Não funciona nem como série e nem como documento historiográfico. Os excessos melodramáticos — um pouco por conta de algumas atuações ruins — tornam os episódios maçantes. Existe um abismo colossal que divide o fato da ficção e a série como um todo é tomada por vacilações narrativas, tornando-a em algo que parece ser vagamente inspirado no evento real. Há coisas boas na série, como abordar os papéis desempenhados por profissionais médicos, físicos etc. Entretanto, ao concluir-se fiquei com a impressão de que a série buscou sobrecarregar algumas personas com uma espécie de 'mea culpa' — a cena da fotografia no último episódio é o ápice do exagero melodramático. Em "Emergência Radioativa" (2026), o tom novelesco sobressai. Talvez se fosse produzida pela Globoplay, a narrativa e a direção poderiam ter ido para outro rumo, algo que, em hipótese, pudesse se aproximar do episódio do Linha Direta que, como registro histórico, é muito competente.
Em suma não há muito do que reclamar. Stranger Things é — conforme a moda diz — "sabooorrr" nostalgia. Trata-se de uma nostalgia estética, que delineou toda a narrativa da série, e também a nostalgia evocadora de comparativos com as temporadas anteriores. É possível que a série dos irmãos Duffer seja o maior sinalizador de declínio na indústria cultural. Afinal, estamos diante de um produto esvaziado cujas presunções beiram a letargia do audiovisual domesticado — refiro-me à afetividade — e a incessante reafirmação de que "estamos a entregar um desfecho sólido". Possivelmente isso pode ser lido como uma crítica absurda — e até sem sentido para alguns —, mas conforme o texto foi aberto: não há do que reclamar. E realmente, essa quinta temporada entrega o começo, o meio e o fim — é o que esperam, indiferente das ambiguidades narrativas. Em 2016, ano em que a série veio à luz, falava-se de um Big Data que ajudou a arquitetar “a maior obra de arte do algoritmo da Netflix” — segundo um digital creative, no mesmo ano. À época os algoritmos mapeavam a inércia crônica cultural e traçavam o passo a passo para o agora. Stranger Things tornou-se aquilo que não sabíamos que queríamos, embora quiséssemos desesperadamente reviver o tempo. Em alguns casos, esse tempo nem mesmo aporta o passado das pessoas; no mínimo teriam que ter nascido entre o fim dos anos 60 e o início dos anos 70. Digamos que a série ajudou a proliferar a síndrome de Neymar "saudades do que não vivemos", considerando que muitos de nós não vivemos a década emulada por Stranger Things, mas ainda assim imploramos pelo retorno do neon, dos sintetizadores e da loucura plástica. Não é como se a obra dependesse do tempo para existir e ser consumida, ao contrário, as produções culturais independem de seu tempo estético para existir — imagina: é preciso ter vivido os anos 30 e 40 para entender qualquer obra que tem a Segunda Guerra Mundial como plano de fundo. Mas, pela ótica da crítica cultural, não se pode negar o caráter de necessidade em Stranger Things, a vontade pelo neon, sintetizadores e loucura plástica que corroboram o alicerce estético da obra, e toda essa necessidade aponta para um fetichismo cuja “verdade em tudo isso é que o poder da indústria cultural provém de sua identificação com a necessidade produzida" (Adorno; Horkheimer, 1985, p. 113). Ao fim, a última temporada da majestosa obra-prima do Big Data é um produto vazio oriundo de um desejo — subconsciente — pelo passado, é, conforme afirma Fredric Jameson, a exaustão da indústria e “os produtores de cultura não têm mais para onde se voltar senão para o passado: a imitação de estilos mortos, [...] no museu imaginário de uma cultura agora global.” Stranger Things (2025) não é só o desejo pelo passado, mas também o desespero por Stranger Things (2016), tornou-se um simulacro do pastiche — lê-se com redundância porque é isso que a série foi — as luzes neon, os sintetizadores e a loucura plástica são o fio-fino estético para reforçar a incessante narrativa que desde a sua segunda temporada repete-se em elipse: o fim é o começo. Os núcleos narrativos separados — que se encontram no fim de cada temporada a cabo de revelar algo maior —, as tensões emotivas adolescentes, a ameaça desconhecida que ao fim de cada temporada se mostra cada vez maior — na última considera-se que é continuar a vida a partir de muitos traumas; grandes como o vazio de um mundo negativo — são os retalhados costurados por uma estética pensada como uma operação comercial, como uma necessidade a partir da animosidade do presente. Afinal, o passado é tudo o que temos de concreto — pensando a partir de uma materialidade dialética histórica. Contudo, o fim de Stranger Things é melancólico e diz muito menos sobre o próprio tempo do que diz sobre os anos 80, as crianças cresceram e os adolescentes atingiram a vida adulta e as necessidades seguem. Logo menos o passado retornará seja na música, no cinema e agora na indústria dos videogames, a verdade é que, na indústria cultural, por mais que seja um consenso que a nostalgia é um fetiche — explorado por essas estéticas para assegurar produtivamente as obras culturais — o que não se compreende é o temor pelo futuro. É possível dizer que a indústria esteja mirando no que já deu certo a fim de mitigar os prejuízos econômicos em uma indústria que cada vez mais ruma ao declínio — e o fim do mundo nunca chega —, mas enquanto esperamos o novo “um luto atroz recomeça.” (Barthes, 2011, p. 136)
