É legal quando a gente vai esperando uma maluquice sem fim de algum diretor e, quando a gente vai ver o filme, as coisas acontecem de modo muito mais sóbrio. É tipo o clipe de Extreme - More than words, com eles desligando as guitarras. Eu gosto de como a Julia Ducournau fala sobre a culpa de quem cria filhos: Em Titane, fala de um pai, e aqui fala de uma mãe, que também é uma irmã que se sente culpada pelo que aconteceu em sua família.
E acho que em relação a culpa e tudo mais, o que mais me marcou foi o final em que Alpha fala pra sua mãe que é muito nova para passar por tudo aquilo: uma mãe cheia de paranoias que não consegue criar sua filha sem que seja totalmente contaminada pelo modo que seu próprio irmão foi destrutivo. E em resposta a isso, a mãe de Alpha responde: nós também éramos muito jovens para passar por tudo o que passamos. Acho que tudo isso tem como objetivo questionar se existe alguém que realmente não é jovem demais para passar por certos dramas, certas barbáries.
Eu gosto também de como o fantasma do irmão/tio está o tempo todo ali e como só ao final descobrimos tudo o que realmente aconteceu com ele, sobre como sua irmã não conseguiu salvá-lo.
Destaque aqui para a cena final, em que o tio vai ser deixado em casa, o que nos leva a um local onde o vento rubro domina, trazendo um vermelho que é quase igual ao tom da fotografia do passado do filme, dando a entender que ali realmente é a casa do irmão: o passado.
Pra quem gostou, recomendo A metamorfose dos pássaros. Também sobre criar filhos, também sobre luto.
Vamos lá: esse filme se propõe a ser político. O Saddam é mostrado o tempo todo. Fala-se dele sempre. E um filme que se propõe a ser político, no Iraque dos anos 90, e que não menciona os Estados Unidos da América é, por definição, incompleto. Acho que nem compensa muito falar como as pessoas são mostradas como burras (os bonzinhos) e selvagens (os mauzinhos), mas vale dizer que tudo é construído como se todo mundo ali fosse um pouco alheio ao terror que vivem. Então todos veneram Saddam mesmo vivendo na miséria. Existe uma forte menção à repressão militar, mas de todo modo os personagens parecem muito pouco críticos àquela barbárie. Vale lembrar também que o filme é uma produção americana. Nos últimos anos tivemos A Voz de Hind Rajab, por exemplo, que também se propõe a ser político, só que sem certas concessões.
Em alguns outros do Almodovar em que fala-se de um filme dentro de um filme acontece algo parecido com aqui: os personagens criados pelos autores fictícios não possuem um final para suas histórias. Um exemplo disso é Dor e Glória: o filme comandado pelo protagonista possui apenas as cenas de sua infância gravadas. Vejo que roteiros assim dão uma liberdade maior para que não seja necessário criar conclusões para todos os personagens, é uma maneira de dizer que as histórias ainda estão sendo contadas, etc.
Vejo, porém, que em Natal Amargo isso não cai muito bem. A história da Elsa parece um pouco capenga sem uma conclusão. Diferentemente de Má Educação (por exemplo), aqui também vejo que não há um bom equilíbrio entre o filme e o filme dentro do filme. Elsa e sua trama possuem um desenvolvimento mais elaborado, mais tempo de tela, enquanto Raúl aparece pontualmente quase que como apenas um narrador. De todo modo, vejo que há uma cena que funciona bem nesse arco do Raúl: o momento, já ao final, em que ele pensa em como escrever o que acontecerá, de frente para seu computador, enquanto Natália e Elsa olham para a câmera, como se olhassem para o próprio Raúl, aguardando um direcionamento de suas vidas, ansiosas pelo seu destino.
Além disso, podemos falar que a história de Elsa funciona muito bem. O filme dentro do filme possui personagens muito cativantes, cenas muito sensuais que nos fazem até revisitar os filmes americanos que o Almodovar fez recentemente e que, apesar de excelentes, eram bastante tímidos no quesito cenas explícitas. O momento do strip tease do Bonifácio é maravilhoso, vale destacar: depois de sua performance no palco, a divisão de tela entre as mesas é divertidíssima e traz um dinamismo muito interessante.
Gosto também como, mais recentemente, o Almodovar tenta trazer ambientes surreais. As casas em seus filmes são bastante artificiais desde sempre, mas me parece que ultimamente ele aposta em ambientes quase oníricos, como tudo o que envolve a ilha vulcânica na qual a história se passa - bem como o cenário de faroeste em Estranha forma de vida e a casa toda em branco na infância de Salvador em Dor e glória.
Também me agradam dois momentos aqui que remetem à filmografia dele e toda a relação com música que os personagens possuem. Então aqui vemos um choro frente a uma personagem cantando, assim como acontece em Volver e Fale com ela. E também temos Elsa e sua amiga chorando ao escutarem La llorona no rádio (como acontece no táxi em Mulheres à beira de um ataque de nervos) em um sofá, terminando tudo com um abraço que já vimos várias vezes, como em Abraços partidos.
E não acho que o filme seja válido apenas pelas referências do autor a si mesmo, mas vejo que estas cenas que se repetem ao longo da filmografia funcionam muito bem aqui. O Almodovar construiu uma carreira brilhante com cenas assim e aqui elas são arrebatadoras, além de se encaixarem muito bem e de trazerem toda uma potência ao que é mostrado.
Se eu fosse menos apegado ao final, teria amado.
Pra quem gostou, recomendo, como sempre, Abraços partidos.
Eu pensava que esse filme era sobre tesão em carro, não sobre tesão em acidentes de carro. Entendo a comparação com Titane, mas não vejo que há tanta relação entre eles.
Vejo que aqui há um debate interessante sobre relações entre corpos que escapam do padrão. Não estou dizendo que os corpos aqui não são totalmente padrões - são todos brancos, magros e relativamente jovens. Porém são todos danificados, machucados. E mostra-se que existe tesão ali. Estamos nos anos 90, as propagandas de carros sempre são sensuais, ter um carro novo e caro é sexy. Mas e quando estas máquinas danificam as pessoas? Esta virilidade, este culto, continua?
