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. Joska, Ă© um petiz de 10 anos que apĂłs um terrĂ­vel e acidental infausto, encontra-se sobrevivendo por conta prĂłpria em meio aos horrĂ­pilos eventos tĂ©tricos e fĂșnebres da segunda guerra mundial. Sozinho entĂŁo, Joska, um menino taciturno de comportamento nĂŽmade cujo o nome nem sequer nos Ă© apresentado a primeiro modo, explora o leste Europeu se deparando com as mais infelizes atrocidades humanas, que infelizmente, acabam o inevitavelmente encontrando em seu triste e preocupante andarilho.

. Ao decorrer da extensa película, nos tornamos testemunhas vivas do que o pequeno Joska passa durante sua imparåvel odisseia, que para nós, a princípio, não parecia haver um findo tão cedo, ou muito menos profícuo. Påssaro Pintado, é um longa metragem atroz com 2h de duração que nos mostra de uma forma åspera e dolorosa como a humanidade pode ser, ou apenas se tornar perversa e criminosa, mesmo que com pobres e inocentes crianças perdidas pelo mundo em ruínas.

. Vislumbramos justapostos a uma inerme criança, a maldade e o sofrimento nas mais distintas e discrepantes formas, mesmo que não envolva diretamente o nosso protagonista. Muitas coisas que nos são apresentadas, são supostas "metåforas" a um preconceito, a uma indiferença que reside em nossa sociedade. O preconceito incompreensível de uma raça, contra ela mesma, que não suporta as discrepùncias triviais da vida (o påssaro morto pela própria espécie...)

. Baseado no período em que a trama de "O Påssaro Pintado" se passa continuamente, seu entitulado não é de forma alguma alheio ou incoerente, lhe cai muito bem, envolvendo ele um assunto sociológico e um fato e evento histórico deprimente que aconteceu no passado. Se pintarmos as penas de um passarinho de uma cor que o destaque, e logo após, o oferecer-lhe a alforria diante aos outros de sua mesma espécie, como o que se faz discrepante do habitual, é tratado ?

. O diretor VĂĄclav Marhoul nĂŁo mantĂ©m seu foco realmente nos confrontos, mas sim, no ponto de vista de um petiz que Ă© espectador (e alvo) de uma guerra funesta, que vaga imparĂĄvel atĂ© encontrar seu autĂȘntico lar. VĂĄclav, poderia de fato ter adotado a Ăłtica de alguĂ©m que estava diretamente envolvido no confronto, entretanto, ele nĂŁo o fizera. Utilizando a visĂŁo ĂĄlgida e "imparcial" de uma simples criança, nĂŁo fornece, de forma alguma, uma anĂĄlise ou opiniĂŁo sobre as ideologias apresentadas no filme.

. O que se sucede nesse trabalho de Marhoul (O PĂĄssaro Pintado), tĂȘm como foco principal as experiĂȘncias vivenciadas pelo menino Joska em sua morosa e aflita odisseia, no qual ela, Ă© fragmentada em forma de episĂłdios com saltos atemporais onde nĂŁo sabemos quanto tempo de fato passou-se. O entitulado de cada "fĂĄbula", a primeiro modo pode parecer estranho, mas depois entendemos que o nome que aparece, Ă© na verdade pertencente a cada pessoa que acolheu o menino em sua jornada.

. AlĂ©m de se deparar com o exĂ­cio humano provocado pela guerra e suas consequĂȘncias, alĂ©m de passar por açoites e o mais puro desdĂ©m das pessoas que ele cruza; ele Ă© abusado sexualmente por homem, mulher, tambĂ©m Ă© enterrado atĂ© a cabeça e deixado para ser consumido pelos corvos, ainda vivo. O corolĂĄrio de todas essas desventuras mĂłrbidas, Ă© a perda inevitĂĄvel da inocĂȘncia dessa criança em questĂŁo, e a mudança fortuita na forma que ele se comporta e enxerga a vida. É dessa forma, que traumas psicolĂłgicos sĂŁo formados e consolidados.

. Quando a feição do pequeno Joska, Interpretado por Petr KotlĂĄr entra em planos fechados ou na atenção total da cĂąmera, podemos prestigiar o quĂŁo seu olhar Ă© parado, atro e indecifrĂĄvel, muitas vezes uma feição de apatia ou paisagem, quase empedernida eu acho. E ao mesmo tempo, assemelha-se a uma amĂĄlgama de Ăłdio e repĂșdio. A ausĂȘncia de sons provindo dele na maioria das vezes, Ă© assustadoramente incĂŽmodo em muitos momentos. Talvez isso de alguma forma, sirva como artifĂ­cio narrativo, entretanto, infelizmente nĂŁo sei dizer de que forma.

. O PĂĄssaro Pintado Ă© um filme baseado no romance de Jerzy Kosinski que foi publicado no ano de 1965, atĂ© onde o trabalho cinematogrĂĄfico se faz fiel ao literĂĄrio eu nĂŁo sei de fato declarar, entretanto, O PĂĄssaro Pintado nĂŁo Ă© o melhor exemplo de retratação de eventos histĂłricos fĂșnebres como o holocausto, jĂĄ que, como jĂĄ dito anteriormente, este nĂŁo Ă© seu foco primordial (pelo menos no filme), porĂ©m, digo que vale seu tempo o procurar e assistir, acompanhar a odisseia de uma criança perdida lutando autonomamente para voltar para sua casa.

