"The Lost Bus" traz o gênero de catástrofe voltando suas atenções a um universo muito pequeno de pessoas, se desvencilhando um pouco do que normalmente vemos em filmes assim, que envolvem grandes nações ou até o mundo inteiro. É sempre bom ver filmes com essa proposta, pois a gente se apega mais aos envolvidos e às suas histórias individuais.
Paul Greengrass é extremamente competente na direção. Ele retrata com detalhes diferentes cenários em uma situação de incêndio em larga escala, as falhas de comunicação entre os serviços e principalmente a maneira como o fogo se espalha, de forma muito verossímil e imersiva. É um filme preocupado em retratar não apenas o fato central, mas também o que acontece ao redor, ainda que de forma superficial.
O roteiro é o clássico “herói improvável”. Por ser uma história meramente baseada em um evento real, existem muitas dramatizações, principalmente no começo. Você se pergunta como é possível alguém ter uma vida tão desgraçada quanto a do nosso protagonista. Conforme o longa se desenvolve, vamos nos afeiçoando a ele, mas ainda assim é uma história carregada de clichês, exposição e previsibilidade. É competente em nos deixar tensos em alguns momentos, mas no geral não apresenta nada de diferente do que outros filmes desse estilo já apresentaram.
Matthew McConaughey entrega mais uma de suas atuações brilhantes, contrastando sua personalidade introspectiva com momentos emotivos e emergenciais que o ator tira de letra. Ele é sensacional. America Ferrera também está excelente, e o roteiro dá bastante espaço para sua personagem brilhar. Ela não está ali apenas como suporte ao protagonista, mas também para ajudá-lo ativamente, e isso foi muito legal de ver.
"The Lost Bus" é uma história real muito bem dirigida com o bom e velho drama hollywoodiano. Apesar de não inovar em nada, é gostoso de assistir e nos emociona no final, além de ter me deixado fascinado com a história real que foi contada.
"It Was Just an Accident" é uma obra realizada como um grito de protesto contra um regime autoritário e opressor e tem uma história muito parecida com a de "A Semente do Fruto Sagrado", filme indicado na mesma categoria no ano anterior, que carrega uma mensagem política similar, ambos sobre o Irã.
A direção de Jafar Panahi conduz a história a partir de um conflito inicial que vai se desenrolando como se fossem fios a serem organizados. A estrutura narrativa episódica permite ao diretor explorar o caos de maneira controlada e trabalhar suas consequências imediatas. O controle do tempo aqui é um artifício que ajuda na imersão e também na fluidez. O longa se passa em um dia inteiro e você sente o senso de urgência e tensão a cada momento em que o céu fica mais escuro e os personagens parecem ficar sem tempo. Os planos longos e abertos entregam dinamismo aos conflitos e não são sequências fáceis de se realizar, mas fazem os atores crescerem em cena.
Vale destacar o trabalho sonoro, em especial na cena final, que é um daqueles encerramentos de filme que a gente não esquece. O diretor não mostra nada em cena, mas apenas com o som ambiente a gente compreende o que aconteceu e se sente extremamente tenso até o último segundo.
O roteiro é coeso e possui impacto político, mas parece que, em certo momento, fica meio redundante. As interações essencialmente se repetem e uma decisão narrativa lá pra metade final não me convenceu muito bem. Fora esses tropeços, a história é contada de modo que cada conflito apresentado nos fisga para descobrir o que virá em seguida. O trabalho em cima do núcleo de atuação é muito bem realizado, cada um tem sua motivação, seu trauma, sua personalidade, e a gente se sente compadecido com esses personagens.
Por falar nos atores, todos estão muito bem e conduzem seu papel com brilhantismo. O que eu mais gostei foi o Mohamad Ali Elyasmehr interpretando um cara impulsivo, perigoso e instável, porém, quando chega seu momento de nos contar o porquê de ser assim, a gente compreende seus motivos. Além de ser a figura mais combativa, o que dá a sensação de sempre ter uma faísca no grupo que irá explodir a qualquer momento.
"It Was Just an Accident" é protesto em sua forma mais bela de arte. Seus desdobramentos refletem a tirania absoluta de um regime assassino e tornam o filme inesquecível. Eu diria que é questão de tempo até o vermos como um clássico.
É um tema interessante e pertinente, porém a maneira com que foi abordado tornou o documentário bem redundante. O grande mérito aqui é realmente mostrar a maneira com que a manifestação ocorre e como os manifestantes são pacíficos e mesmo assim tiram as pessoas ao redor do sério.
De certo modo, é um documentário de 30 minutos que poderia muito bem ser uma matéria jornalística de 10.
"Blue Moon" conta uma história nichada, com uma linguagem cinematográfica ainda mais nichada. É um filme que exige bastante comprometimento do espectador, e aqueles mais impacientes com diálogos abstratos não vão dar conta.
Richard Linklater assume mais uma vez sua marca registrada de contar e contemplar a vida e a mera existência de seus personagens, enquanto a história se desenvolve como se fosse alguém nos contando um segredo, com parcimônia e cautela. Toda a obra se passa em um bar, e eu não imagino cenário melhor para este tipo de filme, onde cada conversa pode ter o tempo e a atenção necessários para soar natural.
O roteiro é inteligente ao nos contar praticamente toda a história de Lorenz Hart sem precisar de flashbacks nem de exposição narrativa barata. Os diálogos são a base aqui e cumprem sua função com muito carisma, deboche, sarcasmo e uma frustração controlada inerente ao protagonista.
Há apenas dois pontos negativos que destaco: é um filme extremamente específico, e quem não conhece algumas das referências pode ter a atenção prejudicada em certo ponto; o protagonista é excessivamente performático em suas respostas. Eu não conheço como Lorenz se portava no dia a dia, mas aqui faltou certo nível de convicção. Até determinado momento, as tiradas dele são interessantes e até satíricas, mas depois se tornam redundantes, como se o filme não quisesse contar nada além de sua própria história de forma pouco ortodoxa, sem se preocupar em apresentar algo novo. Isso fica ainda mais claro em seus conflitos internos referentes à sua "protegida", Elizabeth Weiland, nos quais dá a impressão de que os diálogos não tomam rumo algum.
Todas as atenções estão voltadas a Ethan Hawke. Sua atuação é realmente brilhante, e o filme foi construído para que ele brilhe. Grande parte do que vemos são longos monólogos com pequenas participações de personagens secundários que estão ali para reagir ou levantar momentos que o façam brilhar ainda mais. É um ótimo trabalho de um ator que eu admiro demais. Margaret Qualley é a única personagem que não tem essa passividade narrativa; muito pelo contrário, é a única que Lorenz escuta com atenção. Ela tem grande destaque mais próximo do final e nos ajuda a entender mais o protagonista por meio das reações dele do que pelo que ele próprio nos conta em seus diálogos. Andrew Scott tem um papel parecido, porém mais voltado ao lado profissional do protagonista, e é nesse eixo que compreendemos o tamanho artístico de Lorenz. Entre os personagens secundários, o que mais gostei foi Bobby Cannavale como o bartender, que possui sacadas interessantíssimas e tira o protagonista da zona de conforto em alguns momentos.
