Como diziam os cinéfilos dos anos 30, eis um filme de capa e espada (swashbuckler) sobre o patriotismo revestido de caráter, honra e inteligência estratégica. Corajoso, o excelente diretor húngaro-americano dos anos de ouro de Hollywood escalou os então desconhecidos mas carismáticos Errol Flynn e Olivia De Havilland para os papéis principais, resultando num acerto em cheio devido, principalmente, à sobeja empatia e arrogância despreocupada do Capitão Blood. Situada no Reino Unido de 1685, durante a Rebelião de Monmouth, esta ousada e bonita obra funciona como uma aventura empolgante e cheia de ação que segura o espectador, além da presença de um subtexto sexual sempre que o casal se encontra. Ao fim, torna-se uma história melíflua sobre o amor ao longo das grandes batalhas. Mas eficaz e essencialmente precisa.
E se alguém com uma abordagem muito pragmática da vida tivesse uma premonição? Esta é a questão primordial que o bom diretor australiano lança sobre este interessante e simbólico filme da "nova onda" cinematográfica da Austrália dos anos 70. Misturando itens apocalípticos arborígenes com a modernidade tecnológica do homem branco, colonizadores e colonizados se entrelaçam, onírica e enigmaticamente, sob a dicotomia homens/leis: qual é a mais importante e qual é a soberana? Abordando as raízes profundas dessa nação austral, a obra evoca, de maneira bem sensorial aos espectadores - essencialmente pelo uso esotérico da trilha sonora, a espiritualidade interior de um advogado classe média alta perpassando pelo poder absoluto da força da natureza, principalmente através do uso da água (chuva, tempestade, inundação e onda). E, como Weir gosta, um final aberto a interpretações.
Quando o fatalismo do improvável abarca o destino de um cidadão comum, este vira invariavelmente um fantoche nas mãos do ambiente que o cerca. Aqui, neste excelente pequeno filme de uma Hollywood clássica, o personagem Al Roberts (Tom Neal em atuação segura) é o fatídico sofredor que, macabramente, não manda nos seus rumos e nem na sua direção - interessante o recorte de cena quando ele se torna o motorista mas sem o poder de decidir onde ir. Em forma de conto kafkiano com ares cinzas de noir, é um thriller existencial quase surreal impulsionado pela apatia e pelo pavor, porém, com mordacidade suficiente para prender a atenção do espectador, além de gerar certa empatia ao pobre coitado. Em resumo, uma adorável obra rápida, suja e repleta de culpa.
Em pleno 1957, Bollywood, a maior indústria de cinema indiana e de língua hindi, entrega um belo épico repleto de temas e cenas fortes expostos impiedosamente nas telas, sem maquiagem ou complacência. Havendo uma forte referência à própria mitologia hindu e às suas deusas guerreiras e românticas, Radha (a impressionante Nargis) é a concentração personificada de todos (e não são poucos) os simbolismos e significados da palavra "mãe". Há, também, um interessante paralelo sobre a Índia como país, que excetuava a força e voz femininas em meio ao desenvolvimento rural e suas grandiosas adversidades. Tem um quê maniqueísta e superlativo, mas o grito de honradez e decência fora bem ecoado. E como os filmes indianos amam cenas coloridas de casamento!
Envolto numa aura religiosa anglicana, este estonteante filme trata-se verdadeiramente de desejos oprimidos, lembranças e frustrações em contraponto à perseverança da fé, inteligentemente sem a pudica ótica católica. Beirando a perfeição estética dos enquadramentos de câmera e oferecendo sutileza ao abordar dramas psicológicos, a mudança temática da obra é tão espontânea que os fantasmas e lixos expostos em cena tornam-se alegres escuridões da mente humana, especificamente das freiras retratadas. De ritmo lento proposital, solidão e histeria caminham lado a lado sob reveladores olhares de desejo, como, principalmente, na tomada erótica mas nada imoral da Irmã Ruth (a surpresa Kathleen Byron) passando um provocador batom vermelho em frente à sua madre superiora, a Irmã Clodagh (a sempre linda e talentosa Deborah Kerr).
Uma vertiginosa e frenética, literalmente, comédia romântica típica do gênero dos anos 40 e do genial diretor estadunidense. Com a linda e sedutora Claudette Colbert fazendo a "mulher de verdade", personagem principal, e o adorável Joel McCrea numa atuação memoravelmente atabalhoada, a maluquice da trama é tão imodesta que se antepõe naturalmente ao ritmo alucinado desta pequena obra (são apenas 83 minutos), gostosa e apreciada de se assistir. E, embora haja certa previsibilidade no desfecho do filme, as atuações definitivamente não são, carregando graça, ingenuidade e encanto. Ademais, como um tapa de luva de pelica, desnuda a frivolidade e excentricidade dos milionários endinheirados comedidos de sentimentos.
