"I'm mean and green" (o verde da planta, mas também do dólar). Não é a melhor crítica ao capitalismo, mas talvez a mais divertida. Tem cenas memoráveis, mas a do dentista/sádico Orin Scrivello (Steve Martin) são as minhas preferidas.
Só não gostei que a questão política, tão presente na obra original ficou um tanto diluída e transformada aqui, algumas vezes substituída por uma visão mais espiritual/religiosa. No material original as personagens questionam por que não veio ajuda (se não me engano, as nações imperialistas haviam feito acordo com os invasores para que os países periféricos, o chamado 'terceiro mundo', servissem de sacrifício em troca de não oferecerem uma resistência coordenada em grupo). A série inova ao colocar a questão política principalmente referente ao trauma do conflito das Ilhas Malvinas, mas individualizando esse ponto a apenas algumas personagens (Juan Salvo, Rengo). A cerne da obra é uma defesa do espírito de coletividade, tanto dos sentimentos de temor quanto de ação cooperativa frente a uma adversidade. Individualizar o aspecto político meio que destoa um pouco da visão original de Oesterheld. Uma decisão acertada foi não revelarem de cara, como nos quadrinhos, o porquê do nome 'eternauta'.
Primeira temporada foi ok. Mas essa parece desleixada no texto. Mimetizam momentos chaves do game, mas sem uma construção dramática e a atmosfera condizente ao momento. A morte do Joel foi diluída dramaticamente pela invasão zumbi no segundo episódio, apenas para entregar mais cenas de ação. Ainda não sei o pensar sobre esse Tommy da série, que é bem diferente do material original. Os roteiristas parecem focar mais no senso de comunidade de Jackson que no aspecto humano das pessoas, que têm sentimentos extremos em situações extremas. Na série o Tommy prefere seguir as regras do grupo ao invés de se entregar a vingança pela morte do irmão. Vejo Last of Us (game) como um estudo sobre o círculo infinito de vinganças, e os traumas consequentes que modificam as pessoas que seguem essa trilha. Retirar o Tommy desse estudo me parece um erro. E esse terceiro episódio não me convenceu que a Ellie está transformada por essa sede de vingança. Aqui ela dissimula suas intenções, brinca, faz piadas, ao invés de estar flagrantemente obcecada por um objetivo. É muito diferente do material original, e tudo bem ser diferente, mas para mim está pior na temática da história.
Todo jockey precisa ser o mais leve possível para que tenha alguma chance de vitória. Precisa também ter um bom controle de seu cavalo. Ortega usa esses elementos do esporte para discutir o tema do valor das pessoas e da impossibilidade de controle da própria vida. Remo flutua e anda pelas paredes como um ser ainda indefinido, sem peso algum, sem valor no mundo. Há um olhar social aqui referente ao "peso/valor" das pessoas, evidente na cena no qual Remo/Dolores se dá conta dos moradores de rua e crianças desassistidas que vê durante sua saída do hospital.
El Jockey é um filme que lida também com o tema da morte e renascimento em suas mais diversas camadas. Nahuel Pérez Biscayart está fenomenal nesse aspecto. Ele se transforma de maneira impressionante durante o filme. O resto do elenco também é ótimo. Como Úrsula Corberó, no papel de Abril, que também passa por um processo de redescoberta pessoal. Há um toque de humor peculiar, planos performáticos, uma trilha sonora que varia entre o eletrônico moderno com a música sessentista argentina que me agrada. Essa abordagem que vai mais da sugestão e da performance, que não tenta exaurir o tema, ajuda a apreciação.
O surrealismo no filme é mais um verniz. Não há nada muito críptico. Talvez falte a parte do público alguma referência mais pessoal da cultura popular argentina. Falo especificamente sobre o personagem da morte no filme (o vaqueiro, interpretado por Jorge Prado), que é uma evidente referência a figura de Malevo Ferreyra, um chefe de polícia acusado de crimes durante a ditadura, que traumatizou uma geração ao se matar ao vivo durante uma entrevista na TV para evitar sua prisão.
Dos restos do que restou da poderosa máfia italiana, com seus personagens doentes e decrépitos, vivendo a míngua, os grandes esquemas são tocados por setores corruptos da polícia. A cidade de Roma no filme, abalada por incêndios, sofre apagões intermitentes, como o personagem Daytona, que em momentos únicos volta a tomar consciência do que foi no passado. Mas o filme é mais que isso. Camello, doente terminal, irá morrer com a angústia sobre uma profunda amargura do passado, e vê em Manuel o filho que perdeu, e em sua derradeira ação a possibilidade de reparação psicológica. Abaixo da superfície crua e violenta das relações, o filme é um poderoso poema visual sobre culpa, redenção e paternidade.
