Artur Capano
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Artur Capano
2 semanas atrás

Uma das melhores minisséries que já assisti. Estou com vontade de ver mais uma vez, porque tem coisas que não tem como captar a profundidade em uma assistida.

Produção e atuações fantásticas, principalmente da Florence Pugh. O que foi isso?!! Papo de Emmy. Ela entregou uma vilã, uma personagem absurda.

Mas vamos lá.

Eu diria que A Leste do Éden tem duas grandes camadas.

A primeira é a superficial.

É a história de uma família atravessada por rivalidades, traições, abandonos e mortes. Duas gerações aparentemente condenadas a reproduzir os mesmos erros.

A segunda camada é muito mais poderosa.

*A Leste do Éden* é uma releitura bíblica de Caim e Abel. Mas não procura apenas identificar quem representa cada irmão. Busca compreender por que Caim se tornou Caim e se alguém está realmente condenado a ocupar essa posição.

A narrativa me lembrou *Cem Anos de Solidão*, de Gabriel García Márquez. As gerações passam, mas determinadas estruturas emocionais permanecem. Os filhos reproduzem aquilo que condenavam nos pais.

Comentário contando partes do filme. Mostrar.

Isso aparece na história de Adam e Charles, irmãos criados por Cyrus, um pai autoritário que impõe a cada filho o destino desejado pelo outro.

Charles inveja Adam pela carreira militar, mas Adam sequer queria ser militar. Charles inveja um privilégio que, para o irmão, representa uma punição.

Ser o favorito não significa necessariamente ser livre. Muitas vezes, significa carregar as expectativas de outra pessoa.

Após a morte de Cyrus, os irmãos descobrem que sua reputação militar talvez tenha sido construída sobre uma fraude. O homem que exigia retidão moral dos filhos possivelmente construiu sua fortuna sem observar os próprios princípios.

Outra personagem extraordinária é Cathy, talvez a mais perturbadora da história.

Adam encontra Cathy gravemente ferida, acolhe a mulher e acaba se apaixonando por ela. Os dois se casam e têm dois filhos, Aaron e Caleb. Entretanto, Cathy abandona a família pouco depois do nascimento dos meninos e vai para um bordel, onde posteriormente assume o controle do estabelecimento.

Acredito que a paixão de Adam esteja muito mais próxima da idealização do que do amor.

Ele não ama Cathy como ela realmente é. Ama a representação que construiu dela. Enxerga uma mulher inocente que precisa de proteção e encontra nessa imagem a oportunidade de exercer o papel de salvador.

Às vezes, não amamos o outro, mas a função que ele desempenha na nossa narrativa pessoal.

Cathy, por outro lado, interpreta as relações humanas como disputas de poder. Para ela, confiança é vulnerabilidade, bondade é ingenuidade e afeto é dependência.

Enquanto Adam enxerga bondade onde talvez ela não exista, Cathy parece incapaz de acreditar que alguém possa agir sem interesses ocultos.

Outro personagem fascinante é Lee.

Filho de imigrantes chineses, nasceu nos Estados Unidos e domina o inglês, mas adota deliberadamente uma maneira estereotipada de falar porque compreende que a sociedade espera isso dele.

Isso lembra o conceito de falso self, de Donald Winnicott, em que a pessoa adapta sua identidade para obter aceitação ou proteção.

Na minha interpretação, Lee talvez seja a pessoa mais inteligente da história, mas também uma das que mais reprimem o próprio potencial.

É justamente ele quem assume a criação dos filhos de Adam após o abandono de Cathy, demonstrando que a família também nasce da convivência e do cuidado.

Quando Aaron e Caleb crescem, percebemos que a rivalidade entre Adam e Charles está sendo reproduzida.

Adam prefere Aaron, que representa seus valores morais. Caleb, mais inquieto e transgressor, percebe essa diferença.

Caleb não quer apenas ser amado pelo pai. Quer ser amado da maneira como Aaron é.

Quando Adam perde grande parte da fortuna num empreendimento fracassado de transporte de alfaces refrigeradas, Caleb consegue recuperar o dinheiro por meio de negócios beneficiados pela guerra.

Mas ele não oferece apenas uma quantia financeira. Oferece uma tentativa de reconciliação, uma declaração silenciosa de que também merece reconhecimento.

Adam rejeita o presente por considerar imoral lucrar com a guerra.

E aqui está uma das maiores ironias da obra.

Adam condena o dinheiro do filho, embora tenha passado grande parte da vida sustentado pela fortuna suspeita de Cyrus.

Mais profundamente, reproduz o comportamento paterno. Sofreu porque Cyrus não reconhecia sua individualidade, mas faz exatamente a mesma coisa com Caleb.

