"I'm mean and green" (o verde da planta, mas também do dólar). Não é a melhor crítica ao capitalismo, mas talvez a mais divertida. Tem cenas memoráveis, mas a do dentista/sádico Orin Scrivello (Steve Martin) são as minhas preferidas.
Todo jockey precisa ser o mais leve possível para que tenha alguma chance de vitória. Precisa também ter um bom controle de seu cavalo. Ortega usa esses elementos do esporte para discutir o tema do valor das pessoas e da impossibilidade de controle da própria vida. Remo flutua e anda pelas paredes como um ser ainda indefinido, sem peso algum, sem valor no mundo. Há um olhar social aqui referente ao "peso/valor" das pessoas, evidente na cena no qual Remo/Dolores se dá conta dos moradores de rua e crianças desassistidas que vê durante sua saída do hospital.
El Jockey é um filme que lida também com o tema da morte e renascimento em suas mais diversas camadas. Nahuel Pérez Biscayart está fenomenal nesse aspecto. Ele se transforma de maneira impressionante durante o filme. O resto do elenco também é ótimo. Como Úrsula Corberó, no papel de Abril, que também passa por um processo de redescoberta pessoal. Há um toque de humor peculiar, planos performáticos, uma trilha sonora que varia entre o eletrônico moderno com a música sessentista argentina que me agrada. Essa abordagem que vai mais da sugestão e da performance, que não tenta exaurir o tema, ajuda a apreciação.
O surrealismo no filme é mais um verniz. Não há nada muito críptico. Talvez falte a parte do público alguma referência mais pessoal da cultura popular argentina. Falo especificamente sobre o personagem da morte no filme (o vaqueiro, interpretado por Jorge Prado), que é uma evidente referência a figura de Malevo Ferreyra, um chefe de polícia acusado de crimes durante a ditadura, que traumatizou uma geração ao se matar ao vivo durante uma entrevista na TV para evitar sua prisão.
Dos restos do que restou da poderosa máfia italiana, com seus personagens doentes e decrépitos, vivendo a míngua, os grandes esquemas são tocados por setores corruptos da polícia. A cidade de Roma no filme, abalada por incêndios, sofre apagões intermitentes, como o personagem Daytona, que em momentos únicos volta a tomar consciência do que foi no passado. Mas o filme é mais que isso. Camello, doente terminal, irá morrer com a angústia sobre uma profunda amargura do passado, e vê em Manuel o filho que perdeu, e em sua derradeira ação a possibilidade de reparação psicológica. Abaixo da superfície crua e violenta das relações, o filme é um poderoso poema visual sobre culpa, redenção e paternidade.
Entre um forte texto que traça um paralelismo entre o colonialismo europeu na África com a segregação racial nos EUA, e o uso da cultura popular como soft power e cortina de fumaça para as maiores atrocidades do campo político em tempos de Guerra Fria, o documentário do realizador belga Johan Grimonprez é, como uma boa peça de jazz, virtuoso em criar um tecido inspirado de imagens alegóricas. Como as da figura de um elefante quase que a flutuar em águas turvas ou carregado por uma grua manipulada por homens brancos, que nos leva a imaginar o continente africano ora tentando seguir seus próprios caminhos, ora sendo manipulado pelas forças imperialistas ocidentais. É um filme que deve ser visto com paciência, há muita informação embasada por documentos textuais e visuais e testemunhos, mas o final impacta mais pela carga emocional. Em tempos na qual a ONU hoje é questionada sobre sua inutilidade frente a investida genocida de Israel, EUA e demais países do Ocidente, o filme já aponta que a ingerência no órgão vem de longe. A história de exploração do Congo e assassinato de líderes de forças de resistência como Patrice Lumumba é revoltante, mas não configura apenas o passado. O filme, em uma montagem que quebra expectativas, mostra que o problema continua. Os esforços contra a "ameaça comunista" já não existem, mas Fukuyama estava errado. Não é o fim da história. Inserções de comerciais de marcas como da Tesla e Iphone da Apple funcionam como um lembrete que o capital continua com seus olhos e membros nos recursos, como as minas de lítio, de países do Sul Global.
