Começa dando uma desanimada por parecer ser um capítulo 'teenager' da franquia. Mas surpreendentemente aos pouquinhos "Alien - Romulus" vai conquistando um equilíbrio interessante entre ser uma homenagem que reverencia a série, e um episódio novo que traz situações de tensão diferentes e criativas para o roteiro poder 'brincar' com o xenomorfo. Não que ele acrescente novos elementos à mitologia do personagem, ele não o faz - e, honestamente, nem faz falta - mas ao menos é uma das continuações da série mais inofensivas e que parece ter um certo respeito pelo que veio antes. Ainda, reaproveita algumas ideias bestas de "Alien - Ressurreição" e as reformula de um modo muito mais satisfatório. Poderiam ter ousado um pouco mais no horror gore e nos efeitos práticos e menos nos CGI, mas isso parece já ser um mal irremediável no cinema dos dias de hoje.
É sempre satisfatório ver o cinema estrangeiro dando um pouco de atenção, mesmo mínima que seja, a História de outros povos. No caso, a questão das missões jesuíticas na América do Sul é um tema que, mesmo em aulas de História do Brasil, acabam muitas vezes sendo jogadas ao largo de eventos mais 'importantes'. No filme britânico "A Missão", de 1986 esse tema é resgatado com um tom épico de longa-metragem, que informa e respeita a história que está sendo contada. O elenco é de primeiro escalão: Robert de Niro, Jeremy Irons e Liam Neeson são jesuítas que de repente se veem no caldeirão fervente quando Portugal e Espanha decidem arbitrariamente, por um tratado impessoal e distante, dividir entre eles terras pouco se importando com quem já estava estabelecido por ali. O longa é um olhar pesaroso para esse episódio triste da história humana, e faz um recorte até pequeno de todas as atrocidades que foram feitas. No fim, o mais selvagem é o homem dito civilizado.
"O Expresso Polar" teria tudo para se tornar um Clássico de Natal. E talvez de fato o seja para muitos que já o tenham na sua memória afetiva. O filme tem o seu coração no lugar, e a sinopse não é ruim. No entanto, sofre por ter sido feito por uma técnica de animação que ainda se encontrava demasiado imatura, o 'motion capture'. Por conta dela, o olhar vítreo e sem alma dos personagens dão uma sensação esquisita de frieza e distanciamento, e dotam eles de uma aparência que beira o horripilante. Em outros momentos, o filme lembra cenas de algum vídeo game mal renderizado com NPCs, além de ter sequências inteiras que só fazem sentido para justificar as exibições em 3D na época do lançamento. É uma pena, talvez esse seja um dos casos em que a escolha pelo 'live action' poderia ter rendido em uma experiência muito mais satisfatória e marcante.
Billy Bob Thornton é um Papai Noel alcóolatra, estelionatário, misantropo e completamente pistola com a vida. O que serviria como ótimo argumento para a comédia politicamente incorreta que "Papai Noel às Avessas" se pretende ser. Pena que as piadas não funcionam, seja pelo timing ruim, seja pelas atuações fracas, seja por um roteiro que vai jogando as situações sem se preocupar em costurar qualquer lógica interna. Os furos da trama são constantes, e a inteligência questionável dos personagens abusa da boa vontade do espectador. Medíocre, no máximo.
Uma narrativa simples, mas eficaz, e que facilmente pode encantar o público infantil hoje tanto quanto o fez na década de 60. "Mogli - O Menino-Lobo" combina humor e uma pitada de emoção na jornada do protagonista, enquanto este é tutelado pelos dois personagens contrapostos, o disciplinado Bagheera e o displicente Baloo (que, de certa forma, poderiam ser traduzidos como o embate entre a razão e a emoção na criação do menino). É interessante como o filme consegue ser leve, mesmo que a história por trás seja repleta de perigos e selvageria (talvez seja um dos filmes da Disney que mais reúna 'vilões': a cobra Kaa, o orangotango Louie, e, claro, o tigre Shere Khan). Por sua vez, a trilha sonora original é um personagem a parte, e "Mogli" jamais seria o mesmo filme sem ela.
Uma das animações mais tímidas da Disney. A princípio, fazer uma obra tendo por base as lendas do Rei Arthur até soa como uma boa ideia - afinal, a Disney havia feito fortuna apostando em contos medievais. Mas o roteiro de "A Espada Era a Lei" pega apenas o início e o final emprestado das lendas arthurianas, sendo que todo o restante do longa poderia perfeitamente ser feito com personagens com nomes diferentes que não faria a menor diferença. Ainda, a estrutura episódica soa repetitiva e pouco inspirada depois das reiteradas transformações do protagonista em algum animal, o filme parece um disco arranhado. Mas tecnicamente é razoável, e funciona ao menos como distração. Como curiosidade maior, apenas o fato de ser a obra de estreia de 'Madame Mim', personagem que ficaria mais famosa nos quadrinhos como a feiticeira amiga da Maga Patalójika.
Tem algumas sacadas bacanas, tipo trazer o Papai Noel como sendo uma espécie de segredo de Estado, e a primeira metade do filme com suas investigações atrás de pistas por lugares diferentes do mundo lembram um pouco um 'James Bond natalino'. Mas não demora muito e o filme se torna apenas uma aventura genérica de Sessão da Tarde com Dwayne Johnson e Chris Evans, que surpreendentemente até formam uma boa dupla. Lucy Liu nunca foi uma grande atriz, e aqui não está diferente - não que o roteiro lhe permita explorar o seu personagem, enquanto que o Papai Noel incomum de J.K Simmons é completamente sub-aproveitado. Enfim, "Operação Natal" não chega a ser uma empreitada ruim, apenas esquecível.
Um dos aspectos mais intrigantes do personagem Wolverine nos quadrinhos era justamente o mistério sobre seu passado desconhecido e em aberto. Explorar esse vazio e tentar dar respostas é como revelar o truque do mágico: pode ser curioso num primeiro momento, mas depois tira completamente a graça da ilusão. Se a trama criada for ruim e clichê, então pior ainda. Esse é o grande problema de "X-Men Origens: Wolverine" que, ao apostar na lacuna da história do protagonista, cria uma história sem sal que nunca sai do óbvio, motivado por um romance mixuruca. Como adaptação de quadrinhos, por outro lado, o roteiro demonstra desconhecer completamente que o sentido do Projeto Arma X era muito mais do que apenas colocar adamantium no esqueleto do personagem, mas sim condicioná-lo e descontruir completamente a sua humanidade para torná-lo uma arma perfeita (o que, nas histórias, levou anos). A participação de figurantes dos X-Men como Blob e Gambit são insuficientes para manter o interesse, e já é consenso que o que fizeram com o Deadpool nesse filme foi uma ofensa. E o que Will I Am está fazendo aqui??!
