O beijo como presságio. Em um simbolismo claro, Sandy é o raio de luz que aparece em meio ao total breu de segundos de tela preta. A maneira como o Lynch filma a introdução dessa personagem é incrível, assim como a trilha que acompanha esse momento. Ela aparece dessa forma simbólica para o protagonista e para nós que estamos ainda no escuro dessa história. Importante tanto para trazer luz ao mundo particular e solitário de Jeffrey quanto para ajudar a elucidar o mistério da orelha. Quando Sandy está presente tudo é mais claro, realista e lógico, quando ela não está as cenas parecem mais oníricas, enigmáticas e ilógicas.
Meu terceiro filme favorito dele, abaixo apenas de O Homem Elefante e Cidade dos Sonhos. Que descanse na paz de sua meditação transcendental. Dos anos 80 certamente estava entre os diretores mais interessantes.
Descambou pra um Latino e Daddy Kall. É um melodrama de qualidade com locações muito bonitas. Acredito ser bem simpático ao público que, assim como eu, não tenha tanta experiência com o cinema indiano não contemporâneo. Quero ver mais filmes desse país assim que possível.
Tem um pé na série do Menino Maluquinho da TV Cultura. A trama se preocupa só em fazer o feijão (tropeiro) com arroz, na intenção de deixar o carisma dos personagens brilharem. Gosto quando o filme lá pela metade se permite ser mais fantasioso, lúdico, quebrando a estética.
Ao final, junto ao hino caipira desse país, não contive as lágrimas. Lembrei-me da minha infância e de devorar as histórias em quadrinhos do Chico, ler e reler um milhão de vezes. Lembrei também do herói da copa do Brasil 2011, Eder Luís, o Chico Bento da Colina, e o seu lindo gol que deu o título inédito ao Vasco da Gama. Bons tempos, duplamente.
Nem mesmo nos dias de folga, o ofício deixa de perseguir o indivíduo. Em o Exorcismo Negro, José Mojica Marins documenta de forma fantasiosa o seu processo criativo. Nesse sentido, o filme se passa em um recesso de fim de ano, contextualizando muito bem esse período de despedida do seu último filme e planejamento para o próximo.
Não fica muito claro o incômodo do diretor com essa situação, ora me convenço de que é um fardo para ele, ora que sente prazer com tudo isso. Mais provável que sejam os dois sentimentos misturados: fadiga e paixão, pelo seu personagem, pelo seu trabalho.
Tive dois votos, dois votos.. Um eu sei que é eu que votei. Lá em casa mora eu, mora minha mãe, minha velhinha, mais meu pai que aliás ou mora meu outro irmão e eu nem sei quem votou em mim. Cadê os 500 e tantas pessoas? Gastei 3000, dava 50 pra um 40 pra outro. Não, to precisando disso aqui nois vai ta junto, to precisando de um gás, cambada de desgraçado. Agora eu quero que todo mundo me devolve meu dinheiro. Fala que é político que mente, é ocês que mente.
Vai lá. Wall-e era muito mais selvagem, vivia no lixo e certamente não recuaria frente a confrontos inevitáveis, como visto aqui. Brincadeiras à parte, The Wild Robot é um filme doce que aposta no seu superefetivo melodrama e no seu ótimo humor. Humor inclusive que vem mais do texto em si do que quedas, caretas e humor físico em geral, o que de certa maneira, nas animações, é um frescor hoje em dia.
Sobre a discussão da temática, não chega a ser um Pluto da vida, mas tem sim seu grau de aprofundamento. As crianças vão passar batidas em algumas considerações, o que é normal. O importante é que irão desfrutar de um filme infantil que não as subestimam. Pescando uma ou outra ideia, já tá valendo.
Em sua provável despedida do cinema, Béla Tarr é sádico e decide brincar de Dr. Plant. Testa seus personagens até o momento em que finalmente eles quebram mentalmente, tal qual o final da anedota do Nietzsche.
