"The Love Witch" traz uma sátira esotérica que chama atenção por seu conceito artístico, mas que se perde quando nos acostumamos com este conceito e precisamos de uma história coesa.
Anna Biller constrói um universo em torno de elementos que remetem a filmes clássicos, incluindo a gravação sendo em 35mm. Toda a estética mais antiga, com cores vibrantes e psicodélicas, é misturada com alguns elementos modernos também, o que pode ser associado a essa pegada mais satírica que a diretora quis transmitir. Eu compreendo o que ela quis fazer, mas, para mim, teria sido melhor se mantivesse apenas a pegada mais clássica e conceitual, essa quebra de conceito tirou um pouco minha imersão no filme.
Outra coisa interessante que eu gostei aqui foi a maneira com que a bruxaria é retratada. Nota-se o carinho que a diretora empregou nestes momentos. Por exemplo, quando a protagonista está fazendo seus feitiços, ou em momentos ritualísticos, a gente consegue comprar a ideia de que aquilo realmente pode acontecer em algum clã de bruxas de verdade.
O roteiro, porém, não dispõe da mesma criatividade e dinamismo. Eu vejo um potencial enorme desperdiçado na protagonista, que não é desenvolvida da maneira correta, e ela própria não sabe se quer ser uma princesa de conto de fadas ou uma clássica femme fatale de filme de terror. Há também voice overs desnecessários e expositivos demais, e o tom do filme é inconsistente quando assume uma proposta mais investigativa, principalmente porque essas partes são resolvidas sempre com muita facilidade.
Samantha Robinson não tem culpa do roteiro desperdiçar sua personagem, e ela entrega uma bruxa muito crível. Seja por sua aparência extremamente atraente para atrair suas vítimas, ou por alguns trejeitos e olhares sempre serenos, como se soubesse que controla a situação. É uma personagem que poderia virar um clássico do cinema e me lembrou, por vezes, a Elvira.
"The Love Witch" é um filme visualmente belíssimo e conceitualmente muito interessante, porém que carrega consigo inconsistências narrativas que acabam não sustentando suas 2 horas de duração da maneira que se espera.
"Dinner in America" não causou tanto alarde desde seu lançamento, porém é uma história original que utiliza de clichês para construir um "conto de fadas subversivo" que cativa e encanta ao mesmo tempo que causa uma estranheza curiosa conforme o assistimos.
A direção faz uma reconstrução de época sensacional. Mesmo sem deixar muito claro em que época o filme se passa, existe uma imersão muito grande naquele universo, principalmente pela ambientação e pela forma como aquele cotidiano é apresentado. Gosto também da maneira como o filme desenvolve seus personagens, por exemplo em diferentes cenas de refeições em família. São umas três ao longo do filme e, apesar de terem uma estrutura parecida, cada uma se desenvolve de uma maneira completamente diferente. A mistura entre humor ácido, humor situacional e crítica à classe média americana também funciona muito bem, principalmente porque o filme consegue fazer isso sem ficar moralista ou pedante.
O roteiro aproveita muito bem esses momentos de humor para deixar a experiência leve, mas também sabe utilizar os momentos emocionantes na hora certa. Ele usa e abusa de alguns clichês, e apesar de funcionarem dentro da proposta do filme, alguns são tão telegrafados que podem incomodar. Alguns personagens também ficam caricatos demais em determinados momentos, mas nada que prejudique a experiência como um todo.
Kyle Gallner e Emily Skeggs formam uma dupla excelente. A química entre os dois é sensacional e é muito satisfatório acompanhar como ambos vão se desenvolvendo com a ajuda um do outro. Eles também acabam sofrendo um pouco com essa caricatura dos personagens, mas no geral é uma dupla que engrandece muito o filme.
"Dinner in America" é estranho, atraente e divertido. Certamente é uma excelente surpresa para um filme tão discreto, e eu não estranharia se daqui alguns anos ele fosse revisitado e virasse um clássico cult.
Apesar de eu não ser um dos maiores entusiastas do tema, "Backrooms" me deixou extremamente curioso desde seu anúncio, pois um tema tão nichado e fechadinho dentro da internet representa um grau de dificuldade elevado na hora de preencher as lacunas que um longa exige. E creio que este filme não conseguiu fugir dessa dificuldade, ainda que com momentos de brilhantismo.
Kane Parsons já tem familiaridade com esta temática e isso se reflete na maneira com que ele domina a cinematografia nos momentos em que estamos dentro das backrooms, o diretor controla bem o tom para manter um terror equilibrado entre o que vemos e o que é subjetivo, com sustos pontuais e uma tensão crescente em meio ao ambiente claustrofóbico e desconhecido, inclusive a escuridão é um elemento que o Kane usa para esconder algo e assim nos deixar aflitos justamente pelo que não estamos vendo.
Porém, o filme oscila (para não dizer que ele decai mesmo) fora desses espaços, quando a direção temática precisa dar lugar para um roteiro que não sustenta a história por si só. O desenvolvimento dos personagens é pouco inspirado a ponto de eu não nutrir simpatia por absolutamente ninguém que está em tela, e o próprio background dos dois protagonistas é mal trabalhado: a história do Clark é contada através de diálogos expositivos e possui um conflito raso e pouco explorado, enquanto no caso da Mary o longa aposta em flashbacks excessivamente subjetivos, buscando abraçar uma abstração narrativa desnecessária e que não acrescenta em quase nada além de teorias. Toda essa limitação faz com que a estrutura do roteiro seja entediante e redundante, poderia ter uns 20 minutos a menos que funcionaria melhor.
O nível dos atores acaba sendo puxado para baixo por causa do roteiro, porém eles entregam da melhor forma a personalidade que cada personagem exige. Chiwetel Ejiofor equilibra ira, emoção e contemplação nos momentos certos e nos prende a atenção dentro do labirinto, pois as emoções dele são paralelas as do espectador (desde curiosidade inicial até outras que desencadeiam conforme os acontecimentos se desenrolam). Renate Reinsve entrega um trabalho competente ao retratar uma psiquiatra cética entrando em contato com esse universo e lidando com o pouco de história que o roteiro oferece para sua personagem.
"Backrooms" é um ótimo filme de terror, mas com uma narrativa problemática que parece servir apenas como pano de fundo para que este horror experimental seja apresentado ao público. É difícil se manter interessado no longa quando estamos na superfície, porém a experiência é recompensadora ao adentrarmos no que realmente interessa.
"Project Hail Mary" ousou ser uma ficção científica simples em uma indústria que busca sempre extrair os temas mais complexos e reflexivos (e, por vezes, abstratos) desse gênero. É como se o lado científico do filme fosse apenas um background discreto para uma história pessoal e sensível sobre amizade.
Os diretores Christopher Miller e Phil Lord conseguem manter o ritmo do filme dinâmico e leve mesmo apesar das suas duas horas e meia de duração, e a montagem encorpa o longa na medida certa, principalmente no primeiro ato em que o protagonista está sozinho. Aliás, outro ponto positivo é justamente a maneira com que os recursos narrativos são usados de forma inteligente: quando começaram os flashbacks eu achei que seriam um tédio expositivo, mas foi o oposto, é uma forma de contar a história e dimensionar o problema principal para que a gente entenda que de fato o que está acontecendo é grave. Uma coisa que me agradou muito foi a maneira com que a imensidão espacial é retratada, principalmente na maneira com que o silêncio é utilizado nesses momentos.
O roteiro é muito bem escrito e é o motor principal do filme, que concede a ele a leveza e o humor sem cair em algo bobinho, ao mesmo tempo que mantém a sobriedade quando necessário. A ameaça principal sempre está presente, mesmo quando damos risada das piadas situacionais que o longa nos mostra. Eu confesso que no começo as piadas me causaram um pouco de estranhamento, pois eu não sabia do que se tratava o filme (sequer havia lido a sinopse), então fui esperando algo diferente do que o filme de fato é. Porém não demorou nada para que ele me ganhasse e eu estivesse completamente vidrado na sua história.
A atuação do Ryan Gosling está extremamente equilibrada entre o cara desleixado e o gênio necessário, ele sustenta tanto os momentos de leveza quanto os mais dramáticos e cria um personagem autoral, com suas próprias manias e maneirismos. A relação entre o protagonista e o Rocky sustenta o filme de tal maneira que se o longa fosse apenas uma história dos dois, já valeria a pena. E por falar no Rocky, o personagem é muito bem desenvolvido e tem um carisma absurdo, suas expressões corporais dizem muito e a gente o entende com pouco, e acompanhar essa amizade crescendo é muito satisfatório. Isso faz com que este filme te faça bem mesmo nos seus momentos dramáticos. E a Sandra Hüller é uma coadjuvante que funciona muito bem para dar a carga emocional e o senso de urgência que a história precisa, mesmo quando ela não está em tela sua presença é impactante através das consequências que a personagem traz para a trama.
"Project Hail Mary" é um blockbuster de ficção científica que surpreende ao mostrar que nem todo filme espacial precisa de uma narrativa densa e complexa para funcionar, é fácil de gostar e acredito que daqui uns anos ele já terá o merecido status de clássico.
"Obsessão" é um projeto corajoso de um diretor promissor que, apesar de vir do YouTube e conhecer a linguagem digital, não permitiu que sua obra caísse em fórmulas batidas apenas para viralizar.
Curry Barker é o principal cérebro por trás do filme. O fato de dirigir, roteirizar e editar o próprio longa lhe dá uma autonomia criativa que permite moldar a obra da maneira que deseja. O tom é de um terror consistente, com pitadas sutis de humor pontual que quebram o gelo em alguns momentos por meio de um constrangimento irônico. Os poucos jumpscares são eficientes, enquanto o verdadeiro horror está no desconforto e na montanha-russa de sentimentos que transitam em pequenos espaços de tela. Até mesmo o horror gráfico é utilizado com equilíbrio, sem saturar. É como se o diretor soubesse dosar todos esses elementos sem deixar que um se sobreponha ao outro.
O roteiro é bem construído e não perde tempo para colocar sua trama em movimento. É interessante como a questão moral é abordada sem que o filme se torne excessivamente psicológico ou pretensioso; não há uma ambição de ser mais do que precisa. Minha única crítica está na estrutura narrativa, que acaba sendo um pouco repetitiva ao apresentar conflitos diferentes em torno de um mesmo elemento, ainda que em escalas distintas. Gostaria que esses momentos fossem um pouco mais dedicados aos coadjuvantes e a um conflito interno que o filme apresenta de forma sutil em alguns momentos.
Inde Navarrette carrega o filme com maestria, alternando o tom de sua personagem de forma intensa em espaços curtos de tempo. Eu me encantei com a maneira como ela trabalha o olhar: seus olhos brilham do mais absoluto nada quando a cena exige e, logo depois, assumem uma expressão seca com a mesma intensidade quando a emoção muda. Michael Johnston, por outro lado, não me agradou tanto. Seu personagem é excessivamente inseguro e representa uma caricatura bastante batida do "nerd esquisito que não sabe lidar com mulher". Conforme a história avança, ele ganha camadas interessantes, mas acredito que essa caracterização na primeira metade do longa acabou me incomodando demais. Cooper Tomlinson e Megan Lawless também demonstram um enorme potencial. Mesmo com pouco tempo de desenvolvimento, ambos me agradaram, embora eu ache que algumas de suas situações poderiam ter sido melhor trabalhadas. Ainda assim, o filme consegue fazer com que simpatizemos bastante com eles.
"Obsessão" é um terror que sabe impactar quando precisa e também oferecer momentos de respiro enquanto constrói sua tensão. É um romance perturbador que trabalha o conceito de "cuidado com o que deseja" de maneira eficiente, sem soar canastrão. Mesmo com alguns problemas narrativos, é uma grata surpresa dentro do gênero.