. A direção de filmagem de VĂĄclav Marhoul e a de fotografia de VladimĂ­r SmutnĂœ criam um cenĂĄrio monocromĂĄtico caracterĂ­stico extremamente elegante e venusto, com uma viva natureza presente na locação da pelĂ­cula. O trabalho do cineasta VĂĄclav Ă© algo interessante e cuidadoso que deve-se apreciar com calma, pois Ă© sua condução deixa o filme muito bonito visualmente de assistir, e com certeza satisfatĂłrio. Recomendo a todos essa lastimĂĄvel e certamente deprimente experiĂȘncia.

. O remake Americano consegue ser muito fiel na ambientação, que é muito bom, jå que isso também é importante para a película, de certa forma. A versão de 2007 é a de mais fåcil acesso, jå que encontra-se no YouTube.
. 97 claramente tĂȘm uma fotografia muito mais quente e clara. (Eu acho) — Enquanto o remake, Ă© consideravelmente mais esmaecido em tons justaposto ao de 2007.

. Tenho Funny Games (ViolĂȘncia Gratuita) de Michael Haneke como referĂȘncia em como um plano/enquadramento Ă© muito importante para um filme, e como isso, quando bem usado claro, pode conversar com o espectador (indiretamente). Quem sabe atĂ©, mudar sua percepção sobre o trabalho. Pode ser uma pĂ©ssima referĂȘncia de fato, mas foi o primeiro trabalho que "consegui" ler, de fato algumas vezes, a intenção de algum plano em especĂ­fico.
. Haneke implica o ideia da intimidade com os abusadores justamente por meio de planos, geralmente mais fechados, como esse em questão, sendo o PP (primeiro plano), ou até mesmo o próprio plano fechado.
. Primeiro plano, anulando com um desfoque muito mais bruto e perceptĂ­vel no de 1997. O desfoque Ă© uma tentativa de redirecionar sua atenção para outro ponto em questĂŁo na cena. Nesse grau do clĂĄssico, Ă© quase forçando o espectador a perder a atenção no Ășnico ponto de agitação considerĂĄvel que ocorre aos fundos.

. Grande parte dos enquadramentos, Ăąngulos e planos, tĂȘm seus "significados". Explorar bem estes com uma fotografia mais esmaecida pra mim, Ă© atraente.

Um exemplo (estranho) disso, é algumas cenas de A Serbian Film, que em alguns momentos, eu gostei muito da ambientação interna e da fotografia.

*Citação a clåssica cena do rastejo da loira**

Uma pelĂ­cula brutal e atroz de se consumir, nĂŁo falando no quesito grĂĄfico, e sim, psicolĂłgico; com uma condução ĂĄlgida e mais que impiedosa, certamente uma experiĂȘncia para poucos, jĂĄ que explora nĂŁo apenas o testemunho como uma certa "compactuação" na violĂȘncia que Ă©, incansavelmente abordada nessa obra de maneiras curiosas.
Entretanto o que se sucede nesse filme, nĂŁo Ă© como nos convencionais ao me pĂ­fio ponto de vista, Ă© de uma forma inteligente e muito interessante, com a visĂ­vel e significativa ausĂȘncia de litros desnecessĂĄrios de um sangue rubro e vibrante cujo Ă© acompanhado ao mais puro sadismo e truculĂȘncia, no  qual Ă© cuspido em nossas tela para sanar, ou apaziguar um desejo sĂłrdido.

Haneke, por meio de determinados planos e enquadramentos —geralmente aqueles que implicam uma certa proximidade maior com os personagens; sendo por exemplo o primeiríssimo primeiro plano, ou apenas primeiro plano— e com diálogos descarados justapostos a troca de olhares furtivos ou de soslaio. É desta forma que o cineasta estabelece um certo tipo de relação direta e inegávelmente curiosa com o espectador.
No qual ela, existe um considerĂĄvel grau de cumplicidade. Michael, Ă© mais que provocativo e cirĂșrgico neste trabalho, suscitando por vĂĄrias e vĂĄrias vezes o desconforto daquele que assiste  apenas pelo mĂ©todo da sonoplastia e do desvio de foco, do interesse do pĂșblico em observar o seu mais aventalhado e perturbado prazer: a violĂȘncia. Uma escolha interessante de trabalhar,  pra mim.

Assim, ocasionalmente concentrando a atenção da cùmera em pontos cegos e relativamente distantes da agitabilidade que se ocorre fora do nosso campo de visão, uma cùmera fixa. Eventualmente nos deixando apenas cogitar e devanear o que estå de fato seguindo, enquanto visualizamos apenas um plano médio assustadoramente dramåtico e eståtico, entretanto possuído por um alarido horrípilo.
Desta forma, ele alfineta aquele que presencia mas nĂŁo pode, de forma alguma, realizar algo para atenuar ou arrostar o que se passa na cena. —ou essa pessoa apenas nĂŁo quer— Com este artifĂ­cio sendo utilizado determinadas vezes, muitas coisas acabam ficando subentendidas, e como sequela, a sĂștil especulação  daquele que, apenas pode ouvir os sons.