O trauma intergeracional se completa. Adam não precisa ser tão autoritário quanto Cyrus para reproduzir a violência emocional que sofreu. Basta confundir amor com aprovação.

A rejeição desencadeia uma tragédia.

Caleb descobre que Cathy, a mãe que abandonou os irmãos na infância, está viva e administra um bordel. Então leva Aaron até o estabelecimento e revela a verdadeira identidade daquela mulher.

O gesto é cruel, mas psicologicamente compreensível. Incapaz de conquistar o reconhecimento paterno, Caleb procura destruir a inocência daquele que sempre recebeu esse reconhecimento.

Se não pode ocupar o lugar de Abel, tentará demonstrar que Abel também não é tão puro quanto todos acreditam.

Aaron, devastado pela revelação, entra para o Exército e acaba morrendo na guerra.

Mas existe outra questão interessante. A inveja quase nunca corresponde ao conhecimento verdadeiro da vida que desejamos possuir.

Charles invejava Adam pela carreira militar, mas Adam não queria ser militar.

Caleb invejava Aaron pelo amor paterno, pelos estudos e pelo relacionamento com Abra. Entretanto, Aaron abandona os estudos e idealiza Abra, assim como Adam idealizava Cathy.

Abra percebe que Aaron ama uma versão dela que não corresponde inteiramente à realidade. Ao se aproximar de Caleb, encontra a possibilidade de ser reconhecida de maneira mais autêntica.

Caleb inveja uma vida que Aaron não deseja inteiramente viver.

A inveja depende de uma fantasia sobre a existência alheia. Invejamos aquilo que acreditamos que determinada posição representa, sem conhecer suas frustrações.

No desfecho, Caleb acredita ter provocado a morte de Aaron e passa a carregar uma culpa insuportável.

Mas existe uma armadilha nessa interpretação. Caleb transforma sua participação na tragédia em responsabilidade absoluta por todas as escolhas posteriores do irmão.

É possível reconhecer sua crueldade sem concluir que controlava o destino de Aaron.

É nesse momento que Lee introduz a palavra mais importante da obra.

*Timshel.*

Na interpretação bíblica apresentada pela história, significa "tu poderás".

A palavra se relaciona à passagem de Gênesis em que Deus adverte Caim sobre o pecado.

Não significa que o homem necessariamente vencerá seus impulsos, tampouco que esteja condenado a sucumbir a eles.

Significa que existe a possibilidade de escolher.

Caleb pode sentir inveja sem necessariamente se tornar violento. Pode reconhecer seus impulsos destrutivos sem ser definido por eles. Pode ter cometido uma crueldade e ainda assim escolher não fazer da crueldade sua identidade.

A obra demonstra como os traumas familiares moldam profundamente a personalidade.

Mas influenciar não significa determinar.

E aqui está sua mensagem mais poderosa. Compreender a origem dos nossos comportamentos não significa estar condenado a reproduzir esses comportamentos.

A bênção final de Adam representa o reconhecimento de que Caleb pode construir uma identidade independente daquela que recebeu da família.

Talvez seja por isso que a história se chama *A Leste do Éden*.

Na Bíblia, Caim, depois de matar Abel, passa a habitar a terra de Node, a leste do Éden.

Todos os personagens estão, de alguma maneira, afastados da família ideal, do amor incondicional ou da pureza moral.

Mas perder a inocência também pode representar o nascimento da consciência.

Caleb não pode ressuscitar Aaron ou reconstruir sua infância. Mas pode decidir que tipo de homem deseja ser depois disso.

E essa talvez seja a diferença entre culpa e responsabilidade. A culpa aprisiona alguém num acontecimento irreversível. A responsabilidade permite reconhecer o passado e decidir o que fazer a partir dele.

O que mais me marcou foi perceber que todos procuram fora de si soluções para conflitos que também precisam enfrentar internamente.

Charles quer o reconhecimento recebido por Adam. Caleb quer o amor que Aaron parece possuir. Adam procura em Cathy uma bondade idealizada. Cathy procura no poder uma segurança que não encontra no afeto.

Uma sucessão de tragédias familiares que poderiam parecer inevitáveis, não fosse uma única palavra.

*Timshel.*

**Tu poderás.**

Artur Capano
2 semanas atrás

É uma série MUITO BOA! Atuações impecáveis, elenco estelar, fotografia nível de filme e roteiro muito bem construído.

Sem defeitos.

Artur Capano
1 mês atrás

É uma série muito boa.

As atuações superam o roteiro, que, no final, me pareceu meio exagerado e apressado.

Não supera a 1a temporada, mas vale a pena o entretenimento! Principalmente pelas reflexões sobre o sentimento de amar/amor e ficar em um relacionamento ou não.

  • Filmow 1 mês atrás

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    Bons filmes!
    Equipe Filmow