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Últimas opiniões enviadas

  • Kirley

    Conhecido por seu trabalho um tanto discutível em Sete Psicopatas e um Shih Tzu, Martin McDonagh era considerado a aposta mais fraca do globo de ouro e ninguém imaginaria que seu filme azarão arrecadaria tantos prêmios, se tornando não só uma surpresa da noite, como despontando também como um possível candidato de peso para o Oscar.

    O novo trabalho de McDonagh funciona, sobretudo, por unir direção sólida a um roteiro dramaticamente coeso, que por sua vez é sustentado por atuações multifacetadas e de peso. Há no filme, por exemplo, um plano-sequência envolvendo um personagem sendo arremessado por uma janela, que é maravilhosamente bem executado. E embora em dois momentos a escolha de ângulos variados aliada à montagem possa ter resultado em uma edição de continuidade confusa, não há demérito técnico que diminua o filme.

    De certa forma, Três Anúncios é como um trabalho dos irmãos Cohen, desde que subtraída a acentuada tendência da dupla ao cinismo niilista. Não que aqui as doses de humor negro estejam ausentes, muito pelo contrário. Mas o grande mérito de McDonagh é que seu longa consegue ser politicamente incorreto sem abdicar de um forte senso crítico, que se mostra ao mesmo tempo atual, necessário e afiado.

    Exemplo disto é o diálogo entre os personagens de Sam Rockwell e Frances McDormand, em que se inicia uma discussão sobre ela ter usado a palavra crioulos, enquanto o policial preconceituoso sustenta que agora ela deveria dizer “pessoas de cor”. A terminologia aqui é absolutamente irrelevante: é o fato de estas pessoas serem torturadas gratuita e covardemente pelo policial que realmente importa.

    Há inúmeros exemplos que ilustram as críticas do longa ao conservadorismo interiorano americano, que termina por ser a face potencializada de muitos defeitos compartilhados pelo país. Não que Três Anúncios se renda aos estereótipos fáceis. Nossa primeira acolhida dos personagens pode parecer caminhar por este território, mas a aparente obviedade daquelas pessoas vai sendo paulatinamente expandida para uma quadro mais complexo ao longo do filme.

    Mildred Hayes, interpretada pela vencedora do Globo de ouro Frances McDormand, é um personagem complexo, cuja autoridade deriva não somente de sua enorme perda, mas igualmente do remorso que carregava pelos últimos momentos partilhados com sua filha assassinada.

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    Na sequência em questão, a discussão entre mãe e filha termina com ambas pronunciando o impronunciável, que evidentemente, nenhuma das duas teria o poder de prever que viria a se concretizar. O que importa, e é levantado aqui pelo filme, é quão terrível seria se as últimas memórias que guardamos de pessoas queridas fossem marcadas pelo conflito e por dizermos aquilo que jamais deveria ser dito. É um filme que fala sobre como esta culpa nos modificaria e consumiria posteriormente.

    Em uma espécie de contraponto a isto está o suicídio do xerife Willoughby, que embora tomando uma atitude extrema para poupar a família de presenciar a deterioração de sua saúde até o irremediável fim, faz de tudo para garantir que os derradeiros momentos passados entre seus entes queridos possam render uma última lembrança de alegria e descontração.

    É claro que o personagem de Woody Harrelson, que se estabelece como um sujeito de bom coração e devotado a família, é por outro lado um policial incompetente, e excessivamente complacente com os desvios de conduta cometidos pelo oficial Jason Dixon, personagem de Sam Rockwell. Este último é por sua vez exposto como o pior exemplo possível de um pensamento odioso que se traduz em ações ainda mais odiosas, em uma clara alusão à violência policial americana, tema cada dia mais relevante no país.

    Com este tabuleiro armado, é de se pensar que McDonagh elabore um filme com vilões claros e soluções fáceis, mas aqui acontece justamente o contrário, todos os personagens são complexos e de alguma forma condenáveis. O que não impede que cada um destes possa protagonizar também um gesto de decência para com o próximo.

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    Como faz o xerife, ao pagar pelo anúncio de Mildred. Ou o personagem de Peter Dinklage ao criar um álibi para Mildred, impedindo que esta fosse acusada de incendiar a delegacia, mesmo em face do fato de que esta, correta em muita de suas colocações, se equivoca ao não ver o anão como o ser humano que este é, mas apenas como uma piada.