"Blue Moon" é uma poesia cinematográfica de difícil digestão, porém com execução refinada. Uma vez investido na obra, é possível apreciar um refino narrativo que não vemos com frequência. Peca um pouco no excesso de brilhantismo nos diálogos, mas sabe contar a história de maneira inteligente e orgânica.
"Train Dreams" aborda, de forma contemplativa, a passagem do tempo, sem se apegar a qualquer estrutura narrativa tradicional nem se apressar em seus acontecimentos.
A direção de Clint Bentley conta com um olhar sensível aos detalhes e às perspectivas dos personagens. Cada cena foi enquadrada com carinho. Há também alguns planos um pouco mais longos, em que a câmera repousa em um ponto fixo e algo acontece. É lindo de se ver. A fotografia é fria e densa na maior parte do filme e se torna mais colorida nos poucos momentos de alegria do protagonista. Gostei muito da passagem do tempo. Apesar de ser abrupta, é possível notar cada momento nos detalhes do cenário, do personagem e das pessoas ao redor. Em momento algum temos em tela o tempo que passou, mas visualmente é nítido quando isso acontece. Em contrapartida, a narração não me agradou. Além de ser muito expositiva, ela também atrapalha um pouco a imersão no filme.
O roteiro dispensa convenções narrativas ao não apresentar um conflito central. Aqui nós apenas vemos como o tempo passa, e somos apenas "mais um" em todo esse universo. O protagonista tem alguns conflitos internos que o perseguem durante o filme, mas alguns não me convenceram, como uma situação em que ele não agiu e isso o permeia até o final, mas, para mim, não funcionou. No mais, a maneira como o personagem reage a essa inevitável passagem do tempo é emocionante e nos faz refletir sobre nossa breve existência e suas consequências para os que estão ao nosso redor e para o mundo. A maneira como o roteiro aborda as relações pessoais do protagonista também é muito orgânica e mostra como somos necessitados de algum grupo, seja pequeno ou grande, de pessoas para sobreviver.
A atuação de Joel Edgerton reflete a emoção de um cara que não está acostumado com isso. É uma performance minimalista, mas bastante sentimental. Felicity Jones não tem tanto espaço, mas sua presença é sempre marcante e importante para o protagonista, então a dinâmica dos dois funciona bem. Os companheiros de trabalho de Robert Grainier são carismáticos, alguns com mais destaque que outros, e a gente acaba se apegando a eles.
"Train Dreams" é contemplativo, melancólico e enxerga beleza em uma história triste sem ficar exageradamente dramático. Não é um filme que te força a chorar em momento algum, porém te faz pensar durante toda a sua duração.
Se tratando de um filme infantil, "Elio" entrega o que promete ao apresentar uma história tradicional sobre amizade, família e pertencimento, sem grandes surpresas narrativas nem estruturais.
O charme aqui é na maneira com que essa mensagem é passada, para quem gosta de ficção científica com certeza este filme será um deleite. O universo criado é divertido de acompanhar e os personagens são cativantes, em especial a dupla principal Elio e Glordon.
Este é um filme que se reconhece como infantil e não faz questão alguma de disfarçar com excessos tentando atrair outros públicos, o que acaba causando alguns problemas no tom para quem não é exatamente seu público alvo: por vezes, o longa cai em momentos mais bobinhos além de contar com exposição narrativa durante toda sua duração.
"Elio" pode não entregar nada de diferente ou surpreendente, mas dentro do que se propõe é uma ótima viagem a um universo criativo e uma jornada muito satisfatória de acompanhar. É aquele filme para se sentir bem após terminar de assistir.
"The Voice of Hind Rajab" retrata uma angustiante realidade em um drama envolvente e desolador.
A direção de Kaouther Ben Hania aproveita muito bem o espaço fechado do único cenário para criar um ambiente claustrofóbico e sufocante a cada minuto que passa. A câmera na mão, além de gerar desconforto proposital, transporta o espectador para dentro da história de forma imersiva, funcionando quase como uma observadora silenciosa.
O roteiro é construído inteiramente em torno dos áudios originais e consegue transmitir a dimensão da tragédia sem cair no caminho fácil do drama apelativo, há um respeito enorme pelas vítimas e pela situação retratada. A edição tenta integrar registros reais com as filmagens dos atores: em alguns momentos o resultado é poderoso, mas em outros a transição quebra a imersão e soa um pouco artificial.
As atuações estão ótimas e os protagonistas funcionam como espelhos do próprio espectador. Motaz Malhees interpreta um personagem impulsivo, ansioso por soluções práticas; Amer Hlehel é o contraponto racional, insistindo em seguir cada etapa do protocolo; já Saja Kilani representa o equilíbrio emocional, tentando acalmar a situação mesmo estando em pedaços por dentro. Esse conflito interno permeia todo o filme e aumenta a tensão constantemente.
"The Voice of Hind Rajab" é intragável e frustrante na história que conta, mas como obra é inegavelmente refinada. Sua principal função é eternizar a existência de Hind Rajab e, por extensão, dar voz a todas as vítimas deste conflito que não representavam risco algum e não tinham como se defender.
Terminar este documentário é como chupar o limão mais doce que já te deram, por mais que seja um tema pesadíssimo e um clima meio "hostil" permeando toda a obra, a energia das duas é revigorante. A maneira com que Andrea encara vida e morte nos faz acreditar que ela teve um restinho de vida bem acolhedor e aproveitou cada minuto ao lado de quem ela ama.
Pessoalmente o ritmo às vezes soou um pouco irregular para mim, compreendo que é uma obra totalmente pessoal e é importante registrar os momentos que elas consideravam chave mas meu lado mais "chato" sentiu um pouco de tédio em algumas partes. E também fato de ter acabado na reflexão final da Andrea foi meio anticlimático, levando em conta qual era o segmento anterior.
No mais, "Come See Me in the Good Light" é lindo e inspirador, trata de um assunto extremamente delicado com uma leveza surpreendente ao mesmo tempo que não desumaniza os envolvidos, nós sentimos todas as suas dores e alegrias na mesma intensidade... é muito emocionante.
Pesado e indigesto, "The Alabama Solution" é um grito de socorro do braço mais frágil do sistema contra os poderosos e opressores.
Os produtores e detentos envolvidos nesse documentário estavam munidos apenas de coragem para bater de frente com a máquina, mostrando a verdade nua e crua sem rodeios. O trabalho de edição neste documentário é muito eficaz em transformar celulares clandestinos em uma poderosa arma em favor daqueles que sofrem.
É um produto de extremo valor social e precisa ser visto por todo mudo. Acredito porém que poderia ter sido um pouquinho mais curto, talvez focando mais no caso central abordado pelo doc e menos em alguns "assuntos paralelos". Fora isso, é uma obra inexorável sobre um sistema fadado ao fracasso.
Existem duas análises diferentes aqui, uma do caso e outra do documentário, e elas não podem se misturar. O caso é absurdo, nojento, asqueroso, quatro crianças ficaram órfãs em questão de minutos por causa de uma mulher vil e descontrolada, que já causava problemas há anos.
