O filme tem uma espécie de tensão fria, como se tudo estivesse um pouco fora do lugar antes mesmo de qualquer coisa se revelar de fato. Aos poucos, porém, essa sensação vai encontrando função em como a forma instável acompanha a própria personagem, e os pequenos deslocamentos estéticos passam a fazer parte da maneira como a narrativa entende repressão, desejo e medo.
O que mais me pegou foi essa interconexão entre a história e o modo como ela é contada. Um gesto, uma mudança mínima de clima, uma imagem mais estranha, tudo vai se alterando conforme Thelma também se altera. O filme funciona melhor quando deixa essa inquietação respirar, quando transforma o sobrenatural menos em explicação e mais em sintoma de algo que estava preso no corpo, na culpa, na educação, na família...
Ainda assim, senti alguns limites. Em certos momentos, a construção parece mais interessante do que o impacto emocional que ela produz. Acredito que o filme me manteve mais envolvido do que efetivamente impactado.
Acho que me interessou mais pelas promessas do que necessariamente pelo que decidiu enfrentar de fato. Em vários momentos, parece que o filme vai abrir uma discussão mais incômoda sobre religião, culpa, trauma e saúde mental, que é terreno delicado e fácil de tratar de forma irresponsável, mas ele acaba recuando antes de se debruçar efetivamente. Fica uma sensação estranha de uma oportunidade parcialmente desviada. Ainda assim, há algo nele que funciona. O isolamento, o frio, a casa como espaço de ameaça e confusão, tudo isso é construído com bastante força. A estética tem peso, e o cenário parece pensado como parte do estado mental do filme. Talvez por isso eu tenha ficado dividido, pois o filme mais convincente quando cria atmosfera do que quando tenta transformar essa atmosfera em reflexão. Como experiência de horror psicológico, tem bons momentos. Como mergulho naquilo que ele mesmo sugere, fica um pouco aquém.
É um tipo de humor que parece deslocado de várias formas, e talvez seja justamente por isso que ainda diverte. O filme não tenta se defender com subtexto, comentário maior ou alguma camada escondida esperando ser descoberta. Ele só empilha piadas, gags, situações idiotas, esquetes que por vezes funciona e, por outras, não. Essa falta de ambição quase vira uma qualidade. Fazia tempo que eu não via uma comédia tão interessada apenas em ser engraçada. Não em parecer esperta, não em justificar sua própria existência, não em transformar cada piada em diagnóstico cultural. Só engraçada. E, em alguma medida, ela consegue. Não saí com nada muito forte na cabeça, mas nem acho que havia algo para levar comigo além dessa sensação simples de bobagem direta. Divertido.
Tim Robinson é ótimo porque parece carregar no corpo inteiro um tipo muito específico de constrangimento. Ele é, de certo modo, a primeira temporada de The Office encarnada em alguém, aquela mistura de desespero social, inadequação, autoengano e vontade absurda de ser visto. O filme entende muito bem isso. É desconfortavelmente engraçado, não só porque as situações escalam, mas porque elas nascem de uma carência meio patética e meio reconhecível.
O que mais me pegou, porém, foi como Amizade Tóxica funciona quase como um anti-bromance. E ter Paul Rudd ali é ótimo justamente porque ele traz essa imagem de charme masculino acessível, simpático, fácil, quase terapêutico, o tipo de cara que parece prometer uma vida social mais leve só por existir perto. Só que o filme vai para outro lugar. O atrito que aparece é entre um ideal moderno de masculinidade, cheio de sonhos de potência, espontaneidade, sucesso e pertencimento, e aquilo que o capitalismo tardio de fato entrega para o homem trabalhador contemporâneo, que é uma vida achatada, estranha, ansiosa, onde até fazer um amigo vira um pequeno colapso.
Acho esse atrito ótimo e ainda pouco explorado. O filme talvez não vá tão longe quanto poderia, mas fica ali, cutucando uma coisa incômoda que é a amizade masculina como promessa de salvação e, ao mesmo tempo, como mais uma forma de inadequação.
