O rio não é o mesmo. Tornou-se lama contaminada. Moradores de uma vila pesqueira enfrentam um futuro incerto após o rompimento da barragem. Yara e Dingue retomam a vida, permanecem e derivam na memória do lugar enquanto as águas correm as montanhas ante as forças indomáveis da natureza.
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Na revisão - finalmente em tela grande -, fiquei ainda mais impactado: pude perceber detalhes que, num primeiro contato, ficaram obscurecidos, tamanha a quantidade de elementos merecedores de atenção nos enquadramentos e de situações que se sobressaem nas entrelinhas do roteiro. Sou suspeito para julgar objetivamente este filme - e nem quero nem consigo - pois o considero uma obra-prima, e gostei ainda mais neste segundo contato, ao lado de um amigo violonista, que deslumbrou-se em cada um dos 150 minutos de duração da obra. Lamento, de coração, que a sessão estivesse esvaziada e que, dentre os textos que li sobre o filme, a grande maioria era negativo. Sinto este trabalho extremamente autoral como um daqueles que será redescoberto como o tempo, e devidamente valorizado a partir de então. Estupendo! (WPC>)
IMPRIMATUR - visto no cinema em 2026:
O trabalho é admirável, mas me chama atenção o fato de não ter gostado. Me refiro no sentido de satisfação profunda, porque observar sua narrativa de resistência em formato de poesia foi algo gratificante. O filme é longo e tem uma lentidão quase sepulcral, por isso não seria um absurdo que resvale no desinteresse - algumas vezes acabei esquecendo qual seria a temática de toda queixa. Principalmente se deixar o personagem que mais foi usado, sem um claro propósito que gere identificação... para quem tem muito carinho pela arte cinematográfica vai aprovar com certeza, mas ao mesmo tempo que é muito bem feito, também possui dificuldade de comunicação com todo tipo de público e isso deve ser tratado como um defeito.
Observação pós postagem:
Ainda refletindo... fiquei impressionado como o diretor transformou as imagens em algo vivo e tocante, indo além dos enquadramentos frios e mecânicos. Achei sua obra impregnada de muita alma.
Avaliação em nota: 8.4
- que fotografia sublime! os enquadramentos conseguem transformar paisagens que passariam despercebidas se tornam lindos quadros
- como as tragédias ambientais, causadas pela ganância do homem, destroem vidas e cidades
- antonio pitanga <3, que cena sensacional!
- várias cenas bem impactantes na verdade, a água de lavar a carroça emulando a lama da barragem, a mãe no barco onde o rio de lama se encontra com o mar e que diálogos
Cheguei tarde em Tiradentes - não por minha escolha - e, infelizmente, não pude conferir este filmaço em tela grande. Nos corredores, entretanto, só se falava dele: de um lado, amigos (e/ou) críticos que demonstraram-se apaixonados; do outro, as fofocas acerca da quantidade de pessoas que abandonaram a sessão (perdoai-as, Senhor). Fiquei intrigado e mui desejoso, principalmente depois que tive a oportunidade conversar com o diretor, sobremaneira inteligente e sensível. Vendo o filme, finalmente, o aplaudi de pé, após a sessão: adormeci ainda ouvindo aqueles acordes de origem libanesa, que tocam na derradeira seqüência. É um filme fácil? Não, não é. Mas que justifica plenamente a jornada imersiva. O elenco está impressionante (sobretudo, os dois protagonistas, Danilo Andrade e Verônica Gomes), a fotografia é exuberante, e o trabalho de som é antológico (em dado instante, montanhas choram como se fossem baleias encalhadas). Difícil acreditar que este roteiro não adveio de um original literário: tudo proveio da mente sumamente criativa e reivindicativa de seu realizador, que é mui assertivo naquilo que denuncia, inclusive servindo-se de imagens de um curta-metragem prévio, com tema semelhante. A chaga do bolsonarismo aparece explícita, num breve segmento sobre a exigüidade de vacinas. A atmosfera assemelha-se á de um filme de terror ou distopia científica, na maior parte da projeção: o diretor fala sobre o agora, de maneira alegórica e advertente. Fala sobre algo específico de seu Estado-natal, claro, ,mas, por extensão metonímica, sobre o Brasil como um todo e qualquer outro lugar em que as imposições exploratórias (e destrutivas) do Capitalismo empurram os seres humanos para a migração forçada, errante e desesperançada. A aparição de Antônio Pitanga é insigne. Tudo no filme é genial. Amei! (WPC>)