Divertidíssimo, não tem como não indicar Titane depois desse, pra aí sim ver tesão em carros, ao invés de corpos.
O filme se desenvolve basicamente como um faroeste: não apenas por ser uma história que ocorre no meio do nada, nem por ser um conflito entre pessoas de diferentes etnias, nem por ser uma história de cercamento. Há aqui algo que acontece muito com os filmes do Leone, que é tentar desenvolver personagens masculinos contraditórios e maus por meio dos abusos que estes homens cometem contra mulheres. As mulheres são vítimas como se fosse apenas para provar um ponto: o protagonista é problemático, então ele sofre devido à violência contra sua filha. Os criminosos cometem o mesmo erro que ele, então por isso ele se arrepende dos erros. Este arrependimento está presente apenas nos brancos. Os negros naturalizam comportamentos crueis, eles são selvagens. Tenta debater muito, não debate nada. Se é pra ver um faroeste que fala de homens usando como base seus comportamentos com mulheres, Oeste outra vez é milhões de vezes mais interessante.
Eu gosto de filmes de conspiração, que trazem a paranoia para dentro de si, e acho que aqui tenta-se fazer uma crítica social fuderosa, trazendo azul e vermelho, porém acho que consegue-se cativar, jogar as evidências na história e nos deixar questionando tudo o que se passa. É meio Blow out, no sentido de ter alguém que não acredita em uma conspiração, até o momento em que esta pessoa está totalmente tragada por algo que ela não tinha ideia do tamanho. Não dá pra não recomendar algum do De Palma. E pra mim, sempre vai ser Olhos de serpente.
É a segunda vez que assisto a esse em pouco tempo, e tem uma coisa que acho que até comentei da outra vez: Um amor proibido é tratado de maneira muito criativa, como a Duras sempre faz: Uma guerra impediu que um relacionamento se desenvolvesse. Este amor foi destruído por esta guerra. Ele foi punido com morte e humilhação. Transformou a sobrevivente em uma mulher apática. Então o que temos com a guerra: destruição, enclausuramento, morte, fim de um amor, castigos. Quem viveu este amor vai para onde esta guerra acabou. E o que existe lá? Destruição. Apenas revivem-se a guerra e o amor proibido. Sobre romances de guerra, recomendo Transit, do Petzold.
Acho que o final é meio descolado do restante. Um protagonista que se coloca em uma situação e depois acaba se tornando tão apático frente a ela, sei lá. Vejo que Nove Rainhas se dedica muito mais a colocar o personagem na situação e deixar que ele se entregue.
Fui assistir esse porque vi alguém falando da versão do Nolan - que assisti há muitos anos - e para além de fazer uma comparação pra desmerecer o do Nolan, podemos partir da versão americana para ver como na original o protagonista possui mais contradições do que o personagem do Al Pacino: ele se atrai por mulheres mais jovens, ele não mente por uma investigação maior que está rolando, mas sim porque não quer encheção de saco, e ele não é punido. Gosto também de como o filme mostra a insônia: A narrativa é bastante sóbria, um clássico filme policial dos anos 90, porém toda vez que quer dar-se a entender que o protagonista não consegue dormir, o visual se torna mais experimental. Exemplo: Há momentos em que ele está de frente para o sol, quase morrendo de sono, porém o sol se torna sua parceira de trabalho. O final brinca com luzes e cores permeando um rosto sonolento. Fiquei com vontade de ver mais filmes policiais dos anos 90. Tem muita coisa boa por lá. Muita coisa ruim também (Michael Mann, por exemplo). Sobre filmes policiais nórdicos: recomendo Filhos do Gustav Moller.
O naturalismo, apesar de já ter sido mais gritante enquanto tendência, continua muito presente no cinema atual. Mas me parece que as inspirações dos diretores americanos nunca foram muito ancoradas em cineastas que realmente eram naturalistas: Coutinho, Agnes Varda, Chantal Akerman e o próprio Kiarostami, por exemplo. Os personagens aqui realmente poderiam existir: os diálogos são muito naturais, diferentemente dos filmes do Linklater, que tentam trazer enormes debates sobre a vida, filosofia, o mundo, etc. São diálogos rasos, que qualquer pessoa poderia ter: um rapaz mais jovem e um senhor de mais idade se encontram em um carro, pela primeira vez, e um deles tenta esconder qual é sua relação com a conhecida em comum que eles possuem, então é óbvio que eles vão ter uma conversa totalmente atrapalhada. Natural também é a ausência de agência dos personagens sobre o próprio destino. Eu não gosto de personagens passivos demais, mas aqui vejo que todos pelo menos tentam reagir ao que lhes é imposto, porém não conseguem. Interessante. Parece até um segmento de Relatos Selvagens.
Eu não me lembro se esse filme foi polêmico quando saiu, porém entendo quem considera os filmes do Paul Verhoeven problemáticos. Não gosto de Showgirls justamente por isso, aliás. E acho que aqui também há questões: até que ponto é romantizado ou relativizado o abuso sofrido pela protagonista. Por outro lado, acho interessante como ela vê esse homem que é vizinho dela como alguém que é parecido com o pai dela. Este homem que ataca sua vizinhança de modo tão brutal. Talvez ela até se pergunte se é possível que ele siga outro caminho. E acho que ao final ela entende que não, que ela não pode tentar novamente salvar um monstro. Não sei, é uma protagonista interessante, com muitos fantasmas, que tenta não envolver a polícia justamente devido ao seu passado, que é salva pelo filho, ou seja, com uma cumplicidade que seu pai tentou ter com ela. Interessante, no mínimo. Pra quem gostou, recomendo O Matador, do Almodovar. Me lembrou, não sei porque.
Às vezes, acho quase possível considerar o cinema novo não um movimento cinematográfico, mas sim um gênero: cidades pequenas, narrativas sobre miséria, mostrar pobres como grandes infelizes. Não que Salvador seja uma cidade pequena, mas aqui ela é tratada quase como uma vila. Contrasta bastante com o seu contemporâneo Pagador de Promessas. Por falar em gênero, vejo que o uso dos instrumentos de um filme policial caem bem em Tocaia no asfalto, isso porque é possível propor um debate acerca de violência, miséria e política sem ser muito didático ou fetichista com a dor de quem está sujeito a toda essa pobreza. Rezar pela morte de alguém e não matar deve dar um azar da porra, realmente. O uso do gênero no cinema marginal também merece um olhar carinhoso. Recomendo Meu nome é Tonho.