Me diverti bastante com como Tucker e Dale Contra o Mal desmonta o terror caipira pelo lado mais simples e, justamente por isso, mais eficiente: a comédia nasce quase sempre do desencaixe entre o que os personagens acham que estão vendo e o que de fato está acontecendo. O filme não parece ter uma ambição enorme, mas entende muito bem a brincadeira que está fazendo. O que mais funciona, de fato, é justamente essa circulação por estruturas metalinguísticas. Ele conhece os clichês, cutuca as expectativas do espectador e tira boas risadas da paranoia do gênero. O filme é esperto, simpático e muito competente no próprio tamanho. Vale a pena ver.
Eu sou meio obcecado com o quanto esse filme é cruel enquanto se mantém estranhamente limpo e controlado. É um deboche direto – da fama, da necessidade de atenção, dessas pequenas humilhações que a gente aceita só pra ser visto – e sempre fica martelando na minha cabeça muito depois de acabar. Talvez seja meu Scorsese favorito, porque é o que parece mais radical sem fazer alarde, sem berrar na sua cara que está sendo-o. E o De Niro aqui é absurdo – tão preciso quanto incômodo. Incrível.
Kleber Mendonça Filho sempre foi mestre em usar o espaço físico para falar de tensões sociais, mas em O Agente Secreto, ele usa o cinema de gênero para dissecar o tempo. E não qualquer tempo, mas o período mais brutalmente corrupto e desigual do nosso país.
Nesse sentido, o diretor tem o raro entendimento que, para retratar a ditadura, é preciso olhar para além da tortura física e encarar a cleptocracia que lhe foi tão marcante: a corrupção endêmica entre as elites econômicas e os militares. E isso, claro, sem ignorar a estrutura de naturalização da violência a partir das forças de opressão estatal que leva ao desumano cotidiano que se espalha da cena de abertura ao clímax explosivo.
Wagner Moura entrega uma performance colossal, embora, vale dizer, não do jeito que Hollywood glorifica - não há, com efeito, uma ode ao espetáculo da dor. Há, na verdade, um pesar constante, mas tão doído quanto espirituoso e afetuoso. Sua excelência aqui dialoga diretamente com a de Fernanda Torres em Ainda Estou Aqui ou Fernanda Montenegro em Central do Brasil: uma atuação construída na nuance, no não-dito e no peso que se carrega nos ombros com a familiar ternura que caracteriza nosso povo.
Kleber, ao fim, usa o pretérito imperfeito para explicar este nosso presente insuportável. O Brasil de hoje dói, e o filme nos diz por quê: porque a ferida nunca foi costurada, apenas coberta com insólitos acordos banhados pelo dinheiro e pelo silêncio cínico.
One Battle After Another é daqueles filmes que parecem dizer “ok, vamos rir para não enlouquecer” - e ainda assim conseguem pensar de verdade. Pra mim, é genial justamente por fazer uma leitura cínica (e bem afiada) dos limites do modelo civilizatório estadunidense e das tragédias anti-utópicas do capitalismo tardio. A sua promessa de ordem presente ecoa, no máximo, como um ruído; ao passo que a promessa de futuro é uma mera gestão dos desastres que se impõem.
O mais gostoso é que isso vem em embalagem surpreendentemente “fácil” de ver. Muito por causa da veia cômica do DiCaprio e do Benicio del Toro, que dão leveza sem diluir a crítica. O absurdismo aqui não perde força por falha técnica ou narrativa; ele esbarra num problema mais estranho: a realidade concreta, às vezes, já está mais absurda que a ficção. Por isso o filme concilia humor e crítica sem virar só uma psicodelia autocontente.
E o Sean Penn está brilhante: uma caricatura realista, extremista, mas cheia de camadas - o tipo de personagem que assusta porque parece algo que conhecemos muito bem. No fim, o filme não cai nem no cinismo paralisante nem no otimismo bobo, mas fica com uma tese simples e dura: as batalhas que se seguem valem a pena. Sempre.
Uma imersão surpreendente no reflexo distorcido da fama. A trama é tão cativante quanto a arte em si, mesclando beleza e paranoia com uma sutileza impressionante. Satoshi Kon apresenta um marco no suspense psicológico e na animação para adultos. Envelheceu bem pra caramba.
