Bem à frente do seu tempo, talvez este importante filme seja mais verdadeiro hoje do que à época do lançamento, quando, inclusive, a crítica especializada não digeriu muito bem o aviso dado pelo mestre Elia Kazan. Pois é no histrionismo da atual farsa midiática que surgem pseudoconselheiros aos borbotões, usando e abusando dos seus quinze minutos de fama e, invariavelmente, caindo no esquecimento subsequente. Na sociedade do espetáculo, ascensão e queda são dois lados da mesma moeda, onde o público, cúmplice, submete-se contra seus próprios interesses devido à manipuladora massificação. E é em forma de sátira mordaz e corajosa que este longa apresenta personagens tão familiares ao espectador que chega a despertar horror e medo com tais semelhanças: os ídolos domésticos de barro. Ou seja, um ode às celebridades efêmeras e às estranhezas oriundas do poder.
Considerado o mais importante filme filipino de todos os tempos, há algo devastador aqui muito próximo à vida de um país de terceiro mundo, ainda emergente, vivida sob uma ditadura nos anos 70. Marginalmente produzido na era Marcos, em plena lei marcial autocrática, temas como exclusão social, prostituição, corrupção e miserabilidade são expostos em várias camadas na trama, ora sutis, ora escancaradas, funcionando contundentemente como um cinema denúncia bastante acusatório. E, sem filtro e sem maquiagem, por mais que a tristeza esteja latente, não há espaço para lamentações, embora a esperança, frequentemente sentida nos diálogos entre os personagens, desaparece nas primeiras tomadas da realidade diária. Sobre o impacto devastador da pobreza na saúde mental e física do indivíduo, eis um neorrealista melodrama proletário de amor e (por quê não?) loucura.
Com um título abrasileirado desproposital e tendo as mesas de sinuca como pano de fundo, esta é uma obra cinematográfica séria e adulta que desnuda um ser humano autodestrutivo, num estudo de personagem eficiente e visceral. Perpassa pelo clichê do malandro novato vislumbrando o topo e navega firmemente sobre o drama psicológico do protagonista (Paul Newman novinho e sedutor numa bela atuação, assim como todo o elenco) habilidoso mas arrogante, em seu vazio e enfado. Dentro da montagem do filme, é necessário notar as escassas tomadas de cenas externas, como se o ambiente de tela permanecesse propositalmente claustrofóbico assim como o vício do jogo e bebida se apresenta ao jogador Eddie 'Fast' Felson. Em suma, uma fábula desinibida do "sonho americano" pelo sucesso e fama sem escrúpulos.
Político, humanista, iconoclasta e brilhante, assim pode ser definido este documentário em curta-metragem da poetisa feminista iraniana Forugh Farrokhzad, em seu único trabalho como diretora. Em apenas 22 minutos, sua câmera afiada trafega por uma casa de leprosos retratando tanto a feiura não distorcida daquela realidade miserável quanto a beleza das vidas habitadas e existidas ali, sob a narração intercalada de citações do Antigo Testamento, do Alcorão e da própria poesia de Farrokhzad. Ao conseguir justapor os males do mundo à religião e à gratidão, e bebendo da fonte do neorrealismo italiano, este aclamado filme tornou-se um marco da New Wave (Nova Onda) do cinema do Irã, crescendo exponencialmente com o passar dos anos e, por conseguinte, indispensável à história cinematográfica daquele país.
Mais do que apenas um filme de romance açucarado, trata-se especificamente sobre o amor e as percepções das diferenças entre os casais. Neste caso, um par protagonista bastante oposto. Ela, Katie (a belíssima Barbra Streisand carregando o longa), judia e fervorosa militante comunista, e ele, Hubbell (o sempre lindo Robert Redford), um jovem atleta pequeno burguês apolítico que gosta de escrever contos. Duas melodias distintas tocando, cada uma, em seu uníssono, a fim de formar a sinfonia perfeita movida apenas, e tão somente, pelo amor, variando entre tons de dor, paixão e tristeza numa roda-gigante por vezes monótona e despretensiosa. Porém, carrega uma questão ainda atual: a não aceitação do contraditório, quando qualquer conversa vira bate-boca. É uma obra de ritmo lento, mas envolvente e cativante dentro do saboroso arco romântico retratado. Paradoxalmente, antissentimental.
Ao revisitar esta distinta obra-prima, percebe-se o quão valiosa e poética é a câmera do diretor soviético. Pois, funcionando como suas lembranças, eis um sublime filme levemente autobiográfico repleto de visuais e sons que apenas as paredes da memória são capazes de fornecer. Lírico, profundo, intenso e incrível, e de modo não convencional onde o indefinível penetra a monotonia, é sobre as dores e as delícias cicatrizadas, em cada cidadão, por essa divindade chamada vida. Passado, presente e futuro coexistindo em peso, como reflexos. Ou seja, demonstrando que talvez o maior medo dos pais/filhos seja realmente o espelho se quebrar. Recomenda-se entregar-se ao deleite estético e imagético do longa, neste onirismo hipnotizante que iguala o mundano ao milagroso.
