O apelo de um jogo como Minecraft está no seu elemento “sandbox”, em ser um espaço aberto repleto de ferramentas para os jogadores se sentirem um pouco exploradores e um pouco co-criadores dessa terra quadrada e fantástica. Os fragmentos narrativos oferecidos aqui e ali montam um quebra cabeças que se completa com o protagonismo e a imaginação do jogador. A aventura deixa de fazer sentido se você para de engajar e exercer esse papel ativo nela. Um filme de Minecraft, portanto, nunca foi uma ideia muito boa pra início de conversa. Mas, até aí, um filme de Lego parecia fazer tanto ou menos sentido quanto e acabou se justificando e sendo sensacional.
O que tinha em Uma aventura Lego e falta em Um filme Minecraft é criatividade. Muito ironicamente, pois este é não só o elemento central da identidade da marca como o assunto explícito do filme, seu mais forte tema, se conseguimos encontrar algum. O “arco” de Henry gira em torno de ele ser tipo um gênio, super inventivo, apesar de o máximo que ele constrói nesse mundo ilimitado ser uma torre sem graça e uma arma de atirar batatas. Parece até piada, enquanto as piadas propriamente ditas do texto não fazem rir.
Extremamente sem graça também é a trama aqui, a própria definição de “qualquer coisa”. Talvez se escolhessem um único foco narrativo e protagonista funcionasse melhor. Ou as aventuras do explorador Steve, ou a volta por cima do Lixeiro, ou a superação dos traumas e o amadurecimento de Nat e Henry. O tom geral de leveza e comédia do filme se sustenta sobre o carisma de seus atores e suas personas que se confundem com as dos personagens, especialmente Jack Black e Jason Momoa. Até porque não há muita substância em qualquer deles, então o que sobra é o carisma natural mesmo.
Fora isso, os efeitos visuais são competentes, o cenário 100% fabricado do “mundo superior”, os bloquinhos, vivos ou decorativos, se materializam e interagem bem nas cenas. Nada muito impressionante ou inspirado, mas o digital sobre a tela verde funciona. A esquete de Jennifer Coolidge e seu namoro com um dos aldeões (NPCs genéricos) que escapa do jogo para o “mundo real” é algo totalmente deslocado e bizarro que pelo menos isolado também funciona como comédia do absurdo. Mas são raros até esses momentos absurdistas mais escrachados. Difícil de defender.
Este é um filme de Páscoa raiz, hardcore, católico/crente “na veia”. O episódio da paixão de Cristo nesta retratação visceral de Mel Gibson faz suas escolhas de modo a torturar o espectador junto ao Deus vivo e filho de Deus dos cristãos e nem falo isso no mal sentido. O martírio, a via crucis, o sacrifício expiatório pelos pecados do mundo se potencializa nesta lente que se aproxima das feridas em carne viva, parece sádica, mas nunca deixa de prestar reverência à figura de seu protagonista trágico. Afinal, trata-se literalmente da maior tragédia que já existiu, seu arquétipo e realização supremos na História.
Anunciado por profetas desde o Antigo Testamento, Sua vida, Seu evangelho e Sua morte transformam e dão sentido à própria Criação. A traição de Judas, a humilhação que Ele é obrigado a passar, injustamente cuspido, escorraçado, espancado, açoitado, e por fim, pregado, crucificado, perfurado e morto, tudo isso em razão da iniquidade e crueldade do povo (e o filme bem mostra a relativa indiferença dos governantes enquanto o próprio povo e em especial seus religiosos o condenam), levam à Salvação desse mesmo povo, em ato de puro Amor. Ao mesmo tempo a Tragédia das tragédias, uma luta inescapável frente ao Destino, o Cristo Ressuscitado oferece o final feliz inexistente na época dos gregos e seus deuses mesquinhos, presos a um pós-vida imutável e sombrio. Quando volta da mansão dos mortos, Cristo abre as portas para todos os heróis e santos do passado e do futuro poderem passar. Todas as tragédias viram (divina) comédia. Mas não deixa de sofrer, se lamentar, pedir por misericórdia, porque Deus se fez Homem de carne e ossos, suor e sangue.
A partir dessas ponderações ou qualquer reflexão filosófico-narrativa-poética-teológica inspirada pelo filme, pode-se observar que, neste caso, a arte e o seu sentido religioso se misturam muito profundamente, sendo impossível uma análise desassociada, pois se perderia toda a essência e o valor daquilo ignorando a questão da Fé dos seus realizadores, demonstrada na forma que o filme assume. Apenas uma pessoa, senão católica, muito influenciada pela visão católica do mundo e por sua leitura específica da Paixão, condensaria toda a vida de Cristo em suas últimas 12 horas para buscar nelas todo tipo de simbolismo e associação com suas experiências pregressas. Dentro dessa cosmovisão era a decisão óbvia, porque está tudo ali.
Maria, Madalena e os apóstolos participam desse momento decisivo, epicentro narrativo e da História civilizacional, do Getsêmani (escuro, de atmosfera densa), ao Calvário (árido, brutal), como as testemunhas que foram e também funcionam na estrutura do filme como esses ganchos para pontuar passagens específicas do Evangelho em meio a toda a dor excruciante, jamais diluída. Muito pelo contrário, a câmera se demora e cria cenas fortes, difíceis de ver, do martírio. O Cristo de Caviezel carrega dor, muita dor, e bondade piedosa no olhar, mesmo quando quase não conseguimos mais ver um dos seus olhos pelos ferimentos e pelo sangue. Aliás, a físicalidade na atuação do ator impressiona pois precisa ser forte e frágil ao mesmo tempo, sofrida e resiliente. Não diria que é simples representar a Carne e o Sangue, sagrados na liturgia católica, o Pão e o Vinho eucarísticos, mas conseguiram de alguma maneira.
Não compreendo totalmente o preciosismo de Gibson em querer usar os antigos aramaico e latim como as línguas faladas no filme, mas aplaudo a coragem de levar a cabo essa ideia. Acaba ajudando na contextualização e imersão. Mesmo que seja dramatizado do mesmo jeito, não é documento histórico, Jesus não falando inglês moderno mas uma língua que soa estranha e antiga aos nossos ouvidos me parece mais correto, menos incômodo. Essa preocupação aparece também na reconstrução da época, apesar de um ar de teatralidade e de nunca entendermos totalmente a geografia dos lugares. Não nos perdemos na mise-en-scene, mas o que quero dizer é que existe qualquer coisa de genérica nessa Jerusalém do filme, não diria que como uma novela bíblica da Record, pois é bem melhor realizada do que isso, porém é essa mesma ideia de oriente que orienta a encenação. A base pode até ser histórica, mas falta mais especificidades. A cidade não é personagem.
Por outro lado, Pilatos (Hristo Shopov) ganha uma dimensão interessante justamente nesses detalhes de caracterização, nessas especifidades, que lhe dão um caráter mais austero e sóbrio, contrastante com a vilania de um Caifás (Mattia Sbraglia), a fanfarronice de um Herodes (Luca de Dominicis), a bizarrice de um Barrabás (Pietro Sarubbi). E, dentro desse lado antagonista, há ainda uma curiosa representação do próprio Antagonista, andrógeno, assustador e sempre à espreita, carregando cobras e bebês demoníacos, a figura simbólica por trás do Mal, dos atos de selvageria do povo, da traição, tormento e suicidio de Judas (Luca Lionello). A vitória sobre a Morte de Cristo faz esse Inimigo (meio figurativo, apesar de real) gritar e a Terra tremer. Quase dois mil anos depois e ainda lembramos e revivemos o episódio, seja nas missas católicas, outras cerimônias cristãs, em palcos do Brasil, em filmes de Hollywood. E pra achar isso bonito nem precisa ser religioso. Para quem é de fé, feliz Páscoa!
Existem pelo menos três coisas a serem exaltadas nesta terceira instância dessa série de “filmes de ação geriátricos” protagonizada por Denzel. A primeira delas é o próprio ator, que é dono de um carisma inegável e de uma presença de cena fortíssima. Em segundo lugar, a mão sempre segura de Fuqua na direção da ação, desta vez bastante sanguinolenta, e do suspense que a antecede. E, por último, eu ainda destacaria os belíssimos cenários italianos que ambientam a trama, super valorizados pela cinematografia.
Essa Itália com cidades costeiras esculpidas em pedra, moradores pacatos cuidando de seus pequenos comércios e ofícios, máfias familiares, símbolos da sacralidade católica, conta por si só uma história rica e intrigante. A chegada de “Roberto” como esse vigilante obscuro, anjo vingador, super simpático e super brutal, vem para desbaratar a intriga que liga esses criminosos locais com tráfico internacional, terrorismo, extorsões e roubos cibernéticos transcontinentais de aposentarias de velhinhos americanos. E se há uma preocupação evidente de justificar o sangue derramado por Robert Mccall e a interferência americana em terras estrangeiras, o filme funciona mais na simplicidade de mostrar gente ruim se fodendo do que quando ensaia qualquer tipo de discussão moral e não sai do raso ou tenta fazer a gente junto da personagem de Dakota Fanning conectar os pontos nessa investigação que parece um pouco fácil e um pouco óbvia demais.
Antes do filme mostrar realmente a que veio, a cena inicial da chacina no casarão choca pelo nível da violência, estabelece um mistério e sugere uma dubiedade moral, uma complexidade, principalmente pela presença da criança sobrevivente que acaba por acertar o tiro no vigilante. São promessas que não se cumprem. A parte da violência continua, mas vai deixando de chocar tanto, o mistério era melhor somente como mistério do que quando solucionado e, apesar de literalmente se perguntar e ser perguntado se é um homem bom mais de uma vez, Robert tem sempre todas as desculpas e pseudo explicações para o porquê de ser tão violento. Ele tá dando o troco, devolvendo na mesma moeda, fazendo justiça com as próprias mãos porque a segurança pública é corrupta, incompetente ou está de mãos atadas e ele tem a coragem e o sangue frio para fazer o que faz. Tá beleza, só não é tão complexo assim, e Enzo quase que o perdoa e absolve instantaneamente, assim como o filme parece querer fazer.
A montagem paralela no final entre a procissão e o justiçamento através do morticínio dos bandidos cria contraste mas parece sinalizar também algum tipo de identidade, como se as respostas às orações do povo, que já demonstrou estar do lado do vigilante, fosse a “purificação” que ele está fazendo naquelas ruas. Depois, os fogos de artifício e as comemorações coloridas não são mas é como se fossem a premiação de Robert por ter resolvido a situação por ali, ajudado a inteligência americana, devolvido os exatos trezentos e sessenta e tantos mil dólares da aposentaria do senhor. Nosso protagonista foi aceito pela comunidade, abraçado por ela. É um querido, nosso vigilante favorito, mais do que bom, um ótimo cara! Tá perdoadíssimo, somos católicos, afinal.
Eu estava pronto para um filme medíocre e qual não foi a minha surpresa ao ver em Um Lugar Silencioso: Dia Um (2024) uma entrada verdadeiramente interessante e autêntica na franquia criada por John Krasinski? Quem diria que dá para fazer uma prequel ou filme derivado que não seja focado em responder brechas de seu original ou então em repetir a fórmula de sucesso, mas sim em construir sua própria ideia a partir do mesmo conceito? Porque este filme é isso e ele escolhe fazer dos já conhecidos monstros ultrassensíveis ao som veículo para discutir questões relativas à mortalidade, à fragilidade da vida e das superestruturas da civilização, através de um drama bem mínimo de sobrevivência, concentrado em dois personagens humanos e um gato e de um estilo muito cuidadoso, entre o escopo grandioso da destruição apocalíptica e a ênfase humana nos detalhes.
A execução técnica do filme para a sua elaboração estilística, aliás, acho bastante impecável. A fotografia contrasta luz e sombra muito bem tanto nos modernos prédios de vidro quanto nas antigas catedrais da cidade e cria uma Nova Iorque suspensa em poeira e silêncio. Essa poeira branca se destaca na pele negra de Lupita Nyong'o, que é um show de performance no drama e na ação. As lentes se fecham muito em planos que sabem valorizar os olhos expressivos da atriz ou então olham para o chão e o andar dos personagens que precisa ser ágil e suave. A edição alterna esses planos fechados com aqueles que mostram mais do espaço ao redor, o caos urbano que vai virando esse lugar silencioso, meio assustador mas às vezes também estranhamente pacifico.
Esse sentimento de paz e algo reconfortante está associado ao silêncio forçado, aos elementos da natureza (a chuva, o trovão, a água corrente) que trazem proteção, à empatia humana advinda da situação de necessidade, presente na ajuda mútua entre a protagonista e seu stalker amigável Erik (Joseph Quinn, que está super bem também). Também tem a ver com essa jornada de volta ao Harlem da infância da protagonista, pelas conversas, por sua poesia, pela lembrança de seu pai, pela pizza, por Nina Simone e pelo literal retorno. A invasão em si é um negócio terrível, indesejável, tenso, mas foi um meio para a libertação, de certo modo, dessa personagem que vivia de contar os dias para a morte na sua internação para tratar a sua doença. Se ela sentia que já vivia numa prorrogação de seu tempo na Terra, os alienígenas apenas deram a sentença final, contudo oportunizaram antes disso ela vivenciar esse seu fechamento, através da arte, do rememorar, de uma última conexão e do deixar ir de seus apegos terrenos (o gato, a blusa).
Por fim, enquanto assistia, não consegui não pensar na pandemia de COVID-19, uma situação quase apocalíptica que todos vivemos e foi igualmente uma pisada forte no freio da “marcha do progresso” e um mute nas ruídos e cacofonias de um mundo barulhento demais. Mesmo que depois a maioria tenha se esquecido disso, no contexto pandêmico e de isolamento precisamos pensar e repensar muito sobre o fim, sobre o luto, sobre estilos de vida mais equilibrados com a natureza e como precisaríamos não voltar à antiga normalidade que produziu o vírus e implodiu ao ter que parar, mas sim reinventar a noção do que é normal para um futuro sustentável. Nada é à toa e os letreiros iniciais do filme dizem sobre os decibéis altíssimos dos sons da cidade de Nova Iorque e aposto que na situação fatídica aludida esses decibéis também deram uma boa abaixada, tanto quanto na ficção. Imaginar esses cenários, afinal, “serve” para isso, trazer reflexão e mudança sem matar milhões nem matar ninguém e até antecipar e prevenir essas mortes. Vamos assistir uma apresentação de um teatro de marionetes para lembrar que se enchemos nosso balão podemos voar, porém esse balão tá sujeito a explodir e fazer barulho. Ou vice-versa: barulho demais e muito alto pode explodir o balão. Então, antes que o balão exploda, lembremos de saborear uma boa pizza. Sem esquecer de alimentar o gato.
Meu malvado favorito 4 (2024), o último capítulo de uma franquia que já tinha muito pouco a oferecer, talvez seja um dos mais fortes sinais de esgotamento criativo do cinema de entretenimento infantil estadunidense. É um filme que não diz absolutamente nada sobre nada e é nada mais nada menos do que um monte de gags emendadas. Algumas dessas gags são semi divertidas, mas a maioria, principalmente as inúmeras e intermináveis envolvendo os minions e agora os super minions, caem muito mais no lugar do irritante. Irritante tipo insuportável mesmo.
Sério, para cada cena de interação familiar fofa mostrando a paternidade desengonçada de Gru com as suas meninas ou o seu mini-eu rabugentinho ou então com a sua nova vizinha/pupila endiabrada, existem dez cenas das criaturinhas amarelas destruindo tudo ao seu redor. Apesar de eu entender a facilidade desse humor besta, facilidade de fazer, facilidade de com ele tirar risadas de crianças muito novinhas ou gente com um senso de humor mais simples, isso desvaloriza e esvazia tanto a experiência. É subestimar e rebaixar o seu público num nível igual ao chamá-lo de idiota enquanto enriquece às suas custas.
Super penso que o humor besta e inconsequente tem o seu espaço, por exemplo, numa dinâmica familiar ou de descompressão, mas dá pra ter isso e algo a mais. Pensando no contexto de assistir algum filminho em família mesmo, escolher um Meu Malvado Favorito (1,2,3 ou 4) faz total sentido, vai tirar pelo menos umas risadas de pelo menos alguns filhos/irmãos/pais/tios/primos sem ofender muito a ninguém, mas pô, até nesse contexto, o outro lado negligenciado e esvaziado da série traria tanto mais identificação e sentido. Já pensou se os personagens tivessem algum arco narrativo que os progredisse de verdade enquanto indivíduos e dentro da estrutura familiar? Puta merda, não é pedir muito e vocês mesmos da Ilummination já conseguiram fazer isso muito, mas muito melhor.
A hq super autoral Aqui de Richard McGuire, publicada em 2014 e que foi a base deste filme-experiência de Robert Zemecks, exerce um fascínio sobre mim desde que pude folheá-la na primeira (de inúmeras vezes) na livraria. A ideia em si é muito boa, pô! Um cômodo de uma casa através dos milênios, séculos e gerações. Um cantinho de não sei quantos metros quadrados se deslocando no tempo em recortes simultâneos, trocados a cada virada de página. Uma multitude de histórias, quadros de vidas e da Vida, sem sair do lugar.
E a proposta, que se encaixa perfeitamente na mídia gráfica, surge como um desafio imenso no audiovisual, na linguagem cinematográfica, cuja gramática se constrói sobre o cinético. Cinema é movimento, assim como qualquer narrativa, mas muito especialmente, porque impor a câmera estática significa engessar todo o trabalho da direção. Só que mais ou menos, pois a limitação de algum recurso força o uso criativo dos recursos restantes, e existe no Cinema a tal da magia da edição, alguns diriam que seu elemento mais definidor.
Cinema é movimento, mas se constrói a ilusão de movimento com a montagem, juntando um pedaço de quadro estático seguido do outro, com implicações no sentido total resultante, a ideia a ser comunicada pelos criadores-autores, esses grandes fatiadores da realidade para a construção de seus mosaicos de ação. Aí que tá, dá para fazer ação e criar sentido a partir da sobreposição de imagens estáticas, inclusive sem uma relação tão direta de causa e consequência entre elas. Isso é cinema, edição é cinema. Na verdade, Here (2024) é cinema, desde os quadrinhos que o originaram.
A gente (o ser-humano) se comunica assim, a partir da definição de um frame mental para o norteamento de todas as nossas inflexões de pensamento em algum sentido, que toma formas expressivo-verbais alguma coisa coerentes. Se a gente vai falar nesses 100 minutos de duração do filme sobre este lugar Aqui, então vamos lá e fazemos todo um reconhecimento algo caótico do que estaria contido dentro deste espaço que é físico e conceitual ao mesmo tempo. Tempo dos dinossauros, antes disso, transformações geológicas, moradores nativos, colonização inglesa, alguns núcleos familiares representativos de uma certa ideia sobre os Estados Unidos da América. Afinal, estamos falando sobre os EUA. Aqui é Aqui, não Lá. O Aqui do americano-médio-indígena-colonizador-matador-de-indígena-veterano-de guerra-cheio-das-ideias-patenteáveis-sonhador-pragmático-piloto-artista-assalariado-dona-de-casa-secretária-advogada-pai-mãe-filho-filha-neta-racista-preto-imigrante-que-morre-de-gripe-que-morre-de-Covid-que-esquece-e-lembra-e-trepa-e-vive-e-beija-a-flor.
Numa outra camada desse quebra-cabeça cósmico 5d está o som e o som através das tecnologias. Do rádio à TV aos celulares, músicas e programas geracionais vão dando pistas junto aos figurinos e às decorações e à paisagem na janela de onde estamos no tempo, sempre Aqui, enquanto nos habituamos aos personagens para além das esquetes cômico-dramáticas hermeticamente funcionais enquanto cenas isoladas. Mais ou menos, mas em geral sim. O frame mental fixo orientador dos nossos pensamentos por essa geografia metafisica de sons é a trilha sonora emotiva de Alan Silvestri, que nos lembra que estamos Aqui, num cinema de técnica e experimentação, porém melodramático e genuíno, do mesmo Zemecks tanto de Expresso Polar (2004) quanto de Forrest Gump (1994).
