Últimas opiniões enviadas
Para um filme que propõe quase que literalmente a ideia de se colocar na pele de outras pessoas, achei tudo um tanto frio. Não que eu esperasse um melodrama ou algo emocionalmente apelativo, mas a fotografia é tão dura e a montagem salta tanto no tempo, que o filme parece ativamente não permitir uma conexão com a história. É uma pena, porque há boas interpretações e um coração escondido em algum lugar.
Além da representação eurocêntrica e desconjuntada sobre a América Latina e das músicas ruins, das melodias mal elaboradas às letras breguinhas, o filme tem, no mínimo, um discurso estranho sobre a transexualidade. Aquele bem neoliberal do meme do avião jogando bomba com a bandeira LGBT+ estampada na lataria, sabe? Emilia Pérez tem um passado recente de morte, desfruta da riqueza que acumulou às custas da violência e do sofrimento de muitos, porém o filme a isenta de problematização, porque afinal, ela foi uma chefe do tráfico TRANS, ela montou uma ONG, ela é poderosa e foda pra caralho! Só que não...
O filme a vê quase como uma santidade e esvazia qualquer discussão mais interessante, complexa e madura que poderia ter, desperdiçando a ótima premissa. Eu não entendo a comoção que esse filme tem causado em muitas pessoas. É o Oppenheimer do ano.
Nesses últimos três anos da premiação, o Oscar tem indicado sempre um filme que recebe uma avalanche de indicações, mas que me soa como uma fraude. Nas duas últimas edições tivemos Emília Perez e o vencedor Oppenheimer. Nesta edição, temos Marty Supreme.
Acho que essa sensação de fraude vem do fato de serem filmes muito bem produzidos, com questões técnicas bem resolvidas e uma temática revestida de um verniz de alta importância, mas que, num olhar mais aprofundado, acabam se mostrando frágeis tematicamente, pobres em suas visões críticas e dependentes de gambiarras narrativas para tentar provar um ponto.
Aqui temos Timothée Chalamet em seu modo blasé de sempre, porém apostando no “quanto mais, melhor” interpretativo. Ele e DiCaprio parecem vir da mesma escola para mim: o tipo de ator que interpreta para a câmera, sempre muito técnico, porém sem sensibilidade real. A diferença é que, neste ano, um é o ponto fraco de um filmaço, e o outro está em um filme tão fingido quanto sua própria performance.
Safdie já fez isso antes e muito melhor. Em Joias Brutas, ele joga seu personagem malandro e cheio de lábia em uma espiral de más decisões que vão desencadeando consequências cada vez piores. Porém, naquele filme, ele não tentava fazer a gente gostar de seu protagonista, nem transformá-lo em objeto de admiração. E esse é o ponto central de eu não ter gostado de Marty Supreme: nesse filme, Safdie trata seu protagonista como um babaca, sim, mas como um babaca admirável e que se acha muito mais interessante do que realmente é.
Marty é um arrogante egocêntrico. Passa o filme inteiro tratando todos como acessórios de seus desejos pessoais, assim como Safdie faz com seus coadjuvantes, que nunca parecem agir como protagonistas das próprias histórias. Marty abandona e se aproveita da mãe, da mulher grávida, de parceiros profissionais, adversários esportivos e amigos próximos.
Também me incomoda profundamente a forma como o amigo negro é utilizado apenas para gerar alguma simpatia pelo protagonista, e não como um personagem de verdade, com nuances ou força dramática própria. Isso me fez lembrar de O Brutalista, outro filme recente, igualmente ambientado em parte nos anos 50, que adota a mesma estratégia: um protagonista antipático que tem um amigo negro sem qualquer traço de personalidade, presente apenas para tentar induzir uma simpatia instantânea do espectador pelo protagonista branco, afinal, ele não pode ser uma pessoa tão má assim se é amigo de um homem negro nos anos 50. Enfim, lá e aqui, esses personagens aparecem e desaparecem da trama sem qualquer peso narrativo.
Essa falta de interesse pelos personagens e o foco quase ininterrupto em Marty (que ainda carrega a autoestima inabalável e insuportável de um estadunidense que pode tudo) tornam o filme difícil de engolir para mim. Apesar de alguém citar aqui e ali as falhas de caráter de Marty, o filme insiste em buscar nossa simpatia ou admiração por esse cara, partindo do pressuposto de que, no fundo, ele é legal, interessante e admirável. Tudo isso culmina em um fechamento com tentativa de redenção que não condiz com qualquer traço de personalidade previamente apresentado. Isso passa por um choro típico de Oscar bait, ligado a algo que, até então, o próprio personagem negava como algo que lhe pertencesse.
Marty não é um cara legal, Chalamet não tem tempero e Safdie já fez bem melhor.