Não sei o impacto que "Bem-vindos a Derry" (2025) tem sobre os leitores de Stephen King e tampouco compreendo o universo de "A Coisa" (1986). Mas a competência dessa extensão da adaptação de 2017 é notável e destaca-se a minúcia em amarrar pontos narrativos aos filmes, a segurança em expor as personagens ao perigo (inclusive subvertendo a ideia de protagonismo logo no início) e a contextualização estética que, diferente da outra lá, não amarra a narrativa à estética. A transição temporal no texto de Bem-vindos a Derry pode deslocar-se livremente por décadas (assim como fizeram nos dois filmes, deixando de lado a adaptação com Tim Curry) sem se preocupar em preenchê-lo com elementos referenciais, suprindo, dessa forma, uma nostalgia fantasma. Possivelmente seja o reflexo de um excelente material (não tenho dúvidas que o livro é excelente) somado a uma boa equipe de roteiristas. Sobre o fim, eu em particular adoro friendmovies (Conta Comigo que o diga, inclusive faz parte dos poucos livros do King que eu li) e achei satisfatório, até contrastante com o começo turbulento.
A série continua divertida. Os maneirismos do James Gunn estão presentes — personagem tentando se encaixar; referências às bandas e músicas pouco referenciadas e amigos desajustados. Entretanto, faltou cadência, faltou Pacificador na série do Pacificador. No montante, é uma série legal, que inclusive fomenta um interesse pelo que está por vir no universo DC.
No ritmo pessimista de Grant Morrison, o fim de "Patrulha do Destino" fez-se necessário. Não apenas pela mudança de planos da Warner e DC, mas especialmente pela falta de evolução na dramatização das personagens. Diante de tropas como Esquadrão Suicida ou Comando das Criaturas, a perspectiva para a patrulha parecia ser longínqua — algo como Guardiões da Galáxia —; nisso a Marvel acertou. Mas infelizmente não foi o que aconteceu com os "X-Men da DC", afinal a metade da terceira temporada e sua quarta (e última) temporada demonstraram uma certa apatia diante das progressões narrativas e que o cancelamento já estava previsto para sua promissora primeira temporada.
Se formos numerar os problemas em "Notícias Populares" (2023), dois pontos sobressaem: falta de divulgação e uma possível não continuação. A série — aparentemente — conta com um orçamento limitado, questão que demonstra exigência criativa, e isso reflete na delimitação espacial contida. O que não necessariamente torna os sete episódios uma espécie de experiência brechtiana — tão distante quanto próxima —, o seriado transborda as hipérboles do Notícias Populares em suas dramatizações que promovem uma releitura — fiel — dos periódicos paulistas. Da trilha sonora, um dos pontos mais fortes da série, à estética exagerada, a série é uma experiência intimista de um período, que embora seja de mau gosto — jornalisticamente falando —, promove um retorno nostálgico de uma década tomada por absurdos midiáticos e um drástico processo de reorientação social e política.
Efeitos Colaterais (2025) surpreende positivamente; não só por evidenciar um percurso narrativo maduro; mas também por incitar reflexões em um cenário tomado pelo corporativismo da indústria farmacêutica. Há uma série de problemáticas conspiracionistas que remetem à crítica no melhor estilo Michael Moore. E faz sentido; afinal, a parte mais sensível dentro desse imbróglio que transita entre os delírios do milagre lisérgico e elucubrações capitalistas é a feitichização de um universo onde as vidas acometidas por enfermidades são lucros em potencial.
Acredito que estão mandando muito bem nessa tentativa de compactar 144 volumes. Recordo-me de quando um amigo meu me apresentou uma das HQs mais inovadoras que ele já havia lido até então - isso em meados de 2008 - e de fato, o trabalho de Robert Kirkman, e de um outro maluco aí que não lembro o nome, destoava narrativamente das revistas mais populares (se não me engano, foi um período em que os grandes selos estavam em uma crise nada. Posso estar errado, galera aí que é das Hqs, dá um help). Não li todos os volumes, contudo, pelo o que me lembro a adaptação está quase par a par com o material original, exceção o namorado da mãe de Mark e a ausência de algumas figuras da Image Comics (Spawn e uma galera não apareceu não, ao menos não vi).
