Junior

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Últimas opiniões enviadas

Junior
½
4 horas atrás

Esse filme transmite a reflexão da experiência cinematográfica em suas dimensões mais essenciais e fundamentais possíveis.

Já em "I Saw The TV Glow", eu senti a necessidade de deixar registrado neste site o tamanho da má compreensão/má vontade que parecia haver para com aquele filme. Agora, com Camp Miasma, isso me parece ainda mais necessário. Gostaria de deixar escrito aqui todos os aspectos/dimensões notáveis que esse filme tem. Mas sinto que não conseguirei ficar satisfeito, tamanho é a grandiosidade deste filme. É um filme para assistir várias vezes, de tempos em tempos. Porém, há certas coisas que eu acho mais fundamentais para deixar já registrado, tanto para quem quiser ler esse comentário quanto para mim, que, certamente, assistirei no futuro e vou gostar de saber quais elementos eram mais fundamentais de serem registrados.

Primeiro, começando por questões mais superficiais, é tremendamente empolgante como Schoenbrun presta homenagem aos grandes clássicos do Slasher. Obviamente, o filme está conversando com Friday 13th, mas não só. Assim como em I Saw The TV Glow, Jane também está conversando com toda a estética dos anos 80, seja nas cores, nos figurinos, mas, destacadamente, nos tipos de câmeras, lentes e movimentação de câmera. Diversos são os planos usados (ex: aquele Zoom in no Anthony, recepcionista do primeiro chalé onde ela fica, quando ele está procurando um aparelho de DVD para ela). Isso fica mais explícito quando a protagonista-diretora está assistindo ao filme, claro, mas antes disso e após isso já há vários desses elementos característicos dos slashers e do terror que vão nos dando essa boa sensação de assistir a um filme-tributo. Me lembro que, na trilogia Pear, Substância e Noite Passada em Soho, aconteceram esses comentários dos diretores tentando prestar homenagem ao gênero e sub-genero, e aqui isso acontece também, porém, há um aspecto em Camp Miasma em que isso fica mais "profundo": a relação entre forma e experiência cinematográfica para com o filme.

A relação entre Forma X Experiência Cinematográfica é discutida ao longo de todo o filme, junto com a relação de Desejo (escreverei mais para frente sobre ela). A personagem "principal", a Kris, é uma representação da diretora, Schoenbrun. A personagem é atriz-diretora, atrás de uma atriz, Billy Presley, que possui "outra" relação com o filme/Cinema. Enquanto a atriz-diretora possui uma relação afastada com o Cinema, imersa nas partes técnicas, teóricas ou Triviais (no sentido de curiosidade), Billy Presley possui uma relação de Desejo com o Cinema. Aqui, digo Desejo no sentido psicanalítico. Enquanto Kris, no primeiro ato, está pensando nas questões de gênero que o filme Camp Miasma contém, Billy VIVENCIOU a questão de gênero na sua cena final:

Comentário contando partes do filme. Mostrar.

Billy vai perder sua virgindade, sem consentimento. Questões de idade: quando ela diz que foi esquecida pela industria por causa do passar dos anos. Nas reações angustiantes que Billy usa para atenuar seu sofrimento, como o desenho compulsivo da forma geométrica que pode ser tanto uma Câmera de cinema, uma Câmera de projeção e a "cabeça do Little Death"

Nesse sentido, nesse momento dentro da cabana de Presley, começamos a ter uma dinâmica de filme muito parecida com Persona, de Bergman. E, pouco a pouco, Kris começa a se transformar, por ajuda dela, mas, SOBRETUDO, por aproximação com o objeto Cinema. A Transformação de Kris se dá pelo contato que ela começa a ter com o filme-Cinema. É por meio do Olhar do filme, do Olhar da Tela Cinematográfica. É, ao olhar para o filme, se sentir olhada. Aqui está, para mim, a maior e mais qualificada dimensão de um filme-doCinema. Não se pode mais resumir um filme por suas questões teóricas, por sua Forma quando totalmente separada do conteúdo, ou do conteúdo totalmente separado da Forma. É da relação do Sujeito com o Cinema que temos a Experiência Cinematográfica. Como bem lembra a Billy Presley: "Com essa Postura, é claro que o Little Death não vai voltar".

