Aula de cinema, eu amei a forma como as histórias são construídas em paralelo, parece que elas estão sempre próximas, mas nunca chegam a se cruzar de verdade, não até o momento inevitável.
É impressionante o trabalho de ambientalização, direção de arte é brilhante. É muito interessante a construção da narrativa, como o Kléber nos mostra o tempo todo que trata-se de um thriller, mesmo que haja toques de humor aqui e ali. O elenco é fenomenal, Wagner está realmente bem, eu curti como ele trabalha a voz para fazer um sotaque recifense, por vezes. Alice tem pouco tempo de tela, mas ela brilha. No geral, acho que é um dos melhores do Kléber, eu acho que só gostei mais de Aquarius, mas também pudera, como superar aquela atuação da Sônia Braga?
É totalmente diferente da grande maioria de histórias de fim de mundo, porque aqui o fim do mundo é só pano de fundo e ninguém tem esperança de salvar a humanidade, as pessoas só querem aproveitar o tempo que resta, vivendo. Só qui aí temos a Carol, que só queria viver sua rotina chata.
A jornada da Carol é muito impressionante e inspiradora.
O Bob era tão babaca como é apresentado no filme? O cara não é posto como um grande babaca, genial e único em sua arte, alguém que não sabe lidar com os sentimentos alheios. Me lembrou um pouco a biografia do outro Bob, o Marley, antes do filme eu tinha uma visão mais romantizada dos dois, sigo gostando da obra de ambos.
Eu estava olhando o trânsito quando o vizinho me recomendou esse filme. Vou admitir que foi desafiador assistir, porque o ritmo é lento mesmo, você tem que se acostumar com o tempo do protagonista, que não é um tempo de quem usa redes sociais, o tempo de quem não tem tempo para nada. A beleza está na leveza, em como um dia absolutamente tedioso para nós jovens, é perfeito para o coroa que tira uma foto e espera por ela ser revelada, que gosta de ver suas mudinhas crescendo, que cuida com carinho dos banheiros, é sobre isso, é sobre encontrar a beleza em lugares inimagináveis.
Eu não entendi porque de repente um cara malvado saiu atirando em todo mundo
, mas fora isso não tenho muito o que reclamar, as atuações compensam a falta de sentido. Aliás, a única coisa que tem sentido mesmo aqui é a crítica as políticas anti-imigratórias dos EUA.
Eu li uma boa parcela das HQ's, e altamente recomendo que qualquer um que tenha assistido a série e gostado do enredo que leiam também. Agora falando sobre a série, me parece muito bem construída, a presença do autor faz com que não exista muita margem para fugir da história original, e isso é um ponto positivo. Se o que desejamos ao assistir uma obra é que ela nos afete de alguma forma, acredito firmemente que não há como não ser tocado por esta história. É fantástico a maneira como elementos da mitologia são misturados com aspectos do mundo moderno, de tão bem-feito eu nem sei qual a real necessidade de um episódio extra, por mim poderia ter acabado no episódio 11. Master piece!
É absolutamente clichê em quase tudo, é paia que existam apenas 2 escolhas, sendo uma a de seguir em busca dos grandes sonhos enquanto a outra é ir rumo ao grande amor, mas a construção da narrativa é ótima, um filme bem amarradinho e perfeito para deixar a gente super iludido com o amor, ou seja, cumpriu o que prometeu.
Em 1985 Berenice Mendes produziu e dirigiu “A Classe Roceira”. Um filme que revelava um até então recém criado MST no sudoeste do Paraná. Um carro da polícia rodoviária federal surge em uma estrada em meio a quilômetros e mais quilômetros de hectares de plantações, um frente e outro na retaguarda, Há um grupo de pessoas, adultos, idosos e crianças, que entonam cânticos reivindicando uma reforma agrária. “1,2,3,4, 5 mil queremos reforma agrária no Brasil”. As pessoas param em um local, entonam o hino nacional em reverência.
Os acampamentos, repletos de crianças, com tetos e paredes de lona, agrupam-se da forma que é possível, enquanto seguem a rotina, os trabalhos domésticos como lavagem de roupas e preparo do alimento é majoritariamente feminino, revelando as relações de gênero dentro das comunidades, enquanto o trabalho no campo é mais generalizado. Berenice pergunta às pessoas o que pensam das condições em que vivem, o que comem e o que eles pedem ao Estado. Que tipo de reforma é esta?