Talvez hoje "Invencível" (2003/2021 - ) não empolgue tanto, sobretudo por ser bem repetitiva, mas acho que toda singularidade do material original está bem lapidada e ganha ênfase nessa última temporada.
A proposta condiz com a da HQ e demonstra potencial de expansão - característica que espero em obras adaptadas, ou seja, não permanecer dentro das delimitações da obra de origem - contudo, "Comando das Criaturas" é bem tímido e familiar - o que até inspirou certa rejeição de uma galera aí - entretanto, acredito no potencial do James Gunn, sobretudo, a capacidade de transformar obras, rotuladas como B, em produto comercial. O maneirismo videoclip também aparece por aqui, agora dando destaque para a banda de gipsy punk, Gogol Bordello, o que particularmente achei uma escolha ruim - a banda é uma droga - contudo, afora meu gosto musical pessoal, a montagem é bem boa e rola até um estranhamento curioso. É possível que para os desfamiliarizados surgiu uma tentação de empregar o Shazam - para bem ou mal - e descobrir de quem é as harmonias ciganas.
Em comparação a trilogia "Crise nas Infinitas Terras"; "Comando das Criaturas" até que começou bem e embora essa um primeira impressão - considerando dois episódios - é possível que esse reboot do universo audiovisual da DC entregue-nos bons frutos. Eu adoraria ver uma série da Liga da Justiça Sombria e quem sabe role uma Liga Extraordinária também. Bem, se o Alan Moore não chorar.
O anime aproveita bem as fórmulas Cinderela e Branca de Neve tendo como proposição "O Pequeno Príncipe"; não vejo isso como pontos negativos, mas como uma observação que aproveita o melhor dessas citações e constrói uma experiência narrativa própria em uma estética anime da década de 60. Há um quê do transitivo "cativar", sobretudo quando notamos que o poder de Bojii está em tensionar os átomos e suas ligações químicas, dessa forma, compreende-se que a regência mais forte é os vínculos que se constrói. Talvez por isso o anime foque muito em apertos de mão.
O peso de um nome. É indiscutível que "Cidade de Deus" (2002) é uma definitiva do que ficou conhecido como "o retorno do cinema brasileiro" no início da década de 90. A pressupor um retorno às tensões histográficas que assombram o estado do Rio de Janeiro, a série é uma conglomerado de baboseiras com enxertos tendenciosos cujo baluarte são as pautas sociais modernas. Tira-lhe o nome "Cidade de Deus" e o que resta? Resta um pastiche à moda Rede Globo. Não é por menos, há comparações com as teledramaturgia, e sendo sincero, talvez a melhor coisa que vi nessa série foi a rima visual no último episódio durante a cena do capuz, afora isso, é só uma emulação onde o argumento fica a serviço da pauta e não o contrário.
Obs. Melhor atuação é a do colega de Bradock. Uma espécie de Silent Bob.
Takashi Miike consegue cativar na proporção que desmembra corpos. Há uma liberdade criativa por trás desse projeto, todavia acho que asseguraram bem o universo de origem desvirtuando-o em pontos não tão chocantes assim (a relação persuasiva dos onis com o usuário da manopla) - Talvez esse projeto inspire a Capcom a trazer um novo título da franquia (porque aquele remaster do primeiro foi bem safado). Há pontos discutíveis, a escolha estética pode incomodar alguns, entretanto há pontos excelentes, a sonoplastia e trilha são fantásticas, contudo a parte mais assertiva fica a cabo da narrativa, é praxes em obras do seguimento buscar aporte histórico, não é a primeira vez que Miyamoto Musashi é epicentro de uma fantasia ou reinvenção histórico e o cânone de Onimusha constrói competentemente a dualidade entre vida e tempo, sobretudo mediante à maestria, e a essência do ser e poder, contra a sina biológica de envelhecer. Adoro a série de jogos, especialmente o 3, e vi nessa série um potencial de explorar o universo que a Capcom jogou para ostracismo voltando seus olhares somente para: Street Fighter, Monster Hunter e Resident Evil.
Sinceramente. Exceto a existência do Palhaço, eu sempre achei o jogo do Twisted Metal muito inferior comparado a Vigilante 8. Mas, não é sobre o jogo, mas como um roteiro simples e uma relação entre dois personagem inseridos em um mundo minuciosamente criativo faz com que uma série que, embora não esbanje em seu orçamento, se mostra interessante e super divertida de assistir.
Nota. Trilha sonora fantástica: Faith no More, Cake, Ol'Dirty Bastard e Portishead dialogam bem com as cenas.