Em tempo, o filme perfeito de 'Arma X' seria uma história de terror no estilo 'Alien' em que os cientistas ficam presos dentro das instalações, enquanto que a 'Arma' sairia trucidando geral, retaliando o que fizeram com ele (tal como acontece nos quadrinhos). Mas duvido que a Disney - que agora é quem detém os direitos do personagem - apostaria numa trama em que ele é, por assim dizer, o "vilão".
Comédia ruim que poderia ter rendido uma história mais inspirada, tendo em vista seu plot subversivo criativo. Mas nada funciona, as piadas, as atuações, o enredo. Até mesmo pra besteirol um mínimo de qualidade é exigido para conseguir fazer rir. "Uma Noite de Fúria" não consegue nem isso.
A produção de Roger Corman para o filme do Quarteto Fantástico, de 1994, ficou famosa por ser tão ruim que nunca chegou a ver a luz do dia. Redescoberta anos depois pelos usuários da internet, confirma-se toda a impressão de cafonice trash bizarra atribuída a sua fama. O filme é da década de 90, mas tem uma produção sucateada e efeitos dignos da década de 60. O roteiro é ruim e rasteiro, e refém de diversas coincidências improváveis para se fazer funcionar. Entre pérolas como 'a câmera subjetiva de uma personagem cega', 'as estratégias de luta da Mulher-Invisível (que invariavelmente envolvem ela desaparecer no meio e fazer dois oponentes se chocarem)' e a 'gafe de Reed que fala que Ben se transforma em pedra porque resolve as coisas na força bruta por não conseguir revolver na inteligência (praticamente chamou o cara de burro kkkkkk), "O Quarteto Fantástico" de 94 sobrevive apenas pelo humor involuntário, e pelo seu clima de curiosidade 'freak'. Ah, e é só eu que achei a trilha instrumental em alguns momentos de tranquilidade muito inspirada na melodia dramática de 'Jurassic Park'?
Mais uma versão de 'A Christmas Carol', muito provavelmente o conto mais filmado e refilmado da história do cinema. Dentro daquela linha de 'se você já viu uma das adaptações, então você já viu todas". O filme de 1951 certamente não foi a primeira versão e, naturalmente, não foi a última. E está longe, muito longe de ser a melhor delas - honestamente, até hoje nenhuma supera a versão do Tio Patinhas, a única, pra mim, que faz sentido de existir. Ao contrário, essa versão de 1951 beira o enfadonho, com seus diálogos teatrais e uma direção sem alma. O histrionismo excêntrico de Alastair Sim no ato final mais preocupa do que encanta. É uma história que deveria deixar o coração quentinho, mas só deixa para trás uma certa frieza por não envolver como deveria. São 86 minutos, mas que parecem quase duas horas.
Típico exemplo de remake desnecessário. Zemeckis até tenta recriar o clima sinistro do primeiro filme em algumas cenas, mas o que o original tinha de perturbador e, até mesmo, assustador, esse só passa a impressão de ser... esquisito, como uma nota dissonante em um instrumento musical desafinado, mas nunca ameaçador. Com exceção de Anne Hathaway (completamente over-acting), as bruxas são tratadas de forma impessoal e distante, como figurantes para completar o quadro, enquanto que no original você 'sentia' a presença delas constantemente como uma ameaça. Até aprecio a coragem de mudar alguns pontos da trama para fazer algo diferente - não tenho problemas com o embate final, por exemplo - mas, no geral, tudo soa meio insípido. Os efeitos digitais são bacanas, sim, mas nada supera o ótimo trabalho prático do original incrivelmente realista. Por sua vez, a narração em voice over de Chris Rock é de doer os ouvidos. Em comparação o longa perde, e mesmo tentando analisá-lo de forma isolada, não é um filme que empolgue muito.
Desde criança que não reassistia "A Convenção das Bruxas", clássico da Sessão da Tarde que passou reiteradamente na TV durante os anos 90. Ainda funciona relativamente bem, principalmente pelo uso de maquiagem e efeitos especiais, tanto na concepção das bruxas, quanto na performance dos ratinhos animatrônicos. Esses, aliás, são um alívio quando aparecem, já que o ator mirim que faz o protagonista Luke é bem ruinzinho e pouco carismático. A cena principal do título possui algo de sinistro e incômodo na forma como as bruxas são filmadas sempre em closes fechados, em um campo de profundidade reduzido e na diagonal. O resultado é perturbador, mas num sentido positivo. Não era um dos meus favoritos de infância, confesso, mas reconheço que é um bom exemplar de uma época em que os filmes infantis não tinham medo de ousar alguns limites, o que hoje seria impensável.
"Bem-Vindos à Marwen" é um filme complicado. Se o espectador tiver dificuldades de aceitar que tudo que acontece nas sequências de animação são extensões do que ocorre internamente na 'psiqué' do protagonista, o filme desaba. O problema é que ambas as duas linhas narrativas do filme - a real e a 'interna' - nunca conseguem sair do modo 'morno', em que pese o plot da trama ter um potencial incrível. É uma pena. Estrelado por Steve Carrell em um ambiente que não é a sua praia, o comediante surpreende ao interpretar um papel dramático de um homem completamente frágil e vulnerável - e, nas sequências de Marwen, ao seu alter ego 'herói de filme de ação', seu exato oposto - e se sai bem nas duas frentes. Aliás, a tecnologia de 'capture motion' que é o xodó de Robert Zemeckis parece, enfim, ter encontrado o seu auge aqui, com os bonecos de Marwen demonstrando ter um vivacidade que faltava aos personagens de seus outros trabalhos. O problema do filme mesmo é o roteiro excessivamente mamão com açúcar que infelizmente não envolve tanto quanto poderia.
