Filme ruim da gota. A primeira metade é até interessante, mas depois arrasta-se por uma hora para um desfecho mais que previsível. Soa como a mistura de "Conta Comigo" com algum outro filme de tribunal, gênero bastante característico dos anos 90.
Incrível como ninguém atuou bem nesse filme, nem os mais casca grossas da época. Odiei o personagem do Dustin Hoffman, falando baixo pra ninguém ouvir, primeiro advogado com vergonha de ser advogado. Brad Pitt comprando cachorro quente, dando uma mordida e jogando o resto fora.
Melancolia pornográfica, não tem outro termo para “Detachment”. Todos os personagens são absolutamente problemáticos e não tem um segundo no dia em que não façam escolhas erradas ou sejam vítimas dos problemas dos outros. A abordagem pseudocumental de Tony Kaye deixou a trama artificial, forçada e exagerada.
“Estômago” é um estudo de personagem de uma das figuras mais clássicas do Brasil: o famoso Zé. Aquele brasileirinho risonho e manso, dotado de certa habilidade mas incapaz de alcançar seu potencial por causa de mulher, de bebida, ou de alguma debilidade cognitiva. O sujeito que é amigo de todos, sempre rindo, com a fala mansa, alguém impossível de se imaginar passando a perna nos outros, quanto mais cometer alguma barbaridade, até que seu lado animal vem à tona e realiza uma brutalidade tamanha sem qualquer resquício de remorso. Esse tipo, bastante comum em cidades interioranas, especialmente no norte, nordeste e centro oeste, além de Minas, é dos mais agradáveis, reside em bares e padarias, realiza trabalhos braçais, passa o dia sob o sol sem reclamar uma vez sequer, é querido pelas crianças, dá bom dia a todos, e, portanto, quando seu instinto feral desperta ninguém entende de onde veio tal violência. “Ele era tão calmo, nunca fez mal a ninguém”, dizem os conhecidos.
“Funny Games” é fascinante, poucas vezes vi uma obra que entregou exatamente aquilo que prometeu. É uma película central na filmografia de Michael Haneke, conversando diretamente com temas que lhe são caros, além de testar os limites de seu criador, do espectador, e do próprio cinema. Aqui, a quebra de expectativa assume postura filosófica, apontando a irracionalidade da violência urbana dos tempos modernos, criticando vícios narrativos e satirizando a sede de sangue do público.
Caso raro em que o título brasileiro é mais adequado que o original, e em que a quebra da quarta parede é mais que alguém olhando pra câmera. Haneke transforma a curiosidade em culpa, o voyeur em cúmplice, como quem diz: “Não é o que você queria? Então toma.”
Esse método do Robert Bresson de pegar atores não-profissionais e suprimir toda e qualquer expressão de emoção me desconecta completamente de seus filmes. Ainda que as premissas sejam interessantes, o resultado é frio, incolor e distante. Perde-se até o propósito de um filme quando assisto cenas que deveriam ser carregadas de emoção e a entrega dos atores é robótica.
O neorrealismo italiano prezou, muitas vezes, pela utilização de pessoas comuns em seus filmes, como no caso de Vittorio De Sica e seu trabalho em retratar as penúrias da classe trabalhadora italiana no pós-guerra. Seu propósito é capturar a real emoção de um indivíduo que provavelmente experimentou na pele o roteiro. Mas aqui, ao tentar impedir que uma possível reação exagerada de um ator profissional contaminasse a busca pelo real, Bresson extingue algo fundamental no cinema: o elemento humano. Infelizmente, acontece algo com o diretor que tornou-se característico do cinema francês, particularmente a nouvelle vague - sua visão de mundo é mais importante que tudo. E para proteger sua abordagem ascética, Bresson sacrifica a espontaneidade dos atores e a vida de seus personagens.
