Ben Affleck é melhor realizador do que ator. Isso fica claro quando percebemos que ele é o responsável por ótimas obras como Medo da Verdade (2007), Atração Perigosa (2010) e Argo (2012), além dos medianos A Lei da Noite (2016) e Air: A História por Trás do Logo (2023). Ele demonstra uma segurança atrás das câmeras que pouco se vê quando está à frente delas. E isso fica claro quando tento lembrar rapidamente se há alguma atuação memorável sua que, de alguma forma, tenha me marcado. Infelizmente, não.
Em seu novo trabalho, Animals (2026), acompanhamos Mark Kimball (Affleck), um candidato independente à prefeitura de Los Angeles, e sua esposa, enquanto lidam com problemas conjugais e financeiros durante um suposto sequestro de seu filho.
O que nos leva ao primeiro problema do filme. Embora a obra de Affleck não se identifique como oriunda de uma adaptação, a premissa de Animals se aproxima bastante do clássico japonês Céu e Inferno (High and Low, 1963), dirigido por Akira Kurosawa, que, por sua vez, foi adaptado do livro King's Ransom, lançado pelo escritor Ed McBain em 1959. Para piorar, Animals foi lançado apenas um ano depois do ótimo Luta de Classe (2025), dirigido por Spike Lee. E se torna quase impossível não propor uma comparação entre as obras, o que torna a empreitada de Affleck ainda mais frágil, inconsistente e desajeitada.
Primeiramente, o roteiro de Connor McIntyre, Billy Ray e do próprio Affleck, mesmo que demonstre certa qualidade no desenvolvimento de diálogos, revela-se incapaz de desenvolver seus personagens de maneira adequada, tornando-os distantes do público e minimamente aborrecidos, o que se acentua com as atuações pouco convincentes de quase todo o elenco, sobretudo de Affleck e Kerry Washington.
Paralelamente, as discussões em torno do racismo, das divisões sociais, da imigração e das estruturas políticas estadunidenses são jogadas desordenadamente na tela, sem que, com isso, haja qualquer aprofundamento, soando mais como a constituição de críticas vazias, oriundas de indivíduos brancos que aparentemente nunca se debruçaram efetivamente sobre esses assuntos, deixando as discussões apenas no campo dos diálogos soltos.
Semelhantemente, os roteiristas pouco demonstram saber o que querem com sua história, uma vez que ela nunca parece avançar efetivamente para algum lugar. Isso fica latente quando percebemos que o caso extraconjugal de Abigail Kimball (Washington) pouco serve à história ou mesmo que alguns atos dos personagens não têm qualquer coerência, como Mark insistindo em ir a um evento durante as negociações com os sequestradores, informando que, na realidade, estaria indo buscar os recursos do resgate, o que se torna absurdo, uma vez que no local do evento havia vários repórteres, tornando pública a presença do candidato não apenas para toda a cidade, mas igualmente para os contraventores.
Isso se torna ainda pior com o desfecho proposto pelos realizadores, uma vez que as justificativas dadas pelos protagonistas em torno dos acontecimentos do sequestro são cheias de lacunas que poderiam ser desvendadas caso a polícia de Los Angeles se propusesse a fazer uma breve investigação. E não deixa de soar enganoso esse final (mesmo que tratado com ironia pelos realizadores), no qual as questões imigratórias estadunidenses, tão problemáticas no governo Trump, são tratadas como saídas rápidas em que um político oferece dinheiro para que imigrantes ilegais voltem para suas terras, ao mesmo tempo que se tornam heróis midiáticos de um sequestro do filho de um desses indivíduos. A crítica contra o sistema político e social estadunidense se torna rasteira e apenas oportunista, como é o seu próprio protagonista.
Ao final, Animals é uma obra imatura que empalidece determinantemente quando comparada à de mestres do cinema como Kurosawa e Lee.
É, no mínimo, decepcionante que um filme de aproximadamente 160 minutos termine ainda com a sensação de obra inacabada. E essa realidade se acentua ainda mais quando percebemos que o filme possui qualidades que o levariam, com maior cuidado, a ser um dos grandes de 2026. E é isso, infelizmente, que acontece em Hope: O Primeiro Impacto. Dentro disso, a premissa, em princípio, não se apresenta de forma complexa: acompanhamos um grupo de personagens enquanto perseguem ou são perseguidos por seres alienígenas em uma pequena cidade chamada Hope Harbor, uma vila portuária localizada no norte da Coreia do Sul, próxima à Zona Desmilitarizada que separa as duas Coreias. É na simplicidade da premissa que residem as principais qualidades do filme. O diretor Na Hong-jin investe em enquadramentos elegantes, cadenciando o ritmo e a construção de suspense e tensão em cada sequência. O diretor acompanha pacientemente os personagens pelas locações, muitas vezes de forma inventiva, explorando a geografia e o caos de todos aqueles acontecimentos, ao passo que permite que o elenco entregue atuações consistentes. Da mesma forma, as sequências de ação são empolgantes, possibilitando que o espectador acompanhe cada movimentação e ato de violência sem nunca se entregar a movimentos frenéticos de câmera e cortes excessivos. Não é à toa que podemos dividir o filme em duas longas sequências de ação, uma nas ruas destruídas da cidade e outra em uma floresta rodeada por árvores altas, com troncos retos e copas elevadas. Isso nos leva a alguns dos aspectos técnicos que mais se sobressaem na obra. E talvez o principal diga respeito ao trabalho de design de produção de Hwokyoung Lee. Hope Harbor é concebida como uma vila pacata, rodeada por um pequeno porto. Ao ser atacada, suas estreitas ruas são rapidamente tomadas por uma paisagem de destruição cuidadosamente pensada, tornando a cidade labiríntica, com suas curvas e corredores que sempre parecem esconder uma nova ameaça. Paralelamente, a trilha sonora do estadunidense Michael Abels, parceiro de Jordan Peele em Não, Não Olhe! (2022) e Nós(2019), realça o suspense e as sequências de ação. Por outro lado, o CGI fragiliza consideravelmente a experiência, uma vez que não convence em muitos momentos. Isso fica claro quando vemos a primeira criatura, já com quase 60 minutos de projeção, que, além de parecer artificial, possui um design genérico, diferente das outras três criaturas que vemos mais no terceiro ato. Paralelamente, a equipe de efeitos visuais falha em conferir fisicalidade às criaturas, o que fica claro quando percebemos que estas sempre se movem de forma tão veloz e nunca conseguem alcançar os personagens, mesmo que estes estejam visivelmente mais lentos. Por fim, o roteiro de Na Hong-jin, que funciona tão bem ao intercalar a ação, o terror e a comédia, falha ao perder ritmo após as perseguições na cidade, recuperando-o apenas quando acompanhamos os ataques que acontecem na floresta. Para piorar, soa quase que desonesto que o realizador busque desenvolver um lore para sua história faltando pouco mais de 10 minutos para o fim da projeção, dando a impressão de que o final foi pensado às pressas, apenas para servir de gancho para uma continuação. Mesmo que o resultado se enfraqueça com as escolhas do roteiro e com o CGI duvidoso, Hope: O Primeiro Impactoé uma experiência deliciosa, na qual o espectador, ao mesmo tempo que se gruda na poltrona pela crescente tensão dos acontecimentos, logo se vê gargalhando com seus personagens divertidos e carismáticos.
