Esse filme transmite a reflexão da experiência cinematográfica em suas dimensões mais essenciais e fundamentais possíveis.
Já em "I Saw The TV Glow", eu senti a necessidade de deixar registrado neste site o tamanho da má compreensão/má vontade que parecia haver para com aquele filme. Agora, com Camp Miasma, isso me parece ainda mais necessário. Gostaria de deixar escrito aqui todos os aspectos/dimensões notáveis que esse filme tem. Mas sinto que não conseguirei ficar satisfeito, tamanho é a grandiosidade deste filme. É um filme para assistir várias vezes, de tempos em tempos. Porém, há certas coisas que eu acho mais fundamentais para deixar já registrado, tanto para quem quiser ler esse comentário quanto para mim, que, certamente, assistirei no futuro e vou gostar de saber quais elementos eram mais fundamentais de serem registrados.
Primeiro, começando por questões mais superficiais, é tremendamente empolgante como Schoenbrun presta homenagem aos grandes clássicos do Slasher. Obviamente, o filme está conversando com Friday 13th, mas não só. Assim como em I Saw The TV Glow, Jane também está conversando com toda a estética dos anos 80, seja nas cores, nos figurinos, mas, destacadamente, nos tipos de câmeras, lentes e movimentação de câmera. Diversos são os planos usados (ex: aquele Zoom in no Anthony, recepcionista do primeiro chalé onde ela fica, quando ele está procurando um aparelho de DVD para ela). Isso fica mais explícito quando a protagonista-diretora está assistindo ao filme, claro, mas antes disso e após isso já há vários desses elementos característicos dos slashers e do terror que vão nos dando essa boa sensação de assistir a um filme-tributo. Me lembro que, na trilogia Pear, Substância e Noite Passada em Soho, aconteceram esses comentários dos diretores tentando prestar homenagem ao gênero e sub-genero, e aqui isso acontece também, porém, há um aspecto em Camp Miasma em que isso fica mais "profundo": a relação entre forma e experiência cinematográfica para com o filme.
A relação entre Forma X Experiência Cinematográfica é discutida ao longo de todo o filme, junto com a relação de Desejo (escreverei mais para frente sobre ela). A personagem "principal", a Kris, é uma representação da diretora, Schoenbrun. A personagem é atriz-diretora, atrás de uma atriz, Billy Presley, que possui "outra" relação com o filme/Cinema. Enquanto a atriz-diretora possui uma relação afastada com o Cinema, imersa nas partes técnicas, teóricas ou Triviais (no sentido de curiosidade), Billy Presley possui uma relação de Desejo com o Cinema. Aqui, digo Desejo no sentido psicanalítico. Enquanto Kris, no primeiro ato, está pensando nas questões de gênero que o filme Camp Miasma contém, Billy VIVENCIOU a questão de gênero na sua cena final:
Billy vai perder sua virgindade, sem consentimento. Questões de idade: quando ela diz que foi esquecida pela industria por causa do passar dos anos. Nas reações angustiantes que Billy usa para atenuar seu sofrimento, como o desenho compulsivo da forma geométrica que pode ser tanto uma Câmera de cinema, uma Câmera de projeção e a "cabeça do Little Death"
Nesse sentido, nesse momento dentro da cabana de Presley, começamos a ter uma dinâmica de filme muito parecida com Persona, de Bergman. E, pouco a pouco, Kris começa a se transformar, por ajuda dela, mas, SOBRETUDO, por aproximação com o objeto Cinema. A Transformação de Kris se dá pelo contato que ela começa a ter com o filme-Cinema. É por meio do Olhar do filme, do Olhar da Tela Cinematográfica. É, ao olhar para o filme, se sentir olhada. Aqui está, para mim, a maior e mais qualificada dimensão de um filme-doCinema. Não se pode mais resumir um filme por suas questões teóricas, por sua Forma quando totalmente separada do conteúdo, ou do conteúdo totalmente separado da Forma. É da relação do Sujeito com o Cinema que temos a Experiência Cinematográfica. Como bem lembra a Billy Presley: "Com essa Postura, é claro que o Little Death não vai voltar".
Poderia escrever muito mais sobre a relação Forma X Experiência Cinematográfica, mas quero também escrever sobre o: Desejo. Temos, já no começo do filme, Kris escrevendo essa palavra quando está assistindo a uma sequência de Camp Miasma no aparelho que o recepcionista Anthony emprestou a ela. Esse Desejo, que se encontra no âmbito mais profundo do ser humano, abaixo até mesmo das aguas profundas de um lago — imagem dada pelo filme e também muito conhecida na Psicanálise quando ensinada de forma didática, com a imagem de um iceberg em um rio —, esse Desejo é o que impele Kris tanto para suas dimensões Sexuais quanto para sua Morte. Tomemos muito cuidado ao falar de Morte aqui. Não se trata de uma morte como o fim da vida, mas a Morte como o fim de Uma Vida. Um tipo de Vida. Kris se movimenta, EM RELAÇÃO ao seu Desejo, para a Morte que a permitirá viver outra Vida. E isso só é possível passando por caminhos que requerem muito trabalho, esforço e coragem, que é o caminho do Sexual. E o Sexual, de novo, não se trata apenas do Sexual-Explícito. Só dando um exemplo, para que fique bem claro: é muito sexual a cena de comer frango frito com Bill Presley.
E Kris passa por vários desses momentos, e passa junto com Presley, mulher que não teve outra pessoa que passasse junto com ela, a não ser o Little Death.
Aqui está a parte mais emblemática, para mim, desse filme. A relação de olhar-ser olhada que Presley tem com o Little Death e que depois Kris também terá. Essa noção de completude, uma noção muito conhecida na relação das mães com os bebês, onde o amor é completo. Onde ainda não temos a intervenção de um terceiro (o pai, mais simplificadamente falando). No entanto, também temos essa mesma relação de olhar-ser olhado com o Cinema. Como disse antes, ao assistirmos a um filme, estamos sempre sendo olhados. Somos olhados pelo filme, pelos personagens, pela projeção da Câmera, pela Tela Cinematográfica. Nas mesmas palavras de Kris: Somos observados e observador.
Neste sentido, o Little Death, que também é a diretora Schoenbrun, também é um diretor que se movimenta pelos dois sexos, não-binário, e pode olhar a atriz-diretora, fazendo a relação de Olhar-Ser Olhado. Há poucos filmes que eu já vi expressando tão bem essa dimensão que eu tenho o maior dos contentamentos, e aqui isso é feito de forma exemplar, da forma mais didática possível. É algo muito complexo, muito sofisticado, mas de MUITA importância.
Por fim, seguindo o pensamento anterior sobre Morte e Transformação, isso fica muito claro na cena final:
Onde temos Kris e Presley na loja de conveniência onde ambas tiveram uma morte simbólica, passaram por seus cursos sexuais e finalmente se encontraram com seu Desejo. A cena final das duas, ensanguentadas, no mesmo lugar em que, no começo do filme, Kris passa e está coberto de neve e crianças brincando, e ela caminha pedindo DESCULPAS à criança. Agora ela não pede desculpas, ela sorri e olha para o "Nada". Olha para o lugar do seu Desejo, lugar este que só ela pode ver, que só ela caminhou entre e só ela Morreu Para.
Enfim, poderia falar de mais mil outras coisas, como fotografia, figurino, montagem, na influência Lynchiana que o filme tem. Muitas outras coisas que estão absolutamente incríveis. Mas, se esse comentário fizer alguém que possa ter sentido não ter gostado muito do filme repensá-lo, já ficarei feliz. I Saw The TV Glow tem uma nota baixa em todos os sites, injustamente, e esse ter 3.4 é um absurdo igual.
O filme é absurdamente incrível, que trabalha, principalmente, o caminho dos Desejos dos seus personagens, e a Catarse necessária de uma tragédia-grega.
É um deleite a forma como o roteiro se desenvolve e ele próprio. Seu desenvolvimento, com calma, dando espaço para cada um dos personagens, pois cada um tem seu próprio interesse para com o antagonista do filme: Rashid Shahsavari, para uns, e Eghbal, para outros. Esses mesmos desenvolvimentos não são feitos às pressas, nem mesmo o do próprio Vahid, que vamos acompanhando, conhecendo sua história ao longo do filme, até a última cena, onde temos toda sua história contada naquela cena incrível.
E assim acontece com todos os outros personagens: o casal, o ex-namorado e a Shiva, que foi a minha favorita dentre os personagens. Vem muito a calhar esse nome, já que remete à deusa hinduísta da destruição-transformação. Mais especificamente na última cena, onde temos aquele incrível monólogo onde ela apresenta todas suas dores sofridas nas mãos de Eghbal, fazendo com que este finalmente venha a se confrontar com suas próprias ações. É por meio dela que ele finalmente encara seus feitos, é por meio da destruição de Shiva que Eghbal pode se destruir para (quem sabe) se transformar.
E, para mim, além de todo o aspecto político que tem nesse filme, algo muito comentado em outros comentários, há outro ponto que eu gostaria muito de ressaltar. Esse filme fala sobre o desejo!
Esse filme me lembrou muito as tragédias gregas, sobretudo a Antígona, de Sófocles. E isso é de um prazer imensurável. Há diversos elementos do filme que são comuns à peça:
o destino dando o movimento inicial da trama (o cachorro sendo atropelado e a mulher de Eghbal dizendo que foram os deuses que o colocaram ali; para que, por fim, ele comece sua tragédia entrando na oficina da sua vítima e futuro algoz), a figura de entrar ao reino da morte ainda vivo (enterro de Eghbal), a cena dos corvos planando o ensaio fotográfico como que acompanhando os envolvidos daquele destino, e a cena mais importante, nesse sentido de comparativo, que é quando Gal discute com seu noivo dizendo que não cederia de seu desejo de acompanhar a sentença de Eghbal e que ele poderia ir embora, se quisesse — assim como Antígona disse que Ismene poderia ir embora com Creonte, que não precisaria a seguir em seu desejo.
Todos esses personagens são movidos pelo seu desejo, um desejo que não conhece as leis, nem dos códigos de justiça dos homens, nem dos códigos divinos. É por isso que todas as ações se desenrolam aquém do poder policial e pouco do poder da lei civil-penal. Todo conflito se dá no âmbito moral, mas nem este é capaz de parar as ações dos que foram vitimados pela mão de Eghbal.
Por fim, cada um deles tem seus conflitos mais pessoais sendo resolvidos. Hamid tem sua questão que há muito estava pendente sobre o fim do renascimento com Shiva. Gal e o bonitão "se satisfazem" vendo a dinâmica familiar de Eghbal. E Vahid e Shiva têm sua purificação, por meio do temor e da piedade, dando todo o sentido da tragédia, no ato final.
