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Realmente é difícil comparar com os outro filmes que são mais paradigmáticos do diretor como "Um Corpo que Cai", "Psicose" ou "Janela Indiscreta", mas "Os Pássaros" é definitivamente muito mais interessante do que eu lembrava.
Sempre o considerei um filme menor do diretor, bem menor, formalmente muito bom mas sem nenhum engajamento emocional com personagens ou a trama, apenas um bom divertimento. E não como se agora o filme tivesse entrado para o top 5 do diretor, mas nessa revisão consegui apreciar muitas qualidades que antes não enxergava.
É muito interessante sentir a evolução do cineasta, na forma como ele inicia e devenvolve várias pequenas tramas e conflitos que são constantemente interrompidos pelo que se revela depois ser o conflito real do filme, o que me parece quase que uma continuidade narrativa da ideia de trocar o protagonista no meio do filme em Psicose.
O filme começa praticamente como uma comédia romântica, com um homem e uma mulher flertando, o que leva ela à tentar encontra-lô novamente, mas no caminho, ela é atacada por um pássaro no barco. Mais pra frente ela encontra uma ex do pretendente, e um possível novo conflito se inicia, mas novamente, essa trama é interrompida pelo pássaro que bate na porta. E assim continua, com os ataques escalonando cada vez mais, até que finalmente as tramas iniciadas são rapidamente resolvidas e apenas a sobrevivência passa a ser o principal objetivo. Os personagens se forçam a resolver seus conflitos uns com os outros pra conseguirem sobreviver.
Essas pequenas tramas e conflitos que depois serão "jogados fora" pelo diretor, poderíamos instintivamente pensar que serão nada memoráveis ou importantes, afinal, o que realmente importaria nesse tipo de filme são os ataques dos pássaros e os conflitos são apenas desculpas para se chegar na ação. Mas é o que acontece é o oposto. Quando os personagens se desenvolvem e os conflitos se aprofundam, nada parece meramente descartável, principalmente a relação entre a protagonista Melanie e a mãe de seu pretendente Lydia. Acho esse conflito o mais bem resolvido no filme, um arco muito bem construído, desenvolvido e concluído. Na cena em que Lydia finalmente desaba e abre sua vulnerabilidade pra Melanie, os diálogos são tão honestos e sem nenhum pingo de ironia e cinismo, que quase esquecemos que se trata de um filme de terror sobre um Apocalipse de pássaros! A suavidade do melodrama dentro do horror é muito bem trabalhada, algo que penso ser bem precursor de filmes como O Bebê de Rosemary, Noite dos Mortos Vivos, Inverno de Sangue em Veneza, O Exorcista, O Nevoeiro, entre muitos outros.
Como citei antes, isso é algo que parece muito uma evolução da narrativa de Psicose. Se naquele filme a trama da uma virada de 180° em uma única cena, onde tudo apresentado antes (o dinheiro roubado, o romance entre os personagens, a possível redenção da protagonista) deixa de ser relevante e a história passa a ser sobre outro personagem com outras motivações e objetivos, aqui me parece algo parecido mas com uma abordagem mais espaçada ao longo do filme. Assim como os ataques dos pássaros, a trama vai mudando aos poucos, Hitchcock troca o choque de Psicose por uma tensão que vem em ondas, e quando você percebe o filme já mudou por completo e nada que importava no começo é relevante na segunda metade do filme
Últimos recados
Tudo bem aí?
É um pouco difícil me divorciar de toda negatividade que esse filme traz consigo, mas forcei minha boa vontade ao máximo e mesmo assim não foi o suficiente. É um filme cheio de ideias (algumas boas inclusive) mas que não consegue articular nada, não consegue mostrar nada esteticamente interessante, tudo é muito desconjuntado e fora do tom.
Penso que em algum lugar bem lá no fundo existe uma premissa que daria um ótimo filme (talvez com um diretor latino realmente filmando no México, ou com a história se passando na França), mas do jeito que foi feito não me desceu de forma alguma. Zoe Saldana tá bem no filme, mas nada que julgaria merecedor de algum destaque em prêmios, a Karla Sofia tá beeem caricata, e não no bom sentido. Selena Gomez coitada, tá péssima, nem acho que seja culpa dela, ela não é uma atriz horrível (vejam Only Murder In The Building), mas nossa, deram os piores diálogos e as piores músicas pra ela.
No final das contas o pior pecado desse filme é tentar falar sobre vários temas importantes mas sendo extremamente vazio e superficial, desde a violência dos cartéis do México até a questão da transsexualidade têm qualquer relevância seja na trama ou esteticamente. E nem as personagens são bem exploradas, o filme não desenvolve ninguém de maneira aprofundada, não tem nenhum motivo para o espectador se importar com ninguém no filme, todas as personagens são pessoas péssimas, egoístas, desagradáveis, sem nenhuma característica redentora e o filme não parece ter nenhuma autoconsciência disso. Tudo é muito vazio, 2h de nada.
E tem outra coisa também, nada me convencerá que esse filme não copiou o final de Eles Não Usam Black-tie do Leon Hirszman.