Uma das piores coisas da vida é ter que participar de eventos familiares, nos quais a única certeza que temos é que alguém vai lhe causar uma irritação que consumirá sua paciência pelo restante da noite. E imagine que essa irritação é proveniente de uma tia com a qual, felizmente, você não possui contato há tempos. Ela é rica, ignorante e provavelmente possui uma posição política minimamente problemática. Esse ser obscuro, com vestígios de DNA familiar, certamente se aproximará em determinado momento da noite apenas para gabar-se do filho de dezoito anos, com óbvias limitações intelectuais, que conseguiu aprovação no vestibular de uma faculdade de origem duvidosa, como se essa realização fosse digna da concessão de um atestado de genialidade ao indivíduo.
Todo esse exercício imaginativo consegue se relacionar diretamente com Verity, um filme pretensioso e chato que busca sustentar toda a trama no óbvio objetivo de entregar ao espectador um plot twist que se acha mais inteligente do que realmente é. Porém, acaba demonstrando unicamente que se trata de uma obra imatura e autocomplacente, como aquela sua tia insuportável.
Assim, acompanhamos Lowen Ashleigh (Dakota Johnson), uma escritora em luto e com problemas financeiros, que recebe uma proposta de trabalho para terminar a trilogia de sucesso da famosa autora Verity Crawford (Anne Hathaway), que se vê impedida de trabalhar depois de um acidente.
E aqui talvez resida o principal problema da obra: a trama se torna forçada e incoerente durante todo o filme. Não sei se esse problema provém do livro — o qual não li —, mas ele acaba fragilizando pontos cruciais da trama, tornando-a aborrecida e preguiçosa ao final de seus intermináveis 114 minutos. Isso se deve a soluções que demandam uma suspensão constante da descrença para que possamos prosseguir com os acontecimentos propostos pelos realizadores. Por exemplo, Jeremy Crawford (Josh Hartnett) obviamente acha que, para que Lowen escreva os livros, a solução mais óbvia é que ela se mude para a casa do casal, já que nela residem todas as anotações da esposa. Em outros momentos, somos apresentados a uma das corporações policiais mais incompetentes já vistas no cinema, uma vez que, mesmo diante de diversas inconsistências nos relatos, jamais demonstram interesse em investigar adequadamente a morte de Harper ou mesmo da própria Verity.
Além disso, a reviravolta apresentada ao final, que busca manter o desfecho em aberto, acaba ignorando diversos furos deixados pelo roteiro, os quais são inconsistentes seja qual for o final que o espectador decida seguir. Isso reforça que o filme foi pensado apenas para surpreender com um plot twist, sem, com isso, ter se dedicado a construir uma estrutura e uma trama coerentes.
Para piorar, Dakota Johnson deixa escancaradas suas limitações como atriz, enquanto Anne Hathaway pouco consegue fazer com sua personagem. Isso contribui para que não haja qualquer química entre suas personagens e aquela vivida por Josh Hartnett, tornando as cenas de teor sexual estéreis, cafonas e desinteressantes.
Ao final, Verity acaba se tornando uma obra tão ruim quanto os romances escritos por suas protagonistas.
Zach Cregger é um diretor que, a cada trabalho, demonstra mais maturidade e confiança atrás das câmeras. Em Resident Evil, Cregger é paciente na construção da tensão, investindo tempo em cada sequência sem recorrer a sustos fáceis. Para isso, conta com uma fotografia inteligente, que explora lanternas de celulares, luzes piscando, faróis de veículos e sombras.
Por outro lado, o diretor também acerta ao não levar a trama a sério demais, brincando com as decisões absurdas tomadas por alguns personagens e buscando equilíbrio em passagens cômicas que se tornam ainda mais interessantes graças à atuação de Austin Abrams.
Com diversas passagens inspiradas, como a chuva de zumbis e a sequência da menininha, Resident Evil é um filme eficiente, conduzido por um diretor que chama cada vez mais a minha atenção.
Regado de estereótipos e da propaganda estadunidense mais sem vergonha presente no mercado, Mayday busca estabelecer um discurso naturalmente desonesto, em que todas as nações têm seus pontos positivos e negativos, mas os Estados Unidos têm muito mais positivos do que negativos, o que justificaria sua excepcionalidade enquanto nação.
Enquanto isso, temos um Ryan Reynolds em uma persona que se profissionalizou em ser nos últimos anos, enquanto Kenneth Branagh se diverte absurdamente em sua atuação.
Ao final, o saldo é bem positivo, sendo um filme com cenas de ação competentes e uma direção inventiva.
Um filme que aquece o coração, não apenas por revivermos personagens que tanto amamos, mas por ser um filme inventivo e verdadeiramente bom enquanto obra.
