Numa Paris distópica, o ato de beijar, considerado repugnante e proibido mesmo entre os casados, é um crime punível com a morte. Ainda, o pagamento pelos serviços é feito na forma de tapas no rosto, proporcionais ao preço equivalente. Dito isso, o foco central deste criativo e instigante curta-metragem (36 minutos), fotografado esplendidamente num gélido preto e branco, é a força do desejo e seu uso como poder subversivo, que é inconsequente, mas, também, propulsor, pois reanima e intensifica. Metaforicamente, tal subversão é elencada no filme como consequência do reacionarismo, totalitarismo e moralismo hipócrita de uma grande parte da sociedade moderna, reprimida silenciosamente pela religião. E, quando falta afeto, a violência gratuita vira espetáculo. Logo, nada mais perigoso para o autoritarismo do que a ternura.
Quando a solidão compartilhada se esbarra no imponderável e faz nascer uma amizade genuína e improvável, porém, brotada do amor pela arte. Ela, Dorothy (a estupenda Miriam Margolyes), 87 anos, branca, viúva, colecionadora de ensaios e aristocrata, e ele, JJ (o iniciante Alistair Nwachukwu), 17 anos, negro e aspirante a ator de teatro de origem humilde. Como uma doce parábola sobre o ver e ser visto, e resvalando no tema envelhecimento, este encantador curta-metragem (21 minutos) constrói um drama emocionante e envolvente, embora cheio de clichês e exageros típicos - o que não se torna verdadeiramente um problema, já que o filme cresce cativante conquistando o espectador por méritos próprios. Um belo exemplo de como a rotina, circundada de sentimentos puros, tem seus encantos.
Num pub isolado numa noite gélida, homens se amontoam preenchendo seus próprios espaços vazios repletos de frustrações e desilusões. Poucos conversam e no local não há espaço pra conflitos físicos, pois o drama desses cidadãos é a incômoda sensação de desgaste pelo tempo, revelada por solfejos irônicos, cigarros baratos e copos com álcool. Até que um improvisado concurso de canto ocorre. Daí, como um gatilho antropológico, os aspectos íntimos e ocultos de todos emergem nas vozes e sons revelando suas necessidades de expor ou recolher-se, mas em busca de afirmação, acolhimento e pertencimento entre os estranhos iguais. Assim é este poético e musical curta-metragem (18 minutos) que, sem oferecer um final resolutivo, aposta na divindade duma noite comum suficiente pra reviver um mínimo de dignidade entre os pares. Emocionante!
Uma verdadeira e engraçada homenagem à escritora britânica Jane Austen, autora de 'Orgulho E Preconceito', cuja história serve como pano de fundo para este satírico curta-metragem que mistura as convenções do Século XIX (o romance é situado na Inglaterra de 1813, em meio às críticas à decadência daquela aristocracia rural) com temas contemporâneos relativos à menstruação, drama real e mensal das mulheres. Em apenas 13 minutos, o curta desencadeia uma leve e cômica narrativa, sob um belíssimo cenário e figurino de época, dos estigmas sociais do período menstrual. Mesmo sendo um filme de uma piada só, há vários sentidos no tema central que se estabelece numa abordagem atrevida, inteligente e hilária. Uma esquete genial!
O mundo anda tão tenso que qualquer situação extraordinária vira motivo de especulação ou teoria conspiratória. Ainda mais no barril de pólvora que é o atual Israel em sua guerra infinita contra a Palestina, na Faixa de Gaza. Neste chocante e inteligente curta-metragem (26 minutos), a acusação sem provas tornou-se trivialidade apenas pelo fato de o açougueiro Samir (Omar Sameer) ser um árabe trabalhando num supermercado em Tel Aviv (a tradução literal do título é "A Mácula Do Açougueiro", ou seja, sua desonra é apenas não ser judeu na capital israelense). Não há tiros, mortes ou barulho de bombas, mas a tensão conflituosa é perene e viva, pois ocorre num nível humano e simples. É um olhar do custo de uma guerra para além dos campos de batalha, o que é assombroso.
Pospor, adiar, postergar, procrastinar, todos são sinônimos e verbos daquilo que lidamos com o nosso tempo neste plano. Pra quê fazer agora se podemos deixar pra depois? Porém, e se não houver o depois ou o tempo depois do tempo? Em apenas 7 minutos, esta tocante animação irlandesa em curta-metragem, cujo título em tradução literal significa "Plano De Aposentadoria", elenca os regozijos de uma vida próxima à perfeição que o sobrecarregado Ray, homem de meia-idade, planeja desfrutar quando aposentar, pois, aí sim, ele terá "tempo". Com jeitão de sem enredo e de design gráfico simples mas inteligente, este reflexivo filme oferece uma profundidade real e sóbria do nosso aprimoramento como ser humano sociável propenso a erros e acertos. Pois o que resta a todos nós, ainda bem, é envelhecer. Então, que saibamos fazê-lo.