Entre um forte texto que traça um paralelismo entre o colonialismo europeu na África com a segregação racial nos EUA, e o uso da cultura popular como soft power e cortina de fumaça para as maiores atrocidades do campo político em tempos de Guerra Fria, o documentário do realizador belga Johan Grimonprez é, como uma boa peça de jazz, virtuoso em criar um tecido inspirado de imagens alegóricas. Como as da figura de um elefante quase que a flutuar em águas turvas ou carregado por uma grua manipulada por homens brancos, que nos leva a imaginar o continente africano ora tentando seguir seus próprios caminhos, ora sendo manipulado pelas forças imperialistas ocidentais. É um filme que deve ser visto com paciência, há muita informação embasada por documentos textuais e visuais e testemunhos, mas o final impacta mais pela carga emocional. Em tempos na qual a ONU hoje é questionada sobre sua inutilidade frente a investida genocida de Israel, EUA e demais países do Ocidente, o filme já aponta que a ingerência no órgão vem de longe. A história de exploração do Congo e assassinato de líderes de forças de resistência como Patrice Lumumba é revoltante, mas não configura apenas o passado. O filme, em uma montagem que quebra expectativas, mostra que o problema continua. Os esforços contra a "ameaça comunista" já não existem, mas Fukuyama estava errado. Não é o fim da história. Inserções de comerciais de marcas como da Tesla e Iphone da Apple funcionam como um lembrete que o capital continua com seus olhos e membros nos recursos, como as minas de lítio, de países do Sul Global.
Em uma cena quase para o desfecho do filme, a promotora (Toni Colleti) e o jurado (Nicholas Hoult) estão a conversar em um banco depois da decisão final do tribunal. Após o personagem do Nicholas sair de cena, com a câmera em plongée, se vê uma estátua da deusa Témis, símbolo da Justiça, com a sua balança de modo súbito a tremular convulsivamente ao vento, como a representar a indecisão moral sobre o conceito de justiça institucional discutido pelos personagens e pelo filme como um todo. Escolha inspirada do Clint que poderia ser a cena final. Entretanto, a conclusão escolhida lembra o desfecho de Mystic River (Sobre Meninos e Lobos), mas aqui sem a sutileza daquele clássico moderno. Mas isso não compromete o resultado final de mais um bom filme do veterano diretor estadunidense
Primeiro episódio apenas, mas achei que foi qualquer nota, sem inspiração. Nenhuma dinâmica ou diálogo interessante. Introdução corrida, narrativa conservadora, altamente expositiva. Visualmente faz uso de cenas com alguns planos abertos ou flashes enigmáticos para mostrar alguma grandiosidade ou mistério que remete aos filmes/livros, mas aquelas mais fechadas, onde a trama e os diálogos acontecem, carecem de um requinte ou criatividade (tem uma cena numa casa de show que me pareceu deslocada completamente da ambientação deste universo). Interessante ver cenas relacionadas ao Jihad Butleriano (infelizmente não a versão do Frank), ainda que muito rapidamente. Entretanto, a série vai lidar mais com as consequências do evento. Apesar do esforço, muita coisa parece ser uma cópia dos filmes. Desmond Hart, por exemplo, parece propositalmente aludir ao Duncan do Jason Mamoa (com algo do Duncan/Hayt ghola dos livros). Seus poderes e agenda, entretanto, indicam que ele é algo mais. Emily Watson e Olivia Williams parecem comprometidas, mas o texto não me convenceu muito. Pelo menos nesta introdução.
"Symetria ominus est". Um poema visual sobre simetria, arte, beleza e decomposição regado a um humor mórbido. Primeira contribuição do Greenway com o renomado fotógrafo Sacha Vierny (Noite e Neblina, Hiroshima mon amour, O Ano Passado em Marienbad). Para quem gosta dos jogos estéticos do diretor galês.
Curiosidades bizarras sobre esse filme: o personagem Peter Dawson, interpretado por Jeremy Applegate, tem uma cena na qual pede a Deus para nunca cometer suicídio. Na vida real cometeu suicídio com uma espingarda em 2000. E a personagem Kim Walker, interpretada por Heather Chandler, que tem uma fala na qual diz “Você teve um tumor cerebral no café da manhã?", morreu em consequência de um tumor cerebral em 2001. A personagem para a qual a fala é dirigida é interpretada pela atriz Shannen Doherty, falecida em julho de 2024, também de câncer.