Não conheço o material de origem (o livro), entretanto, a função crítica é válida e o espectro de injustiça permeia a narrativa e o que mais revolta é o fato de haver culpa burocrática e o pleito por detrás da acusação dissimular por simples "costas quente". Há uma cena em particular que a dramatização está impecável, a do estacionamento, a angústia domina e desejamos o poder de mudar o fato, subverter a história, mas infelizmente sabemos de antemão o desfecho, infeliz não é uma ficção.
Uma série maravilhosa. A série consegue manter um ritmo cômico dentro dos parâmetros do terror alusivo ao trabalho original, com isso temos um conjunto tão peculiar que dá uma satisfação assistir.
Eu só espero que tenha uma terceira temporada, não tô afim de ficar órfão dessa série incrível.
Uma medida desesperada (suponho). Channel Zero tinha a faca e o queijo na mão - conduto optou por se desequilibrar na medida em que conduzia-se - não consigo apontar deficiências orçamentárias, ao contrário, a estética de direção dentro dos parâmetros da série deu-se em pontos peculiares, contudo, a maquiagem é unilateral (especial por si só). Mas, se Channel Zero atrai visualmente, por outro lado ele peca no que mais tinha de valor: a história. Eu sinceramente não acredito que seja uma ponto de estética, aliás, não acredito que haja necessidade em apresentar a história subjetivamente - resultando em uma áurea de mistério digna de Sir. Arthur Doyle (analogamente falando, claro). Com o texto raso, dificilmente consigo ver motivos para repetir Channel Zero, e se chegou a gerar estranhamento no telespectador, isso, deve-se à narrativa vaga e desinteresse que tomou a série nos episódios: 3, 4 e 5. Para concluir (visando que isso é uma percepção, ou seja, não deve-se relevar para fins críticos) eu não digo que seja de todo mal, porém, a única necessidade que tive após concluir Channel Zero foi "Curioso para saber se vão melhorar na segunda temporada que virá com uma história totalmente nova".
A série demonstra um desenvolvimento incrível desde a sua estreia, a evolução na narrativa e nos personagens é gritante. Bojack Hoserman é uma série única, a mescla de comédia e drama aplicada ao antropomorfismo e existencialismo de celebridades e sub-celebridades tornou-se uma fórmula densa. Já canto para a chegada da quarta temporada.
A superestimação é o tempero certo para Stranger Things - deve-se à enxurrada de referências - ao molde "Goonies" a aventura se desenvolve maravilhosamente, eu em particular criei um afeto enorme pelo o Dustin, é notório que em Stranger Things o ar de Spielberg (o mesmo que voltamos a ver em Super 8) cria a atmosfera pragmática da série (é rápido, e gostoso de assistir, passa longe de ser um seriado cansativo).
Aliás! Não posso concluir o meu comentário sem salientar a trilha sonora (junto às citações) Entre Jefferson Airplane; Clash; TOTO; Joy Division eu acredito que a trilha selecionada para conduzir as cenas são um tanto que atemporais e isso imortaliza as passagens das cenas, agora todas às vezes em que eu ouvir Clash vou lembra das malditas luzes piscando funcionando como um morse.
Stranger Things é um verdadeiro revival e se não acredita basta olhar para o lado e ver que até este momento em que eu postei o meu comentário somente quatro pessoas marcaram como "Não Quer Ver", acredite, vale a pena ver e superestimá-lo, especialmente se você cresceu nos anos 90.
O fabuloso senso de transformar a loucura em um trabalho pautável;
Gravity Falls à beira da loucura é de um dos trabalhos mais marcantes desta geração, o carisma que constrói o ambiente e os personagens casa perfeitamente com o clima misterioso e infantil, em tempos de escassez e de cartoons sem justificativas agradáveis, Gravity Falls é talvez um dos últimos suspiros de criatividade da Disney.
Emergência Radioativa
4.0 144 Assista AgoraNão funciona nem como série e nem como documento historiográfico. Os excessos melodramáticos — um pouco por conta de algumas atuações ruins — tornam os episódios maçantes. Existe um abismo colossal que divide o fato da ficção e a série como um todo é tomada por vacilações narrativas, tornando-a em algo que parece ser vagamente inspirado no evento real. Há coisas boas na série, como abordar os papéis desempenhados por profissionais médicos, físicos etc. Entretanto, ao concluir-se fiquei com a impressão de que a série buscou sobrecarregar algumas personas com uma espécie de 'mea culpa' — a cena da fotografia no último episódio é o ápice do exagero melodramático. Em "Emergência Radioativa" (2026), o tom novelesco sobressai. Talvez se fosse produzida pela Globoplay, a narrativa e a direção poderiam ter ido para outro rumo, algo que, em hipótese, pudesse se aproximar do episódio do Linha Direta que, como registro histórico, é muito competente.