E o DeLorean viajante no tempo de Zemecks faz esse tipo de experiência cinética temporal, estudo multigeracional, investigação experimentadora e brincante de uma certa ideia de América, desde a trilogia De Volta para o Futuro (1985, 1989 e 1990). Então, sobretudo, Aqui poderia muito bem ser uma síntese e a coroação da carreira do diretor. Curiosíssimo que o personagem do Tom Hanks, semi auto-biográfico em relação ao autor Richard McGuire, acabe protagonizando também o filme mais representativo da carreira do diretor que fez a sua própria carreira, e que um filme adaptado possa ser tão autoral para o diretor-realizador-adaptador quanto a obra original era para o seu autor original. Os pouquíssimos e brilhantes movimentos de câmera na cena final, usando zoom-in nos rostos envelhecidos de Tom Hanks e Robin Wright, o travelling rotativo mostrando a casa de um outro ângulo e o zoom-out para fora da janela e em direção ao Lá, são verdadeiros toques de um mestre que entende do que faz e da preciosidade dos recursos que tem em mãos, quando os tem em mãos.
O comeback do Stalone nesse personagem antes da subfranquia Creed trazê-lo de volta como coach do filho de Apolo acho menos boa, apesar de ser uma reflexão sobre a velhice interessante. Algo polêmica, mas interessante. O ditado “dias de luta e dias de glória” não se aplica ao pugilista pois sua glória está indissociavelmente ligada à sua luta e o seu tempo de repouso, aposentaria, colheita dos louros é insatisfatório para ele próprio, personagem Rocky, ator-roteirista-diretor Stalone.
O azul melancólico que recobre as ruas da Filadélfia reflete uma angústia que chega a ser pessimista e sádica para alguém que sofre com o luto pela esposa e o afastamento do filho, mas que teria motivos para se ver feliz, bem-sucedido em seus negócios com o restaurante, uma pessoa boa sempre disposta a ajudar. O desafio que lhe é lançado, provocado pelo novo campeão peso pesado e a mídia atrás de espetáculo, faz sarna para o homem coçar, e através do treino pesado e das porradas tomadas e deferidas no ringue, ele se ergue como que em protesto contra o passar do tempo que o atropela nada gentilmente.
A luta é mais simbólica e geracional do que um match concreto valendo um título e um cinturão. O testamento que ele quer deixar para o filho é um legado de superação dos próprios limites e um exemplo vivo de que é possível permanecer de pé frente às intempéries da vida. Ele verbaliza sua lição de vida e visão de mundo para o filho, mas a sua fibra moral tem que ser curtida na porrada, sendo ele um conservador e alguém que se sente validado e respeitado quando está sangrando, perto demais do nocaute.
Não é sobre envelhecer dignamente, mas sobre não aceitar o envelhecimento, como um lutador. Por isso prefiro a aposentadoria de fato que vem com Creed, e a paternidade mais madura que Rocky oferece a Adônis, sendo seu mentor e conselheiro em vez do idoso que se recusa a se enxergar no reflexo do espelho, porque envaidecido e enfurecido por diferenças geracionais e uma melancolia que o acompanha.
Os filmes do Hellboy do Del Toro são excelentes filmes de fantasia, caprichadissimos esteticamente, em maquiagem, efeitos práticos e digitais, design de produção e tudo o que tem a ver com essa construção imagética da fantasia. Guilermo é esse cara apaixonado por suas criaturas num nível fundamental que está sempre recriando seus filmes de monstro como um Dr. Frankenstein moderno, porém que se identifica muito mais com as criaturas do que com o cientista criador, apesar de ser sim um grande esteticista, um grande criador.
Já as ambições do Hellboy de 2019 tem mais a ver com o pulp, a fantasia mais barata e violenta, pouquíssimo sofisticada estética ou narrativamente, mas que, à sua maneira, embarca na coisa do trash e do fantástico. Eu acho legais as referencias de mitos arturianos, da bruxaria demoniaca estereotipica, dos trolls ingleses devoradores de carne humana. Existe a beleza feia do vulgar até na maquiagem mais tosca do Hellboy de David Harbour, que novamente luta contra sua sina de demônio apocalíptico.
Parece um pouco um clipe de Metal quando cria suas cenas que sao clipes musicais recheados com gore, há um prazer ali. Porém, quanto mais se aproxima do que Del Toro já tinha feito no filme de 2004 e em O Exército Selvagem (2008) ele se sai pior em comparação, por ser infinitamente mais pobre, deselegante e muito menos criativo. O flashback da origem do protagonista é um repeteco tão safado da cena dos nazistas com o místico Rasputin invocando o macaquinho infernal que chega a dar pena.
Ainda assim, essa mitologia fabulada e desenhada por Mignola nos quadrinhos é interessante o bastante para valer refilmagens, releituras, desse adendo curioso, meio filho bastardo, desse universo de super heróis, com uma vibe um pouco diferente, menos americanizada e fascista e mais autêntica, que dá pano pra manga para, quem sabe, outros realizadores mais talentosos seguirem os passos fortes de Del Toro ou irem para uma outra direção totalmente diversa. Tem um potencial interessante naquele outro filme que saiu mais recentemente do Homem Torto (2024) também protagonizado pelo Garotão do Inferno por ir aparentemente por um outro caminho, menos épico, mais lenda urbana, terror barato, que deve ficar menos refém da repetição daquilo que Del Toro já fez com mestria. Ansioso para conferir.
Delicinha de filme! Eu já estava simpático à ideia, ao Isaac Amendoim, a tudo o que tinha visto de material promocional de Chico Bento e a Goiabeira Maraviosa, mas, putz, a obra é muito melhor e mais inventiva do que acredito que qualquer um poderia esperar.
Nos bastidores, dentre outros nomes, temos direção e roteiro da galera da TV QUASE e realmente inspiração é o que não falta para a comédia que eles fazem. E é comédia mas com uma sensibilidade muito grande e uma profunda compreensão sobre a vida no interior e o universo infantil.
Há algo em comum, aliás, entre esse interior campesino, da roça, retratado no filme com cores de nostalgia, e a infância de todos nós, representada como um teatro nos devaneios de Chico: a inocência. Os adultos da Vila Abobrinha são um pouco como crianças pois personagens nesse causo de Chico mas também porque são a resistência frente ao ""progresso"" do (agro)negócio, das estradas de asfalto triplicadas dos cowboys que falam inglês, da "cultura" e da "sapiência" mais avançadas.
Aí ou essas pessoas, crianças e adultos, param para se escutar e se unir para defender a sua goiabeira maraviosa e as suas terras encantadas, ou a árvore vai cair e, com ela, o encanto/ingenuidade/infância do mundo. Pra mim é perfeita a sequência em que a árvore fala, mesmo brega e didática, porque é o momento máximo de encantamento, fantasia, por mais que o filme todo esteja repleto de pequenos encantos e seja ele inteiro um olhar cheio de poesia para a vida.
É como se o filme fosse um menino de chapéu de palha e camisa amarela entregando uma goiaba grande, vistosa e saborosa para nós, na perspectiva da câmera e de Rosinha, como um gesto de amor. Ou uma pirralhada fantasiada de criaturas folclóricas passando seu recado sério de um jeito fofo e desastrado.
E por isso esse filme é tão bom, porque consegue ser específico e universal, o que é a própria definição de clássico. As aventuras na roça de um bando de pequenos caipiras ultrapassam barreiras geográficas, etárias e do sotaque com "r" retroflexo para atingir o simbólico, através do sonho e da brincadeira, e o emocional, pelo riso sem malícia.
Esses thrillers de um só ambiente com uma tensão construída em cima de uma ação que acontece extra cena, quando bem feitos, são experiências interessantíssimas de se ter. Eu curto muito e curti em O culpado (2021) a entrega de alma de Gyllenhaal nas câmeras super fechadas no rosto dele que o filme tenso de Fuqua com roteiro dramático de Nic Pizzolato pedia.
A combinação do diretor de filmes de ação, famoso por sua parceria com Denzel Washington, junto do roteirista de True Detective acertou na forma de dramatizar essa história, fechando não só as escolhas de enquadramento, mas o ponto de vista narrativo, numa perspectiva limitada e fragmentada que vai montando uma imagem em nossa cabeça do que está se passando do outro lado da linha telefônica. Uma imagem mutante e pouco confiável. E esse é o grande lance do filme, trazer reviravoltas e revelações através de novos dados que vão mostrando o quanto o raciocínio dedutivo de um policial pode se provar falho, porque os indícios e sugestões ficam nublados em meio ao caos de uma LA em chamas, um milhão de ocorrências ao mesmo tempo e um psicológico abalado.
A tal culpa a que o título do filme se refere é a do policial que erra na tentativa de cumprir com seu dever e não acho que seja passar pano para o assassino fardado explorar esse sentimento que ele tem, que se converte num arrependimento sincero, uma compensação cármica e a confissão. A moral, bastante cristã-católica, se integra no senso estético-narrativo da obra, que acaba sendo bastante satisfatória.
Moana 2 não convence como uma sequência que precisava acontecer, apesar de se esforçarem minimamente quanto à continuidade temática sobre o mundo ser mais do que só uma ilha, a questão da expansão marítima da tribo e a reconexão com o passado ancestral de desbravadores e com outros povos. Mas o conflito interno da protagonista simplesmente não existe porque já havíamos entendido que a sua natureza é a de ir ao encontro do desconhecido, explorar, aventurar-se. Não tem uma justificativa para repetir o drama do “devo ficar ou devo ir?”.
É óbvio que o chamado da aventura é muito mais forte do que a âncora familiar para o tipo de personagem que Moana é e o que representa. Subversão seria o contrário acontecer. Mas não acontece. Aliás, muito pouco de subversivo ou sequer surpreendente acontece aqui.
Água e cabelo belissimamente animados não são mais o suficiente para deixar o espectador de queixo caído. Tampouco números musicais divertidos, animais sidekicks e um time de coadjuvantes carismáticos e cenas de ação genéricas conseguem prender a atenção de quem já tá vacinado em relação ao jeito Disney de narrar. Pelo menos aqui e ali eles oferecem lampejos de criatividade, mas não é o caso e não tem sido o caso já há uns anos para a empresa (e nem falo só do estúdio de animação principal da casa).
Eu sou muito vendido para filmes de sci-fi e não precisa de muito para eu ficar envolvido em qualquer que seja o cenário de ficção especulativa proposto. Mickey 17 tem clonagem, upload de consciência, colonização espacial, animais alienígenas iguais aos Ohmus de Nausicaa do Vale do vento, tudo isso num tom de paródia de humor sombrio com “crítica social foda” tipo Black Mirror. E se nada é exatamente brilhante ou inovador, a abordagem de Bong Joon-ho possui a sua autenticidade.
O diretor-roteirista tem uma ideia clara do que quer fazer e não arreda o pé de seus compromissos, não tem receio em parecer bobo na comédia, simplório nas caricaturas, estranho na oscilação entre o quase infantil (protagonista ingênuo, vilão mais mau que o pica-pau, pastelão, bichinhos fofinhos) e o adulto (distopia crítica ao capitalismo tardio, reflexões existenciais, gore, sexo). Dou valor a um projeto que consegue se manter autêntico assim mesmo custando milhões de dólares, graças ao prestígio alcançado pelo ganhador do Oscar.
Então, a partir dessa definição autoral, os elementos do filme vão se moldando e encaixando, às vezes melhor, às vezes não tão bem. A atuação de Pattinson, por exemplo, é perfeitamente adequada, ele captou certinho a aura de seus dois personagens, a ingenuidade de Mickey 17 e a persona bad-boy de Mickey 18. Só falta a ele mais tempo para construir o que seriam o Mickey Barnes original e suas 16 vidas anteriores. Pois, mesmo que o descartável recupere as suas memórias a cada nova impressão, tem alguma essência que se perde e outra que se ganha no processo, como gêmeos univitelinos que partem de um mesmo lugar, mas não se confundem. Acaba faltando exploração e aprofundamento nesse conceito que é a base do filme.
No lugar de uma discussão um pouco mais profunda sobre a gênese e o fim da consciência e a construção da personalidade, a trama dá espaço à sátira política e à mensagem ecológica, nas formas dos personagens de Ruffalo e Collette e dos rastejadores. Os dois atores, assim como Pattinson, sacaram bem a proposta da direção e se deliciam com as caricaturas expansivas e patéticas do empresário que acaba funcionando como autoridade política dentro do seu feudo de exploração e colonização além de líder de seita religiosa (negócios, política e religião imbrincados como nunca, como na vida real) e da esposa com uns neurônios a mais do que o marido, meio socialite, obcecada por molhos, sempre em busca de ingredientes exóticos para temperar a sua comida (enquanto as refeições dos trabalhadores são calorias contadas e sem sabor). Os rastejadores são a representação do ecossistema nativo de Niflheim, ameaçado pelos invasores humanos, supersimpáticos, apesar do design chupinhado do estúdio Ghibli e de eles serem a única presença viva num cenário alienígena fora isso absolutamente inóspito, gélido e frustrante.
Pode até ser intencional o tipo planetário escolhido não ser uma Pandora de Avatar, riquíssima em fauna e flora, detalhada em sua complexidade, exuberante em sua beleza, pois com certeza há algo de simbólico e verdadeiro, no sentido de que não adianta nos esforçarmos em empreendimentos megalomaníacos e insistirmos na lógica expansionista. Evoluímos adaptados a um ecossistema especifico e insubstituível e nunca haverá um lugar como a nossa maltratada casa cósmica, a Terra. Mas não deixa de ser frustrante porque pobre, porque feio, porque pouco. Nesse sentido acabamos nos portando como a socialite fechada em uma redoma com design interior arrojado, saboreando molhos de criaturas inocentes, ouvindo orações e hinos de hipocrisia, mais incomodados com o tapete estragado do que com o descartável agonizando sob nossos pés.
Ainda na toada de comentar superficialidades estéticas, os espaços internos da nave-base onde se passa a maior parte do filme oferecem uma lógica operacional muito precisa. Entendemos e nos situamos muito bem nesses espaços da forma como são filmados por Joon-ho, o quarto de Mickey, o laboratório com a impressora de corpos, as fornalhas que são o local de descarte/extermínio, as próprias já mencionadas luxuosas acomodações dos chefes. Quando nos flashbacks da Terra, as vielas escuras e apertadas percorridas por Mickey e Berto enquanto fogem de seu agiota contrastam com o aeroporto espacial desnorteante, luminoso, mais futurista e alienígena na sua retratação sob lentes que distorcem e planos de baixo do que a nave ou Nilfheim.
Aí no final do filme o gosto que fica na boca é estranho, porque não dá para dizer que o diretor não entregou um trabalho eficiente, consistente com a sua obra, sua estética e suas preocupações humanistas (pelo menos desde 2013, com Expresso do Amanhã, seguido por Okja e por Parasita, faz total sentido essa trilha que o diretor percorreu para nos trazer até Mickey 17) e que sustenta as suas escolhas sem muita vergonha ou pedir muitas desculpas. Mas, eu pelo menos, não me senti plenamente satisfeito, apesar de nutrido pelas ideias e interessado pelas esquisitices. É como se eu tivesse comido um bloquinho de caloria daqueles temperado com um molho estranho que dá sabor, mas não é comida “de verdade”. No meio da aridez de uma Hollywood em crise de criatividade e inspiração, é quase pecado não louvar algo como Mickey 17 sendo feito e lançado. Talvez seja um sinal dos tempos, mas pelo menos saí do cinema empolgado para ver uns episódios de Doctor Who.
Adaptar/dramatizar a vida real, transformando pessoas que existem/existiram em personagens, não é uma tarefa fácil, pois se há interesse e comoção em torno dessas figuras, normalmente se faz isso com muitos dedos, resultando em obras burocráticas, as tais biografias chapa-branca. Então, a primeira coisa que se deve fazer para evitar o insosso e algo do tipo “leitura da wikipédia” é esquecer a ideia da imparcialidade, saber o que se quer dizer e escolher bem o seu recorte. Definir tema, estilo, concatenar as ações e ideias. Tratar a sua narrativa inspirada por fatos como uma ficção qualquer. Esquecer a noção de que seria possível mostrar a totalidade da pessoa e toda uma vida em duas horas de filme. O que o bom artista faz com um material deste tipo é refletir faces da pessoa sob um prisma específico.
Em The Apprentice (2024), o diretor Ali Abbasi e o roteirista Gabriel Sherman escolhem contar a sua versão da história da ascensão financeira e queda moral de Donald Trump (Sebastian Stan) através de seu relacionamento com o advogado e mentor político-ideológico Roy Cohn (Jeremy Strong) nas décadas de 1970 e 1980. Se desde o início não havia muito escrúpulo no Donald herdeiro, proprietário de imóveis, cobrador de aluguéis, racista e sonegador, após o convívio com o controverso e contraditório Roy e a absorção das suas “três regras da pessoa matadora”, Trump se torna no fim um monstro, por fora e por dentro. Laranja, de couro cabeludo encurtado e outras cirurgias estéticas úteis apenas para amaciar o ego da besta. Empresário manipulador que constrói seus projetos faraônicos, nababescos, à custa do povo, enquanto afirma, por acreditar veementemente nisso, que Nova York deve dar graças a Deus por ter a Trump Tower no lugar de mais políticas públicas.
Outra face sombria de Trump aparece nos seus relacionamentos familiares: o desprezo pelo irmão, a falta de consideração pelo pai (a fonte de seu “capital inicial” afinal de contas, que é tratado apenas como isso, quando não como um estorvo cuja opinião pouco importa e que fez uns negócios muito mais feios e inferiores aos seus). Aí temos Ivana (Maria Bakalova), que revela a misoginia grotesca por trás do romântico idealista lerdo, meio stalker, e com cara de bobo. Com todas as liberdades artísticas e licenças poéticas que o filme toma, não é “fake news” o histórico do presidente americano de violência contra mulheres e acusações de estupro. As cenas de sexo do filme, aliás, são muito boas nas interpretações e na forma como elas acontecem: Ivana cobrindo o rosto de Trump enquanto ele faz caretas de prazer é hilário; depois, na cena da agressão, ela é súbita na escalada de selvageria e absolutamente repulsiva, a câmera no chão quase nos agride junto à vítima.
Tecnicamente, o filme utiliza várias granulações da imagem e remonta a época muito bem; às vezes parece que estamos assistindo uma gravação em alguma câmera de telejornais mais antigos, curiosamente sem jamais parecer um telefilme ou obra barata ou mal-acabada. E em especial a dupla de atuações principais carrega o filme. Stan imita os trejeitos de Trump, essa caricatura humana, tão certinho que você quer realmente dar uns tabefes nele. O biquinho, o olhar, a obsessão pelo cabelo, a espontaneidade ensaiada da entrega das falas, a dicção característica. Mais para o início existe alguma coisa quase doce que o ator consegue colocar nas caras de bobo e postura insegura que ele faz. No final, só restou a monstruosidade e a arrogância. No sentido contrário, O Cohn de Strong vai se fragilizando com o passar do filme, ele se complexifica um bocado, com as questões pessoais relativas à sua homossexualidade e a uma vida mais liberal (nos costumes), diretamente opostas ao seu discurso reacionário e persona pública e profissional desprezíveis. Não só literalmente, o aprendiz enterra o mentor.