Assim, pai e filha são inseridos em uma espécie de antiecossistema, um ambiente artificialmente (ao meu ver) hostil. Nesse aquário quase isolado do resto do mundo e de limites bem definidos pelo alcance da câmera, poucos metros além da casa, a sobrevivência da família é observada. Testemunhamos então a representação da humanidade sendo pouco a pouco despida de todos seus recursos e estando a um passo do abismo.
É mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo, um sistema em que até mesmo zumbis viram mercadorias. Nesse contexto, trabalhadores desunidos são cobrados por resultados inalcançáveis e são oprimidos por aqueles que detêm poder e recursos. Quando os mais fracos se unem, são dados os primeiros passos rumo à revolução.
É interessante também o plot do Bub. Um ser domesticado que recebe ordens em troca de um suposto processo de civilização involutário o qual ele participa durante todo o tempo preso por correntes. Primeiro as vontades do Dr Frankenstein e depois as dele próprio, que são as recompensas, numa espécie de relação colonizador e colonizado.
Além disso, gosto de um diálogo bobinho mas importante narrativamente entre a personagem da Sarah e John. Revi 3x essa parte, embora eu não tenha muito esse costume.
Lil Wayne é o maior entendedor desse filme, explico:
Looking at me now I can see my past Damn, I look just like my fucking dad Lighting up that smoke of mirrors I even look good in a broken mirror I see my mamma smile that's a blessing I see the change, I see the message And no message could have been any clearer So I'm starting with the man in the
Mirror on the wall (A.T. taught me that) Here we are again Through my rise and fall You've been my only friend You told me that they can't understand the man I am So why are we Talking to each other again
Forte graficamente. O som também é muito importante na direção de sensações. Externa claramente a visão de que buscar o equilíbrio na juventude é um desafio complicado e como nossos tropeços refletirão no futuro. Bem frontal nesse sentido.
Não à toa o dedo indicador é o primeiro a sofrer consequências. E isso ocorre logo após uma atitude que nós espectadores julgamos como sendo irresponsável. É aquela história de não apontar os defeitos alheios, pois três dedos apontam de volta pra você. As costas certamente devem ter alguma sutileza também, mas enfim, o filme funciona muito bem sem se aprofundar demasiadamente.
O mais diferente do Kurosawa e é também o que mais gostei dele até o momento, sabendo é claro que ainda falta ver muitos outros. Comunicando muito bem seus planos fechados e planos abertos, desenvolvendo otimamente a amizade entre os dois homens, além de ir conduzindo de forma espetacular algumas cenas desafiantes. Uma bela história contada por ele do início ao fim, com um ritmo cadenciado e agradável.
Tem como discussão essa desconexão do homem com a natureza e o prejuízo que isso nos causou. Ainda, somos presenteados com Dersu, um personagem pra lá de especial. Nos faz questionar o que é realmente ser civilizado e compreender o valor de se ter uma verdadeira liberdade.
O que eu mais gosto aqui nessa representação de Cristo é o foco em suas pregações. Pasolini se liberta de ter que criar contextos dramáticos e tenta dar uma carga mais poética a Jesus. O Messias dele não hesita e é o mais reto possível. Fala o que tem pra dizer, faz o que tem pra fazer, e o outro personagem supostamente escuta recebendo um close sem grandes reações. Dá pra dizer que há pouquíssimas trocas profundas de conversa ou interação em tela, mas por outro lado, a dialética entre o sistema e o agente revolucionário vai se aquecendo cada vez mais até chegar aos seus limites.
É melhor aceitar e, se possível, não fazer caso. O que o Carlos diz para sua esposa reflete em si mesmo e se direciona também para toda a classe trabalhadora nacional. Esse é o sincero desejo dos opressores contra os oprimidos.
É importante que saibamos: não haverá o tão sonhado sossego, pois antes de chegarmos até ele, seremos obrigados a recomeçar. Esse ciclo interminável é parte de um processo que sugará sua alma até que você nem se reconheça mais, virando, finalmente, um anônimo.