A metáfora é meio batida, mas ainda funciona. A família disfuncional formada por personagens completamente singulares que, sozinhos, não conseguem ir muito longe, mas quando todos se unem deixando de lado as diferenças para descer e empurrar a kombi juntos é que as coisas... seguem em frente! "Pequena Miss Sunshine" cativa não só pela fofurice maravilhosa da protagonista Olive, mas também por ter personagens intrigantes que complementam o mosaico aleatório daquela família de uma forma fascinante. Claro que as boas atuações de todos do elenco, e as situações bem humoradas em que os personagens se metem contribuem para o resultado positivo do longa. Ainda, o filme serve como uma crítica ácida à futilidade dos concursos de beleza infantis, tão comuns nos EUA, que parecem valorizar a transformação artificial da menina numa boneca de mini-adulto vazia, quando o que torna uma criança bela é justamente o fato dela ser... criança! (E as caretas de desconforto do personagem do pai nas cenas de apresentação das competidoras são hilárias muito por refletir o que o espectador está sentindo). Nesse sentido, a apresentação final de Olive é justamente o deboche maior à hipocrisia dessa 'indústria', tão preocupada em 'anular o aspecto infantil das meninas'. Mas o filme vai além. A partir da figura do pai, "Pequena Miss Sunshine" é também uma crítica ao aspecto competitivo da cultura norte-americana, o 'vencer a qualquer custo', a separação doentia que aquela própria sociedade faz entre 'vencedores' e 'perdedores'. Quando ser vencedor, na verdade, nada mais é do que ser íntegro com quem você de fato é, independente do que a sociedade exige de você, e independente do quanto sofrimento isso gere, porque isso é o que nos forma (algo que os personagens de Steve Carrell e Paul Dano parecem chegar a conclusão na cena do cais). "Pequena Miss Sunshine" é uma comédia independente surpreendente. Pode parecer bobinha num primeiro vislumbrar de olhos, mas a cada revisitada parece ter mais a dizer sobre a cultura norte-americana, e sobre o valor que devemos dar ao que somos e ao que temos, tudo a partir do microcosmo maluco que é aquela família.
Conhecido por ser um dos filmes favoritos de Martin Scorsese, "Os Sapatinhos Vermelhos" possui um certo charme e elegância. Tem um início meio morno, acompanhando os personagens e seus cotidianos nos bastidores de uma companhia de balé de alta classe, com seus pequenos dramas, sonhos e esperanças. Atinge seu ápice mesmo na apresentação da performance que dá título ao filme, em que o longa se torna, literalmente, balé adaptado à linguagem cinematográfica. Uma sequência belíssima que impressiona pelo seu abstracionismo vanguardista para a época em que foi filmado. A partir do momento que o filme se torna um 'triângulo amoroso/profissional', no entanto, a obra começa a perder o brilho. Primeiro pelo conflito ser explorado de forma rasa e óbvia, e segundo porque o casal principal da trama é mal desenvolvido e não possui química alguma. No geral, no entanto, merece a conferida. Um musical britânico que ficou meio eclipsado após décadas e décadas de musicais hollywoodianos de sucesso.
Sendo filha de M. Night Shyamalan, Ishana (pfff...) parece ter herdado os atributos e os defeitos do pai. "Os Observadores", longa-metragem dirigido por ela, começa até bem com uma premissa promissora e instigante, mas vai desabando gradualmente a medida que as explicações (...ruins) vão sendo reveladas para o espectador, e, ao final, tudo se apresenta apenas como uma grande besteira. Nada muito diferente dos filmes do pai, na verdade. Dakota Fanning até se esforça para ser levada a sério, mas não tem muito o que possa fazer com o papel que é oferecido a ela. Por fim, o plot twist - porque é óbvio que iria ter um! - dá pra ser sacado no meio da trama e não impacta ninguém. Medíocre, quando muito.
Nem nos quadrinhos o "Motoqueiro Fantasma" funciona muito bem. O conceito visual do personagem é super bacana, com a jaqueta e a caveira em chamas, mas em termos de tramas é um personagem muito limitado. E, de fato, o principal problema dessa adaptação cinematográfica é justamente o roteiro simplório, clichê e esburacado que mal se preocupa em estabelecer as regras de seu próprio universo. O sonho de Nicolas Cage sempre foi interpretar um super-herói nos cinemas, sua verdadeira ambição sendo o Superman... no entanto, tudo o que conseguiu foi dar vida a um 'herói C' da Marvel. E é difícil levar dramaticamente a sério um personagem que come jujubas numa taça e ri que nem um mongoloide assistindo macacos lutando karatê na TV. Por outro lado, os efeitos especiais das transformações ainda funcionam, dou o braço a torcer. No geral, mais um filme de herói da primeira década dos anos 2000 que piora a cada revisão.
Reconheço a genialidade e a importância fundamental de Alan Turing, considerado o pai da ciência da computação, para todo o desenvolvimento tecnológico que se seguiu depois dele. Se hoje estamos todos aqui usando 'máquinas de calcular' que conseguem processar informações convertidas em milhões de bits por segundo é tudo graças a ele. Todavia, receio que "O Jogo da Imitação" seja um filme que eu respeite mais do que goste. Respeito por resgatar a história desse personagem e torná-lo mais conhecido nos dias de hoje ao público fora da bolha acadêmica. Como obra, no entanto, é um filme meio morno. O roteiro é esquemático, os 'plot points' são artificiais, as coisas acontecem exatamente e convenientemente quando precisam acontecer (apenas para citar um exemplo: os colegas dele ficarem do lado dele do nada, sem nenhum indício de empatia anterior, só porque a trama precisa que 'sim'). A relação dele com a personagem de Keira Knightley é sonolenta, e a homossexualidade do personagem é explorado de forma piegas nos flashbacks da adolescência. A escolha de fragmentar a linha do tempo não possui função alguma. E, talvez o pior, o roteiro sugerir que Turing possuía algum distúrbio que limitava suas interações sociais com o intuito de promover a simpatia do espectador, quando ele na verdade era apenas um misantropo narcisista arrogante, um 'dr. House' da época. Mas o filme tem seus momentos, como quando os personagens discutem sobre a ética de 'quando' deveriam interferir nas ações militares alemãs. Pena que isso seja meio pouco.