Animação em curta-metragem (14 minutos) inspirada em Alfred Nakache, um dos maiores nadadores do estilo borboleta da França. Judeu e oriundo de Constantina, na Argélia, ele, sua mulher e sua filha foram capturados pelos nazistas na Segunda Guerra Mundial, sendo que essas foram assassinadas em Auschwitz, 1944. Sobrevivente, o nadador ainda participou das Olimpíadas de Londres, em 1948, sendo um dos três atletas judeus a competir pós Holocausto. O filme foca em seu último mergulho, pois é um homem intimamente ligado às águas, e, com isso, todas as memórias vêm à tona, tanto as felizes e gloriosas quanto as traumáticas. Acima de tudo, trata-se de uma obra sobre resistência e coragem, trazendo a emoção, sutileza, transformação, transição e poesia que somente a fluidez da água sabe oferecer.
"As Três Irmãs" é uma despretensiosa animação russa em curta-metragem (14 minutos) de estilo simplório, como se desenhada à mão, habilmente elaborada e fantasiosamente satírica. Contando a história das três manas já senhoras que vivem numa ilha remota e, após um episódio fortuito, precisam angariar dinheiro - no caso, com o aluguel da casa de uma delas, o filme lança, nessa nova situação, um olhar perspicaz com homeopáticos toques de humor sem necessitar de diálogos, aludindo às grandes comédias da era muda do cinema, quando o timing cômico e as gags eram indissociáveis à produção. Pena que minimalista demais.
Abrasileirando o título para "A Garota Que Chorava Pérolas", trata-se de uma instigante animação canadense em curta-metragem (17 minutos) onde o avô rememora uma sofrida memória para a sua neta que, sorrateiramente, entrara no escritório e se fascinara com uma pérola sobre a mesa. Perpassando por valores como pobreza, malvadeza, avareza e ganância, o sábio senhor ensina, como uma tapa de luva de pelica, que o amor é maior. E que, principalmente, o valor de um objeto se baseia na história e na importância que se dá a ele. Misturando uma narração estilo contos de fada com marionetes de opulência elegante e decadente, é um pequeno filme inteligente e comovente.
Uma análise poderosa e parcial da questão do aborto a partir da perspectiva de uma diretora de operações de uma clínica de saúde feminina em Atlanta, Geórgia, Estados Unidos da América, onde, sob protestos constantes e pressões crescentes, ela precisa trazer conforto e segurança a todos ali, seja a si própria e à sua equipe ou seja às pacientes vindas de todas as regiões do país em busca de uma solução fácil e rápida. Emergindo reflexões sutis e proveitosas, este impactante documentário em curta-metragem (31 minutos) lança um olhar despretensiosamente complexo sobre os questionamentos morais e éticos do assunto, que evoca cuidados do estado e da religião sendo que ambos apenas apontam os dedos mas nada fazem para evitar a tragédia social da saúde da mulher. Ainda bem que há pessoas importando com pessoas e mandando o diabo se lascar.
Na pulsante Tel Aviv, capital econômica de Israel, vigílias silenciosas israelenses, iniciadas em março de 2025 e ganhando cada vez mais novos adeptos, lamentam e desnudam os números absurdos das crianças palestinas mortas, dolorosamente presentes em centenas de fotografias expostas ao público, pelo poderoso exército de seu país. Mesmo sofrendo ofensas e desprezo de parte dos seus compatriotas, os protestos dos ativistas servem para o confrontar o preço humano de uma guerra. Assim funciona este observacional documentário em curta-metragem (36 minutos), cujo título abrasileirado seria "Crianças Que Não Existem Mais: Eram E Se Foram", produzido sem nenhuma ajuda governamental. Como uma reflexão paradoxal, faz-se possível o pesado silêncio pacificador ecoar bem mais alto que tiros de metralhadoras.
Com seu título estilizado em letras minúsculas (talvez pela justaposição visual apocalíptica entre homem/máquina/natureza), e sendo "perfeitamente uma estranheza" sua tradução literal para o português, este inusitado mas interessante documentário em curta-metragem (15 minutos) segue três burros que descobrem, sob a fascinante luminosidade da Via Láctea do deserto do Atacama, um abandonado observatório astronômico com sua abóbada celeste pintada à mão pelo mais perfeito dos artistas. Sem fala, o efeito sinestésico sensorial que o filme produz é a própria história cinematográfica documentada ao espectador. Infelizmente, esse quê de cinema experimental pode acarretar sensações simplórias ou ineficazes, porém, sem deixar de aguçar sobre o paradeiro da humanidade como um todo.
Lindo e triste, este bom e impactante documentário em curta-metragem (33 minutos) capitaneado pelo jornalista Steve Hartman mergulha e alerta sobre o avassalador efeito duradouro dos tiroteios nas escolas dos Estados Unidos da América, que ocorrem desde o final do século passado em episódios cada vez mais frequentes desde então. Como se fosse um brutal retrato congelado (inclusive, a participação do fotógrafo Lou Bopp é essencial na captação de imagens primordiais), o filme mostra os quartos das crianças mortas nessas tragédias sob camas desarrumadas, pôsteres nas paredes e roupas amontoadas esperando ser usadas novamente. Sucinto, devastador e necessário, é um lembrete amargo e reflexivo diante da narrativa midiática que transforma o horror em rotina.