O diretor Jaume Collet-Serra opera com excelência a técnica do cinema para fazer seus filmes de gênero simples e eficientes, a maioria deles assumidos como meros dispositivos para a ação acontecer, com uma dramatização funcional, sem uma vírgula a mais ou a menos. Parece que não, mas manter a bola girando no campo ou, no caso de Carry-on (2024), a mala perigosa sendo arrastada pra cima e pra baixo pelo aeroporto sem a tensão baixar exige muita habilidade na condução narrativa, por mais qualquer nota que seja a trama e por mais clichês que sejam os personagens e seus dramas.
O básico da história do filme se resume a um segurança de aeroporto (Taron Egerton) tentando se provar mais do que um acomodado e dono de uma competência suficiente para assumir como policial, depois de seu fracasso em teste de admissão. Daí cai para ele a responsabilidade de fiscalizar as bagagens que passam pelas esteiras no raio-X, justamente no dia em que um grupo de criminosos tenta colocar em prática um ato que coloca em risco a vida de uma congressista que vai embarcar num avião, e por extensão as vidas de todos na aeronave e em todo o aeroporto. Alguma questão política difusa motiva os vilões, mas como já falei, tudo no filme se justifica pela ação, pela adrenalina correndo na veia, pela respiração suspensa nos pulmões.
A esposa estar grávida e também ser funcionária do aeroporto implica em aumentar o risco e quanto maior o risco, maior a tensão. O protagonista está agindo, sendo coagido e fazendo malabares para proteger os seus mas também indivíduos anônimos e outras vitimas de coação, todo um coletivo e inclusive o espírito de Natal. Aí a montagem é virtuosa nesse vai e vem entre o protagonista, o bandido observador/atirador, a investigação da polícia, os portadores da mala. Até tudo se resolver, alguns cadáveres tendo ficado pelo caminho. O desenlace da trama é o desenlace da bomba e o alívio da tensão. Sem essa tensão sobra pouco no filme, antes ou depois, além ou mais fundo. Funciona.
Um Sean Baker menos político, o filme existe mais pelo prazer estético e sensual da imagem e pela tragicomédia de sua protagonista do que por qualquer tipo de mensagem imediata. Apesar disso, o filme carrega significado na exposição da superficialidade e fragilidade de uma espécie de sonho americano e do arquétipo da Cinderela, que vira às avessas.
No inicio, a câmera glamouriza, fetichiza, e nem tinha como não fazer isso sem descaracterizar a propria natureza do trabalho sexual ou o sobrecarregar de moralismos e julgamentos, mas existe um carinho por Ani. Amo sempre que as cenas naturalizam o corpo e focam no rosto dela. Os próprios créditos de abertura mostram o espaço do QG das meninas dançando, fazendo seus números de strip, sedução e carícias para centralizar por fim nas expressões da protagonista.
Reconhece-se o trabalho sexual como um trabalho qualquer, uma prestação de serviço, cujo gozo do trabalhador, por mais que por ventura exista e por mais que seja aquilo que se vende, é absolutamente secundário, para não dizer terciário, muito abaixo da satisfação dos clientes e da produção da dita mais valia na roda massacrante das engrenagens do sistema. Ani tem a jornada dela, o preço dela, busca se valorizar nesse mercado do prazer, as colegas amigas e as rivais, os momentos de descontração fora do job. Ivan vira seu cliente super vip e ela tira proveito disso na medida do que pode até que a ilusão embaça o seu senso de autopreservação e da própria realidade.
O primeiro ato frenético em cores, sons e sexo, curtição adoidada entrecortada por banalidades de uma vida sem grandes propósitos ou consequências, dará lugar ao inusitado e bizarro com o núcleo dos bichos papões meio assustadores meio palhaços do leste europeu que vem assombrar Ivan e retirar sua falsa independência. Las Vegas é o ápice daquele primeiro momento de deslumbramento, excessos, embriaguez eufórica. Após o casamento, tudo cai mais fácil do que um castelo de cartas. Ani tenta se apegar a uma vã esperança na ideia de hombridade e maturidade, ou pelo menos um minimo de amor e parceria, do marido, que estaria escondida por trás dos divertimentos bobos, gozadas rápidas, video-games e consumos de drogas em lojas de doces. Mas quando chega a hora de provar seu valor, ele pica a mula.
Ani aguenta o tranco firme, reage, se vira como sempre se virou. Ela é uma mulher prática e amoral que cai no conto de fadas mais infantil, comum e inverossímil: “casaram e viveram felizes para sempre”. Mas não é tapada, é complexa. Apaixonante na interpretação de Madison. Quem escolhe subestimá-la e tratá-la como descartável são justamente os antagonistas da história, não os atrapalhados pau-mandados, socialmente num lugar muito parecido com o de Anora e no fundo até simpáticos a ela, mas os ricos mimados que se acham donos da porra toda, Ivan e seus pais.
O ponto de vista do filme é mais próximo ao de Yuri (de simpatia, até respeito, tesão que dá vazão a cenas e piadas desconfortáveis, surpresa pela valentia e uso desproporcional de violência) e é justamente perto dele que Anora termina. A cena final é interessantíssima, poderosa, porque traz ela retribuindo a gentileza dele da única forma que ela se acostumou a fazer e tem um misto ambíguo de sentimentos que fica ambíguo também para a gente, ela quase convulsiona, debatendo-se e batendo nele, chorando, entre a frustração e a raiva por tudo que passou, uma entrega mais sincera ao prazer, o ódio pelo seu retorno ao antigo status quo.
Não sei qual é a pira de Hollywood com botar bonecos CG vindos de cartoons e/ou mundos de faz-de-conta com lógicas próprias e cheios de potencial para interagir com pessoas de carne e osso em nossa realidade ordinária (invariavelmente o norte-americano médio em algum recôndito ou metrópole famosa dos EUA). Na maior parte das vezes faria tão mais sentido só (re)criar a fantasia original em um novo estilo para novos tempos ou outra mídia, mas insistem em fazer esse “isekai” reverso, sei lá o porquê. Absolutamente ninguém está interessado no policial da cidadezinha de Green Valley (James Marsden), que quer (ou não) se mudar para a grande São Francisco, quando o nome do filme é Sonic: O filme (2020) e o personagem título é um ouriço azul super-maneiro e super-rápido. Mas aparentemente a tendência é essa, então que ela seja um bom parque de diversões temático!
Nesta versão, Sonic é uma criança solitária e hiperativa, órfão, refugiado, alvo de mais de um grupo interessado em seus poderes e potencial energético. Mas nada disso gera muito drama, porque o filme é leve e de ação. Apesar de ser fraco nessa ação, pouco inventivo nas cenas de correria em altíssima velocidade, e de ter pintado o Dr. Robotinik (Jim Carrey) com cores mais sombrias do que eu tava esperando. É o Jim Carrey com todas as suas caras e bocas, mas a sua caracterização é a de um tecnonazi de roupas pretas, bigode de fuhrer e corte militar, tudo estranhamente familiar, mais ainda em 2025 do que na data de lançamento. Achei interessante isso e o viés mais crítico aos milicos estadunidenses. Já que as forças armadas deles têm que estar lá representadas de alguma forma e o protagonista já é o “good cop” para fazer a média corporativa, que seja assim.
O design de Sonic é fofo, não tenta ser realista demais (ainda bem!) e a interação dele com os cenários e os atores “live-action” convence. James Marsden é bom em entrar nesse lugar mental da criança interior e reagir a um personagem que não tá ali de verdade, tipo um amigo imaginário. Porém é muito pobre existir somente esse único alienígena caricatural, uns anéis que criam portais e os drones do vilão como atrações nesse carrossel de aventuras. Porque tá muito mais pra carrossel ou roda gigante do que carrinho bate-bate, montanha-russa ou trem-fantasma esse brinquedo. Temos correria, muitas piadas e montagens espertinhas com velocidade, e até perseguições de carro no filme, mas a frequência é baixíssima e não existe uma proposta visual que seja interessante e diferente de tantas outras que já vimos quando estamos lidando com corredores e super poderes.
Faltou no filme a característica talvez mais distinta desse mascote dos videogames que é ser, além de rápido, legal pra caramba, maneiro, radical, descolado, etc. Era o apelo do personagem se comparado a italianos baixinhos, bigodudos e de chapéu vermelho de outros jogos. O Sonic aqui do filme é carismático, um cadinho irritante e com um arco dramático de aceitação e de ser adotado pela família do policial bom moço e pela comunidade de Green Hill, mas ele não é massa, da hora, eletrizante. Faltou tempero e faltou contraste com outros bonecos de outras cores e temperamentos para ele brilhar mais forte e mostrar mais da sua personalidade moleca. Aí quando aparece na cena final o Tails chegando para dar o ar de sua graça na continuação já fico mais animado, afinal sempre fui da turma que preferiu jogar com o segundo personagem, aquele com um conjunto alternativo de habilidades e características para desbloquear um outro estilo de jogo. Tomara que as sequências tenham mesmo mais estilo.
A música folk, os movimentos pelos direitos civis e a contracultura dos Estados Unidos dos anos 1960, a personalidade ao mesmo tempo magnética e evasiva da pessoa Bob Dylan, seu egoísmo no modo de lidar com seus relacionamentos, são elementos que informam sobre quem é o artista sem nunca revelar o segredo de sua arte ou a sua alma em profundidade e verdade, em Um completo desconhecido (2024). A caracterização de Timothée Chalamet para Dylan é contida e charmosa; da postura à voz, o ator claramente estudou muito para o papel e o tomou para si. Se atuar tem altas doses de fingimento para a criação de uma verdade (e toda arte é isso), a verdade de Robert Allen Zimmerman se esconde nas letras e performances de Dylan, aqui reinterpretadas por Chalamet.
James Mangold, o diretor e roteirista do filme, opta por não quebrar com a mística do músico, ao evitar didatismo e respostas fáceis para seu estilo ou comportamento. Ele é um puta compositor e um admirador dos artistas folks tradicionais e um poeta/cronista popular e um iconoclasta e um experimentador e um babaca. E um mistério. Uma coisa não anula nem justifica a outra. Quando o jovem Dylan chega em Nova York ele já está semi pronto e sua origem não é mais do que especulação no filme. Aí ele vai surpreendendo, para o bem e para o mal, nas relações que cria com seus padrinhos na arte Pete Seeger (Edward Norton) e Woody Guthrie (Scoot McNairy), a ativista e namorada Sylvie Russo (Elle Fanning), a cantora e amante Joan Baez (Monica Barbaro).
Como qualquer idealização sobre qualquer um ou qualquer coisa, a realidade é um balde de água fria. E não é diferente com quem apostava suas fichas em Dylan como o salvador do folk ou o homem de sua vida. Seu empresário (Dan Fogler) apostou na figura com todo o seu talento e as suas contradições e nisso ele acerta. Porque sabemos pelos letreiros finais e pelos spoilers da vida real que sua ousadia deu lucro. E atestamos a qualidade de sua arte quando a ouvimos nos vários trechos musicados do filme. É claro que seria Dylan o primeiro compositor a ganhar um Nobel de Literatura. E isso não exime sua pessoa de seus erros. Nem encontramos a fonte mágica de sua inspiração nesses erros ou mesmo nos acertos de sua biografia. Não há condenação nem julgamento. A inspiração aparece para o cara quando está escrevendo de madrugada no apartamento da amante ou quando acha curioso o som de um apito que compra de um vendedor ambulante na rua. Genialidade não se explica, mas se mostra. E os coadjuvantes do filme junto da câmera de Mangold são testemunhas dessa genialidade.
A forma fílmica parece básica e tradicional, mas carrega as suas sutilezas que contribuem para a aura de mistério do protagonista. Os olhares dizem muito. Quando está no palco com Joan, ele concentra o olhar nela mais do que em qualquer um em qualquer outro momento. As lentes focam nas emoções estampadas nos rostos dos atores, mas Dylan é difícil de decifrar. Exceto quando está com Joan. Ele parece mostrar vulnerabilidade na cena em que se despede de Sylvie, até que ele acende o cigarro. Parece pose, parece fuga, mas ele divide o cigarro com ela. Através das grades. Ele é filmado bastante de costas e contra a luz ao longo do filme e parece, mais para o final, não se importar e dar de costas para a tradição; porém, depois de quebrar tudo em Newport, "trair" Seeger e ser saudado pelo rockstar Johnny Cash (Boyd Holbrook), ele faz questão de visitar Guthrie uma última vez, antes de pegar a estrada em sua moto rumo ao desconhecido. São cenas em sequência muito bem escolhidas que criam no conjunto um senso de completude lacunar. As elipses e as faltas comunicam tanto quanto as letras das músicas, a escolha dos instrumentos musicais e os sons super bem captados de voz, gaita, violão ou guitarra elétrica. Comunicam mais do que as aparências, do que o "parecer ser" tanta coisa.
O auto da compadecida 2 (2024) é um filme que é pouco pelo tamanho do que representa o legado da peça original e de Ariano Suassuna. Ele se entende como uma farsa nesse trabalho ingrato que é dar sequência a uma obra tão querida e autenticamente nossa, brasileira, regional. Porém, mesmo se entendendo assim e dando vazão a um estilo propositadamente artificial e a comentários metalinguísticos sobre as suas repetições, o resultado não é tão saboroso.
Poderia ser uma repetição, um pastiche, do primeiro, mas com aquele gostinho que saciaria o nosso desejo de “mais do mesmo” de um prato muito muito bom que só é desfrutado muito raramente hoje em dia e nos recorda de nossa infância. Com o gosto do Nordeste encantado, teatral, exagerado, medieval, folclórico e carnavalesco dos cordéis, do teatro popular, da arte armorial. Com gosto de carne seca com macaxeira, cuscuz com leite, tapioca com manteiga de garrafa. No lugar disso, tivemos uma cópia do primeiro com versões menos autênticas das tramas, personagens, cenários, temas. Comemos o menu de uma rede de restaurantes de tema nordestino, sem a mão certa no preparo dos pratos populares que foram apropriados, processados e pasteurizados.
A trama é uma colcha de retalhos com a forma narrativa da contação desses causos vividos por João Grilo (Matheus Nachtergaele) e Chicó (Selton Mello) mais de duas decadas depois de quando os tinhamos deixado em Taperoá. Passarinhos de computação gráfica e ônibus de turistas chegam na cidade do sertão um pouco transformada, maquiada digitalmente, mas com os velhos problemas da seca, da desigualdade, da má política. A ressurreição milagrosa de João Grilo o alça a herói, santo e cabo eleitoral tanto do Coronel Ernani (Humberto Martins) quanto do radialista e vendedor Arlindo (Eduardo Sterblitch). Enquanto isso, Chicó se envolve com a filha do Coronel Clarabela (Fabiula Nascimento) e tenta reaver Rosinha (Virgínia Cavendish), seu grande amor.
Os personagens continuam carismáticos e as situações vividas por eles são até que divertidas porém empalidecem perto do original. O que só piora quando o clímax no tribunal do Além é tão “copia e cola” do que já foi feito antes, com um twist que o deixa mais psicológico e menos místico e mais sem graça. As muitas caras de Nachtergaele e a Compadecida de Taís Araújo são a versão expresso do café coado de Fernanda Montenegro, Maurício Gonçalves e Luís Melo.
Afinal, não haveria problema, até pela natureza teatral de sua origem, se fizessem uma mera reencenação/reinterpretação da peça original, desde que a direção e a estética fossem inspiradas o suficiente para justificar uma nova versão filmada. Mas é o mesmo Guel Arraes de antes que dirige aqui em parceria com Flávia Lacerda e eles não oferecem nenhuma ideia nova que valha a pena. O elenco também é majoritariamente o mesmo. Então, entre a versão original e a continuação que é homenagem e quase refilmagem porém com gosto de reciclagem ou cópia não tão boa, prefiro reassistir o original.
Eu gosto e sou um defensor de Animais Fantásticos, especialmente deste primeiro, mas mesmo nos outros dois filmes da série vejo suas “interessâncias”. Há uma expansão de universo que até certo ponto faz sentido (os governos paralelos/mágicos e suas burocracias e politicagens pelo mundo, além de vermos mais a vivência de bruxos adultos em sociedades complexas), uma contextualização de época e uma perspectiva global que permitem criar cenários legais, trabalhar paralelos com a História com H maiúsculo do mundo real e preenche lacunas e backgrounds de personagens (núcleo Dumbledore/Grindewald, que acaba se tornando o centro da série), protagonistas carismáticos e muito diferentes dos alunos de Hogwarts em Harry Potter. Defendo que Newt enquanto protagonista é um personagem muito mais único de se acompanhar (com suas esquisitices, falta de traquejo social e amor pelas criaturas) do que o heroísmo meio “baunilha” de Harry, inclusive.
Onde então que a Warner Bros, David Yates, J.K.Rowling e a equipe de produção falharam para o naufrágio da série e seu cancelamento prematuro, sem a devida conclusão? Um fator que explica isso é que Animais Fantásticos não é Harry Potter, pura e simplesmente. Não é uma história geracional, coming of age, de uma década, que evolui seus personagens e atores no ritmo do crescimento de seus expectadores, e possui uma estrutura básica que vai amadurecendo sem nunca se complicar demais. Apesar de não ser nada disso, precisava apelar para a nostalgia para se vender, só que era uma falsa promessa, com no máximo entregas de “fanservices” vazios e às vezes incoerentes. Não acho que seja essa a explicação definitiva para o fracasso, até porque a série acabou se cercando de outras polêmicas, seja pelos seus atores (Johnny Depp, Ezra Miller) seja por declarações e posicionamentos da própria autora. A crítica se dividiu muito e caiu muito em cima das produções, a partir da segunda parte principalmente. Junte tudo isso com a própria inconsistência da série, o texto estranho estruturalmente de Rowling (romancista experiente, mas roteirista de primeira viagem) e a direção não das mais inspiradas de Yates e, pronto, tivemos uma série de fôlego curto, com essas razões várias para seu desgaste rápido.
Porém, voltando às qualidades que eu enxergo em Animais Fantásticos e onde habitam (2016) e porque ele é até que um mini queridinho para mim, eu acho que Yates conhece muito bem esse universo e sabe traduzir visualmente suas características únicas mesmo com todo o deslocamento espaço-temporal em relação aos seus trabalhos anteriores em Potter 5, 6, 7 e 8. Ele não é cheio de personalidade e vivacidade ímpar, ultra autoral nem nada do tipo, mas ele e sua equipe possuem o know how que se traduz em uma produção que se resolve bem visualmente e se encaixa com organicidade como parte daquele mundo mágico que vimos atingir sua maturidade em Ordem da Fênix (2007) após várias trocas de diretores e mudanças de tom na primeira metade da saga do menino que sobreviveu. A Nova York dos anos de 1920 daqui pertence ao mesmo universo que a Londres dos anos de 1990 de lá, a MACUSA e o Ministério da Magia Britânico coexistem numa boa, a maleta de Newt é a tataravó da mochila de Hermione e Newt cuidaria de Bicuço, Aragogue, de testrálios ou mandrágoras da mesma forma que ele cuida de seus pelúcio, tronquilho, occami, semiinviso, erumpente, pássaro-trovão, etc.
E Newt é ao mesmo tempo um protagonista diferente de Harry e uma ligação que temos com a série anterior, por vir de Londres, ter estudado em Hogwarts, ser lufano e amigo de Dumbledore. Eddie Redmayne interpreta seu papel muito “autistic coded” de um jeito que é cativante, o casting foi perfeito. As outras partes do quarteto principal são: Tina, Queenie e Jacob. As duas primeiras estão representando o lado norte-americano deste mundo e através delas somos recontextualizados nesse outro lugar. Tina (Katherine Waterson) é mais séria, focada no trabalho, muito justa e um pouco estranha também, enquanto Queenie (Alison Sudol) é uma fofa e uma bombshell, e uma legilimente. Jacob (Dan Fogler) é o primeiro trouxa/no-maj protagonista que temos em alguma produção da franquia e é um olhar fresco e de encantamento para as maravilhas que são lugar comum para os outros personagens, além de ser o alívio cômico e o grande coração desse time. Vemos só por aí como há uma enorme diferença em relação a Harry, Ron e Hermione; não são crianças estudantes em formação presos em alguma trama aventuresca enquanto tentam passam de ano que temos agora, mas adultos muito diferentes entre si que precisam lidar com problemas políticos e sociais (enquanto tentam recuperar uns bichos fujões nesse lado mais lúdico e episódico da trama).