Há outros pontos, mas há uma cena-mensagem do diretor de trazer a figura do teatro na boca de Hamid, quando ele lembra que foi com Shiva assistir "a uma peça de teatro" (Esperando Godot).
A primeira cena é algo que precisa ser registrado. É da boca da filha, a mesma filha que, em uma cena, perde sua inocência e conhece a morte pelo seu pai, e diz: "papai matou o cachorro, ele é um assassino". Sobre a última cena eu interpretei de uma forma que segue essa linha de pensamento sobre os desejos, que é:
Como o Vahid estava em um contexto de enxoval, ou seja, um contexto de "preparação de uma nova vida", como é um símbolo possível dos enxoval para os bebês, ele próprio recebeu uma lembrança de sua vida passada. PORÉM, se continuarmos assistindo na cena dos créditos, é possível perceber que o som vai diminuindo. Na sua cena de purificação, ao lado da arvore cheia em que ele amarra Eghbal, ele nos diz que "o som de sua prótese sempre invade seus pesadelos. Diferente é na cena final, onde ele está acordado, o som vem mas vai embora. Neste sentido, essa interpretação de destruição-transformação que escrevi anteriormente com Shiva, é um efeito dessa re-signifação dos seus traumas. Não creio que ele viverá, como pode ser que o ex-namorado de Shiva, viva, ou seja, perseguido. Esse ex-namorado, Vahid, provavelmente siga sua vida com esse tormento, de que a qualquer momento sua vingança interrompida cobre seu custo, mas não acredito que seja esse o fim de Vahid. Vahid, como Shiva, resolveram seu conflito com seu antagonista, tal como é na tragédia grega por meio da Catarse.
Mais um filme incrível que não reflete a nota destes sites. Por mais que o roteiro e sua mensagem superficial não sejam inovadores, a fotografia e a direção elevam o filme ao ponto do filme já vale a pena só pelas tuas imagens. E mesmo que o roteiro já seja conhecido, ele é muito bem trabalhado, com muita paciência e nuances. Não há pressa em desenvolver seus personagens, em explicar o seu tempo e lugar, principalmente em trabalhar suas cenas mais explicitas. O medo, a repressão, o amor, o sobrenatural, e outros elementos possuem seus lugares. O último ato é incrível! É tudo que eu gostaria de ver tendo as pinturas de Goya como uma das minhas favoritas. O diretor é ousado e persegue um sentido muito fino da arte, o da catarse. Seu filme permeia, primeiro pelo temor, depois pela piedade de uma forma que os grandes parariam para apreciá-lo.
Esse é mais um dos casos em que a nota não reflete, de modo algum, a qualidade do filme. De modo algum. E é bem visível que as justificativas das notas é: não entendi; o filme é chato; o filme é lento; não tem proposta e outra coisas mais que dizem mais a respeito de quem assiste do que sobre o filme.
E a qualidade do filme não está, tão somente, nas questões nele abordadas, como se colocassem aos que vivem diretamente esses assuntos: não é por tratar de questões sexuais, de transexualidade, de identificações, de representações e etc. Mas, sobretudo, pela forma que é tratado e pelas nuances de afetos que o filme engloba nessas questões. A forma surrealista, onde muito lembra os filmes do Lynch, é absolutamente adequada para esse filme, onde os personagens estão em constante conflito com a realidade. Portanto, as cores, o tempo, o fluxo do tempo, o espaço, as interações, todos esses elementos trabalhados, como foram no filme, de forma dúbia, de forma a dar a sensação conhecida por nós quando estamos em um sonho, é algo de se impressionar. Outra questão é os afetos que permeiam o filme. Escutei e li muito sobre "onde está o terror desse filme?" Para mim, o terror desse filme é tão difícil de identificar porque ele é interno. Diferente de uma projeção, como em Babadook por exemplo, ou dos monstros que conhecemos, o constante terror que permeia o filme, que está ali desde o primeiro segundo, se encontra nas dificuldades e questões que o protagonista não consegue entrar em contato de uma forma mais clara. Não há um segundo no filme que o terror não está acontecendo. É o conflito que nunca acontece externamente, mas está, em vários momentos aparecendo, como sintoma de angustia: vide as várias cenas de ataque de pânico que o Owen enfrenta.
E para além das questões mais aparentes, como as de sexualidade, o filme aborda questões mais universais que nuançam com as questões sexuais: o tédio, a dificuldade de se colocar no mundo, o luto que não é feito (da mãe) por o próprio processo da doença não ser vivido, os tipos de abusos familiares, a dificuldade do período escolar, a morte que se aproxima. Veja, e ainda hão de falar que o filme é lento. Sob todos esses temas em 1:40 de filme... eu diria que é um filme bem rápido. Além disso, mesmo que todas essas questões não cheguem para quem assiste, questões particulares e mais gerais, até a morte, o tédio e o trabalho como possíveis exemplos de universais, o filme ainda é muito bonito visualmente. Mesmo que tudo isso passasse em branco, ainda sobraria o puro afeto visual, que só por ele mesmo ainda justificaria um apreço maior, mas nem isso é considerado, aparentemente.
Enfim, um grande filme que tem sua nota, neste e em outros sites, muito aquém do que ele é. Creio que a nota baixa são proveniente de outra ordem que não o filme. Enfim.
Assistir esse filme em 2026 é muito curioso. Tu consegue ver diversas questões sendo discutidas no filme que são terrivelmente atuais nos dias de hoje. A fuga da realidade com jogos, a distinção de valor entre realidade e não-realidade (com os vídeos fakes de IA) e etc, e tudo feito com um roteiro muito original. Para mim, o grande ponto foi como foi tratado o grotesco no filme. Não há nenhuma vergonha no modo de retratar as criaturas mutantes, o cenário, as atuações mais repetitivas, caricatas e canastronas, e tudo isso parece como que uma valorização do bizarro, do grotesco. E isso é incrível, incrível! O belo, como estética, é sempre retratado, mas o grotesco nem sempre, e fazer isso de forma elevada é de se notar e deixar registrado. Eu me lembrei muito das palavras do Lynch vendo esse filme. O filme é um compromisso com a fantasia, com a ousadia de criar, não com as explicações ou interpretações. É claro que esse filme nem se compara, em termos de interpretações, com as obras do Lynch, mas sim em questão de coragem de roteiro e direção. E isso é muito, muito importante, na minha opinião, pros filmes de hoje em dia. Essa coragem de criar novos mundos, novos roteiros, novas questões a serem debatidas, questões que podem durar por 30 anos, como é o caso desse filme.
Eu gostei do filme, e varias vezes fiquei apreensivo. Acho que gerar emoções e sensações é o principal de um filme. Mas houve algumas coisas me incomodaram.
Os incômodos vieram pela sensação que parece que o filme é uma miscelânea de filmes mais recentes: há elementos do Smile, essa premissa de "cuidado com o que você deseja" é coisa batida e, por isso, quando explorada deve-se fazer com mais originalidade. Os elementos de violência são muito parecidos com os dos irmãos Phillippou (sobretudo o Talk to Me), ou seja, uma violência mais frontal, repetida e agonizante (cena do carro e a última). Não sei, mas as cenas mais violentas eu acho que tiveram pouco cuidado na hora de fazer, de formar ela, antes dos atos em si. Por ex:
A cena da mulher na cadeira, poderia ser mais explorada, fazer com que causasse mais choque.
Muitas vezes o "terror' se dava só nas expressões do Bear, é como se as sensações de terror se produzissem de um convencimento de atuação; o que me fazia lembrar da série Baby Reindeer, o que me convence mais ainda da colcha de retalhos que parece ser esse filme e, como essa colcha, comparada aos seus retalhos, são de menor valor. Me pareceu um bom filme, mas nada original e, nesses lugares, ainda de pouco valor. O problema não é ser original, é no oferecer, o oferecimento ser pouco. Enfim... ou eu esperava mais também.
Agora, os pontos bons para mim, é a sustentação da história onde ela não tem terror explícito. A sustentação do egoísmo do Bear, pela covardia; as cenas da Nikki como autômato e também quando ela "entreaparecia" nos diálogos (não digo na cena da cama, digo nos diálogos mesmo). Essas cenas mais sutis e sustentadas, para mim, foi o ápice do terror-angústia. A cena final é muito boa pelo valor de choque, mas poderia ser mais dramática, ousada, explorada, eu acho.
No diálogo com o "SAC" do produto, o representante do produto - que não temos ideia de quem é, se é uma pessoa de fato, oferece ao Bear a possibilidade dele falar com a Nikki, e eis que vem a cena do grito. Aqueles gritos, como se viessem de outra dimensão, de outro lugar para-além desse mundo, aquilo foi paralisante. Eu gostaria que tivesse mais disso no filme, um tipo de de terror incontrolável, indescritível, mais do que o choque das cenas.
Acredito que os próximos filmes do Barker serão muito bons.
Esse filme pode nos servir em diversas dimensões. Ele pode ser apresentado como um filme histórico, como foi para mim, há alguns anos atrás, em período escolar, para discutir as relações de povos originários com colonizadores. Sim, pode. Ele pode servir para discutir a relação da antropofagia no movimento literário brasileiro. Sim, pode. Ele pode ser pensado como construção de personagens com a relação do Francês com a Seboipepe. Há, de fato, uma porção de texturas que compõem esse filme, que o faz ser demonstrado, não só como um grande filme nacional, mas como um grande filme do Cinema. É um tremendo filme que, como tantos outros longas nosso, não deixa a desejar em nada!
O cuidado com as línguas no filme é digno de nota. As línguas acabam sendo um personagem na história, ao ponto que, no começo do filme elas estão muito bem delimitadas para cada tribo (e aqui, incluo às dos colonos), e são um dos primeiros "objetos" que os Tupinambás comem. Depois suas vestes, seus costumes, até o ponto máximo em que sua vida é entregue, de bom grado, em um cena fantasiosa-romântica, colocado lado a lado o amor e a morte, uma conjunção de símbolos muito emblemática, na cena do ensaio em cima do rochedo.
Para mim, outro grande fator, é a forma que o chefe da tribo, Cunhambebe, é retratado. Toda cena em que ele está, é trabalhado os aspectos de força e valentia, algo que parece faltar quando estamos em período de formação escolar, onde podemos aprender sobre os povos originários com tons caricatos e ingênuos. Não é só no cuidado com a língua que Nelson Pereira demonstra maestria, mas com a forma de retratar os personagens, sobretudo o Cunhambebe. Nesse sentido, também vale vários elogios a Seboipepe, onde ela tem afetos sim pelo francês que é demonstrado em diversas cenas, mas gosto muito da cena de caça em que é ela, e não ele, quem empunha a arma! No entanto, não é por isso que a ela não será servida o pescoço (parte importante para o instrumento da fala). Isso demonstra a ambivalência dos personagens, onde "posso ter afeto por você, mas também sou parte dessa tribo. Posso ter um modo de experimentar o afeto diferente do seu, Europeu, porque sou Outro, algo que você não entendeu ainda". Ah, como era gostoso o meu Frances, o meu (f)rances.