“Sr. Ninguém” é uma daquelas experiências visuais que parecem transbordar da tela. É um filme que transforma a estética em narrativa: imagens que hipnotizam, cores que parecem sonhar por conta própria. Mas, por trás desse espetáculo visual, existe uma história profundamente humana. A premissa é simples de contar, mas impossível de limitar: Nemo Nobody, o último mortal em um mundo de imortais, relembra as vidas que poderia ter vivido. O roteiro costura linhas do tempo como fragmentos de memória, em que cada escolha abre um universo inteiro — alguns felizes, outros trágicos, todos inevitáveis. A força do filme está em nos lembrar de algo ao mesmo tempo óbvio e avassalador: não somos apenas a soma de nossos êxitos ou fracassos. Cada decisão — e até mesmo a ausência dela — nasce de cadeias de circunstâncias, encontros e bifurcações invisíveis.
Visualmente, é deslumbrante. A fotografia mistura tons quentes e frios como se fossem estados de espírito; a montagem nos arremessa de um futuro de ficção científica a um presente íntimo em questão de segundos; e a trilha sonora sustenta esse balé de emoções com uma melancolia delicada. É um filme para assistir de olhos bem abertos e coração exposto. “Sr. Ninguém” nos recorda que viver é perder infinitas possibilidades, mas também é ganhar a beleza do instante fugaz que habitamos. Uma obra de cinema que é filosofia disfarçada de ficção científica, e poesia disfarçada de filme.
Começa como um trashzão de zumbi e vira uma homenagem apaixonada ao ato de fazer cinema. A estrutura é genial, o humor é afiado, e o coração é gigante. Uma aula disfarçada de piada. Imperdível.
A estrutura é metalinguística sem ser pretensiosa. É filme sobre fazer um filme — com dinheiro que era pra ser usado pra... uma fossa. Genial. E triste também: uma obra assim merecia ser muito mais conhecida.
Isso daqui é das coisas mais malucas que eu vi em um bom tempo. E falo isso da maneira mais elogiosa possível. Não acredito que será um filme falado 10 anos no futuro, mas, hoje, é uma boa expressão do renascimento do gore e do horror corporal. Vale a pena.
Que ótimo terror psicológico. Aliás, que grande fase vive o gênero, hein? Um tom aflitivo, quase torturante e uma interpretação no mínimo intrigante do Nicolas Cage. Perkins utiliza simbolismos eficazes para retratar a fragilidade humana e as sombras que assombram o passado. As longas pernas do título, mais que uma metáfora visual, tornam-se um símbolo do peso das escolhas dos personagens secundários. Não é perfeito, contudo. Longe disso. A narrativa por vezes parece se perder um pouco em suas próprias ambições, resultando em momentos que, embora visualmente impactantes, deixam a desejar em coesão. Mas com toda a certeza é um filme que vale a pena ser assistido.
Infinitamente melhor do que a encomenda. Com uma premissa simples — óculos que revelam uma verdade oculta — o filme critica o consumismo, o conformismo, a degradação ambiental e a manipulação midiática que estruturam a ordem social capitalista. Roddy Piper brilha, com a cafonice dos grandes, como um herói relutante, com cenas icônicas e diálogos memoráveis. Eu nunca vou me esquecer da linha "I'm here to chew bubblegum and kick ass." Assistam, pelo amor de Deus.
Brandon Fraser é fenomenal. A atuação de uma vida. E ótima também a estética teatral, onde cada cena é meticulosamente encenada para transmitir um tom aflitivo e quase torturante - e essa escolha reforça a sensação de isolamento e desespero de Charlie. Aronofsky, embora desemboque para aquela coisa pretensiosa e quase arrogante, encontra, em geral, um equilíbrio delicado entre o simbolismo visual e o desenvolvimento psicológico dos personagens. A baleia, tanto literal quanto metaforicamente, serve como um ícone de redenção e destruição. Recomendo fortemente.