Pelo que li, é um filme baseado em um conto sufi, que na tradição encara o caminho para o amor de modo místico. Isso ajuda a entender a abordagem aqui, menos verossímil, mais idealizada, ou poética. Na superestrutura as relações e ações das personagens parecem pouco críveis, mas de modo conceitual funcionam melhor, pois se trata aqui do contraste entre o amor por algo em abstrato ou idealizado ao invés do encontro com o real, do amor a uma representação que a figura real representada, da disposição a devoção a uma representação do olhar silencioso que a relação com algo que possa em algum momento se desalinhar em perspectiva. O caminho do amor seria a partir desse conflito interno, no tempo correto, finalmente encarar a concretude da relação amorosa.
Tecnicamente o filme abusa de uma tapeçaria de inspirados frames, planos e close-ups em preto e branco, e algumas excelentes blocagens que indicam as direções às vezes convergentes, às vezes divergentes do casal. Em termos de representação, talvez seja mal visto hoje a forma como se constrói a figura feminina (Meral), sempre solícita ao homem (Halil). Mas é interessante notar que a devoção de Meral por Halil é uma contrapartida a devoção deste pela sua (dela) fotografia. Halil é apaixonado por uma representação, por algo de divino que ele viu naqueles olhos, talvez. Mas Meral, a princípio, se apaixona por Halil por um conceito, por seu amor devoto e incondicional ao retrato. Em uma das cenas, Meral lê "A Arte de Amar", do poeta romano Ovídio, que é praticamente um "O Príncipe" de Maquiavel com relação ao amor. Portanto, há um jogo interessante aqui em relação ao que cada um vê ou procura no outro.
Garbo não convence. Em nenhum momento a fragilidade da personagem parece real, nem sua devoção por Duval. Atuação tão afetada quanto os suntuosos vestidos que ostenta durante o filme. Ser considerada por muitos a melhor performance da atriz sueca, causa-me espanto.
Uma curiosidade sobre esse filme, além da participação silenciosa de Björn Andrésen (Morte em Veneza, Midsommar), é a construção da personagem de Anita Lindblom (Eva), cantora sueca famosa nos anos 60. Entre o contraste da juventude primaveril, descobrindo o que a vida tem de melhor, com o nublado mundo adulto, imerso em frustrações, psicoses e violência doméstica, Eva é aparentemente um sarcástico comentário sobre a atribulada vida da atriz/cantora, que entre polêmicas com o fisco sueco, também manteve um casamento problemático, e sofria de colapsos mentais.
Filme mais musical do diretor. Feminista sem ser panfletário. Monotemático ao lidar com a radical transformação social da China moderna impelida pelo pujante crescimento econômico do país, Jia se reinventa ao usar material de filmes prévios em uma montagem que mescla experimentalismo com o tradicionalismo das histórias trágicas de amor, abraçando de maneira singular o velho e o novo, o tradicional e o moderno. Além da concepção ideológica, na forma se concretiza pelo contraste entre as gravações de baixa qualidade ao uso de uma câmera de alta definição com movimentação robótica, e também pela própria real transformação física visível de seus atores principais, Tao Zhao e Zhubin Li, em um espaço de quase 20 anos. Nesse ponto, ao usar material antigo como reciclagem para a concepção de um novo filme, Jia traz de modo engenhoso o conceito central de sua obra, da reinvenção e transformação do passado a um presente insólito, mas em seu âmago profundamente carregado de ancestralidade.
Todo fã do Estúdio Ghibli sabe que um anúncio de aposentadoria de Miyazaki é praticamente uma promessa de um próximo filme no futuro. Por mais que seja viciado em trabalho, o tempo, entretanto, impõe seus limites ao cumprimento dessa quase profecia. Seus amigos e colegas de trabalho estão morrendo um seguido do outro, entre eles o seu mentor Isao Takahata, com quem manteve uma relação de admiração e rivalidade. O velho diretor parece sentir que precisa fazer um filme que tanto lhe ajude a manter ocupado, como lhe dê uma espécie de satisfação psicológica sobre o processo de envelhecimento e finitude. O documentário funciona tanto como uma celebração do espírito criativo, com também uma observação sobre a mente complexa do criador. Mas é menos uma análise técnica do processo de produção de "O Menino e A Garça" que uma investigação sobre seus mecanismos anímicos mais primários. Existe um outro filme que vi antes desse, chamado "2399 Days with Hayao Miyazaki & Studio Ghibli", que parece ser um esboço para esse filme. Parte do material bruto é semelhante, mas aqui há um trabalho melhor de montagem e desenvolvimento.
Interessante visão sobre despertencimento e isolacionismo que vai além das referências óbvias a AIDS. Só achei que atuação de Julianne Moore carrega mais o filme nesse sentido que o filme como um todo.