Muito curioso como Ang Lee articula personagens com motivações distintas e aparentemente conflitantes, mas cujos propósitos convergem no terceiro ato de maneira bela, triste e poética. E a trama é inteiramente amarrada pelas figuras femininas, cada qual lutando à sua maneira para encontrar e reafirmar seu lugar num mundo onde são meros detalhes decorativos. Uma dinâmica revigorante no gênero wuxia, e nas obras de artes marciais, em geral. Aliado a isso, é dirigido com alma de emoção serena, pintando as lutas com pinceladas de poesia, reflexo da personalidade dos envolvidos e seus conflitos interiores. A pouca utilização de efeitos especiais e o comprometimento dos atores em realizar a imensa maioria das cenas de ação, além do pouco uso de cortes, transforma os embates em verdadeira dança.
“Crouching Tiger, Hidden Dragon” é o feito que desafia os limites de seu próprio gênero, dando significado ao espetáculo visual e redescobrindo o potencial narrativo dos filmes de kung fu.
Não é tão teatral quanto os épicos da era de ouro hollywoodiana ou a trilogia shakespeariana de Laurence Olivier, mas é enfadonho. Apesar das boas atuações, em especial o inflamado rei Henry VIII de Robert Shaw, “A Man for All Seasons” não oferece desperta a emoção do espectador. Talvez seja a trama truncada pelos jogos políticos, ou mesmo o foco demasiado no irredutível Thomas More, fato é que a obra apresenta-se um tanto fria.
Uma coisa há de se elogiar: o colorido da produção. Esses filmes antigos tem um charme especial ao retratar o medievo em todo seu resplendor. Tal detalhe deveria retornar ao cinema, já que em nome do realismo a Idade Média tornou-se acinzentada. Mil anos de estética reduzidos a filtros escuros.
Típico filme com adolescentes para ilustrar como as drogas são ruins. Mas também se encaixa naquelas produções coming of age que reúnem vários atores promissores, a fim de alçá-los ao estrelato, como ocorre até os dias de hoje. E, nesse sentido, DiCaprio é o que melhor se sai. Em toda sua juventude, acaba roubando a cena e ofuscando seus pares. No mais, “The Basketball Diaries” é completamente esquecível, ainda que toque em temas delicados - sem medo, mas também sem profundidade.
Para uma trama que se sustenta através de flashbacks, as rememorações são demasiadamente curtas e diretas, e servem somente para mostrar o que as pessoas da comunidade falaram ou fizeram para o protagonista. Nem mais, nem menos. Penso que Bresson falhou em explorar as nuances do jovem padre para com a vida em comunidade, para com a fé e consigo mesmo. Tudo gira em torno do que os locais fizeram, pontualmente. Essa abordagem direta, extremamente sintética, não me agradou.
Grande atuação de Marianne Jean-Baptiste, não há sequer semelhança com seu papel em “Secrets and Lies” realizado há trinta anos. A veterana é odiosa como Pansy, atacando tudo e todos a fim de não demonstrar quão exausta e fragmentada está. Por outro lado, Mike Leigh costura um filme entediante, as discussões parecem se repetir ao longo de 1h30, deixando a obra previsível e monótona. É um estudo de personagem que não vai pra lugar algum.
A amargura masculina é mais interessante, variando da reclusão voluntária à violência desmedida, do cinismo à misantropia; a da mulher só a torna numa Karen mesmo.
O que mais gostei nessa nova adaptação - superior, inclusive, ao filme de 1969 - é o tom melancólico adotado pelos irmãos Coen. Desde a fotografia amarelada, até a trilha sonora, passando pelo terceiro ato onde contempla-se a trilha de sangue deixada pela quest de vingança da jovem Mattie, “True Grit” retrata um velho oeste sem a romantização característica do gênero western no cinema americano, construindo um mundo de homens duros indiferente aos medos e anseios de uma garota de 14 anos; aqui, até os momentos de alívio cômico ou cuidado são desprovidos de sutileza.