Em uma cena quase para o desfecho do filme, a promotora (Toni Colleti) e o jurado (Nicholas Hoult) estão a conversar em um banco depois da decisão final do tribunal. Após o personagem do Nicholas sair de cena, com a câmera em plongée, se vê uma estátua da deusa Témis, símbolo da Justiça, com a sua balança de modo súbito a tremular convulsivamente ao vento, como a representar a indecisão moral sobre o conceito de justiça institucional discutido pelos personagens e pelo filme como um todo. Escolha inspirada do Clint que poderia ser a cena final. Entretanto, a conclusão escolhida lembra o desfecho de Mystic River (Sobre Meninos e Lobos), mas aqui sem a sutileza daquele clássico moderno. Mas isso não compromete o resultado final de mais um bom filme do veterano diretor estadunidense
"Symetria ominus est". Um poema visual sobre simetria, arte, beleza e decomposição regado a um humor mórbido. Primeira contribuição do Greenway com o renomado fotógrafo Sacha Vierny (Noite e Neblina, Hiroshima mon amour, O Ano Passado em Marienbad). Para quem gosta dos jogos estéticos do diretor galês.
Curiosidades bizarras sobre esse filme: o personagem Peter Dawson, interpretado por Jeremy Applegate, tem uma cena na qual pede a Deus para nunca cometer suicídio. Na vida real cometeu suicídio com uma espingarda em 2000. E a personagem Kim Walker, interpretada por Heather Chandler, que tem uma fala na qual diz “Você teve um tumor cerebral no café da manhã?", morreu em consequência de um tumor cerebral em 2001. A personagem para a qual a fala é dirigida é interpretada pela atriz Shannen Doherty, falecida em julho de 2024, também de câncer.
Pelo que li, é um filme baseado em um conto sufi, que na tradição encara o caminho para o amor de modo místico. Isso ajuda a entender a abordagem aqui, menos verossímil, mais idealizada, ou poética. Na superestrutura as relações e ações das personagens parecem pouco críveis, mas de modo conceitual funcionam melhor, pois se trata aqui do contraste entre o amor por algo em abstrato ou idealizado ao invés do encontro com o real, do amor a uma representação que a figura real representada, da disposição a devoção a uma representação do olhar silencioso que a relação com algo que possa em algum momento se desalinhar em perspectiva. O caminho do amor seria a partir desse conflito interno, no tempo correto, finalmente encarar a concretude da relação amorosa.
Tecnicamente o filme abusa de uma tapeçaria de inspirados frames, planos e close-ups em preto e branco, e algumas excelentes blocagens que indicam as direções às vezes convergentes, às vezes divergentes do casal. Em termos de representação, talvez seja mal visto hoje a forma como se constrói a figura feminina (Meral), sempre solícita ao homem (Halil). Mas é interessante notar que a devoção de Meral por Halil é uma contrapartida a devoção deste pela sua (dela) fotografia. Halil é apaixonado por uma representação, por algo de divino que ele viu naqueles olhos, talvez. Mas Meral, a princípio, se apaixona por Halil por um conceito, por seu amor devoto e incondicional ao retrato. Em uma das cenas, Meral lê "A Arte de Amar", do poeta romano Ovídio, que é praticamente um "O Príncipe" de Maquiavel com relação ao amor. Portanto, há um jogo interessante aqui em relação ao que cada um vê ou procura no outro.
Garbo não convence. Em nenhum momento a fragilidade da personagem parece real, nem sua devoção por Duval. Atuação tão afetada quanto os suntuosos vestidos que ostenta durante o filme. Ser considerada por muitos a melhor performance da atriz sueca, causa-me espanto.
Uma curiosidade sobre esse filme, além da participação silenciosa de Björn Andrésen (Morte em Veneza, Midsommar), é a construção da personagem de Anita Lindblom (Eva), cantora sueca famosa nos anos 60. Entre o contraste da juventude primaveril, descobrindo o que a vida tem de melhor, com o nublado mundo adulto, imerso em frustrações, psicoses e violência doméstica, Eva é aparentemente um sarcástico comentário sobre a atribulada vida da atriz/cantora, que entre polêmicas com o fisco sueco, também manteve um casamento problemático, e sofria de colapsos mentais.
Filme mais musical do diretor. Feminista sem ser panfletário. Monotemático ao lidar com a radical transformação social da China moderna impelida pelo pujante crescimento econômico do país, Jia se reinventa ao usar material de filmes prévios em uma montagem que mescla experimentalismo com o tradicionalismo das histórias trágicas de amor, abraçando de maneira singular o velho e o novo, o tradicional e o moderno. Além da concepção ideológica, na forma se concretiza pelo contraste entre as gravações de baixa qualidade ao uso de uma câmera de alta definição com movimentação robótica, e também pela própria real transformação física visível de seus atores principais, Tao Zhao e Zhubin Li, em um espaço de quase 20 anos. Nesse ponto, ao usar material antigo como reciclagem para a concepção de um novo filme, Jia traz de modo engenhoso o conceito central de sua obra, da reinvenção e transformação do passado a um presente insólito, mas em seu âmago profundamente carregado de ancestralidade.
