-Traz
4.0 16O que é o diabo aqui?
O progresso? Alguém que se aproveita do progresso? Ambos?
São muitos os filmes do cinema brasileiro dessa época que mostram como o povo fica de um lado pro outro igual a um pião sem conseguir se firmar ou prosperar, mesmo quando a chance brota do chão, e vejo que aqui o sobrenatural é muito bem usado a serviço da história: há Eurídice, um profeta, o diabo, transformações e tudo o que se tem direito.
E a gente bem sabe que quem vende a alma ao capeta acaba descobrindo que o demônio cobra com juros e correção monetária.
Pra quem gostou, recomendo O amuleto de Ogum.
A Fita Branca
4.0 754 Assista AgoraO sofrimento de todo mundo que está ali é muito evidente, porém trabalhado um pouco à exaustão, creio eu. O narrador também prepara pra algo que nunca vem. Ou até vem, mas aí é um evento mundial que todos nós já conhecemos e que vemos poucos efeitos em tela.
Parece aquele romance lá que no final o cara tava no world trade center (não que eu tenha assistido):
ao final nenhuma daquelas vidas importa muito porque a guerra vem aí. Ok, porém onde está a guerra? Onde está a consquência dela?
Por isso, sinto que tem uma certa fetichização da dor. Toda aquela miséria não dá em lugar nenhum.
Vejo que "O som da queda" é um filme que consegue retratar toda essa dor, porém chega a alguma lugar. A dor é o meio, não o fim, por mais trágico ou desesperançoso que esse fim seja.
Irmãs Diabólicas
3.5 124Legal ver que nesse começo de carreira o De Palma já trazia elementos que traria mais pra frente em todos seus filmes. Claro que sempre há muito destaque às referências que ele faz a outros diretores/filmes, mas o que mais me chama a atenção é como ele sempre consegue criar tramas muito enroladas: tudo vai dando meio errado devido a uma coisinha que aconteceu antes e no final sempre tem alguma ponta meio solta que foi propositalmente deixada assim.
Além disso, claro, a forma como ele contrói as imagens sempre é muito encantadora. Quebrando a tela em duas, mostrando coisas em dois planos diferentes, ou criando uma tensão gigantesca da qual os personagens não sabem.
São mais de 40 anos fazendo filmes que parecem caricatos, não soam como reais e que conseguem mesmo assim prender todo mundo que vê. Não é fácil. Muita gente tenta até hoje e não consegue.
Pra quem gostou, recomendo Ilha dos prazeres proibidos, do Reichenbach, também é caricato, não soa como real e consegue prender a atenção como poucos.
Profissão: Repórter
4.0 93 Assista AgoraMeus parabéns pra esse filme que conseguiu me fazer falar mal de traduções de título para o português, coisa que nunca faço, mas pelo amor de Deus, isso aqui é claramente um jornas querendo exaltar a curiosidade da própria profissão.
Deixando este ponto de lado, o personagem perdido, querendo viver outra vida, logo nos conquista. Do que ele quer fugir? Do tédio, da esposa, da vida em si? Talvez nem ele saiba. As paisagens são lindamente mostradas junto com sua ausência de arrependimento. A movimentação de câmera tem seu ápice já ao final, quando não sabemos o que acontece dentro do quarto, apenas temos indícios de certas reações de fora do quarto e pequenos ruídos dentro dele. O tédio faz a gente se enfiar em cada coisa estranha.
Me lembrou Close Up, do Kiarostami, com alguém fingindo viver outra vida.
Fitzcarraldo
4.2 155 Assista AgoraUm épico do homem contra a natureza sempre parece uma boa ideia. Talvez este seja o pai de filmes com essa temática. É maluquice pura, principalmente porque vemos que o adversário dele não é a selva e sim a própria insanidade.
O filme acaba sendo uma metáfora de si próprio, porque temos um estrangeiro chegando na América pra levar tudo o que há aqui, matar e escravizar indígenas, desmatar o quanto julga necessário e tudo mais. Coisa que o próprio Herzog fez, trocando apenas borracha pelo próprio filme. Complexo, sem dúvidas.