Embora se enquadre no gênero de ficção científica pós-apocalíptica, este interessante e peculiar filme retrata primordialmente dos dilemas neuroexistenciais da humanidade, como solidão, futuro tecnológico e fé, dentro da famigerada soberba do homem que brinca de ser Deus. Sobre um cientista neozelandês (Bruno Lawrence) que, um dia, acorda e percebe-se sozinho na Terra, os efeitos visuais, simples, são substituídos pelos dramas psicológicos dos parcos personagens, numa trama que, apesar de crua e cheia de buracos, é envolvente e oferece a ambiguidade necessária às discussões nas mesas de bar após os créditos finais, principalmente sobre a última cena, centrada entre a cosmologia do uni(multi)verso e a escatologia concreta. Uma obra refrescante, vibrante e límbica merecedora de maior valoração.
Uma simpática mistura contemporânea de faroeste, sátira política e crítica social sobre a pandemia da covid-19 e suas curiosas consequências, tão divisivas naquele período quanto atualmente - como a obrigatoriedade de usar a máscara, por exemplo. Mas, sobretudo, quanto às redes (anti)sociais que, além de dialogarem, condicionam o mundo real de maneira abrupta e imaterial. Aqui, neste interessante e valioso filme, a verdade absoluta é travada pelas batalhas de narrativas entre figuras humanamente ridículas e instáveis, começando com as agressões por vídeos e finalizando em balas ricocheteadas. Embora bagunçado, desfocado e surreal, é o cinema cético de um mundo em ruínas num momento insensato da história que, casualmente, é o hoje.
Venerado como santo na Igreja Católica Ortodoxa Oriental, Andrei Rublev, que vivera na transição do Século XIV para o XV, foi um dos maiores pintores russos medievais de signos e afrescos cristãos. Assim, baseado vagamente na vida desse artista, este épico e dramático filme funciona como uma identidade histórica de um período turbulento da Rússia, com conflitos incessantes entre príncipes rivais, invasões tártaras e a pesada mão do cristianismo, moldando o que viria a ser aquele grande país. Acima de tudo, busca detalhar a interseção entre fé e arte, sendo que, para o diretor soviético, essa é necessária para esta. Logo, em pleno ateísmo de Estado quando do lançamento, a obra sofreu diversas censuras e cortes, tendo várias versões espalhadas por aí. Porém, é um cinema altamente original, cerebral, poético e grandioso, rico em detalhes visuais iconográficos identitários.
Excêntrico, nonsense e alucinógeno, este belo e espiritual filme britânico é, essencialmente, sobre o amor. Com ares de megalomania do espetáculo cinematográfico, a história fantasiosa e criativa, mesmo em cima de um assunto doloroso como a morte, alude à esperança de um mundo melhor (visto ser ambientado ao fim da Segunda Guerra Mundial e em consolo a tantos que perderam entes queridos) tendo o sentimento amoroso como sua base sólida e edificante. Satirizando ingleses e estadunidenses nas suas paixões por conflitos, o longa ainda traz o "juridiquês" burocrático pra tela num terceiro ato brilhante e icônico com carga emocional à la Frank Capra. Sem contar a cena da incessante escada para o céu, ou, como preferirem, "starway to heaven". Um fabuloso drama romântico desvairado, criativo e agradável.
Um belo e subversivo exemplo do famigerado novo cinema iraniano, o qual abraça o tradicionalismo das clãs nômades daquele país ao mesmo tempo que clama a esperança pela liberdade feminina e amorosa. Talhado no gabbeh, o tradicional tapete produzido pela tribo Gashghai, contém a história da jovem e bela Gabbeh, que aparece como uma mágica diante de um casal apaixonado de idosos e sonha em partir com seu amado cavaleiro errante, sob as aventuras de suas andanças entre cores e dramas. De maneira onírica, romântica e irrealista, o filme, às vezes executado de forma confusa, funciona como uma meditação por meio da poesia visual evocada pela câmera em planos fechados do diretor, além de ser uma declaração de amor às tecelãs do Irã, que, assim como a cinematografia, entrelaçam os diferentes fios resultando em histórias bonitas, inusitadas e instigantes. Uma obra de beleza deslumbrante e encantadora.
Ícone lendário do cartoon underground estadunidense, Robert Crumb trafega na tênue linha do misógino escatológico pornográfico ou gênio transgressor neuroexistencial, sendo, literalmente, 08 ou 80 na percepção da sua arte e, conforme demonstrado neste curioso documentário, vida. Ao retratar o caminho trilhado pelo cartunista supracitado e em companhia dos excêntricos irmãos, este filme também demonstra como a criatividade artística é movida pelo caos, já que o impacto cultural dessa família estranha deriva originariamente de um punitivismo e rigidez paternos, criando traumas e, principalmente, bichos. Cativante, perturbador, hilário e sombrio, o longa funciona mesmo sem o espectador saber da existência de R. Crumb, pois, além de focar num mestre dos quadrinhos, desnuda os mistérios de uma engenhosidade imaginativa prática e louca.