Havia algo de grande aqui. A premissa original é inspirada e a crítica social à forma como o homem se organiza em sociedade garantem que a primeira metade do filme seja, justamente, o seu melhor momento. Entretanto, parece ser consenso unânime que as coisas desandam da metade pro final. Os discursos ambientalistas e sociais não saem do óbvio e a trama vai se tornando cada vez mais rasa à medida em que aposta em um romance forçado e sem qualquer química. A sucessão de personagens coadjuvantes sem carisma algum também estraga a empatia pelo filme - o próprio Matt Damon não faz uma grande entrega. E o timing cômico do filme também deixa a desejar em vários momentos. É uma pena. Havia potencial.
De dar esperança e tristeza ao mesmo tempo. Esperança porque é bacana constatar que exista alguns adolescentes que se engajam e que realmente parecem dispostos a discutir política em uma seara civilizada, mesmo que dentro de um microcosmo de um colégio público e dentro das limitações de gestão que um grêmio estudantil oferece. Ainda que em contraponto outros ali parecem encarar tudo como uma grande brincadeira para fazer bobagem e ficar à toa, ou então outros que nem parecem entender direito o que faz um grêmio estudantil, e quais matérias são competentes a ele. Tristeza porque as gravações do documentário foram feitas em 2018, e quando os professores comentam sobre a importância de uma eleição em ano eleitoral, não podemos deixar de fazer associação com aquele ano e de como as coisas degringolaram no nosso país de lá pra cá. Em termos cinematográficos, "Eleições" é um documentário eficiente em sua proposta. Meio cru em alguns momentos, mas satisfatório em seu registro do recorte daquelas semanas na vida dos alunos, e a importância do desenvolvimento de suas noções de cidadania e democracia.
Robert Zemeckis poderia ter feito apenas "Contato" na carreira, e isso já seria o suficiente... Belíssima ficção científica que faz da busca por algo além, também uma metáfora sobre a fé. Não a fé específica sobre uma determinada religião, mas a fé em seu sentido puro. Acreditar em algo que nos inspire e motive a seguir em frente a buscar nossos objetivos. Pois acreditar em valores, acreditar na humanidade também é ter Fé. E essa talvez seja justamente a fé mais bonita que existe, justamente porque não é maculada por interesses mesquinhos de um grupo seleto de gente que explora e manipula apenas para não perder o seu poder de controle social. É a fé na própria bondade, porque ela é boa, e pronto.
Mas divago, "Contato" é uma obra-prima do audio-visual desde os seus minutos iniciais quando nos apresenta uma belíssima introdução do planeta, do sistema solar e da galáxia, em um movimento inteligente em que as ondas de rádio vão retrocedendo no tempo à medida que nos afastamos da Terra. Há uma liberdade poética científica aqui, mas não de todo errada, pois coincide com as leis da física. Aliás, os movimentos de câmera e os planos-sequência de 'Contato' são um dos charmes do filme.
Felizmente, não é só de técnica que 'Contato' sobrevive. A história também é muito boa. Claro, não é um filme de ficção científica de raio azul e invasão alienígena. Se você estiver buscando um filme de ação, está na praia errada. 'Contato' é um filme de ficção reflexivo, que usa uma história batida em Hollywood para forçar-nos a olhar para nós mesmos, nossas relações e nossos interiores, e fazermos pensar sobre tudo isso. Nossa grandiosidade em fazer coisas fantásticas e, ao mesmo tempo, a nossa absoluta pequenez como grãos de areia incapazes de evitar coisas que são inevitáveis.
Destino, acaso, coincidências? 'Contato' brinca com esses conceitos ao mesmo tempo que nos divide e nos une em opiniões ou teorias. Na base de tudo há a certeza de que não há certezas, mas vamos continuar buscando. Pois certas coisas não podem ser comprovadas empiricamente, elas apenas... são. Como o amor.
"Sim, nós somos poeiras das estrelas" - Carl Sagan.
Pode não ser uma das melhores histórias de Sherlock Holmes já feitas transportada para o cinema, mas certamente é uma das mais divertidas. Baseado no livro homônimo de Jô Soares, "O Xangô de Baker Street" demonstra exímia sagacidade a medida que vai mesclando elementos tão díspares em uma obra que se mantém equilibrada do início ao fim e em nenhum momento destoa. É mérito do ótimo roteiro que em nenhum momento estranhamos o encontro aleatório de mundos que este filme proporciona, tudo soa plausível. Ao mesmo tempo que oferece uma história de mistério sólida e instigante - mesmo que, na adaptação para a linguagem cinematográfica, há um detalhe que permite que o assassino seja identificado nos primeiros minutos sem muita dificuldade. Também funciona como uma espécie de homenagem à vários aspectos da cultura e da história brasileira, com um humor mordaz que também ironiza a sociedade e a política da época. Até para fazer uma boa comédia é necessário inteligência, e nisso o nosso saudoso Jô Soares era mestre!
Tem uma premissa até que charmosa, a ideia do personagem que tem algo precioso de seu perdido e os vizinhos, para o pouparem, inventam uma mentira que aos poucos o vai consumindo. Entretanto, lá pelas tantas a execução do filme empaca no mesmo ponto e você percebe que a obra não vai mais para lugar nenhum, tal como uma vaca atolada desnorteada. Se há algum simbolismo social aqui - e eu creio que de fato exista - ele se encerra em si mesmo, sem mais camadas para se aprofundar. O próprio plot da mentira se torna um ponto irrelevante no roteiro, pois, mesmo que os vizinhos tivessem contado a verdade, o desenlace da história provavelmente seria o mesmo (e o filme perde preciosos minutos nisso). Trata-se de uma obra com um bom começo, mas um final a desejar. Bem feita, a trama inteira caberia num curta-metragem. De pontos positivos, a bela fotografia em preto e branco e a atuação de Ezzatolah Entezami que, ironicamente, convence mais como vaca do que como ser humano.
Alien: Romulus
3.7 762 Assista AgoraComeça dando uma desanimada por parecer ser um capítulo 'teenager' da franquia. Mas surpreendentemente aos pouquinhos "Alien - Romulus" vai conquistando um equilíbrio interessante entre ser uma homenagem que reverencia a série, e um episódio novo que traz situações de tensão diferentes e criativas para o roteiro poder 'brincar' com o xenomorfo. Não que ele acrescente novos elementos à mitologia do personagem, ele não o faz - e, honestamente, nem faz falta - mas ao menos é uma das continuações da série mais inofensivas e que parece ter um certo respeito pelo que veio antes. Ainda, reaproveita algumas ideias bestas de "Alien - Ressurreição" e as reformula de um modo muito mais satisfatório. Poderiam ter ousado um pouco mais no horror gore e nos efeitos práticos e menos nos CGI, mas isso parece já ser um mal irremediável no cinema dos dias de hoje.