A cena final é muito divertida. A coroa do delírio. Uma ópera na selva, que onda. Pena que não morreu antes.
Pra quem gostou, recomendo O último azul. Outro road movie na água, muito mais sossegado.
Laura
4.1 147 Assista AgoraFilminho noir que dá vontade de ver outros filminhos noir, coisa boa.
Pra quem gostou, recomendo Rebecca, do Hitchcock. Filmes nos quais a pessoa que inspira o nome do filme não aparece desde o começo.
Serras da Desordem
4.2 34 Assista AgoraAssisti a esse aqui quase seguido ao Bang Bang e entendo que a experimentalidade do Tonacci funciona melhor aqui do que lá.
A história parece até forçada demais pra ser verdade, e mesmo assim existe a impressão de que ela é a vida de muitas outras pessoas.
Sobre o que foi construído o Brasil? Quantos Carapirús ainda estão por aí?
Pra quem gostou, recomendo O Abraço da Serpente.
Desejo e Obsessão
3.2 86Eu gostei da atmosfera de terror e da inquietude que o personagem maluco do maluco do Vincent Gallo tem o tempo todo. Também é legal o rumo que a história toma ao final, mas acho que nada além disso.
Vejo que O Vício, do Ferrara, fala muito melhor sobre o que esse filme quer falar.
Bang Bang
3.9 54O tempo passa, eu vejo mais filmes, e acho que na verdade eu gosto do Sganzerla, mas não gosto de cinema marginal.
Não que eu não veja valor nos momentos em que os diálogos param e vemos apenas momentos que claramente o Tonacci queria gravar pra colocar ali no meio: Uma perseguição na estrada, cenas de dança soltas, mágicas de troca de corpo/lugar possibilitadas pela edição. Tudo isso é muito divertido e bem filmado, claro.
Mas acho que falta certa coesão, mesmo em meio à experimentalidade presente. O Sganzerla conseguia, pelo menos.
Vejo que Sem Essa, Aranha consegue colocar muito mais loucura, porém mantém tudo mais amarrado também.
Rebecca, a Mulher Inesquecível
4.2 374 Assista AgoraTalvez eu já tenha visto algum filme que carrega o nome de alguém que não é mostrado, mas não me lembro de algum com tamanho impacto.
Rebecca está ali. O momento em que a morte dela é descrita pelo marido e a câmera aponta para onde ela estava em cada ação narrada, enquanto suas palavras são trazidas pela boca de outros, é o auge de sua presença.
Queria dizer também que vi na Secretaria de Cultura de São Caetano do Sul e que esqueceram de colocar a legenda, então caso eu tenha perdido algo, foi por isso.
Pra quem gostou, recomendo Laura, de 1944.
Nosso Segredo
3.6 12Há algumas maneiras de se ver a principal revelação do filme, e eu entendo que a mais interessante é vê-la de modo literal.
O que é esse hipopótamo? Um hipopótamo, oras. E dessa visão, é possível desdobrarmos outras reflexões.
Dá pra começar pensando em como os segredos de uma criança parecem ser muito pequenos, mas que podem sim ser muito grandes. O luto, a infância, a vida em família e tudo no mundo pode ser muito custoso a uma criança. É necessário buscar refúgio em algum lugar.
Não que seja muito mais fácil para os adultos que ali estão, muito pelo contrário.
Aliás, os adultos e a família como um todo me lembrou, a princípio, Marte Um. Não que as famílias tenham alguma semelhança tão notável, além de serem famílias negras e mineiras. Mas me soou como um drama que acompanharia os dilemas familiares existentes de modo lento, sem muitas reviravoltas, algo que me agrada muito em Marte Um. Porém gosto como aqui todo o desenrolar da vida familiar resulta no grande segredo que todos possuem. Somos apresentados a uma família que não é disfuncional, longe disso, mas que está meio atrapalhada, meio confusa após a morte de uma pessoa muito querida. A forma como cada um lida com essa dor é até um pouco escondida. A gente se esquece do luto, depois nos lembramos, depois ele é deixado de lado novamente. Parece até a vida real
Ao final, é legal como o único legado deixado pelo pai é o que ele poderia contribuir mesmo: uma lista de compras pra uma obra, que é justamente o que soluciona todo o problema que surgiu. Acho que é o que a gente deixa mesmo.