Antes de entrar na literalidade do título abrasileirado, é preciso saber que a tradução literal deste excelente western estadunidense é "A Espora Nua", quando, conotativamente, essa tal espora venha a ter vários significados, inclusive sendo uma peça fundamental na história. Porém, apesar dos ingredientes do gênero, pode-se inferir se tratar de um faroeste psicológico, retratando uma complexa e perigosa jornada, sob a belíssima figuração de montanhas e rios, de ganância, avareza, cobiça e traumas, onde todos desconfiam de todos nesse redemoinho de emoções conflitantes. Mas, ainda assim, havendo espaço para brotar emoções bondosas, o que, de certa maneira, acarretou num final abrupto e professoral - será que o preço de um homem é o amor? E um salve para a ambiguidade cênica do mestre James Stewart!
Uma verdadeira comédia dramática do absurdo brilhantemente bizarra. Ambientada numa hipotética e entediante Winnipeg, Canadá, sua língua oficial é a persa, embora coexistindo com a francesa, e tudo é confuso no cotidiano deste lugar, como se a desorientação predominasse e ditasse os sentimentos dos nativos. E, trazendo essa narrativa desconexa para o espectador, a obra satiriza a cultura enraizada do local e a põe em choque de maneira inteligente e com sabedoria, para, gradualmente, convergir em um ponto de interseção entre as histórias retratadas. Predominantemente, trata-se de um filme nada convencional sobre pertencimento (família, cidade, país), com um convite à reflexão, transitando entre o núcleo duro da desilusão e a esperança de tornar as fronteiras (dos homens e dos estados) bem mais tênues. Um filme original, singular, estranho e engraçado.
Um recorte frenético e original dos Estados Unidos da América no conturbado Século XXI. Ou seja, hoje. De conteúdo político intenso e personagens profundamente falhos, este ácido e impressionante filme mistura a paranoia extremista da decadência com o esperançar da humanidade de geração em geração, quando o ser humano necessita urgentemente vencer sua luta interna em batalhas invisíveis recorrentes. Propositadamente confuso e desordeiro, o longa, com competência e elegância, sabe envolver e cativar o espectador nos seus torrenciais 162 minutos, numa saga épica, ágil e hilária sob a batuta de excelentes atuações. Obra grandiosa e inteligente que se situa na resistência artística cultural à beira do colapso, o que incomoda a carrancuda patrulha pensadora do cinema como apenas circo de diversão. Essencial!
Vindo das mãos do diretor mexicano Guillermo del Toro - o mestre das reimaginações, há de se esperar excelência e beleza na parte técnica de qualquer obra. Cá não seria diferente. Baseado na conhecida tragédia miltoniana homônima de Mary Shelley (1818), este tocante e profundo filme, ao contrário das adaptações anteriores, não foca no mito da trágica criatura, mas no vazio existencial presente nela e, principalmente, no seu criador, o Barão Victor Frankenstein (firme atuação de Oscar Isaac): gênio, egoísta e, absurdamente, o verdadeiro bicho da trama. Mesmo sendo uma história de ficção gótica, percebe-se muita pressa e superficialismo ao narrar os opulentos dramas expostos, trazendo uma facilidade narrativa dispensável ao longa. Porém, surge como um espetáculo operístico impressionante num mundo de fantasia selvagem e sangrento, onde o homem vira monstro ao brincar de ser Deus. Em resumo, um conflito não resolvido entre pai(s) e filho(s).
Baseado vagamente na vida do mesatenista Marty Reisman, este frenético e barulhento filme suga a total irresponsabilidade e impulsividade de um atleta raiz, defensor do estilo tradicional do tênis de mesa com o uso da raquete dura. Impulsionada pela extraordinária atuação de Timothée Chalamet, sabedor da odiosa insuportabilidade do seu personagem e entregando tal sujeito intragável, a obra oferece tantas conexões que parece se perder dentro da própria trama. Porém, paradoxalmente, cresce com o passar das cenas, muito pelo afã do espectador para o aparecimento das possíveis consequências e armadilhas dos atos anteriores. Caótico, catártico e, por vezes, cômico, o longa, pelas câmeras cintilantes do diretor estadunidense Josh Safdie, desafia o público a apreciar a companhia de um narcisista patético. Surpreendentemente, consegue. E com brilho!
A criação do clássico 'Hamlet' teria ocorrido como inspiração após o falecimento precoce do filho Hamnet (Jacobi Jupe), de William Shakespeare (Paul Mescal) e Agnes Hathaway (Jessie Buckley estupenda e gritante)? Ser ou não ser, eis a questão brilhantemente retratada pelas mãos da competentíssima diretora chinesa Chloé Zhao baseada no livro homônimo de Maggie O'Farrell. Por ser um drama de época ardente e abrasador, a emoção sentimentalista às vezes piegas preenche a tela e o filme insuportavelmente a cozinha com a necessidade e urgência que a humanidade pede, pois é preciso sentir as perdas de uma forma nova. Já que estas vão acontecer. O trabalho de transfiguração emotiva misturado com a celebração do teatro é violentamente belo, quase sísmico, resultando numa obra elegíaca sem reducionismos.