Temas tão atuais hoje em dia, racismo, xenofobia e etarismo são postos em tela nesta arrebatadora obra situada nos anos 70 de uma Alemanha Ocidental pós guerra e amplificada pela Tragédia de Munique em 1972, um atentado em plenas Olimpíadas promovido pelo grupo palestino (logo, árabe muçulmano) Setembro Negro. Também conhecido como 'O Medo Devora A Alma', este é, na verdade, um ditado marroquino que já conjectura a relação do casal protagonista: ela, Emmi (Brigitte Mira pungente), 60 anos, viúva alemã, ex-partidária do nazismo, e ele, Ali (El Hedi Ben Salem multifacetado), 40 anos, imigrante de Marrocos, em situação diária subumana. Solitários aos seus modos, eles se conhecem e se amam. Porém, como sempre, toda relação-tabu terá problemas. Ou seja, é possível o amor não trazer diversão e felicidade? A pergunta não importa pro prolífico diretor alemão, mas sim as várias respostas propositadamente não dadas.
Ainda que sem a aura e o glamour de Charles Chaplin ou Buster Keaton, Harold Lloyd é uma figura cômica essencial aos primórdios do cinema, principalmente na era muda dos anos 20, quando estrelou mais de 200 filmes de comédia, sempre encarnando um homem comum, trabalhador e enérgico afeito a acrobacias e gags inesquecíveis. Cá, neste engraçadíssimo filme, o cenário rural se situa e oferece uma saborosa (embora previsível) história envolvendo drama, superação, desconfiança e romance, com um peso narrativo e profundidade incomuns ao estilo à época. A ação frenética do terço final é de tirar o fôlego, culminando na epopeica luta/disputa da última cena. Um verdadeiro triunfo sob atuações impagáveis e imagens dinâmicas. Desde 2023 em domínio público, a obra encontra-se disponível no JustWatch TV e YouTube.
À época do lançamento deste pouco conhecido mas interessante filme, os Estados Unidos da América viviam sobre a piração do macarthismo e a palavra solidariedade era sinônimo de subversão, inimigo da pátria, traidor. Assim, nada como um western, um gênero tão estadunidense, para satirizar, através da verdade relativa, esse medo invisível em forma de parábola política caçoando da justiça. Ou da falta dela. Repleto de agilidade e dinamismo, o trabalho cênico desse subestimado diretor é precioso e eficiente a ponto de lançar a pulga atrás da orelha do espectador, trazendo a ambiguidade de caráter tanto para o mocinho tratado como bandido quanto para o bandido tratado como mocinho. Talvez o brilhantismo-mor do longa seja quando, num filme de bang bang onde há tiros de montão, o reverendo da cidade em sua sapiência serena aconselha a todos: não matarás. Uma obra que vale a pipoca e o guaraná.
Embora há muito da tóxica relação intrafamiliar de uma mãe opressora sobre uma filha introvertida - e é necessário elencar os danos psicológicos causados, este belíssimo filme é uma elegia ao amor, e a como o afeto sendo um bom sentimento pode curar e reconfigurar um ser humano. Bem desenvolvido e canalizando as forças de uma mudança de comportamento, o longa, de tom ingênuo e açucarado, ainda tem em cena uma belíssima fotografia do Rio de Janeiro dos anos 40. Apesar de parecer uma melodramática história datada, há uma forte presença da paixão em tudo, desde as brilhantes atuações à mão amiga da ajuda e piedade, oferecendo uma obra graciosa e grandiosa. E como Bette Davis era maravilhosa em todos os sentidos!
Mesmo com o diretor tendo afirmado não se tratar de um retrato da burguesia francesa pré-Segunda Guerra Mundial - mas, sim, como um divertimento, não há como negar as percepções do Mestre Jean Renoir sobre uma classe mais interessada em futilidades que a vida real pura e simples. Tanto que o filme foi banido pelo governo da França logo após seu lançamento devido à sua crítica social ser ruim para a moral de uma nação em batalha. Sendo a história passada num retumbante castelo numa área campestre, várias camadas do cotidiano são cuidadosamente expostas nos estilos e comportamentos de patrões, empregados, ricos e pobres, quase todos desonestos, seja no jogo ou seja no amor, onde a regra é inevitavelmente a transgressão das regras, num cenário cínico, cruel e sem esperança. Ora de ritmo lento, ora parecida com uma chanchada burlesca, é uma obra historicamente importante e essencial aos cinéfilos de plantão.
Originalmente intitulado 'Sabotage', este interessante filme é conhecido em muitos países por ter vários títulos (exemplo brasileiro O MARIDO ERA O CULPADO / SABOTAGEM). Pré-hollywoodiana, é uma obra de uma filmografia de um ainda não tão famoso Sir Alfred Joseph Hitchcock. Porém, carregada de dramas e reviravoltas, características marcantes desse cineasta. Assim, numa anárquica Londres dos anos 30, desenvolve-se um thriller visceral e impactante, embora cambaleante, sobre teorias conspiratórias e, sobretudo, ganância. Com presença de cenas controversas e conflituosas, a homenagem ao cinema infantil sobre risadas e singelezas é a verdadeira metalinguagem cultural e artística de um mundo cruel mas repleto de esperança. E, sem oferecer explicações, a trama segue o rumo do esperado nos filmes de Hitchcock - o inesperado. Coisas do Mestre do Suspense.