    Nestas desconstruções de persona, o desenvolvimento do policial Jason Dixon é o mais surpreendente, pois a mensagem subjacente é também a mais tocante: Por vezes o que nos impede de sermos pessoas melhores é a ausência de palavras de incentivo bem colocadas, e no momento certo de nossas vidas.

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    São estas palavras de incentivo, que surgem da carta póstuma do Xerife Willoughby, que fazem com que o personagem reveja por completo sua conduta, uma vez que as palavras do policial morto clamam para que Dixon abandone seu ódio, e aceite que com empatia e amor, advém também calma e compreensão. Características que deveriam ser mais comuns nos agentes que cumprem a lei.

    O que nos leva por fim ao que seria a grande mensagem do filme: Devemos buscar pela justiça, mas não devemos nos deixar tomar por uma cólera ressentida. Temos diante de nós o livre arbítrio para agir mais amavelmente uns para com os outros, ou de continuar alimentando o interminável ciclo de ódio e auto-importância que desde o início dos tempos contamina o mundo e só faz gerar maior desentendimento.

    Assim, nos pequenos detalhes vemos a capacidade dos personagens para a empatia. Mildred, por exemplo, no início do filme desvira um besouro para que este possa continuar seu percurso. Em outra cena, a mulher principia um excelente diálogo com um cervo que surge próximo aos seus anúncios. São pequenos gestos que fazem lembrar a máxima do filósofo alemão Arthur Schopenhauer, que afirmava que a compaixão pelos animais estava intimamente ligada a bondade de caráter. Em outras palavras, quem é cruel com os animais não pode ser um bom homem.

    Também na relação de Dixon com sua mãe, ao seu modo bastante torto e incorreto, não se pode negar que há um verdadeiro afeto. E são justamente Dixon e Mildred que estão juntos ao final do filme, trazendo um encerramento relativamente aberto para a narrativa, que convida o espectador a uma reflexão.

    Entre tantas barbaridades que presenciamos, podemos ser levados a acreditar que não há Deus, que o mundo todo está vazio e que não importa o que façamos uns com os outros, como expõe Mildred ao cervo. No entanto, Três anúncios para um crime, assim como sua protagonista, espera que isto não seja verdade.

    Assim, em uma época de discursos extremos e polarizados, onde cada discussão da vazão à hidrofobia de um eterno fla-flu e é prelúdio para violência física e verbal, a mensagem que Três Anúncios nos trás deve ser levada em consideração. Sejamos críticos e busquemos justiça, mas não nos deixemos alimentar pelo rancor em nossa busca. Pois como diria um sábio ditado, olho por olho, dente por dente, e terminamos todos cegos e banguelas.

    Ps: É provável que Frances McDormand faça uma dobradinha com o Globo de Ouro e leve também o Oscar de melhor atriz este ano. Sua atuação neste filme é irretocável.
    Fica registrada a torcida.

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  • Kirley

    Quando em 2016 foi anunciado que pintores profissionais haviam sido convocados para reproduzir os trabalhos a óleo de Vincent Van Gogh em 56.800 imagens diferentes, que resultariam em uma nova cinebiografia sobre o pintor holandês, foi compreensível e justificado todo furor resultante deste trabalho incomum.

    É palpável já nos primeiros segundos de exibição de Loving Vincent o carinho que os realizadores investiram na realização deste filme. Uma obra que acarinha aos olhos, mas que também fez o dever de casa ao se preocupar em vasculhar o confuso manancial de relatos e escritos que formam o retalho biográfico dos últimos dias da vida de Vincent Van Gogh.

    A solução adotada pelo roteiro, de transformar este percurso nas inquirições de um personagem que termina por juntar as peças junto ao público, é muito boa. Além de ser o mesmo caminho que os primeiros biógrafos do pintor tiveram de percorrer.

    No entanto, o que é feliz em conceito e imagem, não permanece desta forma em termos de execução. O início do longa é apressado, incongruente com a imersão visual necessária a história contada. Há também neste primeiro ato alguns problemas de montagem, muito embora seja compreensível a dificuldade técnica em aliar narrativa, edição e montagem ao trabalho manual de pintura a óleo de cada frame – vale destacar também os flashbacks feitos à lápis e carvão, muito similares aos inúmeros esboços e estudos feitos por Vincent -.