A trilha sonora do filme é composta por músicas que soam como súplicas, contam a história do sofrimento de um povo que não pede nada além de um pouco de terra de onde tirar o seu sustento, e sobre a maldade do latifundiário que não pensa em nada além de seus lucros, segue judiando do pobre trabalhador rural.
Então aparece um latifundiário, falando sobre financiamentos de países como Holanda para invasores profissionais de terra, que segundo ele, são os líderes do movimento no Paraná. Talvez se o próprio latifundiário fizesse a experiência de colocar-se por alguns dias a dormir com estes que acusa de conspiradores e ladrões, ele mesmo poderia vir a tornar-se um apoiador da causa. A direção de câmera sabiamente usa a presença de um funcionário da fazenda do latifundiário, que permanece por algum tempo na tela, mas depois some após um zoom in. Agora as palavras conspiratórias do latifundiário ocupam mais o espaço, para que seja visto o lugar de privilégio e a cor da pele deste, então com um zoom out podemos ver novamente o funcionário negro, que permanece no mesmo lugar, fazendo a mesma função, no caso cinematográfico um elemento da mise-en-scène, que mostra as relações de raça e classes drasticamente expostas na película. Um dos coordenadores do Acampamento Salto da Lontra, Danilo diz: “A Reforma Agrária vai sair, por bem ou por mal”.
O filme de 2016 “Na Missão com Kadu” de Pedro Maia de Brito e Aiano Bemfica, que resolvem assinar a produção junto ao protagonista, o Kadu Freitas, morto em emboscada no ano anterior ao lançamento do filme, em 2015, exatos 30 anos após a produção de Mendes, parece em alguma medida ser uma resposta da realidade para o sonho ideal de Danilo. Se nos perguntarmos o que aconteceu com o sonho dele iremos perceber que três décadas depois não parece haver sinal da realização dele.
Os relatos de Kadu e sua família de luta em Izidora (MG) nos respondem que o sonho e a luta continuam em 2015, uma criança em seu colo pergunta “Eles vão matar a gente? Eles tem coragem de fazer isso?” e ele responde “Eles têm sim, mas não vão fazer isso, o tio Kadu tá aqui”. O desabafo de Kadu que sob efeito de gás de lacrimogêneo, com uma criança no colo, tendo testemunhado a truculencia da polícia PM-MG é um dos mais fortes retratos de como funciona a política neste país.
Sob um governo dito progressista, de Dilma Rousseff, que seguia comadando o Brasil no poder Executivo, havia já um Legislativo aparelhado pelo setor agrícola, a chamada “Frente Parlamentar da Agropecuária” que contava com 109 deputados federais e 17 senadores.
O relato de Kadu, abatido, contando sobre um sonho onde estava em um Bar, quando alguém chegava armado atirando, soa como uma visão profética do que estaria por vir.
O filme de Kadu é um simbolo de resistência do colonialismo tradicional, afinal de contas o colonialismo é caracterizado por duas coisas, a primeira é a apropriação indevida de terras para o lucro e a segunda o uso de violência para que esta ordem seja respeitada.
Se na película de Berenice Mendes há até mesmo o apoio institucional da Secretaria de Agricultura do Paraná, e uma polícia que parece cumprir com o dever de salvaguardar todos presentes em protesto, a PM-MG da segunda década do século XXI parece proteger outra coisa.
Por que dispersar, calar, machucar as pessoas que protestam na BR?
Porque elas atrapalham os caminhões repletos de grãos e de carnes que não podem esperar, os carregamentos que enchem os bolsos dos senhores de terra e que desde 1500 lucram com a miséria de muitos.
Se hoje já se vão quatro décadas desde que Berenice tenha nos revelado os primórdios do MST e uma década desde que a profecia de Kadu Freitas sobre sua própria morte tenha se cumprido, não há de fato sinais de que algum dia possa acontecer uma reforma agrária no Brasil. As balas de borracha, mas não somente estas, as balas de fuzis, seguem encontrando as pessoas que vivem como podem, em barracos, em ocupações irregulares, nas encostas, aos arredores dos grandes centros, enquanto o Agro vende na Rede Globo a ideia do “Agro é Pop, Agro é tudo”.