Reassisti esse filme depois de 10 anos, e me parece que a experiência foi melhor que da primeira vez. Lembro que não me impressionou muito. Acho que não entendi muito o aspecto "lúdico" com o gênero. Consigo dizer que, naquela época, eu não tinha "maturidade (em todos os sentidos) suficiente para curtir esse filme." E, dessa forma, parece que o filme também cumpriu um papel naquela época, já que ele também é uma forma de brincar com o espectador. O terror do filme é um terror satírico, ele brinca com o próprio gênero, e eu, que esperava algo sério, fui enganado.
Hoje, sabendo um pouco da história de filmagem do filme, tanto do orçamento quanto tendo uma noção de orçamento para filmar um filme, sabendo da importância de influência para outros diretores, do impacto no gênero, da motivação dos realizadores e todos os aspectos além do filme, esse filme ganha outra camada. E isso é incrível. Como um filme pode, tanto te impactar diferente, quanto ganhar valor, a medida que quem o assiste muda. Isso é uma das definições de clássico! O filme ganha um duplo valor para mim. Teve seu valor (mesmo que eu não reconhecesse na época, em me enganar) e tem agora em me surpreender.
Sobre o filme mesmo: a forma de direção do Sam Raimi é incrível! O tipo de plano que ele criou com as cenas na floresta é algo muito imersivo, junto com a trilha sonora do filme. Vendo um pouco a forma de captação de som desse filme, onde a própria floresta fornece os materiais necessários (junto com a imaginação e criatividade) para sua produção. Mas, pessoalmente, não foi nem esse o aspecto que mais me encantou. Foi as escolhas de câmera na diagonal ao longo de todo filme e a escolha de gravar em diferentes níveis, mesclando objetos da casa com atores. É como se os objetos, e toda a cabana, também fosse um personagem, porque estão sempre em relação com os atores, ora um nível a frente, ora atrás, ora embaixo ou em cima (lembrando do demônio na fresta do porão). Esse paralelismo, meridiano e perpendicular na forma de gravar é absolutamente encantador e faz com que o Cinema se realize em ato puro.
Gostaria de só deixar registrado também a cena das risadas efusivas da Linda. Sério, que agonizante! Que desconfortável! Aquilo é um absurdo. É minha cena preferida toda a sequência a partir do momento que ela está sentada no batente da porta!
Eu tinha muitas expectativas com esse diretor desde que assisti a "Dream Scenario". Também fiquei curioso para ver como se daria o jogo de atuação de Robert Pattinson e Zendaya nesse estilo de filme de poucos personagens, em que o mais importante é a relação entre eles. Há nesse filme os elementos que mais me interessam, que são: delírios, paranoias, desencontros, dificuldade de expressão, fragilidade e o processo de miserabilidade humana.
Desde "Dream Scenario", acredito que Borgli trabalhe bem os temas da condição humana. Porém, durante o filme, esses temas, para mim, pareciam coisas menores. Não consegui me identificar com o drama proposto. Não consegui embarcar na manifestação da personagem de Haim. Consigo ver que há diversos fatores para isso. Porém, isso foi mudando da metade para o final do filme, quando pensei que não importava, para a experiência, que eu comprasse o motivo do drama tal como ele era, mas que o processo de delírio do Pattinson e o lugar em que a Zendaya estava sendo colocada importavam mais. O filme mudou completamente quando parei de tentar a identificação com a realidade americana e passei a comprar o processo de dramatização.
O filme vale, sim, para pensar problemas sociais americanos, mas acho que, nisso, outros filmes fazem melhor. Um recente, que se equipara em tamanho de distribuição e recepção de público, é "Weapons". Portanto, não gostei de pensar o filme nesse sentido, como crítica à sociedade americana, mas como um estudo da decadência das relações humanas amorosas (amorosas aqui não está restrito ao casal, mas se estende aos amigos ou a eles mesmos) por meio do delírio.
Acho que pensar o Pattinson nesse filme é interessante e renderia várias discussões também, como:
A Zendaya se torna o alvo do filme a partir do seu segredo revelado, mas por que o Pattinson não é colocado em xeque, uma vez que ele não conta o seu segredo e projeta toda a sua insegurança a partir de um segredo "horrível" desvelado por sua companheira? Por que existe essa dificuldade de elaboração tão intensa que, às vezes, parece servir como instrumento para justificar suas próprias falhas e dificuldades? etc. etc.
Pois bem, eu gostei. Acho que é mais um belo filme de Borgli e que rende várias reflexões sobre temas interessantíssimos. O diretor norueguês é, para mim, um dos grandes da contemporaneidade e daqueles que ainda crescerão muito em suas carreiras.
É de se admirar um body horror desse tipo, que consegue sustentar temas interessantes e uma construção narrativa cheia de nuances. Há comédia sem perder o bizarro; há elementos que me pareceram vindos da literatura francesa e inglesa, como Holmes e Lupin; e há também o drama do desespero e da desesperança. Tudo isso dentro de um subgênero que não precisaria ter.
E não acho que todos esses elementos estejam jogados. Parece-me um filme sem pressa, ousado e muito interessante. Tentei pensar nas críticas que vi, e elas não fazem sentido para mim. Os flashbacks dinamizam o filme, não atrapalham. Eles também trazem um movimento que corta a linearidade sem se tornar enfadonho. A maioria dos personagens (exceto Teddy) é desenvolvida em alguma medida. Por mim, o filme poderia ser ainda mais apelativo, mais calmo, ter mais cuidado com a fotografia. Dava para aproveitar ainda mais o cenário, toda a transformação da Morsa e a discussão sobre a natureza humana.
Há várias coisas nesse filme que me mobilizaram; a discussão sobre a natureza humana é a principal. O final, sobre a lágrima, é outra. Mas, principalmente, a cena pós-créditos. Há diversas críticas do tipo: "a concepção do filme partir de uma brincadeira; por isso, o filme já nasceu ruim".
Esse incômodo que nós temos, essa sensação de sermos enganados, é o próprio Cinema. Não nos esqueçamos disso. O Cinema é um lugar de projeção. Nós somos enganados nos filmes "sérios" também. E esse, definitivamente, não é o problema. Incomoda, sim, mas não é um problema. A "natureza" do Cinema também é enganar. Aqui, o diretor nos engana, faz uma grande brincadeira conosco. Mas a câmera nos engana, as cores nos enganam, os personagens nos enganam.
Achei um grande filme, e me interessa muito como o pessoal da comédia consegue fazer outros gêneros de forma ousada e muito impactante.
Há vários filmes muito bons que tratam da dinâmica institucional dos hospitais psiquiátricos. Da loucura, há ainda mais. É um grande mérito o Park Chan-wook realizar um filme desse tipo de uma maneira que o torne diferente dessa vastidão de obras feitas.
Penso que o grande perigo desse tipo de filme é reduzir os personagens aos seus diagnósticos. Quem mente é a mitomaníaca. Quem alucina é o esquizofrênico. Quem não come é o anoréxico. De maneira que o filme faça com que nós também reduzamos esses personagens a essas manifestações e reproduzamos o impedimento de que esses personagens podem ser outra coisa ou manifestar outros comportamentos. Como se também eles não pudessem falar para além desses diagnósticos, não tivessem histórias, não tivessem os porquês dessas marcas. E penso que, nesse sentido, o diretor manejou bem. Há diversos momentos em que os sintomas se misturam: o ladrão está cantando como a cantora, a cintura elástica está na projeção de sonho dos personagens, as meias de voo estão com a Young-goon. Todos esses elementos coincidindo para que a história de resolução do conflito da personagem principal pudesse ser resolvida. Até o máximo dessa somatória resultar em uma cena em que todos compartilham da mesma dificuldade de se alimentar que ela tem. Essa forma de somar, e não dividir — algo que esses filmes e narrativas tendem a reproduzir — é um grande ponto nesse filme. Pois, também como aqueles que estão fora dessa dinâmica institucional, essas pessoas são complexas e não podem ser reduzidas aos seus sintomas. Há histórias por trás desses diagnósticos e há uma possibilidade de conversa para além deles.
Outro grande ponto para mim são os elementos de diversos gêneros no filme. Há diversas cenas de comédia que usam uma estrutura cômica para mostrar coisas muito sérias, como, por exemplo, o excesso de sentimento de culpa em um personagem. Ou a crença ferrenha na possibilidade de roubar habilidades e características. Há uma dimensão romântica que é lentamente desenvolvida até uma cena-chave em que o diretor usa uma fotografia bem clichê, mas que combina muito com o romance clichê no qual o filme está envolvido. Há uma veia de suspense que se passa nos subsolos da instituição e até uma verve de ficção científica que é construída ao longo do filme até uma cena bem emblemática à la Frankenstein. O diretor brinca nesse filme, e é com muita competência que dessa brincadeira sai um filme muito sério, porém lúdico. Pela dimensão lúdica, é possível tratar de temas tão importantes e finalizar de uma maneira tão autoral.
Outro grande ponto para mim foram as cenas de Cyborg da Young-goon. Para além da matança explícita, creio que a forma como o diretor trabalha o “delírio” por meio da fantasia é extremamente importante se pensamos no cinema como um exercício de imaginação. Nessa cena, o diretor não poupa recursos para sublimar um desejo fundamental da personagem (e seu também). E esse exercício de imaginação é fundamental para nós que assistimos; é um convite e uma realização de uma dimensão muito basal do próprio ato de assistir a um filme. E acho que ele fez isso de uma maneira muito bonita. Essa cena é incrível. (Poderia falar da cena do voo também, mas escolhi essa por ser mais explícita).
Que filme incrível! Escrever sobre esse filme de uma maneira a tentar defini-lo é, em si, contraditório. Todos podem assisti-lo e encontrar diversas formas de interpretá-lo, mas reduzir a uma logica de "entendimento", isso, definitivamente, não é. Talvez (e essa é a palavra, talvez), o máximo possível é isso: o definível é o mais próximo do que ele é, e ele é uma experiência, tal como o cinema. Por vezes perdemos essa experiência cinematográfica quando nos relacionamos com o filme, seja por algo externo (alguém que faz algo que te lembra que você está fora do filme), ou quando você mesmo quebra isso lembrando que "aquilo é só o um filme, não é real". Mas esse filme também brinca com isso. Os personagens estão atuando? São eles personagens? Oscar não sofre na vida que tem? Ele não nos lembra como sofremos nas vidas que nós temos? Como é possível nós nos identificarmos com alguém que não existe como nós existimos? Todas essas coisas sãos (d)as maravilhas do cinema. Leos Carax fez isso muito bem, Lynch fez isso muito bem, Tarkovski fez isso muito bem, Godard fez isso muito bem, e muitos outros fizeram isso muito bem.