Sabe quando gastamos todo o orçamento com o elenco e não resta muito recurso para pagar roteiristas e um diretor? Esse é o exemplo perfeito! Ao final, temos um suspense genérico, sem ritmo e desinteressante.
Não posso negar que amo filmes em que seres humanos tentam desesperadamente sobreviver a dinossauros famintos. Da mesma forma, não tenho como ignorar que produções com essa proposta ultimamente insistem em me decepcionar. Isso me leva a O Fim da Rua, que me surpreendeu com uma direção competente, evitando sustos fáceis e construindo a tensão com paciência e dedicação.
Porém, o roteiro, tão inventivo em sua premissa, entrega-se a soluções que enfraquecem a trama, sem conseguir se sustentar em uma lógica mínima dentro daquele universo. Assim, saímos da sessão com questões problemáticas. Os atos do filho mais novo, Brian, no segundo ato, são incoerentes com a personalidade medrosa e psicologicamente frágil que lhe foi atribuída. Somado a isso, a decisão de Audrey de seguir o irmão sem buscar o apoio dos pais torna-se ainda mais incoerente, tendo em vista que ela havia se apresentado como uma personagem madura e racional durante o primeiro ato. (Aqui vou ignorar Greg enfrentando um dinossauro de toneladas armado apenas com uma marreta.) Por fim, a estrutura de final feliz se recusa a discutir questões minimamente éticas envolvendo os atos de Denise. Ao retornar para antes dos acontecimentos, ela salva o marido e alguns vizinhos, inclusive um com quem mantinha certa rivalidade. No entanto, deixa sua própria versão e a de seus filhos naquele tempo serem transportadas para o passado, algo que provavelmente os leva à morte. Isso fica evidente quando constatamos a existência de duas versões de Jeannette. Em outras palavras, Denise rouba o marido de sua versão do passado enquanto a deixa morrer junto com os filhos. Essa atitude não possui coerência com a construção da personagem ao longo de toda a história, o que evidencia uma enorme preguiça dos roteiristas em entregar um final feliz sem que houvesse qualquer reflexão adequada sobre o destino dos personagens que haviam sido desenvolvidos até aquele momento.
O Fim da Rua, embora competente em diversos aspectos, é intelectualmente desonesto na discussão que propõe, o que fragiliza sobremaneira o resultado final.
Homem-Aranha é o que mais se aproxima da realidade para mim. E, obviamente, aqui não considero, para a análise, as características fantasiosas de suas histórias, mas sim sua humanidade. Ele tem problemas de uma pessoa normal: uma situação financeira apertada, um relacionamento nem sempre estável, amigos, subempregos etc. Esses pontos sempre me aproximaram do personagem, principalmente nos filmes de Sam Raimi.
Nos filmes posteriores, estrelados por Andrew Garfield e Tom Holland, acabei não sentindo a mesma humanidade que tanto me cativou anteriormente. Enquanto Garfield emprestou seu talento a dois fracos exemplares, Holland estrelou filmes que divertiam moderadamente (sobretudo o terceiro), mas que facilmente se tornavam esquecíveis ao final das sessões.
E acaba sendo uma grata surpresa que este novo filme do herói aracnídeo foque tanto nessa humanidade, em seus dilemas e em seu emocional, tornando essa empreitada sólida e diferente dos exemplares plastificados e frágeis dos filmes que vinham sendo construídos pela Marvel nos últimos anos.
Isso não significa que o filme não tenha suas lacunas. Alguns efeitos duvidosos, furos de roteiro e aquele universo compartilhado, que está cada vez mais confuso, estão todos lá. Entretanto, temos Holland inspirado, uma Sadie Sink interessantíssima, boas sequências de ação e uma direção competente. Tudo isso já é suficiente para deixar um calor gostoso no coração.
Voltei a sair feliz de um filme do Amigo da Vizinhança.
Demorei para conseguir escrever aqui sobre A Odisseia. Isso porque, quando saí do cinema, tinha plena ciência de que ainda não havia digerido o filme como ele merecia. Nesses dias após assisti-lo, percebi como a obra é realmente grandiosa, não apenas por sua escala épica, mas pelos temas a que se propõe.
Nolan transforma Odisseu em um homem arrependido e envergonhado por tudo o que fez em Troia, a ponto de ter ido contra tudo aquilo que pregou ao longo da vida. O personagem passa a enxergar tudo o que lhe acontece como parte de uma penitência por seus pecados. É como se tudo o que lhe é tirado fosse justo por tudo o que ele próprio tirou durante a guerra.
Odisseu não estava preso no mar, em sua viagem de volta para casa. Estava preso em sua própria consciência, em seus traumas e em sua vergonha.
Algo que me incomoda muito é quando personagens merecem muito mais do que os filmes proporcionam. E aqui não é diferente. Kara é uma protagonista interessante, com uma intérprete competente, mas reside em um filme sem personalidade, com um roteiro formulaico e um vilão genérico e tosco. Ao final, não é apenas uma decepção, mas um desperdício.
Spielberg é um gênio e se diverte absurdamente ao pensar em cada detalhe para contar sua história. Pena que o roteiro apresente fragilidades que tornam o ritmo irregular, ao mesmo tempo em que levanta discussões sem jamais desenvolvê-las de forma satisfatória. Ao final, o saldo é positivo, entregando cinema de ótima qualidade, com a inegável assinatura de um grande diretor.
Mesmo que não tenha a mesma força dos três primeiros filmes, viver esta nova aventura é como reencontrar velhos amigos que, embora distantes, nunca perdem seu valor em nossas vidas. É sempre bom rever Woody, Buzz, Jessie e Bala no Alvo.
Eu gosto do primeiro filme. E isso torna ainda mais triste quando presenciamos uma segunda parte que se aproxima de um jogo de mundo aberto genérico, cujo roteiro busca colocar os protagonistas em uma espécie de missões que têm o objetivo quase integral de colocá-los em situações perigosas, esquecendo-se de desenvolver sua história. Enquanto isso, os personagens secundários se assemelham a NPCs que servem apenas para ajudar o trio principal ou para morrer.