Durante toda a história do país as mesmas pessoas têm ditado o ritmo, vivemos na República dos Golpes.
A invasão de Portugal em 1500, o Golpe da Independência em em 1822, ou melhor, um acordo de cavalheiros, o pai ficou com Portugal, o Filho com o Brasil. Até que o neto, Dom Pedro II, sobe ao poder através de um novo Golpe, o da Maioridade em 1840. O jovem Imperador de 15 anos seguia sua vida de aristocrata e realeza, estudando e curtindo a vida, enquanto pelas sombras os senhores do dinheiro mandavam e desmandavam. Pouco menos de meio século depois veio um novo Golpe, o da República. Só trocaram mesmo os nomes.
Agora o sistema não somente era gerido escancaradamente pelos latifundiários, como o tal Coronelismo servia para garantir a permanência das mesmas pessoas no poder. A briga pelo poder levou inevitavelmente à disputas internas, já que o sistema do “Café com Leite” não servia mais para alguns.
Uma história de Aliança Liberal foi criada, tentaram tomar o poder de uma forma democrática, não conseguiram, Júlio Prestes venceu, desbancando Getúlio Vargas e João Pessoa. O assassinato de João Pessoa foi sabidamente devido à uma vingança pessoal de um ex jornalista que teve a vida destruída depois que o ainda Presidente (Governador) da Paraíba mandou invadir o seu escritório e conseguiu cartas de amor calientes que foram publicadas. Em Recife, o ex jornalista assassina o paraibano e se torna o bode expiatório perfeito, a tal da “Intentona Comunista”, e lá vem Getúlio Vargas marchando com o Exército do Rio Grande do Sul para a capital em 1930 e encerra a República Velha do Brasil, inaugurando o Estado Novo.
Vargas, dono de fazendas de café, usa e abusa do poder em favor dele próprio e seus iguais. Com a crise de 1929 os seus lucros despencaram, ele faz questão de comprar com dinheiro da União, café suficiente para abastecer 4 planetas terra, isso apenas para manter o preço da saca de café próximo à normalidade. Talvez venha daí a fraze “torrar dinheiro público”.
O fim do Estado Novo em 1945 com o retorno à democracia e a eleição do general Gaspar Dultra. As ameaças de novos golpes são frequentes, o próprio Vargas volta ao poder e muitos questionam se ele não poderia ser de novo o reizinho do pedaço, mas um novo golpe só vêm a ocorrer em 1961 quando Jânio Quadros renuncia à presidência da República, tornando o seu vice, João Goulart, que havia sido Ministro do Trabalho de Getúlio Vargas, o presidente do Brasil.
O congresso decide às pressas mudar o Sistema de governo de Presidencialismo para Parlamentarismo, até que em 1963 o resultado de um Plebiscito devolvesse os poderes do Executivo de volta à Goulart. No ano seguinte seria decretado o início da ditadura militar que encerrava-se em 1985, ano de lançamento de “A Classe Roceira”.
Há de se fazer essa conexão pois em 1985 havia a expectativa de que o novo Brasil finalmente levasse a cabo a tão necessária reforma que sempre que minimamente organizada por um governo, como foi no caso de Jango, fora violentamente desmembrada.
Em 2016, ano de lançamento de “Na Missão com Kadu” acontece o mais recente golpe bem sucedido, o Impeachmeant de Dilma Rousseff. Com deputados oferecendo os seus votos de golpe aos seus netinhos, houve até quem oferecesse a um dos maiores torturadores do período de regime militar, o ainda deputado federal Jair Messias Bolsonaro.
Talvez a única mudança significativa neste país, entre 1985 e 2025, seja a de que neste ano está havendo o julgamento no Supremo Tribunal Federal de um ex-presidente da República, o tal Jair Messias Bolsonaro, e alguns de seus ex-ministros, generais de alta patente, que organizaram a última tentativa de Golpe de Estado em 8 de janeiro de 2023.
