O idoso porteiro do Atlantis, um elegante hotel de Berlim, sente orgulho do seu trabalho, que faz com dedicação, e se comporta como um general em seu resplandecente uniforme, sendo tratado com respeito pelos seus amigos e vizinhos. Entretanto, o novo gerente do hotel se mostra insensível quando o velho porteiro para um pouco para se recompor, após carregar uma pesada bagagem, e assim o gerente decide que o atual porteiro é velho demais para o cargo e o rebaixa para criado do banheiro masculino. Isto provoca um efeito desastroso no prestígio do homem e na sua auto-estima.
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O uniforme enquanto metáfora possibilita diferentes leituras críticas acerca da sociedade alemã do primeiro pós-guerra: uma cultura em que autoridade e status social se encontram intimamente imbricados; a relação de admiração, subserviência e inveja que os alemães mantinham com suas autoridades; a consequente importância atribuída à construção de uma identidade social exteriorizada.
O porteiro não se sente humilhado apenas pela perda do uniforme ou por ter que trabalhar em um toalete, mas porque a ausência dessa indumentária acarretará, concretamente, uma perda de status. Aqui, a semelhança da caracterização de Emil Jannings com Guilherme I não parece casual. Enquanto Bismarck governava a Alemanha unificada, o imperador apenas encarnava a dignidade do Estado Imperial.
Enfim, camadas...
Embora seja uma das propostas do Kammerspiel, a total ausência de diálogos ou letreiros (explicativos ou narrativos) me impressionou bastante. Uma defesa radical do poder expressivo das imagens.
Tudo bem que o filme é importante pra mostrar como se contar uma história apenas por imagens há mais de cem anos. Tudo bem que o Murnau era foda, mas ô historinha besta.
Ganga Bruta, por exemplo, também consegue se expressar muito bem, mesmo que (quase) sem palavras e o Humberto Mauro também era foda.
Véi! Esse Murnau era barril mesmo!
O que esse cara dirigiu aqui é brincadeira! E a montagem, enquadramentos, transições... ABSOLUTE CINEMA... Só não vou dar nota máxima por que aquele final que ele dá pra seu protagonista é muito anti clímax. Não gostei!
Num primeiro momento parece uma história simples, mas a queda de um porteiro que perde seu uniforme revela muito mais do que uma simples história (de humilhação).
Murnau foi um gênio e mostrou como um traje funciona como um signo social: não é apenas roupa, mas a linguagem pela qual ele se comunica com o mundo, um símbolo que lhe garante identidade, respeito e pertencimento. Quando essa marca desaparece, o personagem deixa de ser reconhecido pelos outros e, de certo modo, por si mesmo. É como se a sociedade lhe tivesse arrancado a voz, mostrando que nossa identidade não existe isolada, mas se constrói sempre no olhar e na validação do outro.
Quando opta por uma narrativa quase sem palavras, Murnau deixa que a linguagem puramente visual fale por si: a câmera, a luz e os gestos de Emil Jannings contam a tragédia de um homem reduzido à condição de casca, dependente de uma máscara social para existir.
No final, o epílogo artificialmente feliz apenas reforça a ironia: a vida, ao contrário do cinema, raramente devolve ao homem o que a sociedade lhe arrancou.
O capitalismo é uma falácia