Buscando não se levar a sério, ao mesmo tempo em que pontua cada página do roteiro com alguma piada no intuito, muitas vezes, de esconder suas fragilidades, Mestres do Universo acerta ao se assumir brega e galhofa (nos melhores sentidos dessas palavras), mas se esquece de que o filme deveria sobreviver para além da nostalgia.
Frágil em tudo o que se propõe a fazer, a ponto de desenvolver reflexões que se julgam progressistas, mas que, ao final, recaem em uma clara falta de maturidade, proliferando acidentalmente (será?) visões que acabam se revelando patriarcais e machistas em sua própria coerência.
Quando deixamos nossos monstros tomarem conta de nossas vidas para que nos sintamos mais confortáveis com nossos conflitos internos e dilemas, facilmente aceitamos ficar presos em labirintos de memórias deformadas e claramente esvaziadas.
Alguns diretores facilmente me causam ansiedade para ver seus filmes: Martin Scorsese, Hayao Miyazaki, Jordan Peele, Park Chan-wook, Bong Joon-ho, Kleber Mendonça Filho e, obviamente, Spike Lee. E Highest 2 Lowest, embora não seja excepcional, mais uma vez demonstra por que é tão bom ver novas obras deste último.
Spike Lee demonstra ser um verdadeiro artista com a câmera na mão, produzindo uma obra com subtextos políticos importantes e bem definidos, ao mesmo tempo que nos brinda com um filme tenso, com ótimas atuações e uma trilha sonora inspirada.
Mesmo com um terceiro ato enfraquecido por um embate no metrô, Highest 2 Lowest é um dos grandes filmes de 2025.
Um dos mais poéticos filmes que já vi. E isso não apenas se relaciona com as reflexões que o filme se propõe a fazer, mas com o modo como cada elemento fílmico está ali como um verso de uma poesia. A razão de aspecto, a fotografia baseada em luz natural, a narração quase literária, os enquadramentos cuidadosamente construídos, as atuações singelas e introspectivas, tudo contribui para essa sensação de delicadeza e profundidade emocional.
Um filme a ser sentido e cuidado, com o mesmo carinho que o protagonista dessa pérola merece.
Amo musicais, e Wicked é um exemplo do porquê sou apaixonado por esse gênero.
Tecnicamente esplêndido (tirando um CGI capenga aqui e ali), Wicked consegue dialogar com temas atuais e levantar reflexões pertinentes em uma era em que Trump volta ao poder e flertamos com o abismo do atraso.
Por outro lado, Jon M. Chu aproveita ao máximo algumas sequências, enquanto desperdiça outras com enquadramentos mais fechados, limitando a visão do público das coreografias e dos cenários. Além disso, o filme facilmente poderia ter de 10 a 15 minutos a menos, tornando-se inchado em alguns momentos (o que, no entanto, não enfraquece a trama).
As atuações das duas protagonistas são impecáveis, com destaque para o timing cômico e as nuances desenvolvidas por Grande, além da entrega dramática e emocional de Erivo. Ambas ainda sustentam vozes e performances musicais inspiradas, o que acaba empalidecendo outras cenas protagonizadas por Goldblum e Yeoh.
Wicked merece o reconhecimento que tem tido pelo cuidado aos detalhes e pela dedicação dos profissionais envolvidos. Que venha o próximo capítulo, pois estou ansioso!
Tem filmes que te fazem mal, não apenas pelas histórias contadas, mas por identificarmos que a humanidade é doente. Esse é um exemplar!
Apostando que os relatos chocantes sustentariam a projeção, os diretores, não demonstram filtrar qualquer uma daquelas histórias. Isso traz força e choca ao mesmo tempo. Abrindo feridas que não cicatrizam em uma comunidade que insiste em resistir, apesar dos esforços do colonizador em exterminá-la.
Entretanto, ainda assim nos sentimos distantes daquelas pessoas, daquela cultura. Isso acaba por minimizar alguns efeitos que o filme poderia trazer. Os diretores não conseguem interligar o que mostram em tela a quem assisti, deixando lacunas e histórias que poderiam ser melhor contadas. Ao final, embora nos sintamos chocados com atrocidades, percebemos que a abordagem foi demasiadamente rasa.
Babygirl é problemático. A começar pelo roteiro. A interação e o interesse do casal protagonista soam abruptos e preguiçosos em seus desenvolvimentos. O que acaba acontecendo igualmente na resolução final do filme, sendo demasiadamente rápida e desleixada.
Para além disso, o filme demonstra ser tão imaturo quanto a protagonista (que não consegue dialogar abertamente sobre sua vida sexual com o esposo). Ao final, a produção tenta tratar sobre a sexualidade feminina de forma rasa, artificial e estereotipada, fragilizando tudo que se propôs fazer durante a projeção.
Anora tem tudo que um bom filme deveria ter, um bom roteiro, uma montagem dinâmica (principalmente no primeiro ato), um diretor talentoso e um super elenco (obviamente, Mikey Madison está esplêndida e se entrega inteiramente ao papel). Mas não conseguiu me conquistar. Por que? Juro, não sei!
Sean Baker é um dos grandes nomes do cinema nos últimos anos, mostra que sabe o que está fazendo em todos os momentos da trama (apesar de poder excluir facilmente uns 10 minutos ali), porém não sinto que o filme sobreviverá muito mais depois desse ano. Infelizmente, embora seja um bom filme, talvez se verá superestimado futuramente.
Sobrevivência
2.5 43 Assista AgoraBen Affleck é melhor realizador do que ator. Isso fica claro quando percebemos que ele é o responsável por ótimas obras como Medo da Verdade (2007), Atração Perigosa (2010) e Argo (2012), além dos medianos A Lei da Noite (2016) e Air: A História por Trás do Logo (2023). Ele demonstra uma segurança atrás das câmeras que pouco se vê quando está à frente delas. E isso fica claro quando tento lembrar rapidamente se há alguma atuação memorável sua que, de alguma forma, tenha me marcado. Infelizmente, não.
Em seu novo trabalho, Animals (2026), acompanhamos Mark Kimball (Affleck), um candidato independente à prefeitura de Los Angeles, e sua esposa, enquanto lidam com problemas conjugais e financeiros durante um suposto sequestro de seu filho.