Bem à frente do seu tempo, talvez este importante filme seja mais verdadeiro hoje do que à época do lançamento, quando, inclusive, a crítica especializada não digeriu muito bem o aviso dado pelo mestre Elia Kazan. Pois é no histrionismo da atual farsa midiática que surgem pseudoconselheiros aos borbotões, usando e abusando dos seus quinze minutos de fama e, invariavelmente, caindo no esquecimento subsequente. Na sociedade do espetáculo, ascensão e queda são dois lados da mesma moeda, onde o público, cúmplice, submete-se contra seus próprios interesses devido à manipuladora massificação. E é em forma de sátira mordaz e corajosa que este longa apresenta personagens tão familiares ao espectador que chega a despertar horror e medo com tais semelhanças: os ídolos domésticos de barro. Ou seja, um ode às celebridades efêmeras e às estranhezas oriundas do poder.
Considerado o mais importante filme filipino de todos os tempos, há algo devastador aqui muito próximo à vida de um país de terceiro mundo, ainda emergente, vivida sob uma ditadura nos anos 70. Marginalmente produzido na era Marcos, em plena lei marcial autocrática, temas como exclusão social, prostituição, corrupção e miserabilidade são expostos em várias camadas na trama, ora sutis, ora escancaradas, funcionando contundentemente como um cinema denúncia bastante acusatório. E, sem filtro e sem maquiagem, por mais que a tristeza esteja latente, não há espaço para lamentações, embora a esperança, frequentemente sentida nos diálogos entre os personagens, desaparece nas primeiras tomadas da realidade diária. Sobre o impacto devastador da pobreza na saúde mental e física do indivíduo, eis um neorrealista melodrama proletário de amor e (por quê não?) loucura.
Com um título abrasileirado desproposital e tendo as mesas de sinuca como pano de fundo, esta é uma obra cinematográfica séria e adulta que desnuda um ser humano autodestrutivo, num estudo de personagem eficiente e visceral. Perpassa pelo clichê do malandro novato vislumbrando o topo e navega firmemente sobre o drama psicológico do protagonista (Paul Newman novinho e sedutor numa bela atuação, assim como todo o elenco) habilidoso mas arrogante, em seu vazio e enfado. Dentro da montagem do filme, é necessário notar as escassas tomadas de cenas externas, como se o ambiente de tela permanecesse propositalmente claustrofóbico assim como o vício do jogo e bebida se apresenta ao jogador Eddie 'Fast' Felson. Em suma, uma fábula desinibida do "sonho americano" pelo sucesso e fama sem escrúpulos.
Político, humanista, iconoclasta e brilhante, assim pode ser definido este documentário em curta-metragem da poetisa feminista iraniana Forugh Farrokhzad, em seu único trabalho como diretora. Em apenas 22 minutos, sua câmera afiada trafega por uma casa de leprosos retratando tanto a feiura não distorcida daquela realidade miserável quanto a beleza das vidas habitadas e existidas ali, sob a narração intercalada de citações do Antigo Testamento, do Alcorão e da própria poesia de Farrokhzad. Ao conseguir justapor os males do mundo à religião e à gratidão, e bebendo da fonte do neorrealismo italiano, este aclamado filme tornou-se um marco da New Wave (Nova Onda) do cinema do Irã, crescendo exponencialmente com o passar dos anos e, por conseguinte, indispensável à história cinematográfica daquele país.
Mais do que apenas um filme de romance açucarado, trata-se especificamente sobre o amor e as percepções das diferenças entre os casais. Neste caso, um par protagonista bastante oposto. Ela, Katie (a belíssima Barbra Streisand carregando o longa), judia e fervorosa militante comunista, e ele, Hubbell (o sempre lindo Robert Redford), um jovem atleta pequeno burguês apolítico que gosta de escrever contos. Duas melodias distintas tocando, cada uma, em seu uníssono, a fim de formar a sinfonia perfeita movida apenas, e tão somente, pelo amor, variando entre tons de dor, paixão e tristeza numa roda-gigante por vezes monótona e despretensiosa. Porém, carrega uma questão ainda atual: a não aceitação do contraditório, quando qualquer conversa vira bate-boca. É uma obra de ritmo lento, mas envolvente e cativante dentro do saboroso arco romântico retratado. Paradoxalmente, antissentimental.
Ao revisitar esta distinta obra-prima, percebe-se o quão valiosa e poética é a câmera do diretor soviético. Pois, funcionando como suas lembranças, eis um sublime filme levemente autobiográfico repleto de visuais e sons que apenas as paredes da memória são capazes de fornecer. Lírico, profundo, intenso e incrível, e de modo não convencional onde o indefinível penetra a monotonia, é sobre as dores e as delícias cicatrizadas, em cada cidadão, por essa divindade chamada vida. Passado, presente e futuro coexistindo em peso, como reflexos. Ou seja, demonstrando que talvez o maior medo dos pais/filhos seja realmente o espelho se quebrar. Recomenda-se entregar-se ao deleite estético e imagético do longa, neste onirismo hipnotizante que iguala o mundano ao milagroso.
