"As Vantagens de Ser Invisível" é um filme que acerta em todas suas escolhas. A primeira delas, a de ter convidado o autor do livro para escrever o roteiro e, também, dirigir o filme.
O resultado é surpreendente.
O filme é um daqueles raros exemplos em que o filme consegue ser tão bom quanto o livro - embora menos barra pesada. Considerando a escolha de Emma Watson para o elenco (que é uma atriz que dialoga com o público jovem por sua interpretação de Ermione, em "Harry Potter"), é fácil perceber que os produtores queriam realizar um filme para esse público. E, para quem viveu a década de 90 - os temas eram mais sombrios naquela época, e o filme pega bem mais "leve" do que o livro.
Mas Chbosky consegue realizar um filme tão impactante quanto o livro que escreveu - e que, confesso, teriam mudado a minha vida e a forma com que eu vivi minha juventude nessa mesma década (apesar das personagens serem mais jovens do que eu era então). Mas impossível não se reconhecer na troca das "fitas cassetes", que eram uma forma que tínhamos de nos comunicar com o mundo e dizer quem éramos e como nos sentíamos para os nossos amigos. Algo mais pueril do que o Facebook, com certeza. Mas por um lado, vivíamos em um tempo menos "exibicionista", e perder um tempo de sua vida gravando um "Mix Tape" para um amigo era uma forma de dizer à ele o como realmente ele era importante para nós.
O filme é um grande candidato, desde já, a ser um dos melhores de 2013. E Logan Lerman, que parecia não prometer muito como ator em sua tímida participação em "Percy Jackson e o Ladrão de Raios", mostra, com esse filme, que tem tudo para ocupar seu lugar em Hollywood, com sutilezas de interpretação que me lembram bastante um James Franco já maduro, ou o fantástico Emile Hirsh (de "Na Natureza Selvagem" e "Speed Racer").
Ezra Miller, como Patrick é sensacional e Emma Watson, linda (como sempre).
Simplesmente imperdível, tanto o filme quanto o livro devem ser absorvidos sem pressa. Afinal, os anos 90 eram "menos agitados" por um lado (ou melhor, tínhamos mais tempo para ler e fazer Mix Tapes para os amigos).
Entretenimento sem muitas pretensões, que esconde críticas bastante inteligentes à nossa sociedade. Por baixo da camada "pipoca", há algum material para se refletir - principalmente, quando comparamos "Jogos Vorazes", com realitys shows do estilo "No Limite", ou até mesmo BBB.
É importante perceber que, por um momento, os jovens esquecem que estão entrando em um jogo mortal, e ficam fascinados pela "fama" imediata e entram em um jogo exibicionista para agradar ao público e chamar a atenção dos "patrocinadores".
Mas o filme perde um pouco de força, por manter-se na superfície dos fatos que propõe discutir. Talvez, com a continuação (que pretendo assistir), alguns fios que foram deixados soltos sejam melhores explorados.
Ok. O filme não é perfeito. Mas mesmo assim é muito bom.
No início, o filme não estava me agradando. Mais uma história "boy loves boy", que, na maioria das vezes, são bem fraquinhas.
Mas o filme me chamou a atenção por ser alemão e havia possibilidade de eu ver um filme falado em uma língua que estudo. Fora isso, não sabia de nada da história, do que se tratava e, tão pouco, que era um filme LGBT.
E talvez por isso mesmo eu tenha gostado tanto dele. Porque fiquei preso a atuação de Rick Okon (como Lukas) e completamente surpreso com a "revelação" de sua personagem.
Achei o filme muito bem conduzido e dirigido e bem dentro do cinema "independente" alemão, que acabo acompanhando em função da língua. E achei o ator impressionante.
O filme não é "chapado". As personagens não são lineares. E, mesmo com algumas falhas de roteiro, a história tem vários níveis de entendimento, o que faz o filme ser bem mais rico do que promete no início.
Logicamente nem todos os atores são excelentes. Em um filme de baixo orçamento, mesmo na Alemanha, não se trabalha com os atores "mais conhecidos". Não consigo ver o Daniel Brühl fazendo o filme, por exemplo.
Não curto muito o trabalho do ator Maximilan Befort.
Fica difícil entender o porque de Lukas se apaixonar por ele.
Com certeza, este não é um filme de "nicho" e serve pra que nós, como pessoas que somos (ou deveríamos ser), venhamos a pensar sobre essa questão tão delicada do "masculino e feminino". E também para que possamos refletir sobre nossos próprios preconceitos. Afinal, deveríamos ter a capacidade de aceitar as pessoas como elas são e não reagir de forma tão negativa a tudo aquilo que parece diferente.
Existem ao menos dois momentos na vida que percebemos, claramente, que amadurecemos. O primeiro deles é quando descobrimos que nossos pais não são como gostaríamos que eles fossem e o segundo, quando eles descobrem que nós também não somos quem eles gostariam que fôssemos.
Essa primeira relação de "rompimento" com os pais é, certamente dolorosa e angustiante. E, talvez, daí venha o conflito de buscar uma resposta do que fazer para nos encaixarmos no mundo.
Se há alguém mais novo que ainda acha que essa resposta chega com a idade, sinto informar. Só vejo a idade chegando, sem ter ao menos uma pista de onde ela possa estar (por isso vivam).
Voltando ao filme. Freud diz que toda a base da psicanálise está na sexualidade. Pode ser! E assim, todo o relacionamento pai e mãe se transforma em complexos que nos acompanham por toda a vida.
Como o sexo é tratado como algo "sujo", uma corrupção da alma divina que "sucumbe" aos desejos da carne, sentimos uma das primeiras dores da infância, quando acreditamos ter sido gerados por um ato de violência e não por um ato de amor.
E se fomos gerados por pura "sacanagem", há algum lugar possível para nós? Existe alguma espécie de amor possível (divino, paternal, fraternal etc) ou não há nada que justifique a vida que não seja simplesmente uma necessidade genética de reprodução? (Algo que não seja "orgânico").
Aí reside quase todos os conflitos do filme. Como podemos separar o que é sexo do que é amor? Ou por que deveríamos, até mesmo, criar uma separação para os dois?
Todos buscam aceitação. Primeiro por parte dos pais e depois por um grupo de amigos. Isso é o que é o mais importante em nossa infância e juventude. Perceber, no entanto, que essa é uma busca para a vida inteira, é o "X" da questão. Como diz o budismo, o mundo seria um lugar melhor se houvesse a consciência plena de que, no fundo, todos nós desejamos as mesmas coisas (aceitação, felicidade, amor, prosperidade etc).
Há um aspecto curioso na relação familiar de Lucas. Em vários momentos ele se vê melhor do que os "modelos" que ele teria para seguir (pai e mãe) - mesmo que ele ainda não saiba muito bem o que quer da vida ou como se colocar diante dela.
E pronto! A descoberta de que mesmo quando somos adultos, somos ainda imperfeitos e tão desorientados como em nossas adolescências é uma grande sacada do filme (seja ela intencional ou não).
A idade traz um enrijecimento dos nossos desejos. Construímos muros, ao invés de quebrá-los. Buscamos definições e certezas para um mundo que é, por sua natureza e essência, incerto. Obcecados por essa "certeza" absoluta, perdemos mais tempo julgando a vida do que, realmente, vivendo. Queremos estar certos o tempo inteiro. Acreditamos que nossas escolhas são melhores que as escolhas dos outros. Ledo engano! Nossas escolhas são nossas escolhas, que nos libertam e nos aprisionam em igual proporção.
Mas voltando à adolescência (e ao filme), nela, o que nos define não é bem o que fazemos, mas como nos sentimos em relação ao que fazemos. Nossos desejos são ambíguos. Nossas dúvidas impalpáveis. O que é preciso, é estar presente. Seja nos sonhos ou nos desejos sexuais de nossos colegas. Queremos testar nossos limites, ir além do que os outros (ou até nós mesmos) são capazes de tolerar. Mas o mais importante é perceber que, em última instância, os nossos desejos representam a necessidade de comunhão com o outro.
O problema não está no sexo em si, mas em como lidamos com ele. Ou ele é uma relação de poder (e um jogo viciante de conquistas), ou ele é uma das melhores experiências de nossas vidas. Somos nós que escolhemos como queremos vivê-lo.
