Em uma imaginação do que aconteceu com o cavalo salvo de uma brutal chicotada por Nietzsche, o diretor utiliza planos-sequência para transmitir a melancolia da vida cotidiana do carroceiro, de sua filha e do animal. Como consequência do episódio, o carroceiro passa a levar uma vida cada vez mais amarga, em uma espécie de parábola sobre o peso da existência.
A partir de sequências que mostram o cotidiano, a direção aposta na repetição e em diferentes enquadramentos desses mesmos momentos para construir uma experiência sensorial e reflexiva. O cavalo, cada vez mais abatido, se recusa a viver e a trabalhar após o ocorrido, trazendo consequências cada vez mais duras para todos ao seu redor. Ao longo do filme, predomina um tom sombrio e apocalíptico, com fotografia em preto e branco, ambientação imersiva, trilha sonora agoniante e o som constante do vento, que paira como um mau presságio. Essa melancolia que atinge o cavalo passa a marcar também a rotina do carroceiro.
Na cena do midpoint, quando ciganos se aproximam da fazenda e retiram água do poço, no dia seguinte ele aparece seco. Essa secura marca um ponto sem retorno, que leva a família a decidir migrar e enfrentar a tempestade, levando o cavalo consigo. No caminho, percebem que não conseguem ir muito longe sem água e acabam retornando para casa. Resta então uma espera silenciosa diante da janela, como se aguardassem algo que os tire da solidão e desse peso existencial que os atormenta, apagando qualquer sinal de esperança na vida. A cena final reforça essa ideia: no mesmo estábulo onde o cavalo vivia sozinho e sem luz, eles também passam a se afundar em uma tristeza profunda, até não encontrarem mais sentido na vida.
Em meio à reflexão proposta, o diretor imprime bem o significado da história. A partir de atitudes cruéis, surge uma revolta nesse mundo distópico, no qual tudo o que o homem toca se degrada. Ao mesmo tempo, há uma ambiguidade na leitura desses acontecimentos, que podem ser vistos tanto por um viés fictício e apocalíptico quanto como consequência concreta do sofrimento vivido pelo cavalo. Aos poucos, essa melancolia se torna profunda e inevitável, enquanto os planos longos e contemplativos reforçam a sensação de exaustão pela repetição do cotidiano. Embora isso funcione para transmitir o sentimento, acaba enfraquecendo o enredo.
Ainda que a mensagem gire em torno das consequências do que aconteceu com o cavalo, a monotonia nem sempre se sustenta, já que o cotidiano também se torna repetitivo pela falta de diálogo significativo entre os personagens. Eles próprios mostram que não tentam tornar a vida mais leve, como se essa rigidez já fizesse parte de quem são, deixando pouco espaço para qualquer gesto que alivie a monotonia. Ainda assim, a narrativa é eficaz ao fazer o espectador sentir esse universo, tanto em sua presença destrutiva quanto na dor do cavalo e nas consequências existenciais que atingem todos ao seu redor.
Um slasher que se acomoda nos clichês sem qualquer tentativa de escapar do óbvio, com personagens colegiais estereotipados, motivações rasas e um roteiro tão previsível que dificilmente surpreende. A direção até tenta impor algum ritmo ao conjunto, e a curiosidade sobre o que pode acontecer mantém um fio de atenção, mas nada disso é suficiente para realmente elevar a experiência.
O elenco funciona dentro das limitações impostas pelo material, enquanto a trilha, a maquiagem e o figurino oitentista reforçam os poucos aspectos que se destacam positivamente. No fim, porém, mesmo com esses pequenos respiros, o resultado é claro: uma produção que serve apenas como entretenimento, e olhe lá.
Um grandioso fiasco, possivelmente uma das piores direções do ano. O filme sofre com um elenco mal escalado, atuações toscas e um roteiro ineficiente que tenta aprofundar certas questões, mas apenas acrescenta furos narrativos.
Rachel Zegler impressiona pela quantidade de expressões sofríveis em praticamente todas as cenas. As atuações são tão desastrosas que, por vezes, o longa parece uma superprodução paródica. E digo “paródica” porque quase tudo soa como motivo para tirar uma galhofa, como se a intenção fosse viralizar a partir de situações constrangedoras. A diferença é que aqui não existe propósito humorístico algum, apenas um excesso mal conduzido.
Ainda assim, não cabe atribuir a culpa exclusivamente à atriz. Ela se empenha, mas sua interpretação surge completamente deslocada, incapaz de sustentar o impacto dramático, a doçura e a inocência que a personagem exige. Gal Gadot, por sua vez, também não convence como Rainha Má. Nos momentos em que a personagem exige uma maldade mais incisiva, ela simplesmente não alcança o tom necessário. A voz falha, a presença se dissipa e a vilã perde qualquer potência. Trata-se, possivelmente, do desempenho mais fraco de ambas atrizes.
Curiosamente, um dos poucos acertos está nos anões, que funcionam muito bem em cena e são integrados com um CGI competente, talvez entre os melhores do ano. O mesmo vale para os efeitos aplicados aos animais, às forças da floresta e aos elementos mágicos, todos bem executados. Quem acaba roubando a cena, ainda que isso vá na contramão da proposta mais feminista e empoderada do filme, é o príncipe vivido por Andrew Burnap. Ele entrega a melhor atuação do longa e seu núcleo acrescenta um frescor bem-vindo ao roteiro.
Há, nos pontos extremos, um contraste quase chocante entre o péssimo e o verdadeiramente excelente. A direção de arte, o figurino e a maquiagem estão impecáveis, facilmente entre os melhores do ano. É nesses aspectos que o filme encontra sua força, embora de forma totalmente isolada.
A edição, o design de som, a trama e a trilha sonora original também contribuem para tornar a experiência ao menos suportável.
No fim, esta obra, tão cinematográfica quanto involuntariamente paródica, cai do penhasco ao modificar ou tentar aprofundar determinados elementos da história. Além da direção problemática, o roteiro insiste em adições desnecessárias que comprometem a narrativa com furos significativos. Este é, possivelmente, um dos maiores fiascos, senão o maior, entre os live-actions da Disney.
Piadas que não funcionam, clichês constantes, esteriótipos sem graça, senso comum por todos os lados, erotismo gratuito, atuações toscas, roteiro medíocre e direção caricata. As poucas ressalvas ficam apenas na parte técnica, com uma montagem competente, bom trabalho de som, trilha divertida e uma caracterização bem executada.
O filme claramente não se leva a sério, mas, para mim, nada nele se sustenta. O resultado é uma obra que aposta na irreverência, mas cai numa cafonice que engole qualquer tentativa de charme ou personalidade.
Robô Selvagem conta a história comovente de uma robô em meio à natureza selvagem, moldada pela paisagem e pelas experiências em uma ilha isolada. A animação, singela e repleta de amor, apresenta um primeiro ato leve e divertido, com momentos cômicos que funcionam perfeitamente. A partir do ponto médio do segundo ato, a narrativa ganha força emocional, conduzindo o espectador às lágrimas até o último momento da história.
Aqui vemos o brilhantismo da direção de Chris Sanders, que, para mim, entrega uma das cinco melhores direções do ano, e sim, é justamente nesta linda e comovente animação.