Poderia escrever muito mais sobre a relação Forma X Experiência Cinematográfica, mas quero também escrever sobre o: Desejo. Temos, já no começo do filme, Kris escrevendo essa palavra quando está assistindo a uma sequência de Camp Miasma no aparelho que o recepcionista Anthony emprestou a ela. Esse Desejo, que se encontra no âmbito mais profundo do ser humano, abaixo até mesmo das aguas profundas de um lago — imagem dada pelo filme e também muito conhecida na Psicanálise quando ensinada de forma didática, com a imagem de um iceberg em um rio —, esse Desejo é o que impele Kris tanto para suas dimensões Sexuais quanto para sua Morte. Tomemos muito cuidado ao falar de Morte aqui. Não se trata de uma morte como o fim da vida, mas a Morte como o fim de Uma Vida. Um tipo de Vida. Kris se movimenta, EM RELAÇÃO ao seu Desejo, para a Morte que a permitirá viver outra Vida. E isso só é possível passando por caminhos que requerem muito trabalho, esforço e coragem, que é o caminho do Sexual. E o Sexual, de novo, não se trata apenas do Sexual-Explícito. Só dando um exemplo, para que fique bem claro: é muito sexual a cena de comer frango frito com Bill Presley.

E Kris passa por vários desses momentos, e passa junto com Presley, mulher que não teve outra pessoa que passasse junto com ela, a não ser o Little Death.

Comentário contando partes do filme. Mostrar.

Aqui está a parte mais emblemática, para mim, desse filme. A relação de olhar-ser olhada que Presley tem com o Little Death e que depois Kris também terá. Essa noção de completude, uma noção muito conhecida na relação das mães com os bebês, onde o amor é completo. Onde ainda não temos a intervenção de um terceiro (o pai, mais simplificadamente falando). No entanto, também temos essa mesma relação de olhar-ser olhado com o Cinema. Como disse antes, ao assistirmos a um filme, estamos sempre sendo olhados. Somos olhados pelo filme, pelos personagens, pela projeção da Câmera, pela Tela Cinematográfica. Nas mesmas palavras de Kris: Somos observados e observador.

Neste sentido, o Little Death, que também é a diretora Schoenbrun, também é um diretor que se movimenta pelos dois sexos, não-binário, e pode olhar a atriz-diretora, fazendo a relação de Olhar-Ser Olhado. Há poucos filmes que eu já vi expressando tão bem essa dimensão que eu tenho o maior dos contentamentos, e aqui isso é feito de forma exemplar, da forma mais didática possível. É algo muito complexo, muito sofisticado, mas de MUITA importância.

Por fim, seguindo o pensamento anterior sobre Morte e Transformação, isso fica muito claro na cena final:

Comentário contando partes do filme. Mostrar.

Onde temos Kris e Presley na loja de conveniência onde ambas tiveram uma morte simbólica, passaram por seus cursos sexuais e finalmente se encontraram com seu Desejo. A cena final das duas, ensanguentadas, no mesmo lugar em que, no começo do filme, Kris passa e está coberto de neve e crianças brincando, e ela caminha pedindo DESCULPAS à criança. Agora ela não pede desculpas, ela sorri e olha para o "Nada". Olha para o lugar do seu Desejo, lugar este que só ela pode ver, que só ela caminhou entre e só ela Morreu Para.

Enfim, poderia falar de mais mil outras coisas, como fotografia, figurino, montagem, na influência Lynchiana que o filme tem. Muitas outras coisas que estão absolutamente incríveis. Mas, se esse comentário fizer alguém que possa ter sentido não ter gostado muito do filme repensá-lo, já ficarei feliz. I Saw The TV Glow tem uma nota baixa em todos os sites, injustamente, e esse ter 3.4 é um absurdo igual.

Junior
6 dias atrás

O filme é absurdamente incrível, que trabalha, principalmente, o caminho dos Desejos dos seus personagens, e a Catarse necessária de uma tragédia-grega.

É um deleite a forma como o roteiro se desenvolve e ele próprio. Seu desenvolvimento, com calma, dando espaço para cada um dos personagens, pois cada um tem seu próprio interesse para com o antagonista do filme: Rashid Shahsavari, para uns, e Eghbal, para outros. Esses mesmos desenvolvimentos não são feitos às pressas, nem mesmo o do próprio Vahid, que vamos acompanhando, conhecendo sua história ao longo do filme, até a última cena, onde temos toda sua história contada naquela cena incrível.

E assim acontece com todos os outros personagens: o casal, o ex-namorado e a Shiva, que foi a minha favorita dentre os personagens. Vem muito a calhar esse nome, já que remete à deusa hinduísta da destruição-transformação. Mais especificamente na última cena, onde temos aquele incrível monólogo onde ela apresenta todas suas dores sofridas nas mãos de Eghbal, fazendo com que este finalmente venha a se confrontar com suas próprias ações. É por meio dela que ele finalmente encara seus feitos, é por meio da destruição de Shiva que Eghbal pode se destruir para (quem sabe) se transformar.