Isso aqui é tão ambicioso quanto complexo, um belo mergulho reflexivo em tópicos sensíveis como ganância e ambição. A fotografia é das coisas mais lindas que o cinema produziu nos últimos 20 anos, sem dúvida, e não à toa Robert Elswit foi tão premiado e celebrado. As paisagens áridas e desoladas são capturadas com uma beleza sombria que reflete a decadência moral dos personagens. Ao mesmo tempo, vai se construindo um crescente florestamento ao mesmo tempo em que a história se degenera ainda mais: uma espécie de brincadeira paradoxal onde o belo não mais alcança a podridão corrosiva dos petrodólares.
Daniel Day-Lewis - que é, talvez, o melhor ator de língua inglesa da história do cinema, entrega uma performance que é simultaneamente magnética e aterrorizante. Há uma intensidade no personagem que nos faz acompanhar gestos e olhares carregados de significado. O "problema" é que sua atuação é tão, mas tão avassaladora que acaba obscurecendo os outros personagens, meras e pálidas sombras em comparação.
E daí nasce o que desvia o filme do que seria uma obra-prima absoluta. A ambição narrativa, por vezes, parece um pouco excessiva em uma narrativa onde os personagens secundários acabam sendo meramente alegóricos.
Ao fim e ao cabo, contudo, é uma obra poderosa, combinando um direção magistral (o primeiro arco do filme, sem diálogo, é de uma potência incrível) fotografia magnífica e uma das atuações mais marcantes da história recente do cinema. Um grande (e talvez exagerado) espetáculo.
Promete muito, mas não entrega tanto. O sabor é quase agridoce.
Comecemos pelo ponto mais forte do filme: a fotografia. Como era de se esperar de del Toro, O Beco do Pesadelo é visualmente deslumbrante. A cinematografia é rica em detalhes, com uma paleta de cores que varia do sombrio ao vibrante, criando uma atmosfera que captura perfeitamente o clima quasi-noir. A câmera se move com graça, guiando o espectador através de um labirinto visual que, infelizmente, é mais interessante do que a trama que sustenta.
O elenco é, sem sombra de duvidas, bem talentoso. Bradley Cooper entrega uma performance competente como o ambicioso Stanton Carlisle, mas parece faltar algo que realmente nos faça torcer ou temer por ele. Cate Blanchett, por outro lado, brilha como a enigmática Dr. Lilith Ritter. Sua presença em cena é magnética, e ela domina cada quadro em que aparece, trazendo uma intensidade que é, muitas vezes, mais envolvente do que o próprio enredo.
O roteiro é onde a coisa toda balança. A narrativa é arrastada, com uma construção de personagem que, apesar de bem-intencionada, se torna cansativa ao longo das duas horas e meia de duração. Há momentos em que a história parece se perder em sua própria complexidade, tentando ser mais profunda do que realmente é. Uma coisa um pouco pretensiosa.
O filme não se contenta em ser apenas um desfile de (ótimos) zumbis e sangue; ele nos força a confrontar a lógica tosca do militarismo e a fria racionalidade do cientificismo. Romero nos mostra que, em um mundo em frangalhos, a monstruosidade reside, de fato, nas instituições sociais que, em tese, deveriam trazer uma perspectiva de segurança, no caso verde oliva, e de um futuro de paz, no caso dos jalecos brancos. Com isso, o filme não só entrega um terror ótimo, mas também uma reflexão perturbadora sobre as falhas e absurdos de nossas estruturas sociais. E tudo isso com muitas tripas e cérebros. Maravilhoso.
O filme é bom e eu não esperava menos de um cineasta talentoso como o Ari Aster, mas só queria expressar aqui, em escrito, a minha tristeza com o acréscimo de "O Mal Não Espera a Noite" ao título original. É muito tosco e parece uma piada com aquelas traduções bizarras dos anos 80 e 90. Surreal.
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Thelma
3.5 360 Assista AgoraO filme tem uma espécie de tensão fria, como se tudo estivesse um pouco fora do lugar antes mesmo de qualquer coisa se revelar de fato. Aos poucos, porém, essa sensação vai encontrando função em como a forma instável acompanha a própria personagem, e os pequenos deslocamentos estéticos passam a fazer parte da maneira como a narrativa entende repressão, desejo e medo.
O que mais me pegou foi essa interconexão entre a história e o modo como ela é contada. Um gesto, uma mudança mínima de clima, uma imagem mais estranha, tudo vai se alterando conforme Thelma também se altera. O filme funciona melhor quando deixa essa inquietação respirar, quando transforma o sobrenatural menos em explicação e mais em sintoma de algo que estava preso no corpo, na culpa, na educação, na família...