Documentário essencial para qualquer fã de cinema, ainda mais se for uma pessoa que acompanha temporada de premiação. Gostei de saber mais sobre a Diane e também sobre algumas de suas principais composições. Acompanhamos também um pouco da sua relação quase obsessiva com o Oscar até finalmente receber um reconhecimento honorário da academia.
A música concorrente deste ano, apesar de ser um projeto muito pessoal, realmente não é tão boa. Porém é sempre bom ver a artista concorrendo, e apesar de ela já ter um prêmio por suas contribuições, espero que algum dia ela vença diretamente por algum trabalho.
"Hamnet" traz a catarse artística que sucede o luto da maior dor que um ser humano pode enfrentar, a perda de um filho.
Chloé Zhao conduz o filme com uma direção a princípio contida para construir a beleza de um lar vivo quase perfeito, com planos amplos realçando belezas naturais e a dinâmica familiar. Aos poucos, conforme a alegria dá lugar à angústia, a diretora invade o ambiente com planos mais fechados, sufocando seus personagens em uma sensação de impotência que contagia até quem está assistindo. Em determinados momentos o tom do filme se torna um pouco manipulativo ao dramatizar demais a história, e no final a diretora pesa a mão; o encerramento estava lindo com a encenação de Hamlet, mas alguns excessos tornaram o trecho meio pretensioso, especialmente envolvendo uma ação coletiva que, para mim, não funcionou. E a trilha sonora utilizada me tirou um pouco da cena por ser algo já batido, talvez o silêncio tivesse valorizado mais o momento retratado.
O roteiro subverte o senso comum de representar Shakespeare como gênio, deixando-o na sombra enquanto sua esposa Agnes assume o protagonismo. É simbólico que o nome do escritor seja pronunciado uma única vez em todo o filme; o “gênio” aqui está contido, mais humano e frágil. Há apenas um monólogo que parece ter sido escrito para funcionar como um lapso de genialidade de William, mas acaba destoando. Em contrapartida, a atenção que o texto dedica à esposa é o que sustenta o tom emotivo do longa: trata-se de uma protagonista cheia de camadas, que assume o difícil papel de cuidar da casa enquanto lida com o luto praticamente sozinha.
Jessie Buckley entrega uma performance inspiradora e emocionante; a direção lhe dá bastante espaço para reagir ao que é dito e ao que acontece, e a atriz extrai o máximo disso com intensidade e vibração. Paul Mescal demora um pouco para convencer, em parte porque o roteiro não lhe oferece tanto espaço. Ainda assim, sua atuação cresce junto do personagem quando ele é mais exigido em momentos de maior carga emocional. Também gostei muito do elenco mirim, em especial Jacobi Jupe, que interpreta Hamnet com grande carisma.
"Hamnet" desconstrói um gênio enquanto ilumina uma protagonista silenciosa da qual o mundo muitas vezes esquece que existiu. É uma história sobre distintas abordagens do luto e sobre como a arte pode transformar esse sentimento em algo suportável.
Interessante como "Kokuho" traz uma história sobre uma arte pouco conhecida no resto do mundo, neste caso, o kabuki.
Sang-il Lee conduz o filme com muito carinho e explora os detalhes minuciosos que tornam o treinamento para o kabuki tão intenso. Os momentos teatrais são quando a direção mais brilha; é recompensador acompanhar o resultado final de tanto trabalho duro. Lee tem um olhar sensível à arte dentro de sua obra, colocando o espectador em uma visão privilegiada ao mesclar bastidores com o espetáculo teatral sem perder o ritmo.
Sobre a duração, fiquei com um sentimento dúbio. Sim, é um filme excessivamente longo, mas ele aborda muita coisa de uma vez. No final, fiquei imaginando como seria uma trilogia de "Kokuho". Alguns lapsos temporais contam pequenos fragmentos de uma história com lacunas; compreendemos o que aconteceu, mas faltaram camadas. Para um único filme, é realmente longo e um pouco cansativo. Caso fosse dividido em três partes e desenvolvessem melhor cada etapa, poderia se tornar uma história mais coesa e encorpada.
O roteiro acaba pecando justamente por isso que citei: há muita coisa acontecendo ao mesmo tempo e sem o respiro necessário para digerirmos os acontecimentos. Ainda assim, o longa brilha quando se trata de estudo de personagem e em relação às consequências de uma vida inteira dedicada a uma arte. O protagonista se vê completamente imerso naquele universo e cego de qualquer discernimento que possa humanizá-lo, pois foi criado para ser o maior. Um ponto que senti faltar foi a exploração mais aprofundada da relação do personagem com a Yakuza. No início, acreditamos que isso terá importância ao longo da narrativa, mas, na maior parte do tempo, torna-se apenas um detalhe facilmente esquecido.
Kikuo é interpretado por Sōya Kurokawa na adolescência e por Ryo Yoshizawa na maior parte de sua vida. Ambos os atores dão vida ao protagonista de forma muito honesta: o primeiro apresenta um garoto mais inseguro, buscando seu lugar, enquanto o segundo entrega um Kikuo mais confiante, conforme o texto exige, sem deixar de evidenciar suas fragilidades pontuais. A entrega corporal de ambos também merece destaque e realça ainda mais a beleza do kabuki.
"Kokuho" é um estudo cultural de grande valor artístico que, apesar de pecar em sua estrutura narrativa, entrega um universo interessantíssimo de conhecer e acompanhar em todo o seu desenrolar.
"Marty Supreme" é uma "ficção biográfica" que distorce pessoas reais para ter liberdade de contar a história à sua própria maneira.
Josh Safdie conduz o filme com um tom bastante assertivo e, mesmo sendo longo, em momento algum dá espaço para o tédio. Somos constantemente bombardeados por situações que desencadeiam novas consequências, criando um efeito dominó contínuo. O diretor transita entre tensão, drama e comédia sem perder o controle ou tornar o longa pretensioso. Há também muitos enquadramentos fechados e claustrofóbicos que, somados à câmera na mão, mantêm constante o senso de urgência que a narrativa quer transmitir.
O roteiro não faz questão de transformar o protagonista em um típico "herói" que filmes sobre esporte costumam retratar. Aqui, Marty é falho e, mesmo tomando decisões equivocadas o tempo inteiro, nos pegamos torcendo por ele. É interessante notar como ele encara problemas sérios e sensíveis. Uma sequência que ilustra bem isso é quando ele pede para um personagem contar uma história envolvendo mel em tom jocoso, quando, na verdade, a situação é profundamente triste e surpreende pela forma como é conduzida.
Apesar de seu caráter duvidoso e de escolhas questionáveis, vemos lapsos de humanidade nos poucos momentos em que Marty parece realmente se importar com quem está ao seu lado, o que nos aproxima dele. O final reforça essa dimensão e encerra a trajetória de maneira satisfatória.
Para algumas pessoas, a experiência pode soar cansativa pela quantidade de informação em um filme de longa duração. Para mim, porém, isso não pesou em nenhum momento. Os diálogos são muito bem escritos e servem diretamente ao desenvolvimento da narrativa, fazendo a tensão crescer a cada cena. Não há espaço para trivialidades, cada linha carrega uma motivação e uma consequência.
Timothée Chalamet está impecável e este é, até agora, seu melhor papel. Ele incorpora com precisão a figura do homem obstinado, capaz de tudo para vencer. Seu trabalho corporal entrega a intensidade necessária ao personagem, e seu carisma é o que nos faz simpatizar com ele até nos momentos mais difíceis. Odessa A'zion tem um desenvolvimento maior do que eu imaginei. Sua personagem possui motivações próprias e também toma decisões questionáveis, o que me fez criar por ela o mesmo apego que senti por Marty. Tyler, the Creator, mesmo com pouco tempo de tela, entrega uma atuação carismática e marcante, apoiando o protagonista sem perder sua própria individualidade e conflitos.
"Marty Supreme" entrega uma história sobre obsessão pelo sucesso com a intensidade que essa premissa exige. É um filme sufocante, mas que encontra leveza e sarcasmo nos momentos certos. Mesmo extenso, é satisfatório do início ao fim e é o tipo de obra que permanece na memória.
"If I Had Legs I'd Kick You" traz uma performance feminina marcante e uma história impactante sobre pressão social e suas consequências.
A diretora Mary Bronstein conduz o longa de forma propositalmente claustrofóbica e angustiante, com enquadramentos fechados que enfatizam o desconforto constante da protagonista. O estilo frenético da montagem dita um ritmo acelerado, e a sucessão de acontecimentos nos mantém em alerta, atentos ao que virá em seguida. Ainda assim, acredito que alguns momentos foram interrompidos cedo demais, especialmente certas situações que não se resolvem em cena, o que acaba gerando uma frustração pontual.
O roteiro não tem qualquer complacência com a protagonista, e nós tampouco conseguimos deixar de sentir por ela. É interessante perceber como a obra subverte a visão tradicional da dona de casa: aqui, a maternidade se torna a principal engrenagem para que sua vida se transforme em uma bola de neve caótica. Senti falta, porém, de um momento mais claro de respiro ou catarse. A personagem é constantemente bombardeada por situações tensas até o fim, e esse acúmulo torna a experiência por vezes cansativa e pouco recompensadora. Há algo próximo disso no desfecho, mas não foi suficiente para me convencer.
Rose Byrne encarna sua personagem de corpo e alma; sentimos em seu rosto e em suas expressões o quanto aquela realidade é exaustiva. Suas compulsões e tiques dão identidade e veracidade à figura que constrói. Conan O'Brien surpreende ao interpretar um terapeuta apático e, em certos momentos, irritante, afastando-se completamente da imagem divertida que temos dele. Já A$AP Rocky está muito bem e é o único que oferece alguma atenção genuína à protagonista, evidenciando como ela lida com alguém que tenta ajudá-la, algo a que claramente não está acostumada.
"If I Had Legs I'd Kick You" peca um pouco em seus próprios excessos, mas ainda assim apresenta reflexões pertinentes sobre maternidade e as cobranças impostas às figuras femininas, especialmente quando lhes falta o apoio necessário.
"Arco" traz um estilo de animação único e uma história que apesar de parecer simples, é tocante e aborda temas como amizade, pertencimento e meio ambiente sem perder a fluidez narrativa. Apesar de ser um filme leve, ele sabe te emocionar nos momentos necessários.
O desenvolvimento dos personagens é competente e nos faz ter empatia por todos. A dupla de protagonistas tem uma boa química e o roteiro desenvolve a relação deles de um jeito muito natural e gostoso de acompanhar, a amizade deles é verdadeira e emocionante. Até os antagonistas, dos quais eu não estava gostando por causa do jeito "atrapalhado" digno de vilão de desenho animado, após descobrir sua motivação passei a compreendê-los melhor, além de terem um impacto narrativo importante.
"Arco" é o tipo de animação que comove tanto adulto quanto criança, uma experiência original, divertida e tocante. Seu desfecho poderia ter sido melhor explorado, porém o final foi satisfatório.
A animação em si é divertida, tem piadas engraçadas e é gostoso de acompanhar a relação entre o raposo e a coelha, as diferentes personalidades são bem exploradas.
Porém a história além de não ser muito atrativa, apresenta personagens que não funcionaram para mim (me perdoem, aquela cobra é chatinha...) além de muitas vezes se perder em um excesso de informação e/ou acontecimento que não permite que a gente absorva os sentimentos que o filme quer passar. Tem pelo menos uns dois momentos que deveriam ser emocionante, mas que não há o tempo necessário para que este sentimento se estabeleça antes de acontecer algo frenético novamente.