E, para mim, além de todo o aspecto político que tem nesse filme, algo muito comentado em outros comentários, há outro ponto que eu gostaria muito de ressaltar. Esse filme fala sobre o desejo!

Esse filme me lembrou muito as tragédias gregas, sobretudo a Antígona, de Sófocles. E isso é de um prazer imensurável. Há diversos elementos do filme que são comuns à peça:

Comentário contando partes do filme. Mostrar.

o destino dando o movimento inicial da trama (o cachorro sendo atropelado e a mulher de Eghbal dizendo que foram os deuses que o colocaram ali; para que, por fim, ele comece sua tragédia entrando na oficina da sua vítima e futuro algoz), a figura de entrar ao reino da morte ainda vivo (enterro de Eghbal), a cena dos corvos planando o ensaio fotográfico como que acompanhando os envolvidos daquele destino, e a cena mais importante, nesse sentido de comparativo, que é quando Gal discute com seu noivo dizendo que não cederia de seu desejo de acompanhar a sentença de Eghbal e que ele poderia ir embora, se quisesse — assim como Antígona disse que Ismene poderia ir embora com Creonte, que não precisaria a seguir em seu desejo.

Todos esses personagens são movidos pelo seu desejo, um desejo que não conhece as leis, nem dos códigos de justiça dos homens, nem dos códigos divinos. É por isso que todas as ações se desenrolam aquém do poder policial e pouco do poder da lei civil-penal. Todo conflito se dá no âmbito moral, mas nem este é capaz de parar as ações dos que foram vitimados pela mão de Eghbal.

Por fim, cada um deles tem seus conflitos mais pessoais sendo resolvidos. Hamid tem sua questão que há muito estava pendente sobre o fim do renascimento com Shiva. Gal e o bonitão "se satisfazem" vendo a dinâmica familiar de Eghbal. E Vahid e Shiva têm sua purificação, por meio do temor e da piedade, dando todo o sentido da tragédia, no ato final.

Há outros pontos, mas há uma cena-mensagem do diretor de trazer a figura do teatro na boca de Hamid, quando ele lembra que foi com Shiva assistir "a uma peça de teatro" (Esperando Godot).

A primeira cena é algo que precisa ser registrado. É da boca da filha, a mesma filha que, em uma cena, perde sua inocência e conhece a morte pelo seu pai, e diz: "papai matou o cachorro, ele é um assassino". Sobre a última cena eu interpretei de uma forma que segue essa linha de pensamento sobre os desejos, que é:

Comentário contando partes do filme. Mostrar.

Como o Vahid estava em um contexto de enxoval, ou seja, um contexto de "preparação de uma nova vida", como é um símbolo possível dos enxoval para os bebês, ele próprio recebeu uma lembrança de sua vida passada. PORÉM, se continuarmos assistindo na cena dos créditos, é possível perceber que o som vai diminuindo. Na sua cena de purificação, ao lado da arvore cheia em que ele amarra Eghbal, ele nos diz que "o som de sua prótese sempre invade seus pesadelos. Diferente é na cena final, onde ele está acordado, o som vem mas vai embora. Neste sentido, essa interpretação de destruição-transformação que escrevi anteriormente com Shiva, é um efeito dessa re-signifação dos seus traumas. Não creio que ele viverá, como pode ser que o ex-namorado de Shiva, viva, ou seja, perseguido. Esse ex-namorado, Vahid, provavelmente siga sua vida com esse tormento, de que a qualquer momento sua vingança interrompida cobre seu custo, mas não acredito que seja esse o fim de Vahid. Vahid, como Shiva, resolveram seu conflito com seu antagonista, tal como é na tragédia grega por meio da Catarse.

Junior
½
1 semana atrás

Mais um filme incrível que não reflete a nota destes sites. Por mais que o roteiro e sua mensagem superficial não sejam inovadores, a fotografia e a direção elevam o filme ao ponto do filme já vale a pena só pelas tuas imagens.
E mesmo que o roteiro já seja conhecido, ele é muito bem trabalhado, com muita paciência e nuances. Não há pressa em desenvolver seus personagens, em explicar o seu tempo e lugar, principalmente em trabalhar suas cenas mais explicitas. O medo, a repressão, o amor, o sobrenatural, e outros elementos possuem seus lugares.
O último ato é incrível! É tudo que eu gostaria de ver tendo as pinturas de Goya como uma das minhas favoritas. O diretor é ousado e persegue um sentido muito fino da arte, o da catarse. Seu filme permeia, primeiro pelo temor, depois pela piedade de uma forma que os grandes parariam para apreciá-lo.

  • Filmow 3 dias atrás

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    Bons filmes!
    Equipe Filmow