O que dizer dos personagens? O elenco de vozes é encantador, cheio de carisma e emoção. Kit Connor, como o ganso Bico Vivo, e Pedro Pascal, como Fink, estão excelentes em seus papéis. Mas é Lupita Nyong’o quem realmente brilha, com uma interpretação vocal simplesmente maravilhosa como Roz, a robô selvagem.
A trilha sonora e a canção original também merecem todos os elogios. Ambas impulsionam a narrativa e elevam a experiência emocional, junto com o trabalho impecável de som, especialmente a edição de som, que é fundamental para a imersão no universo do filme.
É uma obra poderosa, repleta de mensagens profundas sobre pertencimento, transformação, amor, convivência entre as diferenças e respeito à natureza. É uma trama rica, sensível e significativa.
O que realmente pode incomodar são alguns detalhes de lógica dentro do universo apresentado, o tipo de coisa que não chega a quebrar a conexão emocional, mas que chama atenção. Por exemplo:
uma robô que se molha e não sofre com ferrugem; mecanismos essenciais sendo retirados sem que o funcionamento seja comprometido; e a ideia de que, de repente, ela “lembra” ou sente porque agora tem um “coração”.
São aspectos que não devem ser ignorados, embora não diminuam o impacto da história.
Em suma, Robô Selvagem é uma animação belíssima, emocionalmente rica e conduzida com maestria. Um daqueles filmes que tocam o coração, mesmo que, aqui e ali, desafiem um pouco a lógica da razão.
Há uma sensibilidade cativante na direção deste longa, uma das melhores do ano. O design de som é incrível, repleto de sons de animais e da natureza que constroem uma paisagem sonora imersiva em perfeita harmonia com a mixagem.
A mensagem dialoga bastante com Robô Selvagem e trata sobre superar as diferenças para não se sentir só. Em muitos momentos, o filme transmite uma sensação de quietude extrema, o que, por um lado, desperta contemplação e, por outro, nos leva a refletir sobre a solidão.
O conflito da animação nos faz perceber como, em situações extremas, cada personagem encontra empatia no outro para superar os obstáculos, porque, apesar da cadeia alimentar, todos estão no mesmo “barco”. E assim, cada animal traz um aprendizado próprio, o que torna tudo ainda mais profundo.
Como nada é perfeito, e apesar de seus propósitos, a história é simples e apresenta alguns aspectos de profundidade de personagens um pouco rasos, como na relação entre o gato e a matilha. Mesmo que sirvam como opostos e tragam aprendizados, há uma abordagem um tanto desequilibrada: o gato é retratado quase apenas com qualidades, enquanto os cachorros são colocados como problemáticos. Isso acaba recaindo em um certo senso comum e, em vez de gerar contemplação, faz com que os cachorros pareçam personagens incômodos.
Ainda assim, isso não chega a ser exatamente um problema. Mesmo sendo uma leitura convencional, pode ser entendido como um ponto de vista do próprio gato, uma maneira de representar como ele enxerga os outros animais. Nesse sentido, essa escolha também pode ganhar profundidade narrativa.
No fim, a mensagem que o filme nos deixa é sobre nós mesmos. Mesmo quando sentimos que só existimos por conta de nossa singularidade, são justamente as diferenças que permitem que cada um se encaixe e encontre seu papel no todo. É uma reflexão sensível sobre coexistência, empatia e pertencimento, que torna essa experiência tão simples quanto significativa.
O filme brilha em diversos aspectos e mostra evolução em relação ao primeiro. As atuações são o grande destaque, especialmente Naomi Scott, que entrega uma das melhores performances do ano e possivelmente de sua carreira. O desenho de som, a trilha sonora, a maquiagem, o penteado, o figurino e a direção contribuem para uma experiência visual e sonora marcante. As cenas são bem conduzidas, originais e surpreendentes em vários momentos, consolidando a direção como o ponto mais forte do longa, assim como já acontecia no filme anterior.
Apesar de mais consistente que o primeiro, o filme ainda apresenta problemas notáveis. Por ser uma continuação direta, ignora explicações e depende integralmente dos eventos anteriores, que já eram frágeis, comprometendo ainda mais a narrativa. O roteiro, limitado e pouco desenvolvido, carece de motivações claras para seus conflitos centrais. O clímax e o desfecho são intensos e criativos, mas a ausência de explicação da origem e das motivações da possessão faz tudo soar como uma viagem mal contada, resultando em um final promissor que não atinge todo o seu potencial, especialmente por concentrar a trama nessa força sobrenatural, que acaba sendo o principal sustentáculo da história.
Ainda assim, o filme cumpre bem seu papel como entretenimento. Com direção segura, boas atuações e elementos técnicos de qualidade, consegue superar o primeiro longa e oferecer uma experiência envolvente, assustadora e divertida. No conjunto, é uma sequência que acerta mais do que erra e reforça o potencial do universo que constrói.
A dupla Matt Bettinelli-Olpin e Tyler Gillett entrega aqui seu melhor filme trash desde Casamento Sangrento. A trama acompanha um grupo de criminosos que decide sequestrar a filha de um bilionário em busca de um resgate milionário. O problema é que ela está longe de ser uma refém indefesa, e o pesadelo no qual eles entram parece saído diretamente de um conto de terror gótico.
O tom permanece fiel à marca registrada da dupla, com horror exagerado, tensão constante e humor ácido que equilibra o sangue com sarcasmo. A ambientação é chamativa, enquanto os personagens têm carisma suficiente para manter o interesse do início ao fim.
O grande destaque é Alisha Weir, que simplesmente rouba o filme. Sua atuação transforma gradualmente a narrativa, deslocando o ponto de vista para a figura da suposta “vilã” e tornando sua presença o verdadeiro centro da história. A montagem também merece elogios, com sequências bem ritmadas que reforçam a diversão e ampliam o impacto narrativo da experiência.
Se há um ponto fraco, é a leveza com que o filme trata sua própria história, que poderia alcançar algo mais consistente se se levasse um pouco mais a sério. Ainda assim, dentro da proposta de comédia de terror, o resultado é envolvente, afiado e deliciosamente sangrento. Bettinelli-Olpin e Gillett provam mais uma vez que sabem transformar caos trash em espetáculo.
MaXXXine encerra a trilogia “X” de forma decepcionante. O filme tropeça em seu desenvolvimento, com personagens constantemente subutilizados e um terror que parece esgotado, sem o mesmo vigor criativo dos capítulos anteriores, mesmo sendo uma franquia nova com muito potencial. A tentativa de explorar a influência religiosa como força do mal é arrastada, superficial e incapaz de despertar interesse, culminando em uma revelação final previsível e de pouco impacto.
A homenagem ao Giallo, um estilo raramente revisitado no terror contemporâneo, traz um charme visual que se destaca, mas direção e roteiro, especialmente este último, soam artisticamente desinspirados. A trilha sonora, o design de produção e as atuações se sobressaem, com Mia Goth entregando mais uma performance intensa, mas esses méritos isolados não conseguem sustentar o conjunto.
No fim, fica muito abaixo dos dois capítulos anteriores da franquia. Um desfecho que tinha tudo para ser grandioso, mas termina como a maior decepção da trilogia.