Os shows do velho oeste, para onde o oficial Rooster Cogburn retira-se, representam, assim, não apenas a idealização do velho oeste americano, mas um sentimento de perda. Grandes personagens da fronteira americana fizeram parte de tais shows (xerifes, cowboys, chefes indígenas), e viajaram pelo país como símbolos de um estilo de vida em extinção. O final de “True Grit” me lembrou da canção “Coyotes”, de Don Edwards, em que um cowboy sem nome lamenta o desaparecimento de líderes, chefes, foras da lei, gados, lobos, e demais símbolos do velho oeste, mas ainda permanece o uivo dos coiotes. Os homens passam, o progresso vem, mas algo de essencial permanece, ainda que seja o lamento.
Diálogos expositivos não são de todo mal, principalmente em filmes históricos em que boa parte do público não está completamente a par do contexto cultural que se pretende representar, é uma boa forma de situá-lo, mas quando o filme é somente isso, então torna-se mais uma aula que qualquer coisa, perde-se o caráter lúdico do cinema. Mike Leigh pesa a mão ao tornar tudo expositivo, desde os diálogos entre os membros da família que guia a trama de “Peterloo”, até entre as autoridades e o povo indignado. Tudo é uma grande exposição para o público compreender a política econômica da Inglaterra pós-guerras napoleônicas, tirando a naturalidade das cenas e dificultando a imersão.
Como referência visual, Leigh é afiado. Desde “Topsy-Turvy” e “Vera Drake”, o diretor demonstra aptidão para filmes históricos, consultando especialistas a fim de retratar a mentalidade e o mundo material de épocas passadas, e aqui não é diferente. Detalhes como a produção caseira de pequenas tortas, o maquinário das fábricas, as feiras locais, ainda que passem despercebidas pelo público são pormenores que ajudam a reconstruir um mundo distante. Infelizmente, o restante não ajuda. “Peterloo” é assaz verborrágico e expositivo, e seus personagens apenas existem para ilustrar a desigualdade social da época, como vetores do argumento do diretor, mas sem personalidade.
“Mr. Turner” é uma obra fascinante, uma reconstrução belíssima da Inglaterra vitoriana, em toda sua formalidade, beleza e precariedade. Sequer tinha conhecimento da existência do pintor William Turner, mas o diretor Mike Leigh costura uma narrativa com alma e textura, não apenas psicológica, mas auditiva e visual. O contraste da personalidade excêntrica, reclusa e grosseira de Turner com sua sensibilidade artística e distinta visão de mundo é pincelada com imagens que refletem a beleza e a potência da natureza presentes em suas obras, e o mesmo aplica-se aos demais personagens, adoecidos, envoltos em pesadas vestimentas, mas completamente devotos uns aos outros, expressando admiração e impropérios em galerias e salões aristocráticos, viajando por belas paisagens ou caminhando por ruas enlameadas. “Mr. Turner” é um incrível biópico que possibilita adentrar a mente de um gênio e experimentar o belo e o mundano de uma época. A simples compra de materiais para pintura, a exposição de obras e o processo de tirar uma foto através do daguerreótipo são suficientes para prender nossa atenção naquele universo longínquo, mas estranhamente familiar.
Em determinada cena, Turner - hipnoticamente interpretado por Timothy Spall - ajusta caoticamente uma pintura, indecifrável a nós, então a imagem seguinte é uma belíssima montanha; fiquei encantado pelo resultado, apenas para descobrir no segundo seguinte que era uma montanha real, e que Turner caminhava com intento como um mero detalhe diante daquela gigantesca paisagem. Transição assustadora de Mike Leigh. Falar bem ou mal de filmes será sempre o trabalho mais fácil, qualquer um consegue, e os verdadeiros artistas estão sujeitos à nossa leiga opinião; agora fazer cinema é para poucos, uma arte que permanecerá misteriosa para a maioria.
Filme interessante até deixar de ser. Acompanhar a filmografia de Mike Leigh dá a impressão de que o diretor encontra mil jeitos diferentes para falar da mesma coisa, e o resultado é quase sempre: chato ou levemente agradável. Nada mais.
Bom, esse aqui claramente cai na categoria "chato".
As corridas são empolgantes e bem filmadas, percebe-se o cuidado em dar a devida atenção ao que o filme tem de melhor - a sua razão de ser, aliás. Infelizmente todo o resto é enfadonho e encheção de linguiça para dar um pouco de profundidade aos personagens, enquanto aguardamos o que realmente importa.