Daquelas animações que produzem suspiros, seja numa criança ou seja na criança viva no interior de cada adulto. Porque traz esperança à humanidade, ao mesmo tempo que alerta sutilmente sobre o inexorável futuro, não só o do avanço tecnológico ou o do cinzento meio ambiente, mas, sobretudo, o das relações familiares e/ou interpessoais - apesar de que a desobediência aos pais não deva significar rebeldia inocente estilo Peter Pan. É um filme leve, sóbrio, rico e colorido com um design em 2D primoroso, feito à mão por seres humanos, o que propicia uma honestidade emocional latente à obra e uma revigoração delicada ao espectador. Embora seja uma narrativa textual confusa e enigmática, a sensibilidade do diretor francês pende pra seriedade da temática evocada, resultando numa sessão agradável e encantadora.
Numa Paris distópica, o ato de beijar, considerado repugnante e proibido mesmo entre os casados, é um crime punível com a morte. Ainda, o pagamento pelos serviços é feito na forma de tapas no rosto, proporcionais ao preço equivalente. Dito isso, o foco central deste criativo e instigante curta-metragem (36 minutos), fotografado esplendidamente num gélido preto e branco, é a força do desejo e seu uso como poder subversivo, que é inconsequente, mas, também, propulsor, pois reanima e intensifica. Metaforicamente, tal subversão é elencada no filme como consequência do reacionarismo, totalitarismo e moralismo hipócrita de uma grande parte da sociedade moderna, reprimida silenciosamente pela religião. E, quando falta afeto, a violência gratuita vira espetáculo. Logo, nada mais perigoso para o autoritarismo do que a ternura.
Quando a solidão compartilhada se esbarra no imponderável e faz nascer uma amizade genuína e improvável, porém, brotada do amor pela arte. Ela, Dorothy (a estupenda Miriam Margolyes), 87 anos, branca, viúva, colecionadora de ensaios e aristocrata, e ele, JJ (o iniciante Alistair Nwachukwu), 17 anos, negro e aspirante a ator de teatro de origem humilde. Como uma doce parábola sobre o ver e ser visto, e resvalando no tema envelhecimento, este encantador curta-metragem (21 minutos) constrói um drama emocionante e envolvente, embora cheio de clichês e exageros típicos - o que não se torna verdadeiramente um problema, já que o filme cresce cativante conquistando o espectador por méritos próprios. Um belo exemplo de como a rotina, circundada de sentimentos puros, tem seus encantos.
Num pub isolado numa noite gélida, homens se amontoam preenchendo seus próprios espaços vazios repletos de frustrações e desilusões. Poucos conversam e no local não há espaço pra conflitos físicos, pois o drama desses cidadãos é a incômoda sensação de desgaste pelo tempo, revelada por solfejos irônicos, cigarros baratos e copos com álcool. Até que um improvisado concurso de canto ocorre. Daí, como um gatilho antropológico, os aspectos íntimos e ocultos de todos emergem nas vozes e sons revelando suas necessidades de expor ou recolher-se, mas em busca de afirmação, acolhimento e pertencimento entre os estranhos iguais. Assim é este poético e musical curta-metragem (18 minutos) que, sem oferecer um final resolutivo, aposta na divindade duma noite comum suficiente pra reviver um mínimo de dignidade entre os pares. Emocionante!
Uma verdadeira e engraçada homenagem à escritora britânica Jane Austen, autora de 'Orgulho E Preconceito', cuja história serve como pano de fundo para este satírico curta-metragem que mistura as convenções do Século XIX (o romance é situado na Inglaterra de 1813, em meio às críticas à decadência daquela aristocracia rural) com temas contemporâneos relativos à menstruação, drama real e mensal das mulheres. Em apenas 13 minutos, o curta desencadeia uma leve e cômica narrativa, sob um belíssimo cenário e figurino de época, dos estigmas sociais do período menstrual. Mesmo sendo um filme de uma piada só, há vários sentidos no tema central que se estabelece numa abordagem atrevida, inteligente e hilária. Uma esquete genial!
O mundo anda tão tenso que qualquer situação extraordinária vira motivo de especulação ou teoria conspiratória. Ainda mais no barril de pólvora que é o atual Israel em sua guerra infinita contra a Palestina, na Faixa de Gaza. Neste chocante e inteligente curta-metragem (26 minutos), a acusação sem provas tornou-se trivialidade apenas pelo fato de o açougueiro Samir (Omar Sameer) ser um árabe trabalhando num supermercado em Tel Aviv (a tradução literal do título é "A Mácula Do Açougueiro", ou seja, sua desonra é apenas não ser judeu na capital israelense). Não há tiros, mortes ou barulho de bombas, mas a tensão conflituosa é perene e viva, pois ocorre num nível humano e simples. É um olhar do custo de uma guerra para além dos campos de batalha, o que é assombroso.
Um Rosto na Multidão
4.2 46Bem à frente do seu tempo, talvez este importante filme seja mais verdadeiro hoje do que à época do lançamento, quando, inclusive, a crítica especializada não digeriu muito bem o aviso dado pelo mestre Elia Kazan. Pois é no histrionismo da atual farsa midiática que surgem pseudoconselheiros aos borbotões, usando e abusando dos seus quinze minutos de fama e, invariavelmente, caindo no esquecimento subsequente. Na sociedade do espetáculo, ascensão e queda são dois lados da mesma moeda, onde o público, cúmplice, submete-se contra seus próprios interesses devido à manipuladora massificação. E é em forma de sátira mordaz e corajosa que este longa apresenta personagens tão familiares ao espectador que chega a despertar horror e medo com tais semelhanças: os ídolos domésticos de barro. Ou seja, um ode às celebridades efêmeras e às estranhezas oriundas do poder.