Em "Glue", Lucas está cercado de dúvidas e desejos. Ele sente que é preciso romper barreiras, sem que isso o defina necessariamente como bom ou mal. Como certo ou errado. Como hétero ou gay. Ele apenas precisa deixar-se ser guiado para onde seus hormônios e desejos o conduzem. Quem ele vai ser depois dessa fase, vai depender muito de como ele vai lidar com seus desejos. Ou ele vai enxergar o mundo como um lugar cheio de "luxúria" e "pecado", ou vai enxergar seus desejos como uma paraíso repleto de possibilidades.
É muito bom poder assistir a um filme que não tenta nos dar uma lição de moral. Em "Glue" as pessoas são como são, agem como agem, e tentam levar a vida adiante da melhor forma possível para elas. Por isso são todos tão humanos. E por isso o filme não traz nenhuma resposta (e nem mesmo definições).
O filme realmente transita no mesmo universo de "Os Famosos e os Duendes da Morte", do Esmir Filho - recomendável para quem ainda não assistiu.
Destaque para a fotografia, principalmente pela escolha das cores utilizadas em diferentes momentos do filme, e também para a atuação de todos os atores, jovens e adultos. A trilha sonora é excelente e utilizada de forma econômica e precisa.
Se Ridley Scott não tinha nada a acrescentar à franquia iniciada com "Alien - o oitavo passageiro", o ideal é que ele não mexesse mais nela. Que pena! Para quem não viu o primeiro filme dirigido por ele - muitas das cenas de Prometheus vão ficar perdidas. É para quem viu... bem, melhor que não houvesse esse filme para comparar.
Em "Alien", a origem da criatura não importa. Por que ele tentou explicar? Se o primeiro filme é um clássico do gênero horror/ficção-científica, "Prometheus" não passa de um lixo de entretenimento, com um roteiro cansativo repleto de situações clichês.
É inacreditável que o diretor de "Blade Runner" e "Black Hawk Dawn" tenha feito esse filme.
Em tempo: assisti em DVD e acabei por ver as cenas que foram excluídas do filme. Elas só pioravam o que já estava ruim.
Talvez "50%" o livro seja melhor do que "50%" o filme. Não sei. Na verdade, nem sei se existe esse livro, embora a narrativa do filme me fizesse lembrar, muitas vezes, "The Fault in our Stars" de John Green (na verdade esse livro já está traduzido para o português com o título "A Culpa é das Estrelas" e a editora é a Intrínseca. Eu não li a tradução, por isso não posso opinar se ela é boa ou não, mas o original é simplesmente fabuloso).
Tratar o câncer com humor já é uma razão para ver esse filme. Mas aqui, a interpretação dos atores (principalmente de Joseph Gordon-Levitt) dá um toque especial ao filme, embalado por uma trilha sonora sensacional.
Não me impressiona que o filme faça sucesso entre o público mais jovem. Na verdade, o filme tem uma narrativa bem jovial, mesmo nos momentos "mais difíceis".
É aí, no entanto, que reside um dos poucos percalços dos filme. Ao tratar o tema de forma tão suave, o diretor Jonathan Levine perde a oportunidade de retratar um pouco mais profundamente a angústia vivida por Adam durante o processo de sua doença.
Mas tudo está lá, de uma forma ou de outra. E talvez, por não dar "voz" ao que se passa no interior de Adam, Levine permita que o espectador construa sua própria percepção sobre a trajetória da personagem e nos faça refletir sobre como é "estar doente".
O filme pode ser visto mesmo pelos de coração mais fraco (e que choram até em comercial de margarina). Sem levar a emoção ao extremo, o diretor nos entrega um filme redondo - que prefere fazer refletir do que manipular.
Um outro filme que vale a pena ser assistido é "Oscar e a Sra. Rosa" de Eric-Emmanuel Schmitt (o livro também é maravilhoso, mas, infelizmente, não é tão fácil de encontrar).
Apenas um parágrafo do livro: “Tentei explicar aos meus pais que a vida é um presente estranho. No início, superestimamos esse presente: imaginamos ter ganhado a vida eterna. Depois subestimamos, achamos uma porcaria, curta demais, até seríamos capazes de jogá-la fora. Enfim nos damos conta de que não era um presente, mas sim um empréstimo. Então procuramos merecê-lo.”
As vezes me pego pensando porque alguns filmes precisam de uma "resenha crítica" e outros não. Mas quando escrevemos algo sobre um filme, é porque queremos compartilhar nossos sentimentos em relação a ele. Falar sobre suas qualidades ou sobre seus defeitos (que nesse caso, não vi nenhum)
Mas resolvi não escrever nada sobre "O Abrigo". Acabei de assistir em DVD e ainda estou pensando sobre o filme. Mas uma coisa pode ser dita: "O Abrigo" não é um filme fácil e consegue ser extremamente pertubador e belo ao mesmo tempo.
Muitas metáforas poderiam ser citadas. Toda uma teoria psicanalítica poderia ser construida a partir do filme. Mas não sou psicanalista. Apenas alguém que estudou cinema e ainda consegue se surpreender com quanto um filme pode ser bom, sem gastar os tubos em efeitos especiais.
O filme é lento? Sim! É angustiante? Com certeza. Deixa mas dúvidas ao final do que respostas? Essa é a maior qualidade do filme.
Veja quem tiver vontade. Mas esteja aberto a receber um filme difícil, que nos deixa bastante abalado no fim. Como eu disse acima: este não é um filme fácil. E talvez não seja um filme para todos.
"Prequel" de "Os Inocentes" só peca por apostar em apenas uma das várias possibilidades que Henry James estabeleceu em seu romance "A Volta do Parafuso", mas é um filme pertubador com boa interpretação de Brando.
Não tem nada a ver com a histôria escrita por Henry James. Filme fraco que retira toda a ambiguidade do livro, transformando-o em uma história de fantasmas bem chatinha!
Toda a cinebiografia é, normalmente, interessante por si só, pois lida com personagens reais.
"O Último Dançarino de Mao" não foge a regra, nesse sentido. Mas por ser um filme "ocidental" - o filme não consegue expressar todo o potencial lírico possível em sua parte "oriental". Impossível não pensar como seria o filme se ele tivesse sido dirigido por Ang Lee, ou Zhang Yimou - diretores que apesar de sua origem oriental, sabem fazer filmes universais, que dialogam com as platéias de todo o mundo.
Há uma cena no filme que me faz refletir, um pouco desapontado, com a visão que os EUA tem sobre o resto do mundo. Li está no cinema vendo um filme de Kung Fu, enquanto sua namorada assite ao filme entediada. Em seguida, eles estão em Chinatown de Houston e Li critica a postura da dona de um restaurante chinês, chamando-a de "inimiga do sistema". Enfim, sem arriscar-se em denunciar a "tirania" do regime comunista chinês, tudo o que o filme faz é exaltar os EUA como a terra da liberdade.
Porém o que é a liberdade? O drama de Li, ao decidir-se em permanecer nos EUA é motivado por qual sentimento? O de liberdade? O da possibilidade de se tornar um dançarino melhor? Ou pelo crença nos valores "democráticos" americanos? Sem que um motivo seja "decidido" pelo roteirista e diretor, podemos até ter um filme coerente com os sentimentos reais de Cunxin, mas sem o "conflito" que faz nascer a narrativa cinematográfica.
Essa é uma linha tênue, na qual o diretor, infelizmente, tem que tomar uma decisão. O ficar "em cima do muro" político, faz com que os chineses pareçam vilões "desalmados", sem que se tenha a possibilidade de uma reflexão real sobre as diferenças culturais de cada país.
As cenas de dança também não são empolgantes. Em "Cisne Negro", Aronofsky consegue cenas de tirar o fôlego, isso com Nathalie Portman que não é uma dançarina profissional. Em "O Último Dançarino", no entanto, mesmo com a presença de Chi Cao, um dançarino profissional - as cenas são apenas corretas - filmadas com apuro técnico mas sem paixão. Beresford também leva a câmera para dentro do palco, assim como Wenders faz em "Pina". Mas não há paixão. A câmera não está presente como nos dois filmes citados. Ela apenas está lá como um objeto de registro. Não funciona!