A missão do Kadu e do MST continua, é a mesma luta dos povos originários, é preciso que aqueles que em 1500 começaram a tomar de conta deste território aceitem finalmente reparti-lo de forma “ampla, geral e irrestrita”.
Ainda preciso re-ver. Mas o que ficou da primeira impressão foi muito positiva. É um filme forte, eu tenho algumas ponderações sobre escolhas na mise-en-scène, mas o que importa mesmo é que é um filme sobre memória e esquecimento, é sobre não deixar que histórias como essa sejam esquecidas, é sobre o Alzheimer que o país parece sofrer porque elege quem glorifica a ditadura, porque a maioria não sabe de fato o que foi a ditadura, esse filme dá só um gostinho do que foi viver isso na pele, ele é necessário, podia ser obrigatório nas escolas de ensino médio do Brasil.
Narradores de Javé
3.9 277É bem interessante como há uma disputa constante pela fala e como assim a história vai se redesenhando. Boas atuações.
Os Infiltrados
4.2 1,7K Assista AgoraAula de cinema, eu amei a forma como as histórias são construídas em paralelo, parece que elas estão sempre próximas, mas nunca chegam a se cruzar de verdade, não até o momento inevitável.
O Agente Secreto
3.9 1,0K Assista AgoraÉ impressionante o trabalho de ambientalização, direção de arte é brilhante. É muito interessante a construção da narrativa, como o Kléber nos mostra o tempo todo que trata-se de um thriller, mesmo que haja toques de humor aqui e ali. O elenco é fenomenal, Wagner está realmente bem, eu curti como ele trabalha a voz para fazer um sotaque recifense, por vezes. Alice tem pouco tempo de tela, mas ela brilha. No geral, acho que é um dos melhores do Kléber, eu acho que só gostei mais de Aquarius, mas também pudera, como superar aquela atuação da Sônia Braga?
Nosso Sonho
3.8 223Um pouco arrastado, mas no geral um bom filme de biografia.
Lilo & Stitch
3.6 247 Assista AgoraNo geral funciona bem, é estranho, mas depois que você se acostuma ele flue bem.
Mufasa: O Rei Leão
3.5 225 Assista AgoraDesnecessário.
Carol e o Fim do Mundo
3.8 59 Assista AgoraEu amei demais.
É totalmente diferente da grande maioria de histórias de fim de mundo, porque aqui o fim do mundo é só pano de fundo e ninguém tem esperança de salvar a humanidade, as pessoas só querem aproveitar o tempo que resta, vivendo. Só qui aí temos a Carol, que só queria viver sua rotina chata.
Um Completo Desconhecido
3.5 234 Assista AgoraO Bob era tão babaca como é apresentado no filme? O cara não é posto como um grande babaca, genial e único em sua arte, alguém que não sabe lidar com os sentimentos alheios. Me lembrou um pouco a biografia do outro Bob, o Marley, antes do filme eu tinha uma visão mais romantizada dos dois, sigo gostando da obra de ambos.
Dias Perfeitos
4.2 599 Assista AgoraEu estava olhando o trânsito quando o vizinho me recomendou esse filme. Vou admitir que foi desafiador assistir, porque o ritmo é lento mesmo, você tem que se acostumar com o tempo do protagonista, que não é um tempo de quem usa redes sociais, o tempo de quem não tem tempo para nada. A beleza está na leveza, em como um dia absolutamente tedioso para nós jovens, é perfeito para o coroa que tira uma foto e espera por ela ser revelada, que gosta de ver suas mudinhas crescendo, que cuida com carinho dos banheiros, é sobre isso, é sobre encontrar a beleza em lugares inimagináveis.
Tubarão
3.7 1,2K Assista AgoraAssisi ontem pela primeira vez, achei bem chatinho e o final um tanto ridículo, mas é admirável pelos efeitos feito a 50 anos atrás.
Uma Batalha Após a Outra
3.7 652 Assista AgoraÉ muita maluquice, mas o ritmo na maior parte do tempo facilita a digestão.
Eu não entendi porque de repente um cara malvado saiu atirando em todo mundo
Homem com H
4.2 519 Assista AgoraUma atuação impecável de Jesuíta, uma das melhores filme-biografias musicais que já vi.