Só para registro, para que no futuro, eu ou quem quer que seja possa ver e lembrar disso mas: a cena do esgoto da Beleza e do Grotesco é das coisas que mais lindas e sublime que eu vi recentemente.
Eu fiquei absurdamente empolgado com o que eu acabei de assistir!
Interpretei o filme como, principalmente, um retrato de alguém que se sente profudamente abadonado. Matthews é o sujeito que não se sente como alguém que é visto e/ou admirado. Desta forma, inconscientemente, está a todo momento tentando se fazer presente. Gostaria de explicar essa minha interpretação com alguns exemplos de cena:
Primeiro, quando tem contato com a primeira mulher com que ele rivaliza, a pesquisadora, que ao ver que ela usa de sua ideia para se projetar em uma revista, recebe aquilo que ele tanto deseja: atenção Segundo, quando ele projeta na sua antiga namorada que ela estaria a fim dele e, com isso, conseguiria a atenção de sua mulher por meio do ciumes. Ou seja, dessa formaria conseguia se projetar maior, mais atrativo e mais interessante. Mais admirável.
Ora, se não por presença passiva, seja por uma presença ativa (porém violenta). O segundo ato do filme, quando se dá pelos pesadelos, também é uma forma de "estar na cabeça das pessoas". Por mais antagonico que pareça, uma vez que os seus alunos e todas as outras pessoas a quem ele tem aproximação comecem a rejeita-lo fisicamente, ele ainda está sendo "visto" em pesadelo. Porém, é aqui que está o segundo ponto do filme: um dos motivos que o Matthew não é visto, é porque ele não atua no mundo! Suas ações acabam sendo sempre de uma dimensão passiva fazendo com que, por um lado as pessoas acabam fazendo com que ele se sinta abandonado, por outro ele nunca vai ao encontro das pessoas.
Para mim, as duas faces da mesma moeda desse filme é, de um lado a sensação de abandono, do outro a incapacidade de ir ao encontro do outro. A primeira faz com Matthew e todos nós fiquemos esperando ser acolhido, a segunda, por consequência da primeira, nos deixa sempre paralisado. É um ciclo que se fecha em si mesmo tornando cada vez mais fundo essa falta que se origina todo o processo.
Uma prova disso é que o único momento que Matthew conseguiu falar de sí, da sua falta e da sua vontade de se visto foi na última cena em que ele aparece como a figura de desejo de sua esposa (com a fantasia dos "Talking Heads" e diz: "eu gostaria que isso fossre real")
Com isso, Dream Scenario é um retrato do que pode ser um sujeito que sente um sensação de abandono e que não consegue conscientiza desse desejo de ser visto. É sobre o sujeito que, por estar sempre esperando que consigam ler em seu olhar a sua tristeza, nunca acaba por se fazer presente e se projetar no mundo. E que, com isso, não apenas ele sofre, mas todos aqueles que também esperam que ele se projete. Há outros elementos nesse filme que conversam com a psicanálise, os aspectos oníricos é o mais evidente, esse sobre o "abandono" no sujeito edipiano pelo pai rivalizado é o que mais me chamou a atenção, mas há outros também interessantes.
Achei a fotografia muito boa também, a calma da direção, a atuação do Nicolas Cage absurdamente boa em retratar esses pontos propostos, o sentimento de confusão do sujeito que não se conhece, sua interpretação sempre sozinha nas cenas, perdido...
Outra cena incrível é a do Matthew com a Molly em que há uma quebra de expectativa do Matthew ideal (do sonho) e do Matthew real (o que peida e goza precocemente). Mais um elemento que acaba contrastando agressivamente e que Matthew percebe que, quando o olham e o amdmiram, não é dele, mas de um Matthew-imaginado.
Enfim, poderia ficar falando desse filme por horas, mas espero ter passado um pouco do meu entusiasmo por esse filme para que todos assistam e que ele o toquem também.
É o drama romântico da vida em estado mais ridículo. Mais banal. Mais humano. É o conflito incessante do destino e do acaso. Uma dança de desejo e do descaso.
O que eu mais gostei nesse filme foi do banal. Principalmente na figura do Hae Sung (um cara normal, sofrendo de algo mais normal ainda. Esses encontros e desencontros que acontecem ao longo do filme, onde todas as cenas que eles estão juntos, em meio ao casais, em lugares de encontros romanticos, acentuando o desencontro, é destruidor.
Como diz no filme, mas também disseram nos comentários "sempre que deixamos algo para trás, abrimos espaço para algo novo", porém, o espaço que se abre sempre vai estar alí, e mesmo que passe 12 anos, sempre saberemos que ele é real.
Se o cinema brasileiro fosse levado a sério, com investimento do governo e da sociedade, esse filme seria ainda melhor e colecionaria prêmios. Digo, sem medo, que em potencial iria mais longe que Moonlight, por exemplo. Enquanto eu assistia, consegui ter a sensação de vários outros filmes incríveis como o já citado, Pig, até a peça Hamlet, de Shakespeare. E não sinto estar exagerando, pelo contrário, talvez seja um absurdo não pensar nesses paralelos, um absurdo só possível em uma mente que subestima nossas próprias criações como brasileiros. Concordo que há diversos pontos que poderiam ser melhores trabalhados, mas imagino a dificuldade que tenha sido já fazer um filme como esse, em questão de produção mesmo, orçamentária e etc. Reitero, é um absurdo um filme como esse ser só isso, ele poderia ter sido muito mais se nossa história fosse diferente em questão ao contato que temos com o cinema e o fazer-cinema. E mesmo sendo o que é, já é tão grande quanto muita coisa grande que se entende como grande. Espero que o cinema nacional contemporâneo receba mais carinho e consiga trabalhar no seu potencial.
Achei que foi uma ótima estreia da diretora. É um filme muito corajoso por ter usado ele inteiro em plano-sequência, e pelo seu conteúdo, obviamente. Eu gosto desses filmes em que tudo acontece em um curto espaço de tempo, que o caos toma conta do acontecimento e o filtro social desaparece. Me fez lembrar de vários outros filmes que eu gosto. Estou curioso para ver os próximos filmes dela e torço para que venha se tornar uma grande diretora.
Se seu intuito ao ver um filme é se divertir, se entreter, aprender, ou qualquer outra coisa assim: Não assista. Se você não tiver um alto grau de disposição, calma e disponibilidade, não vai rolar. Se optar por assistir, é melhor que faça de noite, sem sono, sem celular, totalmente disposto para experienciar. Junto com isso se você for uma pessoa que quando criança teve medo do escuro e de ficar sozinho, com um baixo grau de tolerância pra filmes de terror, o filme será muito bom para você. No mais, é um terror experimental e sensorial bom/mediano. A proposta de imagem craquelada, câmera deslocada, ambiente único, sem atores a vista, toda essa originalidade para causar desconforto - e esse desconforto é sustentado até o final, tem seu mérito. Só não gostei de verdade dos jump scarys. Achei apelativos e desnecessários, levando em consideração o formato do filme.
Ja é uma direção mais consolidada da diretora Francesa em relação à Raw. Apesar do primeiro ato ser questionável, talvez um pouco explícito demais, também é belíssimo na sua fotografia, na sua movimentação de câmera e nas tuas atuação, sobretudo de Agathe Rousselle (Alexia). Eu, particularmente, senti falta de um papel maior de Marilier, que trouxe o mesmo nome do papel em Raw (Justine), pensei que poderia haver algum paralelo com o filme anterior, qualquer coisa. Achei que poderiam ter aproveitado mais. De qualquer forma, esse mesmo ponto de explicitação já nos mostra a mão artística da diretora somado ao toque Cronenberguiano, com cenas lonas longas, cores vibrantes e momentos de se utilizam da dança e da música pra gerar uma certa leveza. A despeito de tudo isso, há também outros temas como a relação parental, dinâmica social da mulher na vida noturna, erotismo, fetichismo, um certo absurdismo de corpo-coisa, adaptação familiar, suporte mútuo para superação de traumas, tudo isso fazendo com que não seja somente um filme explícito gratuito, como me sugeriu no começo. Ducournau é uma da nova geração com potencial, esse filme me gerou certas expectativas pros próximos que poderão vir dela.
Eu me sinto extremamente satisfeito em ter encontrado esse filme e terrivelmente ofendido com a nota do Filmow. Uma vez que ela possa desestimular outros de assistirem. O filme é lindo no sentido visual, rico em questão de camadas de personagens, possibilitando ampla interpretação e poético na medida certa em seus diálogos. Não é um filme difícil ao mesmo tempo que envolve e funciona. A montagem em questão é muito boa, ela não é necessariamente linear mas não é de todo atrapalhada. Eu passei o filme todo lembrando dos filmes do Bergman. Não é de todo igual, mas tem um cheiro do cineasta sueco, quando ele acrescenta a Europa Medieval, o medo, a morte e todos estes elementos característicos; e isso pra mim basta para separar filmes de filmes. O único elemento que não estava descendo pra mim é, justamente, o principal, o Amor. No entanto, esse é o elemento mais intragável que eu julgo e acho que aqui ele é tolerável e foge da mesmice dos filmes comuns. Enfim, é um grande filme. Me senti na obrigação desse comentário para que, se puder, influencie alguém a assistir.
O filme usa de uma boa direção e visuais artísticos para esconder o vazio que é. É ruim. Ruim, mas bonito. Chato, mas bonito; mentiroso, mas bonito. É um trabalho de brincadeira, então uma nota de brincadeira.
Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte
3.4 42Esse filme transmite a reflexão da experiência cinematográfica em suas dimensões mais essenciais e fundamentais possíveis.
Já em "I Saw The TV Glow", eu senti a necessidade de deixar registrado neste site o tamanho da má compreensão/má vontade que parecia haver para com aquele filme. Agora, com Camp Miasma, isso me parece ainda mais necessário. Gostaria de deixar escrito aqui todos os aspectos/dimensões notáveis que esse filme tem. Mas sinto que não conseguirei ficar satisfeito, tamanho é a grandiosidade deste filme. É um filme para assistir várias vezes, de tempos em tempos. Porém, há certas coisas que eu acho mais fundamentais para deixar já registrado, tanto para quem quiser ler esse comentário quanto para mim, que, certamente, assistirei no futuro e vou gostar de saber quais elementos eram mais fundamentais de serem registrados.