A obra é irretocável, excelente trabalho de montagem, tornando o longa muito dinâmico e instigante a cada acontecimento. A maneira com que acompanhamos a abordagem dos policiais nos imerge muito na história, e sentimos que estamos em uma operação policial junto com eles. E é inacreditável como todos os depoimentos em todos os chamados policiais convergem na conclusão de que essa senhora é uma mulher desprezível e legitimamente ruim. Temos o mesmo ponto de vista dos policiais, isto é, sem vídeos externos e/ou provas para ambos os lados, mas só de ouvir as partes envolvidas é impossível não se indignar com tudo o que aconteceu.
É revoltante também a maneira com que a lei tratou o caso até o julgamento, a polícia escoltando essa senhora até a casa dela após o acontecido é um escárnio.
"The Perfect Neighbor" não precisa apresentar nada gráfico para nos chocar pois a própria realidade é cruel o bastante, e ainda levanta questões pertinentes em relação a legislação americana e também inevitáveis discussões a respeito de raça. Em diversos momentos me peguei pensando se fosse o contrário, uma atiradora negra em uma mulher branca, como seriam diferentes certos acontecimentos...
Uma obra perfeita em sua realização, mas absolutamente em sua essência.
"Little Amélie" nos coloca no ponto de vista de uma criancinha que está descobrindo o mundo enquanto tenta compreender seu lugar nele.
A animação é muito bonita e bem realizada, os personagens são cativantes e a protagonista é muito fofa. O roteiro soube valorizar cada um dos seus integrantes, todos tem ao menos um momento de relevância dentro da trama. A única coisa que me soou estranho é na maneira com que a Amélie desenvolve sua visão de mundo, com reflexões e atitudes mais maduras do que sua idade sugere. É estabelecido uma justificativa para isso, porém além da justificativa não ser convincente, o próprio filme contradiz aquilo no final. Acredito que se fosse um argumento um pouco mais pé no chão, poderia haver um valor filosófico maior.
"Little Amélie or the Character of Rain" é um filme gostoso de assistir, com um roteiro interessante mas que se perde em sua própria proposta.
A coragem de Pavel Talankin aqui é de se aplaudir de pé, o cara expôs os absurdos da militarização russa dentro do próprio regime. Além disso, ele também se mostrou ser um excelente narrador e um cara muito carismático, é bacana ver ele em tela e/ou narrando o que está acontecendo. A gente termina de assistir na esperança de ele realmente estar bem e seguro.
Porém não posso esconder que em alguns momentos o tom deste documentário se torna redundante e cansativo a partir da metade em diante, é como se acontecessem as mesmas coisas porém contadas de formas diferentes. Compreendo que é uma rotina da qual os envolvidos estão lidando, mas como um produto de "entretenimento" acaba ficando um pouquinho repetitivo.
"Mr. Nobody Agains Putin" é uma obra sensacional como material de estudo e reflexo de uma realidade da qual tantas pessoas precisam lidar, mas é consideravelmente maçante e arrastado em alguns momentos.
Provavelmente o documentário mais forte que já assisti, as imagens são apresentadas sem o menor pudor e buscam retratar todos os terrores já registrados por Brent Renaud com a maior riqueza de detalhes possível.
A visão que seu irmão Craig tem dele e principalmente a maneira com que ele encara o luto é bela e mostra como os dois estavam conectados através do amor pelo jornalismo e por retratar a vida real, sem filtros nem eufemismos. É um curta pesado do início ao fim, ao mesmo tempo que se apresenta como uma linda homenagem a um homem que morreu fazendo o que ama.
"The Life and Death of Brent Renaud" é indigesto em sua essência, mas brilhante em sua execução. Que este documentário mantenha para sempre viva a memória de um cara que deu tudo o que tinha pelo amor a profissão.
Este curta não faz questão de ser um produto demagogo para buscar esperança na tragédia, pelo contrário... é cru, triste e pesado.
O silêncio é um elemento narrativo importante que valoriza a ausência daqueles que se foram e o luto dos que ficaram, e é aterrador se colocar no lugar desses pais. Ao mesmo tempo que existe a emoção dos depoimentos, vemos claramente que nada aqui é colocado para manipular o público, é tudo sincero e isso é o que mais te toca.
"All the Empty Rooms" é um olhar sensível sobre aqueles que a mídia muitas vezes acaba ignorando, ao dar mais visibilidade a quem executa estes atos (inclusive esta é uma observação feita pelo próprio Hartman durante o doc). Apesar do tema extremamente triste, é bonito ver a maneira com que os familiares das vítimas são acolhidas aqui.
"The Devil Is Busy" é inteligente em retratar uma rotina dentro de uma clínica sem se preocupar em tomar partido de algo, apenas em mostrar a realidade escancarada para o público e acolher aquelas que precisam de ajuda. Tracii é uma ótima narradora e faz reflexões interessantes, principalmente mais perto do fim do documentário.
É um doc que te faz pensar sob várias perspectivas dentro do mesmo tema, seja a da médica, seja a da paciente, seja a da segurança que vê de fora... muito interessante.
"Perfectly a Strangeness" se apresenta como uma contemplação cinematográfica ausente de qualquer estrutura narrativa ortodoxa.
Além da fotografia impecável, acho que o "lance" aqui é analisar o contraste entre a natureza e a ficção científica... o observatório está abandonado, enquanto a natureza domina totalmente o lugar. Os cientistas se foram, mas os burrinhos estão por aí.
Acredito também que o fato do observatório ser completamente inútil aos animais serve também como uma espécie de crítica a ambição humana (e não existe nada mais ambicioso do que o espaço) e em como aquilo para nós pode até ser o auge tecnológico, enquanto que para a natureza, é apenas pedaço velho de sucata.
"Perfectly a Strangeness" é estranho a primeira vista, porém carrega um subtexto interessantíssimo enquanto se apresenta como um alento aos olhos com belas paisagens naturais em harmonia com o espaço e devaneios abstratos.
“O Agente Secreto” recria com vivacidade uma cidade atormentada pela autoridade, em contraste com sua típica festividade carnavalesca. Recife, aqui retratada, tem cor, tem som, tem cheiro, tem pessoas… essa imersão nos faz sentir parte do que estamos assistindo.
A direção de Kleber Mendonça Filho é impecável nesse sentido; ele não tem pressa para desenvolver a trama e seus conflitos. Os personagens secundários dão vida à cidade, e a trivialidade é usada como alicerce narrativo para que a época retratada soe real. O diretor sabe construir tensão nos momentos necessários, mas gostaria de ter visto mais. Um filme como esse exige mais embate indireto entre protagonista e antagonista, principalmente no segmento final, em que o filme opta por mostrar discretamente um importante acontecimento narrativo, quando o ideal seria mostrar mais.
Importante pontuar que não gostei do segmento do “presente” e de suas implicações. Esses momentos quebram a imersão; as atuações são de um nível muito abaixo e parecem estar ali apenas para explicar, da forma mais expositiva possível, o que estamos assistindo.