“Sentimental Value” constrói seus personagens por meio de camadas e subtextos, contando uma história através do detalhe e do silêncio.
A direção de Joachim Trier demonstra enorme sensibilidade ao observar conflitos íntimos. A câmera repousa, paciente, aguardando as reações dos atores para que compreendamos seus sentimentos pela expressividade. Trata-se de uma experiência sensorial, pouco verbalizada, e narrar dessa forma exige uma complexidade que o diretor domina com segurança. Por ser um longa denso e de ritmo cadenciado, é natural que parte do público não se conecte e o considere arrastado; ainda assim, essa escolha faz parte da própria identidade da obra.
O roteiro caminha em harmonia com a direção e desenvolve a trama com cautela. O texto carrega um realismo palpável, e a maneira como tudo se concentra naquele microcosmo familiar (especialmente dentro da casa) nos insere na dinâmica daquelas relações. Somos espectadores, mas a proximidade é tamanha que quase compartilhamos o peso emocional vivido pelos personagens. Os conflitos emergem e evoluem com sutileza, sem recorrer a artifícios rasos ou explosões dramáticas exageradas. O foco está na forma como cada personagem absorve e reage aos diálogos, e é nisso que reside a força da narrativa.
Stellan Skarsgård e Renate Reinsve conduzem o eixo central de maneira envolvente. Ele transmite um afeto torto, cheio de falhas, mas ainda assim genuíno; ela tenta compreender seus próprios traumas enquanto enfrenta batalhas internas constantes. Inga Ibsdotter Lilleaas representa a tentativa de equilíbrio entre as partes, e a atriz traduz bem essa postura conciliadora em meio ao colapso emocional ao redor. Já Elle Fanning confirma sua habilidade em se conectar emocionalmente com uma história da qual sua personagem não participa de forma direta, um papel difícil, que exige delicadeza e precisão.
Embora não seja acessível a todos os gostos, a obra se consolida como um estudo de personagem envolvente e seguro de si. A narrativa se desenrola sem concessões fáceis, mantém um tom consistente e alcança um desfecho emocionalmente poderoso.
"KPop Demon Hunters" tem uma direção de arte muito bem executada, com animações caprichadas e traços visualmente atraentes. Os momentos de ação são dinâmicos e lembram até um jogo de videogame, o que me cativou bastante. O humor provavelmente funciona melhor para quem tem pré-disposição a gostar desse tipo de filme; há momentos mais bobinhos, com aquele excesso de expressões caricatas típicos desse tipo de animação, mas ainda assim existem passagens que divertem mesmo sendo adulto. É importante dizer que não sou o público-alvo, então acredito que, dentro da proposta, funciona bem.
O roteiro não traz grandes inovações e a mensagem pode soar um pouco batida. Senti que o principal antagonista e seu desfecho poderiam ter sido melhor explorados. Ainda assim, gosto da forma como a história é segmentada e conduzida sem enrolação: é um filme leve, direto e com duração enxuta.
Não sou muito ligado em K-pop, então as músicas claramente não foram pensadas para mim. Ainda assim, é impossível negar que são bem produzidas e extremamente grudentas. Sem dúvida, são o ponto alto do filme, e suas inserções acontecem nos momentos certos, sem transformar a animação em algo excessivamente musical ou forçado.
Apesar de ter um público-alvo relativamente nichado, "KPop Demon Hunters" consegue entreter quem está disposto a assistir de mente aberta. É uma animação agradável, que não reinventa a roda, mas entrega uma história simpática e bem executada.
"Sirāt" é contemplação em meio ao caos e conduz o espectador a uma jornada onde o senso de perigo paira no ar, porém seu impacto poderia ser melhor aproveitado.
A direção de Oliver Laxe consegue transmitir a beleza árida em um contexto extremamente sensível para todos os envolvidos no filme, nós compreendemos como esse senso de liberdade é importante para estes jovens, e mesmo sem nunca sabermos explicitamente qual o conflito ocorrendo, a iminência do perigo acompanha toda a história. O som sempre grave e sufocante em harmonia com a fotografia e suas paisagens abertas apresentam uma dicotomia muito palpável, é uma experiência sensorial e bem executada.
No entanto, o roteiro peca no seu desenvolvimento. Ele começa apresentando um mistério interessante no começo, mas depois se perde nos percalços dignos de um "road movie" pouco envolventes em termos de narrativa. Não temos tanto espaço para conhecer e nos apegar aos personagens, a ideia de unir um cidadão "comum" como o protagonista com essas pessoas mais alternativas poderia render excelentes interações, mas o filme está mais preocupado com a contemplação do que em contar uma história linear, e isso prejudica nossa simpatia por eles a medida em que os problemas começam a surgir na estrada. Demora até algo realmente impactante acontecer, e quando acontece a história já se perde completamente. Não irei me alongar para não entregar spoilers, mas o final não é nada satisfatório.
Não há muito o que falar de atuações, pois o único ator de ofício aqui é o protagonista Sergi López, é interessante ver a maneira com que ele enxerga o mundo que está conhecendo, mas, como eu citei, o roteiro poderia explorar mais. O elenco de apoio sofre com a inexperiência profissional, mas quando o filme dá chance de eles performarem (por exemplo quando começam a dançar) entregam um bom carisma.
"Sirāt" é uma experiência cinematográfica diferente e merece ser apreciado com carinho, porém, no capricho de ser uma obra reflexiva e sensorial faltou pensar mais na coesão narrativa.
"Song Sung Blue" tem uma premissa interessante ao recusar histórias consagradas e nos contar sobre uma figura que, apesar de emblemática em seu segmento, viveu de poucas glórias profissionais.
A direção é de Craig Brewer, que conduz o filme de forma protocolar, mas eficiente. A fotografia é limpa e se mistura a pequenas sequências que emulam filmagens reais de arquivo. O trabalho de figurino e maquiagem acerta em cheio no estilo e na imersão da obra. O diretor também trabalha bem as cenas musicais: são sempre enérgicas, ajudam a manter um ritmo dinâmico e fortalecem a química do casal protagonista. Além disso, a trilha sonora dispensa qualquer tipo de apresentação.
O roteiro apresenta um aspecto que pode ser visto como qualidade ou defeito, dependendo da perspectiva. O filme opta por condensar muitos acontecimentos, mas raramente se aprofunda em algum deles. Conflitos surgem com frequência e são resolvidos com a mesma rapidez. A sensação é de que a intenção seja sensibilizar o público por meio de uma sucessão de momentos dramáticos. Sob o olhar emocional, funciona: é bonito de se ver e reforça como o amor permeia toda a narrativa, ajudando os personagens a superarem seus obstáculos. Já sob uma análise mais racional, percebe-se a falta de uma história mais encorpada, com excesso de acontecimentos para pouco desenvolvimento.
Isso fica evidente em um momento próximo ao final, quando um conflito aparentemente importante é estabelecido. No instante em que os personagens precisam enfrentá-lo, ocorre um lapso temporal e, de repente, tudo está resolvido. É legal e satisfatório ver a resolução, mas ela acontece de forma abrupta, sem que entendamos exatamente como. As soluções parecem fáceis demais.
As atuações dos protagonistas estão ótimas. Hugh Jackman e Kate Hudson demonstram bastante química e sustentam a narrativa com segurança. Jackman se destaca pelo trabalho corporal e por momentos mais performáticos, enquanto Hudson encontra espaço para explorar os dramas pessoais de sua personagem, um dos poucos trechos em que o roteiro permite um desenvolvimento mais consistente. O núcleo familiar também é interessante, embora apenas Ella Anderson receba maior aprofundamento. Ainda assim, teria sido interessante vê-la mais em cena, especialmente por trazer conflitos que vão além do casal protagonista e que acabam pouco explorados.
"Song Sung Blue" é um filme que na ânsia de emocionar o público e fazê-lo se apegar aos personagens, acaba apressando situações que pedem um pouco mais de calma. Em um primeiro momento é bonito e inspirador, porém ao ser racionalizado vemos o subaproveitamento de ideias que poderiam torná-lo inesquecível.
"The Smashing Machine" busca sair do senso comum ao apresentar uma cinebiografia de um lutador sem focar diretamente em sua carreira e cartel, mas sim em seus conflitos internos e interpessoais.
Benny Safdie já consolidou uma cinematografia muito autoral desde Joias Brutas, dirigido ao lado do irmão. Aqui, no entanto, isso não funciona. Falta o dinamismo do trabalho anterior. Os longos planos com câmera na mão, que deveriam dar um aspecto documental à trama, são pouco aproveitados, e as tomadas excessivamente contemplativas soam vazias, como as cenas de personagens caminhando acompanhados por uma câmera aérea que busca apenas um pseudo refinamento visual.
As sequências de luta não inspiram: são curtas e conduzidas de forma irregular. Ou a câmera está próxima demais, prejudicando o entendimento, ou distante demais, comprometendo o impacto.
A trilha sonora, embora apareça em poucos momentos, é repetitiva e cansativa.
O roteiro tenta abordar os dramas de Mark em um recorte específico de sua vida, mas é irregular. Os desentendimentos com sua esposa não soam naturais, e os diálogos são, em sua maioria, expositivos e rasos. Logo no início, há uma cena em que Mark explica como o MMA funciona; além de artificial, ela falha tanto em caracterizá-lo como alguém simpático quanto em explicar o esporte de maneira orgânica.
Além disso, o longa falha em ser informativo. Entendo que a carreira não seja o foco, mas o filme insiste em reforçar que ele é uma “máquina”, enquanto o que vemos é apenas um lutador medíocre. É uma pena, pois Mark Kerr na vida real é muito maior e mais relevante do que o retrato apresentado.
Quanto às atuações, ambos os atores parecem desperdiçados. Dwayne Johnson está esforçado e mantém seu carisma magnético, enquanto Emily Blunt é sempre uma presença satisfatória em tela. Ainda assim, os dois sofrem com um roteiro fraco que limita suas possibilidades emocionais.
"The Smashing Machine" tem uma maquiagem muito bem executada e uma premissa interessante, mas sua execução resulta em um filme decepcionante e entediante na maior parte do tempo.
"One Battle After Another" faz jus ao próprio título ao entregar exatamente o que promete: uma sucessão de acontecimentos que capturam a atenção do início ao fim.
Paul Thomas Anderson conduz o tom do filme como um maestro à frente de sua orquestra. O prólogo apresenta todo o background da história de maneira dinâmica e eficiente, permitindo que acompanhemos seus desdobramentos 16 anos depois já familiarizados com o que aconteceu. A partir daí, não há espaço para desperdício. Mesmo com quase três horas de duração, cada cena tem propósito, cada sequência prepara algo relevante, tudo é conduzido com precisão. PTA também subverte certos conceitos associados a filmes de resgate, especialmente nas cenas de perseguição, que adotam uma perspectiva mais contemplativa e menos frenética. A tensão surge de tomadas abertas em estradas longas e retas, sem o uso exagerado de cortes rápidos, o que torna tudo ainda mais impactante.
O roteiro demonstra maturidade ao abordar o tema da revolução sem romantizar nem demonizar seus envolvidos. Compreendemos as motivações dos revolucionários ao mesmo tempo em que somos confrontados com as consequências de seus atos. Paralelamente, o desenvolvimento do núcleo de personagens é inspirador. Cada elemento não apenas cumpre uma função narrativa essencial, como também possui personalidade própria e identidade marcante. Desde os revolucionários até a misteriosa “sociedade secreta” fictícia, que mesmo com pouco tempo de tela deixa um forte impacto narrativo e carrega um subtexto riquíssimo. Há também o cuidado em não deixar pontas soltas; o espectador termina o filme com a sensação de que tudo o que precisava ser contado foi devidamente encerrado, sem excessos. Assim como a direção, o roteiro mantém controle absoluto do tom, transitando entre diferentes gêneros de forma orgânica, tornando o longa envolvente e divertido, sem jamais perder a tensão e o senso de urgência que atravessam toda a narrativa.