Minha Fera é uma comédia romântica que foge do óbvio. A protagonista enfrenta o peso de um término e as frustrações da vida amorosa e profissional, enquanto a Fera atua como catalisadora, mostrando o quanto ela pode ser mais do que os obstáculos e reforçando a importância do amor próprio.
O filme é despretensioso e charmoso, com reviravoltas divertidas e montagem leve que prende a atenção. Ainda assim, o roteiro tropeça em pontos importantes. O núcleo da Fera, essencial para o tema do amor próprio e do amor inesperado, merecia maior profundidade. A protagonista, solitária e doente, apoiando-se apenas em uma amiga, também carece de desenvolvimento, tornando a situação pouco crível.
Melissa Barrera é uma atriz que sempre parece um pouco insossa. O núcleo mais bem trabalhado é a relação com o ex-namorado, onde o roteiro se aprofunda mais. O verdadeiro eixo da trama vai além do romance e está no empoderamento e no amor próprio.
No fim, é divertido, um bom passatempo com ritmo envolvente, mesmo que seja uma história com algumas falhas em seu desenvolvimento.
A base deste documentário é a denúncia do fanatismo religioso e do risco de uma teocracia totalitária no Brasil. Sua construção subjetiva não o enfraquece; ao contrário, fortalece a crítica ao tratar o tema não como uma verdade absoluta, mas como uma reflexão que confronta a fé, a política e suas contradições. Esse olhar ganha ainda mais peso ao cruzar estudo bíblico, questionamentos mitológicos e os desdobramentos da relação entre Silas Malafaia e Jair Bolsonaro. O eixo central é Malafaia e suas contradições religiosas, que transformam a igreja em palanque político, enquanto Bolsonaro se aproveita disso para explorar, sobretudo, o apoio dos evangélicos em benefício próprio. O resultado é um entrelaçamento da mitologia cristã com o fanatismo religioso que se converte em uma história de horror, metafórica, mas assustadoramente real, revelando o abraço sufocante entre fé e poder.
“O Aprendiz” mescla fatos verídicos com ficção em uma sátira que soube me pegar na hilaridade em alguns momentos. O filme retrata a ascensão de Donald Trump, explorando sua ambição e ganância antes e depois da fama, e mostra como a convivência com seu advogado Roy Cohn foi essencial para a formação de seus lemas e aprendizados, o que dá nome ao título.
Como o longa abstrai dos fatos e os mistura à ficção, não há uma divisão clara, e sem um conhecimento prévio sobre as particularidades da figura é difícil distinguir o que é real e o que é surreal. O filme não se preocupa em explicar ou entender os fatos, mas em lançar o espectador dentro de um universo satírico.
A narrativa também não foge das polêmicas e controvérsias que cercam o atual presidente dos Estados Unidos, incluindo a gênese do famoso “Make America Great Again”. Sebastian Stan entrega uma performance marcante como Trump, enquanto Jeremy Strong rouba a cena em um papel fundamental. É ele quem conduz os momentos mais fortes e comoventes do longa, trazendo densidade à sátira.
Menção especial: Maria Bakalova, que vive Ivana, também brilhou neste longa, no arco que expõe como era a relação amorosa de Donald Trump (sem spoilers, mas extremamente materialista).
O enredo é divertido, mas o roteiro é fraco e cheio de falhas, com arcos subutilizados e sem propósito claro. Michael Keaton entrega a melhor atuação do longa, se destacando entre os outros personagens. A trilha sonora, a maquiagem e a direção de Tim Burton, a melhor dele em anos, são os pontos altos do filme. O fanservice traz uma nostalgia dos tempos passados do cineasta, agradando os fãs mais dedicados.
Um drama psicológico que desponta como uma das histórias mais sombrias do ano. Ambientado em tempos de miséria e sofrimento, o filme acompanha uma jovem costureira desempregada tentando sobreviver no turbulento pós-Primeira Guerra Mundial. Incapaz de lidar com a maternidade, ela recorre a uma agência de adoção clandestina, administrada por uma enigmática senhora que guarda um segredo horrendo. O roteiro é simplesmente hipnotizante de tão chocante, conduzindo o espectador por uma espiral de tensão e desconforto que, a partir do segundo ato, mergulha em um território ainda mais perturbador, até chegar a um desfecho tão impactante quanto memorável. Destaque também para o uso magistral de planos, iluminação e jogo de luz e sombra, aliado a uma direção de arte meticulosamente construída.
Assisti no começo da madrugada o documentário brasileiro Apocalipse nos Trópicos e adorei. É basicamente a cronologia de tudo o que vivemos desde o final de Democracia em Vertigem.
O personagem de maior destaque neste novo trabalho da Petra Costa acaba sendo o Silas Malafaia. Não tenho críticas significativas à narração nem ao conteúdo documentado. Achei o filme ambíguo algumas vezes e, portanto, suficientemente forte em seus argumentos. São interpretações pessoais da Bíblia que conduzem parte da narrativa.
Tem momentos impactantes, como no documentário anterior da diretora, o que é sempre gratificante. E talvez o que mais se destaque aqui, ainda que de forma um pouco ambígua, é o fato de o filme também funcionar como uma história de terror. Ao lidar com um livro mitológico como a Bíblia, Petra mistura elementos de ficção, o que potencializa o desconforto e a urgência da mensagem.
É um documentário que prende do início ao fim, envolvente a ponto de não sentir o tempo passar.
Graças à direção segura do estreante Malcolm Washington, Piano de Família consegue se sustentar. Sem dúvidas, é o grande diferencial do filme. As atuações são boas, com destaque para Danielle Deadwyler, e os aspectos técnicos como design de produção, som, trilha e montagem são competentes. Funciona muito mais pela direção do que pelo roteiro.
Não foi exatamente o tom teatral que me incomodou, mas sim o excesso de diálogos. O roteiro parece girar em círculos, como se estivesse sempre retomando os mesmos pontos, sem avançar de fato. Há um peso desnecessário na fala que mina o impacto emocional que a narrativa tenta construir.
Além disso, a mistura de drama com elementos de terror é mal dosada. A escrita não consegue equilibrar os dois gêneros com clareza, o que compromete a narrativa. E algo que definitivamente cansa é o tom constantemente elevado das vozes. Os personagens praticamente gritam o tempo todo, o que acaba tornando tudo mais exaustivo do que intenso.
Um suspense psicológico eletrizante que me surpreendeu. Nathan Stewart-Jarrett entrega uma atuação adorável e intensa como uma drag queen espancada na rua por um delinquente charmoso interpretado por George MacKay. O que começa como uma busca por vingança logo se transforma em um mergulho profundo nos traumas deixados por uma sociedade violenta.
As atuações são brilhantes em sua forma mais sigilosa. George MacKay busca manter esse sigilo para não se comprometer e evitar ser visto como "bichinha" no lugar onde vive, enquanto Nathan Stewart-Jarrett se expõe de maneira corajosa, permitindo que entendamos os traumas e os medos que esse mundo distópico e violento impõe a um grupo oprimido.
A direção de Sam H. Freeman e Ng Choon Ping é dura, conduzindo tudo com dinamismo e uma crítica social contundente. O filme escancara a negligência com que pessoas LGBTQIA+, especialmente as mais afeminadas, são tratadas. São agredidas diante de todos, enquanto nada é feito.