Essa exposição é o grande problema do roteiro. Enquanto algumas informações importantes permanecem apenas no subjetivo e carecem de explicação textual ou visual, outras são excessivamente apresentadas, às vezes no segundo seguinte ao qual foram introduzidas de forma mais contida. É como se Kleber, que também assina o roteiro, quisesse deixar tudo mastigado demais para o público. A premissa de gato e rato no carnaval recifense é instigante, porém mal aproveitada.
Wagner Moura conduz o filme com uma atuação contida e atenta aos detalhes; sentimos que seu personagem existe pela maneira de caminhar, pelos olhares e pelo modo de falar. Apesar de ser fictício, em vários momentos me perguntei se já existiu alguém como Marcelo em nossa história. Os coadjuvantes funcionam bem, principalmente Tânia Maria, que imprime forte realismo a uma comunidade unida e sustentada por ela. Gabriel Leone e Roney Vilela constroem bem o contraste entre si, mas senti falta de mais espaço para o segundo; ele é imponente e o filme nos conta sua crueldade, mas mostra pouco.
“O Agente Secreto” tem uma direção impecável e imersiva ao retratar, com riqueza de detalhes, uma ficção “100% real”, porém peca em decisões narrativas e em um roteiro excessivamente preocupado em explicar o que já estava estabelecido.
Basicamente a noite dos rapazes... o começo é caótico porém imersivo se tratando de um bar numa região aparentemente "periférica", porém aos poucos todo o ambiente é tomado pelo tema central do curta e cada número musical é um alento sonoro e artístico.
Os personagens tem cada um sua própria personalidade, e mesmo que a gente não os conheça a fundo, a música serve ao propósito de os desenvolver sem que eles precisem dizer uma palavra diretamente, e isso mostra como as escolhas musicais foram as melhores possíveis. O que começa como homens amargurados em uma noite de bar logo se torna em indivíduos com suas próprias cargas emocionais e história de vida que mesmo desconhecida, nos faz simpatizar por eles.
"The Singers" equilibra a futilidade de uma noite de bebedeira com o companheirismo que apenas uma língua universal como a música consegue proporcionar.
Uma premissa interessante e envolve discussões importantes sobre discriminação e o ambiente tóxico do trabalho, porém acho que faltou refino no roteiro, principalmente em seu desfecho ou na tomada de decisão do protagonista em certos momentos.
Conceitualmente, "Two People Exchanging Saliva" é imprevisível e apresenta um leque de possibilidades narravidas, porém o curta parece correr em círculos o tempo todo e isso fica muito evidente no final, onde ele tenta impactar porém faltou mostrar/explicar um pouco mais.
Visualmente ele é muito bonito, sua estética em preto e branco reflete uma sociedade diatópica e fria a qual é retratada na trama, as personagens são carismáticas e mesmo trabalhando dentro de um minimalismo conceitual conseguem entregar ótimas atuações.
Gostei também da maneira com a qual somos introduzidos a este universo, descobrindo mais sobre o estilo de vida daquelas pessoas: alimentação, hábitos básicos, maneira de enxergar os outros... a imersão aqui acontece e é muito eficiente.
"Two People Exchanging Saliva" não aproveita sua premissa da melhor forma, com algumas lacunas narrativas bem visíveis. Porém é bem realizado e nos apresenta uma distopia diferente com reflexões bem válidas.
Muito interessante a maneira com que o curta equilibra o cômico com o informativo enquanto tece críticas acerca da visão ignorante que homens tinham a respeito da vida íntima da mulher.
O humor se agarra num tom satírico e deliberadamente exagerado, sem se permitir levar tão a sério... em determinados momentos parece um roteiro tirado de uma animação adulta. Essa proposta tinha tudo para cair no caricato, porém funciona para o desenvolvimento da trama e dificilmente uma proposta diferente iria funcionar tão bem para uma historia em menos de 15 minutos.
Os nomes dos personagens são também um ponto que vale destaque, já que logo quando esses personagens nos são apresentados nós já temos uma boa noção do tom que a história irá adotar. Eu achei hilário.
"Jane Austen's Period Drama" pode não ser o pináculo humorístico para quem prefere uma comédia um pouco mais contida, como é o meu caso... porém não cai nos excessos que sátiras costumam pecar, além de ser educativo na medida certa sem parecer um documentário feito para uma turma de ensino fundamental. Divertido e origial.
"A Friend of Dorothy" conta uma história sobre amizade de uma forma bem tradicional e sem apresentar muitas surpresas, o alicerce narrativo é estabelecido de uma maneira sólida porém acho que em virtude de ser um curta, certas coisas acabaram acontecendo mais rápido do que deveriam.
Poderia ter sido mais emocionante do que foi, além de ter um desfecho bem previsível. As atuações dos protagonistas são boas, mas o coadjuvante/antagonista é totalmente unidimensional e até caricato em alguns momentos.
Interessante notar que "amigo da Dorothy" tem um significado ambíguo e isso é deixado implícito em um determinado momento do curta, porém sem ficar muito expositivo, então quem nunca ouviu falar não irá perceber de primeira. Eu mesmo só descobri depois que pesquisei, e faz parte diretamente da construção de personalidade do JJ.
É uma história bonita e bem realizada, porém peca em sua própria estrutura narrativa e no desenvolvimento telegrafado da trama.
O curta tem uma atmosfera gótica e industrial que reforça a situação sufocante na qual os personagens vivem, a estética é visualmente muito bonita e a trama é desenvolvida com carinho, deixando o espectador atento ao seu final. A trama funciona tão bem que parece até um longa.
Porém o final deixou um pouco a desejar, principalmente porque achei que a mensagem passada seria uma e no final das contas acabou sendo outra. Não é de todo ruim, mas achei que faltou coragem.
Retirement Plan aborda questões muito maiores e mais profundas do que aposentadoria, é sobre aprender a viver e se descobrir em um mundo tão corrido como o nosso... o protagonista do curta, em virtude de sua rotina agitada, mal sabe o que ele gosta de fazer ou de dedicar mais do seu tempo.
A estrutura narrativa em alguns momentos assume o risco de soar repetitivo, enquanto em outros tem sacadas interessantes e pitadas de um humor sarcástico para "quebrar o gelo"
Talvez a frase que melhor defina esse curta seja aquela do Mano Brown: "a gente sonha a vida inteira e só acorda no fim."
O Ônibus Perdido
3.4 116 Assista Agora"The Lost Bus" traz o gênero de catástrofe voltando suas atenções a um universo muito pequeno de pessoas, se desvencilhando um pouco do que normalmente vemos em filmes assim, que envolvem grandes nações ou até o mundo inteiro. É sempre bom ver filmes com essa proposta, pois a gente se apega mais aos envolvidos e às suas histórias individuais.
Paul Greengrass é extremamente competente na direção. Ele retrata com detalhes diferentes cenários em uma situação de incêndio em larga escala, as falhas de comunicação entre os serviços e principalmente a maneira como o fogo se espalha, de forma muito verossímil e imersiva. É um filme preocupado em retratar não apenas o fato central, mas também o que acontece ao redor, ainda que de forma superficial.