Gertrud é uma personificação do embate entre idealismo do coração e o materialismo da razão. Entre o fatalismo, marcado e assombrado em sonho e pela sua materialização na pintura de uma mulher nua atacada por uma matilha, e o livre-arbítrio que tanto defende e procura em seus relacionamentos, é difícil discernir no princípio onde se encontra a personagem meramente por suas ações e trejeitos. Seu olhar é quase sempre além, não encontrando o suposto receptor, como quem se fala para uma figura interior, na procura de um entendimento de si (o espelho). No final, a única figura no qual Gertrud manteve uma relação duradoura é com o escritor Axel, aquele que, ainda que não escondesse sua admiração, entendeu essa complexidade e não demandou dela nada além do que ela poderia lhe dar, a atenção e o respeito, e a única verdadeira liberdade de seu ser, a solitude.
Gosto como o filme não apela para "jump scares", ainda que pareça em alguns momentos que haja um preparo para tal tipo de artifício, restando ao espectador, contudo, uma atmosfera de constante espreita, com ajuda de enquadramentos e profundidade de campo que leva nosso olhar a sempre procurar algo que parece estar escondido. Os inúmeros elementos visuais que permeiam o filme não são imprescindíveis para a apreciação, mas permitem que se desdobre o tema principal do filme, um mal latente que envolve que envolve a sociedade moderna, e como a família é elemento central de sedição interna, tendo a figura paterna o seu perpetrador. Preciso fazer uma revisão, mas pergunto-me se as constantes fotografias de presidentes envolvidos em escândalos (Clinton, Nixon) não configurariam um comentário político sobre a mentira, e como o seu pai ("pai da mentira") está entranhado nos intestinos político-sociais da sociedade estadunidense.
Ao contrário de outras produções baseadas em "Jornada para O Oeste", geralmente chinesas, essa é japonesa. Pelas informações do Wikipédia esse filme foi lançado em DVD em 2021 no Japão somente. Não encontrei cópias alternativas nem em sites especializados. Há uma análise dele em chinês no YouTube na qual podemos ver algumas cenas. O diretor, Kajirô Yamamoto, é mais conhecido por ter revelado um estreante Akira Kurosawa, na época apenas um diretor assistente, em alguns de seus filmes.
Meio que inevitável fazer um paralelo com o Coda (2017). Enquanto o filme anterior se detém no material histórico, motivacional e filosófico por trás da produção musical e estilística de Ryuichi Sakamoto, Opus (2023) se despe de qualquer artifício mais imediato de racionalidade ou complexidade, e foca exclusivamente na música e no instrumentista em seus momentos finais nesse planeta. Não há introdução, narração, ou mesmo legendas nomenando as peças para os não iniciados na música do compositor japonês (há os créditos no final).
A câmera de Neo Sora, filho do compositor, invariavelmente abraça detalhes como os mecanismos internos do piano, os martelos e abafadores, ou as expressões do seu pai, seja de concentração, satisfação ou mesmo esforço, como se tentasse visualmente se conectar com os aspectos mais íntimos de sua alma. É enternecedor ver tanto o compromisso emocional como a aplicação física do debilitado, mas ainda habilidoso artista, acionando cada tecla do piano. Em Coda, Sakamoto revelou sua fascinação pela ideia do som perpétuo. Aqui, agravado pelo seu estado físico, as músicas são tocadas em ritmo mais lento, mas a acústica permite que a reverberação da nota anterior se perpetue por alguns instantes antes da nota seguinte. Penso que Sakamoto adequou sua condição física há essa concepção musical de finitude, mas também de conexão e perpetuação.
Ainda que o foco seja a música, o filme procura manter um retrato fiel do momento crítico do músico. Em certo momento, ele falha numa das peças (Bibo no aozora), continua. Em outro momento balbucia alguma coisa que não entendo (não há legendas). É um filme que deve ser visto sob o contexto do momento, como uma despedida tanto de Sakamoto para a música, como um legado para os que ficam e apreciam sua obra. A última cena do filme é o piano sendo tocado, mas Sakamoto não está mais vísivel. A vida é curta, a arte é longa (Ars longa, vita brevis).
Gibel Otrara
3.5 1Restaurado em 4K. Na espera.
A Pequena Loja dos Horrores
3.6 240 Assista Agora"I'm mean and green" (o verde da planta, mas também do dólar). Não é a melhor crítica ao capitalismo, mas talvez a mais divertida. Tem cenas memoráveis, mas a do dentista/sádico Orin Scrivello (Steve Martin) são as minhas preferidas.