Ou seja, se há um grande apuro estético no filme (e isso realmente há), falta emotividade e subjetividade e Bruce Beresford, ao fim, decide-se em arriscar pouco em sua direção - mantendo-se na linha fácil do melodrama.
O filme não é ruim. Longe disso! Mas não o acho corajoso! Ele não consegue nem criticar a revolução cultural de Mao Tsé-Tung e nem o consumismo e individualismos do império americano. E sem esse conflito cultural, a história de Li Cunxin torna-se apenas interessante. O livro deve sem bem melhor.
Em tempo. Ang Lee faz uma bela crítica a sociedade americana em "A Tempestade de Gelo" e Chen Kaige uma crítica muito mais contundente à "Revolução Cultural" em "Adeus, minha Concubina". "O Último Dançarino de Mao" poderia ter um pouco dos dois - mas falta coragem.
Não se pode querer assistir "A Tempestade" de Julie Taymor com a expectativa que normalmente temos ao assistir a um filme. O que Taymor tenta (e consegue) fazer é quase que a criação de uma nova linguagem, que coloca a força e vigor de um dos mais brilhantes textos teatrais de Shakespeare em um filme interpretado com densidade por Helen Mirren.
Ben Whishaw, que já dava um show de interpretação em "O Perfume" de Tykwer, interpreta um espírito de feições andróginas que, junto à personagem de Mirren, imprime diversos momentos de extrema beleza e delicadeza ao filme. Sua atuação é impecável, principalmente quando sabemos (pelo making of), que a maioria de suas cenas foi filmada depois, sem a presença de "Prospera".
Talvez, assim como eu, muitos achem o filme estranho, confuso. Confesso que em diversos momentos tive vontade de "não gostar" do filme. Mas no fim, percebo que isso se dá porque Taymor nos tira de nossa "zona de conforto". A diretora já havia conseguido despertar em mim os mesmos sentimentos ambíguos em "Across the Universe". Mas tenho que me render e perceber que o que ela faz é nos oferecer um espetáculo com a força do teatro e a magia do cinema atrelados. E isso não é fácil de fazer.
O elenco é todo de primeira. E mesmo o príncipe "Ferdinand", interpretado pelo roqueiro Reeve Carney (que nunca havia atuado em sua vida) é impressionante. Felicity Jones esbanja uma beleza estranhamente ingênua, que faz com que o texto de Shakespeare flua com naturalidade e uma maturidade que não passa despercebida.
Não é a primeira vez que alguém interpreta Shakespeare com ares de contemporaneidade. Baz Luhrmann ja havia feito sua versão teen de "Romeu e Julieta", com Di Caprio e Claire Danes. Mas por alguma razão, o casal do filme de Taymor me parece mais convincente e o resultado atingido pela diretora me agrada mais. Talvez porque Taymor já tenha encenado "A Tempestade" no teatro. E dessa forma, ela consegue reverenciar o texto do dramaturgo elizabethano, sem que sua forte estética visual sobrepuje a história encenada.
Enfim, assim como "Prospero's Book" do genial Peter Greenaway (e para mim, ainda até hoje a melhor encenação de "A Tempestade" no cinema), o filme de Taymor vai deixar sua marca e dividir opiniões. Mas assim é que deve ser.
Quem assistir ao DVD, vale à pena assistir ao Making Of que tem mais de uma hora de duração.
O livro consegue manter uma linguagem mais "infantil" que aumenta a crueldade do tema. O filme, apesar de muito bem dirigido e atuado, segue uma linha mais "realista", o que faz com que a história perca um pouco do impacto.
A visão infantil da história no livro poderia ter sido transposta para o cinema sem prejuízo do filme, mas talvez a direção e a produção tenham tido medo de se arriscar. E aí temos apenas um filme com um final "surpreendente".
O filme é muito bom, com certeza. Mas o livro é uma experiência totalmente diferente e muito mais dolorida.
"Paraísos Artificiais" é um bom filme, mas que tem um problema que foi crucial para a pouca receptividade do filme nos cinemas. Ele promete mais do que entrega.
Mas vale a pena assistir. O elenco está sensacional.
O trailer já havia me dado vontade de assistir e o filme entrega o que promete. Um trio de atores com uma química excelente, um roteiro deliciosamente redondo, uma fotografia inspiradora e uma trilha sonora deliciosa. Enfim, de ótimo bom gosto. Pode desagradar quem estiver esperando um pouco mais de conflito, mas na minha opinião, o filme desce redondo e dá vontade de assustir mais.
Sem a pretensão de um blockbuster, o que vemos é um B.O. executado com maestria e que, em função de regras do mercado, não teve o espaço que merecia. Pena!
"Oscar et la Dame Rose" é um filme que ou vai agradar ou desagradar - o que parece óbvio, mas não é.
O filme é adaptado de um livro de mesmo nome escrito pelo próprio diretor, o terceiro de uma trilogia, na qual o autor discorre sobre o "invisível".
A escolha estética de Schmitt, pode, no entanto, servir de base para que espectadores mais "críticos" possam "detonar" a narrativa do filme, feita, de forma descarada, para emocionar e levar as lágrimas aqueles de coração mais sensível.
Mas, para mim, aí reside o grande acerto do filme. Schmitt parte da visão de uma criança que descobre que tem apenas 12 dias para viver. E através dessa visão infantil, amargurada pela descoberta da proximidade da morte, o autor-diretor discorre sobre temas bastantes adultos, sem perder o lirismo e a delicadeza que teria uma "fábula" infantil.
Desde o início sabemos qual vai ser o fim de Oscar. E como construir uma narrativa em cima de um final tão absoluto quanto a morte?
Crie uma personagem adulta e desajustada (a senhora Rosa), coloque bastante humor e "nonsense" na história, mantenha a câmera na altura dos olhos de uma criança e não pinte o mundo "cor de rosa", pois ele pode (e é) mais sombrio do que "pais cautelosos" gostariam que ele fosse e mantenha-se fiel a essa visão histriônica da vida.
Essa foi a fórmula usada por Schmitt.
E sim, o filme vai fazer você rir mais do que chorar.
Eu não li Howl. E tão pouco conhecia mais sobre o poema até encontrar uma versão ilustrada por Erik Drooker - não casualmente as mesmas ilustrações utilizadas no filme - livro que comprei e ainda não li.
Sobre Ginsberg, sabia alguma coisa, pois a chamada "contracultura" já me interessava, desde "Naked Lunch" de W.S.Burroughs, ou até mesmo "On the Road", de Kerouak.
Quase que coincidentemente, o filme HOWL foi exibido em um canal de TV a cabo. Se eu já considerava James Franco um dos melhores atores da nova geração de Hollywood, acredito que HOWL confirme o que eu já suspeitava. Estamos diante de um "ator-autor", um ator que não apenas interpreta, seguindo os moldes do modelo "Actors Studio", mas que imprime em seus personagens fortes traços de sua própria personalidade.
Franco parece falar por Ginsberg, durante sua "entrevista" e é difícil não ficarmos totalmente convencidos disso. Não há em sua interpretação nenhuma afetação, nenhum trejeito "a la Mr. Nicholson ou a la Mr. Hopkins", ícones do estilo "Actors Studio" de atuar.
O que vemos é uma entrega total e sinceramente despudorada do ator ao personagem que interpreta.
Franco não "interpreta" Ginsberg, não deixa que a figura do poeta ícone da geração Beatnik faça sombra sobre ele. Franco é, ao seu modo, o próprio Ginsberg. E daí confirmo ser ele um dos melhores atores de nosso tempo.
Se o filme não inova na linguagem cinematográfica, tenho quase certeza que isso se dá de forma proposital. "Tommy", de Kurt Russel e "The Wall", de Alan Parker, são muito mais ousados na forma e no conteúdo, do que HOWL, de Friedman e Epstein. Mas quando se lê, nos créditos finais que Gus Van Sant está envolvido na produção executiva do filme, algo soa um pouco estranho. Se Sant, um dos diretores mais autorais e autênticos de Hollywood não interfere na narrativa do filme, é certo de haver uma razão para isso.