O roteiro é o clássico “herói improvável”. Por ser uma história meramente baseada em um evento real, existem muitas dramatizações, principalmente no começo. Você se pergunta como é possível alguém ter uma vida tão desgraçada quanto a do nosso protagonista. Conforme o longa se desenvolve, vamos nos afeiçoando a ele, mas ainda assim é uma história carregada de clichês, exposição e previsibilidade. É competente em nos deixar tensos em alguns momentos, mas no geral não apresenta nada de diferente do que outros filmes desse estilo já apresentaram.
Matthew McConaughey entrega mais uma de suas atuações brilhantes, contrastando sua personalidade introspectiva com momentos emotivos e emergenciais que o ator tira de letra. Ele é sensacional. America Ferrera também está excelente, e o roteiro dá bastante espaço para sua personagem brilhar. Ela não está ali apenas como suporte ao protagonista, mas também para ajudá-lo ativamente, e isso foi muito legal de ver.
"The Lost Bus" é uma história real muito bem dirigida com o bom e velho drama hollywoodiano. Apesar de não inovar em nada, é gostoso de assistir e nos emociona no final, além de ter me deixado fascinado com a história real que foi contada.
Foi Apenas um Acidente
3.8 207 Assista Agora"It Was Just an Accident" é uma obra realizada como um grito de protesto contra um regime autoritário e opressor e tem uma história muito parecida com a de "A Semente do Fruto Sagrado", filme indicado na mesma categoria no ano anterior, que carrega uma mensagem política similar, ambos sobre o Irã.
A direção de Jafar Panahi conduz a história a partir de um conflito inicial que vai se desenrolando como se fossem fios a serem organizados. A estrutura narrativa episódica permite ao diretor explorar o caos de maneira controlada e trabalhar suas consequências imediatas. O controle do tempo aqui é um artifício que ajuda na imersão e também na fluidez. O longa se passa em um dia inteiro e você sente o senso de urgência e tensão a cada momento em que o céu fica mais escuro e os personagens parecem ficar sem tempo. Os planos longos e abertos entregam dinamismo aos conflitos e não são sequências fáceis de se realizar, mas fazem os atores crescerem em cena.
Vale destacar o trabalho sonoro, em especial na cena final, que é um daqueles encerramentos de filme que a gente não esquece. O diretor não mostra nada em cena, mas apenas com o som ambiente a gente compreende o que aconteceu e se sente extremamente tenso até o último segundo.
O roteiro é coeso e possui impacto político, mas parece que, em certo momento, fica meio redundante. As interações essencialmente se repetem e uma decisão narrativa lá pra metade final não me convenceu muito bem. Fora esses tropeços, a história é contada de modo que cada conflito apresentado nos fisga para descobrir o que virá em seguida. O trabalho em cima do núcleo de atuação é muito bem realizado, cada um tem sua motivação, seu trauma, sua personalidade, e a gente se sente compadecido com esses personagens.
Por falar nos atores, todos estão muito bem e conduzem seu papel com brilhantismo. O que eu mais gostei foi o Mohamad Ali Elyasmehr interpretando um cara impulsivo, perigoso e instável, porém, quando chega seu momento de nos contar o porquê de ser assim, a gente compreende seus motivos. Além de ser a figura mais combativa, o que dá a sensação de sempre ter uma faísca no grupo que irá explodir a qualquer momento.
"It Was Just an Accident" é protesto em sua forma mais bela de arte. Seus desdobramentos refletem a tirania absoluta de um regime assassino e tornam o filme inesquecível. Eu diria que é questão de tempo até o vermos como um clássico.
Children No More: Were and Are Gone
3.3 23É um tema interessante e pertinente, porém a maneira com que foi abordado tornou o documentário bem redundante. O grande mérito aqui é realmente mostrar a maneira com que a manifestação ocorre e como os manifestantes são pacíficos e mesmo assim tiram as pessoas ao redor do sério.
De certo modo, é um documentário de 30 minutos que poderia muito bem ser uma matéria jornalística de 10.
Blue Moon: Música e Solidão
3.0 93 Assista Agora"Blue Moon" conta uma história nichada, com uma linguagem cinematográfica ainda mais nichada. É um filme que exige bastante comprometimento do espectador, e aqueles mais impacientes com diálogos abstratos não vão dar conta.
Richard Linklater assume mais uma vez sua marca registrada de contar e contemplar a vida e a mera existência de seus personagens, enquanto a história se desenvolve como se fosse alguém nos contando um segredo, com parcimônia e cautela. Toda a obra se passa em um bar, e eu não imagino cenário melhor para este tipo de filme, onde cada conversa pode ter o tempo e a atenção necessários para soar natural.
O roteiro é inteligente ao nos contar praticamente toda a história de Lorenz Hart sem precisar de flashbacks nem de exposição narrativa barata. Os diálogos são a base aqui e cumprem sua função com muito carisma, deboche, sarcasmo e uma frustração controlada inerente ao protagonista.
Há apenas dois pontos negativos que destaco: é um filme extremamente específico, e quem não conhece algumas das referências pode ter a atenção prejudicada em certo ponto; o protagonista é excessivamente performático em suas respostas. Eu não conheço como Lorenz se portava no dia a dia, mas aqui faltou certo nível de convicção. Até determinado momento, as tiradas dele são interessantes e até satíricas, mas depois se tornam redundantes, como se o filme não quisesse contar nada além de sua própria história de forma pouco ortodoxa, sem se preocupar em apresentar algo novo. Isso fica ainda mais claro em seus conflitos internos referentes à sua "protegida", Elizabeth Weiland, nos quais dá a impressão de que os diálogos não tomam rumo algum.
Todas as atenções estão voltadas a Ethan Hawke. Sua atuação é realmente brilhante, e o filme foi construído para que ele brilhe. Grande parte do que vemos são longos monólogos com pequenas participações de personagens secundários que estão ali para reagir ou levantar momentos que o façam brilhar ainda mais. É um ótimo trabalho de um ator que eu admiro demais. Margaret Qualley é a única personagem que não tem essa passividade narrativa; muito pelo contrário, é a única que Lorenz escuta com atenção. Ela tem grande destaque mais próximo do final e nos ajuda a entender mais o protagonista por meio das reações dele do que pelo que ele próprio nos conta em seus diálogos. Andrew Scott tem um papel parecido, porém mais voltado ao lado profissional do protagonista, e é nesse eixo que compreendemos o tamanho artístico de Lorenz. Entre os personagens secundários, o que mais gostei foi Bobby Cannavale como o bartender, que possui sacadas interessantíssimas e tira o protagonista da zona de conforto em alguns momentos.
"Blue Moon" é uma poesia cinematográfica de difícil digestão, porém com execução refinada. Uma vez investido na obra, é possível apreciar um refino narrativo que não vemos com frequência. Peca um pouco no excesso de brilhantismo nos diálogos, mas sabe contar a história de maneira inteligente e orgânica.