Mais próximo de nós, a sombra e o solo. Mais distante, o colorido. Um plano estático e o outro sempre se movimentando. Observe que podemos relaxar bem pois estamos a uma distância segura de toda possível ameaça que poderia acontecer graças a posição espacial da câmera. Nem tão longe que a sombra suma, nem tão perto que prejudique o valor contemplativo do espetáculo.
Sucessivamente, me lembrou de determinada cena de Gosto de Cereja, Kiarostami, e também Stalker do Tarkovsky, embora Estratos da Imagem tenha toda essa ausência dramática e um tempo até mais esticado.
É uma ótima surpresa. Entende bem as frustrações da juventude americana da década de 80 e aponta o rock como consequência e não a causa de suas transgressões.
Gosto também da sua frontalidade quando, por exemplo, ao longo do filme vai comunicando, através das vestimentas do Cunningham, a transformação do personagem virando esse bad boy, passando a usar cada vez mais ou o preto do rock ou o vermelho da Christine.
O fim e uma tentativa misteriosa de recomeço. Visitamos um povoado e contemplamos o drama de seu abandono. Irimiás está de volta e sabe exatamente o que dizer ou como se comportar perante eles, mas nunca sabemos seus reais objetivos e no que ele acredita de verdade. Uma fazenda que seria modelo. Mas modelo para quem? Muito mais perguntas do que respostas faz dele o motorzinho dessa história.
Já a "vítima dos inocentes", Estike, é o meu personagem favorito. O seu enredo vai se desenhando com calma e ganhando graus de perplexidade, ao final de tudo estamos completamente chocados, porém não muito surpresos. O cinema não sugestivo do Tarr é importante não só para construir a tensão que vai se formando a cada passo dela, mas também para irmos digerindo e entendendo suas ações. Embora seja uma criança, ela é desprovida de sentimentos juvenis. É o produto da desilusão daquela região e que nega um futuro de futilidades que a aguardava.
The Flower Girl irá surpreender positivamente grande parte dos ocidentais que decidam assistir. Muito bem filmado, um verdadeiro capricho. Porém, vai pecando um pouco ao longo dos acontecimentos por não conseguir oxigenar o tom de uma nota só de sua narrativa envolvendo luta de classes. No mais, valeu muito a pena como porta de entrada ao cinema norte-coreano.
Jonas Mekas na veia. Azul e mar têm significados quase que opostos para cada um desses dois personagens. Fez-me lembrar uma das grandes músicas do Tim Maia, a qual deixo transcrita abaixo, que faz sentido para ambos.
"Ah! Se o mundo inteiro me pudesse ouvir Tenho muito pra contar Dizer que aprendi E na vida a gente tem que entender Que um nasce pra sofrer Enquanto o outro ri Mas quem sofre sempre tem que procurar Pelo menos vir achar Razão para viver Ver na vida algum motivo pra sonhar Ter um sonho todo azul Azul da cor do mar."
Ou um então um pequeno trecho da música mais batida de Scorpions:
Your pride has built a wall So strong that I can't get through Is there really no chance To start once again? I'm loving you (...) I need your love I'm still loving you
Na minha opinião as críticas à escolha noventista/oitentista da trilha sonora são infundadas, Começando pelo fato de que a música escolhida qualquer que seja no final das contas não importa muito, pois todas elas vão falar de aspectos inerentes a qualquer relação humana, com efeitos bastante parecidos e que acabarão por fazer sentido se colocarmos em uma obra cinematográfica extremamente aconchegante, tal qual a metáfora do tapete. Não é exagero falar que Aftersun dá outro significado a qualquer que seja a musica que você pense aí, pois a intenção é muito mais do que uma canção querendo ser a ferramenta de manipulação emocional do diretor. Sem falar da natureza humana que faz nos identificar mesmo é com esses "modões" atemporais e genéricos. É exatamente isso que conecta até mesmo duas pessoas de idades e momentos diferentes, e nós espectadores com eles também. Isso não torna a relação de ambos menos poderosa ou menos intimista, pelo contrário, caso a escolha fosse mais underground ou algo original, aí sim, na minha opinião, seria um erro, um desperdício.