A Missão
3.8 237É sempre satisfatório ver o cinema estrangeiro dando um pouco de atenção, mesmo mínima que seja, a História de outros povos. No caso, a questão das missões jesuíticas na América do Sul é um tema que, mesmo em aulas de História do Brasil, acabam muitas vezes sendo jogadas ao largo de eventos mais 'importantes'. No filme britânico "A Missão", de 1986 esse tema é resgatado com um tom épico de longa-metragem, que informa e respeita a história que está sendo contada. O elenco é de primeiro escalão: Robert de Niro, Jeremy Irons e Liam Neeson são jesuítas que de repente se veem no caldeirão fervente quando Portugal e Espanha decidem arbitrariamente, por um tratado impessoal e distante, dividir entre eles terras pouco se importando com quem já estava estabelecido por ali. O longa é um olhar pesaroso para esse episódio triste da história humana, e faz um recorte até pequeno de todas as atrocidades que foram feitas. No fim, o mais selvagem é o homem dito civilizado.
O Expresso Polar
3.6 652 Assista Agora"O Expresso Polar" teria tudo para se tornar um Clássico de Natal. E talvez de fato o seja para muitos que já o tenham na sua memória afetiva. O filme tem o seu coração no lugar, e a sinopse não é ruim. No entanto, sofre por ter sido feito por uma técnica de animação que ainda se encontrava demasiado imatura, o 'motion capture'. Por conta dela, o olhar vítreo e sem alma dos personagens dão uma sensação esquisita de frieza e distanciamento, e dotam eles de uma aparência que beira o horripilante. Em outros momentos, o filme lembra cenas de algum vídeo game mal renderizado com NPCs, além de ter sequências inteiras que só fazem sentido para justificar as exibições em 3D na época do lançamento. É uma pena, talvez esse seja um dos casos em que a escolha pelo 'live action' poderia ter rendido em uma experiência muito mais satisfatória e marcante.
Papai Noel às Avessas
3.1 119Billy Bob Thornton é um Papai Noel alcóolatra, estelionatário, misantropo e completamente pistola com a vida. O que serviria como ótimo argumento para a comédia politicamente incorreta que "Papai Noel às Avessas" se pretende ser. Pena que as piadas não funcionam, seja pelo timing ruim, seja pelas atuações fracas, seja por um roteiro que vai jogando as situações sem se preocupar em costurar qualquer lógica interna. Os furos da trama são constantes, e a inteligência questionável dos personagens abusa da boa vontade do espectador. Medíocre, no máximo.
Mogli: O Menino Lobo
3.6 326 Assista AgoraUma narrativa simples, mas eficaz, e que facilmente pode encantar o público infantil hoje tanto quanto o fez na década de 60. "Mogli - O Menino-Lobo" combina humor e uma pitada de emoção na jornada do protagonista, enquanto este é tutelado pelos dois personagens contrapostos, o disciplinado Bagheera e o displicente Baloo (que, de certa forma, poderiam ser traduzidos como o embate entre a razão e a emoção na criação do menino). É interessante como o filme consegue ser leve, mesmo que a história por trás seja repleta de perigos e selvageria (talvez seja um dos filmes da Disney que mais reúna 'vilões': a cobra Kaa, o orangotango Louie, e, claro, o tigre Shere Khan). Por sua vez, a trilha sonora original é um personagem a parte, e "Mogli" jamais seria o mesmo filme sem ela.
"-Necessário, somente o necessário..."
A Espada Era a Lei
3.8 316 Assista AgoraUma das animações mais tímidas da Disney. A princípio, fazer uma obra tendo por base as lendas do Rei Arthur até soa como uma boa ideia - afinal, a Disney havia feito fortuna apostando em contos medievais. Mas o roteiro de "A Espada Era a Lei" pega apenas o início e o final emprestado das lendas arthurianas, sendo que todo o restante do longa poderia perfeitamente ser feito com personagens com nomes diferentes que não faria a menor diferença. Ainda, a estrutura episódica soa repetitiva e pouco inspirada depois das reiteradas transformações do protagonista em algum animal, o filme parece um disco arranhado. Mas tecnicamente é razoável, e funciona ao menos como distração. Como curiosidade maior, apenas o fato de ser a obra de estreia de 'Madame Mim', personagem que ficaria mais famosa nos quadrinhos como a feiticeira amiga da Maga Patalójika.
Operação Natal
3.1 201Tem algumas sacadas bacanas, tipo trazer o Papai Noel como sendo uma espécie de segredo de Estado, e a primeira metade do filme com suas investigações atrás de pistas por lugares diferentes do mundo lembram um pouco um 'James Bond natalino'. Mas não demora muito e o filme se torna apenas uma aventura genérica de Sessão da Tarde com Dwayne Johnson e Chris Evans, que surpreendentemente até formam uma boa dupla. Lucy Liu nunca foi uma grande atriz, e aqui não está diferente - não que o roteiro lhe permita explorar o seu personagem, enquanto que o Papai Noel incomum de J.K Simmons é completamente sub-aproveitado. Enfim, "Operação Natal" não chega a ser uma empreitada ruim, apenas esquecível.
X-Men Origens: Wolverine
3.2 2,2K Assista AgoraUm dos aspectos mais intrigantes do personagem Wolverine nos quadrinhos era justamente o mistério sobre seu passado desconhecido e em aberto. Explorar esse vazio e tentar dar respostas é como revelar o truque do mágico: pode ser curioso num primeiro momento, mas depois tira completamente a graça da ilusão. Se a trama criada for ruim e clichê, então pior ainda. Esse é o grande problema de "X-Men Origens: Wolverine" que, ao apostar na lacuna da história do protagonista, cria uma história sem sal que nunca sai do óbvio, motivado por um romance mixuruca. Como adaptação de quadrinhos, por outro lado, o roteiro demonstra desconhecer completamente que o sentido do Projeto Arma X era muito mais do que apenas colocar adamantium no esqueleto do personagem, mas sim condicioná-lo e descontruir completamente a sua humanidade para torná-lo uma arma perfeita (o que, nas histórias, levou anos). A participação de figurantes dos X-Men como Blob e Gambit são insuficientes para manter o interesse, e já é consenso que o que fizeram com o Deadpool nesse filme foi uma ofensa. E o que Will I Am está fazendo aqui??!