Sonhos de Trem
3.7 363 Assista Agora"Train Dreams" aborda, de forma contemplativa, a passagem do tempo, sem se apegar a qualquer estrutura narrativa tradicional nem se apressar em seus acontecimentos.
A direção de Clint Bentley conta com um olhar sensível aos detalhes e às perspectivas dos personagens. Cada cena foi enquadrada com carinho. Há também alguns planos um pouco mais longos, em que a câmera repousa em um ponto fixo e algo acontece. É lindo de se ver. A fotografia é fria e densa na maior parte do filme e se torna mais colorida nos poucos momentos de alegria do protagonista. Gostei muito da passagem do tempo. Apesar de ser abrupta, é possível notar cada momento nos detalhes do cenário, do personagem e das pessoas ao redor. Em momento algum temos em tela o tempo que passou, mas visualmente é nítido quando isso acontece. Em contrapartida, a narração não me agradou. Além de ser muito expositiva, ela também atrapalha um pouco a imersão no filme.
O roteiro dispensa convenções narrativas ao não apresentar um conflito central. Aqui nós apenas vemos como o tempo passa, e somos apenas "mais um" em todo esse universo. O protagonista tem alguns conflitos internos que o perseguem durante o filme, mas alguns não me convenceram, como uma situação em que ele não agiu e isso o permeia até o final, mas, para mim, não funcionou. No mais, a maneira como o personagem reage a essa inevitável passagem do tempo é emocionante e nos faz refletir sobre nossa breve existência e suas consequências para os que estão ao nosso redor e para o mundo. A maneira como o roteiro aborda as relações pessoais do protagonista também é muito orgânica e mostra como somos necessitados de algum grupo, seja pequeno ou grande, de pessoas para sobreviver.
A atuação de Joel Edgerton reflete a emoção de um cara que não está acostumado com isso. É uma performance minimalista, mas bastante sentimental. Felicity Jones não tem tanto espaço, mas sua presença é sempre marcante e importante para o protagonista, então a dinâmica dos dois funciona bem. Os companheiros de trabalho de Robert Grainier são carismáticos, alguns com mais destaque que outros, e a gente acaba se apegando a eles.
"Train Dreams" é contemplativo, melancólico e enxerga beleza em uma história triste sem ficar exageradamente dramático. Não é um filme que te força a chorar em momento algum, porém te faz pensar durante toda a sua duração.
Elio
3.3 140Se tratando de um filme infantil, "Elio" entrega o que promete ao apresentar uma história tradicional sobre amizade, família e pertencimento, sem grandes surpresas narrativas nem estruturais.
O charme aqui é na maneira com que essa mensagem é passada, para quem gosta de ficção científica com certeza este filme será um deleite. O universo criado é divertido de acompanhar e os personagens são cativantes, em especial a dupla principal Elio e Glordon.
Este é um filme que se reconhece como infantil e não faz questão alguma de disfarçar com excessos tentando atrair outros públicos, o que acaba causando alguns problemas no tom para quem não é exatamente seu público alvo: por vezes, o longa cai em momentos mais bobinhos além de contar com exposição narrativa durante toda sua duração.
"Elio" pode não entregar nada de diferente ou surpreendente, mas dentro do que se propõe é uma ótima viagem a um universo criativo e uma jornada muito satisfatória de acompanhar. É aquele filme para se sentir bem após terminar de assistir.
A Voz de Hind Rajab
4.2 150 Assista Agora"The Voice of Hind Rajab" retrata uma angustiante realidade em um drama envolvente e desolador.
A direção de Kaouther Ben Hania aproveita muito bem o espaço fechado do único cenário para criar um ambiente claustrofóbico e sufocante a cada minuto que passa. A câmera na mão, além de gerar desconforto proposital, transporta o espectador para dentro da história de forma imersiva, funcionando quase como uma observadora silenciosa.
O roteiro é construído inteiramente em torno dos áudios originais e consegue transmitir a dimensão da tragédia sem cair no caminho fácil do drama apelativo, há um respeito enorme pelas vítimas e pela situação retratada. A edição tenta integrar registros reais com as filmagens dos atores: em alguns momentos o resultado é poderoso, mas em outros a transição quebra a imersão e soa um pouco artificial.
As atuações estão ótimas e os protagonistas funcionam como espelhos do próprio espectador. Motaz Malhees interpreta um personagem impulsivo, ansioso por soluções práticas; Amer Hlehel é o contraponto racional, insistindo em seguir cada etapa do protocolo; já Saja Kilani representa o equilíbrio emocional, tentando acalmar a situação mesmo estando em pedaços por dentro. Esse conflito interno permeia todo o filme e aumenta a tensão constantemente.
"The Voice of Hind Rajab" é intragável e frustrante na história que conta, mas como obra é inegavelmente refinada. Sua principal função é eternizar a existência de Hind Rajab e, por extensão, dar voz a todas as vítimas deste conflito que não representavam risco algum e não tinham como se defender.
Embaixo da Luz de Neon
3.6 23 Assista AgoraTerminar este documentário é como chupar o limão mais doce que já te deram, por mais que seja um tema pesadíssimo e um clima meio "hostil" permeando toda a obra, a energia das duas é revigorante. A maneira com que Andrea encara vida e morte nos faz acreditar que ela teve um restinho de vida bem acolhedor e aproveitou cada minuto ao lado de quem ela ama.
Pessoalmente o ritmo às vezes soou um pouco irregular para mim, compreendo que é uma obra totalmente pessoal e é importante registrar os momentos que elas consideravam chave mas meu lado mais "chato" sentiu um pouco de tédio em algumas partes. E também fato de ter acabado na reflexão final da Andrea foi meio anticlimático, levando em conta qual era o segmento anterior.
No mais, "Come See Me in the Good Light" é lindo e inspirador, trata de um assunto extremamente delicado com uma leveza surpreendente ao mesmo tempo que não desumaniza os envolvidos, nós sentimos todas as suas dores e alegrias na mesma intensidade... é muito emocionante.
Alabama: Presos do Sistema
3.7 32Pesado e indigesto, "The Alabama Solution" é um grito de socorro do braço mais frágil do sistema contra os poderosos e opressores.
Os produtores e detentos envolvidos nesse documentário estavam munidos apenas de coragem para bater de frente com a máquina, mostrando a verdade nua e crua sem rodeios. O trabalho de edição neste documentário é muito eficaz em transformar celulares clandestinos em uma poderosa arma em favor daqueles que sofrem.
É um produto de extremo valor social e precisa ser visto por todo mudo. Acredito porém que poderia ter sido um pouquinho mais curto, talvez focando mais no caso central abordado pelo doc e menos em alguns "assuntos paralelos". Fora isso, é uma obra inexorável sobre um sistema fadado ao fracasso.
A Vizinha Perfeita
3.5 213 Assista AgoraExistem duas análises diferentes aqui, uma do caso e outra do documentário, e elas não podem se misturar. O caso é absurdo, nojento, asqueroso, quatro crianças ficaram órfãs em questão de minutos por causa de uma mulher vil e descontrolada, que já causava problemas há anos.