Vale destacar dois aspectos muito ricos aqui também. O primeiro é como é construído o momento em que todos descobrem o que está se passando ali. Cada um volta mais desolado que o outro. Até que chega o momento em que o irmão mais velho praticamente protagoniza um filme de terror abrindo as portas e pisando no barro até quase morrer do coração.
O segundo é a construção da casa. O cinema brasileiro é muito bom em construir lares, historicamente. A gente pode falar do Khouri em suas casas de campo sinistras em Amor Voraz, As filhas do fogo, O anjo da noite, Estranho encontro, O desejo. Da Anna Muylaert em suas casas de família disfuncionais em Que horas ela volta, Além de tudo me deixou mudo o violão, Durval discos, Mãe só há uma. Dos filmes baseados em textos do Nelson Rodrigues em seus lares ruídos por patriarcas em Os sete gatinhos, Toda nudez será castigada, As gêmeas, Beijo no asfalto. E de tantos outros: Edifício Master, Aquarius, Ainda estou aqui, O som ao redor, O Novelo, Carvão, Ela e Eu, Marte Um, Dois Córregos, Cidade Campo, Excitação, Os enforcados, São Bernardo, Dona Flor e seus dois maridos, Malu, Gravidade, A praia do fim do mundo, etc.
Nosso Segredo entra nesta longa lista. Dá pra falar sobre vários aspectos do funcionamento da casa aqui e de como ela é construída, mas acho que dá pra ficar num ponto específico: a luz branca da cozinha. É difícil falar sobre algo que é essencialmente brasileiro porque isso não existe realmente. Mas em um momento em que existe quase que um lobby anti luz fria a gente olha pra essa casa com as lâmpadas acesas e se lembra de tantas casas em que vivemos e frequentamos.
Coisa linda meu deus. Pra quem gostou, recomendo Gravidade, do Leo Tabosa, que também fala de uma casa meio atrapalhada.
Olhos de Serpente
3.8 38 Assista AgoraHá algumas comparações que podem ser feitas entre esse filme e Vício Frenético, a principal é como o Harvey Keitel interpreta homens muito destrutivos em ambos.
A principal diferença, claro, é onde atuam estes personagens. Um é um policial corrupto e o outro é um diretor. Esta distinta função de ambos não impede que o diretor seja nocivo a todos ao seu redor. A princípio nós até o vemos como alguém que não quer ser mau com seus atores e família, porém descobrimos o impacto de seus atos com o passar do tempo. A relação entre seu elenco parece ser o principal problema, mas enxergamos que é ele quem mais os manipula. Sua esposa não pode contar com ele nem no pior momento de sua vida.
Ao final, toda essa destruição do protagonista é voltada para si mesmo, e ele tem o fim natural dos personagens do Ferrara, que é uma morte trágica e amargurada. Vejo, porém, que aqui há uma distinção grande: Eddie é muito parecido com o próprio Ferrara. A morte de Sarah (no filme dentro do filme) soa como a morte do próprio Eddie. Então quem Ferrara estava matando quando seus personagens morriam nos anos 90? Em quem seus mafiosos eram inspirados? Algum deles, com todos os crimes cometidos, era tão nocivo aos outros ao seu redor quanto Abel Ferrara era na vida real? Ele próprio parece dizer que não.
Vejo que em Napoli, Napoli, Napoli o Abel está um pouco mais otimista, mais compadecido.
Síndrome de Caim
3.3 75Ver um filme do De Palma é sempre uma coisa agradável. Parece haver muita diversão na galhofa que se passa em tela. Em meio a tudo isso, alguns malabarismos narrativos e estéticos: piadas com sonhos, a câmera se inclinando ao descer escadas, o uso do mesmo ator para papéis diferentes, plot twist, tudo de bom.
Pra quem gostou, recomendo meu favorito dele: Olhos de serpente.