E como é fácil se conectar com qualquer abordagem que você queira fazer relacionado a esse filme. É sobre memórias e como elas funcionam, é sobre não conseguir fazer tudo que queremos, é sobre paternidade e infância, é sobre personas, sobre inocência e suas descobertas, é sobre aqueles que já se foram e os que ficam, é sobre ferir quem amamos, e principalmente, sobre como estamos nos reduzindo ao que temos e não ao que realmente somos.
Para Tarkosvky, artista é aquele que dirige e escreve seus próprio filme. Sendo assim, Charlotte Wells: artista. Aliás, uma estreia em longa que muito me empolga. A melhor desde Hu Bo (impressionante como até mesmo lembrar dele gera uma outra ligação com o que esse filme conversa).
Quando se lança um filme de guerra, é certo que ouviremos recomendações para ir vê-lo no cinema afim de ter a melhor experiência possível, principalmente por conta dos efeitos sonoros, muita gritaria, bombas e metralhadoras no máximo volume é o que esperamos. Vou me limitar a comentar sobre essa expectativa, apesar do filme possuir outros aspectos incríveis.
Em Zona de Interesse, ir ao cinema e buscar uma melhor qualidade no som continua sendo recomendado, mas dessa vez os áudios esperados dos conflitos soam como se estivessem sendo negativados (assim como um trecho do filme em que a fotografia sofre essa alteração), é abafado, escondido, não deveria estar acontecendo, pois não é interessante para a família nazista. Não é a subversão de gênero pela subversão, como está na moda fazer por aí. É recurso narrativo para contar da melhor forma a história e acaba resultando em um dos melhores trabalhos de som e trilha do ano, originalíssimo. Resumindo os elogios pra não ficar muito extenso, uma obra impecável.
Alô você, alô Brasil, chegando! É você mesmo! Itálica campeã mundial de futebol. Com todos os méritos. Com todas as justiças. É claro, é claro que eu também estou inconformado com você Porque poderia ser, hoje, o Brasil comemorando o título...
Se... se é fácil perder, perder do jeito que nós perdemos... hein? Ainda é muito mais difícil. Ma muito mais difícil mesmo. É difícil perder sabendo que a gente não pode esquecer, é difícil esquecer isso. Tempo nós vamos ter para esquecer, sem dúvida. Esta Copa do Mundo de 2006 mais por quatro anos, no mínimo ela vai ficar aqui com a gente. E talvez para sempre. 1950, que jamais foi esquecida pelo grande favoritismo do Brasil e pelo desastre na final do Maracanã. Agora é a hora que os craques decidiram não jogar... Isso é verdade, ma muita verdade, não teve espetáculo E o resultado poderia ser o que aconteceu exatamente.
Agora é hora de reverenciar Cannavaro, Totti, Zambrotta! Aeerghhh Itália! Campeã mundial, pra nós É hora da gente pensar no futuro. Futuro. É hora da gente reformular, reformular É hora da gente mudar, ou mudar de vez Vamos colocar o castelo de areia abaixo, abaixo! E iniciar uma construção sólida para 2010 Copa 2010! África do Sul também não é assim tão longe É logo ali! Caso contrário nós seremos comida de leões.
Veludo Azul
3.9 819 Assista AgoraO beijo como presságio. Em um simbolismo claro, Sandy é o raio de luz que aparece em meio ao total breu de segundos de tela preta. A maneira como o Lynch filma a introdução dessa personagem é incrível, assim como a trilha que acompanha esse momento. Ela aparece dessa forma simbólica para o protagonista e para nós que estamos ainda no escuro dessa história. Importante tanto para trazer luz ao mundo particular e solitário de Jeffrey quanto para ajudar a elucidar o mistério da orelha. Quando Sandy está presente tudo é mais claro, realista e lógico, quando ela não está as cenas parecem mais oníricas, enigmáticas e ilógicas.
