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Ben Affleck é melhor realizador do que ator. Isso fica claro quando percebemos que ele é o responsável por ótimas obras como Medo da Verdade (2007), Atração Perigosa (2010) e Argo (2012), além dos medianos A Lei da Noite (2016) e Air: A História por Trás do Logo (2023). Ele demonstra uma segurança atrás das câmeras que pouco se vê quando está à frente delas. E isso fica claro quando tento lembrar rapidamente se há alguma atuação memorável sua que, de alguma forma, tenha me marcado. Infelizmente, não.
Em seu novo trabalho, Animals (2026), acompanhamos Mark Kimball (Affleck), um candidato independente à prefeitura de Los Angeles, e sua esposa, enquanto lidam com problemas conjugais e financeiros durante um suposto sequestro de seu filho.
O que nos leva ao primeiro problema do filme. Embora a obra de Affleck não se identifique como oriunda de uma adaptação, a premissa de Animals se aproxima bastante do clássico japonês Céu e Inferno (High and Low, 1963), dirigido por Akira Kurosawa, que, por sua vez, foi adaptado do livro King's Ransom, lançado pelo escritor Ed McBain em 1959. Para piorar, Animals foi lançado apenas um ano depois do ótimo Luta de Classe (2025), dirigido por Spike Lee. E se torna quase impossível não propor uma comparação entre as obras, o que torna a empreitada de Affleck ainda mais frágil, inconsistente e desajeitada.
Primeiramente, o roteiro de Connor McIntyre, Billy Ray e do próprio Affleck, mesmo que demonstre certa qualidade no desenvolvimento de diálogos, revela-se incapaz de desenvolver seus personagens de maneira adequada, tornando-os distantes do público e minimamente aborrecidos, o que se acentua com as atuações pouco convincentes de quase todo o elenco, sobretudo de Affleck e Kerry Washington.
Paralelamente, as discussões em torno do racismo, das divisões sociais, da imigração e das estruturas políticas estadunidenses são jogadas desordenadamente na tela, sem que, com isso, haja qualquer aprofundamento, soando mais como a constituição de críticas vazias, oriundas de indivíduos brancos que aparentemente nunca se debruçaram efetivamente sobre esses assuntos, deixando as discussões apenas no campo dos diálogos soltos.
Semelhantemente, os roteiristas pouco demonstram saber o que querem com sua história, uma vez que ela nunca parece avançar efetivamente para algum lugar. Isso fica latente quando percebemos que o caso extraconjugal de Abigail Kimball (Washington) pouco serve à história ou mesmo que alguns atos dos personagens não têm qualquer coerência, como Mark insistindo em ir a um evento durante as negociações com os sequestradores, informando que, na realidade, estaria indo buscar os recursos do resgate, o que se torna absurdo, uma vez que no local do evento havia vários repórteres, tornando pública a presença do candidato não apenas para toda a cidade, mas igualmente para os contraventores.
Isso se torna ainda pior com o desfecho proposto pelos realizadores, uma vez que as justificativas dadas pelos protagonistas em torno dos acontecimentos do sequestro são cheias de lacunas que poderiam ser desvendadas caso a polícia de Los Angeles se propusesse a fazer uma breve investigação. E não deixa de soar enganoso esse final (mesmo que tratado com ironia pelos realizadores), no qual as questões imigratórias estadunidenses, tão problemáticas no governo Trump, são tratadas como saídas rápidas em que um político oferece dinheiro para que imigrantes ilegais voltem para suas terras, ao mesmo tempo que se tornam heróis midiáticos de um sequestro do filho de um desses indivíduos. A crítica contra o sistema político e social estadunidense se torna rasteira e apenas oportunista, como é o seu próprio protagonista.
Ao final, Animals é uma obra imatura que empalidece determinantemente quando comparada à de mestres do cinema como Kurosawa e Lee.
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Quantas vezes pudemos conhecer pessoas que aparentavam estar perdidas na vida? Ou melhor, quantas vezes estivemos perdidos? Talvez seja essa a pergunta que nos venha à cabeça logo após o término de *Tony* (2026), cinebiografia — com diversas liberdades criativas — do famoso chef de cozinha Anthony "Tony" Bourdain, novo trabalho do jovem diretor canadense Matt Johnson.
Nele, acompanhamos um Tony (Dominic Sessa) autoindulgente, mentiroso e arrogante que, em 1975, decide ir atrás de seu interesse amoroso em Provincetown, Massachusetts, após se decepcionar por não ter conseguido uma bolsa de estudos. Inconsequente, Tony se envolve em confusões e excessos, passando a trabalhar como lavador de pratos no restaurante The Flagship, onde, sob a orientação de um chef local (Antonio Banderas), encontra sentido na rotina da cozinha.
A partir disso, Matt Johnson consegue construir uma narrativa econômica e cheia de significados sobre um jovem Tony que pouco conhece sobre o significado do trabalho, da amizade e dos relacionamentos. O protagonista não consegue compreender as inconsistências da vida e, consequentemente, aparenta ser incapaz de lidar com as frustrações de suas expectativas. Ele tenta se encaixar em uma vida à qual não pertence, esquecendo-se de que suas mentiras o afastam da própria realidade e o impedem de entender o real valor daquilo que o rodeia. Sua perdição, representada por sua amizade com Sal e pelo isqueiro que o acompanha, perde espaço para a orientação inspiradora proveniente da autoridade de um chef de cozinha, figura que se distancia determinantemente daquilo que o protagonista esperava para sua vida.
Ao final, percebemos como Tony consegue ser tão familiar quando pensamos em nossos próprios anseios imaturos. Felizmente, é possível encontrarmos o caminho quando nos propomos a abraçar nossas frustrações e reconhecê-las como parte da jornada.