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"De todas as artes, para nós, o cinema é a mais importante." LENIN, Vladiimir Ilitch.

"Direitista nem é gente. Olavete bom é Olavete morto." MESMO, Eu.

Últimas opiniões enviadas

  • L. A. Cardoso

    A primeira coisa que me chama a atenção nessa obra-prima de Alain Resnais é a metalinguagem. Quando indagada sobre o que faz no Japão, a protagonista Elle (Emmanuelle Riva) diz que está fazendo um filme sobre a paz. Depois da primeira noite de amor com Lui, o arquiteto japonês (Eiji Okada), Elle retorna o set onde o tal filme está sendo gravado e as pessoas e objetos que vemos compondo esses bastidores são os personagens coadjuvante da ação que se passa.

    Quando estes coadjuvantes se colocam em ação em uma marcha de protesto contra a guerra e contra as armas nucleares, tanto Elle quanto Lui se tornam parte da cena, ora como espectadores que assistem a marcha, ora entrando no meio dela. Mas entrando em sentido contrário, como se buscassem outra outra narrativa, um outro filme, que não seja apenas sobre a paz ou contra as guerras, mas sobre o amor, sobre a morte, sobre fim, sobre esquecimento, sobre memórias...

    Este aparente conflito de narrativas na verdade oculta uma relação dialética, na qual o fato objetivo, a realidade concreta, o que aconteceu, se confronta e se completa com a perspectiva subjetiva, a narrativa, o que recordamos. Estas polaridades nos são inicialmente insinuadas no começo do filme, quando Elle diz, sobre o ataque nuclear a Hiroshima, "eu vi de tudo", e Lui responde-lhe "você não viu nada".

    Como o Márcio disse em seu comentário, que pode ser encontrado abaixo, Elle não estava no Japão quando as bombas atômicas foram lançadas. Tudo o que ela diz saber sobre esse fato é resultado de narrativas, como livros, reportagens, exposições em museus, documentários. Perto do final, o engano de julgar saber tudo é cometido por Lui. Após ouvir Elle contar sobre os anos que viveu em Nevers, na França, ele interroga-a: "Seu marido conhece essa história?". Ela reponde que não e ele pergunta: "Só eu sei então?". Ela responde que sim, então ele a abraça e diz: "Ninguém mais sabe. Só eu".

    Será? Talvez seja verdade, levando-se em conta o modo como o comportamento de Elle muda depois que ela narra ao seu amante os segredos e traumas de seu passado durante a Segunda Guerra na França invadida e anexada pelos nazistas. Como em uma sessão de terapia, Elle realiza sua necessária catarse ao narrar suas dolorosas vivências e acaba, desse modo, reencontrando-se, compreendendo-se melhor.

    Narrar implica organizar, colocar em perspectiva, distanciar-se, racionalizar. Do mesmo que a narrativa de Elle ajuda-a a compreender a si mesma e curar suas feridas (ou ao menos a conhecê-las e aceita-las, convivendo melhor com elas e consigo mesmo), o filme de Resnais, esse filme sobre em defesa da paz, anti-bélico, que é também sobre o amor e morte, a memória e os esquecimento, serve também de narrativa para nós, seres humanos, nascidos num mundo que foi profundamente influenciado pelas duas grandes guerras do século XX, possamos entender melhor quem somos.

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  • L. A. Cardoso

    Essa série formidável é baseada no livro livro O Conto da Aia, de Margaret Atwood, e parte de uma premissa já usada anteriormente no cinema pelo diretor Alfonso Cuarón no filme Filhos da Esperança (Children of Men, 2006): um futuro distópico no qual os problemas ambientais, como uso de agrotóxicos e poluição da água e do ar deixaram a maior parte das mulheres estéreis. Apesar de se concentrar em diferentes desdobramentos desse cenário hipotético, filme e série podem ser visto como paralelos, como parte de um mesmo universo.

    Enquanto o filme de Cuarón se concentrava em retratar o mundo em guerra, com Estados-Nações se esfacelando e entrando em guerra na medida em que suas sociedades desmoronavam sob o peso de uma extinção eminente da humanidade, a série (e o livro) se volta para vida no interior de uma sociedade que, tentando preservar algo do antigo status quo, recorre à uma política de extrema-direita. Uma espécie de "fascismo neopentecostal orgânico", com uma sociedade dividida em castas rígidas, na qual o poder político e econômico é monopólio de uma elite branca, cristã, conservadora e capitalista.

    Assim como o nazismo e fascismo, essa sociedade nasceu do desejo de alguns homens brancos de salvar o mundo de uma corrupção vista essencialmente como moral, por meio da introdução de valores cristãos e de adoção da Bíblia como fundamento constitucional, em especial as leis contidas no Levítico. Nela os esses homens que se consideram "cidadãos de bem" criaram um modo de garantir que seus genes sejam transmitidos, detendo o monopólio da perpetuação da raça humana. Para isso, eles precisaram transformar as mulheres que ainda permanecem férteis em propriedade privada, em mercadoria, tirando delas os poucos direitos já conquistados.

    Privatizaram os úteros férteis que, de tão raros, se converteram em meios de produção, como terras e fábricas, transformando as mulheres que os possuem em Aias, que como carne de rodízio, passam pelas casas das famílias da casta dominante para servir de matrizes de procriação para os machos dominantes. São estupradas, proibidas de ler, obrigadas à total subserviência.

    Em suma: é o mundo que gente como Jair Bolsonaro, Marco Feliciano, Silas Malafaia e seus simpatizantes sonham, independentemente de qualquer crise de fertilidade feminina.

    "Basta uma crise política, econômica e religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados." (Simone de Beauvoir)

    [Gostou? Leia mais no meu blog thecinemaniaco.blogspot.com]

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