Os Earnshaws são fazendeiros de Yorkshire no início do século XIX. Um dia, o Sr. Earnshaw retorna de uma viagem à cidade, trazendo consigo um menino maltrapilho chamado Heathcliff. O filho de Earnshaw, Hindley, sente ressentimento pelo garoto, mas Heathcliff torna-se companheiro e alma gêmea da irmã de Hindley, Catherine. Após a morte dos pais, Cathy e Heathcliff crescem livres e selvagens nos charnecos e, apesar da inimizade contínua entre Hindley e Heathcliff, são felizes – até que Cathy conhece Edgar Linton, filho de um vizinho rico.
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Belíssima adaptação da obra de Emily Brontë.
Com Merle Oberon lindíssima no papel de Cathy e Laurence Olivier como Heathcliff, os dois dão vida a uma das histórias mais trágicas da literatura ocidental. Vingança, ciúme e obsessão são os motes dessa história, que por ser muito extensa, o roteiro decidiu por focar apenas na primeira parte da história, por isso vemos menos a questão da vingança de Heathcliff.
A direção de William Wyller faz toda a diferença na construção da trama e a fotografia trás perfeitamente o clima gótico dessa história.
Talvez por já conhecer o contexto da produção, os limites impostos pela censura, a limitação do tempo de duração e talvez até mesmo os anos desde que li o livro, foi muito fácil ser conquistado pela narrativa dessa versão. Ainda foi estranho perder algumas das camadas temáticas do livro, pra não dizer metade da história, mas é uma adaptação inesperadamente habilidosa.
A única coisa que realmente me desagradou, em alguns momentos, foi a altura e tom da trilha sonora, aquela orquestra floreada, típica e já esperada dos melodramas da época, mas que aqui às vezes é excessiva e abafa até o uivado dos ventos, ironicamente. Logo numa das cenas iniciais e mais famosas, em que o fantasma da Cathy chama por Heathcliff, quase não dá para escutá-la por causa da trilha, e até o suspense daquele momento é atrapalhado pelo barulho. Também o monólogo mais memorável de toda obra perde um pouco da força e aquele tom confessional que tem no livro por causa da insistência dos violinos. Felizmente, à medida que a história progride, o filme vai ficando mais silencioso, e nesse espaço para respirar, também fica mais intenso e claustrofóbico.
Os atores são todos excelentes, mas é a Merle Oberon quem mais envolve pela naturalidade com que interpreta as muitas contradições da Cathy. O Heathcliff do Laurence Olivier também é ótimo, mas tem a desvantagem das limitações severas ao nível da crueldade e brutalidade que foi permitida ao personagem na Hollywood do Código Hays. Um outro destaque é uma personagem que teve seu destino original bastante alterado, justamente pela parte da obra que não foi adaptada, e que ganha um novo papel muito interessante no contexto dessa adaptação, incorporando a corrupção que o Heathcliff provoca naqueles em sua volta — assim como um dia foi provocada nele —, preservando uma conexão narrativa com o romance da Emily Brontë que algumas adaptações posteriores falhariam ou até se omitiriam de incorporar.
É dentro dessas e outras limitações que fica muito mais fácil de entender como essa versão, se não criou a crença popular de que Wuthering Heights é uma história de amor, pelo menos disseminou ela, porque além de ser uma adaptação competente, é um ótimo filme.
- li o livro da adolescência e lembro bem pouca coisa, mas sei que a história de Heathcliff e Cathy está longe de ser um romance e sim se trata de uma tragédia
- gosto da conclusão e de toda parte sobrenatural
- e os diálogos são icônicos, bem impactantes e entraram para a história
André Bazin dizia que o enorme talento de William Wyler residia na "ciência da clareza pelo despojamento da forma". Essa economia de meios revelava, segundo o teórico francês, uma comum humildade diante do tema e do espectador, e, somada ao talento e às referências expressionistas de Gregg Toland, conferiu à adaptação de O Morro dos Ventos Uivantes uma qualidade única. Sem desnaturar o caráter romanesco do roteiro, Wyler consegue nos envolver em sua mise-en-scène com um domínio absoluto da construção narrativa.
Agora, falando especificamente da história, aquele meme de Todo Mundo Odeia o Chris - "quando você estiver no banheiro, eu estarei lá" - com o clássico Orientalismo, de Edward Said, é muito real. No caso, o livro que não saiu da minha cabeça ao longo do filme foi Cultura e Imperialismo. É impressionante como o colonialismo afetava, de maneira consciente e inconsciente, todas as ideias e imagens do imaginário britânico no século XIX. No filme, vemos como Emily Brontë apresentou a emigração para a ex-colônia, regida por valores liberais-burgueses, pelas lentes de uma ordem moral espacial distante das transgressões e incertezas: os ventos uivantes do "velho mundo".
Acho que devo ser uma das poucas pessoas que não aguenta a primeira parte de O Morro dos Ventos Uivantes. O que é um saco, porque a maioria das adaptações cinematográficas do romance se concentra justamente nesse começo, deixando de lado a segunda parte — que, para mim, sempre foi a mais intensa. Isso, de certa forma, acaba distorcendo a mensagem original da história. O roteiro de Charles MacArthur e Ben Hecht sofre demais com essa omissão; o tom do filme muda completamente, ficando com um gosto de algo incompleto, que poderia ter sido muito mais poderoso na sua conclusão. E é uma pena, pois o Wyler consegue lidar com o subtexto fatalista de uma maneira impressionante. O modo que o diretor decupa as cenas para tirar o máximo dos atores é um prazer de se ver. O problema é que a produção foi tão mexida por Samuel Goldwyn que, em certos momentos, a coisa fica resumida a uma disputa de ciúmes. Agora, resta saber o que Emerald Fennell vai nos trazer.