Manila - Nas Garras de Neon
3.9 15Considerado o mais importante filme filipino de todos os tempos, há algo devastador aqui muito próximo à vida de um país de terceiro mundo, ainda emergente, vivida sob uma ditadura nos anos 70. Marginalmente produzido na era Marcos, em plena lei marcial autocrática, temas como exclusão social, prostituição, corrupção e miserabilidade são expostos em várias camadas na trama, ora sutis, ora escancaradas, funcionando contundentemente como um cinema denúncia bastante acusatório. E, sem filtro e sem maquiagem, por mais que a tristeza esteja latente, não há espaço para lamentações, embora a esperança, frequentemente sentida nos diálogos entre os personagens, desaparece nas primeiras tomadas da realidade diária. Sobre o impacto devastador da pobreza na saúde mental e física do indivíduo, eis um neorrealista melodrama proletário de amor e (por quê não?) loucura.
Desafio à Corrupção
4.1 73 Assista AgoraCom um título abrasileirado desproposital e tendo as mesas de sinuca como pano de fundo, esta é uma obra cinematográfica séria e adulta que desnuda um ser humano autodestrutivo, num estudo de personagem eficiente e visceral. Perpassa pelo clichê do malandro novato vislumbrando o topo e navega firmemente sobre o drama psicológico do protagonista (Paul Newman novinho e sedutor numa bela atuação, assim como todo o elenco) habilidoso mas arrogante, em seu vazio e enfado. Dentro da montagem do filme, é necessário notar as escassas tomadas de cenas externas, como se o ambiente de tela permanecesse propositalmente claustrofóbico assim como o vício do jogo e bebida se apresenta ao jogador Eddie 'Fast' Felson. Em suma, uma fábula desinibida do "sonho americano" pelo sucesso e fama sem escrúpulos.
A Casa é Escura
4.2 44 Assista AgoraPolítico, humanista, iconoclasta e brilhante, assim pode ser definido este documentário em curta-metragem da poetisa feminista iraniana Forugh Farrokhzad, em seu único trabalho como diretora. Em apenas 22 minutos, sua câmera afiada trafega por uma casa de leprosos retratando tanto a feiura não distorcida daquela realidade miserável quanto a beleza das vidas habitadas e existidas ali, sob a narração intercalada de citações do Antigo Testamento, do Alcorão e da própria poesia de Farrokhzad. Ao conseguir justapor os males do mundo à religião e à gratidão, e bebendo da fonte do neorrealismo italiano, este aclamado filme tornou-se um marco da New Wave (Nova Onda) do cinema do Irã, crescendo exponencialmente com o passar dos anos e, por conseguinte, indispensável à história cinematográfica daquele país.
Nosso Amor de Ontem
3.9 123 Assista AgoraMais do que apenas um filme de romance açucarado, trata-se especificamente sobre o amor e as percepções das diferenças entre os casais. Neste caso, um par protagonista bastante oposto. Ela, Katie (a belíssima Barbra Streisand carregando o longa), judia e fervorosa militante comunista, e ele, Hubbell (o sempre lindo Robert Redford), um jovem atleta pequeno burguês apolítico que gosta de escrever contos. Duas melodias distintas tocando, cada uma, em seu uníssono, a fim de formar a sinfonia perfeita movida apenas, e tão somente, pelo amor, variando entre tons de dor, paixão e tristeza numa roda-gigante por vezes monótona e despretensiosa. Porém, carrega uma questão ainda atual: a não aceitação do contraditório, quando qualquer conversa vira bate-boca. É uma obra de ritmo lento, mas envolvente e cativante dentro do saboroso arco romântico retratado. Paradoxalmente, antissentimental.
O Espelho
4.2 272 Assista AgoraAo revisitar esta distinta obra-prima, percebe-se o quão valiosa e poética é a câmera do diretor soviético. Pois, funcionando como suas lembranças, eis um sublime filme levemente autobiográfico repleto de visuais e sons que apenas as paredes da memória são capazes de fornecer. Lírico, profundo, intenso e incrível, e de modo não convencional onde o indefinível penetra a monotonia, é sobre as dores e as delícias cicatrizadas, em cada cidadão, por essa divindade chamada vida. Passado, presente e futuro coexistindo em peso, como reflexos. Ou seja, demonstrando que talvez o maior medo dos pais/filhos seja realmente o espelho se quebrar. Recomenda-se entregar-se ao deleite estético e imagético do longa, neste onirismo hipnotizante que iguala o mundano ao milagroso.