Embora se enquadre no gênero de ficção científica pós-apocalíptica, este interessante e peculiar filme retrata primordialmente dos dilemas neuroexistenciais da humanidade, como solidão, futuro tecnológico e fé, dentro da famigerada soberba do homem que brinca de ser Deus. Sobre um cientista neozelandês (Bruno Lawrence) que, um dia, acorda e percebe-se sozinho na Terra, os efeitos visuais, simples, são substituídos pelos dramas psicológicos dos parcos personagens, numa trama que, apesar de crua e cheia de buracos, é envolvente e oferece a ambiguidade necessária às discussões nas mesas de bar após os créditos finais, principalmente sobre a última cena, centrada entre a cosmologia do uni(multi)verso e a escatologia concreta. Uma obra refrescante, vibrante e límbica merecedora de maior valoração.
Uma simpática mistura contemporânea de faroeste, sátira política e crítica social sobre a pandemia da covid-19 e suas curiosas consequências, tão divisivas naquele período quanto atualmente - como a obrigatoriedade de usar a máscara, por exemplo. Mas, sobretudo, quanto às redes (anti)sociais que, além de dialogarem, condicionam o mundo real de maneira abrupta e imaterial. Aqui, neste interessante e valioso filme, a verdade absoluta é travada pelas batalhas de narrativas entre figuras humanamente ridículas e instáveis, começando com as agressões por vídeos e finalizando em balas ricocheteadas. Embora bagunçado, desfocado e surreal, é o cinema cético de um mundo em ruínas num momento insensato da história que, casualmente, é o hoje.
Venerado como santo na Igreja Católica Ortodoxa Oriental, Andrei Rublev, que vivera na transição do Século XIV para o XV, foi um dos maiores pintores russos medievais de signos e afrescos cristãos. Assim, baseado vagamente na vida desse artista, este épico e dramático filme funciona como uma identidade histórica de um período turbulento da Rússia, com conflitos incessantes entre príncipes rivais, invasões tártaras e a pesada mão do cristianismo, moldando o que viria a ser aquele grande país. Acima de tudo, busca detalhar a interseção entre fé e arte, sendo que, para o diretor soviético, essa é necessária para esta. Logo, em pleno ateísmo de Estado quando do lançamento, a obra sofreu diversas censuras e cortes, tendo várias versões espalhadas por aí. Porém, é um cinema altamente original, cerebral, poético e grandioso, rico em detalhes visuais iconográficos identitários.
Excêntrico, nonsense e alucinógeno, este belo e espiritual filme britânico é, essencialmente, sobre o amor. Com ares de megalomania do espetáculo cinematográfico, a história fantasiosa e criativa, mesmo em cima de um assunto doloroso como a morte, alude à esperança de um mundo melhor (visto ser ambientado ao fim da Segunda Guerra Mundial e em consolo a tantos que perderam entes queridos) tendo o sentimento amoroso como sua base sólida e edificante. Satirizando ingleses e estadunidenses nas suas paixões por conflitos, o longa ainda traz o "juridiquês" burocrático pra tela num terceiro ato brilhante e icônico com carga emocional à la Frank Capra. Sem contar a cena da incessante escada para o céu, ou, como preferirem, "starway to heaven". Um fabuloso drama romântico desvairado, criativo e agradável.
Um belo e subversivo exemplo do famigerado novo cinema iraniano, o qual abraça o tradicionalismo das clãs nômades daquele país ao mesmo tempo que clama a esperança pela liberdade feminina e amorosa. Talhado no gabbeh, o tradicional tapete produzido pela tribo Gashghai, contém a história da jovem e bela Gabbeh, que aparece como uma mágica diante de um casal apaixonado de idosos e sonha em partir com seu amado cavaleiro errante, sob as aventuras de suas andanças entre cores e dramas. De maneira onírica, romântica e irrealista, o filme, às vezes executado de forma confusa, funciona como uma meditação por meio da poesia visual evocada pela câmera em planos fechados do diretor, além de ser uma declaração de amor às tecelãs do Irã, que, assim como a cinematografia, entrelaçam os diferentes fios resultando em histórias bonitas, inusitadas e instigantes. Uma obra de beleza deslumbrante e encantadora.
Ícone lendário do cartoon underground estadunidense, Robert Crumb trafega na tênue linha do misógino escatológico pornográfico ou gênio transgressor neuroexistencial, sendo, literalmente, 08 ou 80 na percepção da sua arte e, conforme demonstrado neste curioso documentário, vida. Ao retratar o caminho trilhado pelo cartunista supracitado e em companhia dos excêntricos irmãos, este filme também demonstra como a criatividade artística é movida pelo caos, já que o impacto cultural dessa família estranha deriva originariamente de um punitivismo e rigidez paternos, criando traumas e, principalmente, bichos. Cativante, perturbador, hilário e sombrio, o longa funciona mesmo sem o espectador saber da existência de R. Crumb, pois, além de focar num mestre dos quadrinhos, desnuda os mistérios de uma engenhosidade imaginativa prática e louca.
Capitão Blood
3.8 43 Assista AgoraComo diziam os cinéfilos dos anos 30, eis um filme de capa e espada (swashbuckler) sobre o patriotismo revestido de caráter, honra e inteligência estratégica. Corajoso, o excelente diretor húngaro-americano dos anos de ouro de Hollywood escalou os então desconhecidos mas carismáticos Errol Flynn e Olivia De Havilland para os papéis principais, resultando num acerto em cheio devido, principalmente, à sobeja empatia e arrogância despreocupada do Capitão Blood. Situada no Reino Unido de 1685, durante a Rebelião de Monmouth, esta ousada e bonita obra funciona como uma aventura empolgante e cheia de ação que segura o espectador, além da presença de um subtexto sexual sempre que o casal se encontra. Ao fim, torna-se uma história melíflua sobre o amor ao longo das grandes batalhas. Mas eficaz e essencialmente precisa.