O Eternauta (1ª Temporada)
3.7 165 Assista AgoraSó não gostei que a questão política, tão presente na obra original ficou um tanto diluída e transformada aqui, algumas vezes substituída por uma visão mais espiritual/religiosa. No material original as personagens questionam por que não veio ajuda (se não me engano, as nações imperialistas haviam feito acordo com os invasores para que os países periféricos, o chamado 'terceiro mundo', servissem de sacrifício em troca de não oferecerem uma resistência coordenada em grupo). A série inova ao colocar a questão política principalmente referente ao trauma do conflito das Ilhas Malvinas, mas individualizando esse ponto a apenas algumas personagens (Juan Salvo, Rengo). A cerne da obra é uma defesa do espírito de coletividade, tanto dos sentimentos de temor quanto de ação cooperativa frente a uma adversidade. Individualizar o aspecto político meio que destoa um pouco da visão original de Oesterheld. Uma decisão acertada foi não revelarem de cara, como nos quadrinhos, o porquê do nome 'eternauta'.
The Last of Us (2ª Temporada)
3.5 463 Assista AgoraPrimeira temporada foi ok. Mas essa parece desleixada no texto. Mimetizam momentos chaves do game, mas sem uma construção dramática e a atmosfera condizente ao momento. A morte do Joel foi diluída dramaticamente pela invasão zumbi no segundo episódio, apenas para entregar mais cenas de ação. Ainda não sei o pensar sobre esse Tommy da série, que é bem diferente do material original. Os roteiristas parecem focar mais no senso de comunidade de Jackson que no aspecto humano das pessoas, que têm sentimentos extremos em situações extremas. Na série o Tommy prefere seguir as regras do grupo ao invés de se entregar a vingança pela morte do irmão. Vejo Last of Us (game) como um estudo sobre o círculo infinito de vinganças, e os traumas consequentes que modificam as pessoas que seguem essa trilha. Retirar o Tommy desse estudo me parece um erro. E esse terceiro episódio não me convenceu que a Ellie está transformada por essa sede de vingança. Aqui ela dissimula suas intenções, brinca, faz piadas, ao invés de estar flagrantemente obcecada por um objetivo. É muito diferente do material original, e tudo bem ser diferente, mas para mim está pior na temática da história.
Matem o Jóquei!
3.2 4Todo jockey precisa ser o mais leve possível para que tenha alguma chance de vitória. Precisa também ter um bom controle de seu cavalo. Ortega usa esses elementos do esporte para discutir o tema do valor das pessoas e da impossibilidade de controle da própria vida. Remo flutua e anda pelas paredes como um ser ainda indefinido, sem peso algum, sem valor no mundo. Há um olhar social aqui referente ao "peso/valor" das pessoas, evidente na cena no qual Remo/Dolores se dá conta dos moradores de rua e crianças desassistidas que vê durante sua saída do hospital.
El Jockey é um filme que lida também com o tema da morte e renascimento em suas mais diversas camadas. Nahuel Pérez Biscayart está fenomenal nesse aspecto. Ele se transforma de maneira impressionante durante o filme. O resto do elenco também é ótimo. Como Úrsula Corberó, no papel de Abril, que também passa por um processo de redescoberta pessoal. Há um toque de humor peculiar, planos performáticos, uma trilha sonora que varia entre o eletrônico moderno com a música sessentista argentina que me agrada. Essa abordagem que vai mais da sugestão e da performance, que não tenta exaurir o tema, ajuda a apreciação.
O surrealismo no filme é mais um verniz. Não há nada muito críptico. Talvez falte a parte do público alguma referência mais pessoal da cultura popular argentina. Falo especificamente sobre o personagem da morte no filme (o vaqueiro, interpretado por Jorge Prado), que é uma evidente referência a figura de Malevo Ferreyra, um chefe de polícia acusado de crimes durante a ditadura, que traumatizou uma geração ao se matar ao vivo durante uma entrevista na TV para evitar sua prisão.
Roma em Chamas
2.9 3 Assista AgoraDos restos do que restou da poderosa máfia italiana, com seus personagens doentes e decrépitos, vivendo a míngua, os grandes esquemas são tocados por setores corruptos da polícia. A cidade de Roma no filme, abalada por incêndios, sofre apagões intermitentes, como o personagem Daytona, que em momentos únicos volta a tomar consciência do que foi no passado. Mas o filme é mais que isso. Camello, doente terminal, irá morrer com a angústia sobre uma profunda amargura do passado, e vê em Manuel o filho que perdeu, e em sua derradeira ação a possibilidade de reparação psicológica. Abaixo da superfície crua e violenta das relações, o filme é um poderoso poema visual sobre culpa, redenção e paternidade.