As atuações elevam ainda mais o material. Leonardo DiCaprio entrega um protagonista diferente do esperado, e isso funciona muito bem. Seu personagem desmonta a imagem clássica do herói de guerra ao se apresentar como um ex-revolucionário atrapalhado, ao mesmo tempo em que deixa transparecer vestígios do homem que um dia foi através de suas interações com antigos companheiros. Benicio Del Toro, apesar de surgir mais tarde e ter menos tempo de tela, desperta curiosidade imediata. Sua postura serena transmite a sensação de que ele está sempre no controle, oferecendo ao protagonista (e ao público) uma calma quase reconfortante em meio ao caos. Chase Infiniti cresce ao longo do filme de maneira surpreendente; inicialmente parece ser o elo mais frágil, mas ganha força justamente nos momentos mais decisivos. Teyana Taylor imprime intensidade e paixão no prólogo, sendo fundamental para que sintamos empatia pelo grupo revolucionário, ao mesmo tempo em que revela fragilidade e decisões questionáveis. No entanto, a grande atuação é a de Sean Penn. Seu personagem é detestável, suas ações são desprezíveis, mas seu carisma adiciona camadas que o afastam do clichê do coronel vilanesco. Seus trejeitos, sua maneira de caminhar e sua presença imponente constroem um antagonista vivo, cuja motivação expõe um ego frágil diante das próprias consequências. É uma performance praticamente irretocável.
"One Battle After Another" marca o retorno de PTA em grande estilo, mais uma obra de um diretor que, com enorme probabilidade, verá este filme se consolidar como mais um clássico nos próximos anos.
"Jurassic World Rebirth" é mais uma tentativa de revigorar uma franquia que deveria estar tendo um descanso merecido.
A direção de Gareth Edwards entrega sequências interessantes de ação e tensão, porém peca em fazer esses momentos serem raros a ponto de não sustentar completamente o que estamos assistindo. Os efeitos são legais de assistir, mas faltou inspiração artística, principalmente em alguns momentos contemplativos que o diretor tenta trazer sem qualquer impacto. Sem contar todo o segmento da família que é completamente dispensável, trazendo uma ideia até de domesticar um dinossauro... completamente sem sentido.
O roteiro é paupérrimo, é o velho clichê da empresa malvadona buscando lucro a todo custo, e seu representante nesta trama tem um arco tão mal desenvolvido quanto sua resolução simples e apressada. Os personagens não possuem desenvolvimento e tudo o que sabemos sobre eles é contado em diálogos rasos e que não traz absolutamente nada de relevante.
As atuações pagam o preço por um roteiro superficial, é um desperdício ver atores como Mahershala Ali e Scarlett Johansson conduzindo personagens tão pouco carismáticos.
No fim, "Jurassic World Rebirth" não consegue transformar seu potencial visual em sequências realmente inspiradas. Resta um produto excessivamente protocolar que, em grande parte do tempo, parece mais uma obrigação do que um espetáculo capaz de envolver até os créditos finais.
Admito que estava receoso em assistir a esta adaptação por se tratar de uma história amplamente conhecida e já bastante revisitadas pelo cinema. Ainda assim, fui positivamente surpreendido pelo resultado apresentado.
Guillermo del Toro consegue renovar a narrativa de "Frankenstein" ao conduzi-la por uma perspectiva mais próxima do drama existencial do que do tradicional terror de monstro, tantas vezes explorado a ponto de se tornar caricato. O refinamento estético empregado pelo diretor revela novas camadas a uma criatura menos grotesca e mais sofisticada. É o monstro de Frankenstein mais humano que já vimos, sem que isso descambe para um sentimentalismo exagerado ou um melodrama excessivo.
O roteiro reconstrói a história como uma verdadeira fábula gótica, dividindo o olhar entre o já conhecido cientista obcecado e sua criação, que descobre o mundo enquanto enfrenta as consequências de uma existência marginalizada. No entanto, acredito que o filme tropeça em parte de suas reflexões filosóficas e críticas. Esse aspecto, que deveria ser seu maior diferencial, por vezes se torna redundante, permitindo que você antecipe com facilidade como determinadas sequências irão se desenrolar.
Gosto muito de Oscar Isaac, e aqui ele incorpora com precisão o cientista consumido pelo próprio senso de grandeza. Inicialmente, nutrimos certa empatia por ele, mas rapidamente ele faz questão de revelar o quão desprezível pode se tornar. Jacob Elordi está irretocável ao entregar corpo e alma a uma criatura singular e conceitualmente fascinante; seu trabalho vocal é especialmente impressionante. Menção honrosa para Christoph Waltz sendo... Christoph Waltz, o que por si só já é um atrativo.
"Frankenstein" ressignifica a trajetória de um dos monstros mais icônicos da cultura pop ao colocá-lo no centro de sua própria narrativa e enfatizar sua humanidade. Ainda assim, sua certa autocomplacência compromete o impacto do terror que deveria compor sua essência. Faltou um pouco mais de equilíbrio nesse aspecto.
O choque cultural com este documentário é absurdo, a realidade aqui é retratada com tanta crueza que parece um universo paralelo. Sara é uma mulher forte e é satisfatório ver que apesar dos pesares, ela não está completamente sozinha em sua luta.
Ela pode não ser capaz de mudar a realidade cultural que a cerca, mas com certeza mudará a vida de pelo menos algumas das meninas que a admiram e se inspiram por ela. E com certeza isso já é recompensador.
"Bugonia" é mais uma obra-prima de Yorgos Lanthimos, que sabe utilizar absurdos situacionais para gerar entretenimento ao mesmo tempo em que nos faz viajar na psique de seus personagens peculiares.
Lanthimos já é um diretor bastante consolidado por sua autoralidade, e aqui sua identidade está presente na maneira como ele conduz a trama e os absurdos causados por ela. A tensão entre os conflitos é criada a partir do contraste entre as duas partes, uma sendo mais fria e outra mais impulsiva, e isso resulta em uma série de acontecimentos no final que deixam o espectador curioso para descobrir como irá terminar. Há também um tom ácido nos diálogos, muito presente na filmografia do diretor; em certos momentos, a gente até acha graça de algumas sacadas, mesmo o filme não se apegando a esse propósito.
O roteiro é muito bem escrito, desenvolve a narrativa com passagens afiadas e apresenta críticas a ambos os lados: de um lado, a corporação que trata pessoas como cobaias; do outro, a euforia coletiva causada por teorias conspiratórias e a maneira como se espalham. O final é bem construído, mas a sensação que me deu foi de que faltou "algo". Foi como se o longa quisesse surpreender, porém estivesse com medo de ousar um pouco mais.
Emma Stone entrega mais uma de suas irretocáveis performances ao lado de Lanthimos. Sua personagem transita entre a calma e a explosão em momentos específicos; é um trabalho de muita intensidade e carisma. Jesse Plemons e Aidan Delbis trabalham muito bem como a tradicional "dupla de vilões", em que um é o cérebro e o outro apenas segue ordens. Plemons, no entanto, puxa a atenção para si: ele sempre tem uma resposta ou uma teoria mirabolante para algo apresentado, e o trabalho estético é muito bem realizado. Ele parece perfeitamente um conspiracionista que vive para provar seu ponto.
"Bugonia" apresenta uma guerra narrativa conduzida de forma brilhante, consolidando mais uma história marcante desse excelente (e maluco) diretor.
"Viva Verdi!" é de encher os olhos de qualquer fã de ópera, como é meu caso. As personalidades aqui apresentadas são riquíssimas em conteúdo e carisma, cada um tem sua história e de certo modo todos tem algo em comum, encontram na música o grande pilar da sua existência e razão de vida.
Somos apresentados a grandes músicos e arquivos de valor inestimável para todos que apreciam a boa cultura, suas histórias são inspiradoras. Muito legal também o projeto que eles tem com jovens estudantes de música, é um encontro de geração importante para a construção de novos talentos e também para que os veteranos tenham uma companhia para dividir vivências e conhecimento. A trilha sonora é irretocável, como eu disse, um prato cheio para quem gosta de ópera de qualidade enquanto aprende coisas novas sobre o gênero.
A única coisa que eu gostaria de ter visto mais é o funcionamento estrutural da "Casa Verdi", nós acompanhamos um pouco da rotina dos residentes mas gostaria de ver mais sobre os horários, funcionários, etc. Nada que prejudique a qualidade da obra, é apenas algo que eu senti falta.
"Viva Verdi!" é um documentário muito gostoso e leve de assistir, sobre um projeto que mantém vivo o sonho de tantos artistas que por vários motivos não tiveram o sucesso que um dia almejaram e mereceram. O final é belíssimo, apesar de ser um choque de realidade muito grande em contraste com o que vemos ao longo do doc.
"The Lost Bus" traz o gênero de catástrofe voltando suas atenções a um universo muito pequeno de pessoas, se desvencilhando um pouco do que normalmente vemos em filmes assim, que envolvem grandes nações ou até o mundo inteiro. É sempre bom ver filmes com essa proposta, pois a gente se apega mais aos envolvidos e às suas histórias individuais.
Paul Greengrass é extremamente competente na direção. Ele retrata com detalhes diferentes cenários em uma situação de incêndio em larga escala, as falhas de comunicação entre os serviços e principalmente a maneira como o fogo se espalha, de forma muito verossímil e imersiva. É um filme preocupado em retratar não apenas o fato central, mas também o que acontece ao redor, ainda que de forma superficial.
O roteiro é o clássico “herói improvável”. Por ser uma história meramente baseada em um evento real, existem muitas dramatizações, principalmente no começo. Você se pergunta como é possível alguém ter uma vida tão desgraçada quanto a do nosso protagonista. Conforme o longa se desenvolve, vamos nos afeiçoando a ele, mas ainda assim é uma história carregada de clichês, exposição e previsibilidade. É competente em nos deixar tensos em alguns momentos, mas no geral não apresenta nada de diferente do que outros filmes desse estilo já apresentaram.
Matthew McConaughey entrega mais uma de suas atuações brilhantes, contrastando sua personalidade introspectiva com momentos emotivos e emergenciais que o ator tira de letra. Ele é sensacional. America Ferrera também está excelente, e o roteiro dá bastante espaço para sua personagem brilhar. Ela não está ali apenas como suporte ao protagonista, mas também para ajudá-lo ativamente, e isso foi muito legal de ver.
"The Lost Bus" é uma história real muito bem dirigida com o bom e velho drama hollywoodiano. Apesar de não inovar em nada, é gostoso de assistir e nos emociona no final, além de ter me deixado fascinado com a história real que foi contada.
A Bruxa do Amor
3.6 234 Assista Agora"The Love Witch" traz uma sátira esotérica que chama atenção por seu conceito artístico, mas que se perde quando nos acostumamos com este conceito e precisamos de uma história coesa.
Anna Biller constrói um universo em torno de elementos que remetem a filmes clássicos, incluindo a gravação sendo em 35mm. Toda a estética mais antiga, com cores vibrantes e psicodélicas, é misturada com alguns elementos modernos também, o que pode ser associado a essa pegada mais satírica que a diretora quis transmitir. Eu compreendo o que ela quis fazer, mas, para mim, teria sido melhor se mantivesse apenas a pegada mais clássica e conceitual, essa quebra de conceito tirou um pouco minha imersão no filme.