A mensagem é bela, como não poderia ser diferente, mas às vezes o filme é tão factual e direto que perde-se a nuance das cenas, dos acontecimentos e dos próprios personagens. Dessa maneira, a obra de Pasolini carece de vigor emocional, impedindo uma conexão maior com a trama. É algo muito seco e abrupto para tal, ainda que tenha uma linda trilha para potencializar a narrativa.
O que me incomodou nesse filme foi a impressão de que aos 30 anos, era a primeira vez que Sally tinha sua visão de mundo confrontada de maneira prática. Parecia algo inédito lidar com um aluno problemático, ser objeto de afeto/desejo de alguém e encarar o fato de que você não pode mudar o mundo. Com certeza, na vida de Poppy, esse choque de realidade viria muito antes, mas talvez seja apenas parte do argumento de Mike Leigh a respeito da adolescência tardia de sua protagonista.
Já a melhor coisa de "Happy-Go-Lucky" é a sensibilidade do diretor em alçar ao protagonismo uma personagem que seria coadjuvante ou muleta para qualquer outro protagonista masculino desajustado noutros filmes. Grande atuação de Sally Hawkins, mas quem rouba a cena é Eddie Marsan, o instrutor; cada momento em que esse ser controlador, obsessivo e paranoico é confrontado pela personalidade borbulhante de Poppy cria-se uma tensão cômica, por vezes, mas quase sempre perigosa.
Grande atuação de Imelda Staunton na pele de uma senhora que realiza aborto em jovens mulheres - um ato nefasto para muitos, mas necessário e humanitário para outros.
Para além da controvérsia do tema e da concordância ou não da prática, me lembrou o recente "The Girl with the Needle", no sentido de que não há crueldade maior do que aquela gerenciada pelo Estado.
Na falta de referências, a geração atual sempre emula os vícios da anterior. Em "All or Nothing", a partir de três famílias disfuncionais, Mike Leigh argumenta como os filhos são espelhos dos pais, principalmente quando os progenitores não suscitam nenhum tipo de respeito. E, como de praxe, o diretor permeia a obra com sua clássica desesperança, fruto das dificuldades econômicas enfrentadas pela classe trabalhadora inglesa.
Leigh responsabiliza os pais, mas sem culpá-los ou torná-los vilões. Em fato, humaniza-os ao destacar o duro contexto em que estão inseridos, onde o escapismo, seja no entretenimento, no sexo ou demais vícios, é o único meio disponível para fugir da realidade. Mas, para Leigh, a fuga nada resolve, é preciso transformar a realidade; e o fortalecimento dos vínculos familiares é a resposta. Aí está a responsabilidade dos pais. E este papel recairá, inevitavelmente, no colo dos filhos, quando assumirem a condição de genitores e tornarem-se, assim, responsáveis pela nova geração. Sensibilidade aguçada do veterano diretor.
O terceiro ato melhora consideravelmente o filme, tornando-o muito mais interessante, justamente por oferecer um grande momento catártico para uma trama que, como diz o próprio título da obra, é construída através de segredos e mentiras.
Os Fantasmas Ainda Se Divertem: Beetlejuice Beetlejuice
3.4 592 Assista AgoraDesinteressante, especialmente se você não possui conexão emocional com o primeiro filme.
Sleepers: A Vingança Adormecida
3.9 483 Assista AgoraFilme ruim da gota. A primeira metade é até interessante, mas depois arrasta-se por uma hora para um desfecho mais que previsível. Soa como a mistura de "Conta Comigo" com algum outro filme de tribunal, gênero bastante característico dos anos 90.
Incrível como ninguém atuou bem nesse filme, nem os mais casca grossas da época. Odiei o personagem do Dustin Hoffman, falando baixo pra ninguém ouvir, primeiro advogado com vergonha de ser advogado. Brad Pitt comprando cachorro quente, dando uma mordida e jogando o resto fora.
Inferno, tudo nesse filme me irritou.