Admiro as intenções e vejo comentários políticos muito mais sérios e diretos em Animais Fantásticos do que em Harry Potter, mas a execução é torta. As subtramas de Credence (Ezra Miller), sua família adotiva e a seita dos Segundo-Salenianos e da família de magnatas da comunicação e políticos reacionários que embarcam na caçada anti-bruxa, não funcionam tão bem assim além do discurso. Não são criados personagens interessantes o bastante nesses núcleos, falta aprofundamento, falta consequência, com a exceção de Credence, que este sim se tornará quase outro protagonista da série. Acho a interpretação de Miller boa, mas não excelente, para um casting ruim (penso que deveriam ter escalado um ator mais jovem para o papel). Já a atuação de Colin Ferrel como Graves é ótima, ele é misterioso e intrigante e eleva até mesmo o Credence de Miller nas interações cheias de subtexto entre os dois. O clímax do filme se sustentará em cima dos dois e de Tina e trará a “revelação bombástica” do final, que foi bastante telegrafada durante o filme todo, desde as manchetes de jornal que abrem o filme. Afinal de contas, Animais fantásticos e onde habitam foi um prólogo para a história secreta da franquia: o embate entre Grindewald e Dumbledore.
A partir daí, eu vou continuar gostando de coisas pontuais e ideias de Crimes de Grindewald (2018) e Os segredos de Dumbledore (2022), mas um pouco da essência e magia deste primeiro filme se perdem, pois com todos os defeitos e problemáticas apontados, Animais Fantásticos e Onde Habitam é bom e eficaz em ser um “Harry Potter sem Harry Potter” por não tentar ser igual nem se apoiar tanto no que veio antes, apesar das piscadelas e do mesmo mundo retrabalhado. Por ter seu lado sério e político (admirável em intenção, mas mambembe), mas ter um lado lúdico e aventuresco muito divertido, carismático e criativo também. Por ter um elenco sólido e que se justifica dentro da trama e na entrega dos atores em cena (falo principalmente do quarteto principal), que não são cópias de outros personagens, mas eles próprios, e que completam um arco neste filme, que se sustenta sozinho.
Flow (2024) é uma animação peculiar, que se situa entre o experimental e a convenção tanto na narrativa quanto na técnica, e eu fico muito feliz mesmo que tenha conseguido ganhar seu espaço nos festivais, nas premiações e entre o público, porque não é sempre que vemos um desenho animado não-Disney/Pixar/Dreamworks/Illumination/Ghibli, nem norte-americano (nem japonês!), ganhar tanto destaque assim (a ponto de ocupar salas de cinema de shopping centers, muito por conta da indicação ao Oscar). O longa (até que curtinho) foi feito em software aberto e o gatinho preto virou símbolo e quase embaixador das artes da Letônia, país de origem do seu diretor. E que coisa mais graciosa!
Há um minimalismo encantador no projeto, que deve ser tanto por design quanto por limitação, mas cuja economia de elementos dá a cada um deles um motivo mais definido do porquê está ali e inspiração em sua execução. Os personagens animais tem comportamento animal e falam sem precisar de palavras ou se antropomorfizar, pelo olhar, gesto, interação com a natureza, com o barquinho e uns com os outros. Gato, Capivara, Cachorro, Pássaro, Lêmure e Baleia tem mais personalidade e sutilezas do que pessoas que dizem tanto sem dizer nada na imensa maioria das narrativas mais comerciais. Em sua simplicidade, eles comovem e conseguem ser avatares universais de tipos inclusive humanos (mas porque também somos parte da natureza e porque, enquanto humanos, projetamo-nos nas artes e nas coisas, não por eles se humanizarem em demasiado).
Aliás, rastros de culturas ancestrais aparecem aqui e ali no cenário que sugerem um pós-apocalipse ou um mundo-pós-humanos: estátuas de gatos, casas, torres, cidades submersas, joias, esculturas, ferramentas. Tudo fica na sugestão e os símbolos são abertos na mesma medida em que também aparecem como suporte e obstáculos concretos, caminhos e barreiras para a trajetória flutuante dos bichos por um mundo vivo, que respira, inspira e expira, submerge e emerge, num fluxo constante e cíclico. Esse mundo é generoso pois fornece os meios para nele sobreviver e navegar, o veículo e os companheiros de viagem, os peixinhos para dar cor e vida, os desafios para a autosuperação, as janelas para a transcendência.
Essa sensação de mundo vivo e que está sempre em movimento é passada por uma simulação de “câmera em movimento” que também não para, que está em geral nessa cadência flutuante mais tranquila, não muito abrupta, nunca estática. A água aparece em cena tomando conta dos espaços e é como se a animação acompanhasse suas ondas. Quando o gato flutua no mar, flutuamos com ele, quando ele submerge, submergimos junto, nadando em meio aos peixes ou afundando em direção ao breu. A noção de escala e o senso de profundidade e direção são guiados pelas copas das árvores, pelos monumentos no horizonte, além dos próprios animais e suas dimensões relativas.
Outro ponto que merece atenção é o desenho de som e a sua mixagem, pois são impecáveis. Os sons da natureza, incluindo sons “surdos” e ruídos dos mais diversos, integram-se à trilha imersiva num tudo uno. Uno também com as patinhas dos animais andando sobre a madeira, com o barulho da água, com os seus miados e latidos, choros e grunhidos. Uno com o silêncio. E é aí que tá a chave de seu sucesso e o maior diferencial de Flow em relação a tantas outras animações que também são primores técnicos e realizações, por essa ótica, talvez até mais impressionantes. Robô selvagem (2024) mesmo, por exemplo, outra animação do Oscar deste ano, é lindíssima, também me emocionei horrores com ela, e também tem animais (com muito mais textura) em um mundo vasto e rico (e muito mais povoado), mas infinitamente mais barulhento, e com uma trilha com orquestra que diz exatamente o que você tem que sentir, e dá-lhe musiquinha pop. E esse outro filme supracitado ainda é dos exemplos realmente muito bons e com qualidade num universo de filmes que muitas vezes não passam de ação de marketing para vender brinquedos.
No silêncio e na sugestão, na economia técnica e narrativa, na emulação de algum tipo de realismo superconvincente em minúcias do comportamento animal e outros detalhes ao mesmo tempo em que não é nem tenta ser o mundo real em escala 1 para 1 em texturas e “alta definição”, Flow me parece um videogame como Shadow of the Colossus (2001) de Playstation 2, no qual as batalhas travadas pelos desenvolvedores eram escolhidas a dedo para serem desenvolvidas com o máximo de elegância e as batalhas com os gigantes enfrentadas pelo protagonista fossem, cada uma delas, incomparáveis com qualquer outra experiência existente à época ou desde então. Flow não é épico no sentido de grandioso e está longe de ser, mas é épico naquilo que quer realizar, em delicadeza e intimismo. Me faz lembrar também uma pintura impressionista. Ou um sonho.
O encantamento por trás dessa série de filmes que fascinou uma geração tem a ver com timing, marketing, identificação, estrutura bem pensada desde o material base e, acima de tudo, o carinho imenso que David Heyman (produtor), Steve Kloves (roteirista), Chris Columbus (diretor deste primeiro filme) e companhia colocaram neste projeto. Não importa que sejam filmes de estúdio de Hollywood comandados por executivos de terno e gravata que só pensam em dinheiro. A criadora ter se revelado uma pessoa no mínimo polêmica e problemática tanto tempo depois de ter contado essa história (nos sete livros originais) importa menos ainda para a aura especial que esses realizadores conseguiram imprimir nessa década de cinema, nesses oito filmes. Porque existe algo de único nesses filmes e, novamente, o impacto que eles tiveram na geração que cresceu com Harry, Ron e Hermione foi sem igual.
Não dá para replicar a emoção das notas de John Williams tocando enquanto aquelas figuras estranhas em trajes estranhos aparecem na rua dos Alfeneiros para deixar o bebê marcado pela cicatriz em forma de raio na porta de número 4. A comoção que essa pequena cena provoca até aparecer na tela o título do filme em um fundo com nuvens relampejantes e o tema musical instantaneamente clássico de Williams somente ganha paralelo e é reforçada com as aberturas dos filmes subsequentes. Mas tudo deriva e evolui a partir de A pedra filosofal (2001), o acerto fundamental que sedimentou as bases de tudo.
Seria impossível contornar, pintar e expandir os territórios de Hogwarts e do mundo bruxo se a planta baixa não fosse tão bem desenhada. E não falo só de design de produção, nem me atenho aos elementos mais lúdicos e propriamente fantásticos. Chris Columbus consegue dar o tom e criar atmosfera seja entre os Durleys e os trouxas, seja na “invasão mágica” das corujas, cartas e de Hagrid, seja com a travessia dos portais para o Beco Diagonal e o Expresso de Hogwarts.
Não tem como não ficar de queixo caído junto com as crianças quando eles, de dentro dos barquinhos, se deparam com a imensidão do castelo que será sua escola e internato/casa durante o ano letivo. E durante os próximos sete anos até completarem a sua formação como jovens bruxos e bruxas.
Porque Harry Potter, enquanto obra em sua completude, é uma história de formação. Da criança ao jovem adulto. Dos 11 aos 17. Além de ser uma “jornada do herói” tradicional e uma grande salada de referências folclóricas e mitologias. Mais para frente, temas pertinentes ao amadurecimento do protagonista surgem conforme ele passa a se situar melhor em um mundo com a sua história, política e complexidades, conforme surgem sentimentos em seus relacionamentos. E cada romance isoladamente oferece uma aventura que sempre gira em torno de algum mistério (não à toa Rowling foi escrever romances policiais depois). Mas aqui tudo começa mais básico e infantil, como tinha que ser.
Todavia, por mais infantil que seja e que assuma esse lugar, há espaço na trama e no filme para medo, dor, morte, luto, o que é recorrente na série. São vários testes de coragem pelos quais Harry passa para crescer e ser recompensado no final com a taça das casas e um arco de personagem digno, junto de seus principais amigos. O trasgo-montanhês, o cachorro de três cabeças, a noite na floresta proibida, o quadribol sob azaração, o xadrez bruxo… Cada um deles possui uma set piece à altura e conduzem a narrativa para o confronto de Harry com seu arqui-inimigo cercados pelo fogo em torno do espelho de Ojesed. Nessa cena está a representação quintessencial da série, seus temas, símbolos, motivações (Harry, Quirrel/Voldemort, mortalidade, ambição, família, amor).
Nem todas as cenas são tão perfeitamente executadas assim, seja por algum CGI não tão bem renderizado (se olhamos com os olhos de hoje em dia), pela atuação de um elenco mirim que tem seu carisma mas também possui a sua limitação ou por uma decupagem básica e estilo padrão. Mas eu penso que a solidez e a textura que a maior parte dos elementos de cenário, objetos de cena, criaturas e figurinos tem, a escolha de um elenco de suporte adulto impecável e a fluência da narrativa e da ação junto ao envolvimento, encantamento e definição de tom que a direção cria, mais do que compensam quaisquer falhas. E nenhum revisionismo histórico ou crítica à posteriori mudará a nostalgia dos fãs por essa narrativa que conquistou seus corações com tanto afeto.
A versão disneyficada, pasteurizada, infantilizada, higienizada, americanizada e cristianizada da mitologia grega é sensacional. Não é a toa que esses filmes dos anos 90 são chamados de o Renascimento da Disney.
Hercules (1997) é inspiradíssimo, desde a utilização do gospel para cantar a lenda do herói pagão até a transformação desse herói antigo em um tipo de rockstar ou estrela de Hollywood moderna com seus merchans e fangirls. Esses anacronismos são bem sacados e super divertidos.
E os cenários que puxam mais das referências clássicas para retratar a Grécia antiga enquanto ambientação de fundo são belos e marcantes, do Olimpo feito de luz e nuvens às cidades com suas típicas colunas e arquitetura, estátuas e vasos. Contrastam com esse lado mais solar, a floresta, o submundo, o caos urbano de Tebas, o covil da Hidra e, posteriormente, a cidade destruída pelo Ciclope e a devastação provocada pelos Titãs, desenhados mais disformes e com cores mais sombrias.
Já os Deuses são um arco-iris super luminoso. Zeus é uma parede dourada de músculos com sorriso bonachão. Hades é o carisma em divindade com o seu mal-humor, sarcasmo e cabelos em chamas azuis. São versões super reducionistas e quase desrespeitosas com os deuses de Homero, Hesíodo ou das tragédias, da tradição. Eu consigo amar ambas as versões.
E o elenco todo de personagens coadjuvantes deste filme é muito acertado: Hades, Pânico e Agonia, Pégasus, Mégara e Phil. Servem muito bem de apoio principalmente cômico, mas também dramático no caso dos dois últimos, à jornada do herói, que é toda clássica e arquetípica, seguindo à risca o percurso do monomito de Campbell, do convite à aventura à morte e ressurreição. As musas fazem a vez de coro do teatro grego e de narradoras do épico, cantando a “Gospel Truth” com o melhor do bom humor.
Vale destacar que Mégara é das não-princesas Disney mais sensuais e interessantes já feitas. “I won't say (i'm in love)” é perfeita e a canção perfeita para ela. Assim como “Go the distance” é perfeita para Hercules e “One Last Hope” é perfeita para Phil (que é todinho o dublador original Danny Devito). Puta merda, como Alan Menken (o compositor) é genial.
De negativo mesmo só consigo apontar os designs genéricos e participações dos monstros, incluindo os Titãs. E, por algum motivo, as resoluções de terceiro ato da Disney, depois de mais velho, sempre me pareceram meio apressadas, como se fosse uma corrida para terminar, a descida final da montanha russa. Aí a gente tem que pagar os ingressos da próxima sessão pra curtir mais um pouquinho o encanto da Disneyland. E os diretores Ron Clements e John Musker sempre conseguem nos motivar a pagar para ver essa magia minuciosamente fabricada que a Disney tem no seu melhor.
Ti West realiza em Maxxxine (2024) seu trabalho mais estilizado e inconsistente entre os filmes de sua trilogia com Mia Goth. Enquanto X (2022) era um bom exercício do gênero slasher e Pearl (2022), um estudo de personagem perturbado e em technicolor, Maxxxine (2024) envereda pelo mistério de assassinato e gore em uma Hollywood oitentista.
O cenário é a coisa mais interessante deste filme, disparado. Os figurinos e o design de produção ambientam muito bem a reconstrução de época e a fotografia e a edição criam a ilusão de uma filmagem datada. Dos bastidores do pornô à indústria cinematográfica mainstream, o passeio de Maxxxine por LA é atmosférico e significativo.
As imagens evocadas desse confronto entre permissividade e repressão, artes liberais e fanatismo religioso, com uma atuação perdida por parte dos agentes do estado e violência extrema nas margens da lei, falam não somente de uma época passada, mas de nossa época. O terror é sempre uma exposição interessante dos medos da sociedade e um termômetro de sua moralidade. Em X, Ti West subverte a lógica da final girl pura e casta num discurso consoante com os nossos tempos. Já em Pearl, a perversidade da anti-heroína parece tanto fruto da repressão e condições lastimáveis em que vive quanto de sua índole inerente, algum tipo de psicopatia misturado à incapacidade de lidar com a frustração.
Nesta terceira parte, a protagonista tem uma jornada que rima com a do filme anterior, porém com um desfecho diferente, pois Maxine, diferente de Pearl, liberta-se de seu passado e vive em tempos, não menos intolerantes, mas mais navegáveis, se você tem sorte, apoios estratégicos e sangue nas mãos. O passado mais recente na indústria pornográfica a marca com estigma na mesma medida em que foi à sua maneira um escape de sua família, um desvio libertador rumo ao estrelato, que era também sonho de Pearl.
No nível do discurso o filme tem a sua coerência, principalmente dentro do contexto da trilogia, mas é enquanto exercício de gênero, enquanto filme, seja de mistério de assassinato ou de terror gore, que ele falha para mim. O suspense de investigação é totalmente chato e previsível e o gore é bem feito em sua execução e tem o seu valor de choque, mas não atemoriza.
Contudo, o verdadeiro calcanhar de Aquiles de Maxxxine é o seu desfecho, que confirma a previsibilidade do roteiro e não consegue fazer da vingança e saída por cima da protagonista uma sensação de catarse forte o suficiente no espectador. A intervenção dos personagens dos policiais no clímax é péssima, só não sendo pior do que as forçadíssimas utilizações “simbólicas” da casa de Psicose e dos letreiros de Hollywood. Entendemos que a Meca do cinema estadunidense salvou a ex-pastorinha e ex-atrix pornô, com uma pequena mãozinha do Estado, mas não terminamos o filme sentindo tanto assim que fomos salvos pela Arte. Faltou adequar o conteúdo com a forma.
Estranho e nem tão “admirável” é este “mundo novo” em que séries de tv/streaming parecem filmes para cinema e cinema parece TV. Não que as produções cinematográficas da Marvel não adotassem já há muito um esquema de aventuras serializadas nesse grande universo compartilhado, que se construía e expandia em episódios menores e atingia seus climaxes em filmes-evento como os dos Vingadores. Mas, a partir de sua fase quatro, com a Disney+ no jogo e a necessidade de despejos frequentes de conteúdo das suas principais marcas na plataforma, surgiram as séries blockbuster Marvel studios/Disney+ (a começar por Wandavision, Falcão e o Soldado Invernal e Loki), que tinham valores de produção impressionantes e eram basicamente filmes divididos em capítulos em sua estrutura. Muitas fizeram relativo sucesso, enquanto os últimos anos na tela grande foram muito mais fracos para o MCU, com produções que inclusive pareciam mais baratas e descartáveis (como Capitã Marvel 2 e Homem-Formiga 3). Eis a inversão cinema-TV que comecei falando sobre.
Infelizmente, Capitão América: Admirável Mundo Novo (2025) parece mesmo mais uma temporada de Falcão/Capitão América e o Soldado Invernal (só que sem o Soldado Invernal desta vez). Não que a única real temporada tenha sido ruim, muito pelo contrário. Funcionava muito bem até, e se aprofundava em alguns assuntos interessantes, alguns dos quais seguem no novo filme (o principal deles: o Capitão América esquecido Isaiah Bradley, homem negro explorado e depois descartado por seu governo). Porém, é muito estranha a sensação desse lançamento que era pra ser tão maior parecer tão pequeno.
E é muito triste ver um filme com tanto potencial e boas ideias prometer tanto, em termos de relevância social e algum tipo de sátira ou comentário político mais pungente, e entregar um resultado final tão medíocre e covarde. A equipe tava com a faca e o queijo na mão, mas fizeram de Sam Wilson só mais um herói de ação (é impressionante como a questão racial está literalmente na pele do protagonista e é tão pouco uma questão), Joaquim só mais um sidekick (latino), Thadeus Ross só mais um presidente americano genérico (relativamente bem intencionado mas manipulado e com anger e daughter issues), Coral só mais um mercenário, Ruth só mais uma viúva negra (israelita), Samuel Sterns só mais um cientista louco. Eram símbolos prontos para a elaboração de metáforas e diálogos com o nosso mundo atual e suas múltiplas crises, mas que o filme escolhe ignorar ou então planificar ao máximo em nome de um “em cima do murismo” ridiculo e de um worldbuilding fraco, fraco.