O que nos leva ao primeiro problema do filme. Embora a obra de Affleck não se identifique como oriunda de uma adaptação, a premissa de Animals se aproxima bastante do clássico japonês Céu e Inferno (High and Low, 1963), dirigido por Akira Kurosawa, que, por sua vez, foi adaptado do livro King's Ransom, lançado pelo escritor Ed McBain em 1959. Para piorar, Animals foi lançado apenas um ano depois do ótimo Luta de Classe (2025), dirigido por Spike Lee. E se torna quase impossível não propor uma comparação entre as obras, o que torna a empreitada de Affleck ainda mais frágil, inconsistente e desajeitada.
Primeiramente, o roteiro de Connor McIntyre, Billy Ray e do próprio Affleck, mesmo que demonstre certa qualidade no desenvolvimento de diálogos, revela-se incapaz de desenvolver seus personagens de maneira adequada, tornando-os distantes do público e minimamente aborrecidos, o que se acentua com as atuações pouco convincentes de quase todo o elenco, sobretudo de Affleck e Kerry Washington.
Paralelamente, as discussões em torno do racismo, das divisões sociais, da imigração e das estruturas políticas estadunidenses são jogadas desordenadamente na tela, sem que, com isso, haja qualquer aprofundamento, soando mais como a constituição de críticas vazias, oriundas de indivíduos brancos que aparentemente nunca se debruçaram efetivamente sobre esses assuntos, deixando as discussões apenas no campo dos diálogos soltos.
Semelhantemente, os roteiristas pouco demonstram saber o que querem com sua história, uma vez que ela nunca parece avançar efetivamente para algum lugar. Isso fica latente quando percebemos que o caso extraconjugal de Abigail Kimball (Washington) pouco serve à história ou mesmo que alguns atos dos personagens não têm qualquer coerência, como Mark insistindo em ir a um evento durante as negociações com os sequestradores, informando que, na realidade, estaria indo buscar os recursos do resgate, o que se torna absurdo, uma vez que no local do evento havia vários repórteres, tornando pública a presença do candidato não apenas para toda a cidade, mas igualmente para os contraventores.
Isso se torna ainda pior com o desfecho proposto pelos realizadores, uma vez que as justificativas dadas pelos protagonistas em torno dos acontecimentos do sequestro são cheias de lacunas que poderiam ser desvendadas caso a polícia de Los Angeles se propusesse a fazer uma breve investigação. E não deixa de soar enganoso esse final (mesmo que tratado com ironia pelos realizadores), no qual as questões imigratórias estadunidenses, tão problemáticas no governo Trump, são tratadas como saídas rápidas em que um político oferece dinheiro para que imigrantes ilegais voltem para suas terras, ao mesmo tempo que se tornam heróis midiáticos de um sequestro do filho de um desses indivíduos. A crítica contra o sistema político e social estadunidense se torna rasteira e apenas oportunista, como é o seu próprio protagonista.
Ao final, Animals é uma obra imatura que empalidece determinantemente quando comparada à de mestres do cinema como Kurosawa e Lee.
Hope: O Primeiro Impacto
3.1 70É, no mínimo, decepcionante que um filme de aproximadamente 160 minutos termine ainda com a sensação de obra inacabada. E essa realidade se acentua ainda mais quando percebemos que o filme possui qualidades que o levariam, com maior cuidado, a ser um dos grandes de 2026. E é isso, infelizmente, que acontece em Hope: O Primeiro Impacto.
Dentro disso, a premissa, em princípio, não se apresenta de forma complexa: acompanhamos um grupo de personagens enquanto perseguem ou são perseguidos por seres alienígenas em uma pequena cidade chamada Hope Harbor, uma vila portuária localizada no norte da Coreia do Sul, próxima à Zona Desmilitarizada que separa as duas Coreias.
É na simplicidade da premissa que residem as principais qualidades do filme. O diretor Na Hong-jin investe em enquadramentos elegantes, cadenciando o ritmo e a construção de suspense e tensão em cada sequência. O diretor acompanha pacientemente os personagens pelas locações, muitas vezes de forma inventiva, explorando a geografia e o caos de todos aqueles acontecimentos, ao passo que permite que o elenco entregue atuações consistentes. Da mesma forma, as sequências de ação são empolgantes, possibilitando que o espectador acompanhe cada movimentação e ato de violência sem nunca se entregar a movimentos frenéticos de câmera e cortes excessivos. Não é à toa que podemos dividir o filme em duas longas sequências de ação, uma nas ruas destruídas da cidade e outra em uma floresta rodeada por árvores altas, com troncos retos e copas elevadas.
Isso nos leva a alguns dos aspectos técnicos que mais se sobressaem na obra. E talvez o principal diga respeito ao trabalho de design de produção de Hwokyoung Lee. Hope Harbor é concebida como uma vila pacata, rodeada por um pequeno porto. Ao ser atacada, suas estreitas ruas são rapidamente tomadas por uma paisagem de destruição cuidadosamente pensada, tornando a cidade labiríntica, com suas curvas e corredores que sempre parecem esconder uma nova ameaça. Paralelamente, a trilha sonora do estadunidense Michael Abels, parceiro de Jordan Peele em Não, Não Olhe! (2022) e Nós(2019), realça o suspense e as sequências de ação.
Por outro lado, o CGI fragiliza consideravelmente a experiência, uma vez que não convence em muitos momentos. Isso fica claro quando vemos a primeira criatura, já com quase 60 minutos de projeção, que, além de parecer artificial, possui um design genérico, diferente das outras três criaturas que vemos mais no terceiro ato. Paralelamente, a equipe de efeitos visuais falha em conferir fisicalidade às criaturas, o que fica claro quando percebemos que estas sempre se movem de forma tão veloz e nunca conseguem alcançar os personagens, mesmo que estes estejam visivelmente mais lentos.