Este intimista documentário em curta-metragem (37 minutos) retrata a história de vida do cineasta e jornalista Brent Renaud, morto em março de 2022 quando cobria a guerra na Ucrânia. E, de uma maneira reflexiva, destaca o compromisso do jornalismo em registrar o custo humano dos conflitos e crises na superfície terrestre, onde o personagem principal é a própria filmagem. Sendo uma homenagem ao cativante Brent - cujo foco não era estar ali, mas humanizar as pessoas que lá estavam - e aos atuantes na linha de frente, mostrando o quão importante e perigoso é reportar em zonas de combates, como a invasão ao Iraque em 2003, o terremoto de 2010 no Haiti, Guerra ao Terror na Somália pós-2007 e as atrozes rotas migratórias de Honduras para os EUA.
O cinema incipiente do Brasil é um verdadeiro baú esquecido por gerações (cinéfilos ou não), embora haja muita coisa bacana e valorosa sedenta por ser (re)descoberta. Como este singelo curta-metragem, então silencioso, que traz um pequeno pedido de moralidade e bons costumes aos homens boêmios do início do século XX. Com interessantes tomadas externas e uma iluminação caprichosa dos interiores, os apenas 06 minutos de filme conseguem estabelecer uma tenra relação entre história e espectador sem apelar pra teatralidade estabanada dos atores, alicerçados pelos sucintos interlúdios de palavras e alguns estratégicos closes do diretor paulista, ícone da era muda da cinematografia nacional. Uma graciosa obra que não pode se perder no tempo.
Apenas em 1960, por meio de um corajoso e doloroso curta-metragem nordestino, a vida esquecida dos quilombolas descendentes de escravos foi alçada aos grandes olhos do (poder) público brasileiro. Neste caso, os sobreviventes remanescentes moradores na Serra do Talhado, nas proximidades de Santa Luzia e São José de Sabugi, Paraíba, que fazem da terra e do barro o sustento de toda uma comunidade. Sendo um dos percursores do movimento Cinema Novo nacional, por sua áspera crítica à desigualdade social, racial e classicista, o filme bebe da fonte do neorrealismo italiano e oferece questionamentos necessários com escassos recursos, tanto financeiros quanto técnicos, tornando-se uma importante e urgente etnografia visual. Um exemplar da história cinematográfica do Brasil de imagens belas e marcantes em apenas 21 minutos. Ou, como sugere o título, um estado espiritual desejado por homens pretos de fé e perseverança.
A batalha entre a moralidade e a vingança nunca terá razões quando um ente querido é morto e o seu assassino caminha para sofrer a execução da pena de morte. A justaposição dos temas mudança, arrependimento e perdão está bem clara neste documentário em curta-metragem, embora tende a questionar o corredor da morte no estado do Texas por meio das fortes e sinceras emoções evocadas na obra, ora pelo filho da vítima, ora pelo filho do condenado. Os seres humanos são falíveis, mas podem ser, também, redimíveis, e o percurso durante tal sentença deixa muitos feridos em seu rastro. São 37 minutos de um filme que nunca pede liberdade, porém, apresenta os dilemas que um simples pedido de clemência pode propiciar. Interessante e aberto à discussão.
Em tradução literal, o título abrasileirado seria "Na Sombra Do Cipreste". Ou seja, como esta árvore tem um valor associado à longevidade e luto em algumas culturas (na persa, especificamente aqui), este belo curta-metragem em animação faz uma abordagem poética sobre o estresse pós-traumático e as consequências deste transtorno. Em forma de conto minimalista, o filme, sem diálogos e em apenas 20 minutos, oferece, usando métodos mistos de desenhos à mão, várias camadas visuais que, inteligentemente, refletem nas camadas narrativas da história sob os argumentos tradicionais iranianos. E, coberta de simbolismo, resulta numa obra gentil e comovente de gentileza e compaixão. Um pequeno poema cinematográfico que expõe as fragilidades e resistências de cada cidadão.
Necessário e atualíssimo curta-metragem sobre a imigração nos Estados Unidos da América e suas abordagens legais e amorais no processo de busca por cidadania desse país, já que os indocumentados são capturados, no escritório do Serviço de Imigração e Controle de Aduana, durante as entrevistas para tal fim mesmo preenchendo os requisitos básicos verdadeiros. Além de expor as complexidades inerentes ao sistema, o título traz um trocadilho sensacional - "a lien" (um vínculo) por "alien" (estrangeiro). E, mesmo captado por um olhar de uma única família, o filme de apenas 15 minutos não permite um momento para recuperar o fôlego do retrato confinado das casualidades de uma entrevista que deveria ser a esperança de um ser humano em busca do lar - neste caso, um cidadão que apenas nasceu em Honduras e vive, desde 1994, no Queens, Nova York. Para ser sentido e ser enfrentado.