Primeiro, começando por questões mais superficiais, é tremendamente empolgante como Schoenbrun presta homenagem aos grandes clássicos do Slasher. Obviamente, o filme está conversando com Friday 13th, mas não só. Assim como em I Saw The TV Glow, Jane também está conversando com toda a estética dos anos 80, seja nas cores, nos figurinos, mas, destacadamente, nos tipos de câmeras, lentes e movimentação de câmera. Diversos são os planos usados (ex: aquele Zoom in no Anthony, recepcionista do primeiro chalé onde ela fica, quando ele está procurando um aparelho de DVD para ela). Isso fica mais explícito quando a protagonista-diretora está assistindo ao filme, claro, mas antes disso e após isso já há vários desses elementos característicos dos slashers e do terror que vão nos dando essa boa sensação de assistir a um filme-tributo. Me lembro que, na trilogia Pear, Substância e Noite Passada em Soho, aconteceram esses comentários dos diretores tentando prestar homenagem ao gênero e sub-genero, e aqui isso acontece também, porém, há um aspecto em Camp Miasma em que isso fica mais "profundo": a relação entre forma e experiência cinematográfica para com o filme.
A relação entre Forma X Experiência Cinematográfica é discutida ao longo de todo o filme, junto com a relação de Desejo (escreverei mais para frente sobre ela). A personagem "principal", a Kris, é uma representação da diretora, Schoenbrun. A personagem é atriz-diretora, atrás de uma atriz, Billy Presley, que possui "outra" relação com o filme/Cinema. Enquanto a atriz-diretora possui uma relação afastada com o Cinema, imersa nas partes técnicas, teóricas ou Triviais (no sentido de curiosidade), Billy Presley possui uma relação de Desejo com o Cinema. Aqui, digo Desejo no sentido psicanalítico. Enquanto Kris, no primeiro ato, está pensando nas questões de gênero que o filme Camp Miasma contém, Billy VIVENCIOU a questão de gênero na sua cena final:
Billy vai perder sua virgindade, sem consentimento. Questões de idade: quando ela diz que foi esquecida pela industria por causa do passar dos anos. Nas reações angustiantes que Billy usa para atenuar seu sofrimento, como o desenho compulsivo da forma geométrica que pode ser tanto uma Câmera de cinema, uma Câmera de projeção e a "cabeça do Little Death"
Nesse sentido, nesse momento dentro da cabana de Presley, começamos a ter uma dinâmica de filme muito parecida com Persona, de Bergman. E, pouco a pouco, Kris começa a se transformar, por ajuda dela, mas, SOBRETUDO, por aproximação com o objeto Cinema. A Transformação de Kris se dá pelo contato que ela começa a ter com o filme-Cinema. É por meio do Olhar do filme, do Olhar da Tela Cinematográfica. É, ao olhar para o filme, se sentir olhada. Aqui está, para mim, a maior e mais qualificada dimensão de um filme-doCinema. Não se pode mais resumir um filme por suas questões teóricas, por sua Forma quando totalmente separada do conteúdo, ou do conteúdo totalmente separado da Forma. É da relação do Sujeito com o Cinema que temos a Experiência Cinematográfica. Como bem lembra a Billy Presley: "Com essa Postura, é claro que o Little Death não vai voltar".
Poderia escrever muito mais sobre a relação Forma X Experiência Cinematográfica, mas quero também escrever sobre o: Desejo. Temos, já no começo do filme, Kris escrevendo essa palavra quando está assistindo a uma sequência de Camp Miasma no aparelho que o recepcionista Anthony emprestou a ela. Esse Desejo, que se encontra no âmbito mais profundo do ser humano, abaixo até mesmo das aguas profundas de um lago — imagem dada pelo filme e também muito conhecida na Psicanálise quando ensinada de forma didática, com a imagem de um iceberg em um rio —, esse Desejo é o que impele Kris tanto para suas dimensões Sexuais quanto para sua Morte. Tomemos muito cuidado ao falar de Morte aqui. Não se trata de uma morte como o fim da vida, mas a Morte como o fim de Uma Vida. Um tipo de Vida. Kris se movimenta, EM RELAÇÃO ao seu Desejo, para a Morte que a permitirá viver outra Vida. E isso só é possível passando por caminhos que requerem muito trabalho, esforço e coragem, que é o caminho do Sexual. E o Sexual, de novo, não se trata apenas do Sexual-Explícito. Só dando um exemplo, para que fique bem claro: é muito sexual a cena de comer frango frito com Bill Presley.
E Kris passa por vários desses momentos, e passa junto com Presley, mulher que não teve outra pessoa que passasse junto com ela, a não ser o Little Death.
Aqui está a parte mais emblemática, para mim, desse filme. A relação de olhar-ser olhada que Presley tem com o Little Death e que depois Kris também terá. Essa noção de completude, uma noção muito conhecida na relação das mães com os bebês, onde o amor é completo. Onde ainda não temos a intervenção de um terceiro (o pai, mais simplificadamente falando). No entanto, também temos essa mesma relação de olhar-ser olhado com o Cinema. Como disse antes, ao assistirmos a um filme, estamos sempre sendo olhados. Somos olhados pelo filme, pelos personagens, pela projeção da Câmera, pela Tela Cinematográfica. Nas mesmas palavras de Kris: Somos observados e observador.
Neste sentido, o Little Death, que também é a diretora Schoenbrun, também é um diretor que se movimenta pelos dois sexos, não-binário, e pode olhar a atriz-diretora, fazendo a relação de Olhar-Ser Olhado. Há poucos filmes que eu já vi expressando tão bem essa dimensão que eu tenho o maior dos contentamentos, e aqui isso é feito de forma exemplar, da forma mais didática possível. É algo muito complexo, muito sofisticado, mas de MUITA importância.
Por fim, seguindo o pensamento anterior sobre Morte e Transformação, isso fica muito claro na cena final:
Onde temos Kris e Presley na loja de conveniência onde ambas tiveram uma morte simbólica, passaram por seus cursos sexuais e finalmente se encontraram com seu Desejo. A cena final das duas, ensanguentadas, no mesmo lugar em que, no começo do filme, Kris passa e está coberto de neve e crianças brincando, e ela caminha pedindo DESCULPAS à criança. Agora ela não pede desculpas, ela sorri e olha para o "Nada". Olha para o lugar do seu Desejo, lugar este que só ela pode ver, que só ela caminhou entre e só ela Morreu Para.
Enfim, poderia falar de mais mil outras coisas, como fotografia, figurino, montagem, na influência Lynchiana que o filme tem. Muitas outras coisas que estão absolutamente incríveis. Mas, se esse comentário fizer alguém que possa ter sentido não ter gostado muito do filme repensá-lo, já ficarei feliz. I Saw The TV Glow tem uma nota baixa em todos os sites, injustamente, e esse ter 3.4 é um absurdo igual.
Foi Apenas um Acidente
3.8 204 Assista AgoraO filme é absurdamente incrível, que trabalha, principalmente, o caminho dos Desejos dos seus personagens, e a Catarse necessária de uma tragédia-grega.
É um deleite a forma como o roteiro se desenvolve e ele próprio. Seu desenvolvimento, com calma, dando espaço para cada um dos personagens, pois cada um tem seu próprio interesse para com o antagonista do filme: Rashid Shahsavari, para uns, e Eghbal, para outros. Esses mesmos desenvolvimentos não são feitos às pressas, nem mesmo o do próprio Vahid, que vamos acompanhando, conhecendo sua história ao longo do filme, até a última cena, onde temos toda sua história contada naquela cena incrível.
E assim acontece com todos os outros personagens: o casal, o ex-namorado e a Shiva, que foi a minha favorita dentre os personagens. Vem muito a calhar esse nome, já que remete à deusa hinduísta da destruição-transformação. Mais especificamente na última cena, onde temos aquele incrível monólogo onde ela apresenta todas suas dores sofridas nas mãos de Eghbal, fazendo com que este finalmente venha a se confrontar com suas próprias ações. É por meio dela que ele finalmente encara seus feitos, é por meio da destruição de Shiva que Eghbal pode se destruir para (quem sabe) se transformar.
E, para mim, além de todo o aspecto político que tem nesse filme, algo muito comentado em outros comentários, há outro ponto que eu gostaria muito de ressaltar. Esse filme fala sobre o desejo!
Esse filme me lembrou muito as tragédias gregas, sobretudo a Antígona, de Sófocles. E isso é de um prazer imensurável. Há diversos elementos do filme que são comuns à peça:
o destino dando o movimento inicial da trama (o cachorro sendo atropelado e a mulher de Eghbal dizendo que foram os deuses que o colocaram ali; para que, por fim, ele comece sua tragédia entrando na oficina da sua vítima e futuro algoz), a figura de entrar ao reino da morte ainda vivo (enterro de Eghbal), a cena dos corvos planando o ensaio fotográfico como que acompanhando os envolvidos daquele destino, e a cena mais importante, nesse sentido de comparativo, que é quando Gal discute com seu noivo dizendo que não cederia de seu desejo de acompanhar a sentença de Eghbal e que ele poderia ir embora, se quisesse — assim como Antígona disse que Ismene poderia ir embora com Creonte, que não precisaria a seguir em seu desejo.
Todos esses personagens são movidos pelo seu desejo, um desejo que não conhece as leis, nem dos códigos de justiça dos homens, nem dos códigos divinos. É por isso que todas as ações se desenrolam aquém do poder policial e pouco do poder da lei civil-penal. Todo conflito se dá no âmbito moral, mas nem este é capaz de parar as ações dos que foram vitimados pela mão de Eghbal.
Por fim, cada um deles tem seus conflitos mais pessoais sendo resolvidos. Hamid tem sua questão que há muito estava pendente sobre o fim do renascimento com Shiva. Gal e o bonitão "se satisfazem" vendo a dinâmica familiar de Eghbal. E Vahid e Shiva têm sua purificação, por meio do temor e da piedade, dando todo o sentido da tragédia, no ato final.
Há outros pontos, mas há uma cena-mensagem do diretor de trazer a figura do teatro na boca de Hamid, quando ele lembra que foi com Shiva assistir "a uma peça de teatro" (Esperando Godot).