A relação entre Jules interpretado por Stewart-Jarrett e Preston vivido por MacKay é carregada de tensão, incerteza e dor. No fim das contas, o filme mostra um lado do homofóbico que também é reflexo de uma sociedade estruturalmente opressora.
Sem dúvidas, uma das melhores direções de 2023. É imperdível.
Que preciosidade de filme. Tudo Que Imaginamos Como Luz acompanha o cotidiano de duas enfermeiras em Mumbai que, em meio ao caos da megalópole indiana, buscam amor e afeto dentro de uma sociedade conservadora.
A direção de Payal Kapadia é de uma sensibilidade rara. Ela conduz essa narrativa melancólica e contemplativa com um brilho sereno, construindo camadas com sutileza e poesia. Um primor do cinema indiano. O elenco formidável entrega atuações marcantes, com o grande destaque sendo Divya Prabha, que interpreta Anu, uma das enfermeiras. Sem dúvidas, um dos melhores elencos de 2024.
O roteiro tem seus deslizes, especialmente no final, quando a relação da protagonista com o marido se torna um tanto confusa. Ainda assim, é um texto bem escrito, que cuida dos detalhes com delicadeza e constrói personagens acolhedores e cheios de nuances.
O grande trunfo é, absolutamente, o roteiro. A escalação do elenco também é a cereja do bolo. No entanto, todo o restante, especialmente a direção, deixa a desejar, o que é uma pena.
Um dos principais problemas está na condução das cenas. Os takes excessivamente longos, quase sem cortes e muitas vezes desnecessários, compromete o ritmo da narrativa e tira o dinamismo da trama. É uma condução que mais atrapalha do que contribui. Definitivamente, não é um filme que justificava quase três horas de duração.
Saturday Night: A Noite Que Mudou a Comédia tem seus méritos. A recriação dos bastidores da estreia do Saturday Night Live é envolvente, com direção segura, cortes precisos, ótima composição da trilha sonora original e um design de produção caprichado. O elenco funciona bem, e há momentos em que as piadas realmente acertam. Gosto especialmente dos close-ups nos atores, que capturam bem a tensão e a energia do momento.
A trama tenta criar dinamismo naquele curto intervalo antes da estreia, mas falta desenvolver melhor a narrativa. O roteiro se enrola mais do que precisa e carece de argumentação para dar profundidade à história e aos personagens, muitos dos quais acabam subaproveitados.
Ainda assim, é um filme bom. Tem seus brilhos e acertos técnicos que tornam a experiência válida, mesmo que fique a sensação de que poderia ter ido além.
Sebastian é um filme monótono que se apoia no excesso de cenas de sexo explícito e nas experiências pouco interessantes do protagonista para discutir a superficialidade dos relacionamentos queer. A construção do tema é lenta e arrastada, beirando uma trama fraca.
Faltou aprofundamento na história e nos personagens, o que dificulta o envolvimento. A direção é sem brilho, e o elenco parece mal escalado, com atuações inexpressivas e personagens apáticos.
Ainda assim, a mensagem central tem valor e se sustenta. A fotografia e a trilha sonora se destacam, trazendo algum charme a um filme que, no geral, deixa a desejar.
Um drama psicológico que aborda perda, resiliência e restruturação familiar que gira em torno da luta de Eunice Paiva em busca de seu marido desaparecido na ditadura.
Logo após o incidente incidente e ao nos integrarmos à família, Walter Salles a todo momento cria uma atmosfera tensa de horror e opressão que te fisga e gruda na trama, quase como um filme de terror. Uma sacada genial de direção e roteiro.
Eunice é protagonizada por Fernanda Torres, que toma uma atuação brilhantemente tocante, mas contida, que emociona sem ser exorbitante, como pede sua personagem. Uma das minhas atuações favoritas do ano, sem dúvidas.
Apesar de Torres se destacar, todo elenco juvenil tem boas atuações, principalmente da Valentina Herszage como Vera, Luiza Kosovski como Eliana e Bárbara Luz como Nalu. Mas o que pega mesmo é o breve momento que sua mãe Fernanda Montenegro aparece no final do filme interpretando-a nos últimos momentos de vida, é simplesmente dilacerante.
Com certeza, é um marco para o cinema nacional, de uma história de peso e reparação histórica para famílias assoladas pela ditadura, mantendo viva sua memória para não deixar que histórias assim se repitam.
O segundo roteiro da Marielle Heller tinha uma premissa criativa na qual usa a selvageria para refletir sobre o tema maternal, mas não soube que caminho tomar. O desenvolvimento é muito insuficiente.
Neste longa, a Heller é melhor dirigindo que roteirizando, na direção consegue fazer com que suas cenas sejam sempre interessantes, seja nos planos usados ou no mise en scène. Além que, o design de produção, fotografia, maquiagem, figurino e direção de elenco são bem competentes. Mas o grande destaque aqui é a entrega de Amy Adams que encarna de corpo e rabo o papel.
O que com certeza arruinou o filme foi (diga-se péssima) a montagem de Anne McCabe, que não conseguiu captar a complexidade da história que a diretora e roteirista quis contar e simplesmente deixou-se desleixar totalmente o que poderia ter sido um bom filme.
Um filme ousado e um tanto arriscado, que funcionou como um grande musical. O roteiro é bem envolvente, sempre procurando palavras e termos fáceis de entender, o que deixa a trama mais dinâmica, mas achei que com isso faltou mais profundidade na ambientação e personagens, o que torna a experiência um pouco rasa.
Pelo tom, propositalmente, fictício e muitas das vezes soando hipérbole, visto à procura do impacto e sensações usando a criatividade ao invés de uma realidade absoluta - o que é compreensível por ser um musical, com músicas que também enfatizam isso, consegue manter a proposta sem passar do ponto.
Como também, a centralidade do arco do narcotraficante, é eficaz; coreografias e trilha sonora bem efetuadas, o desenvolvimento de uma trama bem bolada e uma montagem e som que são à parte, um espetáculo, torna a experiência singular. O tom caricato não foi essencialmente um grande problema, porque a própria direção e história pediu algo mais ilusório, menos literal e se faz inofensivo, dentro do que é proposto.
Os aspectos e a retratação psicológica e dramática da Emília Pérez cativa, talvez seja o maior ponto positivo, dentro do limite de uma história de narcotráfico. Karla Sofía Gascón entrega uma performance majestosa e corajosa, a interpretar dois - ou o mesmo papel.
O destaque, no entanto, está na atuação de Zoë Saldaña, que desempenha um papel quase de protagonista, onde as decisões giram em torno dela e que atua como um apoio dessa figura emblemática que é Emilia Pérez, mas é com as coreografias que ela realmente brilha e triunfa. Uma das melhores performances do ano!
O Cavalo de Turim
4.1 215Em uma imaginação do que aconteceu com o cavalo salvo de uma brutal chicotada por Nietzsche, o diretor utiliza planos-sequência para transmitir a melancolia da vida cotidiana do carroceiro, de sua filha e do animal. Como consequência do episódio, o carroceiro passa a levar uma vida cada vez mais amarga, em uma espécie de parábola sobre o peso da existência.