Howl não é um filme sobre Ginsberg. É um filme sobre o julgamento do livro. É um filme de tribunal. E nisso ele se mantém fidedigno à forma. São a entrevista e a animação que "rompem" a narrativa "careta" do filme. E isso é feito de forma que os conteúdos não se contraponham, mas que gerem um "conflito" estético de montagem, algo já explorado por Eisenstein em seus filmes. A linha dramática do filme é simples - quase ingênua. O livro será censurado ou não? O editor será preso, ou não? Mas "Ginsberg" irrompe no meio desse filme tribunal, fazendo que haja a reflexão sobre algo maior. Como se fosse uma "consciência crítica" tentando nos acordar do "estado de sonho" que esse filme tribunal nos coloca.
E nisso o filme acerta em cheio. Ele mira em algo acima do que está na superfície, mas que só nos damos conta, porque temos as imagens ilustradas do poema. Porque temos Franco no papel de Ginsberg. E porque ele fala abertamente que seu poema foi escrito para impressionar Kerouak e a tantos outros homens (héteros) que ele amou.
HOWL não quer ser um filme manifesto, como os já citados "Tommy" e "The Wall". Ele não quer ser algo além do poema de Ginsberg. E aí, entende-se sua formalidade "excessiva". Os diretores acertam ao deixar que o poema fale por si mesmo; que Ginsberg fale por si mesmo, mantendo o filme dentro de certos "paradigmas" da linguagem cinematográfica.
Nele não abundam sexo, drogas e Rock'n Roll. Para o desapontamento de muitos, não há nudez. Não há cenas de orgia. Não há um olhar ousado e autoral como o que Salles faz sobre o livro de Kerouak (isso digo baseado em comentários, uma vez que ainda não tive a oportunidade de ver o filme - algo que devo fazer o mais rápido possível).
O filme só não ganha suas cinco estrelas pois, para mim, as cenas em que Franco lê o poema me parecem um pouco "descoladas" do resto (as únicas onde há um certo "desvio" no eixo da câmera, com enquadramentos tortos que buscam "engrandecer" a figura de Ginsberg), embora, com certeza, ela cause grande impacto no fim do filme, quando Ginsberg discorre sobre a sacralidade do "banal".
E, ao fim do filme, acabo pensando. Será que o mundo não precisa de uma nova contracultura?
Aquilo que hoje se vende como transgressor é absurdamente careta e formal. Modelos esquálidos com uma nudez esquálida e transparente, uma nudez assexuada, falsamente pornográfica, feita para atrair a ambos os sexos.
Como Ginsberg fala, tudo é sagrado. O pênis, a vagina, o ânus, o sexo, as bebedeiras, os ajustados e desajustados. E nesse ponto o filme é tão transgressor quanto seu poema.
Como sempre estou atrasado uma temporada nas séries, acabo de assistir a primeira temporada de Game of Thrones. Confesso que achei os dois primeiros episódios um pouco chatos e confusos... natural, para uma série que precisa apresentar uma história complexa, com muitos personagens. No entanto, impossível não ser fisgado a partir do terceiro episódio, quando as apresentações já foram feitas, Eddard Stark já aceitou ser a mão do rei e o menino da linhagem do lobo já acordou do seu "sono".
De qualquer forma, qualquer coisa que se deseje falar sobre a série é apenas mais uma opinião onde nenhuma opinião é mais possível. A série já é uma unanimidade. E merecidamente.
Nesta produção da HBO (que consome milhões de dólares por episódio), tudo é simplesmente grandioso. Os cenários, os figurinos, a trilha sonora e, o melhor que a série oferece, o texto.
O roteiro é grandioso. Os diálogos primorosos. E vemos a arte jorrar em um "produto" cujo interesse inicial é puramente mercadológico (um imenso parentêses, vale a pena ler o livro de Steven Johnson "Tudo que é ruim é bom para você", embora Game of Thrones não se encaixe na tese da curva do dorminhoco proposta por ele).
A HBO não esconde que temia que a série não fosse bem recebida pelo seu público - afinal, o reino de fantasia, muito próximo de "O Senhor dos Anéis" está bem distante do que a HBO criou como "marca". Porém se em "True Blood", os vampiros de "Crepúsculo" já conseguiam conviver com um tema mais "X Rated", porque "Froddo" também não poderia? E se pensarmos na empatia que o público tem com o anão Tyrion Lannister (brilhantemente interpretado pelo ator Peter Dinklage) - vemos que os sete reinos não estão tão distantes assim da "terra média" de Tolkien.
Como épico, Game of Thrones se aproxima de "Excalibur" de John Boorman. As cenas de batalha são econômicas, mas extremamente bem feitas e as intrigas palacianas (e a disputa de poder), apesar de não terem um tom "Shakespeariano", também não deixam a desejar.
E os efeitos visuais são deslumbrantes, assim como todo o universo criado para a série.
Game of Thrones é tudo o que dizem e um pouco mais. Certamente um dos melhores produtos já feitos para a televisão nos últimos tempos.
E como estou sempre atrasado, não posso esperar a hora de lançarem o box da segunda-temporada.
Que venha mais "Guerra dos Tronos". A televisão (e o público) agradece.
Ainda não vi a segunda temporada da série. E na verdade, com a morte de Andy Whitfield, tenho medo que o "novo" Spartacus não consiga superar as expectativas deixadas pelo primeiro. Se, por um lado, Andy era o tipo de ator "durão", que parecia ter mais músculos do que capacidade de atuação, a medida que a série evolui percebemos que há algo mais no ator do que apenas suor e músculos.
Fica, também, o elogio ao ator Manu Bennet (Crixus) e a como ele consegue demonstrar alterações sutis em seu personagem atrás de uma "carapaça" de músculos - que ele ostenta não como um corpo, mas como uma armadura.
Surpreendente, catártico, emocionante - esses são apenas alguns adjetivos que podemos usar para definir essa série, que termina em sua terceira temporada. Com boas doses de intriga e reviravoltas surpreendentes, Spartacus é um show estético, que consegue trazer à telinha um clima de Graphic Novel, muitas vezes superior ao seu seu irmão maior "300".
E se sangue e suor já não bastam como espetáculo, para aqueles que buscam algo na trama da história, irão encontrar.
Saber que Andy Whitfield foi derrotado por um cancer de sistema linfático, sempre deixa um clima amargo ao fim de cada episódio. Afinal, a morte é a personagem central dessa série. Spartacus não se dirige rumo à vitória e à uma vida feliz - a cada momento fica claro que ele apenas sobrevive, "abandonando" seu destino na mão de deuses que ele mesmo não acredita e que cada passo seu o conduz a um desfecho trágico.
Fica sempre a reflexão de como o ator deve ter se sentido na vida real, sendo "derrotado" por um inimigo que vem de dentro do próprio corpo (assim como Spartacus é derrotado, a cada momento, por um inimigo que também vem de dentro - sua própria alma). E com isso, toda a série ganha uma dimensão mítica, que, de certa forma, revive o mito do escravo trácio que "quase" derrotou o poder do império romano.
Figurinos, cenários, fotografia, músicas - todos os pequenos detalhes dessa produção são tratados com sobriedade e seriedade. E por fim conseguimos acreditar que existe uma alma humana por trás de todos aqueles brutamontes.
Muito bom! Surpreendente. Enfim, muito bem conduzido por um diretor tão jovem, o tema é abordado de forma a estimular a discussão sem preconceitos e deveria, sim, ser assistido pela maior parte dos jovens.
As Vantagens de Ser Invisível
4.2 6,9K Assista Agora"As Vantagens de Ser Invisível" é um filme que acerta em todas suas escolhas. A primeira delas, a de ter convidado o autor do livro para escrever o roteiro e, também, dirigir o filme.
O resultado é surpreendente.
O filme é um daqueles raros exemplos em que o filme consegue ser tão bom quanto o livro - embora menos barra pesada. Considerando a escolha de Emma Watson para o elenco (que é uma atriz que dialoga com o público jovem por sua interpretação de Ermione, em "Harry Potter"), é fácil perceber que os produtores queriam realizar um filme para esse público. E, para quem viveu a década de 90 - os temas eram mais sombrios naquela época, e o filme pega bem mais "leve" do que o livro.