Finalmente usaram o Celestial morto encalhado no oceano índico desde Eternos (2021) para alguma coisa. Ok. Ele ser a fonte do metal adamantium e isso instalar uma crise entre as potências globais e abrir uma janela de oportunidade para Ross, representando os EUA, buscar a recuperação da liderança e hegemonia americana no mundo me pareceu fazer algum sentido e ser alguma tentativa de comentário político, mesmo que raso. Beleza, válido. Além disso, há uma amarração bastante próxima deste filme com O Incrível Hulk (2008) por conta da trama com Ross e Stein. Foi uma escolha. O MCU tá andando, tá legal. Mas nem a cena pós-créditos empolga pra valer (personagens descobrindo a esta altura do campeonato sobre o multiverso é surreal, enquanto a gente já tá até enjoado do conceito).
A ação tampouco se destaca, com coreografias de luta que são ok e ficam um pouco mais interessantes quando sabem utilizar o traje do Capitão, seu escudo, suas asas de vibranium. Este Capitão América ter sido Falcão e ter incorporado as asas no traje talvez seja o maior diferencial dele, um toque de personalidade. A lógica talvez seja essa: como tá tendo muito pouco desenvolvimento dramático, que pelo menos na ação ele brilhe com as suas acrobacias no ar. Porém a direção, a trilha sonora, o design de produção e a fotografia são apenas burocráticos. Parece até... TV. A velha, não a (admirável e) nova.
Ao menos alguns cenários são bem aproveitados na composição das cenas de ação e destaco o combate aéreo e marítimo em torno do Ilha-Celestial e a luta contra o Hulk Vermelho, a parte inicial na Casa Branca e a parte final entre as cerejeiras. Esses seriam os momentos mais de espetáculo do filme, que ele consegue entregar. Na realidade, ao fim e ao cabo e em geral, o filme entrega sim o feijão com arroz e farofa de um blockbuster de herói; tá bem na média do MCU, inclusive. Mas, já que estamos falando de multiverso e cinema que parece TV e o escambau, adoraria muito mais ver um episódio da série animada What if que mostrasse alguma das versões prévias do roteiro que certamente existiram com mais o que dizer, mais sangue e mais sangue nos olhos.
Um Filme Minecraft
2.6 197 Assista AgoraO apelo de um jogo como Minecraft está no seu elemento “sandbox”, em ser um espaço aberto repleto de ferramentas para os jogadores se sentirem um pouco exploradores e um pouco co-criadores dessa terra quadrada e fantástica. Os fragmentos narrativos oferecidos aqui e ali montam um quebra cabeças que se completa com o protagonismo e a imaginação do jogador. A aventura deixa de fazer sentido se você para de engajar e exercer esse papel ativo nela. Um filme de Minecraft, portanto, nunca foi uma ideia muito boa pra início de conversa. Mas, até aí, um filme de Lego parecia fazer tanto ou menos sentido quanto e acabou se justificando e sendo sensacional.
O que tinha em Uma aventura Lego e falta em Um filme Minecraft é criatividade. Muito ironicamente, pois este é não só o elemento central da identidade da marca como o assunto explícito do filme, seu mais forte tema, se conseguimos encontrar algum. O “arco” de Henry gira em torno de ele ser tipo um gênio, super inventivo, apesar de o máximo que ele constrói nesse mundo ilimitado ser uma torre sem graça e uma arma de atirar batatas. Parece até piada, enquanto as piadas propriamente ditas do texto não fazem rir.
Extremamente sem graça também é a trama aqui, a própria definição de “qualquer coisa”. Talvez se escolhessem um único foco narrativo e protagonista funcionasse melhor. Ou as aventuras do explorador Steve, ou a volta por cima do Lixeiro, ou a superação dos traumas e o amadurecimento de Nat e Henry. O tom geral de leveza e comédia do filme se sustenta sobre o carisma de seus atores e suas personas que se confundem com as dos personagens, especialmente Jack Black e Jason Momoa. Até porque não há muita substância em qualquer deles, então o que sobra é o carisma natural mesmo.
Fora isso, os efeitos visuais são competentes, o cenário 100% fabricado do “mundo superior”, os bloquinhos, vivos ou decorativos, se materializam e interagem bem nas cenas. Nada muito impressionante ou inspirado, mas o digital sobre a tela verde funciona. A esquete de Jennifer Coolidge e seu namoro com um dos aldeões (NPCs genéricos) que escapa do jogo para o “mundo real” é algo totalmente deslocado e bizarro que pelo menos isolado também funciona como comédia do absurdo. Mas são raros até esses momentos absurdistas mais escrachados. Difícil de defender.
A Paixão de Cristo
3.7 1,2K Assista AgoraEste é um filme de Páscoa raiz, hardcore, católico/crente “na veia”. O episódio da paixão de Cristo nesta retratação visceral de Mel Gibson faz suas escolhas de modo a torturar o espectador junto ao Deus vivo e filho de Deus dos cristãos e nem falo isso no mal sentido. O martírio, a via crucis, o sacrifício expiatório pelos pecados do mundo se potencializa nesta lente que se aproxima das feridas em carne viva, parece sádica, mas nunca deixa de prestar reverência à figura de seu protagonista trágico. Afinal, trata-se literalmente da maior tragédia que já existiu, seu arquétipo e realização supremos na História.
Anunciado por profetas desde o Antigo Testamento, Sua vida, Seu evangelho e Sua morte transformam e dão sentido à própria Criação. A traição de Judas, a humilhação que Ele é obrigado a passar, injustamente cuspido, escorraçado, espancado, açoitado, e por fim, pregado, crucificado, perfurado e morto, tudo isso em razão da iniquidade e crueldade do povo (e o filme bem mostra a relativa indiferença dos governantes enquanto o próprio povo e em especial seus religiosos o condenam), levam à Salvação desse mesmo povo, em ato de puro Amor. Ao mesmo tempo a Tragédia das tragédias, uma luta inescapável frente ao Destino, o Cristo Ressuscitado oferece o final feliz inexistente na época dos gregos e seus deuses mesquinhos, presos a um pós-vida imutável e sombrio. Quando volta da mansão dos mortos, Cristo abre as portas para todos os heróis e santos do passado e do futuro poderem passar. Todas as tragédias viram (divina) comédia. Mas não deixa de sofrer, se lamentar, pedir por misericórdia, porque Deus se fez Homem de carne e ossos, suor e sangue.
A partir dessas ponderações ou qualquer reflexão filosófico-narrativa-poética-teológica inspirada pelo filme, pode-se observar que, neste caso, a arte e o seu sentido religioso se misturam muito profundamente, sendo impossível uma análise desassociada, pois se perderia toda a essência e o valor daquilo ignorando a questão da Fé dos seus realizadores, demonstrada na forma que o filme assume. Apenas uma pessoa, senão católica, muito influenciada pela visão católica do mundo e por sua leitura específica da Paixão, condensaria toda a vida de Cristo em suas últimas 12 horas para buscar nelas todo tipo de simbolismo e associação com suas experiências pregressas. Dentro dessa cosmovisão era a decisão óbvia, porque está tudo ali.
Maria, Madalena e os apóstolos participam desse momento decisivo, epicentro narrativo e da História civilizacional, do Getsêmani (escuro, de atmosfera densa), ao Calvário (árido, brutal), como as testemunhas que foram e também funcionam na estrutura do filme como esses ganchos para pontuar passagens específicas do Evangelho em meio a toda a dor excruciante, jamais diluída. Muito pelo contrário, a câmera se demora e cria cenas fortes, difíceis de ver, do martírio. O Cristo de Caviezel carrega dor, muita dor, e bondade piedosa no olhar, mesmo quando quase não conseguimos mais ver um dos seus olhos pelos ferimentos e pelo sangue. Aliás, a físicalidade na atuação do ator impressiona pois precisa ser forte e frágil ao mesmo tempo, sofrida e resiliente. Não diria que é simples representar a Carne e o Sangue, sagrados na liturgia católica, o Pão e o Vinho eucarísticos, mas conseguiram de alguma maneira.
Não compreendo totalmente o preciosismo de Gibson em querer usar os antigos aramaico e latim como as línguas faladas no filme, mas aplaudo a coragem de levar a cabo essa ideia. Acaba ajudando na contextualização e imersão. Mesmo que seja dramatizado do mesmo jeito, não é documento histórico, Jesus não falando inglês moderno mas uma língua que soa estranha e antiga aos nossos ouvidos me parece mais correto, menos incômodo. Essa preocupação aparece também na reconstrução da época, apesar de um ar de teatralidade e de nunca entendermos totalmente a geografia dos lugares. Não nos perdemos na mise-en-scene, mas o que quero dizer é que existe qualquer coisa de genérica nessa Jerusalém do filme, não diria que como uma novela bíblica da Record, pois é bem melhor realizada do que isso, porém é essa mesma ideia de oriente que orienta a encenação. A base pode até ser histórica, mas falta mais especificidades. A cidade não é personagem.
Por outro lado, Pilatos (Hristo Shopov) ganha uma dimensão interessante justamente nesses detalhes de caracterização, nessas especifidades, que lhe dão um caráter mais austero e sóbrio, contrastante com a vilania de um Caifás (Mattia Sbraglia), a fanfarronice de um Herodes (Luca de Dominicis), a bizarrice de um Barrabás (Pietro Sarubbi). E, dentro desse lado antagonista, há ainda uma curiosa representação do próprio Antagonista, andrógeno, assustador e sempre à espreita, carregando cobras e bebês demoníacos, a figura simbólica por trás do Mal, dos atos de selvageria do povo, da traição, tormento e suicidio de Judas (Luca Lionello). A vitória sobre a Morte de Cristo faz esse Inimigo (meio figurativo, apesar de real) gritar e a Terra tremer. Quase dois mil anos depois e ainda lembramos e revivemos o episódio, seja nas missas católicas, outras cerimônias cristãs, em palcos do Brasil, em filmes de Hollywood. E pra achar isso bonito nem precisa ser religioso. Para quem é de fé, feliz Páscoa!
O Protetor: Capítulo Final
3.5 265Existem pelo menos três coisas a serem exaltadas nesta terceira instância dessa série de “filmes de ação geriátricos” protagonizada por Denzel. A primeira delas é o próprio ator, que é dono de um carisma inegável e de uma presença de cena fortíssima. Em segundo lugar, a mão sempre segura de Fuqua na direção da ação, desta vez bastante sanguinolenta, e do suspense que a antecede. E, por último, eu ainda destacaria os belíssimos cenários italianos que ambientam a trama, super valorizados pela cinematografia.
Essa Itália com cidades costeiras esculpidas em pedra, moradores pacatos cuidando de seus pequenos comércios e ofícios, máfias familiares, símbolos da sacralidade católica, conta por si só uma história rica e intrigante. A chegada de “Roberto” como esse vigilante obscuro, anjo vingador, super simpático e super brutal, vem para desbaratar a intriga que liga esses criminosos locais com tráfico internacional, terrorismo, extorsões e roubos cibernéticos transcontinentais de aposentarias de velhinhos americanos. E se há uma preocupação evidente de justificar o sangue derramado por Robert Mccall e a interferência americana em terras estrangeiras, o filme funciona mais na simplicidade de mostrar gente ruim se fodendo do que quando ensaia qualquer tipo de discussão moral e não sai do raso ou tenta fazer a gente junto da personagem de Dakota Fanning conectar os pontos nessa investigação que parece um pouco fácil e um pouco óbvia demais.
Antes do filme mostrar realmente a que veio, a cena inicial da chacina no casarão choca pelo nível da violência, estabelece um mistério e sugere uma dubiedade moral, uma complexidade, principalmente pela presença da criança sobrevivente que acaba por acertar o tiro no vigilante. São promessas que não se cumprem. A parte da violência continua, mas vai deixando de chocar tanto, o mistério era melhor somente como mistério do que quando solucionado e, apesar de literalmente se perguntar e ser perguntado se é um homem bom mais de uma vez, Robert tem sempre todas as desculpas e pseudo explicações para o porquê de ser tão violento. Ele tá dando o troco, devolvendo na mesma moeda, fazendo justiça com as próprias mãos porque a segurança pública é corrupta, incompetente ou está de mãos atadas e ele tem a coragem e o sangue frio para fazer o que faz. Tá beleza, só não é tão complexo assim, e Enzo quase que o perdoa e absolve instantaneamente, assim como o filme parece querer fazer.
A montagem paralela no final entre a procissão e o justiçamento através do morticínio dos bandidos cria contraste mas parece sinalizar também algum tipo de identidade, como se as respostas às orações do povo, que já demonstrou estar do lado do vigilante, fosse a “purificação” que ele está fazendo naquelas ruas. Depois, os fogos de artifício e as comemorações coloridas não são mas é como se fossem a premiação de Robert por ter resolvido a situação por ali, ajudado a inteligência americana, devolvido os exatos trezentos e sessenta e tantos mil dólares da aposentaria do senhor. Nosso protagonista foi aceito pela comunidade, abraçado por ela. É um querido, nosso vigilante favorito, mais do que bom, um ótimo cara! Tá perdoadíssimo, somos católicos, afinal.
Um Lugar Silencioso: Dia Um
3.3 803Eu estava pronto para um filme medíocre e qual não foi a minha surpresa ao ver em Um Lugar Silencioso: Dia Um (2024) uma entrada verdadeiramente interessante e autêntica na franquia criada por John Krasinski? Quem diria que dá para fazer uma prequel ou filme derivado que não seja focado em responder brechas de seu original ou então em repetir a fórmula de sucesso, mas sim em construir sua própria ideia a partir do mesmo conceito? Porque este filme é isso e ele escolhe fazer dos já conhecidos monstros ultrassensíveis ao som veículo para discutir questões relativas à mortalidade, à fragilidade da vida e das superestruturas da civilização, através de um drama bem mínimo de sobrevivência, concentrado em dois personagens humanos e um gato e de um estilo muito cuidadoso, entre o escopo grandioso da destruição apocalíptica e a ênfase humana nos detalhes.
A execução técnica do filme para a sua elaboração estilística, aliás, acho bastante impecável. A fotografia contrasta luz e sombra muito bem tanto nos modernos prédios de vidro quanto nas antigas catedrais da cidade e cria uma Nova Iorque suspensa em poeira e silêncio. Essa poeira branca se destaca na pele negra de Lupita Nyong'o, que é um show de performance no drama e na ação. As lentes se fecham muito em planos que sabem valorizar os olhos expressivos da atriz ou então olham para o chão e o andar dos personagens que precisa ser ágil e suave. A edição alterna esses planos fechados com aqueles que mostram mais do espaço ao redor, o caos urbano que vai virando esse lugar silencioso, meio assustador mas às vezes também estranhamente pacifico.
Esse sentimento de paz e algo reconfortante está associado ao silêncio forçado, aos elementos da natureza (a chuva, o trovão, a água corrente) que trazem proteção, à empatia humana advinda da situação de necessidade, presente na ajuda mútua entre a protagonista e seu stalker amigável Erik (Joseph Quinn, que está super bem também). Também tem a ver com essa jornada de volta ao Harlem da infância da protagonista, pelas conversas, por sua poesia, pela lembrança de seu pai, pela pizza, por Nina Simone e pelo literal retorno. A invasão em si é um negócio terrível, indesejável, tenso, mas foi um meio para a libertação, de certo modo, dessa personagem que vivia de contar os dias para a morte na sua internação para tratar a sua doença. Se ela sentia que já vivia numa prorrogação de seu tempo na Terra, os alienígenas apenas deram a sentença final, contudo oportunizaram antes disso ela vivenciar esse seu fechamento, através da arte, do rememorar, de uma última conexão e do deixar ir de seus apegos terrenos (o gato, a blusa).
Por fim, enquanto assistia, não consegui não pensar na pandemia de COVID-19, uma situação quase apocalíptica que todos vivemos e foi igualmente uma pisada forte no freio da “marcha do progresso” e um mute nas ruídos e cacofonias de um mundo barulhento demais. Mesmo que depois a maioria tenha se esquecido disso, no contexto pandêmico e de isolamento precisamos pensar e repensar muito sobre o fim, sobre o luto, sobre estilos de vida mais equilibrados com a natureza e como precisaríamos não voltar à antiga normalidade que produziu o vírus e implodiu ao ter que parar, mas sim reinventar a noção do que é normal para um futuro sustentável. Nada é à toa e os letreiros iniciais do filme dizem sobre os decibéis altíssimos dos sons da cidade de Nova Iorque e aposto que na situação fatídica aludida esses decibéis também deram uma boa abaixada, tanto quanto na ficção. Imaginar esses cenários, afinal, “serve” para isso, trazer reflexão e mudança sem matar milhões nem matar ninguém e até antecipar e prevenir essas mortes. Vamos assistir uma apresentação de um teatro de marionetes para lembrar que se enchemos nosso balão podemos voar, porém esse balão tá sujeito a explodir e fazer barulho. Ou vice-versa: barulho demais e muito alto pode explodir o balão. Então, antes que o balão exploda, lembremos de saborear uma boa pizza. Sem esquecer de alimentar o gato.
Meu Malvado Favorito 4
3.2 131 Assista AgoraMeu malvado favorito 4 (2024), o último capítulo de uma franquia que já tinha muito pouco a oferecer, talvez seja um dos mais fortes sinais de esgotamento criativo do cinema de entretenimento infantil estadunidense. É um filme que não diz absolutamente nada sobre nada e é nada mais nada menos do que um monte de gags emendadas. Algumas dessas gags são semi divertidas, mas a maioria, principalmente as inúmeras e intermináveis envolvendo os minions e agora os super minions, caem muito mais no lugar do irritante. Irritante tipo insuportável mesmo.
Sério, para cada cena de interação familiar fofa mostrando a paternidade desengonçada de Gru com as suas meninas ou o seu mini-eu rabugentinho ou então com a sua nova vizinha/pupila endiabrada, existem dez cenas das criaturinhas amarelas destruindo tudo ao seu redor.
Apesar de eu entender a facilidade desse humor besta, facilidade de fazer, facilidade de com ele tirar risadas de crianças muito novinhas ou gente com um senso de humor mais simples, isso desvaloriza e esvazia tanto a experiência. É subestimar e rebaixar o seu público num nível igual ao chamá-lo de idiota enquanto enriquece às suas custas.
Super penso que o humor besta e inconsequente tem o seu espaço, por exemplo, numa dinâmica familiar ou de descompressão, mas dá pra ter isso e algo a mais. Pensando no contexto de assistir algum filminho em família mesmo, escolher um Meu Malvado Favorito (1,2,3 ou 4) faz total sentido, vai tirar pelo menos umas risadas de pelo menos alguns filhos/irmãos/pais/tios/primos sem ofender muito a ninguém, mas pô, até nesse contexto, o outro lado negligenciado e esvaziado da série traria tanto mais identificação e sentido. Já pensou se os personagens tivessem algum arco narrativo que os progredisse de verdade enquanto indivíduos e dentro da estrutura familiar? Puta merda, não é pedir muito e vocês mesmos da Ilummination já conseguiram fazer isso muito, mas muito melhor.
Aqui
3.3 135 Assista AgoraA hq super autoral Aqui de Richard McGuire, publicada em 2014 e que foi a base deste filme-experiência de Robert Zemecks, exerce um fascínio sobre mim desde que pude folheá-la na primeira (de inúmeras vezes) na livraria. A ideia em si é muito boa, pô! Um cômodo de uma casa através dos milênios, séculos e gerações. Um cantinho de não sei quantos metros quadrados se deslocando no tempo em recortes simultâneos, trocados a cada virada de página. Uma multitude de histórias, quadros de vidas e da Vida, sem sair do lugar.
E a proposta, que se encaixa perfeitamente na mídia gráfica, surge como um desafio imenso no audiovisual, na linguagem cinematográfica, cuja gramática se constrói sobre o cinético. Cinema é movimento, assim como qualquer narrativa, mas muito especialmente, porque impor a câmera estática significa engessar todo o trabalho da direção. Só que mais ou menos, pois a limitação de algum recurso força o uso criativo dos recursos restantes, e existe no Cinema a tal da magia da edição, alguns diriam que seu elemento mais definidor.