A Última Onda
3.3 27E se alguém com uma abordagem muito pragmática da vida tivesse uma premonição? Esta é a questão primordial que o bom diretor australiano lança sobre este interessante e simbólico filme da "nova onda" cinematográfica da Austrália dos anos 70. Misturando itens apocalípticos arborígenes com a modernidade tecnológica do homem branco, colonizadores e colonizados se entrelaçam, onírica e enigmaticamente, sob a dicotomia homens/leis: qual é a mais importante e qual é a soberana? Abordando as raízes profundas dessa nação austral, a obra evoca, de maneira bem sensorial aos espectadores - essencialmente pelo uso esotérico da trilha sonora, a espiritualidade interior de um advogado classe média alta perpassando pelo poder absoluto da força da natureza, principalmente através do uso da água (chuva, tempestade, inundação e onda). E, como Weir gosta, um final aberto a interpretações.
A Curva do Destino
3.8 57 Assista AgoraQuando o fatalismo do improvável abarca o destino de um cidadão comum, este vira invariavelmente um fantoche nas mãos do ambiente que o cerca. Aqui, neste excelente pequeno filme de uma Hollywood clássica, o personagem Al Roberts (Tom Neal em atuação segura) é o fatídico sofredor que, macabramente, não manda nos seus rumos e nem na sua direção - interessante o recorte de cena quando ele se torna o motorista mas sem o poder de decidir onde ir. Em forma de conto kafkiano com ares cinzas de noir, é um thriller existencial quase surreal impulsionado pela apatia e pelo pavor, porém, com mordacidade suficiente para prender a atenção do espectador, além de gerar certa empatia ao pobre coitado. Em resumo, uma adorável obra rápida, suja e repleta de culpa.
Mãe Índia
3.7 18Em pleno 1957, Bollywood, a maior indústria de cinema indiana e de língua hindi, entrega um belo épico repleto de temas e cenas fortes expostos impiedosamente nas telas, sem maquiagem ou complacência. Havendo uma forte referência à própria mitologia hindu e às suas deusas guerreiras e românticas, Radha (a impressionante Nargis) é a concentração personificada de todos (e não são poucos) os simbolismos e significados da palavra "mãe". Há, também, um interessante paralelo sobre a Índia como país, que excetuava a força e voz femininas em meio ao desenvolvimento rural e suas grandiosas adversidades. Tem um quê maniqueísta e superlativo, mas o grito de honradez e decência fora bem ecoado. E como os filmes indianos amam cenas coloridas de casamento!
Narciso Negro
4.0 88 Assista AgoraEnvolto numa aura religiosa anglicana, este estonteante filme trata-se verdadeiramente de desejos oprimidos, lembranças e frustrações em contraponto à perseverança da fé, inteligentemente sem a pudica ótica católica. Beirando a perfeição estética dos enquadramentos de câmera e oferecendo sutileza ao abordar dramas psicológicos, a mudança temática da obra é tão espontânea que os fantasmas e lixos expostos em cena tornam-se alegres escuridões da mente humana, especificamente das freiras retratadas. De ritmo lento proposital, solidão e histeria caminham lado a lado sob reveladores olhares de desejo, como, principalmente, na tomada erótica mas nada imoral da Irmã Ruth (a surpresa Kathleen Byron) passando um provocador batom vermelho em frente à sua madre superiora, a Irmã Clodagh (a sempre linda e talentosa Deborah Kerr).
Mulher de Verdade
3.5 17Uma vertiginosa e frenética, literalmente, comédia romântica típica do gênero dos anos 40 e do genial diretor estadunidense. Com a linda e sedutora Claudette Colbert fazendo a "mulher de verdade", personagem principal, e o adorável Joel McCrea numa atuação memoravelmente atabalhoada, a maluquice da trama é tão imodesta que se antepõe naturalmente ao ritmo alucinado desta pequena obra (são apenas 83 minutos), gostosa e apreciada de se assistir. E, embora haja certa previsibilidade no desfecho do filme, as atuações definitivamente não são, carregando graça, ingenuidade e encanto. Ademais, como um tapa de luva de pelica, desnuda a frivolidade e excentricidade dos milionários endinheirados comedidos de sentimentos.
O Medo Devora a Alma
4.3 116 Assista AgoraTemas tão atuais hoje em dia, racismo, xenofobia e etarismo são postos em tela nesta arrebatadora obra situada nos anos 70 de uma Alemanha Ocidental pós guerra e amplificada pela Tragédia de Munique em 1972, um atentado em plenas Olimpíadas promovido pelo grupo palestino (logo, árabe muçulmano) Setembro Negro. Também conhecido como 'O Medo Devora A Alma', este é, na verdade, um ditado marroquino que já conjectura a relação do casal protagonista: ela, Emmi (Brigitte Mira pungente), 60 anos, viúva alemã, ex-partidária do nazismo, e ele, Ali (El Hedi Ben Salem multifacetado), 40 anos, imigrante de Marrocos, em situação diária subumana. Solitários aos seus modos, eles se conhecem e se amam. Porém, como sempre, toda relação-tabu terá problemas. Ou seja, é possível o amor não trazer diversão e felicidade? A pergunta não importa pro prolífico diretor alemão, mas sim as várias respostas propositadamente não dadas.