Por fim, o roteiro de Na Hong-jin, que funciona tão bem ao intercalar a ação, o terror e a comédia, falha ao perder ritmo após as perseguições na cidade, recuperando-o apenas quando acompanhamos os ataques que acontecem na floresta. Para piorar, soa quase que desonesto que o realizador busque desenvolver um lore para sua história faltando pouco mais de 10 minutos para o fim da projeção, dando a impressão de que o final foi pensado às pressas, apenas para servir de gancho para uma continuação.
Mesmo que o resultado se enfraqueça com as escolhas do roteiro e com o CGI duvidoso, Hope: O Primeiro Impactoé uma experiência deliciosa, na qual o espectador, ao mesmo tempo que se gruda na poltrona pela crescente tensão dos acontecimentos, logo se vê gargalhando com seus personagens divertidos e carismáticos.
Verity
3.1 117Uma das piores coisas da vida é ter que participar de eventos familiares, nos quais a única certeza que temos é que alguém vai lhe causar uma irritação que consumirá sua paciência pelo restante da noite. E imagine que essa irritação é proveniente de uma tia com a qual, felizmente, você não possui contato há tempos. Ela é rica, ignorante e provavelmente possui uma posição política minimamente problemática.
Esse ser obscuro, com vestígios de DNA familiar, certamente se aproximará em determinado momento da noite apenas para gabar-se do filho de dezoito anos, com óbvias limitações intelectuais, que conseguiu aprovação no vestibular de uma faculdade de origem duvidosa, como se essa realização fosse digna da concessão de um atestado de genialidade ao indivíduo.
Todo esse exercício imaginativo consegue se relacionar diretamente com Verity, um filme pretensioso e chato que busca sustentar toda a trama no óbvio objetivo de entregar ao espectador um plot twist que se acha mais inteligente do que realmente é. Porém, acaba demonstrando unicamente que se trata de uma obra imatura e autocomplacente, como aquela sua tia insuportável.
Assim, acompanhamos Lowen Ashleigh (Dakota Johnson), uma escritora em luto e com problemas financeiros, que recebe uma proposta de trabalho para terminar a trilogia de sucesso da famosa autora Verity Crawford (Anne Hathaway), que se vê impedida de trabalhar depois de um acidente.
E aqui talvez resida o principal problema da obra: a trama se torna forçada e incoerente durante todo o filme. Não sei se esse problema provém do livro — o qual não li —, mas ele acaba fragilizando pontos cruciais da trama, tornando-a aborrecida e preguiçosa ao final de seus intermináveis 114 minutos. Isso se deve a soluções que demandam uma suspensão constante da descrença para que possamos prosseguir com os acontecimentos propostos pelos realizadores. Por exemplo, Jeremy Crawford (Josh Hartnett) obviamente acha que, para que Lowen escreva os livros, a solução mais óbvia é que ela se mude para a casa do casal, já que nela residem todas as anotações da esposa. Em outros momentos, somos apresentados a uma das corporações policiais mais incompetentes já vistas no cinema, uma vez que, mesmo diante de diversas inconsistências nos relatos, jamais demonstram interesse em investigar adequadamente a morte de Harper ou mesmo da própria Verity.
Além disso, a reviravolta apresentada ao final, que busca manter o desfecho em aberto, acaba ignorando diversos furos deixados pelo roteiro, os quais são inconsistentes seja qual for o final que o espectador decida seguir. Isso reforça que o filme foi pensado apenas para surpreender com um plot twist, sem, com isso, ter se dedicado a construir uma estrutura e uma trama coerentes.
Para piorar, Dakota Johnson deixa escancaradas suas limitações como atriz, enquanto Anne Hathaway pouco consegue fazer com sua personagem. Isso contribui para que não haja qualquer química entre suas personagens e aquela vivida por Josh Hartnett, tornando as cenas de teor sexual estéreis, cafonas e desinteressantes.
Ao final, Verity acaba se tornando uma obra tão ruim quanto os romances escritos por suas protagonistas.
Resident Evil
3.6 278Zach Cregger é um diretor que, a cada trabalho, demonstra mais maturidade e confiança atrás das câmeras. Em Resident Evil, Cregger é paciente na construção da tensão, investindo tempo em cada sequência sem recorrer a sustos fáceis. Para isso, conta com uma fotografia inteligente, que explora lanternas de celulares, luzes piscando, faróis de veículos e sombras.
Por outro lado, o diretor também acerta ao não levar a trama a sério demais, brincando com as decisões absurdas tomadas por alguns personagens e buscando equilíbrio em passagens cômicas que se tornam ainda mais interessantes graças à atuação de Austin Abrams.
Com diversas passagens inspiradas, como a chuva de zumbis e a sequência da menininha, Resident Evil é um filme eficiente, conduzido por um diretor que chama cada vez mais a minha atenção.
Mayday
3.4 69 Assista AgoraRegado de estereótipos e da propaganda estadunidense mais sem vergonha presente no mercado, Mayday busca estabelecer um discurso naturalmente desonesto, em que todas as nações têm seus pontos positivos e negativos, mas os Estados Unidos têm muito mais positivos do que negativos, o que justificaria sua excepcionalidade enquanto nação.
Enquanto isso, temos um Ryan Reynolds em uma persona que se profissionalizou em ser nos últimos anos, enquanto Kenneth Branagh se diverte absurdamente em sua atuação.
Ao final, o saldo é bem positivo, sendo um filme com cenas de ação competentes e uma direção inventiva.
Coyote vs. Acme
3.7 97Um filme que aquece o coração, não apenas por revivermos personagens que tanto amamos, mas por ser um filme inventivo e verdadeiramente bom enquanto obra.
O Homem que Sussurra
3.0 184 Assista AgoraSabe quando gastamos todo o orçamento com o elenco e não resta muito recurso para pagar roteiristas e um diretor? Esse é o exemplo perfeito! Ao final, temos um suspense genérico, sem ritmo e desinteressante.
O Fim da Rua
3.0 314 Assista AgoraNão posso negar que amo filmes em que seres humanos tentam desesperadamente sobreviver a dinossauros famintos. Da mesma forma, não tenho como ignorar que produções com essa proposta ultimamente insistem em me decepcionar. Isso me leva a O Fim da Rua, que me surpreendeu com uma direção competente, evitando sustos fáceis e construindo a tensão com paciência e dedicação.