As Grandes Aventuras de Pee-wee
2.8 116Quão imbecil alguém precisa ser para achar essa desgraça engraçada?
O Substituto
4.3 1,7K Assista AgoraMelancolia pornográfica, não tem outro termo para “Detachment”. Todos os personagens são absolutamente problemáticos e não tem um segundo no dia em que não façam escolhas erradas ou sejam vítimas dos problemas dos outros. A abordagem pseudocumental de Tony Kaye deixou a trama artificial, forçada e exagerada.
Na maior parte do tempo, tive vontade de rir.
Estômago
4.2 1,7K Assista Agora“Estômago” é um estudo de personagem de uma das figuras mais clássicas do Brasil: o famoso Zé. Aquele brasileirinho risonho e manso, dotado de certa habilidade mas incapaz de alcançar seu potencial por causa de mulher, de bebida, ou de alguma debilidade cognitiva. O sujeito que é amigo de todos, sempre rindo, com a fala mansa, alguém impossível de se imaginar passando a perna nos outros, quanto mais cometer alguma barbaridade, até que seu lado animal vem à tona e realiza uma brutalidade tamanha sem qualquer resquício de remorso. Esse tipo, bastante comum em cidades interioranas, especialmente no norte, nordeste e centro oeste, além de Minas, é dos mais agradáveis, reside em bares e padarias, realiza trabalhos braçais, passa o dia sob o sol sem reclamar uma vez sequer, é querido pelas crianças, dá bom dia a todos, e, portanto, quando seu instinto feral desperta ninguém entende de onde veio tal violência. “Ele era tão calmo, nunca fez mal a ninguém”, dizem os conhecidos.
Pois bem, esse é Raimundo Nonato, o Alecrim.
Violência Gratuita
3.8 763 Assista Agora“Funny Games” é fascinante, poucas vezes vi uma obra que entregou exatamente aquilo que prometeu. É uma película central na filmografia de Michael Haneke, conversando diretamente com temas que lhe são caros, além de testar os limites de seu criador, do espectador, e do próprio cinema. Aqui, a quebra de expectativa assume postura filosófica, apontando a irracionalidade da violência urbana dos tempos modernos, criticando vícios narrativos e satirizando a sede de sangue do público.
Caso raro em que o título brasileiro é mais adequado que o original, e em que a quebra da quarta parede é mais que alguém olhando pra câmera. Haneke transforma a curiosidade em culpa, o voyeur em cúmplice, como quem diz: “Não é o que você queria? Então toma.”
O Batedor de Carteiras
3.9 122 Assista AgoraEsse método do Robert Bresson de pegar atores não-profissionais e suprimir toda e qualquer expressão de emoção me desconecta completamente de seus filmes. Ainda que as premissas sejam interessantes, o resultado é frio, incolor e distante. Perde-se até o propósito de um filme quando assisto cenas que deveriam ser carregadas de emoção e a entrega dos atores é robótica.
O neorrealismo italiano prezou, muitas vezes, pela utilização de pessoas comuns em seus filmes, como no caso de Vittorio De Sica e seu trabalho em retratar as penúrias da classe trabalhadora italiana no pós-guerra. Seu propósito é capturar a real emoção de um indivíduo que provavelmente experimentou na pele o roteiro. Mas aqui, ao tentar impedir que uma possível reação exagerada de um ator profissional contaminasse a busca pelo real, Bresson extingue algo fundamental no cinema: o elemento humano. Infelizmente, acontece algo com o diretor que tornou-se característico do cinema francês, particularmente a nouvelle vague - sua visão de mundo é mais importante que tudo. E para proteger sua abordagem ascética, Bresson sacrifica a espontaneidade dos atores e a vida de seus personagens.