Outra coisa interessante que eu gostei aqui foi a maneira com que a bruxaria é retratada. Nota-se o carinho que a diretora empregou nestes momentos. Por exemplo, quando a protagonista está fazendo seus feitiços, ou em momentos ritualísticos, a gente consegue comprar a ideia de que aquilo realmente pode acontecer em algum clã de bruxas de verdade.
O roteiro, porém, não dispõe da mesma criatividade e dinamismo. Eu vejo um potencial enorme desperdiçado na protagonista, que não é desenvolvida da maneira correta, e ela própria não sabe se quer ser uma princesa de conto de fadas ou uma clássica femme fatale de filme de terror. Há também voice overs desnecessários e expositivos demais, e o tom do filme é inconsistente quando assume uma proposta mais investigativa, principalmente porque essas partes são resolvidas sempre com muita facilidade.
Samantha Robinson não tem culpa do roteiro desperdiçar sua personagem, e ela entrega uma bruxa muito crível. Seja por sua aparência extremamente atraente para atrair suas vítimas, ou por alguns trejeitos e olhares sempre serenos, como se soubesse que controla a situação. É uma personagem que poderia virar um clássico do cinema e me lembrou, por vezes, a Elvira.
"The Love Witch" é um filme visualmente belíssimo e conceitualmente muito interessante, porém que carrega consigo inconsistências narrativas que acabam não sustentando suas 2 horas de duração da maneira que se espera.
Uma História de Amor Americana
3.9 45 Assista Agora"Dinner in America" não causou tanto alarde desde seu lançamento, porém é uma história original que utiliza de clichês para construir um "conto de fadas subversivo" que cativa e encanta ao mesmo tempo que causa uma estranheza curiosa conforme o assistimos.
A direção faz uma reconstrução de época sensacional. Mesmo sem deixar muito claro em que época o filme se passa, existe uma imersão muito grande naquele universo, principalmente pela ambientação e pela forma como aquele cotidiano é apresentado. Gosto também da maneira como o filme desenvolve seus personagens, por exemplo em diferentes cenas de refeições em família. São umas três ao longo do filme e, apesar de terem uma estrutura parecida, cada uma se desenvolve de uma maneira completamente diferente. A mistura entre humor ácido, humor situacional e crítica à classe média americana também funciona muito bem, principalmente porque o filme consegue fazer isso sem ficar moralista ou pedante.
O roteiro aproveita muito bem esses momentos de humor para deixar a experiência leve, mas também sabe utilizar os momentos emocionantes na hora certa. Ele usa e abusa de alguns clichês, e apesar de funcionarem dentro da proposta do filme, alguns são tão telegrafados que podem incomodar. Alguns personagens também ficam caricatos demais em determinados momentos, mas nada que prejudique a experiência como um todo.
Kyle Gallner e Emily Skeggs formam uma dupla excelente. A química entre os dois é sensacional e é muito satisfatório acompanhar como ambos vão se desenvolvendo com a ajuda um do outro. Eles também acabam sofrendo um pouco com essa caricatura dos personagens, mas no geral é uma dupla que engrandece muito o filme.
"Dinner in America" é estranho, atraente e divertido. Certamente é uma excelente surpresa para um filme tão discreto, e eu não estranharia se daqui alguns anos ele fosse revisitado e virasse um clássico cult.
Backrooms: Um Não-Lugar
3.2 460 Assista AgoraApesar de eu não ser um dos maiores entusiastas do tema, "Backrooms" me deixou extremamente curioso desde seu anúncio, pois um tema tão nichado e fechadinho dentro da internet representa um grau de dificuldade elevado na hora de preencher as lacunas que um longa exige. E creio que este filme não conseguiu fugir dessa dificuldade, ainda que com momentos de brilhantismo.
Kane Parsons já tem familiaridade com esta temática e isso se reflete na maneira com que ele domina a cinematografia nos momentos em que estamos dentro das backrooms, o diretor controla bem o tom para manter um terror equilibrado entre o que vemos e o que é subjetivo, com sustos pontuais e uma tensão crescente em meio ao ambiente claustrofóbico e desconhecido, inclusive a escuridão é um elemento que o Kane usa para esconder algo e assim nos deixar aflitos justamente pelo que não estamos vendo.
Porém, o filme oscila (para não dizer que ele decai mesmo) fora desses espaços, quando a direção temática precisa dar lugar para um roteiro que não sustenta a história por si só. O desenvolvimento dos personagens é pouco inspirado a ponto de eu não nutrir simpatia por absolutamente ninguém que está em tela, e o próprio background dos dois protagonistas é mal trabalhado: a história do Clark é contada através de diálogos expositivos e possui um conflito raso e pouco explorado, enquanto no caso da Mary o longa aposta em flashbacks excessivamente subjetivos, buscando abraçar uma abstração narrativa desnecessária e que não acrescenta em quase nada além de teorias. Toda essa limitação faz com que a estrutura do roteiro seja entediante e redundante, poderia ter uns 20 minutos a menos que funcionaria melhor.
O nível dos atores acaba sendo puxado para baixo por causa do roteiro, porém eles entregam da melhor forma a personalidade que cada personagem exige. Chiwetel Ejiofor equilibra ira, emoção e contemplação nos momentos certos e nos prende a atenção dentro do labirinto, pois as emoções dele são paralelas as do espectador (desde curiosidade inicial até outras que desencadeiam conforme os acontecimentos se desenrolam). Renate Reinsve entrega um trabalho competente ao retratar uma psiquiatra cética entrando em contato com esse universo e lidando com o pouco de história que o roteiro oferece para sua personagem.
"Backrooms" é um ótimo filme de terror, mas com uma narrativa problemática que parece servir apenas como pano de fundo para que este horror experimental seja apresentado ao público. É difícil se manter interessado no longa quando estamos na superfície, porém a experiência é recompensadora ao adentrarmos no que realmente interessa.
Devoradores de Estrelas
4.0 800 Assista Agora"Project Hail Mary" ousou ser uma ficção científica simples em uma indústria que busca sempre extrair os temas mais complexos e reflexivos (e, por vezes, abstratos) desse gênero. É como se o lado científico do filme fosse apenas um background discreto para uma história pessoal e sensível sobre amizade.
Os diretores Christopher Miller e Phil Lord conseguem manter o ritmo do filme dinâmico e leve mesmo apesar das suas duas horas e meia de duração, e a montagem encorpa o longa na medida certa, principalmente no primeiro ato em que o protagonista está sozinho. Aliás, outro ponto positivo é justamente a maneira com que os recursos narrativos são usados de forma inteligente: quando começaram os flashbacks eu achei que seriam um tédio expositivo, mas foi o oposto, é uma forma de contar a história e dimensionar o problema principal para que a gente entenda que de fato o que está acontecendo é grave. Uma coisa que me agradou muito foi a maneira com que a imensidão espacial é retratada, principalmente na maneira com que o silêncio é utilizado nesses momentos.
O roteiro é muito bem escrito e é o motor principal do filme, que concede a ele a leveza e o humor sem cair em algo bobinho, ao mesmo tempo que mantém a sobriedade quando necessário. A ameaça principal sempre está presente, mesmo quando damos risada das piadas situacionais que o longa nos mostra. Eu confesso que no começo as piadas me causaram um pouco de estranhamento, pois eu não sabia do que se tratava o filme (sequer havia lido a sinopse), então fui esperando algo diferente do que o filme de fato é. Porém não demorou nada para que ele me ganhasse e eu estivesse completamente vidrado na sua história.
A atuação do Ryan Gosling está extremamente equilibrada entre o cara desleixado e o gênio necessário, ele sustenta tanto os momentos de leveza quanto os mais dramáticos e cria um personagem autoral, com suas próprias manias e maneirismos. A relação entre o protagonista e o Rocky sustenta o filme de tal maneira que se o longa fosse apenas uma história dos dois, já valeria a pena. E por falar no Rocky, o personagem é muito bem desenvolvido e tem um carisma absurdo, suas expressões corporais dizem muito e a gente o entende com pouco, e acompanhar essa amizade crescendo é muito satisfatório. Isso faz com que este filme te faça bem mesmo nos seus momentos dramáticos. E a Sandra Hüller é uma coadjuvante que funciona muito bem para dar a carga emocional e o senso de urgência que a história precisa, mesmo quando ela não está em tela sua presença é impactante através das consequências que a personagem traz para a trama.
"Project Hail Mary" é um blockbuster de ficção científica que surpreende ao mostrar que nem todo filme espacial precisa de uma narrativa densa e complexa para funcionar, é fácil de gostar e acredito que daqui uns anos ele já terá o merecido status de clássico.
Obsessão
3.9 937 Assista Agora"Obsessão" é um projeto corajoso de um diretor promissor que, apesar de vir do YouTube e conhecer a linguagem digital, não permitiu que sua obra caísse em fórmulas batidas apenas para viralizar.
Curry Barker é o principal cérebro por trás do filme. O fato de dirigir, roteirizar e editar o próprio longa lhe dá uma autonomia criativa que permite moldar a obra da maneira que deseja. O tom é de um terror consistente, com pitadas sutis de humor pontual que quebram o gelo em alguns momentos por meio de um constrangimento irônico. Os poucos jumpscares são eficientes, enquanto o verdadeiro horror está no desconforto e na montanha-russa de sentimentos que transitam em pequenos espaços de tela. Até mesmo o horror gráfico é utilizado com equilíbrio, sem saturar. É como se o diretor soubesse dosar todos esses elementos sem deixar que um se sobreponha ao outro.
O roteiro é bem construído e não perde tempo para colocar sua trama em movimento. É interessante como a questão moral é abordada sem que o filme se torne excessivamente psicológico ou pretensioso; não há uma ambição de ser mais do que precisa. Minha única crítica está na estrutura narrativa, que acaba sendo um pouco repetitiva ao apresentar conflitos diferentes em torno de um mesmo elemento, ainda que em escalas distintas. Gostaria que esses momentos fossem um pouco mais dedicados aos coadjuvantes e a um conflito interno que o filme apresenta de forma sutil em alguns momentos.
Inde Navarrette carrega o filme com maestria, alternando o tom de sua personagem de forma intensa em espaços curtos de tempo. Eu me encantei com a maneira como ela trabalha o olhar: seus olhos brilham do mais absoluto nada quando a cena exige e, logo depois, assumem uma expressão seca com a mesma intensidade quando a emoção muda. Michael Johnston, por outro lado, não me agradou tanto. Seu personagem é excessivamente inseguro e representa uma caricatura bastante batida do "nerd esquisito que não sabe lidar com mulher". Conforme a história avança, ele ganha camadas interessantes, mas acredito que essa caracterização na primeira metade do longa acabou me incomodando demais. Cooper Tomlinson e Megan Lawless também demonstram um enorme potencial. Mesmo com pouco tempo de desenvolvimento, ambos me agradaram, embora eu ache que algumas de suas situações poderiam ter sido melhor trabalhadas. Ainda assim, o filme consegue fazer com que simpatizemos bastante com eles.
"Obsessão" é um terror que sabe impactar quando precisa e também oferecer momentos de respiro enquanto constrói sua tensão. É um romance perturbador que trabalha o conceito de "cuidado com o que deseja" de maneira eficiente, sem soar canastrão. Mesmo com alguns problemas narrativos, é uma grata surpresa dentro do gênero.
Diane Warren: Relentless
3.3 20Documentário essencial para qualquer fã de cinema, ainda mais se for uma pessoa que acompanha temporada de premiação. Gostei de saber mais sobre a Diane e também sobre algumas de suas principais composições. Acompanhamos também um pouco da sua relação quase obsessiva com o Oscar até finalmente receber um reconhecimento honorário da academia.