Ainda assim, senti alguns limites. Em certos momentos, a construção parece mais interessante do que o impacto emocional que ela produz. Acredito que o filme me manteve mais envolvido do que efetivamente impactado.
O Chalé
3.3 733 Assista AgoraAcho que me interessou mais pelas promessas do que necessariamente pelo que decidiu enfrentar de fato. Em vários momentos, parece que o filme vai abrir uma discussão mais incômoda sobre religião, culpa, trauma e saúde mental, que é terreno delicado e fácil de tratar de forma irresponsável, mas ele acaba recuando antes de se debruçar efetivamente. Fica uma sensação estranha de uma oportunidade parcialmente desviada. Ainda assim, há algo nele que funciona. O isolamento, o frio, a casa como espaço de ameaça e confusão, tudo isso é construído com bastante força. A estética tem peso, e o cenário parece pensado como parte do estado mental do filme. Talvez por isso eu tenha ficado dividido, pois o filme mais convincente quando cria atmosfera do que quando tenta transformar essa atmosfera em reflexão. Como experiência de horror psicológico, tem bons momentos. Como mergulho naquilo que ele mesmo sugere, fica um pouco aquém.
Corra Que a Polícia Vem Aí!
3.0 224 Assista AgoraÉ um tipo de humor que parece deslocado de várias formas, e talvez seja justamente por isso que ainda diverte. O filme não tenta se defender com subtexto, comentário maior ou alguma camada escondida esperando ser descoberta. Ele só empilha piadas, gags, situações idiotas, esquetes que por vezes funciona e, por outras, não. Essa falta de ambição quase vira uma qualidade. Fazia tempo que eu não via uma comédia tão interessada apenas em ser engraçada. Não em parecer esperta, não em justificar sua própria existência, não em transformar cada piada em diagnóstico cultural. Só engraçada. E, em alguma medida, ela consegue. Não saí com nada muito forte na cabeça, mas nem acho que havia algo para levar comigo além dessa sensação simples de bobagem direta. Divertido.
Amizade Tóxica
3.0 32 Assista AgoraTim Robinson é ótimo porque parece carregar no corpo inteiro um tipo muito específico de constrangimento. Ele é, de certo modo, a primeira temporada de The Office encarnada em alguém, aquela mistura de desespero social, inadequação, autoengano e vontade absurda de ser visto. O filme entende muito bem isso. É desconfortavelmente engraçado, não só porque as situações escalam, mas porque elas nascem de uma carência meio patética e meio reconhecível.
O que mais me pegou, porém, foi como Amizade Tóxica funciona quase como um anti-bromance. E ter Paul Rudd ali é ótimo justamente porque ele traz essa imagem de charme masculino acessível, simpático, fácil, quase terapêutico, o tipo de cara que parece prometer uma vida social mais leve só por existir perto. Só que o filme vai para outro lugar. O atrito que aparece é entre um ideal moderno de masculinidade, cheio de sonhos de potência, espontaneidade, sucesso e pertencimento, e aquilo que o capitalismo tardio de fato entrega para o homem trabalhador contemporâneo, que é uma vida achatada, estranha, ansiosa, onde até fazer um amigo vira um pequeno colapso.
Acho esse atrito ótimo e ainda pouco explorado. O filme talvez não vá tão longe quanto poderia, mas fica ali, cutucando uma coisa incômoda que é a amizade masculina como promessa de salvação e, ao mesmo tempo, como mais uma forma de inadequação.
Tucker & Dale Contra o Mal
3.7 431 Assista AgoraMe diverti bastante com como Tucker e Dale Contra o Mal desmonta o terror caipira pelo lado mais simples e, justamente por isso, mais eficiente: a comédia nasce quase sempre do desencaixe entre o que os personagens acham que estão vendo e o que de fato está acontecendo. O filme não parece ter uma ambição enorme, mas entende muito bem a brincadeira que está fazendo. O que mais funciona, de fato, é justamente essa circulação por estruturas metalinguísticas. Ele conhece os clichês, cutuca as expectativas do espectador e tira boas risadas da paranoia do gênero. O filme é esperto, simpático e muito competente no próprio tamanho. Vale a pena ver.