This Is Us (6ª Temporada)
4.7 282 Assista AgoraFinalmente não vou precisar chorar mais, porque eu não tinha mais lágrimas. Boa temporada, terminou bem mesmo.
Apocalipse nos Trópicos
3.8 188Muito bem construído, se conecta perfeitamente à "Democracia em Vertigem" e o timing é ideal, sendo lançado nos EUA, serve como um grande alerta.
Sandman (2ª Temporada)
3.9 125 Assista AgoraEu li uma boa parcela das HQ's, e altamente recomendo que qualquer um que tenha assistido a série e gostado do enredo que leiam também. Agora falando sobre a série, me parece muito bem construída, a presença do autor faz com que não exista muita margem para fugir da história original, e isso é um ponto positivo. Se o que desejamos ao assistir uma obra é que ela nos afete de alguma forma, acredito firmemente que não há como não ser tocado por esta história. É fantástico a maneira como elementos da mitologia são misturados com aspectos do mundo moderno, de tão bem-feito eu nem sei qual a real necessidade de um episódio extra, por mim poderia ter acabado no episódio 11. Master piece!
Uma Vida em Sete Dias
3.1 291 Assista AgoraÉ absolutamente clichê em quase tudo, é paia que existam apenas 2 escolhas, sendo uma a de seguir em busca dos grandes sonhos enquanto a outra é ir rumo ao grande amor, mas a construção da narrativa é ótima, um filme bem amarradinho e perfeito para deixar a gente super iludido com o amor, ou seja, cumpriu o que prometeu.
Na Missão, com Kadu
4.2 4COM KADU, A LUTA QUE AINDA CONTINUA
Em 1985 Berenice Mendes produziu e dirigiu “A Classe Roceira”. Um filme que revelava um até então recém criado MST no sudoeste do Paraná. Um carro da polícia rodoviária federal surge em uma estrada em meio a quilômetros e mais quilômetros de hectares de plantações, um frente e outro na retaguarda, Há um grupo de pessoas, adultos, idosos e crianças, que entonam cânticos reivindicando uma reforma agrária. “1,2,3,4, 5 mil queremos reforma agrária no Brasil”. As pessoas param em um local, entonam o hino nacional em reverência.
Os acampamentos, repletos de crianças, com tetos e paredes de lona, agrupam-se da forma que é possível, enquanto seguem a rotina, os trabalhos domésticos como lavagem de roupas e preparo do alimento é majoritariamente feminino, revelando as relações de gênero dentro das comunidades, enquanto o trabalho no campo é mais generalizado. Berenice pergunta às pessoas o que pensam das condições em que vivem, o que comem e o que eles pedem ao Estado. Que tipo de reforma é esta?
A trilha sonora do filme é composta por músicas que soam como súplicas, contam a história do sofrimento de um povo que não pede nada além de um pouco de terra de onde tirar o seu sustento, e sobre a maldade do latifundiário que não pensa em nada além de seus lucros, segue judiando do pobre trabalhador rural.
Então aparece um latifundiário, falando sobre financiamentos de países como Holanda para invasores profissionais de terra, que segundo ele, são os líderes do movimento no Paraná. Talvez se o próprio latifundiário fizesse a experiência de colocar-se por alguns dias a dormir com estes que acusa de conspiradores e ladrões, ele mesmo poderia vir a tornar-se um apoiador da causa. A direção de câmera sabiamente usa a presença de um funcionário da fazenda do latifundiário, que permanece por algum tempo na tela, mas depois some após um zoom in. Agora as palavras conspiratórias do latifundiário ocupam mais o espaço, para que seja visto o lugar de privilégio e a cor da pele deste, então com um zoom out podemos ver novamente o funcionário negro, que permanece no mesmo lugar, fazendo a mesma função, no caso cinematográfico um elemento da mise-en-scène, que mostra as relações de raça e classes drasticamente expostas na película. Um dos coordenadores do Acampamento Salto da Lontra, Danilo diz: “A Reforma Agrária vai sair, por bem ou por mal”.