Trilha Sonora Para Um Golpe de Estado
3.9 51 Assista AgoraEntre um forte texto que traça um paralelismo entre o colonialismo europeu na África com a segregação racial nos EUA, e o uso da cultura popular como soft power e cortina de fumaça para as maiores atrocidades do campo político em tempos de Guerra Fria, o documentário do realizador belga Johan Grimonprez é, como uma boa peça de jazz, virtuoso em criar um tecido inspirado de imagens alegóricas. Como as da figura de um elefante quase que a flutuar em águas turvas ou carregado por uma grua manipulada por homens brancos, que nos leva a imaginar o continente africano ora tentando seguir seus próprios caminhos, ora sendo manipulado pelas forças imperialistas ocidentais. É um filme que deve ser visto com paciência, há muita informação embasada por documentos textuais e visuais e testemunhos, mas o final impacta mais pela carga emocional. Em tempos na qual a ONU hoje é questionada sobre sua inutilidade frente a investida genocida de Israel, EUA e demais países do Ocidente, o filme já aponta que a ingerência no órgão vem de longe. A história de exploração do Congo e assassinato de líderes de forças de resistência como Patrice Lumumba é revoltante, mas não configura apenas o passado. O filme, em uma montagem que quebra expectativas, mostra que o problema continua. Os esforços contra a "ameaça comunista" já não existem, mas Fukuyama estava errado. Não é o fim da história. Inserções de comerciais de marcas como da Tesla e Iphone da Apple funcionam como um lembrete que o capital continua com seus olhos e membros nos recursos, como as minas de lítio, de países do Sul Global.
Jurado Nº 2
3.6 460 Assista AgoraEm uma cena quase para o desfecho do filme, a promotora (Toni Colleti) e o jurado (Nicholas Hoult) estão a conversar em um banco depois da decisão final do tribunal. Após o personagem do Nicholas sair de cena, com a câmera em plongée, se vê uma estátua da deusa Témis, símbolo da Justiça, com a sua balança de modo súbito a tremular convulsivamente ao vento, como a representar a indecisão moral sobre o conceito de justiça institucional discutido pelos personagens e pelo filme como um todo. Escolha inspirada do Clint que poderia ser a cena final. Entretanto, a conclusão escolhida lembra o desfecho de Mystic River (Sobre Meninos e Lobos), mas aqui sem a sutileza daquele clássico moderno. Mas isso não compromete o resultado final de mais um bom filme do veterano diretor estadunidense
Duna: A Profecia (1ª Temporada)
3.6 73 Assista AgoraPrimeiro episódio apenas, mas achei que foi qualquer nota, sem inspiração. Nenhuma dinâmica ou diálogo interessante. Introdução corrida, narrativa conservadora, altamente expositiva. Visualmente faz uso de cenas com alguns planos abertos ou flashes enigmáticos para mostrar alguma grandiosidade ou mistério que remete aos filmes/livros, mas aquelas mais fechadas, onde a trama e os diálogos acontecem, carecem de um requinte ou criatividade (tem uma cena numa casa de show que me pareceu deslocada completamente da ambientação deste universo). Interessante ver cenas relacionadas ao Jihad Butleriano (infelizmente não a versão do Frank), ainda que muito rapidamente. Entretanto, a série vai lidar mais com as consequências do evento. Apesar do esforço, muita coisa parece ser uma cópia dos filmes. Desmond Hart, por exemplo, parece propositalmente aludir ao Duncan do Jason Mamoa (com algo do Duncan/Hayt ghola dos livros). Seus poderes e agenda, entretanto, indicam que ele é algo mais. Emily Watson e Olivia Williams parecem comprometidas, mas o texto não me convenceu muito. Pelo menos nesta introdução.
Zoo - Um Z & Dois Zeros
3.7 8"Symetria ominus est". Um poema visual sobre simetria, arte, beleza e decomposição regado a um humor mórbido. Primeira contribuição do Greenway com o renomado fotógrafo Sacha Vierny (Noite e Neblina, Hiroshima mon amour, O Ano Passado em Marienbad). Para quem gosta dos jogos estéticos do diretor galês.
Atração Mortal
3.7 348 Assista AgoraCuriosidades bizarras sobre esse filme: o personagem Peter Dawson, interpretado por Jeremy Applegate, tem uma cena na qual pede a Deus para nunca cometer suicídio. Na vida real cometeu suicídio com uma espingarda em 2000. E a personagem Kim Walker, interpretada por Heather Chandler, que tem uma fala na qual diz “Você teve um tumor cerebral no café da manhã?", morreu em consequência de um tumor cerebral em 2001. A personagem para a qual a fala é dirigida é interpretada pela atriz Shannen Doherty, falecida em julho de 2024, também de câncer.
Tempo de Amar
3.8 10 Assista AgoraPelo que li, é um filme baseado em um conto sufi, que na tradição encara o caminho para o amor de modo místico. Isso ajuda a entender a abordagem aqui, menos verossímil, mais idealizada, ou poética. Na superestrutura as relações e ações das personagens parecem pouco críveis, mas de modo conceitual funcionam melhor, pois se trata aqui do contraste entre o amor por algo em abstrato ou idealizado ao invés do encontro com o real, do amor a uma representação que a figura real representada, da disposição a devoção a uma representação do olhar silencioso que a relação com algo que possa em algum momento se desalinhar em perspectiva. O caminho do amor seria a partir desse conflito interno, no tempo correto, finalmente encarar a concretude da relação amorosa.