O Caçula
3.9 17 Assista AgoraAinda que sem a aura e o glamour de Charles Chaplin ou Buster Keaton, Harold Lloyd é uma figura cômica essencial aos primórdios do cinema, principalmente na era muda dos anos 20, quando estrelou mais de 200 filmes de comédia, sempre encarnando um homem comum, trabalhador e enérgico afeito a acrobacias e gags inesquecíveis. Cá, neste engraçadíssimo filme, o cenário rural se situa e oferece uma saborosa (embora previsível) história envolvendo drama, superação, desconfiança e romance, com um peso narrativo e profundidade incomuns ao estilo à época. A ação frenética do terço final é de tirar o fôlego, culminando na epopeica luta/disputa da última cena. Um verdadeiro triunfo sob atuações impagáveis e imagens dinâmicas. Desde 2023 em domínio público, a obra encontra-se disponível no JustWatch TV e YouTube.
Homens Indomáveis
3.7 15 Assista AgoraÀ época do lançamento deste pouco conhecido mas interessante filme, os Estados Unidos da América viviam sobre a piração do macarthismo e a palavra solidariedade era sinônimo de subversão, inimigo da pátria, traidor. Assim, nada como um western, um gênero tão estadunidense, para satirizar, através da verdade relativa, esse medo invisível em forma de parábola política caçoando da justiça. Ou da falta dela. Repleto de agilidade e dinamismo, o trabalho cênico desse subestimado diretor é precioso e eficiente a ponto de lançar a pulga atrás da orelha do espectador, trazendo a ambiguidade de caráter tanto para o mocinho tratado como bandido quanto para o bandido tratado como mocinho. Talvez o brilhantismo-mor do longa seja quando, num filme de bang bang onde há tiros de montão, o reverendo da cidade em sua sapiência serena aconselha a todos: não matarás. Uma obra que vale a pipoca e o guaraná.
A Estranha Passageira
4.2 88Embora há muito da tóxica relação intrafamiliar de uma mãe opressora sobre uma filha introvertida - e é necessário elencar os danos psicológicos causados, este belíssimo filme é uma elegia ao amor, e a como o afeto sendo um bom sentimento pode curar e reconfigurar um ser humano. Bem desenvolvido e canalizando as forças de uma mudança de comportamento, o longa, de tom ingênuo e açucarado, ainda tem em cena uma belíssima fotografia do Rio de Janeiro dos anos 40. Apesar de parecer uma melodramática história datada, há uma forte presença da paixão em tudo, desde as brilhantes atuações à mão amiga da ajuda e piedade, oferecendo uma obra graciosa e grandiosa. E como Bette Davis era maravilhosa em todos os sentidos!
A Regra do Jogo
4.1 126 Assista AgoraMesmo com o diretor tendo afirmado não se tratar de um retrato da burguesia francesa pré-Segunda Guerra Mundial - mas, sim, como um divertimento, não há como negar as percepções do Mestre Jean Renoir sobre uma classe mais interessada em futilidades que a vida real pura e simples. Tanto que o filme foi banido pelo governo da França logo após seu lançamento devido à sua crítica social ser ruim para a moral de uma nação em batalha. Sendo a história passada num retumbante castelo numa área campestre, várias camadas do cotidiano são cuidadosamente expostas nos estilos e comportamentos de patrões, empregados, ricos e pobres, quase todos desonestos, seja no jogo ou seja no amor, onde a regra é inevitavelmente a transgressão das regras, num cenário cínico, cruel e sem esperança. Ora de ritmo lento, ora parecida com uma chanchada burlesca, é uma obra historicamente importante e essencial aos cinéfilos de plantão.
Sabotagem
3.7 75 Assista AgoraOriginalmente intitulado 'Sabotage', este interessante filme é conhecido em muitos países por ter vários títulos (exemplo brasileiro O MARIDO ERA O CULPADO / SABOTAGEM). Pré-hollywoodiana, é uma obra de uma filmografia de um ainda não tão famoso Sir Alfred Joseph Hitchcock. Porém, carregada de dramas e reviravoltas, características marcantes desse cineasta. Assim, numa anárquica Londres dos anos 30, desenvolve-se um thriller visceral e impactante, embora cambaleante, sobre teorias conspiratórias e, sobretudo, ganância. Com presença de cenas controversas e conflituosas, a homenagem ao cinema infantil sobre risadas e singelezas é a verdadeira metalinguagem cultural e artística de um mundo cruel mas repleto de esperança. E, sem oferecer explicações, a trama segue o rumo do esperado nos filmes de Hitchcock - o inesperado. Coisas do Mestre do Suspense.