Chover no molhado: que delícia o cinema do De Palma, principalmente quando ele tem referências muito óbvias em tela, só que sem perder o protagonismo de sua voz. Gosto muito de como aqui a personagem chega em um momento em que volta no tempo para criar sua própria narrativa, sair do arquétipo. Coisa linda meu Deus. Pra quem gostou: Olhos de serpente.
Eu não gosto de ler nada sobre um filme logo depois de assistir. Mesmo quando não entendo, gosto de deixar o filme dar uma amadurecida na minha cabeça. Dessa vez, porém, eu fui atrás de ler algo porque eu realmente senti que não havia entendido nada. Tinha algo um pouco vago na minha cabeça, que parecia muito diferente do que eu havia imaginado inicialmente, então tentei procurar alguma análise que pudesse me trazer outros pensamentos. Li meio por cima um texto da Fabi que começa com "À deriva, no limite da imagem e da vida. O primeiro filme experimental da América Latina é, também, uma obra-prima do cinema brasileiro". Então senti que entendi tudo. A ideia vaga que eu tinha era um pouco parecida com o que ela falou e eu larguei mão de tentar encaixar Limite em uma narrativa clássica, como eram minhas expectativas. É interessante como são mostradas estas pessoas à deriva: sempre em movimento, alternando-se com trens que vão para onde não sabemos, portas fechadas, pegadas que são apagadas pelo mar, rostos escondidos. Os cabelos, as roupas, as faces, nada disso é estável. Tudo muda. A melhor representação que já vi sobre estar perdido. Pra quem gostou, recomendo Girlhood, da Celine Sciamma. Outra protagonista à deriva.
Apesar de ser interessante como se mostra o trabalho das pessoas ali, eu vejo que essa narração dá muito o tom do que deve ser pensado sobre o que acontece. Isso, por si só, já não me agrada, porque as pessoas não podem falar por si, as imagens tampouco. Agora, falar de uma população negra que buscou uma vida fora das cidades (das quais esta população foi excluída), e dizer que a vivência que se possui neste modo alternativo de vida é primitiva e atrasa, aí já é demais, pobreza narrativa. Ar de superioridade terrível. Vejo que a Agnes Varda, por exemplo, sempre usou muito melhor da narração em seus documentários. Os panteras negra é um grande expoente.
Há algo que beira o farsesco nesse filme, principalmente quando se decide deixar claro que todas as mulheres expostas ali são da mesma classe social, e evidenciando o eterno verão que é a vida delas. Um certo contraponto ao próprio cinema novo, que normalmente não se privava de mostrar pessoas pobres de modo tão ampliador de suas misérias. Deste modo, vejo que A Entrevista quer se colocar no seu lugar, dizer "estamos aqui, falando destas mulheres, sob este ponto de vista". Vejo que essa delimitação é importante, principalmente num filme de 20 minutos. É bom também ver como as mulheres aqui possuem algo a dizer entre elas. O cinema novo sempre se notou por ter homens ricos fazendo filmes sobre homens pobres, com representações femininas muito aquém, como a Helena Ignez sendo totalmente castrada na sua atuação em O padre e a moça. Aqui, por outro lado, vemos mulheres de uma classe social sendo mostradas por uma mulher do mesmo círculo: elas falam sobre virgindade, sobre casamento, o papel da mulher na sociedade, o papel de homens na vida das mulheres. Gosto de como o final contrasta com a voz de quem fala. As personagens continuam sendo mostradas, porém caladas pelo que dizem os militares. Pra quem gostou, recomendo A mulher de todos. Helena Ignez no auge.
Na minha cabeça, o filme era mais caricato. Só me lembro de ter visto na escola, há mais de 15 anos. Apesar de eu ser contra o cinismo, gosto de como algumas narrativas irônicas, principalmente no cinema. Acho que aqui a Crítica Social Fuderosa se disfarça bem por trás da ironia. Gosto também de como cada imagem adquire seu significado e, em frações de segundos, quando ditas novamente, elas nos tiram um sorrisinho. Em contraponto a esse (um curta verborrágico), recomendo Alma no olho, sem palavras
A maneira como o corpo é mostrado desde a origem até o momento em que se é acorrentado é muito envolvente. Após o acorrentamento, vem tudo o que sabemos, porém retratado com pouquíssimos elementos. As correntes tentam ser escondidas, mas no fundo não há como. Não há futebol, livros, roupas, chapéus ou esmolas que as eliminem. O final curiosamente é esperançoso, não decide ir pra um caminho melancólico. Filmaço. A maneira como mostra o corpo me lembrou um pouco Barravento.
É engraçado ver que esse conceito de videoclipe se estende pra hoje. Não só como uma narrativa que usa de diferentes formas de trazer imagens: stopmotion, edição frenética, narração acelerada, etc. Mas também com a camada de certo experimentalismo ao qual os clipes normalmente se permitem. Me lembrou o clipe de Everlong, que era meu favorito quando eu era adolescente.
É legal ver um filme que é um épico recente, coisa que me parece rara. A epicidade vai pra além de só contar das expedições vez ou outra, mas sim trazendo todas como se fossem um grande recomeço de algo árduo. Há também as tramas políticas na qual Percy está envolvido e, claro, a guerra. Contar uma história assim de modo tão grandioso só é possível levando-se a sério tudo o que se passa, coisa que o James Gray sempre consegue, sem o menor cinismo. Entre todos os filmes que vi dele, nenhum tem uma risadinha piscando pra câmera, ao mesmo tempo que não tenta fugir de momentos de possível fantasia. Outra combinação rara em filmes recentes.