Todo fã do Estúdio Ghibli sabe que um anúncio de aposentadoria de Miyazaki é praticamente uma promessa de um próximo filme no futuro. Por mais que seja viciado em trabalho, o tempo, entretanto, impõe seus limites ao cumprimento dessa quase profecia. Seus amigos e colegas de trabalho estão morrendo um seguido do outro, entre eles o seu mentor Isao Takahata, com quem manteve uma relação de admiração e rivalidade. O velho diretor parece sentir que precisa fazer um filme que tanto lhe ajude a manter ocupado, como lhe dê uma espécie de satisfação psicológica sobre o processo de envelhecimento e finitude. O documentário funciona tanto como uma celebração do espírito criativo, com também uma observação sobre a mente complexa do criador. Mas é menos uma análise técnica do processo de produção de "O Menino e A Garça" que uma investigação sobre seus mecanismos anímicos mais primários. Existe um outro filme que vi antes desse, chamado "2399 Days with Hayao Miyazaki & Studio Ghibli", que parece ser um esboço para esse filme. Parte do material bruto é semelhante, mas aqui há um trabalho melhor de montagem e desenvolvimento.
Interessante visão sobre despertencimento e isolacionismo que vai além das referências óbvias a AIDS. Só achei que atuação de Julianne Moore carrega mais o filme nesse sentido que o filme como um todo.
Gertrud é uma personificação do embate entre idealismo do coração e o materialismo da razão. Entre o fatalismo, marcado e assombrado em sonho e pela sua materialização na pintura de uma mulher nua atacada por uma matilha, e o livre-arbítrio que tanto defende e procura em seus relacionamentos, é difícil discernir no princípio onde se encontra a personagem meramente por suas ações e trejeitos. Seu olhar é quase sempre além, não encontrando o suposto receptor, como quem se fala para uma figura interior, na procura de um entendimento de si (o espelho). No final, a única figura no qual Gertrud manteve uma relação duradoura é com o escritor Axel, aquele que, ainda que não escondesse sua admiração, entendeu essa complexidade e não demandou dela nada além do que ela poderia lhe dar, a atenção e o respeito, e a única verdadeira liberdade de seu ser, a solitude.
Gosto como o filme não apela para "jump scares", ainda que pareça em alguns momentos que haja um preparo para tal tipo de artifício, restando ao espectador, contudo, uma atmosfera de constante espreita, com ajuda de enquadramentos e profundidade de campo que leva nosso olhar a sempre procurar algo que parece estar escondido. Os inúmeros elementos visuais que permeiam o filme não são imprescindíveis para a apreciação, mas permitem que se desdobre o tema principal do filme, um mal latente que envolve que envolve a sociedade moderna, e como a família é elemento central de sedição interna, tendo a figura paterna o seu perpetrador. Preciso fazer uma revisão, mas pergunto-me se as constantes fotografias de presidentes envolvidos em escândalos (Clinton, Nixon) não configurariam um comentário político sobre a mentira, e como o seu pai ("pai da mentira") está entranhado nos intestinos político-sociais da sociedade estadunidense.
Ao contrário de outras produções baseadas em "Jornada para O Oeste", geralmente chinesas, essa é japonesa. Pelas informações do Wikipédia esse filme foi lançado em DVD em 2021 no Japão somente. Não encontrei cópias alternativas nem em sites especializados. Há uma análise dele em chinês no YouTube na qual podemos ver algumas cenas. O diretor, Kajirô Yamamoto, é mais conhecido por ter revelado um estreante Akira Kurosawa, na época apenas um diretor assistente, em alguns de seus filmes.
Meio que inevitável fazer um paralelo com o Coda (2017). Enquanto o filme anterior se detém no material histórico, motivacional e filosófico por trás da produção musical e estilística de Ryuichi Sakamoto, Opus (2023) se despe de qualquer artifício mais imediato de racionalidade ou complexidade, e foca exclusivamente na música e no instrumentista em seus momentos finais nesse planeta. Não há introdução, narração, ou mesmo legendas nomenando as peças para os não iniciados na música do compositor japonês (há os créditos no final).
A câmera de Neo Sora, filho do compositor, invariavelmente abraça detalhes como os mecanismos internos do piano, os martelos e abafadores, ou as expressões do seu pai, seja de concentração, satisfação ou mesmo esforço, como se tentasse visualmente se conectar com os aspectos mais íntimos de sua alma. É enternecedor ver tanto o compromisso emocional como a aplicação física do debilitado, mas ainda habilidoso artista, acionando cada tecla do piano. Em Coda, Sakamoto revelou sua fascinação pela ideia do som perpétuo. Aqui, agravado pelo seu estado físico, as músicas são tocadas em ritmo mais lento, mas a acústica permite que a reverberação da nota anterior se perpetue por alguns instantes antes da nota seguinte. Penso que Sakamoto adequou sua condição física há essa concepção musical de finitude, mas também de conexão e perpetuação.
