Poppy (Sally Hawkins) é uma jovem professora de escola primária, e uma otimista incorrigível que difícilmente se chateia. Divide um apartamento com Zoe (Alexis Zegerman) sua melhor amiga e confidente. Poppy tem o dom de aproveitar ao máximo a vida. Determinada a aprender a dirigir, ela encontra-se com Scott (Eddie Marsan), um instrutor ansioso e perturbado, que testará todo o bom humor de Poppy.
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O que me incomodou nesse filme foi a impressão de que aos 30 anos, era a primeira vez que Sally tinha sua visão de mundo confrontada de maneira prática. Parecia algo inédito lidar com um aluno problemático, ser objeto de afeto/desejo de alguém e encarar o fato de que você não pode mudar o mundo. Com certeza, na vida de Poppy, esse choque de realidade viria muito antes, mas talvez seja apenas parte do argumento de Mike Leigh a respeito da adolescência tardia de sua protagonista.
Já a melhor coisa de "Happy-Go-Lucky" é a sensibilidade do diretor em alçar ao protagonismo uma personagem que seria coadjuvante ou muleta para qualquer outro protagonista masculino desajustado noutros filmes. Grande atuação de Sally Hawkins, mas quem rouba a cena é Eddie Marsan, o instrutor; cada momento em que esse ser controlador, obsessivo e paranoico é confrontado pela personalidade borbulhante de Poppy cria-se uma tensão cômica, por vezes, mas quase sempre perigosa.
Adorei! A alegria da Poppy é realmente contagiante.
Revisado sabe-se lá após quantos anos.
Poppy ainda me soa como uma estoica do maternal que tenta sem sucesso contagiar e oferecer um prisma otimista aos seus interlocutores, menos por meios retóricos do que por pequenos gestos, como forma de prescrição para as dores da vida. E não obstante a aparente dualidade quando comparada a Johnny de Naked, suas respectivas hipertrofias (imediatismo e pessimismo) os igualam naquilo que lhes faltam. Ao rachar o aluguel com sua amiga, amiga esta com quem frequentemente se embriaga e, juntas, as duas trintonas vivem um life style ao estilo 'Friends' de baixa renda, ou mesmo por estar iniciando na direção tardiamente, ou em seu incipiente namoro, ou sua concentração de hamster nas aulas de direção, Poppy soa tão vagante quanto Johnny no que diz respeito ao longo prazo. Johnny nega a possibilidade de um futuro, já Poppy parece negligenciá-lo em favor de um presente administrável, ao menos por ora.
O approach dos personagens perante suas dores particulares me parece o tema central, ou mais caro, dos filmes de Leigh, e aqui os contrastes são mais bem demarcados e distinguidos se comparados a seus outros filmes onde parece haver uma uniformidade dos personagens na sua incapacidade, completa ou parcial, em administrarem a coisa. Poppy é acometida por dores sutis e administra-as com leveza, seja a dor de não cumprir certos ritos sociais de amadurecimento, ou mesmo suas dores nas costas que não a impedem de frequentar as aulas de dança; e, no entanto, sua maturidade está justamente em fazer de suas próprias dores ferramentas de compreensão e assistência às dores do próximo (de dentro para fora), chegando a ponto de desenvolver um detector sensitivo para captar sinais de dor alheia ao seu redor, como no caso do mendigo, em que a princípio só ouvimos ruídos distantes e incognoscíveis, mas que, para a personagem, mesmo à distância, ressoam como um SOS em alto e bom som. E é a partir de seu encontro de desfecho frustrante com o sem-teto, assim como outros posteriores, que mensuramos as extensões e limitações de sua empreitada feliz. O que possa parecer, para certos espectadores, como uma interação balbuciada e nonsense, para outros é possível perceber a inteligência sutil da personagem, para além dos limites verbais, em captar nitidamente o desabafo e a carência de seu interlocutor, e é aí que chegamos ao limite de suas investidas de felicidade. Poppy prova-se perfeitamente capaz de alteridade e de genuinamente querer contagiar o próximo através de pequenos gestos e de uma mão estendida, mas existe a barreira entre o seu querer e o não querer do outro. Um ouvido amigo e um pedaço de bolo são uma boa investida, mas não suprem a real carência do sem-teto, que é prontamente rejeitado na sua tentativa de afeto por meio do contato físico, resultando na sua debandada silenciosa do local.