A partir de sequências que mostram o cotidiano, a direção aposta na repetição e em diferentes enquadramentos desses mesmos momentos para construir uma experiência sensorial e reflexiva. O cavalo, cada vez mais abatido, se recusa a viver e a trabalhar após o ocorrido, trazendo consequências cada vez mais duras para todos ao seu redor. Ao longo do filme, predomina um tom sombrio e apocalíptico, com fotografia em preto e branco, ambientação imersiva, trilha sonora agoniante e o som constante do vento, que paira como um mau presságio. Essa melancolia que atinge o cavalo passa a marcar também a rotina do carroceiro.
Na cena do midpoint, quando ciganos se aproximam da fazenda e retiram água do poço, no dia seguinte ele aparece seco. Essa secura marca um ponto sem retorno, que leva a família a decidir migrar e enfrentar a tempestade, levando o cavalo consigo. No caminho, percebem que não conseguem ir muito longe sem água e acabam retornando para casa. Resta então uma espera silenciosa diante da janela, como se aguardassem algo que os tire da solidão e desse peso existencial que os atormenta, apagando qualquer sinal de esperança na vida. A cena final reforça essa ideia: no mesmo estábulo onde o cavalo vivia sozinho e sem luz, eles também passam a se afundar em uma tristeza profunda, até não encontrarem mais sentido na vida.
Em meio à reflexão proposta, o diretor imprime bem o significado da história. A partir de atitudes cruéis, surge uma revolta nesse mundo distópico, no qual tudo o que o homem toca se degrada. Ao mesmo tempo, há uma ambiguidade na leitura desses acontecimentos, que podem ser vistos tanto por um viés fictício e apocalíptico quanto como consequência concreta do sofrimento vivido pelo cavalo. Aos poucos, essa melancolia se torna profunda e inevitável, enquanto os planos longos e contemplativos reforçam a sensação de exaustão pela repetição do cotidiano. Embora isso funcione para transmitir o sentimento, acaba enfraquecendo o enredo.
Ainda que a mensagem gire em torno das consequências do que aconteceu com o cavalo, a monotonia nem sempre se sustenta, já que o cotidiano também se torna repetitivo pela falta de diálogo significativo entre os personagens. Eles próprios mostram que não tentam tornar a vida mais leve, como se essa rigidez já fizesse parte de quem são, deixando pouco espaço para qualquer gesto que alivie a monotonia. Ainda assim, a narrativa é eficaz ao fazer o espectador sentir esse universo, tanto em sua presença destrutiva quanto na dor do cavalo e nas consequências existenciais que atingem todos ao seu redor.
Rua do Medo: Rainha do Baile
2.2 157 Assista AgoraUm slasher que se acomoda nos clichês sem qualquer tentativa de escapar do óbvio, com personagens colegiais estereotipados, motivações rasas e um roteiro tão previsível que dificilmente surpreende. A direção até tenta impor algum ritmo ao conjunto, e a curiosidade sobre o que pode acontecer mantém um fio de atenção, mas nada disso é suficiente para realmente elevar a experiência.
O elenco funciona dentro das limitações impostas pelo material, enquanto a trilha, a maquiagem e o figurino oitentista reforçam os poucos aspectos que se destacam positivamente. No fim, porém, mesmo com esses pequenos respiros, o resultado é claro: uma produção que serve apenas como entretenimento, e olhe lá.
Branca de Neve
2.1 333 Assista AgoraUm grandioso fiasco, possivelmente uma das piores direções do ano. O filme sofre com um elenco mal escalado, atuações toscas e um roteiro ineficiente que tenta aprofundar certas questões, mas apenas acrescenta furos narrativos.
Rachel Zegler impressiona pela quantidade de expressões sofríveis em praticamente todas as cenas. As atuações são tão desastrosas que, por vezes, o longa parece uma superprodução paródica. E digo “paródica” porque quase tudo soa como motivo para tirar uma galhofa, como se a intenção fosse viralizar a partir de situações constrangedoras. A diferença é que aqui não existe propósito humorístico algum, apenas um excesso mal conduzido.
Ainda assim, não cabe atribuir a culpa exclusivamente à atriz. Ela se empenha, mas sua interpretação surge completamente deslocada, incapaz de sustentar o impacto dramático, a doçura e a inocência que a personagem exige. Gal Gadot, por sua vez, também não convence como Rainha Má. Nos momentos em que a personagem exige uma maldade mais incisiva, ela simplesmente não alcança o tom necessário. A voz falha, a presença se dissipa e a vilã perde qualquer potência. Trata-se, possivelmente, do desempenho mais fraco de ambas atrizes.
Curiosamente, um dos poucos acertos está nos anões, que funcionam muito bem em cena e são integrados com um CGI competente, talvez entre os melhores do ano. O mesmo vale para os efeitos aplicados aos animais, às forças da floresta e aos elementos mágicos, todos bem executados. Quem acaba roubando a cena, ainda que isso vá na contramão da proposta mais feminista e empoderada do filme, é o príncipe vivido por Andrew Burnap. Ele entrega a melhor atuação do longa e seu núcleo acrescenta um frescor bem-vindo ao roteiro.
Há, nos pontos extremos, um contraste quase chocante entre o péssimo e o verdadeiramente excelente. A direção de arte, o figurino e a maquiagem estão impecáveis, facilmente entre os melhores do ano. É nesses aspectos que o filme encontra sua força, embora de forma totalmente isolada.
A edição, o design de som, a trama e a trilha sonora original também contribuem para tornar a experiência ao menos suportável.
No fim, esta obra, tão cinematográfica quanto involuntariamente paródica, cai do penhasco ao modificar ou tentar aprofundar determinados elementos da história. Além da direção problemática, o roteiro insiste em adições desnecessárias que comprometem a narrativa com furos significativos. Este é, possivelmente, um dos maiores fiascos, senão o maior, entre os live-actions da Disney.
Corra Que a Polícia Vem Aí!
3.0 223 Assista AgoraPiadas que não funcionam, clichês constantes, esteriótipos sem graça, senso comum por todos os lados, erotismo gratuito, atuações toscas, roteiro medíocre e direção caricata. As poucas ressalvas ficam apenas na parte técnica, com uma montagem competente, bom trabalho de som, trilha divertida e uma caracterização bem executada.
O filme claramente não se leva a sério, mas, para mim, nada nele se sustenta. O resultado é uma obra que aposta na irreverência, mas cai numa cafonice que engole qualquer tentativa de charme ou personalidade.
Robô Selvagem
4.3 563Robô Selvagem conta a história comovente de uma robô em meio à natureza selvagem, moldada pela paisagem e pelas experiências em uma ilha isolada. A animação, singela e repleta de amor, apresenta um primeiro ato leve e divertido, com momentos cômicos que funcionam perfeitamente. A partir do ponto médio do segundo ato, a narrativa ganha força emocional, conduzindo o espectador às lágrimas até o último momento da história.
Aqui vemos o brilhantismo da direção de Chris Sanders, que, para mim, entrega uma das cinco melhores direções do ano, e sim, é justamente nesta linda e comovente animação.
O que dizer dos personagens? O elenco de vozes é encantador, cheio de carisma e emoção. Kit Connor, como o ganso Bico Vivo, e Pedro Pascal, como Fink, estão excelentes em seus papéis. Mas é Lupita Nyong’o quem realmente brilha, com uma interpretação vocal simplesmente maravilhosa como Roz, a robô selvagem.