Ainda que o foco seja a música, o filme procura manter um retrato fiel do momento crítico do músico. Em certo momento, ele falha numa das peças (Bibo no aozora), continua. Em outro momento balbucia alguma coisa que não entendo (não há legendas). É um filme que deve ser visto sob o contexto do momento, como uma despedida tanto de Sakamoto para a música, como um legado para os que ficam e apreciam sua obra. A última cena do filme é o piano sendo tocado, mas Sakamoto não está mais vísivel. A vida é curta, a arte é longa (Ars longa, vita brevis).
Ficção científica tcheca baseada na obra de Stanilaw Len, mesmo autor do famoso Solaris, adaptado para o cinema pelas mãos de Tarkovski. Por ser do mesmo autor, é natural que se veja muita semelhança de atmosfera. A influência ao 2001 de Kubrick também pode ser debatida, ainda que aparentemente não seja algo declarado. Preferencialmente tenho muito mais apreço por essa ficção científica comunista que as fatalistas e distópicas produzidas por influência do realismo capitalista, sempre apontando para conflitos, invasões alienígenas, etc. Ursula K. Le Guin, apesar de norte-americana, entra nesse rol de uma ficção científica que abraça a utopia como horizonte, mas sem fugir das intempéries que a realidade impõe. Neste sentido, vale notar a cena na qual os tripulantes de Ikari dão de encontro com uma amostra do passado, uma nave de séculos atrás, provavelmente norte-americana, e o destino trágico que escondia. Um dos tripulantes nega que aquelas pessoas de um passado distante sejam os seus antepassados, enquanto outro rebate que não podemos escolher nossos ancestrais, eles são o que são. Remete ao conceito "centralidade do presente" adotado por Marx, de ver o presente como um fluxo que ilumina o passado, mas sem adotá-lo como uma régua para entendê-lo com nossos conceitos atuais.
Shimizu há tempos já vinha trabalhando com o universo infantil e sua relação com o mundo adulto. Mas nesse, pelo contexto do pós-guerra, todo o drama das crianças parece mais pungente. Logo de início o filme faz referência a outro filme do diretor, filmado durante a guerra em 1941, chamado Mikaheri no Tou (Instrospection Tower), que lidada com crianças problemáticas tentando se adaptar a vida em um reformatório, e a história girava em torno desse contexto de socialização e entendimento da importância do companheirismo, tendo adultos como guias dessa jornada. Aqui o adulto mais importante é um ex-combatente que, voltando a sua terra devastada, observa a vida desregrada de crianças orfãs e sem amparo, precisando ele mesmo encontrar seu caminho, além de, por iniciativa própria, tentar direcionar essas crianças para um futuro mais digno. Há muitos paralelos com o neorrealismo italiano, tanto pelo modo como lida com o espaço físico e sua relação com os personagens (a relação com o mar, a montanha, e os escombros das cidades), como pelo profundo humanismo que perpassa todo o filme.
Meio que uma continuação de "Kaze no naka no kodomo (Children in the Wind)". Gostei mais desse, ainda que aqui o mundo seja muito mais masculinizado. Não vi uma única personagem feminina entre as crianças, nem para fazer um contraste de mundos diferentes entre gêneros, como no filme anterior. Tirando essa detalhe, a construção dramática é melhor construída. O modo como o universo dos adultos, com seus liames, preferências e animosidades, influencia até certo ponto o entendimento e as relações das crianças, e como elas conseguem de modo natural, sem os vícios de caráter e estruturas sociais de pais e mestres, se desvencilhar dessas armadilhas.
Gibel Otrara
3.5 1Restaurado em 4K. Na espera.
A Pequena Loja dos Horrores
3.6 240 Assista Agora"I'm mean and green" (o verde da planta, mas também do dólar). Não é a melhor crítica ao capitalismo, mas talvez a mais divertida. Tem cenas memoráveis, mas a do dentista/sádico Orin Scrivello (Steve Martin) são as minhas preferidas.
Matem o Jóquei!
3.2 4Todo jockey precisa ser o mais leve possível para que tenha alguma chance de vitória. Precisa também ter um bom controle de seu cavalo. Ortega usa esses elementos do esporte para discutir o tema do valor das pessoas e da impossibilidade de controle da própria vida. Remo flutua e anda pelas paredes como um ser ainda indefinido, sem peso algum, sem valor no mundo. Há um olhar social aqui referente ao "peso/valor" das pessoas, evidente na cena no qual Remo/Dolores se dá conta dos moradores de rua e crianças desassistidas que vê durante sua saída do hospital.