A música concorrente deste ano, apesar de ser um projeto muito pessoal, realmente não é tão boa. Porém é sempre bom ver a artista concorrendo, e apesar de ela já ter um prêmio por suas contribuições, espero que algum dia ela vença diretamente por algum trabalho.
Hamnet: A Vida Antes de Hamlet
4.1 486 Assista Agora"Hamnet" traz a catarse artística que sucede o luto da maior dor que um ser humano pode enfrentar, a perda de um filho.
Chloé Zhao conduz o filme com uma direção a princípio contida para construir a beleza de um lar vivo quase perfeito, com planos amplos realçando belezas naturais e a dinâmica familiar. Aos poucos, conforme a alegria dá lugar à angústia, a diretora invade o ambiente com planos mais fechados, sufocando seus personagens em uma sensação de impotência que contagia até quem está assistindo. Em determinados momentos o tom do filme se torna um pouco manipulativo ao dramatizar demais a história, e no final a diretora pesa a mão; o encerramento estava lindo com a encenação de Hamlet, mas alguns excessos tornaram o trecho meio pretensioso, especialmente envolvendo uma ação coletiva que, para mim, não funcionou. E a trilha sonora utilizada me tirou um pouco da cena por ser algo já batido, talvez o silêncio tivesse valorizado mais o momento retratado.
O roteiro subverte o senso comum de representar Shakespeare como gênio, deixando-o na sombra enquanto sua esposa Agnes assume o protagonismo. É simbólico que o nome do escritor seja pronunciado uma única vez em todo o filme; o “gênio” aqui está contido, mais humano e frágil. Há apenas um monólogo que parece ter sido escrito para funcionar como um lapso de genialidade de William, mas acaba destoando. Em contrapartida, a atenção que o texto dedica à esposa é o que sustenta o tom emotivo do longa: trata-se de uma protagonista cheia de camadas, que assume o difícil papel de cuidar da casa enquanto lida com o luto praticamente sozinha.
Jessie Buckley entrega uma performance inspiradora e emocionante; a direção lhe dá bastante espaço para reagir ao que é dito e ao que acontece, e a atriz extrai o máximo disso com intensidade e vibração. Paul Mescal demora um pouco para convencer, em parte porque o roteiro não lhe oferece tanto espaço. Ainda assim, sua atuação cresce junto do personagem quando ele é mais exigido em momentos de maior carga emocional. Também gostei muito do elenco mirim, em especial Jacobi Jupe, que interpreta Hamnet com grande carisma.
"Hamnet" desconstrói um gênio enquanto ilumina uma protagonista silenciosa da qual o mundo muitas vezes esquece que existiu. É uma história sobre distintas abordagens do luto e sobre como a arte pode transformar esse sentimento em algo suportável.
Kokuho: O Preço da Perfeição
3.6 33 Assista AgoraInteressante como "Kokuho" traz uma história sobre uma arte pouco conhecida no resto do mundo, neste caso, o kabuki.
Sang-il Lee conduz o filme com muito carinho e explora os detalhes minuciosos que tornam o treinamento para o kabuki tão intenso. Os momentos teatrais são quando a direção mais brilha; é recompensador acompanhar o resultado final de tanto trabalho duro. Lee tem um olhar sensível à arte dentro de sua obra, colocando o espectador em uma visão privilegiada ao mesclar bastidores com o espetáculo teatral sem perder o ritmo.
Sobre a duração, fiquei com um sentimento dúbio. Sim, é um filme excessivamente longo, mas ele aborda muita coisa de uma vez. No final, fiquei imaginando como seria uma trilogia de "Kokuho". Alguns lapsos temporais contam pequenos fragmentos de uma história com lacunas; compreendemos o que aconteceu, mas faltaram camadas. Para um único filme, é realmente longo e um pouco cansativo. Caso fosse dividido em três partes e desenvolvessem melhor cada etapa, poderia se tornar uma história mais coesa e encorpada.
O roteiro acaba pecando justamente por isso que citei: há muita coisa acontecendo ao mesmo tempo e sem o respiro necessário para digerirmos os acontecimentos. Ainda assim, o longa brilha quando se trata de estudo de personagem e em relação às consequências de uma vida inteira dedicada a uma arte. O protagonista se vê completamente imerso naquele universo e cego de qualquer discernimento que possa humanizá-lo, pois foi criado para ser o maior. Um ponto que senti faltar foi a exploração mais aprofundada da relação do personagem com a Yakuza. No início, acreditamos que isso terá importância ao longo da narrativa, mas, na maior parte do tempo, torna-se apenas um detalhe facilmente esquecido.
Kikuo é interpretado por Sōya Kurokawa na adolescência e por Ryo Yoshizawa na maior parte de sua vida. Ambos os atores dão vida ao protagonista de forma muito honesta: o primeiro apresenta um garoto mais inseguro, buscando seu lugar, enquanto o segundo entrega um Kikuo mais confiante, conforme o texto exige, sem deixar de evidenciar suas fragilidades pontuais. A entrega corporal de ambos também merece destaque e realça ainda mais a beleza do kabuki.
"Kokuho" é um estudo cultural de grande valor artístico que, apesar de pecar em sua estrutura narrativa, entrega um universo interessantíssimo de conhecer e acompanhar em todo o seu desenrolar.
Marty Supreme
3.6 379 Assista Agora"Marty Supreme" é uma "ficção biográfica" que distorce pessoas reais para ter liberdade de contar a história à sua própria maneira.
Josh Safdie conduz o filme com um tom bastante assertivo e, mesmo sendo longo, em momento algum dá espaço para o tédio. Somos constantemente bombardeados por situações que desencadeiam novas consequências, criando um efeito dominó contínuo. O diretor transita entre tensão, drama e comédia sem perder o controle ou tornar o longa pretensioso. Há também muitos enquadramentos fechados e claustrofóbicos que, somados à câmera na mão, mantêm constante o senso de urgência que a narrativa quer transmitir.
O roteiro não faz questão de transformar o protagonista em um típico "herói" que filmes sobre esporte costumam retratar. Aqui, Marty é falho e, mesmo tomando decisões equivocadas o tempo inteiro, nos pegamos torcendo por ele. É interessante notar como ele encara problemas sérios e sensíveis. Uma sequência que ilustra bem isso é quando ele pede para um personagem contar uma história envolvendo mel em tom jocoso, quando, na verdade, a situação é profundamente triste e surpreende pela forma como é conduzida.
Apesar de seu caráter duvidoso e de escolhas questionáveis, vemos lapsos de humanidade nos poucos momentos em que Marty parece realmente se importar com quem está ao seu lado, o que nos aproxima dele. O final reforça essa dimensão e encerra a trajetória de maneira satisfatória.
Para algumas pessoas, a experiência pode soar cansativa pela quantidade de informação em um filme de longa duração. Para mim, porém, isso não pesou em nenhum momento. Os diálogos são muito bem escritos e servem diretamente ao desenvolvimento da narrativa, fazendo a tensão crescer a cada cena. Não há espaço para trivialidades, cada linha carrega uma motivação e uma consequência.
Timothée Chalamet está impecável e este é, até agora, seu melhor papel. Ele incorpora com precisão a figura do homem obstinado, capaz de tudo para vencer. Seu trabalho corporal entrega a intensidade necessária ao personagem, e seu carisma é o que nos faz simpatizar com ele até nos momentos mais difíceis. Odessa A'zion tem um desenvolvimento maior do que eu imaginei. Sua personagem possui motivações próprias e também toma decisões questionáveis, o que me fez criar por ela o mesmo apego que senti por Marty. Tyler, the Creator, mesmo com pouco tempo de tela, entrega uma atuação carismática e marcante, apoiando o protagonista sem perder sua própria individualidade e conflitos.
"Marty Supreme" entrega uma história sobre obsessão pelo sucesso com a intensidade que essa premissa exige. É um filme sufocante, mas que encontra leveza e sarcasmo nos momentos certos. Mesmo extenso, é satisfatório do início ao fim e é o tipo de obra que permanece na memória.
Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria
3.6 205 Assista Agora"If I Had Legs I'd Kick You" traz uma performance feminina marcante e uma história impactante sobre pressão social e suas consequências.
A diretora Mary Bronstein conduz o longa de forma propositalmente claustrofóbica e angustiante, com enquadramentos fechados que enfatizam o desconforto constante da protagonista. O estilo frenético da montagem dita um ritmo acelerado, e a sucessão de acontecimentos nos mantém em alerta, atentos ao que virá em seguida. Ainda assim, acredito que alguns momentos foram interrompidos cedo demais, especialmente certas situações que não se resolvem em cena, o que acaba gerando uma frustração pontual.
O roteiro não tem qualquer complacência com a protagonista, e nós tampouco conseguimos deixar de sentir por ela. É interessante perceber como a obra subverte a visão tradicional da dona de casa: aqui, a maternidade se torna a principal engrenagem para que sua vida se transforme em uma bola de neve caótica. Senti falta, porém, de um momento mais claro de respiro ou catarse. A personagem é constantemente bombardeada por situações tensas até o fim, e esse acúmulo torna a experiência por vezes cansativa e pouco recompensadora. Há algo próximo disso no desfecho, mas não foi suficiente para me convencer.
Rose Byrne encarna sua personagem de corpo e alma; sentimos em seu rosto e em suas expressões o quanto aquela realidade é exaustiva. Suas compulsões e tiques dão identidade e veracidade à figura que constrói. Conan O'Brien surpreende ao interpretar um terapeuta apático e, em certos momentos, irritante, afastando-se completamente da imagem divertida que temos dele. Já A$AP Rocky está muito bem e é o único que oferece alguma atenção genuína à protagonista, evidenciando como ela lida com alguém que tenta ajudá-la, algo a que claramente não está acostumada.
"If I Had Legs I'd Kick You" peca um pouco em seus próprios excessos, mas ainda assim apresenta reflexões pertinentes sobre maternidade e as cobranças impostas às figuras femininas, especialmente quando lhes falta o apoio necessário.
Arco
3.8 70 Assista Agora"Arco" traz um estilo de animação único e uma história que apesar de parecer simples, é tocante e aborda temas como amizade, pertencimento e meio ambiente sem perder a fluidez narrativa. Apesar de ser um filme leve, ele sabe te emocionar nos momentos necessários.
O desenvolvimento dos personagens é competente e nos faz ter empatia por todos. A dupla de protagonistas tem uma boa química e o roteiro desenvolve a relação deles de um jeito muito natural e gostoso de acompanhar, a amizade deles é verdadeira e emocionante. Até os antagonistas, dos quais eu não estava gostando por causa do jeito "atrapalhado" digno de vilão de desenho animado, após descobrir sua motivação passei a compreendê-los melhor, além de terem um impacto narrativo importante.
"Arco" é o tipo de animação que comove tanto adulto quanto criança, uma experiência original, divertida e tocante. Seu desfecho poderia ter sido melhor explorado, porém o final foi satisfatório.
Zootopia 2
3.7 188 Assista AgoraA animação em si é divertida, tem piadas engraçadas e é gostoso de acompanhar a relação entre o raposo e a coelha, as diferentes personalidades são bem exploradas.
Porém a história além de não ser muito atrativa, apresenta personagens que não funcionaram para mim (me perdoem, aquela cobra é chatinha...) além de muitas vezes se perder em um excesso de informação e/ou acontecimento que não permite que a gente absorva os sentimentos que o filme quer passar. Tem pelo menos uns dois momentos que deveriam ser emocionante, mas que não há o tempo necessário para que este sentimento se estabeleça antes de acontecer algo frenético novamente.