A primeira cena é algo que precisa ser registrado. É da boca da filha, a mesma filha que, em uma cena, perde sua inocência e conhece a morte pelo seu pai, e diz: "papai matou o cachorro, ele é um assassino". Sobre a última cena eu interpretei de uma forma que segue essa linha de pensamento sobre os desejos, que é:
Como o Vahid estava em um contexto de enxoval, ou seja, um contexto de "preparação de uma nova vida", como é um símbolo possível dos enxoval para os bebês, ele próprio recebeu uma lembrança de sua vida passada. PORÉM, se continuarmos assistindo na cena dos créditos, é possível perceber que o som vai diminuindo. Na sua cena de purificação, ao lado da arvore cheia em que ele amarra Eghbal, ele nos diz que "o som de sua prótese sempre invade seus pesadelos. Diferente é na cena final, onde ele está acordado, o som vem mas vai embora. Neste sentido, essa interpretação de destruição-transformação que escrevi anteriormente com Shiva, é um efeito dessa re-signifação dos seus traumas. Não creio que ele viverá, como pode ser que o ex-namorado de Shiva, viva, ou seja, perseguido. Esse ex-namorado, Vahid, provavelmente siga sua vida com esse tormento, de que a qualquer momento sua vingança interrompida cobre seu custo, mas não acredito que seja esse o fim de Vahid. Vahid, como Shiva, resolveram seu conflito com seu antagonista, tal como é na tragédia grega por meio da Catarse.
Gaua
3.6 8Mais um filme incrível que não reflete a nota destes sites. Por mais que o roteiro e sua mensagem superficial não sejam inovadores, a fotografia e a direção elevam o filme ao ponto do filme já vale a pena só pelas tuas imagens.
E mesmo que o roteiro já seja conhecido, ele é muito bem trabalhado, com muita paciência e nuances. Não há pressa em desenvolver seus personagens, em explicar o seu tempo e lugar, principalmente em trabalhar suas cenas mais explicitas. O medo, a repressão, o amor, o sobrenatural, e outros elementos possuem seus lugares.
O último ato é incrível! É tudo que eu gostaria de ver tendo as pinturas de Goya como uma das minhas favoritas. O diretor é ousado e persegue um sentido muito fino da arte, o da catarse. Seu filme permeia, primeiro pelo temor, depois pela piedade de uma forma que os grandes parariam para apreciá-lo.
Eu Vi o Brilho da TV
2.8 185 Assista AgoraEsse é mais um dos casos em que a nota não reflete, de modo algum, a qualidade do filme. De modo algum.
E é bem visível que as justificativas das notas é: não entendi; o filme é chato; o filme é lento; não tem proposta e outra coisas mais que dizem mais a respeito de quem assiste do que sobre o filme.
E a qualidade do filme não está, tão somente, nas questões nele abordadas, como se colocassem aos que vivem diretamente esses assuntos: não é por tratar de questões sexuais, de transexualidade, de identificações, de representações e etc. Mas, sobretudo, pela forma que é tratado e pelas nuances de afetos que o filme engloba nessas questões. A forma surrealista, onde muito lembra os filmes do Lynch, é absolutamente adequada para esse filme, onde os personagens estão em constante conflito com a realidade. Portanto, as cores, o tempo, o fluxo do tempo, o espaço, as interações, todos esses elementos trabalhados, como foram no filme, de forma dúbia, de forma a dar a sensação conhecida por nós quando estamos em um sonho, é algo de se impressionar. Outra questão é os afetos que permeiam o filme. Escutei e li muito sobre "onde está o terror desse filme?" Para mim, o terror desse filme é tão difícil de identificar porque ele é interno. Diferente de uma projeção, como em Babadook por exemplo, ou dos monstros que conhecemos, o constante terror que permeia o filme, que está ali desde o primeiro segundo, se encontra nas dificuldades e questões que o protagonista não consegue entrar em contato de uma forma mais clara. Não há um segundo no filme que o terror não está acontecendo. É o conflito que nunca acontece externamente, mas está, em vários momentos aparecendo, como sintoma de angustia: vide as várias cenas de ataque de pânico que o Owen enfrenta.
E para além das questões mais aparentes, como as de sexualidade, o filme aborda questões mais universais que nuançam com as questões sexuais: o tédio, a dificuldade de se colocar no mundo, o luto que não é feito (da mãe) por o próprio processo da doença não ser vivido, os tipos de abusos familiares, a dificuldade do período escolar, a morte que se aproxima. Veja, e ainda hão de falar que o filme é lento. Sob todos esses temas em 1:40 de filme... eu diria que é um filme bem rápido.
Além disso, mesmo que todas essas questões não cheguem para quem assiste, questões particulares e mais gerais, até a morte, o tédio e o trabalho como possíveis exemplos de universais, o filme ainda é muito bonito visualmente. Mesmo que tudo isso passasse em branco, ainda sobraria o puro afeto visual, que só por ele mesmo ainda justificaria um apreço maior, mas nem isso é considerado, aparentemente.
Enfim, um grande filme que tem sua nota, neste e em outros sites, muito aquém do que ele é. Creio que a nota baixa são proveniente de outra ordem que não o filme. Enfim.
eXistenZ
3.6 327 Assista AgoraUm grande filme do Cronenberg!
Assistir esse filme em 2026 é muito curioso. Tu consegue ver diversas questões sendo discutidas no filme que são terrivelmente atuais nos dias de hoje. A fuga da realidade com jogos, a distinção de valor entre realidade e não-realidade (com os vídeos fakes de IA) e etc, e tudo feito com um roteiro muito original. Para mim, o grande ponto foi como foi tratado o grotesco no filme. Não há nenhuma vergonha no modo de retratar as criaturas mutantes, o cenário, as atuações mais repetitivas, caricatas e canastronas, e tudo isso parece como que uma valorização do bizarro, do grotesco. E isso é incrível, incrível! O belo, como estética, é sempre retratado, mas o grotesco nem sempre, e fazer isso de forma elevada é de se notar e deixar registrado.
Eu me lembrei muito das palavras do Lynch vendo esse filme. O filme é um compromisso com a fantasia, com a ousadia de criar, não com as explicações ou interpretações. É claro que esse filme nem se compara, em termos de interpretações, com as obras do Lynch, mas sim em questão de coragem de roteiro e direção. E isso é muito, muito importante, na minha opinião, pros filmes de hoje em dia. Essa coragem de criar novos mundos, novos roteiros, novas questões a serem debatidas, questões que podem durar por 30 anos, como é o caso desse filme.
Obsessão
3.9 929 Assista AgoraEu gostei do filme, e varias vezes fiquei apreensivo. Acho que gerar emoções e sensações é o principal de um filme. Mas houve algumas coisas me incomodaram.
Os incômodos vieram pela sensação que parece que o filme é uma miscelânea de filmes mais recentes: há elementos do Smile, essa premissa de "cuidado com o que você deseja" é coisa batida e, por isso, quando explorada deve-se fazer com mais originalidade. Os elementos de violência são muito parecidos com os dos irmãos Phillippou (sobretudo o Talk to Me), ou seja, uma violência mais frontal, repetida e agonizante (cena do carro e a última).
Não sei, mas as cenas mais violentas eu acho que tiveram pouco cuidado na hora de fazer, de formar ela, antes dos atos em si. Por ex:
A cena da mulher na cadeira, poderia ser mais explorada, fazer com que causasse mais choque.
Muitas vezes o "terror' se dava só nas expressões do Bear, é como se as sensações de terror se produzissem de um convencimento de atuação; o que me fazia lembrar da série Baby Reindeer, o que me convence mais ainda da colcha de retalhos que parece ser esse filme e, como essa colcha, comparada aos seus retalhos, são de menor valor. Me pareceu um bom filme, mas nada original e, nesses lugares, ainda de pouco valor. O problema não é ser original, é no oferecer, o oferecimento ser pouco. Enfim... ou eu esperava mais também.
Agora, os pontos bons para mim, é a sustentação da história onde ela não tem terror explícito. A sustentação do egoísmo do Bear, pela covardia; as cenas da Nikki como autômato e também quando ela "entreaparecia" nos diálogos (não digo na cena da cama, digo nos diálogos mesmo). Essas cenas mais sutis e sustentadas, para mim, foi o ápice do terror-angústia. A cena final é muito boa pelo valor de choque, mas poderia ser mais dramática, ousada, explorada, eu acho.
Para mim, a melhor cena foi:
No diálogo com o "SAC" do produto, o representante do produto - que não temos ideia de quem é, se é uma pessoa de fato, oferece ao Bear a possibilidade dele falar com a Nikki, e eis que vem a cena do grito. Aqueles gritos, como se viessem de outra dimensão, de outro lugar para-além desse mundo, aquilo foi paralisante. Eu gostaria que tivesse mais disso no filme, um tipo de de terror incontrolável, indescritível, mais do que o choque das cenas.
Acredito que os próximos filmes do Barker serão muito bons.
Como Era Gostoso o Meu Francês
3.6 61Um grande filme do nosso Cinema!
Esse filme pode nos servir em diversas dimensões. Ele pode ser apresentado como um filme histórico, como foi para mim, há alguns anos atrás, em período escolar, para discutir as relações de povos originários com colonizadores. Sim, pode. Ele pode servir para discutir a relação da antropofagia no movimento literário brasileiro. Sim, pode. Ele pode ser pensado como construção de personagens com a relação do Francês com a Seboipepe. Há, de fato, uma porção de texturas que compõem esse filme, que o faz ser demonstrado, não só como um grande filme nacional, mas como um grande filme do Cinema. É um tremendo filme que, como tantos outros longas nosso, não deixa a desejar em nada!
O cuidado com as línguas no filme é digno de nota. As línguas acabam sendo um personagem na história, ao ponto que, no começo do filme elas estão muito bem delimitadas para cada tribo (e aqui, incluo às dos colonos), e são um dos primeiros "objetos" que os Tupinambás comem. Depois suas vestes, seus costumes, até o ponto máximo em que sua vida é entregue, de bom grado, em um cena fantasiosa-romântica, colocado lado a lado o amor e a morte, uma conjunção de símbolos muito emblemática, na cena do ensaio em cima do rochedo.
Para mim, outro grande fator, é a forma que o chefe da tribo, Cunhambebe, é retratado. Toda cena em que ele está, é trabalhado os aspectos de força e valentia, algo que parece faltar quando estamos em período de formação escolar, onde podemos aprender sobre os povos originários com tons caricatos e ingênuos. Não é só no cuidado com a língua que Nelson Pereira demonstra maestria, mas com a forma de retratar os personagens, sobretudo o Cunhambebe. Nesse sentido, também vale vários elogios a Seboipepe, onde ela tem afetos sim pelo francês que é demonstrado em diversas cenas, mas gosto muito da cena de caça em que é ela, e não ele, quem empunha a arma! No entanto, não é por isso que a ela não será servida o pescoço (parte importante para o instrumento da fala). Isso demonstra a ambivalência dos personagens, onde "posso ter afeto por você, mas também sou parte dessa tribo. Posso ter um modo de experimentar o afeto diferente do seu, Europeu, porque sou Outro, algo que você não entendeu ainda". Ah, como era gostoso o meu Frances, o meu (f)rances.