A selva é mostrada como um local hostil e fascinante, porém destaco o papel que o rio tem aqui. Os barcos que os viajam se parecem com naves espaciais olhando para outros mundos que aparecem ao longo da margem. Esse elemento que transforma vários filmes em road movies aquáticos parece longe do esgotamento e sempre traz um encanto a mais. Apocalypse now, O último azul, O abraço da serpente, todos nos encantam no deslizamento sobre as águas, como se aquele transporte fosse um meio de nos levar para um mundo que deixa de ser real, trazendo histórias que, quando contadas, sempre parecem mentira, delírio.
Acho que vale falar também sobre como o cinema do James Gray mudou e, apesar de eu gostar bastante de Ad Astra, Era uma vez em Nova York e de Z, é estranho ver como estes diretores do cinema americano (sejam eles americanos ou não) vão para um caminho de filmes de maior orçamento e as tramas mais simples deixam de ser exploradas por eles. Talvez os filmes do Gray ficassem uma porcaria se ele passasse a vida inteira filmando o Joaquin Phoenix sad boy na periferia de Nova York? Talvez. Mas eu acho que ainda dava pra tirar alguma coisa dali. Ele parou de fazer estes filmes justamente depois de Os donos da noite e Os amantes, seu auge até então. Não que eu veja que todos os diretores devessem ficar em filmes de baixo orçamento a vida inteira, mas é curioso ver que quase nenhum realizador volta a eles, mesmo que apenas uma vez. O prêmio de quem é abraçado pelo prestígio é sempre seguir para filmes de época megalomaníacos, grandes histórias de guerra ou projetos gigantescos de ficção científica. Tarantino não voltou desse caminho, Nolan também não, nem a Bigelow, nem o Villeneuve. Vamos ver se o Gray volta agora em Paper Tiger.
Aqui vale indicar O abraço da serpente, para temos um olhar mais próximo do que um indígena tem da amazônia. Também gosto de pensar em Roma, do Cuaron, que talve seja o único ou um dos únicos diretores que foram para estes filmes gigantes que comentei, mas que pelo menos ensaiou uma volta.
Tudo bem que o filme é importante pra mostrar como se contar uma história apenas por imagens há mais de cem anos. Tudo bem que o Murnau era foda, mas ô historinha besta. Ganga Bruta, por exemplo, também consegue se expressar muito bem, mesmo que (quase) sem palavras e o Humberto Mauro também era foda.
Eu entendo perfeitamente a importância desse filme, mas me desagrada muito a maneira como os personagens são humilhados. O próprio cinema novo foi muito questionado devido a como os mais pobres eram mostrados com certa condescendência - muito inspirados pelos filmes italianos, claro - porém vejo que os principais expoentes do movimento não cometiam um erro que é aqui cometido, que é o da falta de potência dos personagens. Sim, tenta-se dizer que todos ali são oprimidos pelo capitalismo, pela pobreza, pelo mundo ou o que quer que seja, mas mostrar que o personagem é incapaz até mesmo de retribuir a violência que sofre me soa um pouco humilhante. É quase como dizer "esses pobres nem pra roubar prestam". Acho que Deus e o Diabo na Terra do Sol fala muito melhor sobre como a violência é a consequência da miséria. Há um momento em que um assassino diz "Matei porque não posso viver descansado com essa miséria", e isso pra mim resume como pode-se mostrar quem alguém é vítima da vida que vive, ao mesmo tempo em que possui força para tentar atacar de volta, mesmo que de maneira ineficaz e apenas contribuindo para a deterioração da realidade.
O gênero de máfia é deixado um pouco de lado para que o filme se aproxime mais de uma história de vingança. Só que essa tal história de vingança não engaja muito. A ação é até bem construída, mas os personagens são pouco explorados. Há um momento em que um personagem se questiona para que serve a vingança se você não se lembra de nada, e realmente os problemas de memória do protagonista traz à pauta a ideia de que vingança muitas vezes serve mais para delimitar territórios do que para propriamente honrar quem foi injustiçado. Nada além disso, porém. Se é pra falar sobre memória em filmes de crimes, vejo que a terceira temporada de True Detective age muito melhor.
Esse filme pode muito bem ser imaginado sem nenhuma palavra. Sem cartelas, sem título, sem nada. E a história seria muito bem contada. Todo o modo que se mostra a cidade superior e a inferior, a Torre de Babel, o robô, tudo grita para nós e nos joga nesse mundo silencioso ao mesmo tempo que é muito barulhento. Vale o destaque para quando a robô se torna humana, que é uma cena que, se feita hoje, ainda seria muito impactante. Tudo o que se fala sobre Um corpo que cai também está aqui: O sobrenatural feminino de uma mulher que é sacerdotisa. O duplo. O olhar masculino sobre uma mulher robotizada pelos homens criadas.
Tudo isto posto, não dá pra negar que, se um filme termina com uma frase de efeito, a intenção é que aquela seja a mensagem que este filme quer passar. Não há como desvencilhar essa mensagem do filme. E essa tal moral da história é extremamente desmobilizadora. Ela vai contra todo o ideal de classe que a Maria e o Freder possuíam. Toda essa mobilização que eles tinham foi boicotada pelo cientista, sim, porém o Joh também tentava articular este boicote. Então existe uma estrutura opressora muito bem construída visualmente, sem a necessidade de palavras, esta estrutura é colocada em xeque por personagens muito bem desenvolvidos, com suas contradições e fraquezas, o principal beneficiado pela opressão e um quase aliado tentam desarticular uma resposta a essa opressão, mas ao final nos é dito que tudo bem, todos devem se aliar, não tem um certo e um errado, a cabeça e o coração devem andar juntos. Vejo que O gabinete do doutor Caligari é muito mais interessante. Ele também possui mensagens reacionárias, porém deixa certa margem de interpretação, ao contrário de Metrópolis.
Alpha
3.0 13É legal quando a gente vai esperando uma maluquice sem fim de algum diretor e, quando a gente vai ver o filme, as coisas acontecem de modo muito mais sóbrio. É tipo o clipe de Extreme - More than words, com eles desligando as guitarras.
Eu gosto de como a Julia Ducournau fala sobre a culpa de quem cria filhos: Em Titane, fala de um pai, e aqui fala de uma mãe, que também é uma irmã que se sente culpada pelo que aconteceu em sua família.
