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Campo Grande - (BRA)
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Últimas opiniões enviadas

  • Gabriel M. Müller

    Até que ponto o ser humano necessita das religiões? Até que ponto a fé pode ser explorada e especulada? E por que e para que queremos nos curar? Esta pequena obra escrita e dirigida pela diretora austríaca Jessica Hausner discute estas questões e põe à prova o verdadeiro poder da fé curativa que existe dentro de nós.

    Através de um grupo de peregrinos que vão a Lourdes – espécie de Meca católica no Vale dos Pirineus – numa romaria, Jessica faz um perfil interessantíssimo do ser humano.

    Christine (a fantástica Sylvie Testud) é uma mulher extremamente dependente acometida de uma paralisia geral, que faz parte de um grupo de cura. Acompanhada de uma jovem enfermeira com os hormônios em ebulição e sua mãe, Christine em determinado ponto, confessa não ter muita fé católica e que as romarias são uma boa oportunidade para sair de casa e quebrar sua monótona rotina.

    No entanto, Christine começa a movimentar-se e recuperar os movimentos das pernas e braços, tornando-se um símbolo de um milagre atribuído a Virgem Maria. O grupo, então, começa a questionar o merecimento da cura da mulher, e alguns até invejam a sua recuperação fazendo, deste jeito, um interessante painel do ser humano com suas idiossincrasias, virtudes e defeitos.

    Jessica direciona todo o filme para a exploração do indivíduo sem abrir espaços para outras considerações de ordem espirituais ou místicas, centrando a narrativa apenas nas reações dos personagens do grupo. Há a rígida obreira chefa que sofre em silêncio, o padre que apenas repete os dogmas antiquados, as jovens obreiras ansiosas para dar uma escapadinha, os guardas aproveitadores, as idosas carolas que cuja principal função é criticar e etc.

    Filmado inteiramente no santuário de Lourdes com o apoio da Igreja Católica, o filme apenas observa as pessoas com suas eternas deficiências morais e/ou físicas sem maiores questionamentos, trazendo à tona um curioso hábito bastante humano:

    Estamos sempre à frente de nossos desejos, pois quando os realizamos, imediatamente substituímos por outros. É um eterno devir...

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  • Gabriel M. Müller

    Baseado na peça ganhadora do prêmio Pulitzer e ganhador do Oscar de melhor filme de 1990, Conduzindo Miss Daisy, na verdade, possui a estrutura típica dos melodramas americanos.

    Com o roteiro adaptado pelo próprio escritor – Alfred Uhry – o filme faz uma ligeira comparação entre os oprimidos e renegados através da singela história de uma judia idosa – a Miss Daisy do título – com Hoke, seu chofer negro.

    Utilizando, como pano de fundo, as transformações históricas americanas (Martin Luther King, Coca Cola, as trocas dos carros) para, assim, definir melhor a passagem do tempo (também mostrada através das estações do ano) o filme trabalha basicamente com o mesmo esquema que sempre deu certo (e é usado até hoje) nas produções norte-americanas: casal, ou dupla, em posições diferentes e/ou antagônicas descobrem, que através do contato humano, podem reconciliar-se e encontrar a verdadeira união.

    A direção do australiano Bruce Beresford (que amargou alguns fracassos após Miss Daisy) é linear embora se perceba, em diversos momentos, algum um apuro técnico subjetivo como, por exemplo, a apresentação da personagem principal. Bruce faz sempre questão de mostrar Miss Daisy através de molduras de portas e janelas de sua casa insinuando com isso a rigidez de sua postura. Somente quando Hook transpassa estes limites que percebemos a mudança em Miss Daisy.

    A edição a cargo de Mark Warner (Dolores Clairborne) evita que a narrativa seja transformada em meros capítulos adquirindo um ritmo sem desvios na trajetória entre os dois personagens principais ao longo dos anos.

    Jessica Tandy e Morgan Freeman exibem uma química carinhosa incrível. A dupla de atores conquista quem está assistindo através de pequenos tiques de seus personagens. O Hook de Freeman, por exemplo, é um negro velho comunicativo, embora abandonado pelos seus entes queridos, que vaga por um país repleto de preconceitos, e ansioso por um vínculo mais justo. Jessica Tandy (então com 81 anos) faz a rabugenta Miss Daisy com a elegância das grandes damas do teatro.