    O filme só encontra seu ritmo e tom ao final do primeiro ato. E embora a narrativa simples seja uma forma eficaz para atrair uma faixa de público mais heterogênea, acaba sendo também fator responsável por tornar o filme um tanto quanto superficial em sua abordagem.

    Focar no período post-mortem e nos últimos dias de Van Gogh tem seus prós e contras, mas a maior falha reside no nível mais fundamental: Faltou vermos mais Vincent em tela. Por mais que cada cena seja pontuada por um quadro do pintor, sua persona e sua voz estão muito diluídas e distantes no ponto de vista narrativo adotado aqui.

    E com isso perdemos também momentos interessantes da biografia de Vincent, como seu período como missionário no Borinage, região carvoeira da Bélgica. Um lugarejo pobre e miserável, descrito na época como “carcomido por uma enorme chaga”. É também este um dos primeiros momentos em que Vincent entrou em um quadro depressivo grave.
    Muito embora, em 1879 após uma explosão de gás metano em uma mina, acidente que levou uma coluna de fogo aos céus que era visível a vários quilômetros de distância, Vincent tenha se empenhado em ajudar aos feridos e seus familiares.

    Também fica de fora outro período dramático de sua existência, quando novamente em uma de suas espirais depressivas – o pintor era provavelmente bipolar – ele se descuidou tanto que perdeu todos os dentes da boca.

    A verdade é que não faltam exemplos dos infortúnios e tragédias que assolaram a vida de Van Gogh. Mas há problemas biográficos maiores aqui, como a romantização de certos personagens. Adeline Ravoux era lamentavelmente uma pessoa ciosa de atenção, que cada vez que era procurada para uma entrevista mudava seu relato sobre os dias fatídicos de Vincent em Auveurs.

    Doutor Gachet aparece um pouco mais vilanizado do que deveria, já que o sujeito muito provavelmente era uma figura mais inócua do que o filme supõe. O filme parece sugerir também que o médico poderia ter salvo Van Gogh de seu ferimento, mas Gachet era um oftalmologista e não tinha competência cirúrgica para remover a bala do holandês sem causar risco de morte.

    Outro mito corroborado levianamente pelo filme é a famosa orelha cortada. Pois não, Vincent não cortou toda a sua orelha, mas tão somente um pedaço desta e durante um surto psicótico. E não, ele não presenteou aleatoriamente uma prostituta com o embrulho sangrento. Na verdade o pintor saiu nas ruas de Arles em busca de Gauguin.

    Sabendo que o Bordel era um dos lugares mais frequentados pelo pintor francês, Vincent tentou ir até o local para confrontá-lo. Contudo foi barrado na entrada do recinto por um vigia que ficou alarmado pelo estado frenético e ensanguentado do holandês. Em um gesto desesperado então, Vincent pediu ao vigia que entregasse o embrulho com um pedaço de sua orelha à prostituta favorita de Gauguin. Com isto Vincent esperava não apenas surpreender o amigo-da-onça, mas ilustrar o estrago emocional que este lhe causara. Todavia o francês falastrão não se encontrava no bordel e a confusão em torno do gesto de Vincent já estava feita.

    Mais do que ausências ou alterações, no entanto, me incomoda no filme a falta de coragem para desmentir o mito do suicídio perpetrado pelo pintor. Já que Vincent amava a vida, fato que está palpável em alguns relatos e momentos do longa. O que não foi dito, é que o pintor condenou em diversas ocasiões o suicídio em sua correspondência, e de forma veemente. Além disto, é perceptível que se havia alguma imagem que sondava sua mente em termos de auto-dissipação, esta diria respeito ao afogamento.

    Vincent, aliás, não só nunca tocou em uma arma de fogo, como nutria certo desprezo pelo aparato. E aí vem a segunda e maior covardia do longa: Não afirmar categoricamente e em todos as letras que o disparo que matou Van Gogh partiu de René Secretan. Todos os relatos da época levam a crer que o sujeito se tratava não só de um playboy arruaceiro, mas provavelmente de um sociopata. Não surpreende que tenha terminado como banqueiro, “pai de família e homem respeitável” ao final da vida.