Terra Tranquila
3.4 73 Assista AgoraEmbora se enquadre no gênero de ficção científica pós-apocalíptica, este interessante e peculiar filme retrata primordialmente dos dilemas neuroexistenciais da humanidade, como solidão, futuro tecnológico e fé, dentro da famigerada soberba do homem que brinca de ser Deus. Sobre um cientista neozelandês (Bruno Lawrence) que, um dia, acorda e percebe-se sozinho na Terra, os efeitos visuais, simples, são substituídos pelos dramas psicológicos dos parcos personagens, numa trama que, apesar de crua e cheia de buracos, é envolvente e oferece a ambiguidade necessária às discussões nas mesas de bar após os créditos finais, principalmente sobre a última cena, centrada entre a cosmologia do uni(multi)verso e a escatologia concreta. Uma obra refrescante, vibrante e límbica merecedora de maior valoração.
Eddington
3.1 111Uma simpática mistura contemporânea de faroeste, sátira política e crítica social sobre a pandemia da covid-19 e suas curiosas consequências, tão divisivas naquele período quanto atualmente - como a obrigatoriedade de usar a máscara, por exemplo. Mas, sobretudo, quanto às redes (anti)sociais que, além de dialogarem, condicionam o mundo real de maneira abrupta e imaterial. Aqui, neste interessante e valioso filme, a verdade absoluta é travada pelas batalhas de narrativas entre figuras humanamente ridículas e instáveis, começando com as agressões por vídeos e finalizando em balas ricocheteadas. Embora bagunçado, desfocado e surreal, é o cinema cético de um mundo em ruínas num momento insensato da história que, casualmente, é o hoje.
Andrei Rublev
4.3 130 Assista AgoraVenerado como santo na Igreja Católica Ortodoxa Oriental, Andrei Rublev, que vivera na transição do Século XIV para o XV, foi um dos maiores pintores russos medievais de signos e afrescos cristãos. Assim, baseado vagamente na vida desse artista, este épico e dramático filme funciona como uma identidade histórica de um período turbulento da Rússia, com conflitos incessantes entre príncipes rivais, invasões tártaras e a pesada mão do cristianismo, moldando o que viria a ser aquele grande país. Acima de tudo, busca detalhar a interseção entre fé e arte, sendo que, para o diretor soviético, essa é necessária para esta. Logo, em pleno ateísmo de Estado quando do lançamento, a obra sofreu diversas censuras e cortes, tendo várias versões espalhadas por aí. Porém, é um cinema altamente original, cerebral, poético e grandioso, rico em detalhes visuais iconográficos identitários.
Neste Mundo e no Outro
4.0 42 Assista AgoraExcêntrico, nonsense e alucinógeno, este belo e espiritual filme britânico é, essencialmente, sobre o amor. Com ares de megalomania do espetáculo cinematográfico, a história fantasiosa e criativa, mesmo em cima de um assunto doloroso como a morte, alude à esperança de um mundo melhor (visto ser ambientado ao fim da Segunda Guerra Mundial e em consolo a tantos que perderam entes queridos) tendo o sentimento amoroso como sua base sólida e edificante. Satirizando ingleses e estadunidenses nas suas paixões por conflitos, o longa ainda traz o "juridiquês" burocrático pra tela num terceiro ato brilhante e icônico com carga emocional à la Frank Capra. Sem contar a cena da incessante escada para o céu, ou, como preferirem, "starway to heaven". Um fabuloso drama romântico desvairado, criativo e agradável.
Gabbeh
3.8 36Um belo e subversivo exemplo do famigerado novo cinema iraniano, o qual abraça o tradicionalismo das clãs nômades daquele país ao mesmo tempo que clama a esperança pela liberdade feminina e amorosa. Talhado no gabbeh, o tradicional tapete produzido pela tribo Gashghai, contém a história da jovem e bela Gabbeh, que aparece como uma mágica diante de um casal apaixonado de idosos e sonha em partir com seu amado cavaleiro errante, sob as aventuras de suas andanças entre cores e dramas. De maneira onírica, romântica e irrealista, o filme, às vezes executado de forma confusa, funciona como uma meditação por meio da poesia visual evocada pela câmera em planos fechados do diretor, além de ser uma declaração de amor às tecelãs do Irã, que, assim como a cinematografia, entrelaçam os diferentes fios resultando em histórias bonitas, inusitadas e instigantes. Uma obra de beleza deslumbrante e encantadora.
Crumb
4.3 74Ícone lendário do cartoon underground estadunidense, Robert Crumb trafega na tênue linha do misógino escatológico pornográfico ou gênio transgressor neuroexistencial, sendo, literalmente, 08 ou 80 na percepção da sua arte e, conforme demonstrado neste curioso documentário, vida. Ao retratar o caminho trilhado pelo cartunista supracitado e em companhia dos excêntricos irmãos, este filme também demonstra como a criatividade artística é movida pelo caos, já que o impacto cultural dessa família estranha deriva originariamente de um punitivismo e rigidez paternos, criando traumas e, principalmente, bichos. Cativante, perturbador, hilário e sombrio, o longa funciona mesmo sem o espectador saber da existência de R. Crumb, pois, além de focar num mestre dos quadrinhos, desnuda os mistérios de uma engenhosidade imaginativa prática e louca.