Cinema é movimento, mas se constrói a ilusão de movimento com a montagem, juntando um pedaço de quadro estático seguido do outro, com implicações no sentido total resultante, a ideia a ser comunicada pelos criadores-autores, esses grandes fatiadores da realidade para a construção de seus mosaicos de ação. Aí que tá, dá para fazer ação e criar sentido a partir da sobreposição de imagens estáticas, inclusive sem uma relação tão direta de causa e consequência entre elas. Isso é cinema, edição é cinema. Na verdade, Here (2024) é cinema, desde os quadrinhos que o originaram.
A gente (o ser-humano) se comunica assim, a partir da definição de um frame mental para o norteamento de todas as nossas inflexões de pensamento em algum sentido, que toma formas expressivo-verbais alguma coisa coerentes. Se a gente vai falar nesses 100 minutos de duração do filme sobre este lugar Aqui, então vamos lá e fazemos todo um reconhecimento algo caótico do que estaria contido dentro deste espaço que é físico e conceitual ao mesmo tempo. Tempo dos dinossauros, antes disso, transformações geológicas, moradores nativos, colonização inglesa, alguns núcleos familiares representativos de uma certa ideia sobre os Estados Unidos da América. Afinal, estamos falando sobre os EUA. Aqui é Aqui, não Lá. O Aqui do americano-médio-indígena-colonizador-matador-de-indígena-veterano-de guerra-cheio-das-ideias-patenteáveis-sonhador-pragmático-piloto-artista-assalariado-dona-de-casa-secretária-advogada-pai-mãe-filho-filha-neta-racista-preto-imigrante-que-morre-de-gripe-que-morre-de-Covid-que-esquece-e-lembra-e-trepa-e-vive-e-beija-a-flor.
Numa outra camada desse quebra-cabeça cósmico 5d está o som e o som através das tecnologias. Do rádio à TV aos celulares, músicas e programas geracionais vão dando pistas junto aos figurinos e às decorações e à paisagem na janela de onde estamos no tempo, sempre Aqui, enquanto nos habituamos aos personagens para além das esquetes cômico-dramáticas hermeticamente funcionais enquanto cenas isoladas. Mais ou menos, mas em geral sim. O frame mental fixo orientador dos nossos pensamentos por essa geografia metafisica de sons é a trilha sonora emotiva de Alan Silvestri, que nos lembra que estamos Aqui, num cinema de técnica e experimentação, porém melodramático e genuíno, do mesmo Zemecks tanto de Expresso Polar (2004) quanto de Forrest Gump (1994).
E o DeLorean viajante no tempo de Zemecks faz esse tipo de experiência cinética temporal, estudo multigeracional, investigação experimentadora e brincante de uma certa ideia de América, desde a trilogia De Volta para o Futuro (1985, 1989 e 1990). Então, sobretudo, Aqui poderia muito bem ser uma síntese e a coroação da carreira do diretor. Curiosíssimo que o personagem do Tom Hanks, semi auto-biográfico em relação ao autor Richard McGuire, acabe protagonizando também o filme mais representativo da carreira do diretor que fez a sua própria carreira, e que um filme adaptado possa ser tão autoral para o diretor-realizador-adaptador quanto a obra original era para o seu autor original. Os pouquíssimos e brilhantes movimentos de câmera na cena final, usando zoom-in nos rostos envelhecidos de Tom Hanks e Robin Wright, o travelling rotativo mostrando a casa de um outro ângulo e o zoom-out para fora da janela e em direção ao Lá, são verdadeiros toques de um mestre que entende do que faz e da preciosidade dos recursos que tem em mãos, quando os tem em mãos.
Rocky Balboa
3.8 582 Assista AgoraO comeback do Stalone nesse personagem antes da subfranquia Creed trazê-lo de volta como coach do filho de Apolo acho menos boa, apesar de ser uma reflexão sobre a velhice interessante. Algo polêmica, mas interessante. O ditado “dias de luta e dias de glória” não se aplica ao pugilista pois sua glória está indissociavelmente ligada à sua luta e o seu tempo de repouso, aposentaria, colheita dos louros é insatisfatório para ele próprio, personagem Rocky, ator-roteirista-diretor Stalone.
O azul melancólico que recobre as ruas da Filadélfia reflete uma angústia que chega a ser pessimista e sádica para alguém que sofre com o luto pela esposa e o afastamento do filho, mas que teria motivos para se ver feliz, bem-sucedido em seus negócios com o restaurante, uma pessoa boa sempre disposta a ajudar. O desafio que lhe é lançado, provocado pelo novo campeão peso pesado e a mídia atrás de espetáculo, faz sarna para o homem coçar, e através do treino pesado e das porradas tomadas e deferidas no ringue, ele se ergue como que em protesto contra o passar do tempo que o atropela nada gentilmente.
A luta é mais simbólica e geracional do que um match concreto valendo um título e um cinturão. O testamento que ele quer deixar para o filho é um legado de superação dos próprios limites e um exemplo vivo de que é possível permanecer de pé frente às intempéries da vida. Ele verbaliza sua lição de vida e visão de mundo para o filho, mas a sua fibra moral tem que ser curtida na porrada, sendo ele um conservador e alguém que se sente validado e respeitado quando está sangrando, perto demais do nocaute.
Não é sobre envelhecer dignamente, mas sobre não aceitar o envelhecimento, como um lutador. Por isso prefiro a aposentadoria de fato que vem com Creed, e a paternidade mais madura que Rocky oferece a Adônis, sendo seu mentor e conselheiro em vez do idoso que se recusa a se enxergar no reflexo do espelho, porque envaidecido e enfurecido por diferenças geracionais e uma melancolia que o acompanha.
Hellboy
2.6 425Os filmes do Hellboy do Del Toro são excelentes filmes de fantasia, caprichadissimos esteticamente, em maquiagem, efeitos práticos e digitais, design de produção e tudo o que tem a ver com essa construção imagética da fantasia. Guilermo é esse cara apaixonado por suas criaturas num nível fundamental que está sempre recriando seus filmes de monstro como um Dr. Frankenstein moderno, porém que se identifica muito mais com as criaturas do que com o cientista criador, apesar de ser sim um grande esteticista, um grande criador.
Já as ambições do Hellboy de 2019 tem mais a ver com o pulp, a fantasia mais barata e violenta, pouquíssimo sofisticada estética ou narrativamente, mas que, à sua maneira, embarca na coisa do trash e do fantástico. Eu acho legais as referencias de mitos arturianos, da bruxaria demoniaca estereotipica, dos trolls ingleses devoradores de carne humana. Existe a beleza feia do vulgar até na maquiagem mais tosca do Hellboy de David Harbour, que novamente luta contra sua sina de demônio apocalíptico.
Parece um pouco um clipe de Metal quando cria suas cenas que sao clipes musicais recheados com gore, há um prazer ali. Porém, quanto mais se aproxima do que Del Toro já tinha feito no filme de 2004 e em O Exército Selvagem (2008) ele se sai pior em comparação, por ser infinitamente mais pobre, deselegante e muito menos criativo. O flashback da origem do protagonista é um repeteco tão safado da cena dos nazistas com o místico Rasputin invocando o macaquinho infernal que chega a dar pena.
Ainda assim, essa mitologia fabulada e desenhada por Mignola nos quadrinhos é interessante o bastante para valer refilmagens, releituras, desse adendo curioso, meio filho bastardo, desse universo de super heróis, com uma vibe um pouco diferente, menos americanizada e fascista e mais autêntica, que dá pano pra manga para, quem sabe, outros realizadores mais talentosos seguirem os passos fortes de Del Toro ou irem para uma outra direção totalmente diversa. Tem um potencial interessante naquele outro filme que saiu mais recentemente do Homem Torto (2024) também protagonizado pelo Garotão do Inferno por ir aparentemente por um outro caminho, menos épico, mais lenda urbana, terror barato, que deve ficar menos refém da repetição daquilo que Del Toro já fez com mestria. Ansioso para conferir.
Chico Bento e a Goiabeira Maraviósa
3.8 219Delicinha de filme! Eu já estava simpático à ideia, ao Isaac Amendoim, a tudo o que tinha visto de material promocional de Chico Bento e a Goiabeira Maraviosa, mas, putz, a obra é muito melhor e mais inventiva do que acredito que qualquer um poderia esperar.
Nos bastidores, dentre outros nomes, temos direção e roteiro da galera da TV QUASE e realmente inspiração é o que não falta para a comédia que eles fazem. E é comédia mas com uma sensibilidade muito grande e uma profunda compreensão sobre a vida no interior e o universo infantil.
Há algo em comum, aliás, entre esse interior campesino, da roça, retratado no filme com cores de nostalgia, e a infância de todos nós, representada como um teatro nos devaneios de Chico: a inocência. Os adultos da Vila Abobrinha são um pouco como crianças pois personagens nesse causo de Chico mas também porque são a resistência frente ao ""progresso"" do (agro)negócio, das estradas de asfalto triplicadas dos cowboys que falam inglês, da "cultura" e da "sapiência" mais avançadas.
Aí ou essas pessoas, crianças e adultos, param para se escutar e se unir para defender a sua goiabeira maraviosa e as suas terras encantadas, ou a árvore vai cair e, com ela, o encanto/ingenuidade/infância do mundo. Pra mim é perfeita a sequência em que a árvore fala, mesmo brega e didática, porque é o momento máximo de encantamento, fantasia, por mais que o filme todo esteja repleto de pequenos encantos e seja ele inteiro um olhar cheio de poesia para a vida.
É como se o filme fosse um menino de chapéu de palha e camisa amarela entregando uma goiaba grande, vistosa e saborosa para nós, na perspectiva da câmera e de Rosinha, como um gesto de amor. Ou uma pirralhada fantasiada de criaturas folclóricas passando seu recado sério de um jeito fofo e desastrado.
E por isso esse filme é tão bom, porque consegue ser específico e universal, o que é a própria definição de clássico. As aventuras na roça de um bando de pequenos caipiras ultrapassam barreiras geográficas, etárias e do sotaque com "r" retroflexo para atingir o simbólico, através do sonho e da brincadeira, e o emocional, pelo riso sem malícia.
O Culpado
3.0 471 Assista AgoraEsses thrillers de um só ambiente com uma tensão construída em cima de uma ação que acontece extra cena, quando bem feitos, são experiências interessantíssimas de se ter. Eu curto muito e curti em O culpado (2021) a entrega de alma de Gyllenhaal nas câmeras super fechadas no rosto dele que o filme tenso de Fuqua com roteiro dramático de Nic Pizzolato pedia.
A combinação do diretor de filmes de ação, famoso por sua parceria com Denzel Washington, junto do roteirista de True Detective acertou na forma de dramatizar essa história, fechando não só as escolhas de enquadramento, mas o ponto de vista narrativo, numa perspectiva limitada e fragmentada que vai montando uma imagem em nossa cabeça do que está se passando do outro lado da linha telefônica. Uma imagem mutante e pouco confiável. E esse é o grande lance do filme, trazer reviravoltas e revelações através de novos dados que vão mostrando o quanto o raciocínio dedutivo de um policial pode se provar falho, porque os indícios e sugestões ficam nublados em meio ao caos de uma LA em chamas, um milhão de ocorrências ao mesmo tempo e um psicológico abalado.
A tal culpa a que o título do filme se refere é a do policial que erra na tentativa de cumprir com seu dever e não acho que seja passar pano para o assassino fardado explorar esse sentimento que ele tem, que se converte num arrependimento sincero, uma compensação cármica e a confissão. A moral, bastante cristã-católica, se integra no senso estético-narrativo da obra, que acaba sendo bastante satisfatória.
Moana 2
3.2 183Moana 2 não convence como uma sequência que precisava acontecer, apesar de se esforçarem minimamente quanto à continuidade temática sobre o mundo ser mais do que só uma ilha, a questão da expansão marítima da tribo e a reconexão com o passado ancestral de desbravadores e com outros povos. Mas o conflito interno da protagonista simplesmente não existe porque já havíamos entendido que a sua natureza é a de ir ao encontro do desconhecido, explorar, aventurar-se. Não tem uma justificativa para repetir o drama do “devo ficar ou devo ir?”.
É óbvio que o chamado da aventura é muito mais forte do que a âncora familiar para o tipo de personagem que Moana é e o que representa. Subversão seria o contrário acontecer. Mas não acontece. Aliás, muito pouco de subversivo ou sequer surpreendente acontece aqui.
Água e cabelo belissimamente animados não são mais o suficiente para deixar o espectador de queixo caído. Tampouco números musicais divertidos, animais sidekicks e um time de coadjuvantes carismáticos e cenas de ação genéricas conseguem prender a atenção de quem já tá vacinado em relação ao jeito Disney de narrar. Pelo menos aqui e ali eles oferecem lampejos de criatividade, mas não é o caso e não tem sido o caso já há uns anos para a empresa (e nem falo só do estúdio de animação principal da casa).
Mickey 17
3.4 525 Assista AgoraEu sou muito vendido para filmes de sci-fi e não precisa de muito para eu ficar envolvido em qualquer que seja o cenário de ficção especulativa proposto. Mickey 17 tem clonagem, upload de consciência, colonização espacial, animais alienígenas iguais aos Ohmus de Nausicaa do Vale do vento, tudo isso num tom de paródia de humor sombrio com “crítica social foda” tipo Black Mirror. E se nada é exatamente brilhante ou inovador, a abordagem de Bong Joon-ho possui a sua autenticidade.
O diretor-roteirista tem uma ideia clara do que quer fazer e não arreda o pé de seus compromissos, não tem receio em parecer bobo na comédia, simplório nas caricaturas, estranho na oscilação entre o quase infantil (protagonista ingênuo, vilão mais mau que o pica-pau, pastelão, bichinhos fofinhos) e o adulto (distopia crítica ao capitalismo tardio, reflexões existenciais, gore, sexo). Dou valor a um projeto que consegue se manter autêntico assim mesmo custando milhões de dólares, graças ao prestígio alcançado pelo ganhador do Oscar.
Então, a partir dessa definição autoral, os elementos do filme vão se moldando e encaixando, às vezes melhor, às vezes não tão bem. A atuação de Pattinson, por exemplo, é perfeitamente adequada, ele captou certinho a aura de seus dois personagens, a ingenuidade de Mickey 17 e a persona bad-boy de Mickey 18. Só falta a ele mais tempo para construir o que seriam o Mickey Barnes original e suas 16 vidas anteriores. Pois, mesmo que o descartável recupere as suas memórias a cada nova impressão, tem alguma essência que se perde e outra que se ganha no processo, como gêmeos univitelinos que partem de um mesmo lugar, mas não se confundem. Acaba faltando exploração e aprofundamento nesse conceito que é a base do filme.
No lugar de uma discussão um pouco mais profunda sobre a gênese e o fim da consciência e a construção da personalidade, a trama dá espaço à sátira política e à mensagem ecológica, nas formas dos personagens de Ruffalo e Collette e dos rastejadores. Os dois atores, assim como Pattinson, sacaram bem a proposta da direção e se deliciam com as caricaturas expansivas e patéticas do empresário que acaba funcionando como autoridade política dentro do seu feudo de exploração e colonização além de líder de seita religiosa (negócios, política e religião imbrincados como nunca, como na vida real) e da esposa com uns neurônios a mais do que o marido, meio socialite, obcecada por molhos, sempre em busca de ingredientes exóticos para temperar a sua comida (enquanto as refeições dos trabalhadores são calorias contadas e sem sabor). Os rastejadores são a representação do ecossistema nativo de Niflheim, ameaçado pelos invasores humanos, supersimpáticos, apesar do design chupinhado do estúdio Ghibli e de eles serem a única presença viva num cenário alienígena fora isso absolutamente inóspito, gélido e frustrante.
Pode até ser intencional o tipo planetário escolhido não ser uma Pandora de Avatar, riquíssima em fauna e flora, detalhada em sua complexidade, exuberante em sua beleza, pois com certeza há algo de simbólico e verdadeiro, no sentido de que não adianta nos esforçarmos em empreendimentos megalomaníacos e insistirmos na lógica expansionista. Evoluímos adaptados a um ecossistema especifico e insubstituível e nunca haverá um lugar como a nossa maltratada casa cósmica, a Terra. Mas não deixa de ser frustrante porque pobre, porque feio, porque pouco. Nesse sentido acabamos nos portando como a socialite fechada em uma redoma com design interior arrojado, saboreando molhos de criaturas inocentes, ouvindo orações e hinos de hipocrisia, mais incomodados com o tapete estragado do que com o descartável agonizando sob nossos pés.
Ainda na toada de comentar superficialidades estéticas, os espaços internos da nave-base onde se passa a maior parte do filme oferecem uma lógica operacional muito precisa. Entendemos e nos situamos muito bem nesses espaços da forma como são filmados por Joon-ho, o quarto de Mickey, o laboratório com a impressora de corpos, as fornalhas que são o local de descarte/extermínio, as próprias já mencionadas luxuosas acomodações dos chefes. Quando nos flashbacks da Terra, as vielas escuras e apertadas percorridas por Mickey e Berto enquanto fogem de seu agiota contrastam com o aeroporto espacial desnorteante, luminoso, mais futurista e alienígena na sua retratação sob lentes que distorcem e planos de baixo do que a nave ou Nilfheim.
Aí no final do filme o gosto que fica na boca é estranho, porque não dá para dizer que o diretor não entregou um trabalho eficiente, consistente com a sua obra, sua estética e suas preocupações humanistas (pelo menos desde 2013, com Expresso do Amanhã, seguido por Okja e por Parasita, faz total sentido essa trilha que o diretor percorreu para nos trazer até Mickey 17) e que sustenta as suas escolhas sem muita vergonha ou pedir muitas desculpas. Mas, eu pelo menos, não me senti plenamente satisfeito, apesar de nutrido pelas ideias e interessado pelas esquisitices. É como se eu tivesse comido um bloquinho de caloria daqueles temperado com um molho estranho que dá sabor, mas não é comida “de verdade”. No meio da aridez de uma Hollywood em crise de criatividade e inspiração, é quase pecado não louvar algo como Mickey 17 sendo feito e lançado. Talvez seja um sinal dos tempos, mas pelo menos saí do cinema empolgado para ver uns episódios de Doctor Who.
O Aprendiz
3.5 202 Assista AgoraAdaptar/dramatizar a vida real, transformando pessoas que existem/existiram em personagens, não é uma tarefa fácil, pois se há interesse e comoção em torno dessas figuras, normalmente se faz isso com muitos dedos, resultando em obras burocráticas, as tais biografias chapa-branca. Então, a primeira coisa que se deve fazer para evitar o insosso e algo do tipo “leitura da wikipédia” é esquecer a ideia da imparcialidade, saber o que se quer dizer e escolher bem o seu recorte. Definir tema, estilo, concatenar as ações e ideias. Tratar a sua narrativa inspirada por fatos como uma ficção qualquer. Esquecer a noção de que seria possível mostrar a totalidade da pessoa e toda uma vida em duas horas de filme. O que o bom artista faz com um material deste tipo é refletir faces da pessoa sob um prisma específico.
Em The Apprentice (2024), o diretor Ali Abbasi e o roteirista Gabriel Sherman escolhem contar a sua versão da história da ascensão financeira e queda moral de Donald Trump (Sebastian Stan) através de seu relacionamento com o advogado e mentor político-ideológico Roy Cohn (Jeremy Strong) nas décadas de 1970 e 1980. Se desde o início não havia muito escrúpulo no Donald herdeiro, proprietário de imóveis, cobrador de aluguéis, racista e sonegador, após o convívio com o controverso e contraditório Roy e a absorção das suas “três regras da pessoa matadora”, Trump se torna no fim um monstro, por fora e por dentro. Laranja, de couro cabeludo encurtado e outras cirurgias estéticas úteis apenas para amaciar o ego da besta. Empresário manipulador que constrói seus projetos faraônicos, nababescos, à custa do povo, enquanto afirma, por acreditar veementemente nisso, que Nova York deve dar graças a Deus por ter a Trump Tower no lugar de mais políticas públicas.