Meu terceiro filme favorito dele, abaixo apenas de O Homem Elefante e Cidade dos Sonhos. Que descanse na paz de sua meditação transcendental. Dos anos 80 certamente estava entre os diretores mais interessantes.
Chandni
3.5 5Descambou pra um Latino e Daddy Kall. É um melodrama de qualidade com locações muito bonitas. Acredito ser bem simpático ao público que, assim como eu, não tenha tanta experiência com o cinema indiano não contemporâneo. Quero ver mais filmes desse país assim que possível.
Chico Bento e a Goiabeira Maraviósa
3.8 224 Assista AgoraTem um pé na série do Menino Maluquinho da TV Cultura. A trama se preocupa só em fazer o feijão (tropeiro) com arroz, na intenção de deixar o carisma dos personagens brilharem. Gosto quando o filme lá pela metade se permite ser mais fantasioso, lúdico, quebrando a estética.
Ao final, junto ao hino caipira desse país, não contive as lágrimas. Lembrei-me da minha infância e de devorar as histórias em quadrinhos do Chico, ler e reler um milhão de vezes. Lembrei também do herói da copa do Brasil 2011, Eder Luís, o Chico Bento da Colina, e o seu lindo gol que deu o título inédito ao Vasco da Gama. Bons tempos, duplamente.
Exorcismo Negro
3.6 44 Assista AgoraNem mesmo nos dias de folga, o ofício deixa de perseguir o indivíduo. Em o Exorcismo Negro, José Mojica Marins documenta de forma fantasiosa o seu processo criativo. Nesse sentido, o filme se passa em um recesso de fim de ano, contextualizando muito bem esse período de despedida do seu último filme e planejamento para o próximo.
Não fica muito claro o incômodo do diretor com essa situação, ora me convenço de que é um fardo para ele, ora que sente prazer com tudo isso. Mais provável que sejam os dois sentimentos misturados: fadiga e paixão, pelo seu personagem, pelo seu trabalho.
Curral
3.5 38Tive dois votos, dois votos.. Um eu sei que é eu que votei. Lá em casa mora eu, mora minha mãe, minha velhinha, mais meu pai que aliás ou mora meu outro irmão e eu nem sei quem votou em mim. Cadê os 500 e tantas pessoas? Gastei 3000, dava 50 pra um 40 pra outro. Não, to precisando disso aqui nois vai ta junto, to precisando de um gás, cambada de desgraçado. Agora eu quero que todo mundo me devolve meu dinheiro. Fala que é político que mente, é ocês que mente.
Robô Selvagem
4.3 572Vai lá. Wall-e era muito mais selvagem, vivia no lixo e certamente não recuaria frente a confrontos inevitáveis, como visto aqui. Brincadeiras à parte, The Wild Robot é um filme doce que aposta no seu superefetivo melodrama e no seu ótimo humor. Humor inclusive que vem mais do texto em si do que quedas, caretas e humor físico em geral, o que de certa maneira, nas animações, é um frescor hoje em dia.
Sobre a discussão da temática, não chega a ser um Pluto da vida, mas tem sim seu grau de aprofundamento. As crianças vão passar batidas em algumas considerações, o que é normal. O importante é que irão desfrutar de um filme infantil que não as subestimam. Pescando uma ou outra ideia, já tá valendo.
O Cavalo de Turim
4.1 215Em sua provável despedida do cinema, Béla Tarr é sádico e decide brincar de Dr. Plant. Testa seus personagens até o momento em que finalmente eles quebram mentalmente, tal qual o final da anedota do Nietzsche.
Assim, pai e filha são inseridos em uma espécie de antiecossistema, um ambiente artificialmente (ao meu ver) hostil. Nesse aquário quase isolado do resto do mundo e de limites bem definidos pelo alcance da câmera, poucos metros além da casa, a sobrevivência da família é observada. Testemunhamos então a representação da humanidade sendo pouco a pouco despida de todos seus recursos e estando a um passo do abismo.