E acho que em relação a culpa e tudo mais, o que mais me marcou foi o final em que Alpha fala pra sua mãe que é muito nova para passar por tudo aquilo: uma mãe cheia de paranoias que não consegue criar sua filha sem que seja totalmente contaminada pelo modo que seu próprio irmão foi destrutivo. E em resposta a isso, a mãe de Alpha responde: nós também éramos muito jovens para passar por tudo o que passamos. Acho que tudo isso tem como objetivo questionar se existe alguém que realmente não é jovem demais para passar por certos dramas, certas barbáries.
Eu gosto também de como o fantasma do irmão/tio está o tempo todo ali e como só ao final descobrimos tudo o que realmente aconteceu com ele, sobre como sua irmã não conseguiu salvá-lo.
Destaque aqui para a cena final, em que o tio vai ser deixado em casa, o que nos leva a um local onde o vento rubro domina, trazendo um vermelho que é quase igual ao tom da fotografia do passado do filme, dando a entender que ali realmente é a casa do irmão: o passado.
Pra quem gostou, recomendo A metamorfose dos pássaros. Também sobre criar filhos, também sobre luto.
O Bolo do Presidente
3.9 7Vamos lá: esse filme se propõe a ser político. O Saddam é mostrado o tempo todo. Fala-se dele sempre.
E um filme que se propõe a ser político, no Iraque dos anos 90, e que não menciona os Estados Unidos da América é, por definição, incompleto.
Acho que nem compensa muito falar como as pessoas são mostradas como burras (os bonzinhos) e selvagens (os mauzinhos), mas vale dizer que tudo é construído como se todo mundo ali fosse um pouco alheio ao terror que vivem. Então todos veneram Saddam mesmo vivendo na miséria. Existe uma forte menção à repressão militar, mas de todo modo os personagens parecem muito pouco críticos àquela barbárie.
Vale lembrar também que o filme é uma produção americana.
Nos últimos anos tivemos A Voz de Hind Rajab, por exemplo, que também se propõe a ser político, só que sem certas concessões.
Natal Amargo
3.4 16Em alguns outros do Almodovar em que fala-se de um filme dentro de um filme acontece algo parecido com aqui: os personagens criados pelos autores fictícios não possuem um final para suas histórias. Um exemplo disso é Dor e Glória: o filme comandado pelo protagonista possui apenas as cenas de sua infância gravadas. Vejo que roteiros assim dão uma liberdade maior para que não seja necessário criar conclusões para todos os personagens, é uma maneira de dizer que as histórias ainda estão sendo contadas, etc.
Vejo, porém, que em Natal Amargo isso não cai muito bem. A história da Elsa parece um pouco capenga sem uma conclusão. Diferentemente de Má Educação (por exemplo), aqui também vejo que não há um bom equilíbrio entre o filme e o filme dentro do filme. Elsa e sua trama possuem um desenvolvimento mais elaborado, mais tempo de tela, enquanto Raúl aparece pontualmente quase que como apenas um narrador.
De todo modo, vejo que há uma cena que funciona bem nesse arco do Raúl: o momento, já ao final, em que ele pensa em como escrever o que acontecerá, de frente para seu computador, enquanto Natália e Elsa olham para a câmera, como se olhassem para o próprio Raúl, aguardando um direcionamento de suas vidas, ansiosas pelo seu destino.
Além disso, podemos falar que a história de Elsa funciona muito bem. O filme dentro do filme possui personagens muito cativantes, cenas muito sensuais que nos fazem até revisitar os filmes americanos que o Almodovar fez recentemente e que, apesar de excelentes, eram bastante tímidos no quesito cenas explícitas. O momento do strip tease do Bonifácio é maravilhoso, vale destacar: depois de sua performance no palco, a divisão de tela entre as mesas é divertidíssima e traz um dinamismo muito interessante.
Gosto também como, mais recentemente, o Almodovar tenta trazer ambientes surreais. As casas em seus filmes são bastante artificiais desde sempre, mas me parece que ultimamente ele aposta em ambientes quase oníricos, como tudo o que envolve a ilha vulcânica na qual a história se passa - bem como o cenário de faroeste em Estranha forma de vida e a casa toda em branco na infância de Salvador em Dor e glória.
Também me agradam dois momentos aqui que remetem à filmografia dele e toda a relação com música que os personagens possuem. Então aqui vemos um choro frente a uma personagem cantando, assim como acontece em Volver e Fale com ela. E também temos Elsa e sua amiga chorando ao escutarem La llorona no rádio (como acontece no táxi em Mulheres à beira de um ataque de nervos) em um sofá, terminando tudo com um abraço que já vimos várias vezes, como em Abraços partidos.
E não acho que o filme seja válido apenas pelas referências do autor a si mesmo, mas vejo que estas cenas que se repetem ao longo da filmografia funcionam muito bem aqui. O Almodovar construiu uma carreira brilhante com cenas assim e aqui elas são arrebatadoras, além de se encaixarem muito bem e de trazerem toda uma potência ao que é mostrado.
Se eu fosse menos apegado ao final, teria amado.
Pra quem gostou, recomendo, como sempre, Abraços partidos.
Crash: Estranhos Prazeres
3.6 348 Assista AgoraEu pensava que esse filme era sobre tesão em carro, não sobre tesão em acidentes de carro.
Entendo a comparação com Titane, mas não vejo que há tanta relação entre eles.
Vejo que aqui há um debate interessante sobre relações entre corpos que escapam do padrão. Não estou dizendo que os corpos aqui não são totalmente padrões - são todos brancos, magros e relativamente jovens. Porém são todos danificados, machucados. E mostra-se que existe tesão ali.
Estamos nos anos 90, as propagandas de carros sempre são sensuais, ter um carro novo e caro é sexy. Mas e quando estas máquinas danificam as pessoas? Esta virilidade, este culto, continua?
Divertidíssimo, não tem como não indicar Titane depois desse, pra aí sim ver tesão em carros, ao invés de corpos.
Desonra
3.2 37 Assista AgoraO filme se desenvolve basicamente como um faroeste: não apenas por ser uma história que ocorre no meio do nada, nem por ser um conflito entre pessoas de diferentes etnias, nem por ser uma história de cercamento. Há aqui algo que acontece muito com os filmes do Leone, que é tentar desenvolver personagens masculinos contraditórios e maus por meio dos abusos que estes homens cometem contra mulheres.