Um Rosto na Multidão
4.2 47Bem à frente do seu tempo, talvez este importante filme seja mais verdadeiro hoje do que à época do lançamento, quando, inclusive, a crítica especializada não digeriu muito bem o aviso dado pelo mestre Elia Kazan. Pois é no histrionismo da atual farsa midiática que surgem pseudoconselheiros aos borbotões, usando e abusando dos seus quinze minutos de fama e, invariavelmente, caindo no esquecimento subsequente. Na sociedade do espetáculo, ascensão e queda são dois lados da mesma moeda, onde o público, cúmplice, submete-se contra seus próprios interesses devido à manipuladora massificação. E é em forma de sátira mordaz e corajosa que este longa apresenta personagens tão familiares ao espectador que chega a despertar horror e medo com tais semelhanças: os ídolos domésticos de barro. Ou seja, um ode às celebridades efêmeras e às estranhezas oriundas do poder.
Manila - Nas Garras de Neon
3.9 16Considerado o mais importante filme filipino de todos os tempos, há algo devastador aqui muito próximo à vida de um país de terceiro mundo, ainda emergente, vivida sob uma ditadura nos anos 70. Marginalmente produzido na era Marcos, em plena lei marcial autocrática, temas como exclusão social, prostituição, corrupção e miserabilidade são expostos em várias camadas na trama, ora sutis, ora escancaradas, funcionando contundentemente como um cinema denúncia bastante acusatório. E, sem filtro e sem maquiagem, por mais que a tristeza esteja latente, não há espaço para lamentações, embora a esperança, frequentemente sentida nos diálogos entre os personagens, desaparece nas primeiras tomadas da realidade diária. Sobre o impacto devastador da pobreza na saúde mental e física do indivíduo, eis um neorrealista melodrama proletário de amor e (por quê não?) loucura.
Desafio à Corrupção
4.1 73 Assista AgoraCom um título abrasileirado desproposital e tendo as mesas de sinuca como pano de fundo, esta é uma obra cinematográfica séria e adulta que desnuda um ser humano autodestrutivo, num estudo de personagem eficiente e visceral. Perpassa pelo clichê do malandro novato vislumbrando o topo e navega firmemente sobre o drama psicológico do protagonista (Paul Newman novinho e sedutor numa bela atuação, assim como todo o elenco) habilidoso mas arrogante, em seu vazio e enfado. Dentro da montagem do filme, é necessário notar as escassas tomadas de cenas externas, como se o ambiente de tela permanecesse propositalmente claustrofóbico assim como o vício do jogo e bebida se apresenta ao jogador Eddie 'Fast' Felson. Em suma, uma fábula desinibida do "sonho americano" pelo sucesso e fama sem escrúpulos.
A Casa é Escura
4.2 44 Assista AgoraPolítico, humanista, iconoclasta e brilhante, assim pode ser definido este documentário em curta-metragem da poetisa feminista iraniana Forugh Farrokhzad, em seu único trabalho como diretora. Em apenas 22 minutos, sua câmera afiada trafega por uma casa de leprosos retratando tanto a feiura não distorcida daquela realidade miserável quanto a beleza das vidas habitadas e existidas ali, sob a narração intercalada de citações do Antigo Testamento, do Alcorão e da própria poesia de Farrokhzad. Ao conseguir justapor os males do mundo à religião e à gratidão, e bebendo da fonte do neorrealismo italiano, este aclamado filme tornou-se um marco da New Wave (Nova Onda) do cinema do Irã, crescendo exponencialmente com o passar dos anos e, por conseguinte, indispensável à história cinematográfica daquele país.
Nosso Amor de Ontem
3.9 123Mais do que apenas um filme de romance açucarado, trata-se especificamente sobre o amor e as percepções das diferenças entre os casais. Neste caso, um par protagonista bastante oposto. Ela, Katie (a belíssima Barbra Streisand carregando o longa), judia e fervorosa militante comunista, e ele, Hubbell (o sempre lindo Robert Redford), um jovem atleta pequeno burguês apolítico que gosta de escrever contos. Duas melodias distintas tocando, cada uma, em seu uníssono, a fim de formar a sinfonia perfeita movida apenas, e tão somente, pelo amor, variando entre tons de dor, paixão e tristeza numa roda-gigante por vezes monótona e despretensiosa. Porém, carrega uma questão ainda atual: a não aceitação do contraditório, quando qualquer conversa vira bate-boca. É uma obra de ritmo lento, mas envolvente e cativante dentro do saboroso arco romântico retratado. Paradoxalmente, antissentimental.
O Espelho
4.2 274 Assista AgoraAo revisitar esta distinta obra-prima, percebe-se o quão valiosa e poética é a câmera do diretor soviético. Pois, funcionando como suas lembranças, eis um sublime filme levemente autobiográfico repleto de visuais e sons que apenas as paredes da memória são capazes de fornecer. Lírico, profundo, intenso e incrível, e de modo não convencional onde o indefinível penetra a monotonia, é sobre as dores e as delícias cicatrizadas, em cada cidadão, por essa divindade chamada vida. Passado, presente e futuro coexistindo em peso, como reflexos. Ou seja, demonstrando que talvez o maior medo dos pais/filhos seja realmente o espelho se quebrar. Recomenda-se entregar-se ao deleite estético e imagético do longa, neste onirismo hipnotizante que iguala o mundano ao milagroso.
