Chantal Akerman, a cineasta belga, vive em Nova York. Imagens da cidade são acompanhadas pela leitura das cartas enviadas pela amorosa, mas manipuladora, mãe da cineasta, vindas diretamente de Bruxelas. A cidade se abre cada vez mais para o espectador conforme as cartas, lidas pela própria Chantal, constroem um panorama da sua estada na América.
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As cenas mostradas sempre envolvem meios de transporte. É tudo transitório num nível além de falarmos de "não lugares". Não são mostrados bares, restaurantes, parques, shows, arenas esportivas, lares, consultórios, hospitais, reuniões.
O que vemos é basicamente lugares por onde as pessoas passam apenas por instantes.
É até interessante vermos como isso contrasta com o que a mãe fala sobre a vida da filha: ela diz "que bom que você está trabalhando e fazendo amigos" e nós não vemos o menor indício destes fatos.
Não necessariamente os dias são corridos, mas tudo é passageiro. Não há interação entre ninguém.
Para além do que vemos, pensando no que ouvimos, a mãe fala sobre o que a Chantal falou a carreira inteira: não há nada que acontece de tão impressionante na vida. As notícias de casa são cada vez mais banais. O filme parece quase uma resposta aos pedidos da mãe para que a filha escreva: nada acontece. Ela está pra lá e pra cá, as ruas são todas iguais, as pessoas do metrô nem se olham. O que mais dá pra dizer?
A ida de alguém pra longe é quase uma morte. Não dá pra ficar demandando respostas.
Sobre nada acontecer: recomendo Hotel Monterey.
Realmente tem uma camada desse filme que ainda não mexeu comigo, essa desorientação que o filme trabalha é tão sutil que ainda não estou no momento em que ela me toca, os barulhos de Nova Iorque realmente mexem com você e todos os momentos onde Chantal deixa o som sobrepor a narrativa são de um impacto poderoso, ansioso para rever novamente daqui uns anos
Um filme de Akerman
Um quadro de Hopper
Um poema de Pizarnik
Uma noturna de Chopin
Um domingo a noite...
Ilustra muito bem a vida nos vinte e poucos anos todos esses lugares de impermanência, lugares de trânsito, de passagem... tantos nomes e pessoas que você conhece e que se importam e perguntam e tentam se aproximar e tantos anônimos ao mesmo tempo, é um período onde perceber que é mais um no mundo rompe de vez com o que nos segura no passado, e nos acorda e arremessa para o que é mais importante para nossas vidas. Tudo parece não estar parado em um lugar só e nesse movimento brilha uma luz, para sair e ver e voltar para entender o que viu ou as vezes não voltar de jeito nenhum e fazer desses nossos entendimentos e dessas nossas escolhas quem a gente quer realmente ser. É um filme onde todas as imagens são protagonistas, todos os sons e cada palavra de todas as cartas. Vai ficar comigo por um tempo.
Chantal fazia mágica. As imagens São hipnotizantes e a narração das cartas melancolicamente envolventes. Da vontade da sair e escrever uma carta para alguém.
Gostei muito também dela ter mostrando a cidade por todos os meios de transporte. Metros, trens, ônibus, barcas…