A trilha sonora e a canção original também merecem todos os elogios. Ambas impulsionam a narrativa e elevam a experiência emocional, junto com o trabalho impecável de som, especialmente a edição de som, que é fundamental para a imersão no universo do filme.
É uma obra poderosa, repleta de mensagens profundas sobre pertencimento, transformação, amor, convivência entre as diferenças e respeito à natureza. É uma trama rica, sensível e significativa.
O que realmente pode incomodar são alguns detalhes de lógica dentro do universo apresentado, o tipo de coisa que não chega a quebrar a conexão emocional, mas que chama atenção. Por exemplo:
uma robô que se molha e não sofre com ferrugem; mecanismos essenciais sendo retirados sem que o funcionamento seja comprometido; e a ideia de que, de repente, ela “lembra” ou sente porque agora tem um “coração”.
Em suma, Robô Selvagem é uma animação belíssima, emocionalmente rica e conduzida com maestria. Um daqueles filmes que tocam o coração, mesmo que, aqui e ali, desafiem um pouco a lógica da razão.
Flow
4.2 578Há uma sensibilidade cativante na direção deste longa, uma das melhores do ano. O design de som é incrível, repleto de sons de animais e da natureza que constroem uma paisagem sonora imersiva em perfeita harmonia com a mixagem.
A mensagem dialoga bastante com Robô Selvagem e trata sobre superar as diferenças para não se sentir só. Em muitos momentos, o filme transmite uma sensação de quietude extrema, o que, por um lado, desperta contemplação e, por outro, nos leva a refletir sobre a solidão.
O conflito da animação nos faz perceber como, em situações extremas, cada personagem encontra empatia no outro para superar os obstáculos, porque, apesar da cadeia alimentar, todos estão no mesmo “barco”. E assim, cada animal traz um aprendizado próprio, o que torna tudo ainda mais profundo.
Como nada é perfeito, e apesar de seus propósitos, a história é simples e apresenta alguns aspectos de profundidade de personagens um pouco rasos, como na relação entre o gato e a matilha. Mesmo que sirvam como opostos e tragam aprendizados, há uma abordagem um tanto desequilibrada: o gato é retratado quase apenas com qualidades, enquanto os cachorros são colocados como problemáticos. Isso acaba recaindo em um certo senso comum e, em vez de gerar contemplação, faz com que os cachorros pareçam personagens incômodos.
Ainda assim, isso não chega a ser exatamente um problema. Mesmo sendo uma leitura convencional, pode ser entendido como um ponto de vista do próprio gato, uma maneira de representar como ele enxerga os outros animais. Nesse sentido, essa escolha também pode ganhar profundidade narrativa.
No fim, a mensagem que o filme nos deixa é sobre nós mesmos. Mesmo quando sentimos que só existimos por conta de nossa singularidade, são justamente as diferenças que permitem que cada um se encaixe e encontre seu papel no todo. É uma reflexão sensível sobre coexistência, empatia e pertencimento, que torna essa experiência tão simples quanto significativa.
Sorria 2
3.3 607 Assista AgoraO filme brilha em diversos aspectos e mostra evolução em relação ao primeiro. As atuações são o grande destaque, especialmente Naomi Scott, que entrega uma das melhores performances do ano e possivelmente de sua carreira. O desenho de som, a trilha sonora, a maquiagem, o penteado, o figurino e a direção contribuem para uma experiência visual e sonora marcante. As cenas são bem conduzidas, originais e surpreendentes em vários momentos, consolidando a direção como o ponto mais forte do longa, assim como já acontecia no filme anterior.
Apesar de mais consistente que o primeiro, o filme ainda apresenta problemas notáveis. Por ser uma continuação direta, ignora explicações e depende integralmente dos eventos anteriores, que já eram frágeis, comprometendo ainda mais a narrativa. O roteiro, limitado e pouco desenvolvido, carece de motivações claras para seus conflitos centrais. O clímax e o desfecho são intensos e criativos, mas a ausência de explicação da origem e das motivações da possessão faz tudo soar como uma viagem mal contada, resultando em um final promissor que não atinge todo o seu potencial, especialmente por concentrar a trama nessa força sobrenatural, que acaba sendo o principal sustentáculo da história.
Ainda assim, o filme cumpre bem seu papel como entretenimento. Com direção segura, boas atuações e elementos técnicos de qualidade, consegue superar o primeiro longa e oferecer uma experiência envolvente, assustadora e divertida. No conjunto, é uma sequência que acerta mais do que erra e reforça o potencial do universo que constrói.
Abigail
3.1 479A dupla Matt Bettinelli-Olpin e Tyler Gillett entrega aqui seu melhor filme trash desde Casamento Sangrento. A trama acompanha um grupo de criminosos que decide sequestrar a filha de um bilionário em busca de um resgate milionário. O problema é que ela está longe de ser uma refém indefesa, e o pesadelo no qual eles entram parece saído diretamente de um conto de terror gótico.
O tom permanece fiel à marca registrada da dupla, com horror exagerado, tensão constante e humor ácido que equilibra o sangue com sarcasmo. A ambientação é chamativa, enquanto os personagens têm carisma suficiente para manter o interesse do início ao fim.
O grande destaque é Alisha Weir, que simplesmente rouba o filme. Sua atuação transforma gradualmente a narrativa, deslocando o ponto de vista para a figura da suposta “vilã” e tornando sua presença o verdadeiro centro da história. A montagem também merece elogios, com sequências bem ritmadas que reforçam a diversão e ampliam o impacto narrativo da experiência.
Se há um ponto fraco, é a leveza com que o filme trata sua própria história, que poderia alcançar algo mais consistente se se levasse um pouco mais a sério. Ainda assim, dentro da proposta de comédia de terror, o resultado é envolvente, afiado e deliciosamente sangrento. Bettinelli-Olpin e Gillett provam mais uma vez que sabem transformar caos trash em espetáculo.
MaXXXine
3.1 674 Assista AgoraMaXXXine encerra a trilogia “X” de forma decepcionante. O filme tropeça em seu desenvolvimento, com personagens constantemente subutilizados e um terror que parece esgotado, sem o mesmo vigor criativo dos capítulos anteriores, mesmo sendo uma franquia nova com muito potencial. A tentativa de explorar a influência religiosa como força do mal é arrastada, superficial e incapaz de despertar interesse, culminando em uma revelação final previsível e de pouco impacto.
A homenagem ao Giallo, um estilo raramente revisitado no terror contemporâneo, traz um charme visual que se destaca, mas direção e roteiro, especialmente este último, soam artisticamente desinspirados. A trilha sonora, o design de produção e as atuações se sobressaem, com Mia Goth entregando mais uma performance intensa, mas esses méritos isolados não conseguem sustentar o conjunto.
No fim, fica muito abaixo dos dois capítulos anteriores da franquia. Um desfecho que tinha tudo para ser grandioso, mas termina como a maior decepção da trilogia.
Minha Fera
3.0 21Minha Fera é uma comédia romântica que foge do óbvio. A protagonista enfrenta o peso de um término e as frustrações da vida amorosa e profissional, enquanto a Fera atua como catalisadora, mostrando o quanto ela pode ser mais do que os obstáculos e reforçando a importância do amor próprio.