O Tigre e o Dragão
3.6 475 Assista AgoraMuito curioso como Ang Lee articula personagens com motivações distintas e aparentemente conflitantes, mas cujos propósitos convergem no terceiro ato de maneira bela, triste e poética. E a trama é inteiramente amarrada pelas figuras femininas, cada qual lutando à sua maneira para encontrar e reafirmar seu lugar num mundo onde são meros detalhes decorativos. Uma dinâmica revigorante no gênero wuxia, e nas obras de artes marciais, em geral. Aliado a isso, é dirigido com alma de emoção serena, pintando as lutas com pinceladas de poesia, reflexo da personalidade dos envolvidos e seus conflitos interiores. A pouca utilização de efeitos especiais e o comprometimento dos atores em realizar a imensa maioria das cenas de ação, além do pouco uso de cortes, transforma os embates em verdadeira dança.
“Crouching Tiger, Hidden Dragon” é o feito que desafia os limites de seu próprio gênero, dando significado ao espetáculo visual e redescobrindo o potencial narrativo dos filmes de kung fu.
O Homem Que Não Vendeu Sua Alma
3.9 99Não é tão teatral quanto os épicos da era de ouro hollywoodiana ou a trilogia shakespeariana de Laurence Olivier, mas é enfadonho. Apesar das boas atuações, em especial o inflamado rei Henry VIII de Robert Shaw, “A Man for All Seasons” não oferece desperta a emoção do espectador. Talvez seja a trama truncada pelos jogos políticos, ou mesmo o foco demasiado no irredutível Thomas More, fato é que a obra apresenta-se um tanto fria.
Uma coisa há de se elogiar: o colorido da produção. Esses filmes antigos tem um charme especial ao retratar o medievo em todo seu resplendor. Tal detalhe deveria retornar ao cinema, já que em nome do realismo a Idade Média tornou-se acinzentada. Mil anos de estética reduzidos a filtros escuros.
Diário de um Adolescente
3.8 792 Assista AgoraTípico filme com adolescentes para ilustrar como as drogas são ruins. Mas também se encaixa naquelas produções coming of age que reúnem vários atores promissores, a fim de alçá-los ao estrelato, como ocorre até os dias de hoje. E, nesse sentido, DiCaprio é o que melhor se sai. Em toda sua juventude, acaba roubando a cena e ofuscando seus pares. No mais, “The Basketball Diaries” é completamente esquecível, ainda que toque em temas delicados - sem medo, mas também sem profundidade.
Diário de um Pároco de Aldeia
4.1 53Para uma trama que se sustenta através de flashbacks, as rememorações são demasiadamente curtas e diretas, e servem somente para mostrar o que as pessoas da comunidade falaram ou fizeram para o protagonista. Nem mais, nem menos. Penso que Bresson falhou em explorar as nuances do jovem padre para com a vida em comunidade, para com a fé e consigo mesmo. Tudo gira em torno do que os locais fizeram, pontualmente. Essa abordagem direta, extremamente sintética, não me agradou.
Hard Truths
3.6 20Grande atuação de Marianne Jean-Baptiste, não há sequer semelhança com seu papel em “Secrets and Lies” realizado há trinta anos. A veterana é odiosa como Pansy, atacando tudo e todos a fim de não demonstrar quão exausta e fragmentada está. Por outro lado, Mike Leigh costura um filme entediante, as discussões parecem se repetir ao longo de 1h30, deixando a obra previsível e monótona. É um estudo de personagem que não vai pra lugar algum.
A amargura masculina é mais interessante, variando da reclusão voluntária à violência desmedida, do cinismo à misantropia; a da mulher só a torna numa Karen mesmo.
Bravura Indômita
3.9 1,4K Assista AgoraO que mais gostei nessa nova adaptação - superior, inclusive, ao filme de 1969 - é o tom melancólico adotado pelos irmãos Coen. Desde a fotografia amarelada, até a trilha sonora, passando pelo terceiro ato onde contempla-se a trilha de sangue deixada pela quest de vingança da jovem Mattie, “True Grit” retrata um velho oeste sem a romantização característica do gênero western no cinema americano, construindo um mundo de homens duros indiferente aos medos e anseios de uma garota de 14 anos; aqui, até os momentos de alívio cômico ou cuidado são desprovidos de sutileza.