Em tempo, o filme perfeito de 'Arma X' seria uma história de terror no estilo 'Alien' em que os cientistas ficam presos dentro das instalações, enquanto que a 'Arma' sairia trucidando geral, retaliando o que fizeram com ele (tal como acontece nos quadrinhos). Mas duvido que a Disney - que agora é quem detém os direitos do personagem - apostaria numa trama em que ele é, por assim dizer, o "vilão".
Uma Noite de Fúria
2.8 86Comédia ruim que poderia ter rendido uma história mais inspirada, tendo em vista seu plot subversivo criativo. Mas nada funciona, as piadas, as atuações, o enredo. Até mesmo pra besteirol um mínimo de qualidade é exigido para conseguir fazer rir. "Uma Noite de Fúria" não consegue nem isso.
O Quarteto Fantástico
2.3 93A produção de Roger Corman para o filme do Quarteto Fantástico, de 1994, ficou famosa por ser tão ruim que nunca chegou a ver a luz do dia. Redescoberta anos depois pelos usuários da internet, confirma-se toda a impressão de cafonice trash bizarra atribuída a sua fama. O filme é da década de 90, mas tem uma produção sucateada e efeitos dignos da década de 60. O roteiro é ruim e rasteiro, e refém de diversas coincidências improváveis para se fazer funcionar. Entre pérolas como 'a câmera subjetiva de uma personagem cega', 'as estratégias de luta da Mulher-Invisível (que invariavelmente envolvem ela desaparecer no meio e fazer dois oponentes se chocarem)' e a 'gafe de Reed que fala que Ben se transforma em pedra porque resolve as coisas na força bruta por não conseguir revolver na inteligência (praticamente chamou o cara de burro kkkkkk), "O Quarteto Fantástico" de 94 sobrevive apenas pelo humor involuntário, e pelo seu clima de curiosidade 'freak'. Ah, e é só eu que achei a trilha instrumental em alguns momentos de tranquilidade muito inspirada na melodia dramática de 'Jurassic Park'?
Contos de Natal
3.8 6Mais uma versão de 'A Christmas Carol', muito provavelmente o conto mais filmado e refilmado da história do cinema. Dentro daquela linha de 'se você já viu uma das adaptações, então você já viu todas". O filme de 1951 certamente não foi a primeira versão e, naturalmente, não foi a última. E está longe, muito longe de ser a melhor delas - honestamente, até hoje nenhuma supera a versão do Tio Patinhas, a única, pra mim, que faz sentido de existir. Ao contrário, essa versão de 1951 beira o enfadonho, com seus diálogos teatrais e uma direção sem alma. O histrionismo excêntrico de Alastair Sim no ato final mais preocupa do que encanta. É uma história que deveria deixar o coração quentinho, mas só deixa para trás uma certa frieza por não envolver como deveria. São 86 minutos, mas que parecem quase duas horas.
Convenção das Bruxas
2.7 438 Assista AgoraTípico exemplo de remake desnecessário. Zemeckis até tenta recriar o clima sinistro do primeiro filme em algumas cenas, mas o que o original tinha de perturbador e, até mesmo, assustador, esse só passa a impressão de ser... esquisito, como uma nota dissonante em um instrumento musical desafinado, mas nunca ameaçador. Com exceção de Anne Hathaway (completamente over-acting), as bruxas são tratadas de forma impessoal e distante, como figurantes para completar o quadro, enquanto que no original você 'sentia' a presença delas constantemente como uma ameaça. Até aprecio a coragem de mudar alguns pontos da trama para fazer algo diferente - não tenho problemas com o embate final, por exemplo - mas, no geral, tudo soa meio insípido. Os efeitos digitais são bacanas, sim, mas nada supera o ótimo trabalho prático do original incrivelmente realista. Por sua vez, a narração em voice over de Chris Rock é de doer os ouvidos. Em comparação o longa perde, e mesmo tentando analisá-lo de forma isolada, não é um filme que empolgue muito.
A Convenção das Bruxas
3.5 1,0K Assista AgoraDesde criança que não reassistia "A Convenção das Bruxas", clássico da Sessão da Tarde que passou reiteradamente na TV durante os anos 90. Ainda funciona relativamente bem, principalmente pelo uso de maquiagem e efeitos especiais, tanto na concepção das bruxas, quanto na performance dos ratinhos animatrônicos. Esses, aliás, são um alívio quando aparecem, já que o ator mirim que faz o protagonista Luke é bem ruinzinho e pouco carismático. A cena principal do título possui algo de sinistro e incômodo na forma como as bruxas são filmadas sempre em closes fechados, em um campo de profundidade reduzido e na diagonal. O resultado é perturbador, mas num sentido positivo. Não era um dos meus favoritos de infância, confesso, mas reconheço que é um bom exemplar de uma época em que os filmes infantis não tinham medo de ousar alguns limites, o que hoje seria impensável.
Bem-vindos à Marwen
3.4 96 Assista Agora"Bem-Vindos à Marwen" é um filme complicado. Se o espectador tiver dificuldades de aceitar que tudo que acontece nas sequências de animação são extensões do que ocorre internamente na 'psiqué' do protagonista, o filme desaba. O problema é que ambas as duas linhas narrativas do filme - a real e a 'interna' - nunca conseguem sair do modo 'morno', em que pese o plot da trama ter um potencial incrível. É uma pena. Estrelado por Steve Carrell em um ambiente que não é a sua praia, o comediante surpreende ao interpretar um papel dramático de um homem completamente frágil e vulnerável - e, nas sequências de Marwen, ao seu alter ego 'herói de filme de ação', seu exato oposto - e se sai bem nas duas frentes. Aliás, a tecnologia de 'capture motion' que é o xodó de Robert Zemeckis parece, enfim, ter encontrado o seu auge aqui, com os bonecos de Marwen demonstrando ter um vivacidade que faltava aos personagens de seus outros trabalhos. O problema do filme mesmo é o roteiro excessivamente mamão com açúcar que infelizmente não envolve tanto quanto poderia.