O filme é despretensioso e charmoso, com reviravoltas divertidas e montagem leve que prende a atenção. Ainda assim, o roteiro tropeça em pontos importantes. O núcleo da Fera, essencial para o tema do amor próprio e do amor inesperado, merecia maior profundidade. A protagonista, solitária e doente, apoiando-se apenas em uma amiga, também carece de desenvolvimento, tornando a situação pouco crível.
Melissa Barrera é uma atriz que sempre parece um pouco insossa. O núcleo mais bem trabalhado é a relação com o ex-namorado, onde o roteiro se aprofunda mais. O verdadeiro eixo da trama vai além do romance e está no empoderamento e no amor próprio.
No fim, é divertido, um bom passatempo com ritmo envolvente, mesmo que seja uma história com algumas falhas em seu desenvolvimento.
Apocalipse nos Trópicos
3.8 189A base deste documentário é a denúncia do fanatismo religioso e do risco de uma teocracia totalitária no Brasil. Sua construção subjetiva não o enfraquece; ao contrário, fortalece a crítica ao tratar o tema não como uma verdade absoluta, mas como uma reflexão que confronta a fé, a política e suas contradições. Esse olhar ganha ainda mais peso ao cruzar estudo bíblico, questionamentos mitológicos e os desdobramentos da relação entre Silas Malafaia e Jair Bolsonaro.
O eixo central é Malafaia e suas contradições religiosas, que transformam a igreja em palanque político, enquanto Bolsonaro se aproveita disso para explorar, sobretudo, o apoio dos evangélicos em benefício próprio.
O resultado é um entrelaçamento da mitologia cristã com o fanatismo religioso que se converte em uma história de horror, metafórica, mas assustadoramente real, revelando o abraço sufocante entre fé e poder.
O Aprendiz
3.5 202 Assista Agora“O Aprendiz” mescla fatos verídicos com ficção em uma sátira que soube me pegar na hilaridade em alguns momentos. O filme retrata a ascensão de Donald Trump, explorando sua ambição e ganância antes e depois da fama, e mostra como a convivência com seu advogado Roy Cohn foi essencial para a formação de seus lemas e aprendizados, o que dá nome ao título.
Como o longa abstrai dos fatos e os mistura à ficção, não há uma divisão clara, e sem um conhecimento prévio sobre as particularidades da figura é difícil distinguir o que é real e o que é surreal. O filme não se preocupa em explicar ou entender os fatos, mas em lançar o espectador dentro de um universo satírico.
A narrativa também não foge das polêmicas e controvérsias que cercam o atual presidente dos Estados Unidos, incluindo a gênese do famoso “Make America Great Again”. Sebastian Stan entrega uma performance marcante como Trump, enquanto Jeremy Strong rouba a cena em um papel fundamental. É ele quem conduz os momentos mais fortes e comoventes do longa, trazendo densidade à sátira.
Menção especial: Maria Bakalova, que vive Ivana, também brilhou neste longa, no arco que expõe como era a relação amorosa de Donald Trump (sem spoilers, mas extremamente materialista).
Os Fantasmas Ainda Se Divertem: Beetlejuice Beetlejuice
3.4 591 Assista AgoraO enredo é divertido, mas o roteiro é fraco e cheio de falhas, com arcos subutilizados e sem propósito claro. Michael Keaton entrega a melhor atuação do longa, se destacando entre os outros personagens. A trilha sonora, a maquiagem e a direção de Tim Burton, a melhor dele em anos, são os pontos altos do filme. O fanservice traz uma nostalgia dos tempos passados do cineasta, agradando os fãs mais dedicados.
A Garota da Agulha
4.0 299 Assista AgoraUm drama psicológico que desponta como uma das histórias mais sombrias do ano. Ambientado em tempos de miséria e sofrimento, o filme acompanha uma jovem costureira desempregada tentando sobreviver no turbulento pós-Primeira Guerra Mundial. Incapaz de lidar com a maternidade, ela recorre a uma agência de adoção clandestina, administrada por uma enigmática senhora que guarda um segredo horrendo. O roteiro é simplesmente hipnotizante de tão chocante, conduzindo o espectador por uma espiral de tensão e desconforto que, a partir do segundo ato, mergulha em um território ainda mais perturbador, até chegar a um desfecho tão impactante quanto memorável. Destaque também para o uso magistral de planos, iluminação e jogo de luz e sombra, aliado a uma direção de arte meticulosamente construída.
Apocalipse nos Trópicos
3.8 189Assisti no começo da madrugada o documentário brasileiro Apocalipse nos Trópicos e adorei. É basicamente a cronologia de tudo o que vivemos desde o final de Democracia em Vertigem.
O personagem de maior destaque neste novo trabalho da Petra Costa acaba sendo o Silas Malafaia. Não tenho críticas significativas à narração nem ao conteúdo documentado. Achei o filme ambíguo algumas vezes e, portanto, suficientemente forte em seus argumentos. São interpretações pessoais da Bíblia que conduzem parte da narrativa.
Tem momentos impactantes, como no documentário anterior da diretora, o que é sempre gratificante. E talvez o que mais se destaque aqui, ainda que de forma um pouco ambígua, é o fato de o filme também funcionar como uma história de terror. Ao lidar com um livro mitológico como a Bíblia, Petra mistura elementos de ficção, o que potencializa o desconforto e a urgência da mensagem.
É um documentário que prende do início ao fim, envolvente a ponto de não sentir o tempo passar.
Piano de Família
2.9 33Graças à direção segura do estreante Malcolm Washington, Piano de Família consegue se sustentar. Sem dúvidas, é o grande diferencial do filme. As atuações são boas, com destaque para Danielle Deadwyler, e os aspectos técnicos como design de produção, som, trilha e montagem são competentes. Funciona muito mais pela direção do que pelo roteiro.
Não foi exatamente o tom teatral que me incomodou, mas sim o excesso de diálogos. O roteiro parece girar em círculos, como se estivesse sempre retomando os mesmos pontos, sem avançar de fato. Há um peso desnecessário na fala que mina o impacto emocional que a narrativa tenta construir.
Além disso, a mistura de drama com elementos de terror é mal dosada. A escrita não consegue equilibrar os dois gêneros com clareza, o que compromete a narrativa. E algo que definitivamente cansa é o tom constantemente elevado das vozes. Os personagens praticamente gritam o tempo todo, o que acaba tornando tudo mais exaustivo do que intenso.
Femme
3.8 66Um suspense psicológico eletrizante que me surpreendeu. Nathan Stewart-Jarrett entrega uma atuação adorável e intensa como uma drag queen espancada na rua por um delinquente charmoso interpretado por George MacKay. O que começa como uma busca por vingança logo se transforma em um mergulho profundo nos traumas deixados por uma sociedade violenta.
As atuações são brilhantes em sua forma mais sigilosa. George MacKay busca manter esse sigilo para não se comprometer e evitar ser visto como "bichinha" no lugar onde vive, enquanto Nathan Stewart-Jarrett se expõe de maneira corajosa, permitindo que entendamos os traumas e os medos que esse mundo distópico e violento impõe a um grupo oprimido.
A direção de Sam H. Freeman e Ng Choon Ping é dura, conduzindo tudo com dinamismo e uma crítica social contundente. O filme escancara a negligência com que pessoas LGBTQIA+, especialmente as mais afeminadas, são tratadas. São agredidas diante de todos, enquanto nada é feito.