É leve de assistir, mas totalmente esquecível.
Valor Sentimental
3.9 403 Assista Agora“Sentimental Value” constrói seus personagens por meio de camadas e subtextos, contando uma história através do detalhe e do silêncio.
A direção de Joachim Trier demonstra enorme sensibilidade ao observar conflitos íntimos. A câmera repousa, paciente, aguardando as reações dos atores para que compreendamos seus sentimentos pela expressividade. Trata-se de uma experiência sensorial, pouco verbalizada, e narrar dessa forma exige uma complexidade que o diretor domina com segurança. Por ser um longa denso e de ritmo cadenciado, é natural que parte do público não se conecte e o considere arrastado; ainda assim, essa escolha faz parte da própria identidade da obra.
O roteiro caminha em harmonia com a direção e desenvolve a trama com cautela. O texto carrega um realismo palpável, e a maneira como tudo se concentra naquele microcosmo familiar (especialmente dentro da casa) nos insere na dinâmica daquelas relações. Somos espectadores, mas a proximidade é tamanha que quase compartilhamos o peso emocional vivido pelos personagens. Os conflitos emergem e evoluem com sutileza, sem recorrer a artifícios rasos ou explosões dramáticas exageradas. O foco está na forma como cada personagem absorve e reage aos diálogos, e é nisso que reside a força da narrativa.
Stellan Skarsgård e Renate Reinsve conduzem o eixo central de maneira envolvente. Ele transmite um afeto torto, cheio de falhas, mas ainda assim genuíno; ela tenta compreender seus próprios traumas enquanto enfrenta batalhas internas constantes. Inga Ibsdotter Lilleaas representa a tentativa de equilíbrio entre as partes, e a atriz traduz bem essa postura conciliadora em meio ao colapso emocional ao redor. Já Elle Fanning confirma sua habilidade em se conectar emocionalmente com uma história da qual sua personagem não participa de forma direta, um papel difícil, que exige delicadeza e precisão.
Embora não seja acessível a todos os gostos, a obra se consolida como um estudo de personagem envolvente e seguro de si. A narrativa se desenrola sem concessões fáceis, mantém um tom consistente e alcança um desfecho emocionalmente poderoso.
Guerreiras do K-Pop
3.7 221 Assista Agora"KPop Demon Hunters" tem uma direção de arte muito bem executada, com animações caprichadas e traços visualmente atraentes. Os momentos de ação são dinâmicos e lembram até um jogo de videogame, o que me cativou bastante. O humor provavelmente funciona melhor para quem tem pré-disposição a gostar desse tipo de filme; há momentos mais bobinhos, com aquele excesso de expressões caricatas típicos desse tipo de animação, mas ainda assim existem passagens que divertem mesmo sendo adulto. É importante dizer que não sou o público-alvo, então acredito que, dentro da proposta, funciona bem.
O roteiro não traz grandes inovações e a mensagem pode soar um pouco batida. Senti que o principal antagonista e seu desfecho poderiam ter sido melhor explorados. Ainda assim, gosto da forma como a história é segmentada e conduzida sem enrolação: é um filme leve, direto e com duração enxuta.
Não sou muito ligado em K-pop, então as músicas claramente não foram pensadas para mim. Ainda assim, é impossível negar que são bem produzidas e extremamente grudentas. Sem dúvida, são o ponto alto do filme, e suas inserções acontecem nos momentos certos, sem transformar a animação em algo excessivamente musical ou forçado.
Apesar de ter um público-alvo relativamente nichado, "KPop Demon Hunters" consegue entreter quem está disposto a assistir de mente aberta. É uma animação agradável, que não reinventa a roda, mas entrega uma história simpática e bem executada.
Sirāt
3.4 200 Assista Agora"Sirāt" é contemplação em meio ao caos e conduz o espectador a uma jornada onde o senso de perigo paira no ar, porém seu impacto poderia ser melhor aproveitado.
A direção de Oliver Laxe consegue transmitir a beleza árida em um contexto extremamente sensível para todos os envolvidos no filme, nós compreendemos como esse senso de liberdade é importante para estes jovens, e mesmo sem nunca sabermos explicitamente qual o conflito ocorrendo, a iminência do perigo acompanha toda a história. O som sempre grave e sufocante em harmonia com a fotografia e suas paisagens abertas apresentam uma dicotomia muito palpável, é uma experiência sensorial e bem executada.
No entanto, o roteiro peca no seu desenvolvimento. Ele começa apresentando um mistério interessante no começo, mas depois se perde nos percalços dignos de um "road movie" pouco envolventes em termos de narrativa. Não temos tanto espaço para conhecer e nos apegar aos personagens, a ideia de unir um cidadão "comum" como o protagonista com essas pessoas mais alternativas poderia render excelentes interações, mas o filme está mais preocupado com a contemplação do que em contar uma história linear, e isso prejudica nossa simpatia por eles a medida em que os problemas começam a surgir na estrada. Demora até algo realmente impactante acontecer, e quando acontece a história já se perde completamente. Não irei me alongar para não entregar spoilers, mas o final não é nada satisfatório.
Não há muito o que falar de atuações, pois o único ator de ofício aqui é o protagonista Sergi López, é interessante ver a maneira com que ele enxerga o mundo que está conhecendo, mas, como eu citei, o roteiro poderia explorar mais. O elenco de apoio sofre com a inexperiência profissional, mas quando o filme dá chance de eles performarem (por exemplo quando começam a dançar) entregam um bom carisma.
"Sirāt" é uma experiência cinematográfica diferente e merece ser apreciado com carinho, porém, no capricho de ser uma obra reflexiva e sensorial faltou pensar mais na coesão narrativa.
Song Sung Blue: Um Sonho a Dois
3.3 84 Assista Agora"Song Sung Blue" tem uma premissa interessante ao recusar histórias consagradas e nos contar sobre uma figura que, apesar de emblemática em seu segmento, viveu de poucas glórias profissionais.
A direção é de Craig Brewer, que conduz o filme de forma protocolar, mas eficiente. A fotografia é limpa e se mistura a pequenas sequências que emulam filmagens reais de arquivo. O trabalho de figurino e maquiagem acerta em cheio no estilo e na imersão da obra. O diretor também trabalha bem as cenas musicais: são sempre enérgicas, ajudam a manter um ritmo dinâmico e fortalecem a química do casal protagonista. Além disso, a trilha sonora dispensa qualquer tipo de apresentação.
O roteiro apresenta um aspecto que pode ser visto como qualidade ou defeito, dependendo da perspectiva. O filme opta por condensar muitos acontecimentos, mas raramente se aprofunda em algum deles. Conflitos surgem com frequência e são resolvidos com a mesma rapidez. A sensação é de que a intenção seja sensibilizar o público por meio de uma sucessão de momentos dramáticos. Sob o olhar emocional, funciona: é bonito de se ver e reforça como o amor permeia toda a narrativa, ajudando os personagens a superarem seus obstáculos. Já sob uma análise mais racional, percebe-se a falta de uma história mais encorpada, com excesso de acontecimentos para pouco desenvolvimento.
Isso fica evidente em um momento próximo ao final, quando um conflito aparentemente importante é estabelecido. No instante em que os personagens precisam enfrentá-lo, ocorre um lapso temporal e, de repente, tudo está resolvido. É legal e satisfatório ver a resolução, mas ela acontece de forma abrupta, sem que entendamos exatamente como. As soluções parecem fáceis demais.
As atuações dos protagonistas estão ótimas. Hugh Jackman e Kate Hudson demonstram bastante química e sustentam a narrativa com segurança. Jackman se destaca pelo trabalho corporal e por momentos mais performáticos, enquanto Hudson encontra espaço para explorar os dramas pessoais de sua personagem, um dos poucos trechos em que o roteiro permite um desenvolvimento mais consistente. O núcleo familiar também é interessante, embora apenas Ella Anderson receba maior aprofundamento. Ainda assim, teria sido interessante vê-la mais em cena, especialmente por trazer conflitos que vão além do casal protagonista e que acabam pouco explorados.
"Song Sung Blue" é um filme que na ânsia de emocionar o público e fazê-lo se apegar aos personagens, acaba apressando situações que pedem um pouco mais de calma. Em um primeiro momento é bonito e inspirador, porém ao ser racionalizado vemos o subaproveitamento de ideias que poderiam torná-lo inesquecível.
Coração de Lutador: The Smashing Machine
3.0 145 Assista Agora"The Smashing Machine" busca sair do senso comum ao apresentar uma cinebiografia de um lutador sem focar diretamente em sua carreira e cartel, mas sim em seus conflitos internos e interpessoais.
Benny Safdie já consolidou uma cinematografia muito autoral desde Joias Brutas, dirigido ao lado do irmão. Aqui, no entanto, isso não funciona. Falta o dinamismo do trabalho anterior. Os longos planos com câmera na mão, que deveriam dar um aspecto documental à trama, são pouco aproveitados, e as tomadas excessivamente contemplativas soam vazias, como as cenas de personagens caminhando acompanhados por uma câmera aérea que busca apenas um pseudo refinamento visual.
As sequências de luta não inspiram: são curtas e conduzidas de forma irregular. Ou a câmera está próxima demais, prejudicando o entendimento, ou distante demais, comprometendo o impacto.
A trilha sonora, embora apareça em poucos momentos, é repetitiva e cansativa.
O roteiro tenta abordar os dramas de Mark em um recorte específico de sua vida, mas é irregular. Os desentendimentos com sua esposa não soam naturais, e os diálogos são, em sua maioria, expositivos e rasos. Logo no início, há uma cena em que Mark explica como o MMA funciona; além de artificial, ela falha tanto em caracterizá-lo como alguém simpático quanto em explicar o esporte de maneira orgânica.
Além disso, o longa falha em ser informativo. Entendo que a carreira não seja o foco, mas o filme insiste em reforçar que ele é uma “máquina”, enquanto o que vemos é apenas um lutador medíocre. É uma pena, pois Mark Kerr na vida real é muito maior e mais relevante do que o retrato apresentado.
Quanto às atuações, ambos os atores parecem desperdiçados. Dwayne Johnson está esforçado e mantém seu carisma magnético, enquanto Emily Blunt é sempre uma presença satisfatória em tela. Ainda assim, os dois sofrem com um roteiro fraco que limita suas possibilidades emocionais.
"The Smashing Machine" tem uma maquiagem muito bem executada e uma premissa interessante, mas sua execução resulta em um filme decepcionante e entediante na maior parte do tempo.
Uma Batalha Após a Outra
3.7 687 Assista Agora"One Battle After Another" faz jus ao próprio título ao entregar exatamente o que promete: uma sucessão de acontecimentos que capturam a atenção do início ao fim.
Paul Thomas Anderson conduz o tom do filme como um maestro à frente de sua orquestra. O prólogo apresenta todo o background da história de maneira dinâmica e eficiente, permitindo que acompanhemos seus desdobramentos 16 anos depois já familiarizados com o que aconteceu. A partir daí, não há espaço para desperdício. Mesmo com quase três horas de duração, cada cena tem propósito, cada sequência prepara algo relevante, tudo é conduzido com precisão. PTA também subverte certos conceitos associados a filmes de resgate, especialmente nas cenas de perseguição, que adotam uma perspectiva mais contemplativa e menos frenética. A tensão surge de tomadas abertas em estradas longas e retas, sem o uso exagerado de cortes rápidos, o que torna tudo ainda mais impactante.