Uma Noite Alucinante: A Morte do Demônio
3.7 1,5K Assista AgoraReassisti esse filme depois de 10 anos, e me parece que a experiência foi melhor que da primeira vez.
Lembro que não me impressionou muito. Acho que não entendi muito o aspecto "lúdico" com o gênero. Consigo dizer que, naquela época, eu não tinha "maturidade (em todos os sentidos) suficiente para curtir esse filme." E, dessa forma, parece que o filme também cumpriu um papel naquela época, já que ele também é uma forma de brincar com o espectador. O terror do filme é um terror satírico, ele brinca com o próprio gênero, e eu, que esperava algo sério, fui enganado.
Hoje, sabendo um pouco da história de filmagem do filme, tanto do orçamento quanto tendo uma noção de orçamento para filmar um filme, sabendo da importância de influência para outros diretores, do impacto no gênero, da motivação dos realizadores e todos os aspectos além do filme, esse filme ganha outra camada. E isso é incrível. Como um filme pode, tanto te impactar diferente, quanto ganhar valor, a medida que quem o assiste muda. Isso é uma das definições de clássico! O filme ganha um duplo valor para mim. Teve seu valor (mesmo que eu não reconhecesse na época, em me enganar) e tem agora em me surpreender.
Sobre o filme mesmo: a forma de direção do Sam Raimi é incrível! O tipo de plano que ele criou com as cenas na floresta é algo muito imersivo, junto com a trilha sonora do filme. Vendo um pouco a forma de captação de som desse filme, onde a própria floresta fornece os materiais necessários (junto com a imaginação e criatividade) para sua produção. Mas, pessoalmente, não foi nem esse o aspecto que mais me encantou. Foi as escolhas de câmera na diagonal ao longo de todo filme e a escolha de gravar em diferentes níveis, mesclando objetos da casa com atores. É como se os objetos, e toda a cabana, também fosse um personagem, porque estão sempre em relação com os atores, ora um nível a frente, ora atrás, ora embaixo ou em cima (lembrando do demônio na fresta do porão). Esse paralelismo, meridiano e perpendicular na forma de gravar é absolutamente encantador e faz com que o Cinema se realize em ato puro.
Gostaria de só deixar registrado também a cena das risadas efusivas da Linda. Sério, que agonizante! Que desconfortável! Aquilo é um absurdo. É minha cena preferida toda a sequência a partir do momento que ela está sentada no batente da porta!
O Drama
3.6 495 Assista AgoraEu tinha muitas expectativas com esse diretor desde que assisti a "Dream Scenario". Também fiquei curioso para ver como se daria o jogo de atuação de Robert Pattinson e Zendaya nesse estilo de filme de poucos personagens, em que o mais importante é a relação entre eles. Há nesse filme os elementos que mais me interessam, que são: delírios, paranoias, desencontros, dificuldade de expressão, fragilidade e o processo de miserabilidade humana.
Desde "Dream Scenario", acredito que Borgli trabalhe bem os temas da condição humana. Porém, durante o filme, esses temas, para mim, pareciam coisas menores. Não consegui me identificar com o drama proposto. Não consegui embarcar na manifestação da personagem de Haim. Consigo ver que há diversos fatores para isso. Porém, isso foi mudando da metade para o final do filme, quando pensei que não importava, para a experiência, que eu comprasse o motivo do drama tal como ele era, mas que o processo de delírio do Pattinson e o lugar em que a Zendaya estava sendo colocada importavam mais. O filme mudou completamente quando parei de tentar a identificação com a realidade americana e passei a comprar o processo de dramatização.
O filme vale, sim, para pensar problemas sociais americanos, mas acho que, nisso, outros filmes fazem melhor. Um recente, que se equipara em tamanho de distribuição e recepção de público, é "Weapons". Portanto, não gostei de pensar o filme nesse sentido, como crítica à sociedade americana, mas como um estudo da decadência das relações humanas amorosas (amorosas aqui não está restrito ao casal, mas se estende aos amigos ou a eles mesmos) por meio do delírio.
Acho que pensar o Pattinson nesse filme é interessante e renderia várias discussões também, como:
A Zendaya se torna o alvo do filme a partir do seu segredo revelado, mas por que o Pattinson não é colocado em xeque, uma vez que ele não conta o seu segredo e projeta toda a sua insegurança a partir de um segredo "horrível" desvelado por sua companheira? Por que existe essa dificuldade de elaboração tão intensa que, às vezes, parece servir como instrumento para justificar suas próprias falhas e dificuldades? etc. etc.
Pois bem, eu gostei. Acho que é mais um belo filme de Borgli e que rende várias reflexões sobre temas interessantíssimos. O diretor norueguês é, para mim, um dos grandes da contemporaneidade e daqueles que ainda crescerão muito em suas carreiras.
Tusk, A Transformação
2.5 420 Assista AgoraPara mim, Tusk é um excelente filme.
É de se admirar um body horror desse tipo, que consegue sustentar temas interessantes e uma construção narrativa cheia de nuances. Há comédia sem perder o bizarro; há elementos que me pareceram vindos da literatura francesa e inglesa, como Holmes e Lupin; e há também o drama do desespero e da desesperança. Tudo isso dentro de um subgênero que não precisaria ter.
E não acho que todos esses elementos estejam jogados. Parece-me um filme sem pressa, ousado e muito interessante. Tentei pensar nas críticas que vi, e elas não fazem sentido para mim. Os flashbacks dinamizam o filme, não atrapalham. Eles também trazem um movimento que corta a linearidade sem se tornar enfadonho. A maioria dos personagens (exceto Teddy) é desenvolvida em alguma medida. Por mim, o filme poderia ser ainda mais apelativo, mais calmo, ter mais cuidado com a fotografia. Dava para aproveitar ainda mais o cenário, toda a transformação da Morsa e a discussão sobre a natureza humana.
Há várias coisas nesse filme que me mobilizaram; a discussão sobre a natureza humana é a principal. O final, sobre a lágrima, é outra. Mas, principalmente, a cena pós-créditos. Há diversas críticas do tipo: "a concepção do filme partir de uma brincadeira; por isso, o filme já nasceu ruim".
Esse incômodo que nós temos, essa sensação de sermos enganados, é o próprio Cinema. Não nos esqueçamos disso. O Cinema é um lugar de projeção. Nós somos enganados nos filmes "sérios" também. E esse, definitivamente, não é o problema. Incomoda, sim, mas não é um problema. A "natureza" do Cinema também é enganar. Aqui, o diretor nos engana, faz uma grande brincadeira conosco. Mas a câmera nos engana, as cores nos enganam, os personagens nos enganam.
Achei um grande filme, e me interessa muito como o pessoal da comédia consegue fazer outros gêneros de forma ousada e muito impactante.
Eu Sou um Cyborg, e Daí?
3.9 190Há vários filmes muito bons que tratam da dinâmica institucional dos hospitais psiquiátricos. Da loucura, há ainda mais. É um grande mérito o Park Chan-wook realizar um filme desse tipo de uma maneira que o torne diferente dessa vastidão de obras feitas.
Penso que o grande perigo desse tipo de filme é reduzir os personagens aos seus diagnósticos. Quem mente é a mitomaníaca. Quem alucina é o esquizofrênico. Quem não come é o anoréxico. De maneira que o filme faça com que nós também reduzamos esses personagens a essas manifestações e reproduzamos o impedimento de que esses personagens podem ser outra coisa ou manifestar outros comportamentos. Como se também eles não pudessem falar para além desses diagnósticos, não tivessem histórias, não tivessem os porquês dessas marcas.
E penso que, nesse sentido, o diretor manejou bem. Há diversos momentos em que os sintomas se misturam: o ladrão está cantando como a cantora, a cintura elástica está na projeção de sonho dos personagens, as meias de voo estão com a Young-goon. Todos esses elementos coincidindo para que a história de resolução do conflito da personagem principal pudesse ser resolvida. Até o máximo dessa somatória resultar em uma cena em que todos compartilham da mesma dificuldade de se alimentar que ela tem. Essa forma de somar, e não dividir — algo que esses filmes e narrativas tendem a reproduzir — é um grande ponto nesse filme. Pois, também como aqueles que estão fora dessa dinâmica institucional, essas pessoas são complexas e não podem ser reduzidas aos seus sintomas. Há histórias por trás desses diagnósticos e há uma possibilidade de conversa para além deles.
Outro grande ponto para mim são os elementos de diversos gêneros no filme. Há diversas cenas de comédia que usam uma estrutura cômica para mostrar coisas muito sérias, como, por exemplo, o excesso de sentimento de culpa em um personagem. Ou a crença ferrenha na possibilidade de roubar habilidades e características. Há uma dimensão romântica que é lentamente desenvolvida até uma cena-chave em que o diretor usa uma fotografia bem clichê, mas que combina muito com o romance clichê no qual o filme está envolvido. Há uma veia de suspense que se passa nos subsolos da instituição e até uma verve de ficção científica que é construída ao longo do filme até uma cena bem emblemática à la Frankenstein. O diretor brinca nesse filme, e é com muita competência que dessa brincadeira sai um filme muito sério, porém lúdico. Pela dimensão lúdica, é possível tratar de temas tão importantes e finalizar de uma maneira tão autoral.
Outro grande ponto para mim foram as cenas de Cyborg da Young-goon. Para além da matança explícita, creio que a forma como o diretor trabalha o “delírio” por meio da fantasia é extremamente importante se pensamos no cinema como um exercício de imaginação. Nessa cena, o diretor não poupa recursos para sublimar um desejo fundamental da personagem (e seu também). E esse exercício de imaginação é fundamental para nós que assistimos; é um convite e uma realização de uma dimensão muito basal do próprio ato de assistir a um filme. E acho que ele fez isso de uma maneira muito bonita. Essa cena é incrível. (Poderia falar da cena do voo também, mas escolhi essa por ser mais explícita).
Holy Motors
3.9 658 Assista AgoraQue filme incrível! Escrever sobre esse filme de uma maneira a tentar defini-lo é, em si, contraditório. Todos podem assisti-lo e encontrar diversas formas de interpretá-lo, mas reduzir a uma logica de "entendimento", isso, definitivamente, não é. Talvez (e essa é a palavra, talvez), o máximo possível é isso: o definível é o mais próximo do que ele é, e ele é uma experiência, tal como o cinema.
