Contar, através de depoimentos e pesquisa iconográfica, a história do Píer de Ipanema. Símbolo de liberdade em plena ditadura, o Píer acabou transformado em ponto de encontro de surfistas, artistas e intelectuais que influenciaram toda uma geração. Com cenas inéditas de personalidades com Gal Costa e Peti.
A série documental de Olívio Petit resgata um pequeno pedaço dessa memória a partir de depoimentos de quem vivenciou essa história. O programa, dividido em cinco capítulos temáticos, resgata imagens históricas da praia de Ipanema, contextualizando o momento político do Brasil à época, quando a ditadura militar ainda enfrentava seu período mais crítico.
A praia de Ipanema é um dos cartões-postais mais conhecidos do Rio de Janeiro. No início da década de 1970, as águas da zona sul carioca abrigaram um grande píer, e a orla teve sua paisagem radicalmente alterada.
A construção, projetada para erguer um emissário que levaria o esgoto da cidade ao mar, propiciou também o surgimento de ondas perfeitas para surfistas e dunas que impediam a visão de pedestres no asfalto. A soma desses fatores é responsável pela idealização de um ponto fértil para o nascimento da contracultura, lugar preferido de atletas, poetas, artistas e revolucionários.
Rio de janeiro, 1970, período pós-tropicalista e o Brasil fervia as consequências do regime militar. Foi onde, os surfistas já tomavam lugar e mais precisamente no Píer de Ipanema, Gal Costa teve a idéia de estender sua tanga para pegar um bronze e curtir um dia de sol. Isso bastou para que o píer, que posteriormente ficou conhecido como "Dunas da Gal" ou "Dunas do Barato", virasse point de encontro de intelectuais, artistas, jornalistas, escritores, etc. Que iam lá pra conversar, expor suas idéias e usar livremente de entorpecentes.
Com direção de Olivio Petit, o trabalho foi idealizado originalmente para ser um longa-metragem e levou quase uma década para ser concluído.
O programa traz depoimentos do ator José Wilker, morto em 2014 e o estilista David Azulay, proprietário da Blue Man, morto em 2009, além de figuras com Jorge Mautner, Jards Macalé, entre outros...
Nas dunas, surf, sexo, drogas, cabelões, estavam liberados. Gal Costa, Sônia Braga, Júlio Bressane, Jorge Mautner, Rogério Sganzerla, Jards Macalé, Jorge Mautner, Leila Diniz, Ziraldo, Evandro Mesquita, e os adolescentes Cazuza, Dadi Carvalho, O surfista Petit (muso inspirador da emblemática música Menino do Rio de Caetano Veloso, imortalizada na voz de Baby Consuelo) e André De Biase, eram figurinhas fáceis naquelas areias. ''Gal simbolizava a gostosura dos anos 70'', sintetiza o humorista José Simão, que também batia ponto nas dunas.
E a gostosura ia virando uma marca.
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A sinopse na netflix dava a entender que o documentário seria apenas sobre o píer e as tais dunas - o que por si só já me deixava bem curiosa -, mas é na verdade um grande retrato da juventude carioca dos anos 1970. Fala de música, moda, cinema, movimento hippie, literatura, poesia marginal, e da contracultura como um todo. Os depoimentos são riquíssimos, dos anônimos aos famosos.
Jamais pensei que veria um documentário sobre um píer em Ipanema e não vi mesmo, obviamente o píer é apenas o ponto de partida para o filme explorar uma época de efervescência cultural no cenário do Rio de Janeiro. É bom sem atingir grandes alturas e pecando pela má captação do som em alguns dos depoimentos, o que se compensa pela prodigalidade no uso de imagens e vídeos de arquivo bem interessantes, principalmente nas passagens que envolvem os Novos Baianos, essa genial banda brasileira.
O doc constrói um dos inúmeros processos da contracultura brasileira (e não "à contracultura brasileira" como alguns dizem), no caso concentrando as ações no Rio de Janeiro - que além de ser o local onde se vendia a "verdadeira brasilidade" com todas suas nuances e clichês, era o paraíso da contravenção que permitia a coesistência articulada de militares, governo estadual, as origens do crime organizado e sua relação com o tráfico de drogas - onde a elite intelectual, artistas, burguesada hippie e surfista se reuniam para viver os roles da juventude e articular expressões sociais, dentro de um período de repressão em plena ditadura.
Uma irreverência e liberdade que nunca mais experimentaremos. Hoje, conservadores e progressistas são igualmente caretas!
Uma delícia de documentário.