O roteiro demonstra maturidade ao abordar o tema da revolução sem romantizar nem demonizar seus envolvidos. Compreendemos as motivações dos revolucionários ao mesmo tempo em que somos confrontados com as consequências de seus atos. Paralelamente, o desenvolvimento do núcleo de personagens é inspirador. Cada elemento não apenas cumpre uma função narrativa essencial, como também possui personalidade própria e identidade marcante. Desde os revolucionários até a misteriosa “sociedade secreta” fictícia, que mesmo com pouco tempo de tela deixa um forte impacto narrativo e carrega um subtexto riquíssimo. Há também o cuidado em não deixar pontas soltas; o espectador termina o filme com a sensação de que tudo o que precisava ser contado foi devidamente encerrado, sem excessos. Assim como a direção, o roteiro mantém controle absoluto do tom, transitando entre diferentes gêneros de forma orgânica, tornando o longa envolvente e divertido, sem jamais perder a tensão e o senso de urgência que atravessam toda a narrativa.
As atuações elevam ainda mais o material. Leonardo DiCaprio entrega um protagonista diferente do esperado, e isso funciona muito bem. Seu personagem desmonta a imagem clássica do herói de guerra ao se apresentar como um ex-revolucionário atrapalhado, ao mesmo tempo em que deixa transparecer vestígios do homem que um dia foi através de suas interações com antigos companheiros. Benicio Del Toro, apesar de surgir mais tarde e ter menos tempo de tela, desperta curiosidade imediata. Sua postura serena transmite a sensação de que ele está sempre no controle, oferecendo ao protagonista (e ao público) uma calma quase reconfortante em meio ao caos. Chase Infiniti cresce ao longo do filme de maneira surpreendente; inicialmente parece ser o elo mais frágil, mas ganha força justamente nos momentos mais decisivos. Teyana Taylor imprime intensidade e paixão no prólogo, sendo fundamental para que sintamos empatia pelo grupo revolucionário, ao mesmo tempo em que revela fragilidade e decisões questionáveis. No entanto, a grande atuação é a de Sean Penn. Seu personagem é detestável, suas ações são desprezíveis, mas seu carisma adiciona camadas que o afastam do clichê do coronel vilanesco. Seus trejeitos, sua maneira de caminhar e sua presença imponente constroem um antagonista vivo, cuja motivação expõe um ego frágil diante das próprias consequências. É uma performance praticamente irretocável.
"One Battle After Another" marca o retorno de PTA em grande estilo, mais uma obra de um diretor que, com enorme probabilidade, verá este filme se consolidar como mais um clássico nos próximos anos.
Jurassic World: Recomeço
2.7 481 Assista Agora"Jurassic World Rebirth" é mais uma tentativa de revigorar uma franquia que deveria estar tendo um descanso merecido.
A direção de Gareth Edwards entrega sequências interessantes de ação e tensão, porém peca em fazer esses momentos serem raros a ponto de não sustentar completamente o que estamos assistindo. Os efeitos são legais de assistir, mas faltou inspiração artística, principalmente em alguns momentos contemplativos que o diretor tenta trazer sem qualquer impacto. Sem contar todo o segmento da família que é completamente dispensável, trazendo uma ideia até de domesticar um dinossauro... completamente sem sentido.
O roteiro é paupérrimo, é o velho clichê da empresa malvadona buscando lucro a todo custo, e seu representante nesta trama tem um arco tão mal desenvolvido quanto sua resolução simples e apressada. Os personagens não possuem desenvolvimento e tudo o que sabemos sobre eles é contado em diálogos rasos e que não traz absolutamente nada de relevante.
As atuações pagam o preço por um roteiro superficial, é um desperdício ver atores como Mahershala Ali e Scarlett Johansson conduzindo personagens tão pouco carismáticos.
No fim, "Jurassic World Rebirth" não consegue transformar seu potencial visual em sequências realmente inspiradas. Resta um produto excessivamente protocolar que, em grande parte do tempo, parece mais uma obrigação do que um espetáculo capaz de envolver até os créditos finais.
Frankenstein
3.7 617 Assista AgoraAdmito que estava receoso em assistir a esta adaptação por se tratar de uma história amplamente conhecida e já bastante revisitadas pelo cinema. Ainda assim, fui positivamente surpreendido pelo resultado apresentado.
Guillermo del Toro consegue renovar a narrativa de "Frankenstein" ao conduzi-la por uma perspectiva mais próxima do drama existencial do que do tradicional terror de monstro, tantas vezes explorado a ponto de se tornar caricato. O refinamento estético empregado pelo diretor revela novas camadas a uma criatura menos grotesca e mais sofisticada. É o monstro de Frankenstein mais humano que já vimos, sem que isso descambe para um sentimentalismo exagerado ou um melodrama excessivo.
O roteiro reconstrói a história como uma verdadeira fábula gótica, dividindo o olhar entre o já conhecido cientista obcecado e sua criação, que descobre o mundo enquanto enfrenta as consequências de uma existência marginalizada. No entanto, acredito que o filme tropeça em parte de suas reflexões filosóficas e críticas. Esse aspecto, que deveria ser seu maior diferencial, por vezes se torna redundante, permitindo que você antecipe com facilidade como determinadas sequências irão se desenrolar.
Gosto muito de Oscar Isaac, e aqui ele incorpora com precisão o cientista consumido pelo próprio senso de grandeza. Inicialmente, nutrimos certa empatia por ele, mas rapidamente ele faz questão de revelar o quão desprezível pode se tornar. Jacob Elordi está irretocável ao entregar corpo e alma a uma criatura singular e conceitualmente fascinante; seu trabalho vocal é especialmente impressionante. Menção honrosa para Christoph Waltz sendo... Christoph Waltz, o que por si só já é um atrativo.
"Frankenstein" ressignifica a trajetória de um dos monstros mais icônicos da cultura pop ao colocá-lo no centro de sua própria narrativa e enfatizar sua humanidade. Ainda assim, sua certa autocomplacência compromete o impacto do terror que deveria compor sua essência. Faltou um pouco mais de equilíbrio nesse aspecto.
Rompendo Rochas
3.7 19O choque cultural com este documentário é absurdo, a realidade aqui é retratada com tanta crueza que parece um universo paralelo. Sara é uma mulher forte e é satisfatório ver que apesar dos pesares, ela não está completamente sozinha em sua luta.
Ela pode não ser capaz de mudar a realidade cultural que a cerca, mas com certeza mudará a vida de pelo menos algumas das meninas que a admiram e se inspiram por ela. E com certeza isso já é recompensador.
Bugonia
3.6 561 Assista Agora"Bugonia" é mais uma obra-prima de Yorgos Lanthimos, que sabe utilizar absurdos situacionais para gerar entretenimento ao mesmo tempo em que nos faz viajar na psique de seus personagens peculiares.
Lanthimos já é um diretor bastante consolidado por sua autoralidade, e aqui sua identidade está presente na maneira como ele conduz a trama e os absurdos causados por ela. A tensão entre os conflitos é criada a partir do contraste entre as duas partes, uma sendo mais fria e outra mais impulsiva, e isso resulta em uma série de acontecimentos no final que deixam o espectador curioso para descobrir como irá terminar. Há também um tom ácido nos diálogos, muito presente na filmografia do diretor; em certos momentos, a gente até acha graça de algumas sacadas, mesmo o filme não se apegando a esse propósito.
O roteiro é muito bem escrito, desenvolve a narrativa com passagens afiadas e apresenta críticas a ambos os lados: de um lado, a corporação que trata pessoas como cobaias; do outro, a euforia coletiva causada por teorias conspiratórias e a maneira como se espalham. O final é bem construído, mas a sensação que me deu foi de que faltou "algo". Foi como se o longa quisesse surpreender, porém estivesse com medo de ousar um pouco mais.
Emma Stone entrega mais uma de suas irretocáveis performances ao lado de Lanthimos. Sua personagem transita entre a calma e a explosão em momentos específicos; é um trabalho de muita intensidade e carisma. Jesse Plemons e Aidan Delbis trabalham muito bem como a tradicional "dupla de vilões", em que um é o cérebro e o outro apenas segue ordens. Plemons, no entanto, puxa a atenção para si: ele sempre tem uma resposta ou uma teoria mirabolante para algo apresentado, e o trabalho estético é muito bem realizado. Ele parece perfeitamente um conspiracionista que vive para provar seu ponto.
"Bugonia" apresenta uma guerra narrativa conduzida de forma brilhante, consolidando mais uma história marcante desse excelente (e maluco) diretor.
Viva Verdi!
3.5 18"Viva Verdi!" é de encher os olhos de qualquer fã de ópera, como é meu caso. As personalidades aqui apresentadas são riquíssimas em conteúdo e carisma, cada um tem sua história e de certo modo todos tem algo em comum, encontram na música o grande pilar da sua existência e razão de vida.
Somos apresentados a grandes músicos e arquivos de valor inestimável para todos que apreciam a boa cultura, suas histórias são inspiradoras. Muito legal também o projeto que eles tem com jovens estudantes de música, é um encontro de geração importante para a construção de novos talentos e também para que os veteranos tenham uma companhia para dividir vivências e conhecimento. A trilha sonora é irretocável, como eu disse, um prato cheio para quem gosta de ópera de qualidade enquanto aprende coisas novas sobre o gênero.
A única coisa que eu gostaria de ter visto mais é o funcionamento estrutural da "Casa Verdi", nós acompanhamos um pouco da rotina dos residentes mas gostaria de ver mais sobre os horários, funcionários, etc. Nada que prejudique a qualidade da obra, é apenas algo que eu senti falta.
"Viva Verdi!" é um documentário muito gostoso e leve de assistir, sobre um projeto que mantém vivo o sonho de tantos artistas que por vários motivos não tiveram o sucesso que um dia almejaram e mereceram. O final é belíssimo, apesar de ser um choque de realidade muito grande em contraste com o que vemos ao longo do doc.
O Ônibus Perdido
3.4 115 Assista Agora"The Lost Bus" traz o gênero de catástrofe voltando suas atenções a um universo muito pequeno de pessoas, se desvencilhando um pouco do que normalmente vemos em filmes assim, que envolvem grandes nações ou até o mundo inteiro. É sempre bom ver filmes com essa proposta, pois a gente se apega mais aos envolvidos e às suas histórias individuais.
Paul Greengrass é extremamente competente na direção. Ele retrata com detalhes diferentes cenários em uma situação de incêndio em larga escala, as falhas de comunicação entre os serviços e principalmente a maneira como o fogo se espalha, de forma muito verossímil e imersiva. É um filme preocupado em retratar não apenas o fato central, mas também o que acontece ao redor, ainda que de forma superficial.
O roteiro é o clássico “herói improvável”. Por ser uma história meramente baseada em um evento real, existem muitas dramatizações, principalmente no começo. Você se pergunta como é possível alguém ter uma vida tão desgraçada quanto a do nosso protagonista. Conforme o longa se desenvolve, vamos nos afeiçoando a ele, mas ainda assim é uma história carregada de clichês, exposição e previsibilidade. É competente em nos deixar tensos em alguns momentos, mas no geral não apresenta nada de diferente do que outros filmes desse estilo já apresentaram.
Matthew McConaughey entrega mais uma de suas atuações brilhantes, contrastando sua personalidade introspectiva com momentos emotivos e emergenciais que o ator tira de letra. Ele é sensacional. America Ferrera também está excelente, e o roteiro dá bastante espaço para sua personagem brilhar. Ela não está ali apenas como suporte ao protagonista, mas também para ajudá-lo ativamente, e isso foi muito legal de ver.
"The Lost Bus" é uma história real muito bem dirigida com o bom e velho drama hollywoodiano. Apesar de não inovar em nada, é gostoso de assistir e nos emociona no final, além de ter me deixado fascinado com a história real que foi contada.