Tecnicamente o filme abusa de uma tapeçaria de inspirados frames, planos e close-ups em preto e branco, e algumas excelentes blocagens que indicam as direções às vezes convergentes, às vezes divergentes do casal. Em termos de representação, talvez seja mal visto hoje a forma como se constrói a figura feminina (Meral), sempre solícita ao homem (Halil). Mas é interessante notar que a devoção de Meral por Halil é uma contrapartida a devoção deste pela sua (dela) fotografia. Halil é apaixonado por uma representação, por algo de divino que ele viu naqueles olhos, talvez. Mas Meral, a princípio, se apaixona por Halil por um conceito, por seu amor devoto e incondicional ao retrato. Em uma das cenas, Meral lê "A Arte de Amar", do poeta romano Ovídio, que é praticamente um "O Príncipe" de Maquiavel com relação ao amor. Portanto, há um jogo interessante aqui em relação ao que cada um vê ou procura no outro.
O final deixa claro que eles transcendem essa barreira, mesmo que brevemente.
A Dama das Camélias
4.0 66 Assista AgoraGarbo não convence. Em nenhum momento a fragilidade da personagem parece real, nem sua devoção por Duval. Atuação tão afetada quanto os suntuosos vestidos que ostenta durante o filme. Ser considerada por muitos a melhor performance da atriz sueca, causa-me espanto.
Uma História de Amor Sueca
3.6 59Uma curiosidade sobre esse filme, além da participação silenciosa de Björn Andrésen (Morte em Veneza, Midsommar), é a construção da personagem de Anita Lindblom (Eva), cantora sueca famosa nos anos 60. Entre o contraste da juventude primaveril, descobrindo o que a vida tem de melhor, com o nublado mundo adulto, imerso em frustrações, psicoses e violência doméstica, Eva é aparentemente um sarcástico comentário sobre a atribulada vida da atriz/cantora, que entre polêmicas com o fisco sueco, também manteve um casamento problemático, e sofria de colapsos mentais.
Levados Pelas Marés
3.6 15Filme mais musical do diretor. Feminista sem ser panfletário. Monotemático ao lidar com a radical transformação social da China moderna impelida pelo pujante crescimento econômico do país, Jia se reinventa ao usar material de filmes prévios em uma montagem que mescla experimentalismo com o tradicionalismo das histórias trágicas de amor, abraçando de maneira singular o velho e o novo, o tradicional e o moderno. Além da concepção ideológica, na forma se concretiza pelo contraste entre as gravações de baixa qualidade ao uso de uma câmera de alta definição com movimentação robótica, e também pela própria real transformação física visível de seus atores principais, Tao Zhao e Zhubin Li, em um espaço de quase 20 anos. Nesse ponto, ao usar material antigo como reciclagem para a concepção de um novo filme, Jia traz de modo engenhoso o conceito central de sua obra, da reinvenção e transformação do passado a um presente insólito, mas em seu âmago profundamente carregado de ancestralidade.
Bruges-La-Morte
4.2 1Disponível oficialmente:
vimeo . com /412529232
Hayao Miyazaki e a Garça
4.6 19 Assista AgoraTodo fã do Estúdio Ghibli sabe que um anúncio de aposentadoria de Miyazaki é praticamente uma promessa de um próximo filme no futuro. Por mais que seja viciado em trabalho, o tempo, entretanto, impõe seus limites ao cumprimento dessa quase profecia. Seus amigos e colegas de trabalho estão morrendo um seguido do outro, entre eles o seu mentor Isao Takahata, com quem manteve uma relação de admiração e rivalidade. O velho diretor parece sentir que precisa fazer um filme que tanto lhe ajude a manter ocupado, como lhe dê uma espécie de satisfação psicológica sobre o processo de envelhecimento e finitude. O documentário funciona tanto como uma celebração do espírito criativo, com também uma observação sobre a mente complexa do criador. Mas é menos uma análise técnica do processo de produção de "O Menino e A Garça" que uma investigação sobre seus mecanismos anímicos mais primários. Existe um outro filme que vi antes desse, chamado "2399 Days with Hayao Miyazaki & Studio Ghibli", que parece ser um esboço para esse filme. Parte do material bruto é semelhante, mas aqui há um trabalho melhor de montagem e desenvolvimento.