O filme de 2016 “Na Missão com Kadu” de Pedro Maia de Brito e Aiano Bemfica, que resolvem assinar a produção junto ao protagonista, o Kadu Freitas, morto em emboscada no ano anterior ao lançamento do filme, em 2015, exatos 30 anos após a produção de Mendes, parece em alguma medida ser uma resposta da realidade para o sonho ideal de Danilo. Se nos perguntarmos o que aconteceu com o sonho dele iremos perceber que três décadas depois não parece haver sinal da realização dele.
Os relatos de Kadu e sua família de luta em Izidora (MG) nos respondem que o sonho e a luta continuam em 2015, uma criança em seu colo pergunta “Eles vão matar a gente? Eles tem coragem de fazer isso?” e ele responde “Eles têm sim, mas não vão fazer isso, o tio Kadu tá aqui”. O desabafo de Kadu que sob efeito de gás de lacrimogêneo, com uma criança no colo, tendo testemunhado a truculencia da polícia PM-MG é um dos mais fortes retratos de como funciona a política neste país.
Sob um governo dito progressista, de Dilma Rousseff, que seguia comadando o Brasil no poder Executivo, havia já um Legislativo aparelhado pelo setor agrícola, a chamada “Frente Parlamentar da Agropecuária” que contava com 109 deputados federais e 17 senadores.
O relato de Kadu, abatido, contando sobre um sonho onde estava em um Bar, quando alguém chegava armado atirando, soa como uma visão profética do que estaria por vir.
O filme de Kadu é um simbolo de resistência do colonialismo tradicional, afinal de contas o colonialismo é caracterizado por duas coisas, a primeira é a apropriação indevida de terras para o lucro e a segunda o uso de violência para que esta ordem seja respeitada.
Se na película de Berenice Mendes há até mesmo o apoio institucional da Secretaria de Agricultura do Paraná, e uma polícia que parece cumprir com o dever de salvaguardar todos presentes em protesto, a PM-MG da segunda década do século XXI parece proteger outra coisa.
Por que dispersar, calar, machucar as pessoas que protestam na BR?
Porque elas atrapalham os caminhões repletos de grãos e de carnes que não podem esperar, os carregamentos que enchem os bolsos dos senhores de terra e que desde 1500 lucram com a miséria de muitos.
Se hoje já se vão quatro décadas desde que Berenice tenha nos revelado os primórdios do MST e uma década desde que a profecia de Kadu Freitas sobre sua própria morte tenha se cumprido, não há de fato sinais de que algum dia possa acontecer uma reforma agrária no Brasil. As balas de borracha, mas não somente estas, as balas de fuzis, seguem encontrando as pessoas que vivem como podem, em barracos, em ocupações irregulares, nas encostas, aos arredores dos grandes centros, enquanto o Agro vende na Rede Globo a ideia do “Agro é Pop, Agro é tudo”.
Durante toda a história do país as mesmas pessoas têm ditado o ritmo, vivemos na República dos Golpes.
A invasão de Portugal em 1500, o Golpe da Independência em em 1822, ou melhor, um acordo de cavalheiros, o pai ficou com Portugal, o Filho com o Brasil. Até que o neto, Dom Pedro II, sobe ao poder através de um novo Golpe, o da Maioridade em 1840. O jovem Imperador de 15 anos seguia sua vida de aristocrata e realeza, estudando e curtindo a vida, enquanto pelas sombras os senhores do dinheiro mandavam e desmandavam. Pouco menos de meio século depois veio um novo Golpe, o da República. Só trocaram mesmo os nomes.
Agora o sistema não somente era gerido escancaradamente pelos latifundiários, como o tal Coronelismo servia para garantir a permanência das mesmas pessoas no poder. A briga pelo poder levou inevitavelmente à disputas internas, já que o sistema do “Café com Leite” não servia mais para alguns.
Uma história de Aliança Liberal foi criada, tentaram tomar o poder de uma forma democrática, não conseguiram, Júlio Prestes venceu, desbancando Getúlio Vargas e João Pessoa. O assassinato de João Pessoa foi sabidamente devido à uma vingança pessoal de um ex jornalista que teve a vida destruída depois que o ainda Presidente (Governador) da Paraíba mandou invadir o seu escritório e conseguiu cartas de amor calientes que foram publicadas. Em Recife, o ex jornalista assassina o paraibano e se torna o bode expiatório perfeito, a tal da “Intentona Comunista”, e lá vem Getúlio Vargas marchando com o Exército do Rio Grande do Sul para a capital em 1930 e encerra a República Velha do Brasil, inaugurando o Estado Novo.