Numa tradução literal, o título deste interessante curta-metragem animado holandês seria "Passear Para Imaginar", que leva o espectador ao que acontece com um grupo de pequenos artistas agora presos em um estúdio após a morte do criador da série infantil que os mesmos estrelavam, nos idos anos 80. Do mundo rico criado pelo homem como proteção emocional e zona de conforto ao aterrorizante cenário nascido do isolamento e solidão, o filme, de apenas 14 minutos, é, primordialmente, sobre as diferentes formas do luto e, finalmente, na esperançosa aceitação do novo que sempre chega. Com um trabalho de modelo magnífico, é uma maravilhosa animação em stop motion que não tem medo de ficar mais sombriamente maluca que já é.
Ao analisar este interessante documentário em curta-metragem (tradução literal do título "Instrumentos De Um Coração Pulsante"), o espectador já aciona a luzinha amarela da interrogação - o que o Japão ensina às suas crianças? Acontece que o fato vai muito além do que treinar alunos do 2º ano para recepcionar os do 1º tocando instrumentos de percussão sob o clássico 'Ode To Joy' de Beethoven, encapsula todos os valores e a ética de trabalho em conjunto tão normalizados no país do sol nascente. Subestimadas no mundo ocidental, a harmonia e a consideração pelo outro figuram como características inatas japonesas. E aqui, em 23 minutos, a diretora, subliminarmente, traça um paralelo com a educação infantil do Ocidente, como um teste de Rorschach ao contrário: a pequena aluna Ayame sendo repreendida em frente à toda classe pode gerar desconforto aos pais americanos, mas onde deveria estar o equilíbrio entre disciplina e liberdade?
Sobre a brutalidade policial estadunidense, este interessante curta-metragem documental explora o assassinato do barbeiro preto Harith "Snoop" Augustus, em 2018, por meio tanto das câmeras corporais quanto das imagens de vigilância da rua do incidente. Tal fato, ocorrido em Chicago, efervesceu as manifestações contra abusos da polícia, principalmente sobre os negros, na cidade e por todo o país posteriormente. O diretor, alcunhado pelo The New York Times como "o eminente poeta dos filmes perdidos", mostrou ao público que um fato pode ser interpretado de diferentes maneiras dependendo de quem o relata (tal qual o clássico japonês 'Rashomon', 1950, de Akira Kurosawa). Assim, na busca pela chamada verdade objetiva, esta fita, de 30 minutos, recria o evento e suas consequências, apresentando justificativas vãs, altercações e tentativas de fuga da cena do crime.
Gravado em hindi, este bom curta-metragem conta a história de Anuja (derivado da palavra sânscrita que significa "irmãzinha" e interpretada por Sajda Pathan), uma talentosa menina de 9 anos que enfrenta uma oportunidade de mudança de vida, porém, testando o vínculo afetivo com sua irmã Palak (Ananya Shanbhag) numa difícil decisão que ressoa em muitas crianças que enfrentam desafio semelhante globalmente. Em 22 minutos de uma narrativa contida mas poderosa, este filme transmite uma mensagem urgente sem apelar aos sentimentalismos evidentes cheios de clichês do gênero, tornando-se uma obra, no mínimo, instigante. Além disso, é uma representação suave e educada de uma infância roubada que, ocasionalmente, esconde seus lápis cor-de-rosa oferecendo uma pintura mais atroz. Uma exploração sincera do amor, família e resiliência que, infelizmente, visualiza-se em imagens desbotadas e mal esmeradas, carecendo de maior capricho.
Após um teste de captcha em seu notebook, Lara (Ellen Parren) não consegue comprovar sua autenticidade como pessoa e, depois de várias perguntas e tratativas, recebe o diagnóstico de que, com 87% de chance segundo o programa do computador, é um robô. Acompanhando essa crise de identidade, uma nova e estranha realidade se abre e o filme se transforma num surrealismo dramático e assustador sobre a autonomia humana. Assim, este curta-metragem de apenas 22 minutos traz um choque sinestésico sombriamente cômico para o universo da tecnologia da informação - o que significa ser humano? A contraposição do personagem masculino Daniël (Henry van Loon) exclui a resposta por sentimentos, já que este, egoísta, pensa somente na sua dor. Nem mesmo a conversa sobre diversidade no trabalho da protagonista elucida a questão supracitada. Porém a cena final dá um sopro de certeza: os humanos vivem porque morrem. Disponível com legenda em inglês no YouTube.
Duas Pessoas Trocando Saliva
3.6 31Numa Paris distópica, o ato de beijar, considerado repugnante e proibido mesmo entre os casados, é um crime punível com a morte. Ainda, o pagamento pelos serviços é feito na forma de tapas no rosto, proporcionais ao preço equivalente. Dito isso, o foco central deste criativo e instigante curta-metragem (36 minutos), fotografado esplendidamente num gélido preto e branco, é a força do desejo e seu uso como poder subversivo, que é inconsequente, mas, também, propulsor, pois reanima e intensifica. Metaforicamente, tal subversão é elencada no filme como consequência do reacionarismo, totalitarismo e moralismo hipócrita de uma grande parte da sociedade moderna, reprimida silenciosamente pela religião. E, quando falta afeto, a violência gratuita vira espetáculo. Logo, nada mais perigoso para o autoritarismo do que a ternura.