Stranger Things (5ª Temporada)
3.5 508 Assista AgoraEm suma não há muito do que reclamar. Stranger Things é — conforme a moda diz — "sabooorrr" nostalgia. Trata-se de uma nostalgia estética, que delineou toda a narrativa da série, e também a nostalgia evocadora de comparativos com as temporadas anteriores.
É possível que a série dos irmãos Duffer seja o maior sinalizador de declínio na indústria cultural. Afinal, estamos diante de um produto esvaziado cujas presunções beiram a letargia do audiovisual domesticado — refiro-me à afetividade — e a incessante reafirmação de que "estamos a entregar um desfecho sólido".
Possivelmente isso pode ser lido como uma crítica absurda — e até sem sentido para alguns —, mas conforme o texto foi aberto: não há do que reclamar. E realmente, essa quinta temporada entrega o começo, o meio e o fim — é o que esperam, indiferente das ambiguidades narrativas. Em 2016, ano em que a série veio à luz, falava-se de um Big Data que ajudou a arquitetar “a maior obra de arte do algoritmo da Netflix” — segundo um digital creative, no mesmo ano. À época os algoritmos mapeavam a inércia crônica cultural e traçavam o passo a passo para o agora. Stranger Things tornou-se aquilo que não sabíamos que queríamos, embora quiséssemos desesperadamente reviver o tempo. Em alguns casos, esse tempo nem mesmo aporta o passado das pessoas; no mínimo teriam que ter nascido entre o fim dos anos 60 e o início dos anos 70. Digamos que a série ajudou a proliferar a síndrome de Neymar "saudades do que não vivemos", considerando que muitos de nós não vivemos a década emulada por Stranger Things, mas ainda assim imploramos pelo retorno do neon, dos sintetizadores e da loucura plástica.
Não é como se a obra dependesse do tempo para existir e ser consumida, ao contrário, as produções culturais independem de seu tempo estético para existir — imagina: é preciso ter vivido os anos 30 e 40 para entender qualquer obra que tem a Segunda Guerra Mundial como plano de fundo. Mas, pela ótica da crítica cultural, não se pode negar o caráter de necessidade em Stranger Things, a vontade pelo neon, sintetizadores e loucura plástica que corroboram o alicerce estético da obra, e toda essa necessidade aponta para um fetichismo cuja “verdade em tudo isso é que o poder da indústria cultural provém de sua identificação com a necessidade produzida" (Adorno; Horkheimer, 1985, p. 113).
Ao fim, a última temporada da majestosa obra-prima do Big Data é um produto vazio oriundo de um desejo — subconsciente — pelo passado, é, conforme afirma Fredric Jameson, a exaustão da indústria e “os produtores de cultura não têm mais para onde se voltar senão para o passado: a imitação de estilos mortos, [...] no museu imaginário de uma cultura agora global.” Stranger Things (2025) não é só o desejo pelo passado, mas também o desespero por Stranger Things (2016), tornou-se um simulacro do pastiche — lê-se com redundância porque é isso que a série foi — as luzes neon, os sintetizadores e a loucura plástica são o fio-fino estético para reforçar a incessante narrativa que desde a sua segunda temporada repete-se em elipse: o fim é o começo.
Os núcleos narrativos separados — que se encontram no fim de cada temporada a cabo de revelar algo maior —, as tensões emotivas adolescentes, a ameaça desconhecida que ao fim de cada temporada se mostra cada vez maior — na última considera-se que é continuar a vida a partir de muitos traumas; grandes como o vazio de um mundo negativo — são os retalhados costurados por uma estética pensada como uma operação comercial, como uma necessidade a partir da animosidade do presente. Afinal, o passado é tudo o que temos de concreto — pensando a partir de uma materialidade dialética histórica. Contudo, o fim de Stranger Things é melancólico e diz muito menos sobre o próprio tempo do que diz sobre os anos 80, as crianças cresceram e os adolescentes atingiram a vida adulta e as necessidades seguem.