El Jockey é um filme que lida também com o tema da morte e renascimento em suas mais diversas camadas. Nahuel Pérez Biscayart está fenomenal nesse aspecto. Ele se transforma de maneira impressionante durante o filme. O resto do elenco também é ótimo. Como Úrsula Corberó, no papel de Abril, que também passa por um processo de redescoberta pessoal. Há um toque de humor peculiar, planos performáticos, uma trilha sonora que varia entre o eletrônico moderno com a música sessentista argentina que me agrada. Essa abordagem que vai mais da sugestão e da performance, que não tenta exaurir o tema, ajuda a apreciação.
O surrealismo no filme é mais um verniz. Não há nada muito críptico. Talvez falte a parte do público alguma referência mais pessoal da cultura popular argentina. Falo especificamente sobre o personagem da morte no filme (o vaqueiro, interpretado por Jorge Prado), que é uma evidente referência a figura de Malevo Ferreyra, um chefe de polícia acusado de crimes durante a ditadura, que traumatizou uma geração ao se matar ao vivo durante uma entrevista na TV para evitar sua prisão.
Roma em Chamas
2.9 3 Assista AgoraDos restos do que restou da poderosa máfia italiana, com seus personagens doentes e decrépitos, vivendo a míngua, os grandes esquemas são tocados por setores corruptos da polícia. A cidade de Roma no filme, abalada por incêndios, sofre apagões intermitentes, como o personagem Daytona, que em momentos únicos volta a tomar consciência do que foi no passado. Mas o filme é mais que isso. Camello, doente terminal, irá morrer com a angústia sobre uma profunda amargura do passado, e vê em Manuel o filho que perdeu, e em sua derradeira ação a possibilidade de reparação psicológica. Abaixo da superfície crua e violenta das relações, o filme é um poderoso poema visual sobre culpa, redenção e paternidade.
Trilha Sonora Para Um Golpe de Estado
3.9 51 Assista AgoraEntre um forte texto que traça um paralelismo entre o colonialismo europeu na África com a segregação racial nos EUA, e o uso da cultura popular como soft power e cortina de fumaça para as maiores atrocidades do campo político em tempos de Guerra Fria, o documentário do realizador belga Johan Grimonprez é, como uma boa peça de jazz, virtuoso em criar um tecido inspirado de imagens alegóricas. Como as da figura de um elefante quase que a flutuar em águas turvas ou carregado por uma grua manipulada por homens brancos, que nos leva a imaginar o continente africano ora tentando seguir seus próprios caminhos, ora sendo manipulado pelas forças imperialistas ocidentais. É um filme que deve ser visto com paciência, há muita informação embasada por documentos textuais e visuais e testemunhos, mas o final impacta mais pela carga emocional. Em tempos na qual a ONU hoje é questionada sobre sua inutilidade frente a investida genocida de Israel, EUA e demais países do Ocidente, o filme já aponta que a ingerência no órgão vem de longe. A história de exploração do Congo e assassinato de líderes de forças de resistência como Patrice Lumumba é revoltante, mas não configura apenas o passado. O filme, em uma montagem que quebra expectativas, mostra que o problema continua. Os esforços contra a "ameaça comunista" já não existem, mas Fukuyama estava errado. Não é o fim da história. Inserções de comerciais de marcas como da Tesla e Iphone da Apple funcionam como um lembrete que o capital continua com seus olhos e membros nos recursos, como as minas de lítio, de países do Sul Global.
Jurado Nº 2
3.6 460 Assista AgoraEm uma cena quase para o desfecho do filme, a promotora (Toni Colleti) e o jurado (Nicholas Hoult) estão a conversar em um banco depois da decisão final do tribunal. Após o personagem do Nicholas sair de cena, com a câmera em plongée, se vê uma estátua da deusa Témis, símbolo da Justiça, com a sua balança de modo súbito a tremular convulsivamente ao vento, como a representar a indecisão moral sobre o conceito de justiça institucional discutido pelos personagens e pelo filme como um todo. Escolha inspirada do Clint que poderia ser a cena final. Entretanto, a conclusão escolhida lembra o desfecho de Mystic River (Sobre Meninos e Lobos), mas aqui sem a sutileza daquele clássico moderno. Mas isso não compromete o resultado final de mais um bom filme do veterano diretor estadunidense
Zoo - Um Z & Dois Zeros
3.7 8"Symetria ominus est". Um poema visual sobre simetria, arte, beleza e decomposição regado a um humor mórbido. Primeira contribuição do Greenway com o renomado fotógrafo Sacha Vierny (Noite e Neblina, Hiroshima mon amour, O Ano Passado em Marienbad). Para quem gosta dos jogos estéticos do diretor galês.