Porém, o roteiro, tão inventivo em sua premissa, entrega-se a soluções que enfraquecem a trama, sem conseguir se sustentar em uma lógica mínima dentro daquele universo. Assim, saímos da sessão com questões problemáticas. Os atos do filho mais novo, Brian, no segundo ato, são incoerentes com a personalidade medrosa e psicologicamente frágil que lhe foi atribuída. Somado a isso, a decisão de Audrey de seguir o irmão sem buscar o apoio dos pais torna-se ainda mais incoerente, tendo em vista que ela havia se apresentado como uma personagem madura e racional durante o primeiro ato. (Aqui vou ignorar Greg enfrentando um dinossauro de toneladas armado apenas com uma marreta.)
Por fim, a estrutura de final feliz se recusa a discutir questões minimamente éticas envolvendo os atos de Denise. Ao retornar para antes dos acontecimentos, ela salva o marido e alguns vizinhos, inclusive um com quem mantinha certa rivalidade. No entanto, deixa sua própria versão e a de seus filhos naquele tempo serem transportadas para o passado, algo que provavelmente os leva à morte. Isso fica evidente quando constatamos a existência de duas versões de Jeannette.
Em outras palavras, Denise rouba o marido de sua versão do passado enquanto a deixa morrer junto com os filhos. Essa atitude não possui coerência com a construção da personagem ao longo de toda a história, o que evidencia uma enorme preguiça dos roteiristas em entregar um final feliz sem que houvesse qualquer reflexão adequada sobre o destino dos personagens que haviam sido desenvolvidos até aquele momento.
O Fim da Rua, embora competente em diversos aspectos, é intelectualmente desonesto na discussão que propõe, o que fragiliza sobremaneira o resultado final.
Homem-Aranha: Um Novo Dia
4.0 474 Assista AgoraHomem-Aranha é o que mais se aproxima da realidade para mim. E, obviamente, aqui não considero, para a análise, as características fantasiosas de suas histórias, mas sim sua humanidade. Ele tem problemas de uma pessoa normal: uma situação financeira apertada, um relacionamento nem sempre estável, amigos, subempregos etc. Esses pontos sempre me aproximaram do personagem, principalmente nos filmes de Sam Raimi.
Nos filmes posteriores, estrelados por Andrew Garfield e Tom Holland, acabei não sentindo a mesma humanidade que tanto me cativou anteriormente. Enquanto Garfield emprestou seu talento a dois fracos exemplares, Holland estrelou filmes que divertiam moderadamente (sobretudo o terceiro), mas que facilmente se tornavam esquecíveis ao final das sessões.
E acaba sendo uma grata surpresa que este novo filme do herói aracnídeo foque tanto nessa humanidade, em seus dilemas e em seu emocional, tornando essa empreitada sólida e diferente dos exemplares plastificados e frágeis dos filmes que vinham sendo construídos pela Marvel nos últimos anos.
Isso não significa que o filme não tenha suas lacunas. Alguns efeitos duvidosos, furos de roteiro e aquele universo compartilhado, que está cada vez mais confuso, estão todos lá. Entretanto, temos Holland inspirado, uma Sadie Sink interessantíssima, boas sequências de ação e uma direção competente. Tudo isso já é suficiente para deixar um calor gostoso no coração.
Voltei a sair feliz de um filme do Amigo da Vizinhança.
A Odisseia
4.2 601Demorei para conseguir escrever aqui sobre A Odisseia. Isso porque, quando saí do cinema, tinha plena ciência de que ainda não havia digerido o filme como ele merecia. Nesses dias após assisti-lo, percebi como a obra é realmente grandiosa, não apenas por sua escala épica, mas pelos temas a que se propõe.
Nolan transforma Odisseu em um homem arrependido e envergonhado por tudo o que fez em Troia, a ponto de ter ido contra tudo aquilo que pregou ao longo da vida. O personagem passa a enxergar tudo o que lhe acontece como parte de uma penitência por seus pecados. É como se tudo o que lhe é tirado fosse justo por tudo o que ele próprio tirou durante a guerra.
Odisseu não estava preso no mar, em sua viagem de volta para casa. Estava preso em sua própria consciência, em seus traumas e em sua vergonha.
Supergirl
2.8 291 Assista AgoraAlgo que me incomoda muito é quando personagens merecem muito mais do que os filmes proporcionam. E aqui não é diferente. Kara é uma protagonista interessante, com uma intérprete competente, mas reside em um filme sem personalidade, com um roteiro formulaico e um vilão genérico e tosco. Ao final, não é apenas uma decepção, mas um desperdício.
Dia D
3.0 567 Assista AgoraSpielberg é um gênio e se diverte absurdamente ao pensar em cada detalhe para contar sua história. Pena que o roteiro apresente fragilidades que tornam o ritmo irregular, ao mesmo tempo em que levanta discussões sem jamais desenvolvê-las de forma satisfatória.
Ao final, o saldo é positivo, entregando cinema de ótima qualidade, com a inegável assinatura de um grande diretor.
Toy Story 5
3.9 259 Assista AgoraMesmo que não tenha a mesma força dos três primeiros filmes, viver esta nova aventura é como reencontrar velhos amigos que, embora distantes, nunca perdem seu valor em nossas vidas. É sempre bom rever Woody, Buzz, Jessie e Bala no Alvo.
Destruição Final 2
2.4 124 Assista AgoraEu gosto do primeiro filme. E isso torna ainda mais triste quando presenciamos uma segunda parte que se aproxima de um jogo de mundo aberto genérico, cujo roteiro busca colocar os protagonistas em uma espécie de missões que têm o objetivo quase integral de colocá-los em situações perigosas, esquecendo-se de desenvolver sua história. Enquanto isso, os personagens secundários se assemelham a NPCs que servem apenas para ajudar o trio principal ou para morrer.
É um desastre? Não! Mas não precisava existir.