Logo menos o passado retornará seja na música, no cinema e agora na indústria dos videogames, a verdade é que, na indústria cultural, por mais que seja um consenso que a nostalgia é um fetiche — explorado por essas estéticas para assegurar produtivamente as obras culturais — o que não se compreende é o temor pelo futuro. É possível dizer que a indústria esteja mirando no que já deu certo a fim de mitigar os prejuízos econômicos em uma indústria que cada vez mais ruma ao declínio — e o fim do mundo nunca chega —, mas enquanto esperamos o novo “um luto atroz recomeça.” (Barthes, 2011, p. 136)
It: Bem-Vindos a Derry (1ª Temporada)
4.1 361 Assista AgoraNão sei o impacto que "Bem-vindos a Derry" (2025) tem sobre os leitores de Stephen King e tampouco compreendo o universo de "A Coisa" (1986). Mas a competência dessa extensão da adaptação de 2017 é notável e destaca-se a minúcia em amarrar pontos narrativos aos filmes, a segurança em expor as personagens ao perigo (inclusive subvertendo a ideia de protagonismo logo no início) e a contextualização estética que, diferente da outra lá, não amarra a narrativa à estética. A transição temporal no texto de Bem-vindos a Derry pode deslocar-se livremente por décadas (assim como fizeram nos dois filmes, deixando de lado a adaptação com Tim Curry) sem se preocupar em preenchê-lo com elementos referenciais, suprindo, dessa forma, uma nostalgia fantasma. Possivelmente seja o reflexo de um excelente material (não tenho dúvidas que o livro é excelente) somado a uma boa equipe de roteiristas. Sobre o fim, eu em particular adoro friendmovies (Conta Comigo que o diga, inclusive faz parte dos poucos livros do King que eu li) e achei satisfatório, até contrastante com o começo turbulento.
Mulheres Com Ombreiras (1ª Temporada)
3.9 1 Assista AgoraA arte é muito bonita. Mas o texto é terrível, embora lampeje um tom de Almodóvar, e não cativa.
Pacificador (2ª Temporada)
3.6 150A série continua divertida. Os maneirismos do James Gunn estão presentes — personagem tentando se encaixar; referências às bandas e músicas pouco referenciadas e amigos desajustados. Entretanto, faltou cadência, faltou Pacificador na série do Pacificador. No montante, é uma série legal, que inclusive fomenta um interesse pelo que está por vir no universo DC.
Desastre Total: Woodstock 99
3.8 124 Assista AgoraAo considerar o contexto social e cultural, o filme nacional "Cama de Gato" (2002) é um excelente paralelo ao Woodstock 99.
Patrulha do Destino (4ª Temporada)
3.5 28No ritmo pessimista de Grant Morrison, o fim de "Patrulha do Destino" fez-se necessário. Não apenas pela mudança de planos da Warner e DC, mas especialmente pela falta de evolução na dramatização das personagens. Diante de tropas como Esquadrão Suicida ou Comando das Criaturas, a perspectiva para a patrulha parecia ser longínqua — algo como Guardiões da Galáxia —; nisso a Marvel acertou. Mas infelizmente não foi o que aconteceu com os "X-Men da DC", afinal a metade da terceira temporada e sua quarta (e última) temporada demonstraram uma certa apatia diante das progressões narrativas e que o cancelamento já estava previsto para sua promissora primeira temporada.
Lazarus
3.4 17 Assista AgoraPastiche de "Cowboy Bepop".
Notícias Populares
3.7 1Se formos numerar os problemas em "Notícias Populares" (2023), dois pontos sobressaem: falta de divulgação e uma possível não continuação. A série — aparentemente — conta com um orçamento limitado, questão que demonstra exigência criativa, e isso reflete na delimitação espacial contida. O que não necessariamente torna os sete episódios uma espécie de experiência brechtiana — tão distante quanto próxima —, o seriado transborda as hipérboles do Notícias Populares em suas dramatizações que promovem uma releitura — fiel — dos periódicos paulistas.
Da trilha sonora, um dos pontos mais fortes da série, à estética exagerada, a série é uma experiência intimista de um período, que embora seja de mau gosto — jornalisticamente falando —, promove um retorno nostálgico de uma década tomada por absurdos midiáticos e um drástico processo de reorientação social e política.
Efeitos Colaterais (1ª Temporada)
4.4 40 Assista AgoraEfeitos Colaterais (2025) surpreende positivamente; não só por evidenciar um percurso narrativo maduro; mas também por incitar reflexões em um cenário tomado pelo corporativismo da indústria farmacêutica. Há uma série de problemáticas conspiracionistas que remetem à crítica no melhor estilo Michael Moore. E faz sentido; afinal, a parte mais sensível dentro desse imbróglio que transita entre os delírios do milagre lisérgico e elucubrações capitalistas é a feitichização de um universo onde as vidas acometidas por enfermidades são lucros em potencial.
Invencível (3ª Temporada)
4.1 123 Assista AgoraAcredito que estão mandando muito bem nessa tentativa de compactar 144 volumes. Recordo-me de quando um amigo meu me apresentou uma das HQs mais inovadoras que ele já havia lido até então - isso em meados de 2008 - e de fato, o trabalho de Robert Kirkman, e de um outro maluco aí que não lembro o nome, destoava narrativamente das revistas mais populares (se não me engano, foi um período em que os grandes selos estavam em uma crise nada. Posso estar errado, galera aí que é das Hqs, dá um help).
Não li todos os volumes, contudo, pelo o que me lembro a adaptação está quase par a par com o material original, exceção o namorado da mãe de Mark e a ausência de algumas figuras da Image Comics (Spawn e uma galera não apareceu não, ao menos não vi).