Mas Chbosky consegue realizar um filme tão impactante quanto o livro que escreveu - e que, confesso, teriam mudado a minha vida e a forma com que eu vivi minha juventude nessa mesma década (apesar das personagens serem mais jovens do que eu era então). Mas impossível não se reconhecer na troca das "fitas cassetes", que eram uma forma que tínhamos de nos comunicar com o mundo e dizer quem éramos e como nos sentíamos para os nossos amigos. Algo mais pueril do que o Facebook, com certeza. Mas por um lado, vivíamos em um tempo menos "exibicionista", e perder um tempo de sua vida gravando um "Mix Tape" para um amigo era uma forma de dizer à ele o como realmente ele era importante para nós.
O filme é um grande candidato, desde já, a ser um dos melhores de 2013. E Logan Lerman, que parecia não prometer muito como ator em sua tímida participação em "Percy Jackson e o Ladrão de Raios", mostra, com esse filme, que tem tudo para ocupar seu lugar em Hollywood, com sutilezas de interpretação que me lembram bastante um James Franco já maduro, ou o fantástico Emile Hirsh (de "Na Natureza Selvagem" e "Speed Racer").
Ezra Miller, como Patrick é sensacional e Emma Watson, linda (como sempre).
Simplesmente imperdível, tanto o filme quanto o livro devem ser absorvidos sem pressa. Afinal, os anos 90 eram "menos agitados" por um lado (ou melhor, tínhamos mais tempo para ler e fazer Mix Tapes para os amigos).
Speed Racer
2.8 427 Assista AgoraMuito bom, na verdade. Basta não querer comparar com a série de cartoom.
Na Natureza Selvagem
4.3 4,6K Assista AgoraMaravilhoso.
Os Pilares da Terra
4.2 230Vi 3 episódios de uma tacada só (quase 6 horas), só não vi tudo porque já estava muito tarde.
Excelente. Tony e Ridley Scott acertaram bonito nessa minisérie épica.
Antes Que o Mundo Acabe
3.5 352Poético, divertido e doloroso como a adolescência. Um filme delicioso que se assiste com um sorriso na boca do início ao fim.
Jogos Vorazes
3.8 5,0K Assista AgoraEntretenimento sem muitas pretensões, que esconde críticas bastante inteligentes à nossa sociedade. Por baixo da camada "pipoca", há algum material para se refletir - principalmente, quando comparamos "Jogos Vorazes", com realitys shows do estilo "No Limite", ou até mesmo BBB.
É importante perceber que, por um momento, os jovens esquecem que estão entrando em um jogo mortal, e ficam fascinados pela "fama" imediata e entram em um jogo exibicionista para agradar ao público e chamar a atenção dos "patrocinadores".
Mas o filme perde um pouco de força, por manter-se na superfície dos fatos que propõe discutir. Talvez, com a continuação (que pretendo assistir), alguns fios que foram deixados soltos sejam melhores explorados.
Romeus
3.6 71Ok. O filme não é perfeito. Mas mesmo assim é muito bom.
No início, o filme não estava me agradando. Mais uma história "boy loves boy", que, na maioria das vezes, são bem fraquinhas.
Mas o filme me chamou a atenção por ser alemão e havia possibilidade de eu ver um filme falado em uma língua que estudo. Fora isso, não sabia de nada da história, do que se tratava e, tão pouco, que era um filme LGBT.
E talvez por isso mesmo eu tenha gostado tanto dele. Porque fiquei preso a atuação de Rick Okon (como Lukas) e completamente surpreso com a "revelação" de sua personagem.
Achei o filme muito bem conduzido e dirigido e bem dentro do cinema "independente" alemão, que acabo acompanhando em função da língua. E achei o ator impressionante.
O filme não é "chapado". As personagens não são lineares. E, mesmo com algumas falhas de roteiro, a história tem vários níveis de entendimento, o que faz o filme ser bem mais rico do que promete no início.
Logicamente nem todos os atores são excelentes. Em um filme de baixo orçamento, mesmo na Alemanha, não se trabalha com os atores "mais conhecidos". Não consigo ver o Daniel Brühl fazendo o filme, por exemplo.
Não curto muito o trabalho do ator Maximilan Befort.
Fica difícil entender o porque de Lukas se apaixonar por ele.
Com certeza, este não é um filme de "nicho" e serve pra que nós, como pessoas que somos (ou deveríamos ser), venhamos a pensar sobre essa questão tão delicada do "masculino e feminino". E também para que possamos refletir sobre nossos próprios preconceitos. Afinal, deveríamos ter a capacidade de aceitar as pessoas como elas são e não reagir de forma tão negativa a tudo aquilo que parece diferente.
Glue
3.5 64Existem ao menos dois momentos na vida que percebemos, claramente, que amadurecemos. O primeiro deles é quando descobrimos que nossos pais não são como gostaríamos que eles fossem e o segundo, quando eles descobrem que nós também não somos quem eles gostariam que fôssemos.
Essa primeira relação de "rompimento" com os pais é, certamente dolorosa e angustiante. E, talvez, daí venha o conflito de buscar uma resposta do que fazer para nos encaixarmos no mundo.
Se há alguém mais novo que ainda acha que essa resposta chega com a idade, sinto informar. Só vejo a idade chegando, sem ter ao menos uma pista de onde ela possa estar (por isso vivam).
Voltando ao filme. Freud diz que toda a base da psicanálise está na sexualidade. Pode ser! E assim, todo o relacionamento pai e mãe se transforma em complexos que nos acompanham por toda a vida.
Como o sexo é tratado como algo "sujo", uma corrupção da alma divina que "sucumbe" aos desejos da carne, sentimos uma das primeiras dores da infância, quando acreditamos ter sido gerados por um ato de violência e não por um ato de amor.
E se fomos gerados por pura "sacanagem", há algum lugar possível para nós? Existe alguma espécie de amor possível (divino, paternal, fraternal etc) ou não há nada que justifique a vida que não seja simplesmente uma necessidade genética de reprodução? (Algo que não seja "orgânico").
Aí reside quase todos os conflitos do filme. Como podemos separar o que é sexo do que é amor? Ou por que deveríamos, até mesmo, criar uma separação para os dois?
Todos buscam aceitação. Primeiro por parte dos pais e depois por um grupo de amigos. Isso é o que é o mais importante em nossa infância e juventude. Perceber, no entanto, que essa é uma busca para a vida inteira, é o "X" da questão. Como diz o budismo, o mundo seria um lugar melhor se houvesse a consciência plena de que, no fundo, todos nós desejamos as mesmas coisas (aceitação, felicidade, amor, prosperidade etc).
Há um aspecto curioso na relação familiar de Lucas. Em vários momentos ele se vê melhor do que os "modelos" que ele teria para seguir (pai e mãe) - mesmo que ele ainda não saiba muito bem o que quer da vida ou como se colocar diante dela.
E pronto! A descoberta de que mesmo quando somos adultos, somos ainda imperfeitos e tão desorientados como em nossas adolescências é uma grande sacada do filme (seja ela intencional ou não).
A idade traz um enrijecimento dos nossos desejos. Construímos muros, ao invés de quebrá-los. Buscamos definições e certezas para um mundo que é, por sua natureza e essência, incerto. Obcecados por essa "certeza" absoluta, perdemos mais tempo julgando a vida do que, realmente, vivendo. Queremos estar certos o tempo inteiro. Acreditamos que nossas escolhas são melhores que as escolhas dos outros. Ledo engano! Nossas escolhas são nossas escolhas, que nos libertam e nos aprisionam em igual proporção.
Mas voltando à adolescência (e ao filme), nela, o que nos define não é bem o que fazemos, mas como nos sentimos em relação ao que fazemos. Nossos desejos são ambíguos. Nossas dúvidas impalpáveis. O que é preciso, é estar presente. Seja nos sonhos ou nos desejos sexuais de nossos colegas. Queremos testar nossos limites, ir além do que os outros (ou até nós mesmos) são capazes de tolerar. Mas o mais importante é perceber que, em última instância, os nossos desejos representam a necessidade de comunhão com o outro.
O problema não está no sexo em si, mas em como lidamos com ele. Ou ele é uma relação de poder (e um jogo viciante de conquistas), ou ele é uma das melhores experiências de nossas vidas. Somos nós que escolhemos como queremos vivê-lo.