Um Amigo de Dorothy
3.7 20Quando a solidão compartilhada se esbarra no imponderável e faz nascer uma amizade genuína e improvável, porém, brotada do amor pela arte. Ela, Dorothy (a estupenda Miriam Margolyes), 87 anos, branca, viúva, colecionadora de ensaios e aristocrata, e ele, JJ (o iniciante Alistair Nwachukwu), 17 anos, negro e aspirante a ator de teatro de origem humilde. Como uma doce parábola sobre o ver e ser visto, e resvalando no tema envelhecimento, este encantador curta-metragem (21 minutos) constrói um drama emocionante e envolvente, embora cheio de clichês e exageros típicos - o que não se torna verdadeiramente um problema, já que o filme cresce cativante conquistando o espectador por méritos próprios. Um belo exemplo de como a rotina, circundada de sentimentos puros, tem seus encantos.
Os Cantores
3.5 41 Assista AgoraNum pub isolado numa noite gélida, homens se amontoam preenchendo seus próprios espaços vazios repletos de frustrações e desilusões. Poucos conversam e no local não há espaço pra conflitos físicos, pois o drama desses cidadãos é a incômoda sensação de desgaste pelo tempo, revelada por solfejos irônicos, cigarros baratos e copos com álcool. Até que um improvisado concurso de canto ocorre. Daí, como um gatilho antropológico, os aspectos íntimos e ocultos de todos emergem nas vozes e sons revelando suas necessidades de expor ou recolher-se, mas em busca de afirmação, acolhimento e pertencimento entre os estranhos iguais. Assim é este poético e musical curta-metragem (18 minutos) que, sem oferecer um final resolutivo, aposta na divindade duma noite comum suficiente pra reviver um mínimo de dignidade entre os pares. Emocionante!
O Drama Menstrual de Jane Austen
3.6 30 Assista AgoraUma verdadeira e engraçada homenagem à escritora britânica Jane Austen, autora de 'Orgulho E Preconceito', cuja história serve como pano de fundo para este satírico curta-metragem que mistura as convenções do Século XIX (o romance é situado na Inglaterra de 1813, em meio às críticas à decadência daquela aristocracia rural) com temas contemporâneos relativos à menstruação, drama real e mensal das mulheres. Em apenas 13 minutos, o curta desencadeia uma leve e cômica narrativa, sob um belíssimo cenário e figurino de época, dos estigmas sociais do período menstrual. Mesmo sendo um filme de uma piada só, há vários sentidos no tema central que se estabelece numa abordagem atrevida, inteligente e hilária. Uma esquete genial!
Butcher's Stain
3.3 18O mundo anda tão tenso que qualquer situação extraordinária vira motivo de especulação ou teoria conspiratória. Ainda mais no barril de pólvora que é o atual Israel em sua guerra infinita contra a Palestina, na Faixa de Gaza. Neste chocante e inteligente curta-metragem (26 minutos), a acusação sem provas tornou-se trivialidade apenas pelo fato de o açougueiro Samir (Omar Sameer) ser um árabe trabalhando num supermercado em Tel Aviv (a tradução literal do título é "A Mácula Do Açougueiro", ou seja, sua desonra é apenas não ser judeu na capital israelense). Não há tiros, mortes ou barulho de bombas, mas a tensão conflituosa é perene e viva, pois ocorre num nível humano e simples. É um olhar do custo de uma guerra para além dos campos de batalha, o que é assombroso.
Retirement Plan
3.8 27Pospor, adiar, postergar, procrastinar, todos são sinônimos e verbos daquilo que lidamos com o nosso tempo neste plano. Pra quê fazer agora se podemos deixar pra depois? Porém, e se não houver o depois ou o tempo depois do tempo? Em apenas 7 minutos, esta tocante animação irlandesa em curta-metragem, cujo título em tradução literal significa "Plano De Aposentadoria", elenca os regozijos de uma vida próxima à perfeição que o sobrecarregado Ray, homem de meia-idade, planeja desfrutar quando aposentar, pois, aí sim, ele terá "tempo". Com jeitão de sem enredo e de design gráfico simples mas inteligente, este reflexivo filme oferece uma profundidade real e sóbria do nosso aprimoramento como ser humano sociável propenso a erros e acertos. Pois o que resta a todos nós, ainda bem, é envelhecer. Então, que saibamos fazê-lo.