Os shows do velho oeste, para onde o oficial Rooster Cogburn retira-se, representam, assim, não apenas a idealização do velho oeste americano, mas um sentimento de perda. Grandes personagens da fronteira americana fizeram parte de tais shows (xerifes, cowboys, chefes indígenas), e viajaram pelo país como símbolos de um estilo de vida em extinção. O final de “True Grit” me lembrou da canção “Coyotes”, de Don Edwards, em que um cowboy sem nome lamenta o desaparecimento de líderes, chefes, foras da lei, gados, lobos, e demais símbolos do velho oeste, mas ainda permanece o uivo dos coiotes. Os homens passam, o progresso vem, mas algo de essencial permanece, ainda que seja o lamento.
Peterloo
3.4 16 Assista AgoraDiálogos expositivos não são de todo mal, principalmente em filmes históricos em que boa parte do público não está completamente a par do contexto cultural que se pretende representar, é uma boa forma de situá-lo, mas quando o filme é somente isso, então torna-se mais uma aula que qualquer coisa, perde-se o caráter lúdico do cinema. Mike Leigh pesa a mão ao tornar tudo expositivo, desde os diálogos entre os membros da família que guia a trama de “Peterloo”, até entre as autoridades e o povo indignado. Tudo é uma grande exposição para o público compreender a política econômica da Inglaterra pós-guerras napoleônicas, tirando a naturalidade das cenas e dificultando a imersão.
Como referência visual, Leigh é afiado. Desde “Topsy-Turvy” e “Vera Drake”, o diretor demonstra aptidão para filmes históricos, consultando especialistas a fim de retratar a mentalidade e o mundo material de épocas passadas, e aqui não é diferente. Detalhes como a produção caseira de pequenas tortas, o maquinário das fábricas, as feiras locais, ainda que passem despercebidas pelo público são pormenores que ajudam a reconstruir um mundo distante. Infelizmente, o restante não ajuda. “Peterloo” é assaz verborrágico e expositivo, e seus personagens apenas existem para ilustrar a desigualdade social da época, como vetores do argumento do diretor, mas sem personalidade.
Sr. Turner
3.3 77“Mr. Turner” é uma obra fascinante, uma reconstrução belíssima da Inglaterra vitoriana, em toda sua formalidade, beleza e precariedade. Sequer tinha conhecimento da existência do pintor William Turner, mas o diretor Mike Leigh costura uma narrativa com alma e textura, não apenas psicológica, mas auditiva e visual. O contraste da personalidade excêntrica, reclusa e grosseira de Turner com sua sensibilidade artística e distinta visão de mundo é pincelada com imagens que refletem a beleza e a potência da natureza presentes em suas obras, e o mesmo aplica-se aos demais personagens, adoecidos, envoltos em pesadas vestimentas, mas completamente devotos uns aos outros, expressando admiração e impropérios em galerias e salões aristocráticos, viajando por belas paisagens ou caminhando por ruas enlameadas. “Mr. Turner” é um incrível biópico que possibilita adentrar a mente de um gênio e experimentar o belo e o mundano de uma época. A simples compra de materiais para pintura, a exposição de obras e o processo de tirar uma foto através do daguerreótipo são suficientes para prender nossa atenção naquele universo longínquo, mas estranhamente familiar.
Em determinada cena, Turner - hipnoticamente interpretado por Timothy Spall - ajusta caoticamente uma pintura, indecifrável a nós, então a imagem seguinte é uma belíssima montanha; fiquei encantado pelo resultado, apenas para descobrir no segundo seguinte que era uma montanha real, e que Turner caminhava com intento como um mero detalhe diante daquela gigantesca paisagem. Transição assustadora de Mike Leigh. Falar bem ou mal de filmes será sempre o trabalho mais fácil, qualquer um consegue, e os verdadeiros artistas estão sujeitos à nossa leiga opinião; agora fazer cinema é para poucos, uma arte que permanecerá misteriosa para a maioria.
Mais um Ano
3.8 85Filme interessante até deixar de ser. Acompanhar a filmografia de Mike Leigh dá a impressão de que o diretor encontra mil jeitos diferentes para falar da mesma coisa, e o resultado é quase sempre: chato ou levemente agradável. Nada mais.