O Rei da Comédia
4.0 378 Assista AgoraEu sou meio obcecado com o quanto esse filme é cruel enquanto se mantém estranhamente limpo e controlado. É um deboche direto – da fama, da necessidade de atenção, dessas pequenas humilhações que a gente aceita só pra ser visto – e sempre fica martelando na minha cabeça muito depois de acabar. Talvez seja meu Scorsese favorito, porque é o que parece mais radical sem fazer alarde, sem berrar na sua cara que está sendo-o. E o De Niro aqui é absurdo – tão preciso quanto incômodo. Incrível.
O Agente Secreto
3.9 1,1K Assista AgoraKleber Mendonça Filho sempre foi mestre em usar o espaço físico para falar de tensões sociais, mas em O Agente Secreto, ele usa o cinema de gênero para dissecar o tempo. E não qualquer tempo, mas o período mais brutalmente corrupto e desigual do nosso país.
Nesse sentido, o diretor tem o raro entendimento que, para retratar a ditadura, é preciso olhar para além da tortura física e encarar a cleptocracia que lhe foi tão marcante: a corrupção endêmica entre as elites econômicas e os militares. E isso, claro, sem ignorar a estrutura de naturalização da violência a partir das forças de opressão estatal que leva ao desumano cotidiano que se espalha da cena de abertura ao clímax explosivo.
Wagner Moura entrega uma performance colossal, embora, vale dizer, não do jeito que Hollywood glorifica - não há, com efeito, uma ode ao espetáculo da dor. Há, na verdade, um pesar constante, mas tão doído quanto espirituoso e afetuoso. Sua excelência aqui dialoga diretamente com a de Fernanda Torres em Ainda Estou Aqui ou Fernanda Montenegro em Central do Brasil: uma atuação construída na nuance, no não-dito e no peso que se carrega nos ombros com a familiar ternura que caracteriza nosso povo.
Kleber, ao fim, usa o pretérito imperfeito para explicar este nosso presente insuportável. O Brasil de hoje dói, e o filme nos diz por quê: porque a ferida nunca foi costurada, apenas coberta com insólitos acordos banhados pelo dinheiro e pelo silêncio cínico.
O passado, animal teimoso, continua acontecendo.
Uma Batalha Após a Outra
3.7 669 Assista AgoraOne Battle After Another é daqueles filmes que parecem dizer “ok, vamos rir para não enlouquecer” - e ainda assim conseguem pensar de verdade. Pra mim, é genial justamente por fazer uma leitura cínica (e bem afiada) dos limites do modelo civilizatório estadunidense e das tragédias anti-utópicas do capitalismo tardio. A sua promessa de ordem presente ecoa, no máximo, como um ruído; ao passo que a promessa de futuro é uma mera gestão dos desastres que se impõem.
O mais gostoso é que isso vem em embalagem surpreendentemente “fácil” de ver. Muito por causa da veia cômica do DiCaprio e do Benicio del Toro, que dão leveza sem diluir a crítica. O absurdismo aqui não perde força por falha técnica ou narrativa; ele esbarra num problema mais estranho: a realidade concreta, às vezes, já está mais absurda que a ficção. Por isso o filme concilia humor e crítica sem virar só uma psicodelia autocontente.
E o Sean Penn está brilhante: uma caricatura realista, extremista, mas cheia de camadas - o tipo de personagem que assusta porque parece algo que conhecemos muito bem. No fim, o filme não cai nem no cinismo paralisante nem no otimismo bobo, mas fica com uma tese simples e dura: as batalhas que se seguem valem a pena. Sempre.
Perfect Blue
4.3 837Uma imersão surpreendente no reflexo distorcido da fama. A trama é tão cativante quanto a arte em si, mesclando beleza e paranoia com uma sutileza impressionante. Satoshi Kon apresenta um marco no suspense psicológico e na animação para adultos. Envelheceu bem pra caramba.