As mulheres são vítimas como se fosse apenas para provar um ponto: o protagonista é problemático, então ele sofre devido à violência contra sua filha. Os criminosos cometem o mesmo erro que ele, então por isso ele se arrepende dos erros. Este arrependimento está presente apenas nos brancos. Os negros naturalizam comportamentos crueis, eles são selvagens.
Tenta debater muito, não debate nada.
Se é pra ver um faroeste que fala de homens usando como base seus comportamentos com mulheres, Oeste outra vez é milhões de vezes mais interessante.
A Trama
3.3 31Eu gosto de filmes de conspiração, que trazem a paranoia para dentro de si, e acho que aqui tenta-se fazer uma crítica social fuderosa, trazendo azul e vermelho, porém acho que consegue-se cativar, jogar as evidências na história e nos deixar questionando tudo o que se passa.
É meio Blow out, no sentido de ter alguém que não acredita em uma conspiração, até o momento em que esta pessoa está totalmente tragada por algo que ela não tinha ideia do tamanho.
Não dá pra não recomendar algum do De Palma. E pra mim, sempre vai ser Olhos de serpente.
Hiroshima, Meu Amor
4.2 329 Assista AgoraÉ a segunda vez que assisto a esse em pouco tempo, e tem uma coisa que acho que até comentei da outra vez:
Um amor proibido é tratado de maneira muito criativa, como a Duras sempre faz: Uma guerra impediu que um relacionamento se desenvolvesse. Este amor foi destruído por esta guerra. Ele foi punido com morte e humilhação. Transformou a sobrevivente em uma mulher apática.
Então o que temos com a guerra: destruição, enclausuramento, morte, fim de um amor, castigos.
Quem viveu este amor vai para onde esta guerra acabou. E o que existe lá? Destruição. Apenas revivem-se a guerra e o amor proibido.
Sobre romances de guerra, recomendo Transit, do Petzold.
Aura
3.3 90 Assista AgoraAcho que o final é meio descolado do restante. Um protagonista que se coloca em uma situação e depois acaba se tornando tão apático frente a ela, sei lá.
Vejo que Nove Rainhas se dedica muito mais a colocar o personagem na situação e deixar que ele se entregue.
Insônia
3.5 28Fui assistir esse porque vi alguém falando da versão do Nolan - que assisti há muitos anos - e para além de fazer uma comparação pra desmerecer o do Nolan, podemos partir da versão americana para ver como na original o protagonista possui mais contradições do que o personagem do Al Pacino: ele se atrai por mulheres mais jovens, ele não mente por uma investigação maior que está rolando, mas sim porque não quer encheção de saco, e ele não é punido.
Gosto também de como o filme mostra a insônia: A narrativa é bastante sóbria, um clássico filme policial dos anos 90, porém toda vez que quer dar-se a entender que o protagonista não consegue dormir, o visual se torna mais experimental. Exemplo: Há momentos em que ele está de frente para o sol, quase morrendo de sono, porém o sol se torna sua parceira de trabalho. O final brinca com luzes e cores permeando um rosto sonolento.
Fiquei com vontade de ver mais filmes policiais dos anos 90. Tem muita coisa boa por lá. Muita coisa ruim também (Michael Mann, por exemplo).
Sobre filmes policiais nórdicos: recomendo Filhos do Gustav Moller.
Um Alguém Apaixonado
3.6 121 Assista AgoraO naturalismo, apesar de já ter sido mais gritante enquanto tendência, continua muito presente no cinema atual. Mas me parece que as inspirações dos diretores americanos nunca foram muito ancoradas em cineastas que realmente eram naturalistas: Coutinho, Agnes Varda, Chantal Akerman e o próprio Kiarostami, por exemplo.
Os personagens aqui realmente poderiam existir: os diálogos são muito naturais, diferentemente dos filmes do Linklater, que tentam trazer enormes debates sobre a vida, filosofia, o mundo, etc. São diálogos rasos, que qualquer pessoa poderia ter: um rapaz mais jovem e um senhor de mais idade se encontram em um carro, pela primeira vez, e um deles tenta esconder qual é sua relação com a conhecida em comum que eles possuem, então é óbvio que eles vão ter uma conversa totalmente atrapalhada.
Natural também é a ausência de agência dos personagens sobre o próprio destino. Eu não gosto de personagens passivos demais, mas aqui vejo que todos pelo menos tentam reagir ao que lhes é imposto, porém não conseguem.
Interessante. Parece até um segmento de Relatos Selvagens.
Elle
3.8 882Eu não me lembro se esse filme foi polêmico quando saiu, porém entendo quem considera os filmes do Paul Verhoeven problemáticos. Não gosto de Showgirls justamente por isso, aliás. E acho que aqui também há questões: até que ponto é romantizado ou relativizado o abuso sofrido pela protagonista.
Por outro lado, acho interessante como ela vê esse homem que é vizinho dela como alguém que é parecido com o pai dela. Este homem que ataca sua vizinhança de modo tão brutal. Talvez ela até se pergunte se é possível que ele siga outro caminho. E acho que ao final ela entende que não, que ela não pode tentar novamente salvar um monstro.
Não sei, é uma protagonista interessante, com muitos fantasmas, que tenta não envolver a polícia justamente devido ao seu passado, que é salva pelo filho, ou seja, com uma cumplicidade que seu pai tentou ter com ela.
Interessante, no mínimo.
Pra quem gostou, recomendo O Matador, do Almodovar. Me lembrou, não sei porque.
Tocaia no Asfalto
4.0 27Às vezes, acho quase possível considerar o cinema novo não um movimento cinematográfico, mas sim um gênero: cidades pequenas, narrativas sobre miséria, mostrar pobres como grandes infelizes. Não que Salvador seja uma cidade pequena, mas aqui ela é tratada quase como uma vila. Contrasta bastante com o seu contemporâneo Pagador de Promessas.
Por falar em gênero, vejo que o uso dos instrumentos de um filme policial caem bem em Tocaia no asfalto, isso porque é possível propor um debate acerca de violência, miséria e política sem ser muito didático ou fetichista com a dor de quem está sujeito a toda essa pobreza.