Pequena Miss Sunshine
4.1 2,8K Assista AgoraA metáfora é meio batida, mas ainda funciona. A família disfuncional formada por personagens completamente singulares que, sozinhos, não conseguem ir muito longe, mas quando todos se unem deixando de lado as diferenças para descer e empurrar a kombi juntos é que as coisas... seguem em frente! "Pequena Miss Sunshine" cativa não só pela fofurice maravilhosa da protagonista Olive, mas também por ter personagens intrigantes que complementam o mosaico aleatório daquela família de uma forma fascinante. Claro que as boas atuações de todos do elenco, e as situações bem humoradas em que os personagens se metem contribuem para o resultado positivo do longa. Ainda, o filme serve como uma crítica ácida à futilidade dos concursos de beleza infantis, tão comuns nos EUA, que parecem valorizar a transformação artificial da menina numa boneca de mini-adulto vazia, quando o que torna uma criança bela é justamente o fato dela ser... criança! (E as caretas de desconforto do personagem do pai nas cenas de apresentação das competidoras são hilárias muito por refletir o que o espectador está sentindo). Nesse sentido, a apresentação final de Olive é justamente o deboche maior à hipocrisia dessa 'indústria', tão preocupada em 'anular o aspecto infantil das meninas'. Mas o filme vai além. A partir da figura do pai, "Pequena Miss Sunshine" é também uma crítica ao aspecto competitivo da cultura norte-americana, o 'vencer a qualquer custo', a separação doentia que aquela própria sociedade faz entre 'vencedores' e 'perdedores'. Quando ser vencedor, na verdade, nada mais é do que ser íntegro com quem você de fato é, independente do que a sociedade exige de você, e independente do quanto sofrimento isso gere, porque isso é o que nos forma (algo que os personagens de Steve Carrell e Paul Dano parecem chegar a conclusão na cena do cais). "Pequena Miss Sunshine" é uma comédia independente surpreendente. Pode parecer bobinha num primeiro vislumbrar de olhos, mas a cada revisitada parece ter mais a dizer sobre a cultura norte-americana, e sobre o valor que devemos dar ao que somos e ao que temos, tudo a partir do microcosmo maluco que é aquela família.
E não precisamos deixar de comer sorvete.
Os Sapatinhos Vermelhos
4.3 180 Assista AgoraConhecido por ser um dos filmes favoritos de Martin Scorsese, "Os Sapatinhos Vermelhos" possui um certo charme e elegância. Tem um início meio morno, acompanhando os personagens e seus cotidianos nos bastidores de uma companhia de balé de alta classe, com seus pequenos dramas, sonhos e esperanças. Atinge seu ápice mesmo na apresentação da performance que dá título ao filme, em que o longa se torna, literalmente, balé adaptado à linguagem cinematográfica. Uma sequência belíssima que impressiona pelo seu abstracionismo vanguardista para a época em que foi filmado. A partir do momento que o filme se torna um 'triângulo amoroso/profissional', no entanto, a obra começa a perder o brilho. Primeiro pelo conflito ser explorado de forma rasa e óbvia, e segundo porque o casal principal da trama é mal desenvolvido e não possui química alguma. No geral, no entanto, merece a conferida. Um musical britânico que ficou meio eclipsado após décadas e décadas de musicais hollywoodianos de sucesso.
Os Observadores
2.8 468 Assista AgoraSendo filha de M. Night Shyamalan, Ishana (pfff...) parece ter herdado os atributos e os defeitos do pai. "Os Observadores", longa-metragem dirigido por ela, começa até bem com uma premissa promissora e instigante, mas vai desabando gradualmente a medida que as explicações (...ruins) vão sendo reveladas para o espectador, e, ao final, tudo se apresenta apenas como uma grande besteira. Nada muito diferente dos filmes do pai, na verdade. Dakota Fanning até se esforça para ser levada a sério, mas não tem muito o que possa fazer com o papel que é oferecido a ela. Por fim, o plot twist - porque é óbvio que iria ter um! - dá pra ser sacado no meio da trama e não impacta ninguém. Medíocre, quando muito.
Motoqueiro Fantasma
2.7 1,2K Assista AgoraNem nos quadrinhos o "Motoqueiro Fantasma" funciona muito bem. O conceito visual do personagem é super bacana, com a jaqueta e a caveira em chamas, mas em termos de tramas é um personagem muito limitado. E, de fato, o principal problema dessa adaptação cinematográfica é justamente o roteiro simplório, clichê e esburacado que mal se preocupa em estabelecer as regras de seu próprio universo. O sonho de Nicolas Cage sempre foi interpretar um super-herói nos cinemas, sua verdadeira ambição sendo o Superman... no entanto, tudo o que conseguiu foi dar vida a um 'herói C' da Marvel. E é difícil levar dramaticamente a sério um personagem que come jujubas numa taça e ri que nem um mongoloide assistindo macacos lutando karatê na TV. Por outro lado, os efeitos especiais das transformações ainda funcionam, dou o braço a torcer. No geral, mais um filme de herói da primeira década dos anos 2000 que piora a cada revisão.
O Jogo da Imitação
4.3 3,0K Assista AgoraReconheço a genialidade e a importância fundamental de Alan Turing, considerado o pai da ciência da computação, para todo o desenvolvimento tecnológico que se seguiu depois dele. Se hoje estamos todos aqui usando 'máquinas de calcular' que conseguem processar informações convertidas em milhões de bits por segundo é tudo graças a ele. Todavia, receio que "O Jogo da Imitação" seja um filme que eu respeite mais do que goste. Respeito por resgatar a história desse personagem e torná-lo mais conhecido nos dias de hoje ao público fora da bolha acadêmica. Como obra, no entanto, é um filme meio morno. O roteiro é esquemático, os 'plot points' são artificiais, as coisas acontecem exatamente e convenientemente quando precisam acontecer (apenas para citar um exemplo: os colegas dele ficarem do lado dele do nada, sem nenhum indício de empatia anterior, só porque a trama precisa que 'sim'). A relação dele com a personagem de Keira Knightley é sonolenta, e a homossexualidade do personagem é explorado de forma piegas nos flashbacks da adolescência. A escolha de fragmentar a linha do tempo não possui função alguma. E, talvez o pior, o roteiro sugerir que Turing possuía algum distúrbio que limitava suas interações sociais com o intuito de promover a simpatia do espectador, quando ele na verdade era apenas um misantropo narcisista arrogante, um 'dr. House' da época. Mas o filme tem seus momentos, como quando os personagens discutem sobre a ética de 'quando' deveriam interferir nas ações militares alemãs. Pena que isso seja meio pouco.
