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Muita gente vai sair de Dia D falando sobre alienígenas. Sobre teorias, conspirações, infiltrações e grandes revelações cósmicas. Eu terminei de ver o filme pensando em algo muito mais desconfortável. Para mim, o novo e vibrante filme de Steven Spielberg não é sobre alienígenas. É sobre nós.
Mais especificamente, sobre a nossa relação com tudo aquilo que é novo, desconhecido e externo. Sobre a nossa incapacidade histórica de lidar com o diferente sem imediatamente tentar controlá-lo, explorá-lo ou destruí-lo.
A pista está logo na primeira imagem do filme.
Antes mesmo que a narrativa comece de verdade, Spielberg enfia uma botina pesada de um lutador de luta livre na cara do espectador. Literalmente. É uma abertura agressiva, quase absurda, mas extremamente calculada. Em poucos segundos já entendemos que estamos entrando num universo onde a violência não é um acontecimento extraordinário. Ela é o estado natural das coisas.
E essa sensação atravessa o filme inteiro.
Violência física. Violência verbal. Violência policial. Violência militar. Violência televisiva. Violência virtual. Violência institucional. Tudo está presente o tempo todo. O mais interessante é que ninguém parece realmente perturbado por isso. Os personagens convivem com esse ambiente como quem convive com o trânsito ou com a previsão do tempo. A brutalidade foi tão incorporada ao cotidiano que deixou de causar estranhamento.
Talvez esse seja o verdadeiro mundo alienígena retratado por Spielberg. Não o deles. O nosso.
Outro detalhe que me chamou atenção foi a quantidade impressionante de espelhos espalhados pelo filme. Rostos refletidos, imagens duplicadas, personagens observando a si mesmos. Ao mesmo tempo, Spielberg insiste em closes de olhos que se dilatam, mudam de cor ou simplesmente encaram algo que não conseguem compreender.
Nada disso parece acidental.
Dia D é um filme obcecado pela ideia do olhar. Não pelo que vemos, mas pela forma como escolhemos enxergar.
A reconstrução do olhar é o verdadeiro motor da narrativa.
E é justamente por isso que o clímax me pareceu tão poderoso e quase cruel.
A grande revelação do filme não é a presença de alienígenas entre nós. Isso, convenhamos, já está praticamente escancarado muito antes de a história chegar ao fim.
A verdadeira revelação é outra.
É descobrir como nós os trataríamos se eles realmente estivessem aqui.
Exploração.
Dominação.
Desumanização.
Tortura.
Segregação.
Spielberg não está interessado em perguntar se estamos sozinhos no universo. Ele está perguntando se merecemos companhia.
Nesse sentido, os personagens vividos por Emily Blunt e Josh O'Connor funcionam quase como instrumentos de uma tentativa alienígena de ensinar algo à humanidade. Não tecnologia. Não conhecimento avançado. Não viagens interestelares.
Empatia.
A única característica que talvez pudesse nos tornar dignos de conviver com espécies extraterrestres.
Por isso, para mim, a personagem mais importante do filme aparece durante pouquíssimos minutos. A apresentadora de telejornal que exibe pela primeira vez as imagens da grande revelação.
Enquanto todos ao redor parecem fascinados pela notícia, ela não consegue esconder a expressão.
Não é medo.
Não é choque.
É tristeza.
É decepção.
É vergonha.
Naquele breve instante, ela parece compreender algo que o resto da humanidade ainda não entendeu. O problema nunca foi descobrir que existem outras inteligências no universo. O problema é que continuamos incapazes de nos relacionar com qualquer forma de vida sem transformá-la em recurso, propriedade ou ameaça.
É um momento pequeno, mas que carrega todo o peso dramático que Spielberg tenta imprimir sobre essa verdade inconveniente.
Respeito as visões de cada um sobre o filme, mas para mim foi uma das experiências mais tristes, pessimistas e impactantes dos últimos tempos.
#DiaD #DisclosureDay #StevenSpielberg #Cinema
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Bons filmes!
Equipe Filmow
Tudo certo também.
Para mim, o lendário poema A Odisseia, de Homero, sempre foi sobre a jornada interna de Odisseu (Ulysses ❤), muito mais do que uma aventura heroica, de provações físicas e méritos estratégicos. Por isso mesmo, estou feliz em poder dizer que a reinterpretação de Christopher Nolan para a obra me arrebatou. Assisti ontem na estreia e ainda tenho a mente assombrada pelo filme.
Enaltecer os cuidados técnicos seria chover no molhado. Tudo parece realmente estar acontecendo diante do olhar da plateia, mesmo quando há gigantes e monstros a serem combatidos. O que me impressionou mesmo foi o quanto Nolan evoluiu enquanto narrador visual. As cenas com Polifemo são genuinamente atmosféricas, já o trecho que se passa na casa de Circe tem imagens e situações realmente escabrosas e medonhas, que poderiam fazer parte de um filme de horror.
Falando em Polifemo, ele foi a primeira chave para minha compreensão de que Nolan interpreta a Odisseia como uma história de impllicações morais e éticas. A partir do último momento em que ambos dividem a tela, o filme deixa de ser apenas uma aventura cheia de provações aparentemente impossíveis para ilustrar o maior e mais pesado fardo que o Odisseu carrega: sua consciência.
A interpretação do significado do retorno a Itaca nessse filme me parece análoga ao poema Itaca, de Konstantinos Kaváfis, que foi citado pelo grande Leonardo Ferrari no prefácio de meu livro O Filme Nosso de Cada Dia e, posteriormente, por mim em minha ficção distópica Biff Christen. Não é o objetivo, mas o caminho percorrido que realmente importa. É aí que o filme engrandece a si mesmo. Assim como o Odisseu, Itaca carrega o fardo de ser uma civilação que se construiu baseada em expropriação, exploração e barbárie.
O filme deslumbra com seu espetáculo visual e sonoro, bem como através do fantástico elenco, mas o que ressoou comigo foi perceber que existe aqui uma compreensão da função primária dos mitos. A Odisseia, pelo olhar de Christopher Nolan se apoia na narrativa fundadora de quase todas as nossas grandes histórias, escrita há cerca de 3.000 anos, mas não como um espelho retrovisor. Ele está fazendo um apelo para que olhemos para nós mesmos, no tempo em que estamos vivendo. Quem somos nós quando tudo ao redor desaba por conta de nossas próprias escolhas?
Parafraseando Claude Lévi-Strauss, "Um mito é a soma de todas as suas versões e variantes."
É assim que se mantém vivas e relevantes todas as grandes histórias.
Filmão.
#AOdisseia #TheOdyssey #ChristopherNolan #Cinema