Talvez hoje "Invencível" (2003/2021 - ) não empolgue tanto, sobretudo por ser bem repetitiva, mas acho que toda singularidade do material original está bem lapidada e ganha ênfase nessa última temporada.
Comando das Criaturas (1ª Temporada)
3.8 79 Assista AgoraA proposta condiz com a da HQ e demonstra potencial de expansão - característica que espero em obras adaptadas, ou seja, não permanecer dentro das delimitações da obra de origem - contudo, "Comando das Criaturas" é bem tímido e familiar - o que até inspirou certa rejeição de uma galera aí - entretanto, acredito no potencial do James Gunn, sobretudo, a capacidade de transformar obras, rotuladas como B, em produto comercial.
O maneirismo videoclip também aparece por aqui, agora dando destaque para a banda de gipsy punk, Gogol Bordello, o que particularmente achei uma escolha ruim - a banda é uma droga - contudo, afora meu gosto musical pessoal, a montagem é bem boa e rola até um estranhamento curioso. É possível que para os desfamiliarizados surgiu uma tentação de empregar o Shazam - para bem ou mal - e descobrir de quem é as harmonias ciganas.
Em comparação a trilogia "Crise nas Infinitas Terras"; "Comando das Criaturas" até que começou bem e embora essa um primeira impressão - considerando dois episódios - é possível que esse reboot do universo audiovisual da DC entregue-nos bons frutos. Eu adoraria ver uma série da Liga da Justiça Sombria e quem sabe role uma Liga Extraordinária também. Bem, se o Alan Moore não chorar.
Ousama Ranking
4.4 39O anime aproveita bem as fórmulas Cinderela e Branca de Neve tendo como proposição "O Pequeno Príncipe"; não vejo isso como pontos negativos, mas como uma observação que aproveita o melhor dessas citações e constrói uma experiência narrativa própria em uma estética anime da década de 60.
Há um quê do transitivo "cativar", sobretudo quando notamos que o poder de Bojii está em tensionar os átomos e suas ligações químicas, dessa forma, compreende-se que a regência mais forte é os vínculos que se constrói. Talvez por isso o anime foque muito em apertos de mão.
Cidade De Deus: A Luta Não Para (1ª Temporada)
3.6 81 Assista AgoraO peso de um nome. É indiscutível que "Cidade de Deus" (2002) é uma definitiva do que ficou conhecido como "o retorno do cinema brasileiro" no início da década de 90. A pressupor um retorno às tensões histográficas que assombram o estado do Rio de Janeiro, a série é uma conglomerado de baboseiras com enxertos tendenciosos cujo baluarte são as pautas sociais modernas. Tira-lhe o nome "Cidade de Deus" e o que resta? Resta um pastiche à moda Rede Globo. Não é por menos, há comparações com as teledramaturgia, e sendo sincero, talvez a melhor coisa que vi nessa série foi a rima visual no último episódio durante a cena do capuz, afora isso, é só uma emulação onde o argumento fica a serviço da pauta e não o contrário.
Obs. Melhor atuação é a do colega de Bradock. Uma espécie de Silent Bob.
Onimusha
3.2 16 Assista AgoraTakashi Miike consegue cativar na proporção que desmembra corpos. Há uma liberdade criativa por trás desse projeto, todavia acho que asseguraram bem o universo de origem desvirtuando-o em pontos não tão chocantes assim (a relação persuasiva dos onis com o usuário da manopla) - Talvez esse projeto inspire a Capcom a trazer um novo título da franquia (porque aquele remaster do primeiro foi bem safado). Há pontos discutíveis, a escolha estética pode incomodar alguns, entretanto há pontos excelentes, a sonoplastia e trilha são fantásticas, contudo a parte mais assertiva fica a cabo da narrativa, é praxes em obras do seguimento buscar aporte histórico, não é a primeira vez que Miyamoto Musashi é epicentro de uma fantasia ou reinvenção histórico e o cânone de Onimusha constrói competentemente a dualidade entre vida e tempo, sobretudo mediante à maestria, e a essência do ser e poder, contra a sina biológica de envelhecer.
Adoro a série de jogos, especialmente o 3, e vi nessa série um potencial de explorar o universo que a Capcom jogou para ostracismo voltando seus olhares somente para: Street Fighter, Monster Hunter e Resident Evil.
Twisted Metal (1ª Temporada)
3.6 79 Assista AgoraSinceramente. Exceto a existência do Palhaço, eu sempre achei o jogo do Twisted Metal muito inferior comparado a Vigilante 8. Mas, não é sobre o jogo, mas como um roteiro simples e uma relação entre dois personagem inseridos em um mundo minuciosamente criativo faz com que uma série que, embora não esbanje em seu orçamento, se mostra interessante e super divertida de assistir.