Mal do Século
3.6 101Interessante visão sobre despertencimento e isolacionismo que vai além das referências óbvias a AIDS. Só achei que atuação de Julianne Moore carrega mais o filme nesse sentido que o filme como um todo.
Gertrud
4.0 35 Assista AgoraGertrud é uma personificação do embate entre idealismo do coração e o materialismo da razão. Entre o fatalismo, marcado e assombrado em sonho e pela sua materialização na pintura de uma mulher nua atacada por uma matilha, e o livre-arbítrio que tanto defende e procura em seus relacionamentos, é difícil discernir no princípio onde se encontra a personagem meramente por suas ações e trejeitos. Seu olhar é quase sempre além, não encontrando o suposto receptor, como quem se fala para uma figura interior, na procura de um entendimento de si (o espelho). No final, a única figura no qual Gertrud manteve uma relação duradoura é com o escritor Axel, aquele que, ainda que não escondesse sua admiração, entendeu essa complexidade e não demandou dela nada além do que ela poderia lhe dar, a atenção e o respeito, e a única verdadeira liberdade de seu ser, a solitude.
Longlegs: Vínculo Mortal
3.2 934 Assista AgoraGosto como o filme não apela para "jump scares", ainda que pareça em alguns momentos que haja um preparo para tal tipo de artifício, restando ao espectador, contudo, uma atmosfera de constante espreita, com ajuda de enquadramentos e profundidade de campo que leva nosso olhar a sempre procurar algo que parece estar escondido. Os inúmeros elementos visuais que permeiam o filme não são imprescindíveis para a apreciação, mas permitem que se desdobre o tema principal do filme, um mal latente que envolve que envolve a sociedade moderna, e como a família é elemento central de sedição interna, tendo a figura paterna o seu perpetrador. Preciso fazer uma revisão, mas pergunto-me se as constantes fotografias de presidentes envolvidos em escândalos (Clinton, Nixon) não configurariam um comentário político sobre a mentira, e como o seu pai ("pai da mentira") está entranhado nos intestinos político-sociais da sociedade estadunidense.
Rei Macaco
1Ao contrário de outras produções baseadas em "Jornada para O Oeste", geralmente chinesas, essa é japonesa. Pelas informações do Wikipédia esse filme foi lançado em DVD em 2021 no Japão somente. Não encontrei cópias alternativas nem em sites especializados. Há uma análise dele em chinês no YouTube na qual podemos ver algumas cenas. O diretor, Kajirô Yamamoto, é mais conhecido por ter revelado um estreante Akira Kurosawa, na época apenas um diretor assistente, em alguns de seus filmes.
The Grim Game
3.0 1youtube . com /watch?v=jmPvYLZ0NbI
Les indiens sont encore loin
1Li que esse filme estava em processo de restauração, mas até agora nada. Achei apenas uma versão de qualidade sofrível.
Ryuichi Sakamoto | Opus
4.3 1Meio que inevitável fazer um paralelo com o Coda (2017). Enquanto o filme anterior se detém no material histórico, motivacional e filosófico por trás da produção musical e estilística de Ryuichi Sakamoto, Opus (2023) se despe de qualquer artifício mais imediato de racionalidade ou complexidade, e foca exclusivamente na música e no instrumentista em seus momentos finais nesse planeta. Não há introdução, narração, ou mesmo legendas nomenando as peças para os não iniciados na música do compositor japonês (há os créditos no final).
A câmera de Neo Sora, filho do compositor, invariavelmente abraça detalhes como os mecanismos internos do piano, os martelos e abafadores, ou as expressões do seu pai, seja de concentração, satisfação ou mesmo esforço, como se tentasse visualmente se conectar com os aspectos mais íntimos de sua alma. É enternecedor ver tanto o compromisso emocional como a aplicação física do debilitado, mas ainda habilidoso artista, acionando cada tecla do piano. Em Coda, Sakamoto revelou sua fascinação pela ideia do som perpétuo. Aqui, agravado pelo seu estado físico, as músicas são tocadas em ritmo mais lento, mas a acústica permite que a reverberação da nota anterior se perpetue por alguns instantes antes da nota seguinte. Penso que Sakamoto adequou sua condição física há essa concepção musical de finitude, mas também de conexão e perpetuação.
Ainda que o foco seja a música, o filme procura manter um retrato fiel do momento crítico do músico. Em certo momento, ele falha numa das peças (Bibo no aozora), continua. Em outro momento balbucia alguma coisa que não entendo (não há legendas). É um filme que deve ser visto sob o contexto do momento, como uma despedida tanto de Sakamoto para a música, como um legado para os que ficam e apreciam sua obra. A última cena do filme é o piano sendo tocado, mas Sakamoto não está mais vísivel. A vida é curta, a arte é longa (Ars longa, vita brevis).