Mestres do Universo
3.2 474 Assista AgoraBuscando não se levar a sério, ao mesmo tempo em que pontua cada página do roteiro com alguma piada no intuito, muitas vezes, de esconder suas fragilidades, Mestres do Universo acerta ao se assumir brega e galhofa (nos melhores sentidos dessas palavras), mas se esquece de que o filme deveria sobreviver para além da nostalgia.
Primeiro as Damas
3.0 79 Assista AgoraFrágil em tudo o que se propõe a fazer, a ponto de desenvolver reflexões que se julgam progressistas, mas que, ao final, recaem em uma clara falta de maturidade, proliferando acidentalmente (será?) visões que acabam se revelando patriarcais e machistas em sua própria coerência.
Backrooms: Um Não-Lugar
3.2 481 Assista AgoraQuando deixamos nossos monstros tomarem conta de nossas vidas para que nos sintamos mais confortáveis com nossos conflitos internos e dilemas, facilmente aceitamos ficar presos em labirintos de memórias deformadas e claramente esvaziadas.
Luta de Classes
2.8 73 Assista AgoraAlguns diretores facilmente me causam ansiedade para ver seus filmes: Martin Scorsese, Hayao Miyazaki, Jordan Peele, Park Chan-wook, Bong Joon-ho, Kleber Mendonça Filho e, obviamente, Spike Lee. E Highest 2 Lowest, embora não seja excepcional, mais uma vez demonstra por que é tão bom ver novas obras deste último.
Spike Lee demonstra ser um verdadeiro artista com a câmera na mão, produzindo uma obra com subtextos políticos importantes e bem definidos, ao mesmo tempo que nos brinda com um filme tenso, com ótimas atuações e uma trilha sonora inspirada.
Mesmo com um terceiro ato enfraquecido por um embate no metrô, Highest 2 Lowest é um dos grandes filmes de 2025.
Sonhos de Trem
3.7 364 Assista AgoraUm dos mais poéticos filmes que já vi. E isso não apenas se relaciona com as reflexões que o filme se propõe a fazer, mas com o modo como cada elemento fílmico está ali como um verso de uma poesia. A razão de aspecto, a fotografia baseada em luz natural, a narração quase literária, os enquadramentos cuidadosamente construídos, as atuações singelas e introspectivas, tudo contribui para essa sensação de delicadeza e profundidade emocional.
Um filme a ser sentido e cuidado, com o mesmo carinho que o protagonista dessa pérola merece.
F1: O Filme
3.7 453 Assista AgoraAmo os sentimentos que o cinema me faz sentir. E esse é um dos filmes que me fazem amar o cinema.
Wicked
3.9 527 Assista AgoraAmo musicais, e Wicked é um exemplo do porquê sou apaixonado por esse gênero.
Tecnicamente esplêndido (tirando um CGI capenga aqui e ali), Wicked consegue dialogar com temas atuais e levantar reflexões pertinentes em uma era em que Trump volta ao poder e flertamos com o abismo do atraso.
Por outro lado, Jon M. Chu aproveita ao máximo algumas sequências, enquanto desperdiça outras com enquadramentos mais fechados, limitando a visão do público das coreografias e dos cenários. Além disso, o filme facilmente poderia ter de 10 a 15 minutos a menos, tornando-se inchado em alguns momentos (o que, no entanto, não enfraquece a trama).
As atuações das duas protagonistas são impecáveis, com destaque para o timing cômico e as nuances desenvolvidas por Grande, além da entrega dramática e emocional de Erivo. Ambas ainda sustentam vozes e performances musicais inspiradas, o que acaba empalidecendo outras cenas protagonizadas por Goldblum e Yeoh.
Wicked merece o reconhecimento que tem tido pelo cuidado aos detalhes e pela dedicação dos profissionais envolvidos. Que venha o próximo capítulo, pois estou ansioso!
Sugarcane: Sombras de um Colégio Interno
3.6 41 Assista AgoraTem filmes que te fazem mal, não apenas pelas histórias contadas, mas por identificarmos que a humanidade é doente. Esse é um exemplar!
Apostando que os relatos chocantes sustentariam a projeção, os diretores, não demonstram filtrar qualquer uma daquelas histórias. Isso traz força e choca ao mesmo tempo. Abrindo feridas que não cicatrizam em uma comunidade que insiste em resistir, apesar dos esforços do colonizador em exterminá-la.
Entretanto, ainda assim nos sentimos distantes daquelas pessoas, daquela cultura. Isso acaba por minimizar alguns efeitos que o filme poderia trazer. Os diretores não conseguem interligar o que mostram em tela a quem assisti, deixando lacunas e histórias que poderiam ser melhor contadas. Ao final, embora nos sintamos chocados com atrocidades, percebemos que a abordagem foi demasiadamente rasa.
Uma pena!
Babygirl
2.7 497 Assista AgoraBabygirl é problemático. A começar pelo roteiro. A interação e o interesse do casal protagonista soam abruptos e preguiçosos em seus desenvolvimentos. O que acaba acontecendo igualmente na resolução final do filme, sendo demasiadamente rápida e desleixada.
Para além disso, o filme demonstra ser tão imaturo quanto a protagonista (que não consegue dialogar abertamente sobre sua vida sexual com o esposo). Ao final, a produção tenta tratar sobre a sexualidade feminina de forma rasa, artificial e estereotipada, fragilizando tudo que se propôs fazer durante a projeção.
Anora
3.4 1,2K Assista AgoraAnora tem tudo que um bom filme deveria ter, um bom roteiro, uma montagem dinâmica (principalmente no primeiro ato), um diretor talentoso e um super elenco (obviamente, Mikey Madison está esplêndida e se entrega inteiramente ao papel). Mas não conseguiu me conquistar. Por que? Juro, não sei!
Sean Baker é um dos grandes nomes do cinema nos últimos anos, mostra que sabe o que está fazendo em todos os momentos da trama (apesar de poder excluir facilmente uns 10 minutos ali), porém não sinto que o filme sobreviverá muito mais depois desse ano. Infelizmente, embora seja um bom filme, talvez se verá superestimado futuramente.