Borboleta
3.8 31Animação em curta-metragem (14 minutos) inspirada em Alfred Nakache, um dos maiores nadadores do estilo borboleta da França. Judeu e oriundo de Constantina, na Argélia, ele, sua mulher e sua filha foram capturados pelos nazistas na Segunda Guerra Mundial, sendo que essas foram assassinadas em Auschwitz, 1944. Sobrevivente, o nadador ainda participou das Olimpíadas de Londres, em 1948, sendo um dos três atletas judeus a competir pós Holocausto. O filme foca em seu último mergulho, pois é um homem intimamente ligado às águas, e, com isso, todas as memórias vêm à tona, tanto as felizes e gloriosas quanto as traumáticas. Acima de tudo, trata-se de uma obra sobre resistência e coragem, trazendo a emoção, sutileza, transformação, transição e poesia que somente a fluidez da água sabe oferecer.
As Três Irmãs
2.7 28"As Três Irmãs" é uma despretensiosa animação russa em curta-metragem (14 minutos) de estilo simplório, como se desenhada à mão, habilmente elaborada e fantasiosamente satírica. Contando a história das três manas já senhoras que vivem numa ilha remota e, após um episódio fortuito, precisam angariar dinheiro - no caso, com o aluguel da casa de uma delas, o filme lança, nessa nova situação, um olhar perspicaz com homeopáticos toques de humor sem necessitar de diálogos, aludindo às grandes comédias da era muda do cinema, quando o timing cômico e as gags eram indissociáveis à produção. Pena que minimalista demais.
A Garota Que Chorava Pérolas
3.9 31Abrasileirando o título para "A Garota Que Chorava Pérolas", trata-se de uma instigante animação canadense em curta-metragem (17 minutos) onde o avô rememora uma sofrida memória para a sua neta que, sorrateiramente, entrara no escritório e se fascinara com uma pérola sobre a mesa. Perpassando por valores como pobreza, malvadeza, avareza e ganância, o sábio senhor ensina, como uma tapa de luva de pelica, que o amor é maior. E que, principalmente, o valor de um objeto se baseia na história e na importância que se dá a ele. Misturando uma narração estilo contos de fada com marionetes de opulência elegante e decadente, é um pequeno filme inteligente e comovente.
O Diabo Não Tem Descanso
3.6 25 Assista AgoraUma análise poderosa e parcial da questão do aborto a partir da perspectiva de uma diretora de operações de uma clínica de saúde feminina em Atlanta, Geórgia, Estados Unidos da América, onde, sob protestos constantes e pressões crescentes, ela precisa trazer conforto e segurança a todos ali, seja a si própria e à sua equipe ou seja às pacientes vindas de todas as regiões do país em busca de uma solução fácil e rápida. Emergindo reflexões sutis e proveitosas, este impactante documentário em curta-metragem (31 minutos) lança um olhar despretensiosamente complexo sobre os questionamentos morais e éticos do assunto, que evoca cuidados do estado e da religião sendo que ambos apenas apontam os dedos mas nada fazem para evitar a tragédia social da saúde da mulher. Ainda bem que há pessoas importando com pessoas e mandando o diabo se lascar.
Children No More: Were and Are Gone
3.3 23Na pulsante Tel Aviv, capital econômica de Israel, vigílias silenciosas israelenses, iniciadas em março de 2025 e ganhando cada vez mais novos adeptos, lamentam e desnudam os números absurdos das crianças palestinas mortas, dolorosamente presentes em centenas de fotografias expostas ao público, pelo poderoso exército de seu país. Mesmo sofrendo ofensas e desprezo de parte dos seus compatriotas, os protestos dos ativistas servem para o confrontar o preço humano de uma guerra. Assim funciona este observacional documentário em curta-metragem (36 minutos), cujo título abrasileirado seria "Crianças Que Não Existem Mais: Eram E Se Foram", produzido sem nenhuma ajuda governamental. Como uma reflexão paradoxal, faz-se possível o pesado silêncio pacificador ecoar bem mais alto que tiros de metralhadoras.
Perfectly a Strangeness
2.5 29Com seu título estilizado em letras minúsculas (talvez pela justaposição visual apocalíptica entre homem/máquina/natureza), e sendo "perfeitamente uma estranheza" sua tradução literal para o português, este inusitado mas interessante documentário em curta-metragem (15 minutos) segue três burros que descobrem, sob a fascinante luminosidade da Via Láctea do deserto do Atacama, um abandonado observatório astronômico com sua abóbada celeste pintada à mão pelo mais perfeito dos artistas. Sem fala, o efeito sinestésico sensorial que o filme produz é a própria história cinematográfica documentada ao espectador. Infelizmente, esse quê de cinema experimental pode acarretar sensações simplórias ou ineficazes, porém, sem deixar de aguçar sobre o paradeiro da humanidade como um todo.
Quartos Vazios
3.7 38 Assista AgoraLindo e triste, este bom e impactante documentário em curta-metragem (33 minutos) capitaneado pelo jornalista Steve Hartman mergulha e alerta sobre o avassalador efeito duradouro dos tiroteios nas escolas dos Estados Unidos da América, que ocorrem desde o final do século passado em episódios cada vez mais frequentes desde então. Como se fosse um brutal retrato congelado (inclusive, a participação do fotógrafo Lou Bopp é essencial na captação de imagens primordiais), o filme mostra os quartos das crianças mortas nessas tragédias sob camas desarrumadas, pôsteres nas paredes e roupas amontoadas esperando ser usadas novamente. Sucinto, devastador e necessário, é um lembrete amargo e reflexivo diante da narrativa midiática que transforma o horror em rotina.