A obra é irretocável, excelente trabalho de montagem, tornando o longa muito dinâmico e instigante a cada acontecimento. A maneira com que acompanhamos a abordagem dos policiais nos imerge muito na história, e sentimos que estamos em uma operação policial junto com eles. E é inacreditável como todos os depoimentos em todos os chamados policiais convergem na conclusão de que essa senhora é uma mulher desprezível e legitimamente ruim. Temos o mesmo ponto de vista dos policiais, isto é, sem vídeos externos e/ou provas para ambos os lados, mas só de ouvir as partes envolvidas é impossível não se indignar com tudo o que aconteceu.
É revoltante também a maneira com que a lei tratou o caso até o julgamento, a polícia escoltando essa senhora até a casa dela após o acontecido é um escárnio.
"The Perfect Neighbor" não precisa apresentar nada gráfico para nos chocar pois a própria realidade é cruel o bastante, e ainda levanta questões pertinentes em relação a legislação americana e também inevitáveis discussões a respeito de raça. Em diversos momentos me peguei pensando se fosse o contrário, uma atiradora negra em uma mulher branca, como seriam diferentes certos acontecimentos...
Uma obra perfeita em sua realização, mas absolutamente em sua essência.
A Pequena Amélie
3.9 53"Little Amélie" nos coloca no ponto de vista de uma criancinha que está descobrindo o mundo enquanto tenta compreender seu lugar nele.
A animação é muito bonita e bem realizada, os personagens são cativantes e a protagonista é muito fofa. O roteiro soube valorizar cada um dos seus integrantes, todos tem ao menos um momento de relevância dentro da trama. A única coisa que me soou estranho é na maneira com que a Amélie desenvolve sua visão de mundo, com reflexões e atitudes mais maduras do que sua idade sugere. É estabelecido uma justificativa para isso, porém além da justificativa não ser convincente, o próprio filme contradiz aquilo no final. Acredito que se fosse um argumento um pouco mais pé no chão, poderia haver um valor filosófico maior.
"Little Amélie or the Character of Rain" é um filme gostoso de assistir, com um roteiro interessante mas que se perde em sua própria proposta.
Um Zé Ninguém Contra Putin
3.4 31 Assista AgoraA coragem de Pavel Talankin aqui é de se aplaudir de pé, o cara expôs os absurdos da militarização russa dentro do próprio regime. Além disso, ele também se mostrou ser um excelente narrador e um cara muito carismático, é bacana ver ele em tela e/ou narrando o que está acontecendo. A gente termina de assistir na esperança de ele realmente estar bem e seguro.
Porém não posso esconder que em alguns momentos o tom deste documentário se torna redundante e cansativo a partir da metade em diante, é como se acontecessem as mesmas coisas porém contadas de formas diferentes. Compreendo que é uma rotina da qual os envolvidos estão lidando, mas como um produto de "entretenimento" acaba ficando um pouquinho repetitivo.
"Mr. Nobody Agains Putin" é uma obra sensacional como material de estudo e reflexo de uma realidade da qual tantas pessoas precisam lidar, mas é consideravelmente maçante e arrastado em alguns momentos.
Armado com uma Câmera: Vida e Morte de Brent Renaud
3.4 30 Assista AgoraProvavelmente o documentário mais forte que já assisti, as imagens são apresentadas sem o menor pudor e buscam retratar todos os terrores já registrados por Brent Renaud com a maior riqueza de detalhes possível.
A visão que seu irmão Craig tem dele e principalmente a maneira com que ele encara o luto é bela e mostra como os dois estavam conectados através do amor pelo jornalismo e por retratar a vida real, sem filtros nem eufemismos. É um curta pesado do início ao fim, ao mesmo tempo que se apresenta como uma linda homenagem a um homem que morreu fazendo o que ama.
"The Life and Death of Brent Renaud" é indigesto em sua essência, mas brilhante em sua execução. Que este documentário mantenha para sempre viva a memória de um cara que deu tudo o que tinha pelo amor a profissão.
Quartos Vazios
3.7 40 Assista AgoraEste curta não faz questão de ser um produto demagogo para buscar esperança na tragédia, pelo contrário... é cru, triste e pesado.
O silêncio é um elemento narrativo importante que valoriza a ausência daqueles que se foram e o luto dos que ficaram, e é aterrador se colocar no lugar desses pais. Ao mesmo tempo que existe a emoção dos depoimentos, vemos claramente que nada aqui é colocado para manipular o público, é tudo sincero e isso é o que mais te toca.
"All the Empty Rooms" é um olhar sensível sobre aqueles que a mídia muitas vezes acaba ignorando, ao dar mais visibilidade a quem executa estes atos (inclusive esta é uma observação feita pelo próprio Hartman durante o doc). Apesar do tema extremamente triste, é bonito ver a maneira com que os familiares das vítimas são acolhidas aqui.
O Diabo Não Tem Descanso
3.6 25 Assista Agora"The Devil Is Busy" é inteligente em retratar uma rotina dentro de uma clínica sem se preocupar em tomar partido de algo, apenas em mostrar a realidade escancarada para o público e acolher aquelas que precisam de ajuda. Tracii é uma ótima narradora e faz reflexões interessantes, principalmente mais perto do fim do documentário.
É um doc que te faz pensar sob várias perspectivas dentro do mesmo tema, seja a da médica, seja a da paciente, seja a da segurança que vê de fora... muito interessante.
Perfectly a Strangeness
2.5 30"Perfectly a Strangeness" se apresenta como uma contemplação cinematográfica ausente de qualquer estrutura narrativa ortodoxa.
Além da fotografia impecável, acho que o "lance" aqui é analisar o contraste entre a natureza e a ficção científica... o observatório está abandonado, enquanto a natureza domina totalmente o lugar. Os cientistas se foram, mas os burrinhos estão por aí.
Acredito também que o fato do observatório ser completamente inútil aos animais serve também como uma espécie de crítica a ambição humana (e não existe nada mais ambicioso do que o espaço) e em como aquilo para nós pode até ser o auge tecnológico, enquanto que para a natureza, é apenas pedaço velho de sucata.
"Perfectly a Strangeness" é estranho a primeira vista, porém carrega um subtexto interessantíssimo enquanto se apresenta como um alento aos olhos com belas paisagens naturais em harmonia com o espaço e devaneios abstratos.
O Agente Secreto
3.9 1,1K Assista Agora“O Agente Secreto” recria com vivacidade uma cidade atormentada pela autoridade, em contraste com sua típica festividade carnavalesca. Recife, aqui retratada, tem cor, tem som, tem cheiro, tem pessoas… essa imersão nos faz sentir parte do que estamos assistindo.
A direção de Kleber Mendonça Filho é impecável nesse sentido; ele não tem pressa para desenvolver a trama e seus conflitos. Os personagens secundários dão vida à cidade, e a trivialidade é usada como alicerce narrativo para que a época retratada soe real. O diretor sabe construir tensão nos momentos necessários, mas gostaria de ter visto mais. Um filme como esse exige mais embate indireto entre protagonista e antagonista, principalmente no segmento final, em que o filme opta por mostrar discretamente um importante acontecimento narrativo, quando o ideal seria mostrar mais.
