Enquanto percorre as ruas de Teerã de carro, uma recém-divorciada leva vários passageiros aos seus destinos. Entre os que entram em seu táxi estão o filho pequeno e combativo, uma esposa de coração partido abandonada pelo marido e uma jovem prostituta.
Meio que um documentário disfarçado.Abbas consegue impor um ritmo fora de série e nunca deixa a qualidade dos diálogos e situações caírem.
>Assistido em 11 de Maio de 2025
Indicado a Palma de Ouro no Festival de Cannes. Quando o filme terminou eu dei uma nota 8, mas só depois eu descobri que tudo é roteirizado e o filme cresce mais com isso, pois é impressionante o trabalho dos atores. Amin Maher, o garoto que interpreta o filho dá um show de interpretação e irrita demais (hoje ele é um trans-ativista que prefere ser chamado de Amina e mora em Berlim). Todo o diálogo, tudo o que vai sendo criado em torno dos pedaços de histórias que vão passando pelo carro, só mostra mais e mais como Kiarostami era um gênio. No IMDB o filme consta apenas com Abbas Kiarostami como diretor, em outros lugares coloca a atriz principal Mania Akbari como co-diretora também. Há vários momentos e várias camadas sobre a sociedade do Irã em cada diálogo, inclusive o pragmatismo em que a motorista enxerga algumas coisas (acredite, sou casado com uma iraniana). Mas acho que é unânime que a cena com a última mulher é a melhor de todo o filme e emociona. O filme foi banido no Irã por anos pelo teor contestador.
BLOG: FILMESTRANGEIROS
INSTAGRAM: @filmestrangeiros
Minimalista e repleto de diálogos (improvisados?) que nos leva a refletir sobre o papel da mulher na sociedade iraniana.
Conta-se história pela boca. Na particularidade de Dez/Ten ou Dah (aka: número de atos da narrativa) vislumbramos a rotina, vivência e a complexa dialética entre sentimentos e vida pela perspectiva interna de um carro dirigido por Mania Akbari.
Dirigir é um verbo interessante a ser empregado, visto que enquanto Mania transita pelas ruas da capital iraniana, a personagem também dirige as conversas, torna-se quase um fragmento documentarístico dado o realismo dos diálogos. São profundos sem passar por uma estrutura metódica, o que me fez pensar que: A maneira que o texto é contado é o modular estético, visto que: Se eu repassar a mesma história, por exemplo a da garota de programa, possivelmente soaria como uma espécie de fofoca.
O filme é simples dentro de sua proposta como filme, entretanto mostra-se complexo dentro do seu contexto. Li por aí que o filme foi proibido no Irã devido ao seu teor ativista, o contexto e tempo da obra é importantíssimo, conforme uma amiga minha levantou hoje mesmo (22/12/2023) é o cronotopo.
Esse fato da proibição torna-o muito mais interessante, afinal - o intimismo da obra que fragmenta um espaço interno em um veículo para suprimir todas angústias externas intrínsecas às frustrações das relações: ser e sociedade, também ser e sentimento, manifesta semioticamente um espaço de segurança à parte da censura que pode ser vista no estreitamento contexto e obra ou então na representação de afrontas de Amin, filho de Mania Akbari, cujo discurso ressoa adulto e oriundo de um machismo político bem estruturado.
E eu nunca em minha existência contarei um fragmento sobre vidas de forma tão impecável quanto Abbas Kiarostami faz em "Ten".
“I have hundreds of small sources of inspiration throughout the day, just watching
people in daily routines. I think what happens in real life is more important than the cinema.” Abbas Kiarostami