    Vincent também não era exatamente amigo de René como faz acreditar a narrativa, e sim de seu irmão Gaston. Verdadeiro avesso do outro Secretain, este era um rapaz introvertido e com gosto pela arte, que posteriormente veio a trabalhar no cinema mudo – mas que lamentavelmente nunca foi entrevistado a respeito de Vincent -. É possível que ao preferir que ninguém levasse a culpa pelo ocorrido, ele protegesse muito mais à Gaston do que ao irmão René.

    Quanto à falta de confissão na derradeira entrevista que René deu a Marc Traubault, um dos biógrafos de Van Gogh, é ou sintoma de sua ausência de remorso, ou na melhor das hipóteses, a confirmação de um infeliz acidente pelo qual ele se recusava a se sentir culpado.

    Loving Vincent faz com o caso um gesto de Pilatos e fica a cargo do espectador escolher aquela versão que mais lhe apraz, se o suicídio, ou a morte nas mãos de um adolescente abastado e inconsequente. Mas a verdade é que não vale falarmos do fim de Van Gogh, quando o pintor preferiria muito mais que olhássemos para sua vida e sua obra. Vincent não procurou a morte, mas uma vez que esta se apresentou, também não a recusou. Assim ele não seria mais um fardo para o irmão ou qualquer outra pessoa, como o filme expôs.

    Neste espírito, os momentos finais de Loving Vincent não são apenas muito belos, mas também muito inspirados. Quando a voz epistolar do pintor nos diz:
    “Quem sou eu aos olhos da maioria das pessoas? Um ninguém. Uma não-entidade, uma pessoa desagradável. Alguém que não tem e jamais terá qualquer posição na sociedade. Em suma, o mais baixo do baixo. Muito bem... mesmo que isso seja absolutamente verdade, então um dia gostaria de mostrar, através da minha obra, o que este ninguém, esta não-entidade, tem em seu coração.”

    Uma das obras referenciadas na cena em que acontece este discurso é “O semeador”, versão de um quadro de Jean-François Millet, pintor francês realista e grande “muso” de Van Gogh. Para além da influência temática, o semeador era uma figura que acompanhava Vincent desde a infância. Nos sermões do pai, Dorus Van Gogh, a figura do semeador trazia não apenas o sentido da parábola de Paulo, ou seja, “tudo o que o homem semear, também colherá”. Dada a região arenosa, prenhe em pântanos, e difícil de cultivar em que viviam, o semeador representava também um modelo da perseverança diante da adversidade, afirmando o poder da persistência em vencer todos os obstáculos, em triunfar de todos os reveses.

    É por isto que Vincent com seu trabalho de Sísifo, intenso e breve, teria se alegrado ao ver uma de suas imagens favoritas ligada ao discurso mais puro de seu coração que tanto e tão dolorosamente sentia. Loving Vincent, embora com tantos defeitos, é ainda uma realização que encanta e emociona. Pois é inegável que a obra do pintor o alçou para além da “estupidez vazia e da tortura sem sentido da vida”.

    Afinal, “as ilusões podem desaparecer, mas o sublime permanece”.

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  • Kirley

    No ano de 2015 J.J. Abrams recebeu a tarefa hercúlea e quase ingrata de dirigir e roteirizar o filme que iniciaria a nova franquia de Star Wars no cinema, dando continuidade a saga 30 anos depois do fim apresentado em Episódio VI – O Retorno de Jedi.

    Abrams, que já havia sido relativamente feliz em seu reboot de outra franquia espacial, Star Trek, conseguiu ser bem sucedido em seu teste de fogo, entregando um longa deferente ao material de origem, mas com suficientes elementos novos para fazer com que se criassem expectativas pelo oitavo capítulo da saga.

    Mesmo que para isso, a bem da verdade, J.J. tenha trazido em Force Awakens uma volta ao mundo de Star Wars, seguida por uma introdução aos novos personagens, e uma breve apresentação da premissa que moveria a trama. Relegando assim às sequências o material verdadeiramente novo que os fans tanto aguardavam. Uma escolha que de certo decepcionou a alguns espectadores, que viram no episódio VII nada mais do que um pastiche da trilogia original. Gostos e opiniões à parte, este era um caminho narrativamente necessário para não apressar demasiadamente a história.

    Tudo isto dito, é também importante lembrar que a qualidade do trabalho técnico em Force Awakens é indiscutível, deixando para o sucessor de J.J. na direção, Rian Johnson, uma tarefa ainda mais ingrata do que a sua havia sido, já que Rian precisaria não só se equiparar tecnicamente ao diretor anterior como superá-lo narrativamente.