Importante pontuar que não gostei do segmento do “presente” e de suas implicações. Esses momentos quebram a imersão; as atuações são de um nível muito abaixo e parecem estar ali apenas para explicar, da forma mais expositiva possível, o que estamos assistindo.
Essa exposição é o grande problema do roteiro. Enquanto algumas informações importantes permanecem apenas no subjetivo e carecem de explicação textual ou visual, outras são excessivamente apresentadas, às vezes no segundo seguinte ao qual foram introduzidas de forma mais contida. É como se Kleber, que também assina o roteiro, quisesse deixar tudo mastigado demais para o público. A premissa de gato e rato no carnaval recifense é instigante, porém mal aproveitada.
Wagner Moura conduz o filme com uma atuação contida e atenta aos detalhes; sentimos que seu personagem existe pela maneira de caminhar, pelos olhares e pelo modo de falar. Apesar de ser fictício, em vários momentos me perguntei se já existiu alguém como Marcelo em nossa história. Os coadjuvantes funcionam bem, principalmente Tânia Maria, que imprime forte realismo a uma comunidade unida e sustentada por ela. Gabriel Leone e Roney Vilela constroem bem o contraste entre si, mas senti falta de mais espaço para o segundo; ele é imponente e o filme nos conta sua crueldade, mas mostra pouco.
“O Agente Secreto” tem uma direção impecável e imersiva ao retratar, com riqueza de detalhes, uma ficção “100% real”, porém peca em decisões narrativas e em um roteiro excessivamente preocupado em explicar o que já estava estabelecido.
Os Cantores
3.5 44 Assista AgoraBasicamente a noite dos rapazes... o começo é caótico porém imersivo se tratando de um bar numa região aparentemente "periférica", porém aos poucos todo o ambiente é tomado pelo tema central do curta e cada número musical é um alento sonoro e artístico.
Os personagens tem cada um sua própria personalidade, e mesmo que a gente não os conheça a fundo, a música serve ao propósito de os desenvolver sem que eles precisem dizer uma palavra diretamente, e isso mostra como as escolhas musicais foram as melhores possíveis. O que começa como homens amargurados em uma noite de bar logo se torna em indivíduos com suas próprias cargas emocionais e história de vida que mesmo desconhecida, nos faz simpatizar por eles.
"The Singers" equilibra a futilidade de uma noite de bebedeira com o companheirismo que apenas uma língua universal como a música consegue proporcionar.
Butcher's Stain
3.3 18Uma premissa interessante e envolve discussões importantes sobre discriminação e o ambiente tóxico do trabalho, porém acho que faltou refino no roteiro, principalmente em seu desfecho ou na tomada de decisão do protagonista em certos momentos.
Duas Pessoas Trocando Saliva
3.6 32Conceitualmente, "Two People Exchanging Saliva" é imprevisível e apresenta um leque de possibilidades narravidas, porém o curta parece correr em círculos o tempo todo e isso fica muito evidente no final, onde ele tenta impactar porém faltou mostrar/explicar um pouco mais.
Visualmente ele é muito bonito, sua estética em preto e branco reflete uma sociedade diatópica e fria a qual é retratada na trama, as personagens são carismáticas e mesmo trabalhando dentro de um minimalismo conceitual conseguem entregar ótimas atuações.
Gostei também da maneira com a qual somos introduzidos a este universo, descobrindo mais sobre o estilo de vida daquelas pessoas: alimentação, hábitos básicos, maneira de enxergar os outros... a imersão aqui acontece e é muito eficiente.
"Two People Exchanging Saliva" não aproveita sua premissa da melhor forma, com algumas lacunas narrativas bem visíveis. Porém é bem realizado e nos apresenta uma distopia diferente com reflexões bem válidas.
O Drama Menstrual de Jane Austen
3.6 28 Assista AgoraMuito interessante a maneira com que o curta equilibra o cômico com o informativo enquanto tece críticas acerca da visão ignorante que homens tinham a respeito da vida íntima da mulher.
O humor se agarra num tom satírico e deliberadamente exagerado, sem se permitir levar tão a sério... em determinados momentos parece um roteiro tirado de uma animação adulta. Essa proposta tinha tudo para cair no caricato, porém funciona para o desenvolvimento da trama e dificilmente uma proposta diferente iria funcionar tão bem para uma historia em menos de 15 minutos.
Os nomes dos personagens são também um ponto que vale destaque, já que logo quando esses personagens nos são apresentados nós já temos uma boa noção do tom que a história irá adotar. Eu achei hilário.
"Jane Austen's Period Drama" pode não ser o pináculo humorístico para quem prefere uma comédia um pouco mais contida, como é o meu caso... porém não cai nos excessos que sátiras costumam pecar, além de ser educativo na medida certa sem parecer um documentário feito para uma turma de ensino fundamental. Divertido e origial.
Um Amigo de Dorothy
3.7 20"A Friend of Dorothy" conta uma história sobre amizade de uma forma bem tradicional e sem apresentar muitas surpresas, o alicerce narrativo é estabelecido de uma maneira sólida porém acho que em virtude de ser um curta, certas coisas acabaram acontecendo mais rápido do que deveriam.
Poderia ter sido mais emocionante do que foi, além de ter um desfecho bem previsível. As atuações dos protagonistas são boas, mas o coadjuvante/antagonista é totalmente unidimensional e até caricato em alguns momentos.
Interessante notar que "amigo da Dorothy" tem um significado ambíguo e isso é deixado implícito em um determinado momento do curta, porém sem ficar muito expositivo, então quem nunca ouviu falar não irá perceber de primeira. Eu mesmo só descobri depois que pesquisei, e faz parte diretamente da construção de personalidade do JJ.
É uma história bonita e bem realizada, porém peca em sua própria estrutura narrativa e no desenvolvimento telegrafado da trama.
A Garota Que Chorava Pérolas
3.8 31 Assista AgoraO curta tem uma atmosfera gótica e industrial que reforça a situação sufocante na qual os personagens vivem, a estética é visualmente muito bonita e a trama é desenvolvida com carinho, deixando o espectador atento ao seu final. A trama funciona tão bem que parece até um longa.
Porém o final deixou um pouco a desejar, principalmente porque achei que a mensagem passada seria uma e no final das contas acabou sendo outra. Não é de todo ruim, mas achei que faltou coragem.
Retirement Plan
3.8 28Retirement Plan aborda questões muito maiores e mais profundas do que aposentadoria, é sobre aprender a viver e se descobrir em um mundo tão corrido como o nosso... o protagonista do curta, em virtude de sua rotina agitada, mal sabe o que ele gosta de fazer ou de dedicar mais do seu tempo.
A estrutura narrativa em alguns momentos assume o risco de soar repetitivo, enquanto em outros tem sacadas interessantes e pitadas de um humor sarcástico para "quebrar o gelo"
Talvez a frase que melhor defina esse curta seja aquela do Mano Brown: "a gente sonha a vida inteira e só acorda no fim."