Atração Mortal
3.7 348 Assista AgoraCuriosidades bizarras sobre esse filme: o personagem Peter Dawson, interpretado por Jeremy Applegate, tem uma cena na qual pede a Deus para nunca cometer suicídio. Na vida real cometeu suicídio com uma espingarda em 2000. E a personagem Kim Walker, interpretada por Heather Chandler, que tem uma fala na qual diz “Você teve um tumor cerebral no café da manhã?", morreu em consequência de um tumor cerebral em 2001. A personagem para a qual a fala é dirigida é interpretada pela atriz Shannen Doherty, falecida em julho de 2024, também de câncer.
Tempo de Amar
3.8 10 Assista AgoraPelo que li, é um filme baseado em um conto sufi, que na tradição encara o caminho para o amor de modo místico. Isso ajuda a entender a abordagem aqui, menos verossímil, mais idealizada, ou poética. Na superestrutura as relações e ações das personagens parecem pouco críveis, mas de modo conceitual funcionam melhor, pois se trata aqui do contraste entre o amor por algo em abstrato ou idealizado ao invés do encontro com o real, do amor a uma representação que a figura real representada, da disposição a devoção a uma representação do olhar silencioso que a relação com algo que possa em algum momento se desalinhar em perspectiva. O caminho do amor seria a partir desse conflito interno, no tempo correto, finalmente encarar a concretude da relação amorosa.
Tecnicamente o filme abusa de uma tapeçaria de inspirados frames, planos e close-ups em preto e branco, e algumas excelentes blocagens que indicam as direções às vezes convergentes, às vezes divergentes do casal. Em termos de representação, talvez seja mal visto hoje a forma como se constrói a figura feminina (Meral), sempre solícita ao homem (Halil). Mas é interessante notar que a devoção de Meral por Halil é uma contrapartida a devoção deste pela sua (dela) fotografia. Halil é apaixonado por uma representação, por algo de divino que ele viu naqueles olhos, talvez. Mas Meral, a princípio, se apaixona por Halil por um conceito, por seu amor devoto e incondicional ao retrato. Em uma das cenas, Meral lê "A Arte de Amar", do poeta romano Ovídio, que é praticamente um "O Príncipe" de Maquiavel com relação ao amor. Portanto, há um jogo interessante aqui em relação ao que cada um vê ou procura no outro.
O final deixa claro que eles transcendem essa barreira, mesmo que brevemente.
A Dama das Camélias
4.0 66 Assista AgoraGarbo não convence. Em nenhum momento a fragilidade da personagem parece real, nem sua devoção por Duval. Atuação tão afetada quanto os suntuosos vestidos que ostenta durante o filme. Ser considerada por muitos a melhor performance da atriz sueca, causa-me espanto.
Uma História de Amor Sueca
3.6 59Uma curiosidade sobre esse filme, além da participação silenciosa de Björn Andrésen (Morte em Veneza, Midsommar), é a construção da personagem de Anita Lindblom (Eva), cantora sueca famosa nos anos 60. Entre o contraste da juventude primaveril, descobrindo o que a vida tem de melhor, com o nublado mundo adulto, imerso em frustrações, psicoses e violência doméstica, Eva é aparentemente um sarcástico comentário sobre a atribulada vida da atriz/cantora, que entre polêmicas com o fisco sueco, também manteve um casamento problemático, e sofria de colapsos mentais.
Levados Pelas Marés
3.6 15Filme mais musical do diretor. Feminista sem ser panfletário. Monotemático ao lidar com a radical transformação social da China moderna impelida pelo pujante crescimento econômico do país, Jia se reinventa ao usar material de filmes prévios em uma montagem que mescla experimentalismo com o tradicionalismo das histórias trágicas de amor, abraçando de maneira singular o velho e o novo, o tradicional e o moderno. Além da concepção ideológica, na forma se concretiza pelo contraste entre as gravações de baixa qualidade ao uso de uma câmera de alta definição com movimentação robótica, e também pela própria real transformação física visível de seus atores principais, Tao Zhao e Zhubin Li, em um espaço de quase 20 anos. Nesse ponto, ao usar material antigo como reciclagem para a concepção de um novo filme, Jia traz de modo engenhoso o conceito central de sua obra, da reinvenção e transformação do passado a um presente insólito, mas em seu âmago profundamente carregado de ancestralidade.