Sr. Ninguém
4.3 2,7K Assista Agora“Sr. Ninguém” é uma daquelas experiências visuais que parecem transbordar da tela. É um filme que transforma a estética em narrativa: imagens que hipnotizam, cores que parecem sonhar por conta própria. Mas, por trás desse espetáculo visual, existe uma história profundamente humana. A premissa é simples de contar, mas impossível de limitar: Nemo Nobody, o último mortal em um mundo de imortais, relembra as vidas que poderia ter vivido. O roteiro costura linhas do tempo como fragmentos de memória, em que cada escolha abre um universo inteiro — alguns felizes, outros trágicos, todos inevitáveis. A força do filme está em nos lembrar de algo ao mesmo tempo óbvio e avassalador: não somos apenas a soma de nossos êxitos ou fracassos. Cada decisão — e até mesmo a ausência dela — nasce de cadeias de circunstâncias, encontros e bifurcações invisíveis.
Visualmente, é deslumbrante. A fotografia mistura tons quentes e frios como se fossem estados de espírito; a montagem nos arremessa de um futuro de ficção científica a um presente íntimo em questão de segundos; e a trilha sonora sustenta esse balé de emoções com uma melancolia delicada. É um filme para assistir de olhos bem abertos e coração exposto. “Sr. Ninguém” nos recorda que viver é perder infinitas possibilidades, mas também é ganhar a beleza do instante fugaz que habitamos. Uma obra de cinema que é filosofia disfarçada de ficção científica, e poesia disfarçada de filme.
Plano-Sequência dos Mortos
4.1 123Começa como um trashzão de zumbi e vira uma homenagem apaixonada ao ato de fazer cinema. A estrutura é genial, o humor é afiado, e o coração é gigante. Uma aula disfarçada de piada. Imperdível.
Saneamento Básico, O Filme
3.7 836 Assista AgoraA estrutura é metalinguística sem ser pretensiosa. É filme sobre fazer um filme — com dinheiro que era pra ser usado pra... uma fossa. Genial. E triste também: uma obra assim merecia ser muito mais conhecida.
Goreman: O Psicopata
3.2 59Isso daqui é das coisas mais malucas que eu vi em um bom tempo. E falo isso da maneira mais elogiosa possível. Não acredito que será um filme falado 10 anos no futuro, mas, hoje, é uma boa expressão do renascimento do gore e do horror corporal. Vale a pena.
Longlegs: Vínculo Mortal
3.2 940 Assista AgoraQue ótimo terror psicológico. Aliás, que grande fase vive o gênero, hein? Um tom aflitivo, quase torturante e uma interpretação no mínimo intrigante do Nicolas Cage. Perkins utiliza simbolismos eficazes para retratar a fragilidade humana e as sombras que assombram o passado. As longas pernas do título, mais que uma metáfora visual, tornam-se um símbolo do peso das escolhas dos personagens secundários. Não é perfeito, contudo. Longe disso. A narrativa por vezes parece se perder um pouco em suas próprias ambições, resultando em momentos que, embora visualmente impactantes, deixam a desejar em coesão. Mas com toda a certeza é um filme que vale a pena ser assistido.
Eles Vivem
3.7 768 Assista AgoraInfinitamente melhor do que a encomenda. Com uma premissa simples — óculos que revelam uma verdade oculta — o filme critica o consumismo, o conformismo, a degradação ambiental e a manipulação midiática que estruturam a ordem social capitalista. Roddy Piper brilha, com a cafonice dos grandes, como um herói relutante, com cenas icônicas e diálogos memoráveis. Eu nunca vou me esquecer da linha "I'm here to chew bubblegum and kick ass." Assistam, pelo amor de Deus.
A Baleia
4.0 1,2K Assista AgoraBrandon Fraser é fenomenal. A atuação de uma vida. E ótima também a estética teatral, onde cada cena é meticulosamente encenada para transmitir um tom aflitivo e quase torturante - e essa escolha reforça a sensação de isolamento e desespero de Charlie. Aronofsky, embora desemboque para aquela coisa pretensiosa e quase arrogante, encontra, em geral, um equilíbrio delicado entre o simbolismo visual e o desenvolvimento psicológico dos personagens. A baleia, tanto literal quanto metaforicamente, serve como um ícone de redenção e destruição. Recomendo fortemente.