Dia dos Mortos
3.7 331 Assista AgoraÉ mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo, um sistema em que até mesmo zumbis viram mercadorias. Nesse contexto, trabalhadores desunidos são cobrados por resultados inalcançáveis e são oprimidos por aqueles que detêm poder e recursos. Quando os mais fracos se unem, são dados os primeiros passos rumo à revolução.
É interessante também o plot do Bub. Um ser domesticado que recebe ordens em troca de um suposto processo de civilização involutário o qual ele participa durante todo o tempo preso por correntes. Primeiro as vontades do Dr Frankenstein e depois as dele próprio, que são as recompensas, numa espécie de relação colonizador e colonizado.
Além disso, gosto de um diálogo bobinho mas importante narrativamente entre a personagem da Sarah e John. Revi 3x essa parte, embora eu não tenha muito esse costume.
O Espelho
4.2 274 Assista AgoraLil Wayne é o maior entendedor desse filme, explico:
Looking at me now I can see my past
Damn, I look just like my fucking dad
Lighting up that smoke of mirrors
I even look good in a broken mirror
I see my mamma smile that's a blessing
I see the change, I see the message
And no message could have been any clearer
So I'm starting with the man in the
Mirror on the wall (A.T. taught me that)
Here we are again
Through my rise and fall
You've been my only friend
You told me that they can't understand the man I am
So why are we
Talking to each other again
Copacabana Mon Amour
3.8 86Sonia sonha.
A Substância
3.9 1,9K Assista AgoraForte graficamente. O som também é muito importante na direção de sensações. Externa claramente a visão de que buscar o equilíbrio na juventude é um desafio complicado e como nossos tropeços refletirão no futuro. Bem frontal nesse sentido.
Não à toa o dedo indicador é o primeiro a sofrer consequências. E isso ocorre logo após uma atitude que nós espectadores julgamos como sendo irresponsável. É aquela história de não apontar os defeitos alheios, pois três dedos apontam de volta pra você. As costas certamente devem ter alguma sutileza também, mas enfim, o filme funciona muito bem sem se aprofundar demasiadamente.
Dersu Uzala
4.4 156 Assista AgoraO mais diferente do Kurosawa e é também o que mais gostei dele até o momento, sabendo é claro que ainda falta ver muitos outros. Comunicando muito bem seus planos fechados e planos abertos, desenvolvendo otimamente a amizade entre os dois homens, além de ir conduzindo de forma espetacular algumas cenas desafiantes. Uma bela história contada por ele do início ao fim, com um ritmo cadenciado e agradável.
Tem como discussão essa desconexão do homem com a natureza e o prejuízo que isso nos causou. Ainda, somos presenteados com Dersu, um personagem pra lá de especial. Nos faz questionar o que é realmente ser civilizado e compreender o valor de se ter uma verdadeira liberdade.
O Evangelho Segundo São Mateus
4.0 94Ou você serve a Deus ou ao dinheiro.
O que eu mais gosto aqui nessa representação de Cristo é o foco em suas pregações. Pasolini se liberta de ter que criar contextos dramáticos e tenta dar uma carga mais poética a Jesus. O Messias dele não hesita e é o mais reto possível. Fala o que tem pra dizer, faz o que tem pra fazer, e o outro personagem supostamente escuta recebendo um close sem grandes reações. Dá pra dizer que há pouquíssimas trocas profundas de conversa ou interação em tela, mas por outro lado, a dialética entre o sistema e o agente revolucionário vai se aquecendo cada vez mais até chegar aos seus limites.
São Paulo Sociedade Anônima
4.2 215É melhor aceitar e, se possível, não fazer caso. O que o Carlos diz para sua esposa reflete em si mesmo e se direciona também para toda a classe trabalhadora nacional. Esse é o sincero desejo dos opressores contra os oprimidos.
É importante que saibamos: não haverá o tão sonhado sossego, pois antes de chegarmos até ele, seremos obrigados a recomeçar. Esse ciclo interminável é parte de um processo que sugará sua alma até que você nem se reconheça mais, virando, finalmente, um anônimo.