Armado com uma Câmera: Vida e Morte de Brent Renaud
3.4 30 Assista AgoraEste intimista documentário em curta-metragem (37 minutos) retrata a história de vida do cineasta e jornalista Brent Renaud, morto em março de 2022 quando cobria a guerra na Ucrânia. E, de uma maneira reflexiva, destaca o compromisso do jornalismo em registrar o custo humano dos conflitos e crises na superfície terrestre, onde o personagem principal é a própria filmagem. Sendo uma homenagem ao cativante Brent - cujo foco não era estar ali, mas humanizar as pessoas que lá estavam - e aos atuantes na linha de frente, mostrando o quão importante e perigoso é reportar em zonas de combates, como a invasão ao Iraque em 2003, o terremoto de 2010 no Haiti, Guerra ao Terror na Somália pós-2007 e as atrozes rotas migratórias de Honduras para os EUA.
Exemplo regenerador
3.1 8O cinema incipiente do Brasil é um verdadeiro baú esquecido por gerações (cinéfilos ou não), embora haja muita coisa bacana e valorosa sedenta por ser (re)descoberta. Como este singelo curta-metragem, então silencioso, que traz um pequeno pedido de moralidade e bons costumes aos homens boêmios do início do século XX. Com interessantes tomadas externas e uma iluminação caprichosa dos interiores, os apenas 06 minutos de filme conseguem estabelecer uma tenra relação entre história e espectador sem apelar pra teatralidade estabanada dos atores, alicerçados pelos sucintos interlúdios de palavras e alguns estratégicos closes do diretor paulista, ícone da era muda da cinematografia nacional. Uma graciosa obra que não pode se perder no tempo.
Aruanda
4.1 29Apenas em 1960, por meio de um corajoso e doloroso curta-metragem nordestino, a vida esquecida dos quilombolas descendentes de escravos foi alçada aos grandes olhos do (poder) público brasileiro. Neste caso, os sobreviventes remanescentes moradores na Serra do Talhado, nas proximidades de Santa Luzia e São José de Sabugi, Paraíba, que fazem da terra e do barro o sustento de toda uma comunidade. Sendo um dos percursores do movimento Cinema Novo nacional, por sua áspera crítica à desigualdade social, racial e classicista, o filme bebe da fonte do neorrealismo italiano e oferece questionamentos necessários com escassos recursos, tanto financeiros quanto técnicos, tornando-se uma importante e urgente etnografia visual. Um exemplar da história cinematográfica do Brasil de imagens belas e marcantes em apenas 21 minutos. Ou, como sugere o título, um estado espiritual desejado por homens pretos de fé e perseverança.
I Am Ready, Warden
3.4 28A batalha entre a moralidade e a vingança nunca terá razões quando um ente querido é morto e o seu assassino caminha para sofrer a execução da pena de morte. A justaposição dos temas mudança, arrependimento e perdão está bem clara neste documentário em curta-metragem, embora tende a questionar o corredor da morte no estado do Texas por meio das fortes e sinceras emoções evocadas na obra, ora pelo filho da vítima, ora pelo filho do condenado. Os seres humanos são falíveis, mas podem ser, também, redimíveis, e o percurso durante tal sentença deixa muitos feridos em seu rastro. São 37 minutos de um filme que nunca pede liberdade, porém, apresenta os dilemas que um simples pedido de clemência pode propiciar. Interessante e aberto à discussão.
In The Shadow Of the Cypress
3.7 29Em tradução literal, o título abrasileirado seria "Na Sombra Do Cipreste". Ou seja, como esta árvore tem um valor associado à longevidade e luto em algumas culturas (na persa, especificamente aqui), este belo curta-metragem em animação faz uma abordagem poética sobre o estresse pós-traumático e as consequências deste transtorno. Em forma de conto minimalista, o filme, sem diálogos e em apenas 20 minutos, oferece, usando métodos mistos de desenhos à mão, várias camadas visuais que, inteligentemente, refletem nas camadas narrativas da história sob os argumentos tradicionais iranianos. E, coberta de simbolismo, resulta numa obra gentil e comovente de gentileza e compaixão. Um pequeno poema cinematográfico que expõe as fragilidades e resistências de cada cidadão.
A Lien
3.7 36Necessário e atualíssimo curta-metragem sobre a imigração nos Estados Unidos da América e suas abordagens legais e amorais no processo de busca por cidadania desse país, já que os indocumentados são capturados, no escritório do Serviço de Imigração e Controle de Aduana, durante as entrevistas para tal fim mesmo preenchendo os requisitos básicos verdadeiros. Além de expor as complexidades inerentes ao sistema, o título traz um trocadilho sensacional - "a lien" (um vínculo) por "alien" (estrangeiro). E, mesmo captado por um olhar de uma única família, o filme de apenas 15 minutos não permite um momento para recuperar o fôlego do retrato confinado das casualidades de uma entrevista que deveria ser a esperança de um ser humano em busca do lar - neste caso, um cidadão que apenas nasceu em Honduras e vive, desde 1994, no Queens, Nova York. Para ser sentido e ser enfrentado.