Pequena Grande Vida
2.7 449 Assista AgoraHavia algo de grande aqui. A premissa original é inspirada e a crítica social à forma como o homem se organiza em sociedade garantem que a primeira metade do filme seja, justamente, o seu melhor momento. Entretanto, parece ser consenso unânime que as coisas desandam da metade pro final. Os discursos ambientalistas e sociais não saem do óbvio e a trama vai se tornando cada vez mais rasa à medida em que aposta em um romance forçado e sem qualquer química. A sucessão de personagens coadjuvantes sem carisma algum também estraga a empatia pelo filme - o próprio Matt Damon não faz uma grande entrega. E o timing cômico do filme também deixa a desejar em vários momentos. É uma pena. Havia potencial.
Eleições
3.8 14De dar esperança e tristeza ao mesmo tempo. Esperança porque é bacana constatar que exista alguns adolescentes que se engajam e que realmente parecem dispostos a discutir política em uma seara civilizada, mesmo que dentro de um microcosmo de um colégio público e dentro das limitações de gestão que um grêmio estudantil oferece. Ainda que em contraponto outros ali parecem encarar tudo como uma grande brincadeira para fazer bobagem e ficar à toa, ou então outros que nem parecem entender direito o que faz um grêmio estudantil, e quais matérias são competentes a ele. Tristeza porque as gravações do documentário foram feitas em 2018, e quando os professores comentam sobre a importância de uma eleição em ano eleitoral, não podemos deixar de fazer associação com aquele ano e de como as coisas degringolaram no nosso país de lá pra cá. Em termos cinematográficos, "Eleições" é um documentário eficiente em sua proposta. Meio cru em alguns momentos, mas satisfatório em seu registro do recorte daquelas semanas na vida dos alunos, e a importância do desenvolvimento de suas noções de cidadania e democracia.
Contato
4.1 826 Assista AgoraRobert Zemeckis poderia ter feito apenas "Contato" na carreira, e isso já seria o suficiente... Belíssima ficção científica que faz da busca por algo além, também uma metáfora sobre a fé. Não a fé específica sobre uma determinada religião, mas a fé em seu sentido puro. Acreditar em algo que nos inspire e motive a seguir em frente a buscar nossos objetivos. Pois acreditar em valores, acreditar na humanidade também é ter Fé. E essa talvez seja justamente a fé mais bonita que existe, justamente porque não é maculada por interesses mesquinhos de um grupo seleto de gente que explora e manipula apenas para não perder o seu poder de controle social. É a fé na própria bondade, porque ela é boa, e pronto.
Mas divago, "Contato" é uma obra-prima do audio-visual desde os seus minutos iniciais quando nos apresenta uma belíssima introdução do planeta, do sistema solar e da galáxia, em um movimento inteligente em que as ondas de rádio vão retrocedendo no tempo à medida que nos afastamos da Terra. Há uma liberdade poética científica aqui, mas não de todo errada, pois coincide com as leis da física. Aliás, os movimentos de câmera e os planos-sequência de 'Contato' são um dos charmes do filme.
Felizmente, não é só de técnica que 'Contato' sobrevive. A história também é muito boa. Claro, não é um filme de ficção científica de raio azul e invasão alienígena. Se você estiver buscando um filme de ação, está na praia errada. 'Contato' é um filme de ficção reflexivo, que usa uma história batida em Hollywood para forçar-nos a olhar para nós mesmos, nossas relações e nossos interiores, e fazermos pensar sobre tudo isso. Nossa grandiosidade em fazer coisas fantásticas e, ao mesmo tempo, a nossa absoluta pequenez como grãos de areia incapazes de evitar coisas que são inevitáveis.
Destino, acaso, coincidências? 'Contato' brinca com esses conceitos ao mesmo tempo que nos divide e nos une em opiniões ou teorias. Na base de tudo há a certeza de que não há certezas, mas vamos continuar buscando. Pois certas coisas não podem ser comprovadas empiricamente, elas apenas... são. Como o amor.
"Sim, nós somos poeiras das estrelas" - Carl Sagan.
O Xangô de Baker Street
3.2 165 Assista AgoraPode não ser uma das melhores histórias de Sherlock Holmes já feitas transportada para o cinema, mas certamente é uma das mais divertidas. Baseado no livro homônimo de Jô Soares, "O Xangô de Baker Street" demonstra exímia sagacidade a medida que vai mesclando elementos tão díspares em uma obra que se mantém equilibrada do início ao fim e em nenhum momento destoa. É mérito do ótimo roteiro que em nenhum momento estranhamos o encontro aleatório de mundos que este filme proporciona, tudo soa plausível. Ao mesmo tempo que oferece uma história de mistério sólida e instigante - mesmo que, na adaptação para a linguagem cinematográfica, há um detalhe que permite que o assassino seja identificado nos primeiros minutos sem muita dificuldade. Também funciona como uma espécie de homenagem à vários aspectos da cultura e da história brasileira, com um humor mordaz que também ironiza a sociedade e a política da época. Até para fazer uma boa comédia é necessário inteligência, e nisso o nosso saudoso Jô Soares era mestre!
A Vaca
4.0 20Tem uma premissa até que charmosa, a ideia do personagem que tem algo precioso de seu perdido e os vizinhos, para o pouparem, inventam uma mentira que aos poucos o vai consumindo. Entretanto, lá pelas tantas a execução do filme empaca no mesmo ponto e você percebe que a obra não vai mais para lugar nenhum, tal como uma vaca atolada desnorteada. Se há algum simbolismo social aqui - e eu creio que de fato exista - ele se encerra em si mesmo, sem mais camadas para se aprofundar. O próprio plot da mentira se torna um ponto irrelevante no roteiro, pois, mesmo que os vizinhos tivessem contado a verdade, o desenlace da história provavelmente seria o mesmo (e o filme perde preciosos minutos nisso). Trata-se de uma obra com um bom começo, mas um final a desejar. Bem feita, a trama inteira caberia num curta-metragem. De pontos positivos, a bela fotografia em preto e branco e a atuação de Ezzatolah Entezami que, ironicamente, convence mais como vaca do que como ser humano.