    Passados dois anos, cá estamos nós com Os Últimos Jedi, oitavo filme da série e que começa precisamente de onde parou seu antecessor. De fato Johnson não decepcionou na direção, ouso até dizer que conseguiu ser ainda melhor do que J.J. Abrams, não só na condução do filme, mas sobretudo, em termos de narrativa, por se manter fiel ao original, mas através de uma distância respeitosa, assumindo os riscos necessários para que a saga vivesse algo realmente novo. Coisa que havia faltado ao episódio anterior.

    Na direção, Johnson usa e abusa das tomadas em perspectiva, onde faz o público sentir a imensidão das naves no espaço, algo muito parecido com o que já havia feito Gareth Edwards em Rogue One, um filme onde a diferença de escala entre os objetos é muito bem trabalhada e evidenciada. A diferença, é que aqui o diretor alia uma perspectiva típica de lentes grande-angulares, distorcidas, com o a tecnologia 3D, criando naves que literalmente saltam da tela, mais do que em qualquer outro dos filmes da saga. Uma evolução natural e bem sucedida dos expedientes visuais utilizados por George Lucas no original de 77.

    Johnson e o diretor de fotografia Steve Yedlin – que já havia trabalhado com o diretor em Looper, A Ponta de um crime e Vigaristas – aproveitam ao máximo as belas locações reais ou artificiais para dar vazão a texturas, luzes e cores diversas, apresentando, junto ao excelente trabalho da direção de arte, o que é provavelmente um dos filmes mais visualmente ricos e vistosos da saga.

    Quanto ao roteiro, este brinca com as expectativas de quem assiste ao filme, subvertendo muito do que esperamos narrativamente, ou mesmo quebrando teorias e hipóteses levantadas pelos fans nestes anos de espera pela sequência.

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    O retorno de Luke Skywalker, por exemplo, é muito diferente do esperado, mas o filme é bem sucedido em justificar as mudanças no personagem, e lhe permite uma despedida visual e narrativamente bela: Vendo pela última vez um pôr-do-sol binário, Luke está se ligando ao momento do início de sua jornada em Tatooine, quando observou o mesmo fenômeno depois do desaparecimento de R2D2. Em resumo, é um ciclo que se fecha de forma redentora e harmônica para o personagem, assim como para a saga.

    O senso de perigo e urgência neste filme é algo que eu não via em muito tempo no cinemão de grande bilheteria, já que por diversas vezes o espectador se vê assistindo ao pior acontecer, e em outros momentos até espera pelo pior, embora este não aconteça.

    Johnson brincou com nossos sentimentos de todas as formas possíveis. Esperamos Luke como um novo Obi-Wan, mas isto não acontece, assim como Rey também não é uma nova Skywalker. Ou mesmo o líder Snoke – maravilhosamente interpretado por Andy Serkis - que não será um novo imperador. Este é um filme que investe muito em quebras de expectativa narrativa e cria um dos capítulos mais sombrios da história de Star Wars. É também, aliás, uma história que demole por completo a tendência maniqueísta que sempre ameaçou Guerra nas Estrelas.

    Entre as queixas que o filme suscitou, há uma a respeito de certa cena em particular que não tem o menor fundamento.

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    A sequência em questão é quando Leia usa a força para sobreviver a um curto período no espaço e flutuar de volta a sua nave. A contestação é uma grande besteira, pois na saga original foi expresso que sendo ela também uma Skywalker, Leia poderia e iria desenvolver o uso da força, coisa que o universo expandido não se negou em mostrar, e que foi negligenciado no episódio VII – aliás, este filme trás uma bela atuação da saudosa Carrie Fisher, assim como a interpretação mais poderosa de Mark Hamill no papel de Skywalker -. Ademais, a atual saga faz crer desde o episódio anterior que momentos de tensão ou risco de vida podem fazer aflorar a força – pensem nos momentos em que Rey encontra-se cativa de Kylo Ren em Despertar da Força.

    Os subtextos apresentados pelos diálogos deste filme são um êxito à parte. Desde a autocrítica que Luke faz a empáfia farisaica da antiga ordem Jedi, às analogias feitas aos próprios fans da saga, quando o personagem diz que a força não pertence a ninguém, ou que é tempo de deixar que certas coisas morram no passado. A força neste filme, assim com os Jedi, são tirados de seu pedestal, podendo a primeira reascender ao seu posto místico e transcendente original, enquanto os outros finalmente podem ver-se como falhos e disto tirar seu maior aprendizado.