Bom, esse aqui claramente cai na categoria "chato".
Grand Prix
4.0 39As corridas são empolgantes e bem filmadas, percebe-se o cuidado em dar a devida atenção ao que o filme tem de melhor - a sua razão de ser, aliás. Infelizmente todo o resto é enfadonho e encheção de linguiça para dar um pouco de profundidade aos personagens, enquanto aguardamos o que realmente importa.
O Evangelho Segundo São Mateus
4.0 94A mensagem é bela, como não poderia ser diferente, mas às vezes o filme é tão factual e direto que perde-se a nuance das cenas, dos acontecimentos e dos próprios personagens. Dessa maneira, a obra de Pasolini carece de vigor emocional, impedindo uma conexão maior com a trama. É algo muito seco e abrupto para tal, ainda que tenha uma linda trilha para potencializar a narrativa.
Simplesmente Feliz
3.4 254O que me incomodou nesse filme foi a impressão de que aos 30 anos, era a primeira vez que Sally tinha sua visão de mundo confrontada de maneira prática. Parecia algo inédito lidar com um aluno problemático, ser objeto de afeto/desejo de alguém e encarar o fato de que você não pode mudar o mundo. Com certeza, na vida de Poppy, esse choque de realidade viria muito antes, mas talvez seja apenas parte do argumento de Mike Leigh a respeito da adolescência tardia de sua protagonista.
Já a melhor coisa de "Happy-Go-Lucky" é a sensibilidade do diretor em alçar ao protagonismo uma personagem que seria coadjuvante ou muleta para qualquer outro protagonista masculino desajustado noutros filmes. Grande atuação de Sally Hawkins, mas quem rouba a cena é Eddie Marsan, o instrutor; cada momento em que esse ser controlador, obsessivo e paranoico é confrontado pela personalidade borbulhante de Poppy cria-se uma tensão cômica, por vezes, mas quase sempre perigosa.
O Segredo de Vera Drake
3.9 92Grande atuação de Imelda Staunton na pele de uma senhora que realiza aborto em jovens mulheres - um ato nefasto para muitos, mas necessário e humanitário para outros.
Para além da controvérsia do tema e da concordância ou não da prática, me lembrou o recente "The Girl with the Needle", no sentido de que não há crueldade maior do que aquela gerenciada pelo Estado.
Blow-Up: Depois Daquele Beijo
3.9 380Blow-Up? Tá mais pra "Blowjob"; esse filme sugou minhas energias.
Agora ou Nunca
3.9 28 Assista AgoraNa falta de referências, a geração atual sempre emula os vícios da anterior. Em "All or Nothing", a partir de três famílias disfuncionais, Mike Leigh argumenta como os filhos são espelhos dos pais, principalmente quando os progenitores não suscitam nenhum tipo de respeito. E, como de praxe, o diretor permeia a obra com sua clássica desesperança, fruto das dificuldades econômicas enfrentadas pela classe trabalhadora inglesa.
Leigh responsabiliza os pais, mas sem culpá-los ou torná-los vilões. Em fato, humaniza-os ao destacar o duro contexto em que estão inseridos, onde o escapismo, seja no entretenimento, no sexo ou demais vícios, é o único meio disponível para fugir da realidade. Mas, para Leigh, a fuga nada resolve, é preciso transformar a realidade; e o fortalecimento dos vínculos familiares é a resposta. Aí está a responsabilidade dos pais. E este papel recairá, inevitavelmente, no colo dos filhos, quando assumirem a condição de genitores e tornarem-se, assim, responsáveis pela nova geração. Sensibilidade aguçada do veterano diretor.
Segredos e Mentiras
4.1 116 Assista AgoraO terceiro ato melhora consideravelmente o filme, tornando-o muito mais interessante, justamente por oferecer um grande momento catártico para uma trama que, como diz o próprio título da obra, é construída através de segredos e mentiras.
A Batalha de Argel
4.3 90Até guerreando francês é chato, minha nossa. Algumas boas cenas, mas a rusticidade da produção me afastou da trama.