Estratos da Imagem
4.0 1Mais próximo de nós, a sombra e o solo. Mais distante, o colorido. Um plano estático e o outro sempre se movimentando. Observe que podemos relaxar bem pois estamos a uma distância segura de toda possível ameaça que poderia acontecer graças a posição espacial da câmera. Nem tão longe que a sombra suma, nem tão perto que prejudique o valor contemplativo do espetáculo.
Sucessivamente, me lembrou de determinada cena de Gosto de Cereja, Kiarostami, e também Stalker do Tarkovsky, embora Estratos da Imagem tenha toda essa ausência dramática e um tempo até mais esticado.
Christine, O Carro Assassino
3.3 710 Assista AgoraÉ uma ótima surpresa. Entende bem as frustrações da juventude americana da década de 80 e aponta o rock como consequência e não a causa de suas transgressões.
Gosto também da sua frontalidade quando, por exemplo, ao longo do filme vai comunicando, através das vestimentas do Cunningham, a transformação do personagem virando esse bad boy, passando a usar cada vez mais ou o preto do rock ou o vermelho da Christine.
Barbosa
3.7 23O massagista da Aparecidense fez melhor
Edifício Master
4.3 402 Assista AgoraÉ que o Coutinho filmou
Cinema-verdade demais
Anota mais uma obra prima
Na conta do pai
O Tango de Satã
4.3 144O fim e uma tentativa misteriosa de recomeço. Visitamos um povoado e contemplamos o drama de seu abandono. Irimiás está de volta e sabe exatamente o que dizer ou como se comportar perante eles, mas nunca sabemos seus reais objetivos e no que ele acredita de verdade. Uma fazenda que seria modelo. Mas modelo para quem? Muito mais perguntas do que respostas faz dele o motorzinho dessa história.
Já a "vítima dos inocentes", Estike, é o meu personagem favorito. O seu enredo vai se desenhando com calma e ganhando graus de perplexidade, ao final de tudo estamos completamente chocados, porém não muito surpresos. O cinema não sugestivo do Tarr é importante não só para construir a tensão que vai se formando a cada passo dela, mas também para irmos digerindo e entendendo suas ações.
Embora seja uma criança, ela é desprovida de sentimentos juvenis. É o produto da desilusão daquela região e que nega um futuro de futilidades que a aguardava.
The Flower Girl
3.8 3The Flower Girl irá surpreender positivamente grande parte dos ocidentais que decidam assistir. Muito bem filmado, um verdadeiro capricho. Porém, vai pecando um pouco ao longo dos acontecimentos por não conseguir oxigenar o tom de uma nota só de sua narrativa envolvendo luta de classes. No mais, valeu muito a pena como porta de entrada ao cinema norte-coreano.
Gosto de Cereja
4.0 239 Assista AgoraPaulo Bracks após sua demissão do Vasco da Gama SAF
Aftersun
4.0 802Jonas Mekas na veia.
Azul e mar têm significados quase que opostos para cada um desses dois personagens. Fez-me lembrar uma das grandes músicas do Tim Maia, a qual deixo transcrita abaixo, que faz sentido para ambos.
"Ah! Se o mundo inteiro me pudesse ouvir
Tenho muito pra contar
Dizer que aprendi
E na vida a gente tem que entender
Que um nasce pra sofrer
Enquanto o outro ri
Mas quem sofre sempre tem que procurar
Pelo menos vir achar
Razão para viver
Ver na vida algum motivo pra sonhar
Ter um sonho todo azul
Azul da cor do mar."
Ou um então um pequeno trecho da música mais batida de Scorpions:
Your pride has built a wall
So strong that I can't get through
Is there really no chance
To start once again?