    Por mais que nem todos tenham se contentado com o segmento de Finn e Rose Tico na cidade cassino de Canto Bight, é dali que vêm um dos diálogos mais afiados do filme, e minha menção favorita até o momento. Rose analisa, com muita razão, que uma cidade como aquela, luxuosa, voltada para a pompa e o divertimento dos ricos e poderosos, não se cria puramente com boa vontade e desejo por diversão. Com frequência é o sofrimento que financia todo este luxo. Algo que pode se relacionar tanto à Hollywood cercada de escândalos escabrosos em sua história, até exemplos históricos como a Bélgica, país bem desenvolvido e rico do primeiro mundo, cuja riqueza se fundamentou basicamente no espólio da África, chegando a causar o que é conhecido – lamentavelmente por poucos – como o holocausto do Congo, já que mais de 10 milhões de pessoas foram mortas na colonização do país.

    O filme também é direto ao apontar uma verdade incomoda e largamente ignorada: São os fabricantes de armas os únicos a realmente lucrar com a guerra. Seus armamentos vão para ambos os lados, sem discriminar ideologias e causas, afinal, são todos clientes em potencial uma vez que queiram se matar uns aos outros.

    Passando agora dos acertos aos erros, há ao menos uma solução apressada no roteiro, que faz com que o filme pareça ter um furo narrativo, embora seja possível juntar os pontos prestando-se atenção aos acontecimentos apresentados. Não se trata, portanto, de algo que prejudique irremediavelmente o longa.

    Assim, depois de duas horas e meia, fica claro que The Last Jedi se mostra como um filme que injeta folego novo ao cânone de Star Wars por ser audacioso na medida certa. É além disto, um competente trabalho da parte de Rian Johson, que virando o jogo, deixou uma tarefa difícil nas mãos de J.J. Abrams para o encerramento da saga.

    Apesar de tudo isto, não é um filme perfeito. Emocionante e impactante? Sim! Mas ainda perde para a completude de O Império Contra-Ataca, o melhor filme da saga, cinematográfica e narrativamente. Não que The Last Jedi faça feio, porque este é seguramente um filme memorável e que repousará com dignidade junto a seus irmãos mais velhos numa galáxia muito, muito distante.

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  • Filmow
    Filmow

    O Oscar 2017 está logo aí e teremos o nosso tradicional BOLÃO DO OSCAR FILMOW!

    Serão 3 vencedores no Bolão com prêmios da loja Chico Rei para os três participantes que mais acertarem nas categorias da premiação. (O 1º lugar vai ganhar um kit da Chico Rei com 01 camiseta + 01 caneca + 01 almofada; o 2º lugar 01 camiseta da Chico Rei; e o 3º lugar 01 almofada da Chico Rei.)

    Vem participar da brincadeira com a gente, acesse https://filmow.com/bolao-do-oscar/ para votar.
    Boa sorte! :)

    * Lembrando que faremos uma transmissão ao vivo via Facebook e Youtube da Casa Filmow na noite da cerimônia, dia 26 de fevereiro. Confirme presença no evento https://www.facebook.com/events/250416102068445/

  • Eliz
    Eliz

    Eu fiquei mais isolada com o tempo por causa da depressão, que às vezes melhora, outras piora, mas sempre vou tentando levar... Mas como tu diz, para manter a sanidade eu tento manter contato e conversar com pessoas que eu gosto e são legais.
    Sim, adoraria conversar em breve... Ah, e sem querer ser invasiva notei que se rendeu ao tumblr também, irei te seguir, se estiver tudo bem.

  • Eliz
    Eliz

    Eu sei que essas coisas acontecem, que na internet ou na vida real as pessoas simplesmente se afastam, mas é que nesse caso foi de um jeito tão estranho que eu fiquei pensando... Até porque tem algum tempo que eu voltei pra internet, e tentei manter contato com uns velhos amigos virtuais e tenho falado com eles ás vezes. Mesmo que não seja a mesma coisa, eu gosto da ideia de manter contato. Porque no fim, nunca foi minha intenção afastá-los.
    Fico feliz que me adicionou ^^