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A série é uma das representações mais perturbadoras existentes sobre o patriarcado, o fundamentalismo religioso e a violência institucionalizada contra as mulheres.
Ao longo de seis temporadas, acompanhamos June e outras muitas mulheres, que têm sua identidade, liberdade, família e até o seu próprio corpo roubados, e mais que roubados, comprados, com direito à título de posse por um regime teocrático que transforma mulheres em propriedades do Estado.
O verdadeiro horror de Gilead não é apenas os estupros, que são normalizados em forma de práticas religiosas, como se estuprar uma mulher fosse tão comum quanto acordar de manhã e tomar o café em seguida, o horrror também não são as multiplas mutilações corporais como punição dos "pecados" cometidos, nem as execuções públicas ou as crianças sequestradas de suas famílias e dadas à outras "mais competentes segundo Deus". O maior horror de Gilead é como tudo isso é legitimizado por leis, tradições culturais e discursos de proteção à família.
Gilead não se sustenta somente pela força armamentista.
Gileado se sustenta pela construção de uma sociedade na qual a submissão feminina é apresentada como virtude, a maternidade é vista como obrigação e a obediência é uma expressão de sua fé.
E talvez a reflexão mais assustadora da série seja justamente essa: a opressão não parece absurda para quem foi ensinado a considerá-la natural.
E é justamente isso que torna O Conto da Aia tão desconfortável de assistir. Porque Gilead não nasceu de um dia para o outro, muito menos de uma sociedade que nunca conheceu a liberdade. Gilead nasceu de uma democracia, de um país onde mulheres estudavam, trabalhavam, votavam, e principalmente, acreditavam que seus direitos eram permanentes.
Até que começaram a perdê-los.
E é nesse ponto que a série deixa de ser apenas uma ficção e começa a se tornar uma reflexão sobre a fragilidade das conquistas feministas.
Afinal quantas vezes ao longo da história, o controle sobre as mulheres foi justificado como uma forma de protegê-las? Quantas vezes a religião, a moralidade e a defesa da família foram utilizadas para determinar como uma mulher deveria se vestir, com quem poderia se relacionar, se poderia trabalhar ou o que deveria fazer com seu próprio corpo?
Gilead nos mostra o que acontece quando uma sociedade deixa de enxergar mulheres como pessoas e passa a considerá-las funções, como esposas, mães, servas, objetos sexuais, propriedades....
E isso tudo me deixa com muito, muito medo.
E o medo não vem de imaginar que um lugar na Terra possa um dia ser como Gilead (apesar de não colocar minha mão no fogo por isso).
Eu sinto medo por reconhecer que algumas das ideias que sustentam a existência de Gilead já estiveram, e continuam estando presentes em sociedades reais.
Por isso a frase que acompanha a June durante sua trajetória se torna muito maior do que uma mensagem deixada na parede de um quarto.
Nolite te bastardes carborundorum.
Não deixe que os bastardos te esmaguem.
Não permita que transformem seus direitos em privilégios, sua liberdade em ameaça e sua existência em algo que precise ser justificado. Porque ser mulher não deveria significar uma luta constante para conquistar aquilo que nunca deveria ter sido negado: o direito de existir, escolher e viver livremente.
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Boa tarde, Yasmin! Me aceita como seu amigo? xD
Eu vi um menino correndo
Eu vi o tempo
Brincando ao redor do caminho daquele menino.