Em "Glue", Lucas está cercado de dúvidas e desejos. Ele sente que é preciso romper barreiras, sem que isso o defina necessariamente como bom ou mal. Como certo ou errado. Como hétero ou gay. Ele apenas precisa deixar-se ser guiado para onde seus hormônios e desejos o conduzem. Quem ele vai ser depois dessa fase, vai depender muito de como ele vai lidar com seus desejos. Ou ele vai enxergar o mundo como um lugar cheio de "luxúria" e "pecado", ou vai enxergar seus desejos como uma paraíso repleto de possibilidades.
É muito bom poder assistir a um filme que não tenta nos dar uma lição de moral. Em "Glue" as pessoas são como são, agem como agem, e tentam levar a vida adiante da melhor forma possível para elas. Por isso são todos tão humanos. E por isso o filme não traz nenhuma resposta (e nem mesmo definições).
O filme realmente transita no mesmo universo de "Os Famosos e os Duendes da Morte", do Esmir Filho - recomendável para quem ainda não assistiu.
Destaque para a fotografia, principalmente pela escolha das cores utilizadas em diferentes momentos do filme, e também para a atuação de todos os atores, jovens e adultos. A trilha sonora é excelente e utilizada de forma econômica e precisa.
Prometheus
3.1 3,5K Assista AgoraSe Ridley Scott não tinha nada a acrescentar à franquia iniciada com "Alien - o oitavo passageiro", o ideal é que ele não mexesse mais nela. Que pena! Para quem não viu o primeiro filme dirigido por ele - muitas das cenas de Prometheus vão ficar perdidas. É para quem viu... bem, melhor que não houvesse esse filme para comparar.
Em "Alien", a origem da criatura não importa. Por que ele tentou explicar? Se o primeiro filme é um clássico do gênero horror/ficção-científica, "Prometheus" não passa de um lixo de entretenimento, com um roteiro cansativo repleto de situações clichês.
É inacreditável que o diretor de "Blade Runner" e "Black Hawk Dawn" tenha feito esse filme.
Em tempo: assisti em DVD e acabei por ver as cenas que foram excluídas do filme. Elas só pioravam o que já estava ruim.
Será que Scott vai fazer um Prometheus 2?
50%
3.9 2,2K Assista AgoraTalvez "50%" o livro seja melhor do que "50%" o filme. Não sei. Na verdade, nem sei se existe esse livro, embora a narrativa do filme me fizesse lembrar, muitas vezes, "The Fault in our Stars" de John Green (na verdade esse livro já está traduzido para o português com o título "A Culpa é das Estrelas" e a editora é a Intrínseca. Eu não li a tradução, por isso não posso opinar se ela é boa ou não, mas o original é simplesmente fabuloso).
Tratar o câncer com humor já é uma razão para ver esse filme. Mas aqui, a interpretação dos atores (principalmente de Joseph Gordon-Levitt) dá um toque especial ao filme, embalado por uma trilha sonora sensacional.
Não me impressiona que o filme faça sucesso entre o público mais jovem. Na verdade, o filme tem uma narrativa bem jovial, mesmo nos momentos "mais difíceis".
É aí, no entanto, que reside um dos poucos percalços dos filme. Ao tratar o tema de forma tão suave, o diretor Jonathan Levine perde a oportunidade de retratar um pouco mais profundamente a angústia vivida por Adam durante o processo de sua doença.
Mas tudo está lá, de uma forma ou de outra. E talvez, por não dar "voz" ao que se passa no interior de Adam, Levine permita que o espectador construa sua própria percepção sobre a trajetória da personagem e nos faça refletir sobre como é "estar doente".
O filme pode ser visto mesmo pelos de coração mais fraco (e que choram até em comercial de margarina). Sem levar a emoção ao extremo, o diretor nos entrega um filme redondo - que prefere fazer refletir do que manipular.
Um outro filme que vale a pena ser assistido é "Oscar e a Sra. Rosa" de Eric-Emmanuel Schmitt (o livro também é maravilhoso, mas, infelizmente, não é tão fácil de encontrar).
Apenas um parágrafo do livro: “Tentei explicar aos meus pais que a vida é um presente estranho. No início, superestimamos esse presente: imaginamos ter ganhado a vida eterna. Depois subestimamos, achamos uma porcaria, curta demais, até seríamos capazes de jogá-la fora. Enfim nos damos conta de que não era um presente, mas sim um empréstimo. Então procuramos merecê-lo.”
O Abrigo
3.6 740 Assista AgoraAs vezes me pego pensando porque alguns filmes precisam de uma "resenha crítica" e outros não. Mas quando escrevemos algo sobre um filme, é porque queremos compartilhar nossos sentimentos em relação a ele. Falar sobre suas qualidades ou sobre seus defeitos (que nesse caso, não vi nenhum)
Mas resolvi não escrever nada sobre "O Abrigo". Acabei de assistir em DVD e ainda estou pensando sobre o filme. Mas uma coisa pode ser dita: "O Abrigo" não é um filme fácil e consegue ser extremamente pertubador e belo ao mesmo tempo.
Muitas metáforas poderiam ser citadas. Toda uma teoria psicanalítica poderia ser construida a partir do filme. Mas não sou psicanalista. Apenas alguém que estudou cinema e ainda consegue se surpreender com quanto um filme pode ser bom, sem gastar os tubos em efeitos especiais.
O filme é lento? Sim! É angustiante? Com certeza. Deixa mas dúvidas ao final do que respostas? Essa é a maior qualidade do filme.
Veja quem tiver vontade. Mas esteja aberto a receber um filme difícil, que nos deixa bastante abalado no fim. Como eu disse acima: este não é um filme fácil. E talvez não seja um filme para todos.
Os Que Chegam Com a Noite
3.4 42"Prequel" de "Os Inocentes" só peca por apostar em apenas uma das várias possibilidades que Henry James estabeleceu em seu romance "A Volta do Parafuso", mas é um filme pertubador com boa interpretação de Brando.
A Volta do Parafuso
2.8 28Não tem nada a ver com a histôria escrita por Henry James. Filme fraco que retira toda a ambiguidade do livro, transformando-o em uma história de fantasmas bem chatinha!
O Último Dançarino de Mao
4.1 231Toda a cinebiografia é, normalmente, interessante por si só, pois lida com personagens reais.
"O Último Dançarino de Mao" não foge a regra, nesse sentido. Mas por ser um filme "ocidental" - o filme não consegue expressar todo o potencial lírico possível em sua parte "oriental". Impossível não pensar como seria o filme se ele tivesse sido dirigido por Ang Lee, ou Zhang Yimou - diretores que apesar de sua origem oriental, sabem fazer filmes universais, que dialogam com as platéias de todo o mundo.
Há uma cena no filme que me faz refletir, um pouco desapontado, com a visão que os EUA tem sobre o resto do mundo. Li está no cinema vendo um filme de Kung Fu, enquanto sua namorada assite ao filme entediada. Em seguida, eles estão em Chinatown de Houston e Li critica a postura da dona de um restaurante chinês, chamando-a de "inimiga do sistema". Enfim, sem arriscar-se em denunciar a "tirania" do regime comunista chinês, tudo o que o filme faz é exaltar os EUA como a terra da liberdade.
Porém o que é a liberdade? O drama de Li, ao decidir-se em permanecer nos EUA é motivado por qual sentimento? O de liberdade? O da possibilidade de se tornar um dançarino melhor? Ou pelo crença nos valores "democráticos" americanos? Sem que um motivo seja "decidido" pelo roteirista e diretor, podemos até ter um filme coerente com os sentimentos reais de Cunxin, mas sem o "conflito" que faz nascer a narrativa cinematográfica.
Essa é uma linha tênue, na qual o diretor, infelizmente, tem que tomar uma decisão. O ficar "em cima do muro" político, faz com que os chineses pareçam vilões "desalmados", sem que se tenha a possibilidade de uma reflexão real sobre as diferenças culturais de cada país.