Sangue Negro
4.3 1,2K Assista AgoraIsso aqui é tão ambicioso quanto complexo, um belo mergulho reflexivo em tópicos sensíveis como ganância e ambição. A fotografia é das coisas mais lindas que o cinema produziu nos últimos 20 anos, sem dúvida, e não à toa Robert Elswit foi tão premiado e celebrado. As paisagens áridas e desoladas são capturadas com uma beleza sombria que reflete a decadência moral dos personagens. Ao mesmo tempo, vai se construindo um crescente florestamento ao mesmo tempo em que a história se degenera ainda mais: uma espécie de brincadeira paradoxal onde o belo não mais alcança a podridão corrosiva dos petrodólares.
Daniel Day-Lewis - que é, talvez, o melhor ator de língua inglesa da história do cinema, entrega uma performance que é simultaneamente magnética e aterrorizante. Há uma intensidade no personagem que nos faz acompanhar gestos e olhares carregados de significado. O "problema" é que sua atuação é tão, mas tão avassaladora que acaba obscurecendo os outros personagens, meras e pálidas sombras em comparação.
E daí nasce o que desvia o filme do que seria uma obra-prima absoluta. A ambição narrativa, por vezes, parece um pouco excessiva em uma narrativa onde os personagens secundários acabam sendo meramente alegóricos.
Ao fim e ao cabo, contudo, é uma obra poderosa, combinando um direção magistral (o primeiro arco do filme, sem diálogo, é de uma potência incrível) fotografia magnífica e uma das atuações mais marcantes da história recente do cinema. Um grande (e talvez exagerado) espetáculo.
O Beco do Pesadelo
3.5 524 Assista AgoraPromete muito, mas não entrega tanto. O sabor é quase agridoce.
Comecemos pelo ponto mais forte do filme: a fotografia. Como era de se esperar de del Toro, O Beco do Pesadelo é visualmente deslumbrante. A cinematografia é rica em detalhes, com uma paleta de cores que varia do sombrio ao vibrante, criando uma atmosfera que captura perfeitamente o clima quasi-noir. A câmera se move com graça, guiando o espectador através de um labirinto visual que, infelizmente, é mais interessante do que a trama que sustenta.
O elenco é, sem sombra de duvidas, bem talentoso. Bradley Cooper entrega uma performance competente como o ambicioso Stanton Carlisle, mas parece faltar algo que realmente nos faça torcer ou temer por ele. Cate Blanchett, por outro lado, brilha como a enigmática Dr. Lilith Ritter. Sua presença em cena é magnética, e ela domina cada quadro em que aparece, trazendo uma intensidade que é, muitas vezes, mais envolvente do que o próprio enredo.
O roteiro é onde a coisa toda balança. A narrativa é arrastada, com uma construção de personagem que, apesar de bem-intencionada, se torna cansativa ao longo das duas horas e meia de duração. Há momentos em que a história parece se perder em sua própria complexidade, tentando ser mais profunda do que realmente é. Uma coisa um pouco pretensiosa.
Dia dos Mortos
3.7 329 Assista AgoraO filme não se contenta em ser apenas um desfile de (ótimos) zumbis e sangue; ele nos força a confrontar a lógica tosca do militarismo e a fria racionalidade do cientificismo. Romero nos mostra que, em um mundo em frangalhos, a monstruosidade reside, de fato, nas instituições sociais que, em tese, deveriam trazer uma perspectiva de segurança, no caso verde oliva, e de um futuro de paz, no caso dos jalecos brancos. Com isso, o filme não só entrega um terror ótimo, mas também uma reflexão perturbadora sobre as falhas e absurdos de nossas estruturas sociais. E tudo isso com muitas tripas e cérebros. Maravilhoso.
Midsommar: O Mal Não Espera a Noite
3.6 2,9K Assista AgoraO filme é bom e eu não esperava menos de um cineasta talentoso como o Ari Aster, mas só queria expressar aqui, em escrito, a minha tristeza com o acréscimo de "O Mal Não Espera a Noite" ao título original. É muito tosco e parece uma piada com aquelas traduções bizarras dos anos 80 e 90. Surreal.