Bruges-La-Morte
4.2 1Disponível oficialmente:
vimeo . com /412529232
Hayao Miyazaki e a Garça
4.6 19 Assista AgoraTodo fã do Estúdio Ghibli sabe que um anúncio de aposentadoria de Miyazaki é praticamente uma promessa de um próximo filme no futuro. Por mais que seja viciado em trabalho, o tempo, entretanto, impõe seus limites ao cumprimento dessa quase profecia. Seus amigos e colegas de trabalho estão morrendo um seguido do outro, entre eles o seu mentor Isao Takahata, com quem manteve uma relação de admiração e rivalidade. O velho diretor parece sentir que precisa fazer um filme que tanto lhe ajude a manter ocupado, como lhe dê uma espécie de satisfação psicológica sobre o processo de envelhecimento e finitude. O documentário funciona tanto como uma celebração do espírito criativo, com também uma observação sobre a mente complexa do criador. Mas é menos uma análise técnica do processo de produção de "O Menino e A Garça" que uma investigação sobre seus mecanismos anímicos mais primários. Existe um outro filme que vi antes desse, chamado "2399 Days with Hayao Miyazaki & Studio Ghibli", que parece ser um esboço para esse filme. Parte do material bruto é semelhante, mas aqui há um trabalho melhor de montagem e desenvolvimento.
Mal do Século
3.6 101Interessante visão sobre despertencimento e isolacionismo que vai além das referências óbvias a AIDS. Só achei que atuação de Julianne Moore carrega mais o filme nesse sentido que o filme como um todo.
Gertrud
4.0 35 Assista AgoraGertrud é uma personificação do embate entre idealismo do coração e o materialismo da razão. Entre o fatalismo, marcado e assombrado em sonho e pela sua materialização na pintura de uma mulher nua atacada por uma matilha, e o livre-arbítrio que tanto defende e procura em seus relacionamentos, é difícil discernir no princípio onde se encontra a personagem meramente por suas ações e trejeitos. Seu olhar é quase sempre além, não encontrando o suposto receptor, como quem se fala para uma figura interior, na procura de um entendimento de si (o espelho). No final, a única figura no qual Gertrud manteve uma relação duradoura é com o escritor Axel, aquele que, ainda que não escondesse sua admiração, entendeu essa complexidade e não demandou dela nada além do que ela poderia lhe dar, a atenção e o respeito, e a única verdadeira liberdade de seu ser, a solitude.
Longlegs: Vínculo Mortal
3.2 934 Assista AgoraGosto como o filme não apela para "jump scares", ainda que pareça em alguns momentos que haja um preparo para tal tipo de artifício, restando ao espectador, contudo, uma atmosfera de constante espreita, com ajuda de enquadramentos e profundidade de campo que leva nosso olhar a sempre procurar algo que parece estar escondido. Os inúmeros elementos visuais que permeiam o filme não são imprescindíveis para a apreciação, mas permitem que se desdobre o tema principal do filme, um mal latente que envolve que envolve a sociedade moderna, e como a família é elemento central de sedição interna, tendo a figura paterna o seu perpetrador. Preciso fazer uma revisão, mas pergunto-me se as constantes fotografias de presidentes envolvidos em escândalos (Clinton, Nixon) não configurariam um comentário político sobre a mentira, e como o seu pai ("pai da mentira") está entranhado nos intestinos político-sociais da sociedade estadunidense.
Rei Macaco
1Ao contrário de outras produções baseadas em "Jornada para O Oeste", geralmente chinesas, essa é japonesa. Pelas informações do Wikipédia esse filme foi lançado em DVD em 2021 no Japão somente. Não encontrei cópias alternativas nem em sites especializados. Há uma análise dele em chinês no YouTube na qual podemos ver algumas cenas. O diretor, Kajirô Yamamoto, é mais conhecido por ter revelado um estreante Akira Kurosawa, na época apenas um diretor assistente, em alguns de seus filmes.
The Grim Game
3.0 1youtube . com /watch?v=jmPvYLZ0NbI
Les indiens sont encore loin
1Li que esse filme estava em processo de restauração, mas até agora nada. Achei apenas uma versão de qualidade sofrível.
Ryuichi Sakamoto | Opus
4.3 1Meio que inevitável fazer um paralelo com o Coda (2017). Enquanto o filme anterior se detém no material histórico, motivacional e filosófico por trás da produção musical e estilística de Ryuichi Sakamoto, Opus (2023) se despe de qualquer artifício mais imediato de racionalidade ou complexidade, e foca exclusivamente na música e no instrumentista em seus momentos finais nesse planeta. Não há introdução, narração, ou mesmo legendas nomenando as peças para os não iniciados na música do compositor japonês (há os créditos no final).
