Um marinheiro suíço decide mudar de vida e tranca-se num hotel de quinta categoria em Lisboa, onde começa a descobrir novas realidades. Ele envolve-se com uma empregada de mesa e começa a filmar tudo o que vê de mágico e surreal na cidade, com os seus olhos de cinegrafista amador. As imagens transformam-se num elo entre ele e a sua mulher, que vive na Suíça, sendo enviadas para ela como se fossem cartas.
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Representante suíço ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 1984, o grande Bruno Ganz está muito confortável no personagem e faz toda a diferença neste drama psicológico.
Um filme atípico e estranho sobre seres humanos em crises neuroexistenciais, desgarrados de bens, objetivos e futuro. Assim é Paul (grandessíssimo Bruno Ganz), um mecânico naval suíço estafado do barulho das máquinas e hóspede dum hotel de quinta no sujo porto de uma melancólica e branca Lisboa, que se apaixona pela garçonete Rosa (Teresa Madruga) e se comunica com a esposa (Julia Vonderlinn) por imagens amadoras de fitas cassetes e cartas pseudointelectuais e inexpressivas. Sem arcos dramáticos estruturados - a história apenas se constrói, a obra quer, majoritariamente, capturar aquele estado de espírito, inerte e resignado, como uma aceitação apática do tempo e acaso. E o quarto impessoal virado pro mar reforça a proposição de viver à deriva. Em suma, um surrealismo niilista bem interessante.
Exemplar um tanto estranho e atípico. Tem elementos referenciais claros ao cinema do Antonioni , bem como do Wenders ( ou seria a presença do Bruno Ganz?) , um pouco porquê não de Manoel de Oliveira. No final saí um pouco dividido, pois se não há um grande propósito, há toda a jornada de existência daqueles seres sem objetivo, sem futuro e imóveis.
"O único país que eu realmente amo é o mar"
Dans la ville blanche (1983, Alain Tanner) fala de um marinheiro suíço que aporta em Lisboa e passa um período na cidade, sem qualquer objetivo definido. Ele se envolve com uma moça bem mais nova, que trabalha na pousada meio decaída onde se hospeda. Enquanto isso, se corresponde constantemente com a esposa na Suíça, através de carta e de vídeos que ele grava despretensiosamente em suas andanças solitárias pela cidade.
O filme ganha ares de poesia e elementos filosóficos a partir do imenso zelo na direção de arte. A fotografia e a melodia que compõem o limitado itinerário do protagonista em Lisboa se encaixam com perfeição, tudo tá devidamente calculado pra nos colocar lado a lado do marinheiro e, como resultado, sentimos a solidão poética do homem. Fica parecendo fácil manejar música, narrativa e cenário tamanha a qualidade do arranjo feito pelo diretor.
Sentimos também a liberdade e o desejo existencial do protagonista, o que nos remete a questionar de onde vêm pessoas assim, que conservam, apesar da passagem do tempo, essa qualidade de evocar a novidade nas pequenas coisas, que reparam nos detalhes e que preservam uma ingenuidade que, sem exceção, vê nas pessoas antes de tudo seu melhor lado. O personagem principal exala uma vitalidade apaixonada e pura.
É um filme de imensa interioridade, provocada pela maneira como a solidão e as atitudes do personagem são trabalhadas. Trata-se de um filme extremamente bem dirigido e que nos provoca, com imensa sensibilidade, a refletir sobre o que há de fugaz e profundo na existência.
Um marinheiro que abandonou a profissão do mar. Se eu pudesse definir esse filme em uma palavra eu diria: Charme. Tem muito charme, mas não só isso e nem sei se é lícito qualificar um filme por seu charme. Essa obra desperta em mim um que de inominável, algo vago, tênue que escapa às palavras, mas que está lá: Talvez seja o mar, a imensidão do mar e sua tristeza, um tristeza doce, uma melancolia que escorre nas imagens de cinegrafista amador, um amador que perde a coisa amada e se desvanece de si mesmo. Um axolote. É sobre desertar, deixar pra trás de si uma vida monótona e irritante repleta de maquinarias e buscar o amor, o sonho, a utopia, mas ser derrotado como a seleção de 82. A distância entre o monte de Vênus e o olho do Ciclope é de três dedos. Mais uma garrafa para o sujeito que habita este espaço fora do tempo, fora do espaço; para o sujeito que habita este quarto branco nesta cidade branca.