A relação entre Jules interpretado por Stewart-Jarrett e Preston vivido por MacKay é carregada de tensão, incerteza e dor. No fim das contas, o filme mostra um lado do homofóbico que também é reflexo de uma sociedade estruturalmente opressora.
Sem dúvidas, uma das melhores direções de 2023. É imperdível.
Tudo Que Imaginamos Como Luz
3.5 33 Assista AgoraQue preciosidade de filme. Tudo Que Imaginamos Como Luz acompanha o cotidiano de duas enfermeiras em Mumbai que, em meio ao caos da megalópole indiana, buscam amor e afeto dentro de uma sociedade conservadora.
A direção de Payal Kapadia é de uma sensibilidade rara. Ela conduz essa narrativa melancólica e contemplativa com um brilho sereno, construindo camadas com sutileza e poesia. Um primor do cinema indiano. O elenco formidável entrega atuações marcantes, com o grande destaque sendo Divya Prabha, que interpreta Anu, uma das enfermeiras. Sem dúvidas, um dos melhores elencos de 2024.
O roteiro tem seus deslizes, especialmente no final, quando a relação da protagonista com o marido se torna um tanto confusa. Ainda assim, é um texto bem escrito, que cuida dos detalhes com delicadeza e constrói personagens acolhedores e cheios de nuances.
A Semente do Fruto Sagrado
3.9 159 Assista AgoraO grande trunfo é, absolutamente, o roteiro. A escalação do elenco também é a cereja do bolo. No entanto, todo o restante, especialmente a direção, deixa a desejar, o que é uma pena.
Um dos principais problemas está na condução das cenas. Os takes excessivamente longos, quase sem cortes e muitas vezes desnecessários, compromete o ritmo da narrativa e tira o dinamismo da trama. É uma condução que mais atrapalha do que contribui. Definitivamente, não é um filme que justificava quase três horas de duração.
Saturday Night: A Noite Que Mudou a Comédia
3.3 39 Assista AgoraSaturday Night: A Noite Que Mudou a Comédia tem seus méritos. A recriação dos bastidores da estreia do Saturday Night Live é envolvente, com direção segura, cortes precisos, ótima composição da trilha sonora original e um design de produção caprichado. O elenco funciona bem, e há momentos em que as piadas realmente acertam. Gosto especialmente dos close-ups nos atores, que capturam bem a tensão e a energia do momento.
A trama tenta criar dinamismo naquele curto intervalo antes da estreia, mas falta desenvolver melhor a narrativa. O roteiro se enrola mais do que precisa e carece de argumentação para dar profundidade à história e aos personagens, muitos dos quais acabam subaproveitados.
Ainda assim, é um filme bom. Tem seus brilhos e acertos técnicos que tornam a experiência válida, mesmo que fique a sensação de que poderia ter ido além.
Sebastian
3.2 27 Assista AgoraSebastian é um filme monótono que se apoia no excesso de cenas de sexo explícito e nas experiências pouco interessantes do protagonista para discutir a superficialidade dos relacionamentos queer. A construção do tema é lenta e arrastada, beirando uma trama fraca.
Faltou aprofundamento na história e nos personagens, o que dificulta o envolvimento. A direção é sem brilho, e o elenco parece mal escalado, com atuações inexpressivas e personagens apáticos.
Ainda assim, a mensagem central tem valor e se sustenta. A fotografia e a trilha sonora se destacam, trazendo algum charme a um filme que, no geral, deixa a desejar.
Ainda Estou Aqui
4.5 1,5K Assista AgoraUm drama psicológico que aborda perda, resiliência e restruturação familiar que gira em torno da luta de Eunice Paiva em busca de seu marido desaparecido na ditadura.
Logo após o incidente incidente e ao nos integrarmos à família, Walter Salles a todo momento cria uma atmosfera tensa de horror e opressão que te fisga e gruda na trama, quase como um filme de terror. Uma sacada genial de direção e roteiro.
Eunice é protagonizada por Fernanda Torres, que toma uma atuação brilhantemente tocante, mas contida, que emociona sem ser exorbitante, como pede sua personagem. Uma das minhas atuações favoritas do ano, sem dúvidas.
Apesar de Torres se destacar, todo elenco juvenil tem boas atuações, principalmente da Valentina Herszage como Vera, Luiza Kosovski como Eliana e Bárbara Luz como Nalu. Mas o que pega mesmo é o breve momento que sua mãe Fernanda Montenegro aparece no final do filme interpretando-a nos últimos momentos de vida, é simplesmente dilacerante.
Com certeza, é um marco para o cinema nacional, de uma história de peso e reparação histórica para famílias assoladas pela ditadura, mantendo viva sua memória para não deixar que histórias assim se repitam.
Canina
3.0 175 Assista AgoraO segundo roteiro da Marielle Heller tinha uma premissa criativa na qual usa a selvageria para refletir sobre o tema maternal, mas não soube que caminho tomar. O desenvolvimento é muito insuficiente.
Neste longa, a Heller é melhor dirigindo que roteirizando, na direção consegue fazer com que suas cenas sejam sempre interessantes, seja nos planos usados ou no mise en scène. Além que, o design de produção, fotografia, maquiagem, figurino e direção de elenco são bem competentes. Mas o grande destaque aqui é a entrega de Amy Adams que encarna de corpo e rabo o papel.
O que com certeza arruinou o filme foi (diga-se péssima) a montagem de Anne McCabe, que não conseguiu captar a complexidade da história que a diretora e roteirista quis contar e simplesmente deixou-se desleixar totalmente o que poderia ter sido um bom filme.
Emilia Pérez
2.4 483 Assista AgoraUm filme ousado e um tanto arriscado, que funcionou como um grande musical. O roteiro é bem envolvente, sempre procurando palavras e termos fáceis de entender, o que deixa a trama mais dinâmica, mas achei que com isso faltou mais profundidade na ambientação e personagens, o que torna a experiência um pouco rasa.
Pelo tom, propositalmente, fictício e muitas das vezes soando hipérbole, visto à procura do impacto e sensações usando a criatividade ao invés de uma realidade absoluta - o que é compreensível por ser um musical, com músicas que também enfatizam isso, consegue manter a proposta sem passar do ponto.
Como também, a centralidade do arco do narcotraficante, é eficaz; coreografias e trilha sonora bem efetuadas, o desenvolvimento de uma trama bem bolada e uma montagem e som que são à parte, um espetáculo, torna a experiência singular. O tom caricato não foi essencialmente um grande problema, porque a própria direção e história pediu algo mais ilusório, menos literal e se faz inofensivo, dentro do que é proposto.
Os aspectos e a retratação psicológica e dramática da Emília Pérez cativa, talvez seja o maior ponto positivo, dentro do limite de uma história de narcotráfico. Karla Sofía Gascón entrega uma performance majestosa e corajosa, a interpretar dois - ou o mesmo papel.
O destaque, no entanto, está na atuação de Zoë Saldaña, que desempenha um papel quase de protagonista, onde as decisões giram em torno dela e que atua como um apoio dessa figura emblemática que é Emilia Pérez, mas é com as coreografias que ela realmente brilha e triunfa. Uma das melhores performances do ano!