A câmera de Neo Sora, filho do compositor, invariavelmente abraça detalhes como os mecanismos internos do piano, os martelos e abafadores, ou as expressões do seu pai, seja de concentração, satisfação ou mesmo esforço, como se tentasse visualmente se conectar com os aspectos mais íntimos de sua alma. É enternecedor ver tanto o compromisso emocional como a aplicação física do debilitado, mas ainda habilidoso artista, acionando cada tecla do piano. Em Coda, Sakamoto revelou sua fascinação pela ideia do som perpétuo. Aqui, agravado pelo seu estado físico, as músicas são tocadas em ritmo mais lento, mas a acústica permite que a reverberação da nota anterior se perpetue por alguns instantes antes da nota seguinte. Penso que Sakamoto adequou sua condição física há essa concepção musical de finitude, mas também de conexão e perpetuação.
Ainda que o foco seja a música, o filme procura manter um retrato fiel do momento crítico do músico. Em certo momento, ele falha numa das peças (Bibo no aozora), continua. Em outro momento balbucia alguma coisa que não entendo (não há legendas). É um filme que deve ser visto sob o contexto do momento, como uma despedida tanto de Sakamoto para a música, como um legado para os que ficam e apreciam sua obra. A última cena do filme é o piano sendo tocado, mas Sakamoto não está mais vísivel. A vida é curta, a arte é longa (Ars longa, vita brevis).
Viagem ao Fim do Universo
3.7 22 Assista AgoraFicção científica tcheca baseada na obra de Stanilaw Len, mesmo autor do famoso Solaris, adaptado para o cinema pelas mãos de Tarkovski. Por ser do mesmo autor, é natural que se veja muita semelhança de atmosfera. A influência ao 2001 de Kubrick também pode ser debatida, ainda que aparentemente não seja algo declarado. Preferencialmente tenho muito mais apreço por essa ficção científica comunista que as fatalistas e distópicas produzidas por influência do realismo capitalista, sempre apontando para conflitos, invasões alienígenas, etc. Ursula K. Le Guin, apesar de norte-americana, entra nesse rol de uma ficção científica que abraça a utopia como horizonte, mas sem fugir das intempéries que a realidade impõe. Neste sentido, vale notar a cena na qual os tripulantes de Ikari dão de encontro com uma amostra do passado, uma nave de séculos atrás, provavelmente norte-americana, e o destino trágico que escondia. Um dos tripulantes nega que aquelas pessoas de um passado distante sejam os seus antepassados, enquanto outro rebate que não podemos escolher nossos ancestrais, eles são o que são. Remete ao conceito "centralidade do presente" adotado por Marx, de ver o presente como um fluxo que ilumina o passado, mas sem adotá-lo como uma régua para entendê-lo com nossos conceitos atuais.
Children of The Beehive
4.1 1Shimizu há tempos já vinha trabalhando com o universo infantil e sua relação com o mundo adulto. Mas nesse, pelo contexto do pós-guerra, todo o drama das crianças parece mais pungente. Logo de início o filme faz referência a outro filme do diretor, filmado durante a guerra em 1941, chamado Mikaheri no Tou (Instrospection Tower), que lidada com crianças problemáticas tentando se adaptar a vida em um reformatório, e a história girava em torno desse contexto de socialização e entendimento da importância do companheirismo, tendo adultos como guias dessa jornada. Aqui o adulto mais importante é um ex-combatente que, voltando a sua terra devastada, observa a vida desregrada de crianças orfãs e sem amparo, precisando ele mesmo encontrar seu caminho, além de, por iniciativa própria, tentar direcionar essas crianças para um futuro mais digno. Há muitos paralelos com o neorrealismo italiano, tanto pelo modo como lida com o espaço físico e sua relação com os personagens (a relação com o mar, a montanha, e os escombros das cidades), como pelo profundo humanismo que perpassa todo o filme.
Four Seasons of Children
4.5 1Meio que uma continuação de "Kaze no naka no kodomo (Children in the Wind)". Gostei mais desse, ainda que aqui o mundo seja muito mais masculinizado. Não vi uma única personagem feminina entre as crianças, nem para fazer um contraste de mundos diferentes entre gêneros, como no filme anterior. Tirando essa detalhe, a construção dramática é melhor construída. O modo como o universo dos adultos, com seus liames, preferências e animosidades, influencia até certo ponto o entendimento e as relações das crianças, e como elas conseguem de modo natural, sem os vícios de caráter e estruturas sociais de pais e mestres, se desvencilhar dessas armadilhas.