O Preço de um Homem
3.8 29Antes de entrar na literalidade do título abrasileirado, é preciso saber que a tradução literal deste excelente western estadunidense é "A Espora Nua", quando, conotativamente, essa tal espora venha a ter vários significados, inclusive sendo uma peça fundamental na história. Porém, apesar dos ingredientes do gênero, pode-se inferir se tratar de um faroeste psicológico, retratando uma complexa e perigosa jornada, sob a belíssima figuração de montanhas e rios, de ganância, avareza, cobiça e traumas, onde todos desconfiam de todos nesse redemoinho de emoções conflitantes. Mas, ainda assim, havendo espaço para brotar emoções bondosas, o que, de certa maneira, acarretou num final abrupto e professoral - será que o preço de um homem é o amor? E um salve para a ambiguidade cênica do mestre James Stewart!
Linguagem Universal
3.2 8 Assista AgoraUma verdadeira comédia dramática do absurdo brilhantemente bizarra. Ambientada numa hipotética e entediante Winnipeg, Canadá, sua língua oficial é a persa, embora coexistindo com a francesa, e tudo é confuso no cotidiano deste lugar, como se a desorientação predominasse e ditasse os sentimentos dos nativos. E, trazendo essa narrativa desconexa para o espectador, a obra satiriza a cultura enraizada do local e a põe em choque de maneira inteligente e com sabedoria, para, gradualmente, convergir em um ponto de interseção entre as histórias retratadas. Predominantemente, trata-se de um filme nada convencional sobre pertencimento (família, cidade, país), com um convite à reflexão, transitando entre o núcleo duro da desilusão e a esperança de tornar as fronteiras (dos homens e dos estados) bem mais tênues. Um filme original, singular, estranho e engraçado.
Uma Batalha Após a Outra
3.7 664 Assista AgoraUm recorte frenético e original dos Estados Unidos da América no conturbado Século XXI. Ou seja, hoje. De conteúdo político intenso e personagens profundamente falhos, este ácido e impressionante filme mistura a paranoia extremista da decadência com o esperançar da humanidade de geração em geração, quando o ser humano necessita urgentemente vencer sua luta interna em batalhas invisíveis recorrentes. Propositadamente confuso e desordeiro, o longa, com competência e elegância, sabe envolver e cativar o espectador nos seus torrenciais 162 minutos, numa saga épica, ágil e hilária sob a batuta de excelentes atuações. Obra grandiosa e inteligente que se situa na resistência artística cultural à beira do colapso, o que incomoda a carrancuda patrulha pensadora do cinema como apenas circo de diversão. Essencial!
Frankenstein
3.7 600 Assista AgoraVindo das mãos do diretor mexicano Guillermo del Toro - o mestre das reimaginações, há de se esperar excelência e beleza na parte técnica de qualquer obra. Cá não seria diferente. Baseado na conhecida tragédia miltoniana homônima de Mary Shelley (1818), este tocante e profundo filme, ao contrário das adaptações anteriores, não foca no mito da trágica criatura, mas no vazio existencial presente nela e, principalmente, no seu criador, o Barão Victor Frankenstein (firme atuação de Oscar Isaac): gênio, egoísta e, absurdamente, o verdadeiro bicho da trama. Mesmo sendo uma história de ficção gótica, percebe-se muita pressa e superficialismo ao narrar os opulentos dramas expostos, trazendo uma facilidade narrativa dispensável ao longa. Porém, surge como um espetáculo operístico impressionante num mundo de fantasia selvagem e sangrento, onde o homem vira monstro ao brincar de ser Deus. Em resumo, um conflito não resolvido entre pai(s) e filho(s).
Marty Supreme
3.7 352 Assista AgoraBaseado vagamente na vida do mesatenista Marty Reisman, este frenético e barulhento filme suga a total irresponsabilidade e impulsividade de um atleta raiz, defensor do estilo tradicional do tênis de mesa com o uso da raquete dura. Impulsionada pela extraordinária atuação de Timothée Chalamet, sabedor da odiosa insuportabilidade do seu personagem e entregando tal sujeito intragável, a obra oferece tantas conexões que parece se perder dentro da própria trama. Porém, paradoxalmente, cresce com o passar das cenas, muito pelo afã do espectador para o aparecimento das possíveis consequências e armadilhas dos atos anteriores. Caótico, catártico e, por vezes, cômico, o longa, pelas câmeras cintilantes do diretor estadunidense Josh Safdie, desafia o público a apreciar a companhia de um narcisista patético. Surpreendentemente, consegue. E com brilho!
Hamnet: A Vida Antes de Hamlet
4.1 427 Assista AgoraA criação do clássico 'Hamlet' teria ocorrido como inspiração após o falecimento precoce do filho Hamnet (Jacobi Jupe), de William Shakespeare (Paul Mescal) e Agnes Hathaway (Jessie Buckley estupenda e gritante)? Ser ou não ser, eis a questão brilhantemente retratada pelas mãos da competentíssima diretora chinesa Chloé Zhao baseada no livro homônimo de Maggie O'Farrell. Por ser um drama de época ardente e abrasador, a emoção sentimentalista às vezes piegas preenche a tela e o filme insuportavelmente a cozinha com a necessidade e urgência que a humanidade pede, pois é preciso sentir as perdas de uma forma nova. Já que estas vão acontecer. O trabalho de transfiguração emotiva misturado com a celebração do teatro é violentamente belo, quase sísmico, resultando numa obra elegíaca sem reducionismos.