Wander to Wonder
3.3 31Numa tradução literal, o título deste interessante curta-metragem animado holandês seria "Passear Para Imaginar", que leva o espectador ao que acontece com um grupo de pequenos artistas agora presos em um estúdio após a morte do criador da série infantil que os mesmos estrelavam, nos idos anos 80. Do mundo rico criado pelo homem como proteção emocional e zona de conforto ao aterrorizante cenário nascido do isolamento e solidão, o filme, de apenas 14 minutos, é, primordialmente, sobre as diferentes formas do luto e, finalmente, na esperançosa aceitação do novo que sempre chega. Com um trabalho de modelo magnífico, é uma maravilhosa animação em stop motion que não tem medo de ficar mais sombriamente maluca que já é.
Instruments of a Beating Heart
3.6 30Ao analisar este interessante documentário em curta-metragem (tradução literal do título "Instrumentos De Um Coração Pulsante"), o espectador já aciona a luzinha amarela da interrogação - o que o Japão ensina às suas crianças? Acontece que o fato vai muito além do que treinar alunos do 2º ano para recepcionar os do 1º tocando instrumentos de percussão sob o clássico 'Ode To Joy' de Beethoven, encapsula todos os valores e a ética de trabalho em conjunto tão normalizados no país do sol nascente. Subestimadas no mundo ocidental, a harmonia e a consideração pelo outro figuram como características inatas japonesas. E aqui, em 23 minutos, a diretora, subliminarmente, traça um paralelo com a educação infantil do Ocidente, como um teste de Rorschach ao contrário: a pequena aluna Ayame sendo repreendida em frente à toda classe pode gerar desconforto aos pais americanos, mas onde deveria estar o equilíbrio entre disciplina e liberdade?
Incident
3.7 33Sobre a brutalidade policial estadunidense, este interessante curta-metragem documental explora o assassinato do barbeiro preto Harith "Snoop" Augustus, em 2018, por meio tanto das câmeras corporais quanto das imagens de vigilância da rua do incidente. Tal fato, ocorrido em Chicago, efervesceu as manifestações contra abusos da polícia, principalmente sobre os negros, na cidade e por todo o país posteriormente. O diretor, alcunhado pelo The New York Times como "o eminente poeta dos filmes perdidos", mostrou ao público que um fato pode ser interpretado de diferentes maneiras dependendo de quem o relata (tal qual o clássico japonês 'Rashomon', 1950, de Akira Kurosawa). Assim, na busca pela chamada verdade objetiva, esta fita, de 30 minutos, recria o evento e suas consequências, apresentando justificativas vãs, altercações e tentativas de fuga da cena do crime.
Anuja
3.4 49 Assista AgoraGravado em hindi, este bom curta-metragem conta a história de Anuja (derivado da palavra sânscrita que significa "irmãzinha" e interpretada por Sajda Pathan), uma talentosa menina de 9 anos que enfrenta uma oportunidade de mudança de vida, porém, testando o vínculo afetivo com sua irmã Palak (Ananya Shanbhag) numa difícil decisão que ressoa em muitas crianças que enfrentam desafio semelhante globalmente. Em 22 minutos de uma narrativa contida mas poderosa, este filme transmite uma mensagem urgente sem apelar aos sentimentalismos evidentes cheios de clichês do gênero, tornando-se uma obra, no mínimo, instigante. Além disso, é uma representação suave e educada de uma infância roubada que, ocasionalmente, esconde seus lápis cor-de-rosa oferecendo uma pintura mais atroz. Uma exploração sincera do amor, família e resiliência que, infelizmente, visualiza-se em imagens desbotadas e mal esmeradas, carecendo de maior capricho.
I’m Not a Robot
3.4 40Após um teste de captcha em seu notebook, Lara (Ellen Parren) não consegue comprovar sua autenticidade como pessoa e, depois de várias perguntas e tratativas, recebe o diagnóstico de que, com 87% de chance segundo o programa do computador, é um robô. Acompanhando essa crise de identidade, uma nova e estranha realidade se abre e o filme se transforma num surrealismo dramático e assustador sobre a autonomia humana. Assim, este curta-metragem de apenas 22 minutos traz um choque sinestésico sombriamente cômico para o universo da tecnologia da informação - o que significa ser humano? A contraposição do personagem masculino Daniël (Henry van Loon) exclui a resposta por sentimentos, já que este, egoísta, pensa somente na sua dor. Nem mesmo a conversa sobre diversidade no trabalho da protagonista elucida a questão supracitada. Porém a cena final dá um sopro de certeza: os humanos vivem porque morrem. Disponível com legenda em inglês no YouTube.