Terra Tranquila
3.4 73 Assista AgoraEmbora se enquadre no gênero de ficção científica pós-apocalíptica, este interessante e peculiar filme retrata primordialmente dos dilemas neuroexistenciais da humanidade, como solidão, futuro tecnológico e fé, dentro da famigerada soberba do homem que brinca de ser Deus. Sobre um cientista neozelandês (Bruno Lawrence) que, um dia, acorda e percebe-se sozinho na Terra, os efeitos visuais, simples, são substituídos pelos dramas psicológicos dos parcos personagens, numa trama que, apesar de crua e cheia de buracos, é envolvente e oferece a ambiguidade necessária às discussões nas mesas de bar após os créditos finais, principalmente sobre a última cena, centrada entre a cosmologia do uni(multi)verso e a escatologia concreta. Uma obra refrescante, vibrante e límbica merecedora de maior valoração.
Eddington
3.2 119Uma simpática mistura contemporânea de faroeste, sátira política e crítica social sobre a pandemia da covid-19 e suas curiosas consequências, tão divisivas naquele período quanto atualmente - como a obrigatoriedade de usar a máscara, por exemplo. Mas, sobretudo, quanto às redes (anti)sociais que, além de dialogarem, condicionam o mundo real de maneira abrupta e imaterial. Aqui, neste interessante e valioso filme, a verdade absoluta é travada pelas batalhas de narrativas entre figuras humanamente ridículas e instáveis, começando com as agressões por vídeos e finalizando em balas ricocheteadas. Embora bagunçado, desfocado e surreal, é o cinema cético de um mundo em ruínas num momento insensato da história que, casualmente, é o hoje.
Andrei Rublev
4.3 131 Assista AgoraVenerado como santo na Igreja Católica Ortodoxa Oriental, Andrei Rublev, que vivera na transição do Século XIV para o XV, foi um dos maiores pintores russos medievais de signos e afrescos cristãos. Assim, baseado vagamente na vida desse artista, este épico e dramático filme funciona como uma identidade histórica de um período turbulento da Rússia, com conflitos incessantes entre príncipes rivais, invasões tártaras e a pesada mão do cristianismo, moldando o que viria a ser aquele grande país. Acima de tudo, busca detalhar a interseção entre fé e arte, sendo que, para o diretor soviético, essa é necessária para esta. Logo, em pleno ateísmo de Estado quando do lançamento, a obra sofreu diversas censuras e cortes, tendo várias versões espalhadas por aí. Porém, é um cinema altamente original, cerebral, poético e grandioso, rico em detalhes visuais iconográficos identitários.
Neste Mundo e no Outro
4.0 42 Assista AgoraExcêntrico, nonsense e alucinógeno, este belo e espiritual filme britânico é, essencialmente, sobre o amor. Com ares de megalomania do espetáculo cinematográfico, a história fantasiosa e criativa, mesmo em cima de um assunto doloroso como a morte, alude à esperança de um mundo melhor (visto ser ambientado ao fim da Segunda Guerra Mundial e em consolo a tantos que perderam entes queridos) tendo o sentimento amoroso como sua base sólida e edificante. Satirizando ingleses e estadunidenses nas suas paixões por conflitos, o longa ainda traz o "juridiquês" burocrático pra tela num terceiro ato brilhante e icônico com carga emocional à la Frank Capra. Sem contar a cena da incessante escada para o céu, ou, como preferirem, "starway to heaven". Um fabuloso drama romântico desvairado, criativo e agradável.
Gabbeh
3.8 36Um belo e subversivo exemplo do famigerado novo cinema iraniano, o qual abraça o tradicionalismo das clãs nômades daquele país ao mesmo tempo que clama a esperança pela liberdade feminina e amorosa. Talhado no gabbeh, o tradicional tapete produzido pela tribo Gashghai, contém a história da jovem e bela Gabbeh, que aparece como uma mágica diante de um casal apaixonado de idosos e sonha em partir com seu amado cavaleiro errante, sob as aventuras de suas andanças entre cores e dramas. De maneira onírica, romântica e irrealista, o filme, às vezes executado de forma confusa, funciona como uma meditação por meio da poesia visual evocada pela câmera em planos fechados do diretor, além de ser uma declaração de amor às tecelãs do Irã, que, assim como a cinematografia, entrelaçam os diferentes fios resultando em histórias bonitas, inusitadas e instigantes. Uma obra de beleza deslumbrante e encantadora.
Crumb
4.3 74Ícone lendário do cartoon underground estadunidense, Robert Crumb trafega na tênue linha do misógino escatológico pornográfico ou gênio transgressor neuroexistencial, sendo, literalmente, 08 ou 80 na percepção da sua arte e, conforme demonstrado neste curioso documentário, vida. Ao retratar o caminho trilhado pelo cartunista supracitado e em companhia dos excêntricos irmãos, este filme também demonstra como a criatividade artística é movida pelo caos, já que o impacto cultural dessa família estranha deriva originariamente de um punitivismo e rigidez paternos, criando traumas e, principalmente, bichos. Cativante, perturbador, hilário e sombrio, o longa funciona mesmo sem o espectador saber da existência de R. Crumb, pois, além de focar num mestre dos quadrinhos, desnuda os mistérios de uma engenhosidade imaginativa prática e louca.