Arco
3.8 61 Assista AgoraDaquelas animações que produzem suspiros, seja numa criança ou seja na criança viva no interior de cada adulto. Porque traz esperança à humanidade, ao mesmo tempo que alerta sutilmente sobre o inexorável futuro, não só o do avanço tecnológico ou o do cinzento meio ambiente, mas, sobretudo, o das relações familiares e/ou interpessoais - apesar de que a desobediência aos pais não deva significar rebeldia inocente estilo Peter Pan. É um filme leve, sóbrio, rico e colorido com um design em 2D primoroso, feito à mão por seres humanos, o que propicia uma honestidade emocional latente à obra e uma revigoração delicada ao espectador. Embora seja uma narrativa textual confusa e enigmática, a sensibilidade do diretor francês pende pra seriedade da temática evocada, resultando numa sessão agradável e encantadora.
Duas Pessoas Trocando Saliva
3.6 31Numa Paris distópica, o ato de beijar, considerado repugnante e proibido mesmo entre os casados, é um crime punível com a morte. Ainda, o pagamento pelos serviços é feito na forma de tapas no rosto, proporcionais ao preço equivalente. Dito isso, o foco central deste criativo e instigante curta-metragem (36 minutos), fotografado esplendidamente num gélido preto e branco, é a força do desejo e seu uso como poder subversivo, que é inconsequente, mas, também, propulsor, pois reanima e intensifica. Metaforicamente, tal subversão é elencada no filme como consequência do reacionarismo, totalitarismo e moralismo hipócrita de uma grande parte da sociedade moderna, reprimida silenciosamente pela religião. E, quando falta afeto, a violência gratuita vira espetáculo. Logo, nada mais perigoso para o autoritarismo do que a ternura.
Um Amigo de Dorothy
3.7 20Quando a solidão compartilhada se esbarra no imponderável e faz nascer uma amizade genuína e improvável, porém, brotada do amor pela arte. Ela, Dorothy (a estupenda Miriam Margolyes), 87 anos, branca, viúva, colecionadora de ensaios e aristocrata, e ele, JJ (o iniciante Alistair Nwachukwu), 17 anos, negro e aspirante a ator de teatro de origem humilde. Como uma doce parábola sobre o ver e ser visto, e resvalando no tema envelhecimento, este encantador curta-metragem (21 minutos) constrói um drama emocionante e envolvente, embora cheio de clichês e exageros típicos - o que não se torna verdadeiramente um problema, já que o filme cresce cativante conquistando o espectador por méritos próprios. Um belo exemplo de como a rotina, circundada de sentimentos puros, tem seus encantos.
Os Cantores
3.5 41 Assista AgoraNum pub isolado numa noite gélida, homens se amontoam preenchendo seus próprios espaços vazios repletos de frustrações e desilusões. Poucos conversam e no local não há espaço pra conflitos físicos, pois o drama desses cidadãos é a incômoda sensação de desgaste pelo tempo, revelada por solfejos irônicos, cigarros baratos e copos com álcool. Até que um improvisado concurso de canto ocorre. Daí, como um gatilho antropológico, os aspectos íntimos e ocultos de todos emergem nas vozes e sons revelando suas necessidades de expor ou recolher-se, mas em busca de afirmação, acolhimento e pertencimento entre os estranhos iguais. Assim é este poético e musical curta-metragem (18 minutos) que, sem oferecer um final resolutivo, aposta na divindade duma noite comum suficiente pra reviver um mínimo de dignidade entre os pares. Emocionante!
O Drama Menstrual de Jane Austen
3.6 30 Assista AgoraUma verdadeira e engraçada homenagem à escritora britânica Jane Austen, autora de 'Orgulho E Preconceito', cuja história serve como pano de fundo para este satírico curta-metragem que mistura as convenções do Século XIX (o romance é situado na Inglaterra de 1813, em meio às críticas à decadência daquela aristocracia rural) com temas contemporâneos relativos à menstruação, drama real e mensal das mulheres. Em apenas 13 minutos, o curta desencadeia uma leve e cômica narrativa, sob um belíssimo cenário e figurino de época, dos estigmas sociais do período menstrual. Mesmo sendo um filme de uma piada só, há vários sentidos no tema central que se estabelece numa abordagem atrevida, inteligente e hilária. Uma esquete genial!
Butcher's Stain
3.3 18O mundo anda tão tenso que qualquer situação extraordinária vira motivo de especulação ou teoria conspiratória. Ainda mais no barril de pólvora que é o atual Israel em sua guerra infinita contra a Palestina, na Faixa de Gaza. Neste chocante e inteligente curta-metragem (26 minutos), a acusação sem provas tornou-se trivialidade apenas pelo fato de o açougueiro Samir (Omar Sameer) ser um árabe trabalhando num supermercado em Tel Aviv (a tradução literal do título é "A Mácula Do Açougueiro", ou seja, sua desonra é apenas não ser judeu na capital israelense). Não há tiros, mortes ou barulho de bombas, mas a tensão conflituosa é perene e viva, pois ocorre num nível humano e simples. É um olhar do custo de uma guerra para além dos campos de batalha, o que é assombroso.