I'm loving you
(...) I need your love
I'm still loving you
Na minha opinião as críticas à escolha noventista/oitentista da trilha sonora são infundadas, Começando pelo fato de que a música escolhida qualquer que seja no final das contas não importa muito, pois todas elas vão falar de aspectos inerentes a qualquer relação humana, com efeitos bastante parecidos e que acabarão por fazer sentido se colocarmos em uma obra cinematográfica extremamente aconchegante, tal qual a metáfora do tapete. Não é exagero falar que Aftersun dá outro significado a qualquer que seja a musica que você pense aí, pois a intenção é muito mais do que uma canção querendo ser a ferramenta de manipulação emocional do diretor. Sem falar da natureza humana que faz nos identificar mesmo é com esses "modões" atemporais e genéricos. É exatamente isso que conecta até mesmo duas pessoas de idades e momentos diferentes, e nós espectadores com eles também. Isso não torna a relação de ambos menos poderosa ou menos intimista, pelo contrário, caso a escolha fosse mais underground ou algo original, aí sim, na minha opinião, seria um erro, um desperdício.
E como é fácil se conectar com qualquer abordagem que você queira fazer relacionado a esse filme. É sobre memórias e como elas funcionam, é sobre não conseguir fazer tudo que queremos, é sobre paternidade e infância, é sobre personas, sobre inocência e suas descobertas, é sobre aqueles que já se foram e os que ficam, é sobre ferir quem amamos, e principalmente, sobre como estamos nos reduzindo ao que temos e não ao que realmente somos.
Para Tarkosvky, artista é aquele que dirige e escreve seus próprio filme. Sendo assim, Charlotte Wells: artista. Aliás, uma estreia em longa que muito me empolga. A melhor desde Hu Bo (impressionante como até mesmo lembrar dele gera uma outra ligação com o que esse filme conversa).
Zona de Interesse
3.6 704 Assista AgoraQuando se lança um filme de guerra, é certo que ouviremos recomendações para ir vê-lo no cinema afim de ter a melhor experiência possível, principalmente por conta dos efeitos sonoros, muita gritaria, bombas e metralhadoras no máximo volume é o que esperamos. Vou me limitar a comentar sobre essa expectativa, apesar do filme possuir outros aspectos incríveis.
Em Zona de Interesse, ir ao cinema e buscar uma melhor qualidade no som continua sendo recomendado, mas dessa vez os áudios esperados dos conflitos soam como se estivessem sendo negativados (assim como um trecho do filme em que a fotografia sofre essa alteração), é abafado, escondido, não deveria estar acontecendo, pois não é interessante para a família nazista. Não é a subversão de gênero pela subversão, como está na moda fazer por aí. É recurso narrativo para contar da melhor forma a história e acaba resultando em um dos melhores trabalhos de som e trilha do ano, originalíssimo. Resumindo os elogios pra não ficar muito extenso, uma obra impecável.
Druk: Mais Uma Rodada
3.9 829 Assista AgoraAlô você, alô Brasil, chegando! É você mesmo!
Itálica campeã mundial de futebol. Com todos os méritos. Com todas as justiças.
É claro, é claro que eu também estou inconformado com você
Porque poderia ser, hoje, o Brasil comemorando o título...
Se... se é fácil perder, perder do jeito que nós perdemos... hein?
Ainda é muito mais difícil. Ma muito mais difícil mesmo.
É difícil perder sabendo que a gente não pode esquecer,
é difícil esquecer isso.
Tempo nós vamos ter para esquecer, sem dúvida.
Esta Copa do Mundo de 2006 mais por quatro anos, no mínimo
ela vai ficar aqui com a gente. E talvez para sempre. 1950, que jamais foi esquecida pelo grande favoritismo do Brasil
e pelo desastre na final do Maracanã.
Agora é a hora que os craques decidiram não jogar...
Isso é verdade, ma muita verdade, não teve espetáculo
E o resultado poderia ser o que aconteceu exatamente.
Agora é hora de reverenciar Cannavaro, Totti, Zambrotta!
Aeerghhh Itália! Campeã mundial, pra nós
É hora da gente pensar no futuro. Futuro.
É hora da gente reformular, reformular
É hora da gente mudar, ou mudar de vez
Vamos colocar o castelo de areia abaixo, abaixo!
E iniciar uma construção sólida para 2010
Copa 2010!
África do Sul também não é assim tão longe
É logo ali!
Caso contrário nós seremos comida de leões.