Nota. Trilha sonora fantástica: Faith no More, Cake, Ol'Dirty Bastard e Portishead dialogam bem com as cenas.
Todo Dia a Mesma Noite
4.0 286 Assista AgoraNão conheço o material de origem (o livro), entretanto, a função crítica é válida e o espectro de injustiça permeia a narrativa e o que mais revolta é o fato de haver culpa burocrática e o pleito por detrás da acusação dissimular por simples "costas quente".
Há uma cena em particular que a dramatização está impecável, a do estacionamento, a angústia domina e desejamos o poder de mudar o fato, subverter a história, mas infelizmente sabemos de antemão o desfecho, infeliz não é uma ficção.
Ash vs Evil Dead (2ª Temporada)
4.2 186 Assista AgoraUma série maravilhosa. A série consegue manter um ritmo cômico dentro dos parâmetros do terror alusivo ao trabalho original, com isso temos um conjunto tão peculiar que dá uma satisfação assistir.
Eu só espero que tenha uma terceira temporada, não tô afim de ficar órfão dessa série incrível.
Channel Zero: Candle Cove (1ª Temporada)
3.4 103Uma medida desesperada (suponho). Channel Zero tinha a faca e o queijo na mão - conduto optou por se desequilibrar na medida em que conduzia-se - não consigo apontar deficiências orçamentárias, ao contrário, a estética de direção dentro dos parâmetros da série deu-se em pontos peculiares, contudo, a maquiagem é unilateral (especial por si só). Mas, se Channel Zero atrai visualmente, por outro lado ele peca no que mais tinha de valor: a história.
Eu sinceramente não acredito que seja uma ponto de estética, aliás, não acredito que haja necessidade em apresentar a história subjetivamente - resultando em uma áurea de mistério digna de Sir. Arthur Doyle (analogamente falando, claro).
Com o texto raso, dificilmente consigo ver motivos para repetir Channel Zero, e se chegou a gerar estranhamento no telespectador, isso, deve-se à narrativa vaga e desinteresse que tomou a série nos episódios: 3, 4 e 5.
Para concluir (visando que isso é uma percepção, ou seja, não deve-se relevar para fins críticos) eu não digo que seja de todo mal, porém, a única necessidade que tive após concluir Channel Zero foi "Curioso para saber se vão melhorar na segunda temporada que virá com uma história totalmente nova".
Chozen (1ª Temporada)
3.1 8Com exceção às intertextualidades a série é uma droga (em todos os sentidos).
BoJack Horseman (3ª Temporada)
4.6 267 Assista AgoraA série demonstra um desenvolvimento incrível desde a sua estreia, a evolução na narrativa e nos personagens é gritante. Bojack Hoserman é uma série única, a mescla de comédia e drama aplicada ao antropomorfismo e existencialismo de celebridades e sub-celebridades tornou-se uma fórmula densa. Já canto para a chegada da quarta temporada.
Stranger Things (1ª Temporada)
4.5 2,7K Assista AgoraA superestimação é o tempero certo para Stranger Things - deve-se à enxurrada de referências - ao molde "Goonies" a aventura se desenvolve maravilhosamente, eu em particular criei um afeto enorme pelo o Dustin, é notório que em Stranger Things o ar de Spielberg (o mesmo que voltamos a ver em Super 8) cria a atmosfera pragmática da série (é rápido, e gostoso de assistir, passa longe de ser um seriado cansativo).
Aliás! Não posso concluir o meu comentário sem salientar a trilha sonora (junto às citações) Entre Jefferson Airplane; Clash; TOTO; Joy Division eu acredito que a trilha selecionada para conduzir as cenas são um tanto que atemporais e isso imortaliza as passagens das cenas, agora todas às vezes em que eu ouvir Clash vou lembra das malditas luzes piscando funcionando como um morse.
Stranger Things é um verdadeiro revival e se não acredita basta olhar para o lado e ver que até este momento em que eu postei o meu comentário somente quatro pessoas marcaram como "Não Quer Ver", acredite, vale a pena ver e superestimá-lo, especialmente se você cresceu nos anos 90.
Gravity Falls (1ª Temporada)
4.6 112 Assista AgoraO fabuloso senso de transformar a loucura em um trabalho pautável;
Gravity Falls à beira da loucura é de um dos trabalhos mais marcantes desta geração, o carisma que constrói o ambiente e os personagens casa perfeitamente com o clima misterioso e infantil, em tempos de escassez e de cartoons sem justificativas agradáveis, Gravity Falls é talvez um dos últimos suspiros de criatividade da Disney.
Ash vs Evil Dead (1ª Temporada)
4.2 455 Assista AgoraPor favor! Digam-me que já anunciaram uma segunda temporada.