Rezar pela morte de alguém e não matar deve dar um azar da porra, realmente.
O uso do gênero no cinema marginal também merece um olhar carinhoso. Recomendo Meu nome é Tonho.
Femme Fatale
3.1 199 Assista AgoraChover no molhado: que delícia o cinema do De Palma, principalmente quando ele tem referências muito óbvias em tela, só que sem perder o protagonismo de sua voz.
Gosto muito de como aqui a personagem chega em um momento em que volta no tempo para criar sua própria narrativa, sair do arquétipo. Coisa linda meu Deus.
Pra quem gostou: Olhos de serpente.
Limite
4.0 179 Assista AgoraEu não gosto de ler nada sobre um filme logo depois de assistir. Mesmo quando não entendo, gosto de deixar o filme dar uma amadurecida na minha cabeça. Dessa vez, porém, eu fui atrás de ler algo porque eu realmente senti que não havia entendido nada. Tinha algo um pouco vago na minha cabeça, que parecia muito diferente do que eu havia imaginado inicialmente, então tentei procurar alguma análise que pudesse me trazer outros pensamentos.
Li meio por cima um texto da Fabi que começa com "À deriva, no limite da imagem e da vida. O primeiro filme experimental da América Latina é, também, uma obra-prima do cinema brasileiro". Então senti que entendi tudo.
A ideia vaga que eu tinha era um pouco parecida com o que ela falou e eu larguei mão de tentar encaixar Limite em uma narrativa clássica, como eram minhas expectativas.
É interessante como são mostradas estas pessoas à deriva: sempre em movimento, alternando-se com trens que vão para onde não sabemos, portas fechadas, pegadas que são apagadas pelo mar, rostos escondidos. Os cabelos, as roupas, as faces, nada disso é estável. Tudo muda.
A melhor representação que já vi sobre estar perdido.
Pra quem gostou, recomendo Girlhood, da Celine Sciamma. Outra protagonista à deriva.
Aruanda
4.1 31Apesar de ser interessante como se mostra o trabalho das pessoas ali, eu vejo que essa narração dá muito o tom do que deve ser pensado sobre o que acontece.
Isso, por si só, já não me agrada, porque as pessoas não podem falar por si, as imagens tampouco.
Agora, falar de uma população negra que buscou uma vida fora das cidades (das quais esta população foi excluída), e dizer que a vivência que se possui neste modo alternativo de vida é primitiva e atrasa, aí já é demais, pobreza narrativa. Ar de superioridade terrível.
Vejo que a Agnes Varda, por exemplo, sempre usou muito melhor da narração em seus documentários. Os panteras negra é um grande expoente.
A Entrevista
3.9 10 Assista AgoraHá algo que beira o farsesco nesse filme, principalmente quando se decide deixar claro que todas as mulheres expostas ali são da mesma classe social, e evidenciando o eterno verão que é a vida delas. Um certo contraponto ao próprio cinema novo, que normalmente não se privava de mostrar pessoas pobres de modo tão ampliador de suas misérias. Deste modo, vejo que A Entrevista quer se colocar no seu lugar, dizer "estamos aqui, falando destas mulheres, sob este ponto de vista".
Vejo que essa delimitação é importante, principalmente num filme de 20 minutos.
É bom também ver como as mulheres aqui possuem algo a dizer entre elas. O cinema novo sempre se notou por ter homens ricos fazendo filmes sobre homens pobres, com representações femininas muito aquém, como a Helena Ignez sendo totalmente castrada na sua atuação em O padre e a moça. Aqui, por outro lado, vemos mulheres de uma classe social sendo mostradas por uma mulher do mesmo círculo: elas falam sobre virgindade, sobre casamento, o papel da mulher na sociedade, o papel de homens na vida das mulheres.
Gosto de como o final contrasta com a voz de quem fala. As personagens continuam sendo mostradas, porém caladas pelo que dizem os militares.
Pra quem gostou, recomendo A mulher de todos. Helena Ignez no auge.
Ilha das Flores
4.5 1,0KNa minha cabeça, o filme era mais caricato. Só me lembro de ter visto na escola, há mais de 15 anos.
Apesar de eu ser contra o cinismo, gosto de como algumas narrativas irônicas, principalmente no cinema. Acho que aqui a Crítica Social Fuderosa se disfarça bem por trás da ironia. Gosto também de como cada imagem adquire seu significado e, em frações de segundos, quando ditas novamente, elas nos tiram um sorrisinho.
Em contraponto a esse (um curta verborrágico), recomendo Alma no olho, sem palavras
Alma no Olho
4.4 24A maneira como o corpo é mostrado desde a origem até o momento em que se é acorrentado é muito envolvente. Após o acorrentamento, vem tudo o que sabemos, porém retratado com pouquíssimos elementos. As correntes tentam ser escondidas, mas no fundo não há como. Não há futebol, livros, roupas, chapéus ou esmolas que as eliminem.
O final curiosamente é esperançoso, não decide ir pra um caminho melancólico. Filmaço.
A maneira como mostra o corpo me lembrou um pouco Barravento.
A Velha a Fiar
4.2 71É engraçado ver que esse conceito de videoclipe se estende pra hoje. Não só como uma narrativa que usa de diferentes formas de trazer imagens: stopmotion, edição frenética, narração acelerada, etc. Mas também com a camada de certo experimentalismo ao qual os clipes normalmente se permitem. Me lembrou o clipe de Everlong, que era meu favorito quando eu era adolescente.
Z: A Cidade Perdida
3.4 323 Assista AgoraÉ legal ver um filme que é um épico recente, coisa que me parece rara.
A epicidade vai pra além de só contar das expedições vez ou outra, mas sim trazendo todas como se fossem um grande recomeço de algo árduo. Há também as tramas políticas na qual Percy está envolvido e, claro, a guerra. Contar uma história assim de modo tão grandioso só é possível levando-se a sério tudo o que se passa, coisa que o James Gray sempre consegue, sem o menor cinismo. Entre todos os filmes que vi dele, nenhum tem uma risadinha piscando pra câmera, ao mesmo tempo que não tenta fugir de momentos de possível fantasia. Outra combinação rara em filmes recentes.