Por vezes perdemos essa experiência cinematográfica quando nos relacionamos com o filme, seja por algo externo (alguém que faz algo que te lembra que você está fora do filme), ou quando você mesmo quebra isso lembrando que "aquilo é só o um filme, não é real". Mas esse filme também brinca com isso. Os personagens estão atuando? São eles personagens? Oscar não sofre na vida que tem? Ele não nos lembra como sofremos nas vidas que nós temos? Como é possível nós nos identificarmos com alguém que não existe como nós existimos? Todas essas coisas sãos (d)as maravilhas do cinema. Leos Carax fez isso muito bem, Lynch fez isso muito bem, Tarkovski fez isso muito bem, Godard fez isso muito bem, e muitos outros fizeram isso muito bem.
Só para registro, para que no futuro, eu ou quem quer que seja possa ver e lembrar disso mas: a cena do esgoto da Beleza e do Grotesco é das coisas que mais lindas e sublime que eu vi recentemente.
O Homem dos Sonhos
3.4 207Eu fiquei absurdamente empolgado com o que eu acabei de assistir!
Interpretei o filme como, principalmente, um retrato de alguém que se sente profudamente abadonado. Matthews é o sujeito que não se sente como alguém que é visto e/ou admirado. Desta forma, inconscientemente, está a todo momento tentando se fazer presente. Gostaria de explicar essa minha interpretação com alguns exemplos de cena:
Primeiro, quando tem contato com a primeira mulher com que ele rivaliza, a pesquisadora, que ao ver que ela usa de sua ideia para se projetar em uma revista, recebe aquilo que ele tanto deseja: atenção
Segundo, quando ele projeta na sua antiga namorada que ela estaria a fim dele e, com isso, conseguiria a atenção de sua mulher por meio do ciumes. Ou seja, dessa formaria conseguia se projetar maior, mais atrativo e mais interessante. Mais admirável.
Ora, se não por presença passiva, seja por uma presença ativa (porém violenta). O segundo ato do filme, quando se dá pelos pesadelos, também é uma forma de "estar na cabeça das pessoas". Por mais antagonico que pareça, uma vez que os seus alunos e todas as outras pessoas a quem ele tem aproximação comecem a rejeita-lo fisicamente, ele ainda está sendo "visto" em pesadelo. Porém, é aqui que está o segundo ponto do filme: um dos motivos que o Matthew não é visto, é porque ele não atua no mundo! Suas ações acabam sendo sempre de uma dimensão passiva fazendo com que, por um lado as pessoas acabam fazendo com que ele se sinta abandonado, por outro ele nunca vai ao encontro das pessoas.
Para mim, as duas faces da mesma moeda desse filme é, de um lado a sensação de abandono, do outro a incapacidade de ir ao encontro do outro. A primeira faz com Matthew e todos nós fiquemos esperando ser acolhido, a segunda, por consequência da primeira, nos deixa sempre paralisado. É um ciclo que se fecha em si mesmo tornando cada vez mais fundo essa falta que se origina todo o processo.
Uma prova disso é que o único momento que Matthew conseguiu falar de sí, da sua falta e da sua vontade de se visto foi na última cena em que ele aparece como a figura de desejo de sua esposa (com a fantasia dos "Talking Heads" e diz: "eu gostaria que isso fossre real")
Com isso, Dream Scenario é um retrato do que pode ser um sujeito que sente um sensação de abandono e que não consegue conscientiza desse desejo de ser visto. É sobre o sujeito que, por estar sempre esperando que consigam ler em seu olhar a sua tristeza, nunca acaba por se fazer presente e se projetar no mundo. E que, com isso, não apenas ele sofre, mas todos aqueles que também esperam que ele se projete. Há outros elementos nesse filme que conversam com a psicanálise, os aspectos oníricos é o mais evidente, esse sobre o "abandono" no sujeito edipiano pelo pai rivalizado é o que mais me chamou a atenção, mas há outros também interessantes.
Achei a fotografia muito boa também, a calma da direção, a atuação do Nicolas Cage absurdamente boa em retratar esses pontos propostos, o sentimento de confusão do sujeito que não se conhece, sua interpretação sempre sozinha nas cenas, perdido...
Outra cena incrível é a do Matthew com a Molly em que há uma quebra de expectativa do Matthew ideal (do sonho) e do Matthew real (o que peida e goza precocemente). Mais um elemento que acaba contrastando agressivamente e que Matthew percebe que, quando o olham e o amdmiram, não é dele, mas de um Matthew-imaginado.
Enfim, poderia ficar falando desse filme por horas, mas espero ter passado um pouco do meu entusiasmo por esse filme para que todos assistam e que ele o toquem também.
Vidas Passadas
4.1 961 Assista AgoraÉ o drama romântico da vida em estado mais ridículo. Mais banal. Mais humano.
É o conflito incessante do destino e do acaso. Uma dança de desejo e do descaso.
O que eu mais gostei nesse filme foi do banal. Principalmente na figura do Hae Sung (um cara normal, sofrendo de algo mais normal ainda. Esses encontros e desencontros que acontecem ao longo do filme, onde todas as cenas que eles estão juntos, em meio ao casais, em lugares de encontros romanticos, acentuando o desencontro, é destruidor.
Como diz no filme, mas também disseram nos comentários "sempre que deixamos algo para trás, abrimos espaço para algo novo", porém, o espaço que se abre sempre vai estar alí, e mesmo que passe 12 anos, sempre saberemos que ele é real.
Pacificado
3.4 17 Assista AgoraSe o cinema brasileiro fosse levado a sério, com investimento do governo e da sociedade, esse filme seria ainda melhor e colecionaria prêmios. Digo, sem medo, que em potencial iria mais longe que Moonlight, por exemplo. Enquanto eu assistia, consegui ter a sensação de vários outros filmes incríveis como o já citado, Pig, até a peça Hamlet, de Shakespeare.
E não sinto estar exagerando, pelo contrário, talvez seja um absurdo não pensar nesses paralelos, um absurdo só possível em uma mente que subestima nossas próprias criações como brasileiros.
Concordo que há diversos pontos que poderiam ser melhores trabalhados, mas imagino a dificuldade que tenha sido já fazer um filme como esse, em questão de produção mesmo, orçamentária e etc.
Reitero, é um absurdo um filme como esse ser só isso, ele poderia ter sido muito mais se nossa história fosse diferente em questão ao contato que temos com o cinema e o fazer-cinema. E mesmo sendo o que é, já é tão grande quanto muita coisa grande que se entende como grande. Espero que o cinema nacional contemporâneo receba mais carinho e consiga trabalhar no seu potencial.
Suaves e Discretas
3.5 288 Assista AgoraAchei que foi uma ótima estreia da diretora. É um filme muito corajoso por ter usado ele inteiro em plano-sequência, e pelo seu conteúdo, obviamente. Eu gosto desses filmes em que tudo acontece em um curto espaço de tempo, que o caos toma conta do acontecimento e o filtro social desaparece. Me fez lembrar de vários outros filmes que eu gosto. Estou curioso para ver os próximos filmes dela e torço para que venha se tornar uma grande diretora.
Skinamarink: Canção de Ninar
2.3 253 Assista AgoraSe seu intuito ao ver um filme é se divertir, se entreter, aprender, ou qualquer outra coisa assim: Não assista. Se você não tiver um alto grau de disposição, calma e disponibilidade, não vai rolar.
Se optar por assistir, é melhor que faça de noite, sem sono, sem celular, totalmente disposto para experienciar. Junto com isso se você for uma pessoa que quando criança teve medo do escuro e de ficar sozinho, com um baixo grau de tolerância pra filmes de terror, o filme será muito bom para você.
No mais, é um terror experimental e sensorial bom/mediano. A proposta de imagem craquelada, câmera deslocada, ambiente único, sem atores a vista, toda essa originalidade para causar desconforto - e esse desconforto é sustentado até o final, tem seu mérito. Só não gostei de verdade dos jump scarys. Achei apelativos e desnecessários, levando em consideração o formato do filme.
Titane
3.5 441 Assista AgoraJa é uma direção mais consolidada da diretora Francesa em relação à Raw. Apesar do primeiro ato ser questionável, talvez um pouco explícito demais, também é belíssimo na sua fotografia, na sua movimentação de câmera e nas tuas atuação, sobretudo de Agathe Rousselle (Alexia). Eu, particularmente, senti falta de um papel maior de Marilier, que trouxe o mesmo nome do papel em Raw (Justine), pensei que poderia haver algum paralelo com o filme anterior, qualquer coisa. Achei que poderiam ter aproveitado mais.
De qualquer forma, esse mesmo ponto de explicitação já nos mostra a mão artística da diretora somado ao toque Cronenberguiano, com cenas lonas longas, cores vibrantes e momentos de se utilizam da dança e da música pra gerar uma certa leveza.
A despeito de tudo isso, há também outros temas como a relação parental, dinâmica social da mulher na vida noturna, erotismo, fetichismo, um certo absurdismo de corpo-coisa, adaptação familiar, suporte mútuo para superação de traumas, tudo isso fazendo com que não seja somente um filme explícito gratuito, como me sugeriu no começo.
Ducournau é uma da nova geração com potencial, esse filme me gerou certas expectativas pros próximos que poderão vir dela.
Titane
3.5 441 Assista AgoraAerófolio...
para o meu Palio!
A Menina e o Ovo de Anjo
4.0 139Filme muito bom, mas não tem nem lutas nem carros
It: Capítulo Dois
3.4 1,5K Assista AgoraÉ incrível o que esse filme conseguiu fazer: ele demorou 2 horas pra começar e depois demorou 1 hora pra acabar...
A Freira
2.5 1,5K Assista AgoraRuim
November
3.8 87Eu me sinto extremamente satisfeito em ter encontrado esse filme e terrivelmente ofendido com a nota do Filmow. Uma vez que ela possa desestimular outros de assistirem.
O filme é lindo no sentido visual, rico em questão de camadas de personagens, possibilitando ampla interpretação e poético na medida certa em seus diálogos. Não é um filme difícil ao mesmo tempo que envolve e funciona. A montagem em questão é muito boa, ela não é necessariamente linear mas não é de todo atrapalhada.
Eu passei o filme todo lembrando dos filmes do Bergman. Não é de todo igual, mas tem um cheiro do cineasta sueco, quando ele acrescenta a Europa Medieval, o medo, a morte e todos estes elementos característicos; e isso pra mim basta para separar filmes de filmes.
O único elemento que não estava descendo pra mim é, justamente, o principal, o Amor. No entanto, esse é o elemento mais intragável que eu julgo e acho que aqui ele é tolerável e foge da mesmice dos filmes comuns.
Enfim, é um grande filme. Me senti na obrigação desse comentário para que, se puder, influencie alguém a assistir.
Kill Bill: Volume 1
4.2 2,4K Assista AgoraO filme usa de uma boa direção e visuais artísticos para esconder o vazio que é. É ruim. Ruim, mas bonito. Chato, mas bonito; mentiroso, mas bonito. É um trabalho de brincadeira, então uma nota de brincadeira.