Outra face sombria de Trump aparece nos seus relacionamentos familiares: o desprezo pelo irmão, a falta de consideração pelo pai (a fonte de seu “capital inicial” afinal de contas, que é tratado apenas como isso, quando não como um estorvo cuja opinião pouco importa e que fez uns negócios muito mais feios e inferiores aos seus). Aí temos Ivana (Maria Bakalova), que revela a misoginia grotesca por trás do romântico idealista lerdo, meio stalker, e com cara de bobo. Com todas as liberdades artísticas e licenças poéticas que o filme toma, não é “fake news” o histórico do presidente americano de violência contra mulheres e acusações de estupro. As cenas de sexo do filme, aliás, são muito boas nas interpretações e na forma como elas acontecem: Ivana cobrindo o rosto de Trump enquanto ele faz caretas de prazer é hilário; depois, na cena da agressão, ela é súbita na escalada de selvageria e absolutamente repulsiva, a câmera no chão quase nos agride junto à vítima.
Tecnicamente, o filme utiliza várias granulações da imagem e remonta a época muito bem; às vezes parece que estamos assistindo uma gravação em alguma câmera de telejornais mais antigos, curiosamente sem jamais parecer um telefilme ou obra barata ou mal-acabada. E em especial a dupla de atuações principais carrega o filme. Stan imita os trejeitos de Trump, essa caricatura humana, tão certinho que você quer realmente dar uns tabefes nele. O biquinho, o olhar, a obsessão pelo cabelo, a espontaneidade ensaiada da entrega das falas, a dicção característica. Mais para o início existe alguma coisa quase doce que o ator consegue colocar nas caras de bobo e postura insegura que ele faz. No final, só restou a monstruosidade e a arrogância. No sentido contrário, O Cohn de Strong vai se fragilizando com o passar do filme, ele se complexifica um bocado, com as questões pessoais relativas à sua homossexualidade e a uma vida mais liberal (nos costumes), diretamente opostas ao seu discurso reacionário e persona pública e profissional desprezíveis. Não só literalmente, o aprendiz enterra o mentor.
Bagagem de Risco
3.2 290 Assista AgoraO diretor Jaume Collet-Serra opera com excelência a técnica do cinema para fazer seus filmes de gênero simples e eficientes, a maioria deles assumidos como meros dispositivos para a ação acontecer, com uma dramatização funcional, sem uma vírgula a mais ou a menos. Parece que não, mas manter a bola girando no campo ou, no caso de Carry-on (2024), a mala perigosa sendo arrastada pra cima e pra baixo pelo aeroporto sem a tensão baixar exige muita habilidade na condução narrativa, por mais qualquer nota que seja a trama e por mais clichês que sejam os personagens e seus dramas.
O básico da história do filme se resume a um segurança de aeroporto (Taron Egerton) tentando se provar mais do que um acomodado e dono de uma competência suficiente para assumir como policial, depois de seu fracasso em teste de admissão. Daí cai para ele a responsabilidade de fiscalizar as bagagens que passam pelas esteiras no raio-X, justamente no dia em que um grupo de criminosos tenta colocar em prática um ato que coloca em risco a vida de uma congressista que vai embarcar num avião, e por extensão as vidas de todos na aeronave e em todo o aeroporto. Alguma questão política difusa motiva os vilões, mas como já falei, tudo no filme se justifica pela ação, pela adrenalina correndo na veia, pela respiração suspensa nos pulmões.
A esposa estar grávida e também ser funcionária do aeroporto implica em aumentar o risco e quanto maior o risco, maior a tensão. O protagonista está agindo, sendo coagido e fazendo malabares para proteger os seus mas também indivíduos anônimos e outras vitimas de coação, todo um coletivo e inclusive o espírito de Natal. Aí a montagem é virtuosa nesse vai e vem entre o protagonista, o bandido observador/atirador, a investigação da polícia, os portadores da mala. Até tudo se resolver, alguns cadáveres tendo ficado pelo caminho. O desenlace da trama é o desenlace da bomba e o alívio da tensão. Sem essa tensão sobra pouco no filme, antes ou depois, além ou mais fundo. Funciona.
Anora
3.4 1,1KUm Sean Baker menos político, o filme existe mais pelo prazer estético e sensual da imagem e pela tragicomédia de sua protagonista do que por qualquer tipo de mensagem imediata. Apesar disso, o filme carrega significado na exposição da superficialidade e fragilidade de uma espécie de sonho americano e do arquétipo da Cinderela, que vira às avessas.
No inicio, a câmera glamouriza, fetichiza, e nem tinha como não fazer isso sem descaracterizar a propria natureza do trabalho sexual ou o sobrecarregar de moralismos e julgamentos, mas existe um carinho por Ani. Amo sempre que as cenas naturalizam o corpo e focam no rosto dela. Os próprios créditos de abertura mostram o espaço do QG das meninas dançando, fazendo seus números de strip, sedução e carícias para centralizar por fim nas expressões da protagonista.
Reconhece-se o trabalho sexual como um trabalho qualquer, uma prestação de serviço, cujo gozo do trabalhador, por mais que por ventura exista e por mais que seja aquilo que se vende, é absolutamente secundário, para não dizer terciário, muito abaixo da satisfação dos clientes e da produção da dita mais valia na roda massacrante das engrenagens do sistema. Ani tem a jornada dela, o preço dela, busca se valorizar nesse mercado do prazer, as colegas amigas e as rivais, os momentos de descontração fora do job. Ivan vira seu cliente super vip e ela tira proveito disso na medida do que pode até que a ilusão embaça o seu senso de autopreservação e da própria realidade.
O primeiro ato frenético em cores, sons e sexo, curtição adoidada entrecortada por banalidades de uma vida sem grandes propósitos ou consequências, dará lugar ao inusitado e bizarro com o núcleo dos bichos papões meio assustadores meio palhaços do leste europeu que vem assombrar Ivan e retirar sua falsa independência. Las Vegas é o ápice daquele primeiro momento de deslumbramento, excessos, embriaguez eufórica. Após o casamento, tudo cai mais fácil do que um castelo de cartas. Ani tenta se apegar a uma vã esperança na ideia de hombridade e maturidade, ou pelo menos um minimo de amor e parceria, do marido, que estaria escondida por trás dos divertimentos bobos, gozadas rápidas, video-games e consumos de drogas em lojas de doces. Mas quando chega a hora de provar seu valor, ele pica a mula.
Ani aguenta o tranco firme, reage, se vira como sempre se virou. Ela é uma mulher prática e amoral que cai no conto de fadas mais infantil, comum e inverossímil: “casaram e viveram felizes para sempre”. Mas não é tapada, é complexa. Apaixonante na interpretação de Madison. Quem escolhe subestimá-la e tratá-la como descartável são justamente os antagonistas da história, não os atrapalhados pau-mandados, socialmente num lugar muito parecido com o de Anora e no fundo até simpáticos a ela, mas os ricos mimados que se acham donos da porra toda, Ivan e seus pais.
O ponto de vista do filme é mais próximo ao de Yuri (de simpatia, até respeito, tesão que dá vazão a cenas e piadas desconfortáveis, surpresa pela valentia e uso desproporcional de violência) e é justamente perto dele que Anora termina. A cena final é interessantíssima, poderosa, porque traz ela retribuindo a gentileza dele da única forma que ela se acostumou a fazer e tem um misto ambíguo de sentimentos que fica ambíguo também para a gente, ela quase convulsiona, debatendo-se e batendo nele, chorando, entre a frustração e a raiva por tudo que passou, uma entrega mais sincera ao prazer, o ódio pelo seu retorno ao antigo status quo.
Sonic: O Filme
3.4 729Não sei qual é a pira de Hollywood com botar bonecos CG vindos de cartoons e/ou mundos de faz-de-conta com lógicas próprias e cheios de potencial para interagir com pessoas de carne e osso em nossa realidade ordinária (invariavelmente o norte-americano médio em algum recôndito ou metrópole famosa dos EUA). Na maior parte das vezes faria tão mais sentido só (re)criar a fantasia original em um novo estilo para novos tempos ou outra mídia, mas insistem em fazer esse “isekai” reverso, sei lá o porquê. Absolutamente ninguém está interessado no policial da cidadezinha de Green Valley (James Marsden), que quer (ou não) se mudar para a grande São Francisco, quando o nome do filme é Sonic: O filme (2020) e o personagem título é um ouriço azul super-maneiro e super-rápido. Mas aparentemente a tendência é essa, então que ela seja um bom parque de diversões temático!
Nesta versão, Sonic é uma criança solitária e hiperativa, órfão, refugiado, alvo de mais de um grupo interessado em seus poderes e potencial energético. Mas nada disso gera muito drama, porque o filme é leve e de ação. Apesar de ser fraco nessa ação, pouco inventivo nas cenas de correria em altíssima velocidade, e de ter pintado o Dr. Robotinik (Jim Carrey) com cores mais sombrias do que eu tava esperando. É o Jim Carrey com todas as suas caras e bocas, mas a sua caracterização é a de um tecnonazi de roupas pretas, bigode de fuhrer e corte militar, tudo estranhamente familiar, mais ainda em 2025 do que na data de lançamento. Achei interessante isso e o viés mais crítico aos milicos estadunidenses. Já que as forças armadas deles têm que estar lá representadas de alguma forma e o protagonista já é o “good cop” para fazer a média corporativa, que seja assim.
O design de Sonic é fofo, não tenta ser realista demais (ainda bem!) e a interação dele com os cenários e os atores “live-action” convence. James Marsden é bom em entrar nesse lugar mental da criança interior e reagir a um personagem que não tá ali de verdade, tipo um amigo imaginário. Porém é muito pobre existir somente esse único alienígena caricatural, uns anéis que criam portais e os drones do vilão como atrações nesse carrossel de aventuras. Porque tá muito mais pra carrossel ou roda gigante do que carrinho bate-bate, montanha-russa ou trem-fantasma esse brinquedo. Temos correria, muitas piadas e montagens espertinhas com velocidade, e até perseguições de carro no filme, mas a frequência é baixíssima e não existe uma proposta visual que seja interessante e diferente de tantas outras que já vimos quando estamos lidando com corredores e super poderes.
Faltou no filme a característica talvez mais distinta desse mascote dos videogames que é ser, além de rápido, legal pra caramba, maneiro, radical, descolado, etc. Era o apelo do personagem se comparado a italianos baixinhos, bigodudos e de chapéu vermelho de outros jogos. O Sonic aqui do filme é carismático, um cadinho irritante e com um arco dramático de aceitação e de ser adotado pela família do policial bom moço e pela comunidade de Green Hill, mas ele não é massa, da hora, eletrizante. Faltou tempero e faltou contraste com outros bonecos de outras cores e temperamentos para ele brilhar mais forte e mostrar mais da sua personalidade moleca. Aí quando aparece na cena final o Tails chegando para dar o ar de sua graça na continuação já fico mais animado, afinal sempre fui da turma que preferiu jogar com o segundo personagem, aquele com um conjunto alternativo de habilidades e características para desbloquear um outro estilo de jogo. Tomara que as sequências tenham mesmo mais estilo.
Um Completo Desconhecido
3.5 234A música folk, os movimentos pelos direitos civis e a contracultura dos Estados Unidos dos anos 1960, a personalidade ao mesmo tempo magnética e evasiva da pessoa Bob Dylan, seu egoísmo no modo de lidar com seus relacionamentos, são elementos que informam sobre quem é o artista sem nunca revelar o segredo de sua arte ou a sua alma em profundidade e verdade, em Um completo desconhecido (2024). A caracterização de Timothée Chalamet para Dylan é contida e charmosa; da postura à voz, o ator claramente estudou muito para o papel e o tomou para si. Se atuar tem altas doses de fingimento para a criação de uma verdade (e toda arte é isso), a verdade de Robert Allen Zimmerman se esconde nas letras e performances de Dylan, aqui reinterpretadas por Chalamet.
James Mangold, o diretor e roteirista do filme, opta por não quebrar com a mística do músico, ao evitar didatismo e respostas fáceis para seu estilo ou comportamento. Ele é um puta compositor e um admirador dos artistas folks tradicionais e um poeta/cronista popular e um iconoclasta e um experimentador e um babaca. E um mistério. Uma coisa não anula nem justifica a outra. Quando o jovem Dylan chega em Nova York ele já está semi pronto e sua origem não é mais do que especulação no filme. Aí ele vai surpreendendo, para o bem e para o mal, nas relações que cria com seus padrinhos na arte Pete Seeger (Edward Norton) e Woody Guthrie (Scoot McNairy), a ativista e namorada Sylvie Russo (Elle Fanning), a cantora e amante Joan Baez (Monica Barbaro).
Como qualquer idealização sobre qualquer um ou qualquer coisa, a realidade é um balde de água fria. E não é diferente com quem apostava suas fichas em Dylan como o salvador do folk ou o homem de sua vida. Seu empresário (Dan Fogler) apostou na figura com todo o seu talento e as suas contradições e nisso ele acerta. Porque sabemos pelos letreiros finais e pelos spoilers da vida real que sua ousadia deu lucro. E atestamos a qualidade de sua arte quando a ouvimos nos vários trechos musicados do filme. É claro que seria Dylan o primeiro compositor a ganhar um Nobel de Literatura. E isso não exime sua pessoa de seus erros. Nem encontramos a fonte mágica de sua inspiração nesses erros ou mesmo nos acertos de sua biografia. Não há condenação nem julgamento. A inspiração aparece para o cara quando está escrevendo de madrugada no apartamento da amante ou quando acha curioso o som de um apito que compra de um vendedor ambulante na rua. Genialidade não se explica, mas se mostra. E os coadjuvantes do filme junto da câmera de Mangold são testemunhas dessa genialidade.
A forma fílmica parece básica e tradicional, mas carrega as suas sutilezas que contribuem para a aura de mistério do protagonista. Os olhares dizem muito. Quando está no palco com Joan, ele concentra o olhar nela mais do que em qualquer um em qualquer outro momento. As lentes focam nas emoções estampadas nos rostos dos atores, mas Dylan é difícil de decifrar. Exceto quando está com Joan. Ele parece mostrar vulnerabilidade na cena em que se despede de Sylvie, até que ele acende o cigarro. Parece pose, parece fuga, mas ele divide o cigarro com ela. Através das grades. Ele é filmado bastante de costas e contra a luz ao longo do filme e parece, mais para o final, não se importar e dar de costas para a tradição; porém, depois de quebrar tudo em Newport, "trair" Seeger e ser saudado pelo rockstar Johnny Cash (Boyd Holbrook), ele faz questão de visitar Guthrie uma última vez, antes de pegar a estrada em sua moto rumo ao desconhecido. São cenas em sequência muito bem escolhidas que criam no conjunto um senso de completude lacunar. As elipses e as faltas comunicam tanto quanto as letras das músicas, a escolha dos instrumentos musicais e os sons super bem captados de voz, gaita, violão ou guitarra elétrica. Comunicam mais do que as aparências, do que o "parecer ser" tanta coisa.
O Auto da Compadecida 2
3.0 444 Assista AgoraO auto da compadecida 2 (2024) é um filme que é pouco pelo tamanho do que representa o legado da peça original e de Ariano Suassuna. Ele se entende como uma farsa nesse trabalho ingrato que é dar sequência a uma obra tão querida e autenticamente nossa, brasileira, regional. Porém, mesmo se entendendo assim e dando vazão a um estilo propositadamente artificial e a comentários metalinguísticos sobre as suas repetições, o resultado não é tão saboroso.
Poderia ser uma repetição, um pastiche, do primeiro, mas com aquele gostinho que saciaria o nosso desejo de “mais do mesmo” de um prato muito muito bom que só é desfrutado muito raramente hoje em dia e nos recorda de nossa infância. Com o gosto do Nordeste encantado, teatral, exagerado, medieval, folclórico e carnavalesco dos cordéis, do teatro popular, da arte armorial. Com gosto de carne seca com macaxeira, cuscuz com leite, tapioca com manteiga de garrafa. No lugar disso, tivemos uma cópia do primeiro com versões menos autênticas das tramas, personagens, cenários, temas. Comemos o menu de uma rede de restaurantes de tema nordestino, sem a mão certa no preparo dos pratos populares que foram apropriados, processados e pasteurizados.
A trama é uma colcha de retalhos com a forma narrativa da contação desses causos vividos por João Grilo (Matheus Nachtergaele) e Chicó (Selton Mello) mais de duas decadas depois de quando os tinhamos deixado em Taperoá. Passarinhos de computação gráfica e ônibus de turistas chegam na cidade do sertão um pouco transformada, maquiada digitalmente, mas com os velhos problemas da seca, da desigualdade, da má política. A ressurreição milagrosa de João Grilo o alça a herói, santo e cabo eleitoral tanto do Coronel Ernani (Humberto Martins) quanto do radialista e vendedor Arlindo (Eduardo Sterblitch). Enquanto isso, Chicó se envolve com a filha do Coronel Clarabela (Fabiula Nascimento) e tenta reaver Rosinha (Virgínia Cavendish), seu grande amor.
Os personagens continuam carismáticos e as situações vividas por eles são até que divertidas porém empalidecem perto do original. O que só piora quando o clímax no tribunal do Além é tão “copia e cola” do que já foi feito antes, com um twist que o deixa mais psicológico e menos místico e mais sem graça. As muitas caras de Nachtergaele e a Compadecida de Taís Araújo são a versão expresso do café coado de Fernanda Montenegro, Maurício Gonçalves e Luís Melo.
Afinal, não haveria problema, até pela natureza teatral de sua origem, se fizessem uma mera reencenação/reinterpretação da peça original, desde que a direção e a estética fossem inspiradas o suficiente para justificar uma nova versão filmada. Mas é o mesmo Guel Arraes de antes que dirige aqui em parceria com Flávia Lacerda e eles não oferecem nenhuma ideia nova que valha a pena. O elenco também é majoritariamente o mesmo. Então, entre a versão original e a continuação que é homenagem e quase refilmagem porém com gosto de reciclagem ou cópia não tão boa, prefiro reassistir o original.
Animais Fantásticos e Onde Habitam
4.0 2,2K Assista AgoraEu gosto e sou um defensor de Animais Fantásticos, especialmente deste primeiro, mas mesmo nos outros dois filmes da série vejo suas “interessâncias”. Há uma expansão de universo que até certo ponto faz sentido (os governos paralelos/mágicos e suas burocracias e politicagens pelo mundo, além de vermos mais a vivência de bruxos adultos em sociedades complexas), uma contextualização de época e uma perspectiva global que permitem criar cenários legais, trabalhar paralelos com a História com H maiúsculo do mundo real e preenche lacunas e backgrounds de personagens (núcleo Dumbledore/Grindewald, que acaba se tornando o centro da série), protagonistas carismáticos e muito diferentes dos alunos de Hogwarts em Harry Potter. Defendo que Newt enquanto protagonista é um personagem muito mais único de se acompanhar (com suas esquisitices, falta de traquejo social e amor pelas criaturas) do que o heroísmo meio “baunilha” de Harry, inclusive.