Vargas, dono de fazendas de café, usa e abusa do poder em favor dele próprio e seus iguais. Com a crise de 1929 os seus lucros despencaram, ele faz questão de comprar com dinheiro da União, café suficiente para abastecer 4 planetas terra, isso apenas para manter o preço da saca de café próximo à normalidade. Talvez venha daí a fraze “torrar dinheiro público”.
O fim do Estado Novo em 1945 com o retorno à democracia e a eleição do general Gaspar Dultra. As ameaças de novos golpes são frequentes, o próprio Vargas volta ao poder e muitos questionam se ele não poderia ser de novo o reizinho do pedaço, mas um novo golpe só vêm a ocorrer em 1961 quando Jânio Quadros renuncia à presidência da República, tornando o seu vice, João Goulart, que havia sido Ministro do Trabalho de Getúlio Vargas, o presidente do Brasil.
O congresso decide às pressas mudar o Sistema de governo de Presidencialismo para Parlamentarismo, até que em 1963 o resultado de um Plebiscito devolvesse os poderes do Executivo de volta à Goulart. No ano seguinte seria decretado o início da ditadura militar que encerrava-se em 1985, ano de lançamento de “A Classe Roceira”.
Há de se fazer essa conexão pois em 1985 havia a expectativa de que o novo Brasil finalmente levasse a cabo a tão necessária reforma que sempre que minimamente organizada por um governo, como foi no caso de Jango, fora violentamente desmembrada.
Em 2016, ano de lançamento de “Na Missão com Kadu” acontece o mais recente golpe bem sucedido, o Impeachmeant de Dilma Rousseff. Com deputados oferecendo os seus votos de golpe aos seus netinhos, houve até quem oferecesse a um dos maiores torturadores do período de regime militar, o ainda deputado federal Jair Messias Bolsonaro.
Talvez a única mudança significativa neste país, entre 1985 e 2025, seja a de que neste ano está havendo o julgamento no Supremo Tribunal Federal de um ex-presidente da República, o tal Jair Messias Bolsonaro, e alguns de seus ex-ministros, generais de alta patente, que organizaram a última tentativa de Golpe de Estado em 8 de janeiro de 2023.
A missão do Kadu e do MST continua, é a mesma luta dos povos originários, é preciso que aqueles que em 1500 começaram a tomar de conta deste território aceitem finalmente reparti-lo de forma “ampla, geral e irrestrita”.
Deus É Brasileiro
3.0 354 Assista AgoraABSOLUTE CINEMA!
Ainda Estou Aqui
4.5 1,5K Assista AgoraAinda preciso re-ver. Mas o que ficou da primeira impressão foi muito positiva. É um filme forte, eu tenho algumas ponderações sobre escolhas na mise-en-scène, mas o que importa mesmo é que é um filme sobre memória e esquecimento, é sobre não deixar que histórias como essa sejam esquecidas, é sobre o Alzheimer que o país parece sofrer porque elege quem glorifica a ditadura, porque a maioria não sabe de fato o que foi a ditadura, esse filme dá só um gostinho do que foi viver isso na pele, ele é necessário, podia ser obrigatório nas escolas de ensino médio do Brasil.
Motel Destino
3.4 191 Assista AgoraLoucura, Loucura, Loucura.
Alien: Romulus
3.7 757 Assista AgoraÉ bonzinho, mas um pouco over the top com algumas escolhas. Mas vale o ingresso.
Conclave
3.9 827 Assista AgoraAquele filme que eu não dava nada e entregou tudo. Melhor filme da temporada by far!
A Substância
3.9 1,9K Assista AgoraUm verdadeiro show de horrores. Boas atuações. Bom roteiro. Eu só não sou fã de gore mesmo, mas pra quem curte tá aí uma boa pedida.
Haikyu!! A Batalha na Lixeira
4.2 22 Assista AgoraÉ bom.