Scott, como típico personagem aparentemente incurável do diretor em sua neurastenia, faz de suas dores a sua redoma por onde se esconde ao mesmo tempo que espezinha, por meios retóricos, o mundo exterior. Em Hard Truths, a materialização da redoma de Pansy é sua própria casa de portas sempre fechadas; no caso de Scott, prontamente reconhecemos que é o seu carro (ou da empresa) cuja tintura e estofado parecem envolver -- ou serem envolvidos por -- Scott, cujas roupas e semblante carregado parecem torná-lo quase que uma entidade burlesca daquele microespaço. Dentro do carro, Scott parece adaptado, mas nunca confortável ou feliz; fora dele, a coisa torna-se ainda mais tragicômica.
E dessa dialética interativa entre personagens tragicômicos não há uma síntese satisfatória, mas pode-se afirmar que Poppy é gradualmente contagiada pela cosmovisão de Scott ao longo do trajeto: contagiada a nível emocional, obviamente, visto que não é uma personagem de tipo retórico, que é o caso do instrutor. Não obstante todo o esforço da personagem em tentar quebrar a redoma do instrutor em cada oportunidade, ao final, percebendo seu equívoco em nutrir expectativas de uma redenção afetiva (semelhante ao mendigo) em Poppy, Scott aferra-se ainda mais às suas correntes. "I'm a good driving instructor''. Admitindo-se incapaz de ser feliz, ou de permitir-se a tal, nosso rabugento recorre, de forma pouco convincente, ao cope de ser supostamente realizado profissionalmente, reiterando seu mantra de bom instrutor.
Após a tribulação, encerra-se com Poppy e sua amiga remando no lago, indicando uma canoa talvez à deriva, talvez em remanso contemplativo. De todo modo, Poppy não sucumbiu ao fatalismo enclausurante de Scott, mas o integrou parcialmente à sua própria cosmovisão, preservando o seu estoicismo primaveril, talvez agora numa toada menos imediatista e estabanada, e mais serena, como sua canoa.
O que gostei no Happy-go-lucky, além da ótima Sally Hawkins <3, é que, ao contrário do que o título em português “simplesmente feliz” sugere, não se trata de algo simplista em nenhum momento, Não é daqueles filmes que são um elogio oco ao otimismo, que parece que tentam impelir o público àquela visão de mundo mostrando o personagem de forma idealizada e dizendo: viu, é isso que acontece quando se olha com alegria para a vida.
A personagem é imperfeita e em muitos momentos até um pouco irritante, e não torna o mundo das outras pessoas necessariamente mais feliz, mesmo que tente. Ela não é a versão idealizada de como todo mundo deveria olhar para o mundo (que, parando pra pensar, em uma frente totalmente diferente, talvez seja o problema com O pequeno príncipe), ela é simplesmente (e talvez o título em português não esteja tão mal) alguém que vive e olha para as coisas de uma determinada forma, e que assume essa forma sem medo.
Ela não tenta ser um personagem, ser uma manie pixie dream girl. Não tem aquela idealização da própria esquisitice. Ela é meio esquisita de uma forma meio desconfortável até, e ela vai em show, fica bêbada, tem vida sexual, não é como se fosse uma criança em corpo de adulta. O que eu acho mais bonito que o próprio jeito alegre da personagem é o modo como ela se assume, e não tem medo do jeito como ela construiu a vida assim como não tem medo da própria complexidade; tem uma liberdade que é mais inspiradora que o otimismo em si, e que permite até sair um pouco de si mesma e olhar para o outro e tentar entendê-lo, mesmo que em muitos momentos essa relação com o outro seja frustrante.
Acho que me inspira, no fim das contas, não o quanto ela é feliz, mas o quanto é destemida. E gosto muito dos diálogos dela com as amigas e, principalmente, com outras professoras, percebo ali pessoas de verdade conversando.
Uma otimista ao extremo ou uma pessoa na faixa dos 30 que mora no brasil e precisa lidar com os seus problemas diários na base da comédia para não chorar com as resoluções? Ou ambos? Nunca saberemos...