A selva é mostrada como um local hostil e fascinante, porém destaco o papel que o rio tem aqui. Os barcos que os viajam se parecem com naves espaciais olhando para outros mundos que aparecem ao longo da margem. Esse elemento que transforma vários filmes em road movies aquáticos parece longe do esgotamento e sempre traz um encanto a mais. Apocalypse now, O último azul, O abraço da serpente, todos nos encantam no deslizamento sobre as águas, como se aquele transporte fosse um meio de nos levar para um mundo que deixa de ser real, trazendo histórias que, quando contadas, sempre parecem mentira, delírio.
Acho que vale falar também sobre como o cinema do James Gray mudou e, apesar de eu gostar bastante de Ad Astra, Era uma vez em Nova York e de Z, é estranho ver como estes diretores do cinema americano (sejam eles americanos ou não) vão para um caminho de filmes de maior orçamento e as tramas mais simples deixam de ser exploradas por eles. Talvez os filmes do Gray ficassem uma porcaria se ele passasse a vida inteira filmando o Joaquin Phoenix sad boy na periferia de Nova York? Talvez. Mas eu acho que ainda dava pra tirar alguma coisa dali. Ele parou de fazer estes filmes justamente depois de Os donos da noite e Os amantes, seu auge até então. Não que eu veja que todos os diretores devessem ficar em filmes de baixo orçamento a vida inteira, mas é curioso ver que quase nenhum realizador volta a eles, mesmo que apenas uma vez. O prêmio de quem é abraçado pelo prestígio é sempre seguir para filmes de época megalomaníacos, grandes histórias de guerra ou projetos gigantescos de ficção científica. Tarantino não voltou desse caminho, Nolan também não, nem a Bigelow, nem o Villeneuve. Vamos ver se o Gray volta agora em Paper Tiger.
Aqui vale indicar O abraço da serpente, para temos um olhar mais próximo do que um indígena tem da amazônia. Também gosto de pensar em Roma, do Cuaron, que talve seja o único ou um dos únicos diretores que foram para estes filmes gigantes que comentei, mas que pelo menos ensaiou uma volta.
A Última Gargalhada
4.2 108 Assista AgoraTudo bem que o filme é importante pra mostrar como se contar uma história apenas por imagens há mais de cem anos. Tudo bem que o Murnau era foda, mas ô historinha besta.
Ganga Bruta, por exemplo, também consegue se expressar muito bem, mesmo que (quase) sem palavras e o Humberto Mauro também era foda.
Ladrões de Bicicleta
4.4 549 Assista AgoraEu entendo perfeitamente a importância desse filme, mas me desagrada muito a maneira como os personagens são humilhados.
O próprio cinema novo foi muito questionado devido a como os mais pobres eram mostrados com certa condescendência - muito inspirados pelos filmes italianos, claro - porém vejo que os principais expoentes do movimento não cometiam um erro que é aqui cometido, que é o da falta de potência dos personagens.
Sim, tenta-se dizer que todos ali são oprimidos pelo capitalismo, pela pobreza, pelo mundo ou o que quer que seja, mas mostrar que o personagem é incapaz até mesmo de retribuir a violência que sofre me soa um pouco humilhante. É quase como dizer "esses pobres nem pra roubar prestam".
Acho que Deus e o Diabo na Terra do Sol fala muito melhor sobre como a violência é a consequência da miséria. Há um momento em que um assassino diz "Matei porque não posso viver descansado com essa miséria", e isso pra mim resume como pode-se mostrar quem alguém é vítima da vida que vive, ao mesmo tempo em que possui força para tentar atacar de volta, mesmo que de maneira ineficaz e apenas contribuindo para a deterioração da realidade.
Vingança
3.2 33O gênero de máfia é deixado um pouco de lado para que o filme se aproxime mais de uma história de vingança. Só que essa tal história de vingança não engaja muito. A ação é até bem construída, mas os personagens são pouco explorados.
Há um momento em que um personagem se questiona para que serve a vingança se você não se lembra de nada, e realmente os problemas de memória do protagonista traz à pauta a ideia de que vingança muitas vezes serve mais para delimitar territórios do que para propriamente honrar quem foi injustiçado.
Nada além disso, porém.
Se é pra falar sobre memória em filmes de crimes, vejo que a terceira temporada de True Detective age muito melhor.
Metrópolis
4.4 657 Assista AgoraEsse filme pode muito bem ser imaginado sem nenhuma palavra. Sem cartelas, sem título, sem nada. E a história seria muito bem contada. Todo o modo que se mostra a cidade superior e a inferior, a Torre de Babel, o robô, tudo grita para nós e nos joga nesse mundo silencioso ao mesmo tempo que é muito barulhento.
Vale o destaque para quando a robô se torna humana, que é uma cena que, se feita hoje, ainda seria muito impactante.
Tudo o que se fala sobre Um corpo que cai também está aqui: O sobrenatural feminino de uma mulher que é sacerdotisa. O duplo. O olhar masculino sobre uma mulher robotizada pelos homens criadas.
Tudo isto posto, não dá pra negar que, se um filme termina com uma frase de efeito, a intenção é que aquela seja a mensagem que este filme quer passar. Não há como desvencilhar essa mensagem do filme. E essa tal moral da história é extremamente desmobilizadora. Ela vai contra todo o ideal de classe que a Maria e o Freder possuíam. Toda essa mobilização que eles tinham foi boicotada pelo cientista, sim, porém o Joh também tentava articular este boicote. Então existe uma estrutura opressora muito bem construída visualmente, sem a necessidade de palavras, esta estrutura é colocada em xeque por personagens muito bem desenvolvidos, com suas contradições e fraquezas, o principal beneficiado pela opressão e um quase aliado tentam desarticular uma resposta a essa opressão, mas ao final nos é dito que tudo bem, todos devem se aliar, não tem um certo e um errado, a cabeça e o coração devem andar juntos.
Vejo que O gabinete do doutor Caligari é muito mais interessante. Ele também possui mensagens reacionárias, porém deixa certa margem de interpretação, ao contrário de Metrópolis.