Que convenhamos, aos meus cegos olhos, Ă© realmente mais instigante idealizar uma atrocidade do que vĂȘ-la diretamente, passando em minha tela num frenesi tonteante. É algo delicado de se entrar em questĂŁo, e esse nĂŁo Ă© o foco. As divagaçÔes truculentas que assolam a mente de margens atro do ser humano, superam muitas vezes o que seria verdadeiramente proposto numa pelĂ­cula, cujo no qual tĂȘm o foco de ser um conteĂșdo visceral e destruidor.
ViolĂȘncia Gratuita, Ă© um Ăłtimo exemplar de como uma obra cinematogrĂĄfica nĂŁo necessita necessariamente mostrar o horrĂ­pilo e o desumano  diretamente ao espectador para provocĂĄ-lo a lĂĄstima e a tetricidade sobre uma cena ou temĂĄtica. Esse trabalho de Haneke, transmite facilmente a falsa sensação de esperança em atingir a paz diversas vezes. Mesmo que elas, tenham sido fugazes; que Ă© justamente o que ocorre prĂłximo ao seu findo.

Algumas cenas mais  extensas comparada a outras ocorrem em locaçÔes gravadas em planos mĂ©dios, ou americanos. Geralmente estes sĂŁo mais lĂŽbregos e carregados de uma dor e angĂșstia mais visĂ­vel, em consequĂȘncia causa uma considerĂĄvel estranheza e desconforto atĂ© onde se estendem, pelo silĂȘncio tristonho que ressoa e a seriedade que esses momentos da pelĂ­cula, abrigam.
A dupla nĂ­vea de sĂĄdicos, no qual Ă© responsĂĄvel pelas atrocidades da pelĂ­cula, tambĂ©m funcionam como um tipo de personificação da violĂȘncia naquele universo. Isso se faz um fato quando ao atingir o findo que tanto alvejavam, eles partem, sem titubeio para outra residĂȘncia nĂŁo tĂŁo longĂ­nqua causar mais tormento e dor para outra famĂ­lia inĂłcua e inerme daquela regiĂŁo. Isso facilmente fala-se por si sĂł.

Interpretando o que nos Ă© oferecido no filme desta forma, Ă© assim que Haneke nos diz, que nunca, jamais estaremos verdadeiramente safos de sofrer de um infausto agourento ou de uma desventura drĂĄstica e lĂșgebre, mesmo que recĂŽnditos de tudo e todos, no conforto aprazĂ­vel e afĂĄvel de nossas residĂȘncias, tudo de ruim pode vir ao nosso encontro, inclusive de quem menos aguardamos.
O elenco Ă© um show de veracidade. Suas atuaçÔes sĂŁo 'autĂȘnticos', expressĂ”es tĂŁo crĂ­veis, cruas demais. Elas realmente incitam o sentimento de uma compaixĂŁo profunda, puramente direcionada ao espectador que se faz testemunha das crueldades que sĂŁo acometidas contra essa famĂ­lia. É doloroso vislumbrar suas faces adornadas de pavor e medo encararem a tela como num Ășltimo anelo. Faces sorumbĂĄtica contaminadas pelo tĂĄcito.

(Inclusive, o conceito da expressĂŁo "a escolha de Sofia" acaba ocorrendo perto do fim)

ViolĂȘncia Gratuita (Funny Games) Ă© uma adorĂĄvel e adocicada crĂ­tica ao estado transgressor que a nossa sociedade deixou-se chegar conforme os anos foram se sucedendo. Vivenciando todos os dias, desventuras de todos os tipos e gravidades possĂ­veis ao sair de casa para realizar algo... somos cĂșmplices e refĂ©ns de uma sociedade cujo hoje em dia banaliza e atenua a violĂȘncia, faz dela um fetiche, um passatempo, um gosto pessoal.
O cinema de hoje, aborda essa temĂĄtica especĂ­fica das mais variadas formas possĂ­veis, sendo um grande exemplo, este filme que tanto gosto e tenho um carinho. Ele critica e alfineta, abrindo uma indagação ao seu prĂłlogo de como nĂłs, nos fizemos tĂŁo patĂ©ticamente apĂĄticos e satisfeitos consumindo uma obra, —seja ela literĂĄria, cinematogrĂĄfica ou algo real— que trata de forma tĂŁo insensĂ­vel o exĂ­cio humano das formas mais diferentes e sĂĄdicas possĂ­veis.

Em minha opiniĂŁo, vale muito a pena vocĂȘ tirar um pouco de seu tempo para ter essa experiĂȘncia cinematogrĂĄfica, para desfrutar do conceito e da maestria de condução de Michael Haneke. Mas apenas vocĂȘ, decidirĂĄ se deve ou nĂŁo conferir esta pelĂ­cula, afinal de contas, seu livre arbĂ­trio existe.

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    Bons filmes!
    Equipe Filmow