As cenas de dança também não são empolgantes. Em "Cisne Negro", Aronofsky consegue cenas de tirar o fôlego, isso com Nathalie Portman que não é uma dançarina profissional. Em "O Último Dançarino", no entanto, mesmo com a presença de Chi Cao, um dançarino profissional - as cenas são apenas corretas - filmadas com apuro técnico mas sem paixão. Beresford também leva a câmera para dentro do palco, assim como Wenders faz em "Pina". Mas não há paixão. A câmera não está presente como nos dois filmes citados. Ela apenas está lá como um objeto de registro. Não funciona!
Ou seja, se há um grande apuro estético no filme (e isso realmente há), falta emotividade e subjetividade e Bruce Beresford, ao fim, decide-se em arriscar pouco em sua direção - mantendo-se na linha fácil do melodrama.
O filme não é ruim. Longe disso! Mas não o acho corajoso! Ele não consegue nem criticar a revolução cultural de Mao Tsé-Tung e nem o consumismo e individualismos do império americano. E sem esse conflito cultural, a história de Li Cunxin torna-se apenas interessante. O livro deve sem bem melhor.
Em tempo. Ang Lee faz uma bela crítica a sociedade americana em "A Tempestade de Gelo" e Chen Kaige uma crítica muito mais contundente à "Revolução Cultural" em "Adeus, minha Concubina". "O Último Dançarino de Mao" poderia ter um pouco dos dois - mas falta coragem.
A Tempestade
2.7 154Não se pode querer assistir "A Tempestade" de Julie Taymor com a expectativa que normalmente temos ao assistir a um filme. O que Taymor tenta (e consegue) fazer é quase que a criação de uma nova linguagem, que coloca a força e vigor de um dos mais brilhantes textos teatrais de Shakespeare em um filme interpretado com densidade por Helen Mirren.
Ben Whishaw, que já dava um show de interpretação em "O Perfume" de Tykwer, interpreta um espírito de feições andróginas que, junto à personagem de Mirren, imprime diversos momentos de extrema beleza e delicadeza ao filme. Sua atuação é impecável, principalmente quando sabemos (pelo making of), que a maioria de suas cenas foi filmada depois, sem a presença de "Prospera".
Talvez, assim como eu, muitos achem o filme estranho, confuso. Confesso que em diversos momentos tive vontade de "não gostar" do filme. Mas no fim, percebo que isso se dá porque Taymor nos tira de nossa "zona de conforto". A diretora já havia conseguido despertar em mim os mesmos sentimentos ambíguos em "Across the Universe". Mas tenho que me render e perceber que o que ela faz é nos oferecer um espetáculo com a força do teatro e a magia do cinema atrelados. E isso não é fácil de fazer.
O elenco é todo de primeira. E mesmo o príncipe "Ferdinand", interpretado pelo roqueiro Reeve Carney (que nunca havia atuado em sua vida) é impressionante. Felicity Jones esbanja uma beleza estranhamente ingênua, que faz com que o texto de Shakespeare flua com naturalidade e uma maturidade que não passa despercebida.
Não é a primeira vez que alguém interpreta Shakespeare com ares de contemporaneidade. Baz Luhrmann ja havia feito sua versão teen de "Romeu e Julieta", com Di Caprio e Claire Danes. Mas por alguma razão, o casal do filme de Taymor me parece mais convincente e o resultado atingido pela diretora me agrada mais. Talvez porque Taymor já tenha encenado "A Tempestade" no teatro. E dessa forma, ela consegue reverenciar o texto do dramaturgo elizabethano, sem que sua forte estética visual sobrepuje a história encenada.
Enfim, assim como "Prospero's Book" do genial Peter Greenaway (e para mim, ainda até hoje a melhor encenação de "A Tempestade" no cinema), o filme de Taymor vai deixar sua marca e dividir opiniões. Mas assim é que deve ser.
Quem assistir ao DVD, vale à pena assistir ao Making Of que tem mais de uma hora de duração.
O Menino do Pijama Listrado
4.2 3,7KO livro consegue manter uma linguagem mais "infantil" que aumenta a crueldade do tema. O filme, apesar de muito bem dirigido e atuado, segue uma linha mais "realista", o que faz com que a história perca um pouco do impacto.
A visão infantil da história no livro poderia ter sido transposta para o cinema sem prejuízo do filme, mas talvez a direção e a produção tenham tido medo de se arriscar. E aí temos apenas um filme com um final "surpreendente".
O filme é muito bom, com certeza. Mas o livro é uma experiência totalmente diferente e muito mais dolorida.
A Invenção de Hugo Cabret
4.0 3,6KFantástico!
Paraísos Artificiais
3.2 1,8K Assista Agora"Paraísos Artificiais" é um bom filme, mas que tem um problema que foi crucial para a pouca receptividade do filme nos cinemas. Ele promete mais do que entrega.
Mas vale a pena assistir. O elenco está sensacional.
Os 3
3.4 558O trailer já havia me dado vontade de assistir e o filme entrega o que promete. Um trio de atores com uma química excelente, um roteiro deliciosamente redondo, uma fotografia inspiradora e uma trilha sonora deliciosa. Enfim, de ótimo bom gosto. Pode desagradar quem estiver esperando um pouco mais de conflito, mas na minha opinião, o filme desce redondo e dá vontade de assustir mais.
Sem a pretensão de um blockbuster, o que vemos é um B.O. executado com maestria e que, em função de regras do mercado, não teve o espaço que merecia. Pena!
Vale muito a pena.
Oscar e a senhora Rosa
4.4 7"Oscar et la Dame Rose" é um filme que ou vai agradar ou desagradar - o que parece óbvio, mas não é.
O filme é adaptado de um livro de mesmo nome escrito pelo próprio diretor, o terceiro de uma trilogia, na qual o autor discorre sobre o "invisível".
A escolha estética de Schmitt, pode, no entanto, servir de base para que espectadores mais "críticos" possam "detonar" a narrativa do filme, feita, de forma descarada, para emocionar e levar as lágrimas aqueles de coração mais sensível.
Mas, para mim, aí reside o grande acerto do filme. Schmitt parte da visão de uma criança que descobre que tem apenas 12 dias para viver. E através dessa visão infantil, amargurada pela descoberta da proximidade da morte, o autor-diretor discorre sobre temas bastantes adultos, sem perder o lirismo e a delicadeza que teria uma "fábula" infantil.
Desde o início sabemos qual vai ser o fim de Oscar. E como construir uma narrativa em cima de um final tão absoluto quanto a morte?
Crie uma personagem adulta e desajustada (a senhora Rosa), coloque bastante humor e "nonsense" na história, mantenha a câmera na altura dos olhos de uma criança e não pinte o mundo "cor de rosa", pois ele pode (e é) mais sombrio do que "pais cautelosos" gostariam que ele fosse e mantenha-se fiel a essa visão histriônica da vida.
Essa foi a fórmula usada por Schmitt.
E sim, o filme vai fazer você rir mais do que chorar.
Uivo
3.8 211Eu não li Howl. E tão pouco conhecia mais sobre o poema até encontrar uma versão ilustrada por Erik Drooker - não casualmente as mesmas ilustrações utilizadas no filme - livro que comprei e ainda não li.
Sobre Ginsberg, sabia alguma coisa, pois a chamada "contracultura" já me interessava, desde "Naked Lunch" de W.S.Burroughs, ou até mesmo "On the Road", de Kerouak.
Quase que coincidentemente, o filme HOWL foi exibido em um canal de TV a cabo. Se eu já considerava James Franco um dos melhores atores da nova geração de Hollywood, acredito que HOWL confirme o que eu já suspeitava. Estamos diante de um "ator-autor", um ator que não apenas interpreta, seguindo os moldes do modelo "Actors Studio", mas que imprime em seus personagens fortes traços de sua própria personalidade.
Franco parece falar por Ginsberg, durante sua "entrevista" e é difícil não ficarmos totalmente convencidos disso. Não há em sua interpretação nenhuma afetação, nenhum trejeito "a la Mr. Nicholson ou a la Mr. Hopkins", ícones do estilo "Actors Studio" de atuar.
O que vemos é uma entrega total e sinceramente despudorada do ator ao personagem que interpreta.
Franco não "interpreta" Ginsberg, não deixa que a figura do poeta ícone da geração Beatnik faça sombra sobre ele. Franco é, ao seu modo, o próprio Ginsberg. E daí confirmo ser ele um dos melhores atores de nosso tempo.