    Na verdade o foco principal de Conduzindo Miss Daisy é a união dos desprezados e excluídos pela sociedade, neste caso, um negro e uma idosa judia. Ao unir estes dois segmentos, numa tocante cena final no asilo, a história envia a antiga, mas enaltecedora, mensagem de que a o mundo seria bem melhor sem a segregação racial e o preconceito de que o idoso é um ser imprestável.

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  • Gabriel M. Müller

    Como decifrar os limites da alma humana? Qual o início e o término da fronteira entre o sociável e a demência? Entre o a deturpação e a ética? Estas (e tantas outras) questões são feitas por Frederik Treves, renomado médico anatomista que cuidou de John Merrick – o homem elefante – enquanto este esteve sob seus cuidados no Hospital de Londres no final do século 19.

    Baseado nos diários do Dr. Frederik (The Elephant Man and Other Reminiscences) e no livro de Ashley Montagu (The Elephant Man: A Study in Human Dignity), David Lynch montou um poderoso retrato sobre os paradigmas de uma sociedade em constante transformação.

    Abrindo mão de ser historicamente correto, o filme não é uma biografia de John Merrick, um ser humano deformado e verdadeiro que viveu numa Inglaterra Vitoriana, às vésperas da Revolução Industrial. O roteiro apenas utiliza os personagens reais para traçar um painel sobre a conduta de uma sociedade apenas acostumada a perceber o evidente, sem se dar conta do gigantesco universo humano que está por trás das aparências.

    Merrick era visto como uma aberração da ciência, até mesmo para o Dr. Frederick (Anthony Hopkins) que ao vê-lo pela primeira vez, chora silenciosamente, numa cena de tirar o fôlego. Levado ao Hospital Geral de Londres, Merrick é analisado e exibido como uma revelação científica, sendo aplaudido pelos colegas e tendo o reconhecimento de sua classe. É neste ponto que o médico começa a perceber que também utiliza o homem elefante como uma forma de ostentação e começa a questionar suas atitudes.

    O filme, então, ganha contornos muito mais complexos do que as imagens possam oferecer.

    Rodado numa maravilhosa fotografia P&B (do também ator Freddie Francis) que ressalta a cegueira da sociedade Vitoriana, O Homem Elefante de Lynch é um conto lúgubre e triste sobre o monstro interno que habita em todos nós. Lynch começa sua obra com uma grande capacidade de síntese alternando imagens do rosto angelical da mãe de Merrick com a de elefantes de pele rugosa.

    A montagem utiliza os recursos fotográficos fechando ou abrindo as sequências da escuridão para a extrema claridade e vice-versa.

    A grande habilidade de Lynch está em driblar os clichês emocionais de uma história com um caráter essencialmente melodramático e transformá-la numa discussão da conduta humana fazendo a ponte entre o desprezível e a distinção. Os exemplos são muitos, mas fica evidente na cena onde uma escória humana suja, podre e fétida invade o quarto, sem trancas, do indefeso, mas puro, homem elefante.

    Além do mais, o filme relaciona-se com outras obras sobre deformados rejeitados pela sociedade, como em O Corcunda da Notre Dame e O Enigma de Kaspar Hauser.

    A grandeza do espírito de Merrick emociona a todos sem apelações baratas nem demagogias e imediatamente nos identificamos com sua triste sina, afinal quem nunca foi rejeitado ou sentiu-se humilhado na vida? A cena onde Merrick arruma seu leito de morte é de cortar o coração até dos mais insensíveis.

    O Homem Elefante é um clássico do cinema moderno.

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  • Vitor Batista.
    Vitor Batista.

    Bem vindo Gabs! ;)

  • Daniel
    Daniel

    Gabriel muito obrigado pelo tempo dedicado em me responder dessa forma. Vou assistir e assim que possível te falo minhas impressões sobre os filmes indicados. Estava em viagem, foi mal a demora pra responder.

  • Daniel
    Daniel

    Muito obrigadooo cara. Temos alguns bons filmes incomum como favoritos. Vi que você favoritou - Cavaleiro das Trevas, estou com ele aqui pra ver, fiquei animado com o novo filme do Coringa com o Joaquim Phoenix. O que você tem visto de legal pra compartilhar comigo?

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