Se o filme não inova na linguagem cinematográfica, tenho quase certeza que isso se dá de forma proposital. "Tommy", de Kurt Russel e "The Wall", de Alan Parker, são muito mais ousados na forma e no conteúdo, do que HOWL, de Friedman e Epstein. Mas quando se lê, nos créditos finais que Gus Van Sant está envolvido na produção executiva do filme, algo soa um pouco estranho. Se Sant, um dos diretores mais autorais e autênticos de Hollywood não interfere na narrativa do filme, é certo de haver uma razão para isso.
Howl não é um filme sobre Ginsberg. É um filme sobre o julgamento do livro. É um filme de tribunal. E nisso ele se mantém fidedigno à forma. São a entrevista e a animação que "rompem" a narrativa "careta" do filme. E isso é feito de forma que os conteúdos não se contraponham, mas que gerem um "conflito" estético de montagem, algo já explorado por Eisenstein em seus filmes. A linha dramática do filme é simples - quase ingênua. O livro será censurado ou não? O editor será preso, ou não? Mas "Ginsberg" irrompe no meio desse filme tribunal, fazendo que haja a reflexão sobre algo maior. Como se fosse uma "consciência crítica" tentando nos acordar do "estado de sonho" que esse filme tribunal nos coloca.
E nisso o filme acerta em cheio. Ele mira em algo acima do que está na superfície, mas que só nos damos conta, porque temos as imagens ilustradas do poema. Porque temos Franco no papel de Ginsberg. E porque ele fala abertamente que seu poema foi escrito para impressionar Kerouak e a tantos outros homens (héteros) que ele amou.
HOWL não quer ser um filme manifesto, como os já citados "Tommy" e "The Wall". Ele não quer ser algo além do poema de Ginsberg. E aí, entende-se sua formalidade "excessiva". Os diretores acertam ao deixar que o poema fale por si mesmo; que Ginsberg fale por si mesmo, mantendo o filme dentro de certos "paradigmas" da linguagem cinematográfica.
Nele não abundam sexo, drogas e Rock'n Roll. Para o desapontamento de muitos, não há nudez. Não há cenas de orgia. Não há um olhar ousado e autoral como o que Salles faz sobre o livro de Kerouak (isso digo baseado em comentários, uma vez que ainda não tive a oportunidade de ver o filme - algo que devo fazer o mais rápido possível).
O filme só não ganha suas cinco estrelas pois, para mim, as cenas em que Franco lê o poema me parecem um pouco "descoladas" do resto (as únicas onde há um certo "desvio" no eixo da câmera, com enquadramentos tortos que buscam "engrandecer" a figura de Ginsberg), embora, com certeza, ela cause grande impacto no fim do filme, quando Ginsberg discorre sobre a sacralidade do "banal".
E, ao fim do filme, acabo pensando. Será que o mundo não precisa de uma nova contracultura?
Aquilo que hoje se vende como transgressor é absurdamente careta e formal. Modelos esquálidos com uma nudez esquálida e transparente, uma nudez assexuada, falsamente pornográfica, feita para atrair a ambos os sexos.
Como Ginsberg fala, tudo é sagrado. O pênis, a vagina, o ânus, o sexo, as bebedeiras, os ajustados e desajustados. E nesse ponto o filme é tão transgressor quanto seu poema.
Game of Thrones (1ª Temporada)
4.6 2,3K Assista AgoraComo sempre estou atrasado uma temporada nas séries, acabo de assistir a primeira temporada de Game of Thrones. Confesso que achei os dois primeiros episódios um pouco chatos e confusos... natural, para uma série que precisa apresentar uma história complexa, com muitos personagens. No entanto, impossível não ser fisgado a partir do terceiro episódio, quando as apresentações já foram feitas, Eddard Stark já aceitou ser a mão do rei e o menino da linhagem do lobo já acordou do seu "sono".
De qualquer forma, qualquer coisa que se deseje falar sobre a série é apenas mais uma opinião onde nenhuma opinião é mais possível. A série já é uma unanimidade. E merecidamente.
Nesta produção da HBO (que consome milhões de dólares por episódio), tudo é simplesmente grandioso. Os cenários, os figurinos, a trilha sonora e, o melhor que a série oferece, o texto.
O roteiro é grandioso. Os diálogos primorosos. E vemos a arte jorrar em um "produto" cujo interesse inicial é puramente mercadológico (um imenso parentêses, vale a pena ler o livro de Steven Johnson "Tudo que é ruim é bom para você", embora Game of Thrones não se encaixe na tese da curva do dorminhoco proposta por ele).
A HBO não esconde que temia que a série não fosse bem recebida pelo seu público - afinal, o reino de fantasia, muito próximo de "O Senhor dos Anéis" está bem distante do que a HBO criou como "marca". Porém se em "True Blood", os vampiros de "Crepúsculo" já conseguiam conviver com um tema mais "X Rated", porque "Froddo" também não poderia? E se pensarmos na empatia que o público tem com o anão Tyrion Lannister (brilhantemente interpretado pelo ator Peter Dinklage) - vemos que os sete reinos não estão tão distantes assim da "terra média" de Tolkien.
Como épico, Game of Thrones se aproxima de "Excalibur" de John Boorman. As cenas de batalha são econômicas, mas extremamente bem feitas e as intrigas palacianas (e a disputa de poder), apesar de não terem um tom "Shakespeariano", também não deixam a desejar.
E os efeitos visuais são deslumbrantes, assim como todo o universo criado para a série.
Game of Thrones é tudo o que dizem e um pouco mais. Certamente um dos melhores produtos já feitos para a televisão nos últimos tempos.
E como estou sempre atrasado, não posso esperar a hora de lançarem o box da segunda-temporada.
Que venha mais "Guerra dos Tronos". A televisão (e o público) agradece.
Spartacus: Sangue e Areia (1ª Temporada)
4.5 647 Assista AgoraAinda não vi a segunda temporada da série. E na verdade, com a morte de Andy Whitfield, tenho medo que o "novo" Spartacus não consiga superar as expectativas deixadas pelo primeiro. Se, por um lado, Andy era o tipo de ator "durão", que parecia ter mais músculos do que capacidade de atuação, a medida que a série evolui percebemos que há algo mais no ator do que apenas suor e músculos.
Fica, também, o elogio ao ator Manu Bennet (Crixus) e a como ele consegue demonstrar alterações sutis em seu personagem atrás de uma "carapaça" de músculos - que ele ostenta não como um corpo, mas como uma armadura.
Surpreendente, catártico, emocionante - esses são apenas alguns adjetivos que podemos usar para definir essa série, que termina em sua terceira temporada.
Com boas doses de intriga e reviravoltas surpreendentes, Spartacus é um show estético, que consegue trazer à telinha um clima de Graphic Novel, muitas vezes superior ao seu seu irmão maior "300".
E se sangue e suor já não bastam como espetáculo, para aqueles que buscam algo na trama da história, irão encontrar.
Saber que Andy Whitfield foi derrotado por um cancer de sistema linfático, sempre deixa um clima amargo ao fim de cada episódio. Afinal, a morte é a personagem central dessa série. Spartacus não se dirige rumo à vitória e à uma vida feliz - a cada momento fica claro que ele apenas sobrevive, "abandonando" seu destino na mão de deuses que ele mesmo não acredita e que cada passo seu o conduz a um desfecho trágico.
Fica sempre a reflexão de como o ator deve ter se sentido na vida real, sendo "derrotado" por um inimigo que vem de dentro do próprio corpo (assim como Spartacus é derrotado, a cada momento, por um inimigo que também vem de dentro - sua própria alma). E com isso, toda a série ganha uma dimensão mítica, que, de certa forma, revive o mito do escravo trácio que "quase" derrotou o poder do império romano.
Figurinos, cenários, fotografia, músicas - todos os pequenos detalhes dessa produção são tratados com sobriedade e seriedade. E por fim conseguimos acreditar que existe uma alma humana por trás de todos aqueles brutamontes.
Quebrando o Tabu
4.0 250Muito bom! Surpreendente. Enfim, muito bem conduzido por um diretor tão jovem, o tema é abordado de forma a estimular a discussão sem preconceitos e deveria, sim, ser assistido pela maior parte dos jovens.