Onde então que a Warner Bros, David Yates, J.K.Rowling e a equipe de produção falharam para o naufrágio da série e seu cancelamento prematuro, sem a devida conclusão? Um fator que explica isso é que Animais Fantásticos não é Harry Potter, pura e simplesmente. Não é uma história geracional, coming of age, de uma década, que evolui seus personagens e atores no ritmo do crescimento de seus expectadores, e possui uma estrutura básica que vai amadurecendo sem nunca se complicar demais. Apesar de não ser nada disso, precisava apelar para a nostalgia para se vender, só que era uma falsa promessa, com no máximo entregas de “fanservices” vazios e às vezes incoerentes. Não acho que seja essa a explicação definitiva para o fracasso, até porque a série acabou se cercando de outras polêmicas, seja pelos seus atores (Johnny Depp, Ezra Miller) seja por declarações e posicionamentos da própria autora. A crítica se dividiu muito e caiu muito em cima das produções, a partir da segunda parte principalmente. Junte tudo isso com a própria inconsistência da série, o texto estranho estruturalmente de Rowling (romancista experiente, mas roteirista de primeira viagem) e a direção não das mais inspiradas de Yates e, pronto, tivemos uma série de fôlego curto, com essas razões várias para seu desgaste rápido.
Porém, voltando às qualidades que eu enxergo em Animais Fantásticos e onde habitam (2016) e porque ele é até que um mini queridinho para mim, eu acho que Yates conhece muito bem esse universo e sabe traduzir visualmente suas características únicas mesmo com todo o deslocamento espaço-temporal em relação aos seus trabalhos anteriores em Potter 5, 6, 7 e 8. Ele não é cheio de personalidade e vivacidade ímpar, ultra autoral nem nada do tipo, mas ele e sua equipe possuem o know how que se traduz em uma produção que se resolve bem visualmente e se encaixa com organicidade como parte daquele mundo mágico que vimos atingir sua maturidade em Ordem da Fênix (2007) após várias trocas de diretores e mudanças de tom na primeira metade da saga do menino que sobreviveu. A Nova York dos anos de 1920 daqui pertence ao mesmo universo que a Londres dos anos de 1990 de lá, a MACUSA e o Ministério da Magia Britânico coexistem numa boa, a maleta de Newt é a tataravó da mochila de Hermione e Newt cuidaria de Bicuço, Aragogue, de testrálios ou mandrágoras da mesma forma que ele cuida de seus pelúcio, tronquilho, occami, semiinviso, erumpente, pássaro-trovão, etc.
E Newt é ao mesmo tempo um protagonista diferente de Harry e uma ligação que temos com a série anterior, por vir de Londres, ter estudado em Hogwarts, ser lufano e amigo de Dumbledore. Eddie Redmayne interpreta seu papel muito “autistic coded” de um jeito que é cativante, o casting foi perfeito. As outras partes do quarteto principal são: Tina, Queenie e Jacob. As duas primeiras estão representando o lado norte-americano deste mundo e através delas somos recontextualizados nesse outro lugar. Tina (Katherine Waterson) é mais séria, focada no trabalho, muito justa e um pouco estranha também, enquanto Queenie (Alison Sudol) é uma fofa e uma bombshell, e uma legilimente. Jacob (Dan Fogler) é o primeiro trouxa/no-maj protagonista que temos em alguma produção da franquia e é um olhar fresco e de encantamento para as maravilhas que são lugar comum para os outros personagens, além de ser o alívio cômico e o grande coração desse time. Vemos só por aí como há uma enorme diferença em relação a Harry, Ron e Hermione; não são crianças estudantes em formação presos em alguma trama aventuresca enquanto tentam passam de ano que temos agora, mas adultos muito diferentes entre si que precisam lidar com problemas políticos e sociais (enquanto tentam recuperar uns bichos fujões nesse lado mais lúdico e episódico da trama).
Admiro as intenções e vejo comentários políticos muito mais sérios e diretos em Animais Fantásticos do que em Harry Potter, mas a execução é torta. As subtramas de Credence (Ezra Miller), sua família adotiva e a seita dos Segundo-Salenianos e da família de magnatas da comunicação e políticos reacionários que embarcam na caçada anti-bruxa, não funcionam tão bem assim além do discurso. Não são criados personagens interessantes o bastante nesses núcleos, falta aprofundamento, falta consequência, com a exceção de Credence, que este sim se tornará quase outro protagonista da série. Acho a interpretação de Miller boa, mas não excelente, para um casting ruim (penso que deveriam ter escalado um ator mais jovem para o papel). Já a atuação de Colin Ferrel como Graves é ótima, ele é misterioso e intrigante e eleva até mesmo o Credence de Miller nas interações cheias de subtexto entre os dois. O clímax do filme se sustentará em cima dos dois e de Tina e trará a “revelação bombástica” do final, que foi bastante telegrafada durante o filme todo, desde as manchetes de jornal que abrem o filme. Afinal de contas, Animais fantásticos e onde habitam foi um prólogo para a história secreta da franquia: o embate entre Grindewald e Dumbledore.
A partir daí, eu vou continuar gostando de coisas pontuais e ideias de Crimes de Grindewald (2018) e Os segredos de Dumbledore (2022), mas um pouco da essência e magia deste primeiro filme se perdem, pois com todos os defeitos e problemáticas apontados, Animais Fantásticos e Onde Habitam é bom e eficaz em ser um “Harry Potter sem Harry Potter” por não tentar ser igual nem se apoiar tanto no que veio antes, apesar das piscadelas e do mesmo mundo retrabalhado. Por ter seu lado sério e político (admirável em intenção, mas mambembe), mas ter um lado lúdico e aventuresco muito divertido, carismático e criativo também. Por ter um elenco sólido e que se justifica dentro da trama e na entrega dos atores em cena (falo principalmente do quarteto principal), que não são cópias de outros personagens, mas eles próprios, e que completam um arco neste filme, que se sustenta sozinho.
Flow
4.2 576Flow (2024) é uma animação peculiar, que se situa entre o experimental e a convenção tanto na narrativa quanto na técnica, e eu fico muito feliz mesmo que tenha conseguido ganhar seu espaço nos festivais, nas premiações e entre o público, porque não é sempre que vemos um desenho animado não-Disney/Pixar/Dreamworks/Illumination/Ghibli, nem norte-americano (nem japonês!), ganhar tanto destaque assim (a ponto de ocupar salas de cinema de shopping centers, muito por conta da indicação ao Oscar). O longa (até que curtinho) foi feito em software aberto e o gatinho preto virou símbolo e quase embaixador das artes da Letônia, país de origem do seu diretor. E que coisa mais graciosa!
Há um minimalismo encantador no projeto, que deve ser tanto por design quanto por limitação, mas cuja economia de elementos dá a cada um deles um motivo mais definido do porquê está ali e inspiração em sua execução. Os personagens animais tem comportamento animal e falam sem precisar de palavras ou se antropomorfizar, pelo olhar, gesto, interação com a natureza, com o barquinho e uns com os outros. Gato, Capivara, Cachorro, Pássaro, Lêmure e Baleia tem mais personalidade e sutilezas do que pessoas que dizem tanto sem dizer nada na imensa maioria das narrativas mais comerciais. Em sua simplicidade, eles comovem e conseguem ser avatares universais de tipos inclusive humanos (mas porque também somos parte da natureza e porque, enquanto humanos, projetamo-nos nas artes e nas coisas, não por eles se humanizarem em demasiado).
Aliás, rastros de culturas ancestrais aparecem aqui e ali no cenário que sugerem um pós-apocalipse ou um mundo-pós-humanos: estátuas de gatos, casas, torres, cidades submersas, joias, esculturas, ferramentas. Tudo fica na sugestão e os símbolos são abertos na mesma medida em que também aparecem como suporte e obstáculos concretos, caminhos e barreiras para a trajetória flutuante dos bichos por um mundo vivo, que respira, inspira e expira, submerge e emerge, num fluxo constante e cíclico. Esse mundo é generoso pois fornece os meios para nele sobreviver e navegar, o veículo e os companheiros de viagem, os peixinhos para dar cor e vida, os desafios para a autosuperação, as janelas para a transcendência.
Essa sensação de mundo vivo e que está sempre em movimento é passada por uma simulação de “câmera em movimento” que também não para, que está em geral nessa cadência flutuante mais tranquila, não muito abrupta, nunca estática. A água aparece em cena tomando conta dos espaços e é como se a animação acompanhasse suas ondas. Quando o gato flutua no mar, flutuamos com ele, quando ele submerge, submergimos junto, nadando em meio aos peixes ou afundando em direção ao breu. A noção de escala e o senso de profundidade e direção são guiados pelas copas das árvores, pelos monumentos no horizonte, além dos próprios animais e suas dimensões relativas.
Outro ponto que merece atenção é o desenho de som e a sua mixagem, pois são impecáveis. Os sons da natureza, incluindo sons “surdos” e ruídos dos mais diversos, integram-se à trilha imersiva num tudo uno. Uno também com as patinhas dos animais andando sobre a madeira, com o barulho da água, com os seus miados e latidos, choros e grunhidos. Uno com o silêncio. E é aí que tá a chave de seu sucesso e o maior diferencial de Flow em relação a tantas outras animações que também são primores técnicos e realizações, por essa ótica, talvez até mais impressionantes. Robô selvagem (2024) mesmo, por exemplo, outra animação do Oscar deste ano, é lindíssima, também me emocionei horrores com ela, e também tem animais (com muito mais textura) em um mundo vasto e rico (e muito mais povoado), mas infinitamente mais barulhento, e com uma trilha com orquestra que diz exatamente o que você tem que sentir, e dá-lhe musiquinha pop. E esse outro filme supracitado ainda é dos exemplos realmente muito bons e com qualidade num universo de filmes que muitas vezes não passam de ação de marketing para vender brinquedos.
No silêncio e na sugestão, na economia técnica e narrativa, na emulação de algum tipo de realismo superconvincente em minúcias do comportamento animal e outros detalhes ao mesmo tempo em que não é nem tenta ser o mundo real em escala 1 para 1 em texturas e “alta definição”, Flow me parece um videogame como Shadow of the Colossus (2001) de Playstation 2, no qual as batalhas travadas pelos desenvolvedores eram escolhidas a dedo para serem desenvolvidas com o máximo de elegância e as batalhas com os gigantes enfrentadas pelo protagonista fossem, cada uma delas, incomparáveis com qualquer outra experiência existente à época ou desde então. Flow não é épico no sentido de grandioso e está longe de ser, mas é épico naquilo que quer realizar, em delicadeza e intimismo. Me faz lembrar também uma pintura impressionista. Ou um sonho.
Harry Potter e a Pedra Filosofal
4.1 1,7K Assista AgoraO encantamento por trás dessa série de filmes que fascinou uma geração tem a ver com timing, marketing, identificação, estrutura bem pensada desde o material base e, acima de tudo, o carinho imenso que David Heyman (produtor), Steve Kloves (roteirista), Chris Columbus (diretor deste primeiro filme) e companhia colocaram neste projeto. Não importa que sejam filmes de estúdio de Hollywood comandados por executivos de terno e gravata que só pensam em dinheiro. A criadora ter se revelado uma pessoa no mínimo polêmica e problemática tanto tempo depois de ter contado essa história (nos sete livros originais) importa menos ainda para a aura especial que esses realizadores conseguiram imprimir nessa década de cinema, nesses oito filmes. Porque existe algo de único nesses filmes e, novamente, o impacto que eles tiveram na geração que cresceu com Harry, Ron e Hermione foi sem igual.
Não dá para replicar a emoção das notas de John Williams tocando enquanto aquelas figuras estranhas em trajes estranhos aparecem na rua dos Alfeneiros para deixar o bebê marcado pela cicatriz em forma de raio na porta de número 4. A comoção que essa pequena cena provoca até aparecer na tela o título do filme em um fundo com nuvens relampejantes e o tema musical instantaneamente clássico de Williams somente ganha paralelo e é reforçada com as aberturas dos filmes subsequentes. Mas tudo deriva e evolui a partir de A pedra filosofal (2001), o acerto fundamental que sedimentou as bases de tudo.
Seria impossível contornar, pintar e expandir os territórios de Hogwarts e do mundo bruxo se a planta baixa não fosse tão bem desenhada. E não falo só de design de produção, nem me atenho aos elementos mais lúdicos e propriamente fantásticos. Chris Columbus consegue dar o tom e criar atmosfera seja entre os Durleys e os trouxas, seja na “invasão mágica” das corujas, cartas e de Hagrid, seja com a travessia dos portais para o Beco Diagonal e o Expresso de Hogwarts.
Não tem como não ficar de queixo caído junto com as crianças quando eles, de dentro dos barquinhos, se deparam com a imensidão do castelo que será sua escola e internato/casa durante o ano letivo. E durante os próximos sete anos até completarem a sua formação como jovens bruxos e bruxas.
Porque Harry Potter, enquanto obra em sua completude, é uma história de formação. Da criança ao jovem adulto. Dos 11 aos 17. Além de ser uma “jornada do herói” tradicional e uma grande salada de referências folclóricas e mitologias. Mais para frente, temas pertinentes ao amadurecimento do protagonista surgem conforme ele passa a se situar melhor em um mundo com a sua história, política e complexidades, conforme surgem sentimentos em seus relacionamentos. E cada romance isoladamente oferece uma aventura que sempre gira em torno de algum mistério (não à toa Rowling foi escrever romances policiais depois). Mas aqui tudo começa mais básico e infantil, como tinha que ser.
Todavia, por mais infantil que seja e que assuma esse lugar, há espaço na trama e no filme para medo, dor, morte, luto, o que é recorrente na série. São vários testes de coragem pelos quais Harry passa para crescer e ser recompensado no final com a taça das casas e um arco de personagem digno, junto de seus principais amigos. O trasgo-montanhês, o cachorro de três cabeças, a noite na floresta proibida, o quadribol sob azaração, o xadrez bruxo… Cada um deles possui uma set piece à altura e conduzem a narrativa para o confronto de Harry com seu arqui-inimigo cercados pelo fogo em torno do espelho de Ojesed. Nessa cena está a representação quintessencial da série, seus temas, símbolos, motivações (Harry, Quirrel/Voldemort, mortalidade, ambição, família, amor).
Nem todas as cenas são tão perfeitamente executadas assim, seja por algum CGI não tão bem renderizado (se olhamos com os olhos de hoje em dia), pela atuação de um elenco mirim que tem seu carisma mas também possui a sua limitação ou por uma decupagem básica e estilo padrão. Mas eu penso que a solidez e a textura que a maior parte dos elementos de cenário, objetos de cena, criaturas e figurinos tem, a escolha de um elenco de suporte adulto impecável e a fluência da narrativa e da ação junto ao envolvimento, encantamento e definição de tom que a direção cria, mais do que compensam quaisquer falhas. E nenhum revisionismo histórico ou crítica à posteriori mudará a nostalgia dos fãs por essa narrativa que conquistou seus corações com tanto afeto.
Hércules
3.8 595A versão disneyficada, pasteurizada, infantilizada, higienizada, americanizada e cristianizada da mitologia grega é sensacional. Não é a toa que esses filmes dos anos 90 são chamados de o Renascimento da Disney.
Hercules (1997) é inspiradíssimo, desde a utilização do gospel para cantar a lenda do herói pagão até a transformação desse herói antigo em um tipo de rockstar ou estrela de Hollywood moderna com seus merchans e fangirls. Esses anacronismos são bem sacados e super divertidos.
E os cenários que puxam mais das referências clássicas para retratar a Grécia antiga enquanto ambientação de fundo são belos e marcantes, do Olimpo feito de luz e nuvens às cidades com suas típicas colunas e arquitetura, estátuas e vasos. Contrastam com esse lado mais solar, a floresta, o submundo, o caos urbano de Tebas, o covil da Hidra e, posteriormente, a cidade destruída pelo Ciclope e a devastação provocada pelos Titãs, desenhados mais disformes e com cores mais sombrias.
Já os Deuses são um arco-iris super luminoso. Zeus é uma parede dourada de músculos com sorriso bonachão. Hades é o carisma em divindade com o seu mal-humor, sarcasmo e cabelos em chamas azuis. São versões super reducionistas e quase desrespeitosas com os deuses de Homero, Hesíodo ou das tragédias, da tradição. Eu consigo amar ambas as versões.
E o elenco todo de personagens coadjuvantes deste filme é muito acertado: Hades, Pânico e Agonia, Pégasus, Mégara e Phil. Servem muito bem de apoio principalmente cômico, mas também dramático no caso dos dois últimos, à jornada do herói, que é toda clássica e arquetípica, seguindo à risca o percurso do monomito de Campbell, do convite à aventura à morte e ressurreição. As musas fazem a vez de coro do teatro grego e de narradoras do épico, cantando a “Gospel Truth” com o melhor do bom humor.
Vale destacar que Mégara é das não-princesas Disney mais sensuais e interessantes já feitas. “I won't say (i'm in love)” é perfeita e a canção perfeita para ela. Assim como “Go the distance” é perfeita para Hercules e “One Last Hope” é perfeita para Phil (que é todinho o dublador original Danny Devito). Puta merda, como Alan Menken (o compositor) é genial.
De negativo mesmo só consigo apontar os designs genéricos e participações dos monstros, incluindo os Titãs. E, por algum motivo, as resoluções de terceiro ato da Disney, depois de mais velho, sempre me pareceram meio apressadas, como se fosse uma corrida para terminar, a descida final da montanha russa. Aí a gente tem que pagar os ingressos da próxima sessão pra curtir mais um pouquinho o encanto da Disneyland. E os diretores Ron Clements e John Musker sempre conseguem nos motivar a pagar para ver essa magia minuciosamente fabricada que a Disney tem no seu melhor.
MaXXXine
3.1 672Ti West realiza em Maxxxine (2024) seu trabalho mais estilizado e inconsistente entre os filmes de sua trilogia com Mia Goth. Enquanto X (2022) era um bom exercício do gênero slasher e Pearl (2022), um estudo de personagem perturbado e em technicolor, Maxxxine (2024) envereda pelo mistério de assassinato e gore em uma Hollywood oitentista.
O cenário é a coisa mais interessante deste filme, disparado. Os figurinos e o design de produção ambientam muito bem a reconstrução de época e a fotografia e a edição criam a ilusão de uma filmagem datada. Dos bastidores do pornô à indústria cinematográfica mainstream, o passeio de Maxxxine por LA é atmosférico e significativo.
As imagens evocadas desse confronto entre permissividade e repressão, artes liberais e fanatismo religioso, com uma atuação perdida por parte dos agentes do estado e violência extrema nas margens da lei, falam não somente de uma época passada, mas de nossa época. O terror é sempre uma exposição interessante dos medos da sociedade e um termômetro de sua moralidade. Em X, Ti West subverte a lógica da final girl pura e casta num discurso consoante com os nossos tempos. Já em Pearl, a perversidade da anti-heroína parece tanto fruto da repressão e condições lastimáveis em que vive quanto de sua índole inerente, algum tipo de psicopatia misturado à incapacidade de lidar com a frustração.
Nesta terceira parte, a protagonista tem uma jornada que rima com a do filme anterior, porém com um desfecho diferente, pois Maxine, diferente de Pearl, liberta-se de seu passado e vive em tempos, não menos intolerantes, mas mais navegáveis, se você tem sorte, apoios estratégicos e sangue nas mãos. O passado mais recente na indústria pornográfica a marca com estigma na mesma medida em que foi à sua maneira um escape de sua família, um desvio libertador rumo ao estrelato, que era também sonho de Pearl.
No nível do discurso o filme tem a sua coerência, principalmente dentro do contexto da trilogia, mas é enquanto exercício de gênero, enquanto filme, seja de mistério de assassinato ou de terror gore, que ele falha para mim. O suspense de investigação é totalmente chato e previsível e o gore é bem feito em sua execução e tem o seu valor de choque, mas não atemoriza.
Contudo, o verdadeiro calcanhar de Aquiles de Maxxxine é o seu desfecho, que confirma a previsibilidade do roteiro e não consegue fazer da vingança e saída por cima da protagonista uma sensação de catarse forte o suficiente no espectador. A intervenção dos personagens dos policiais no clímax é péssima, só não sendo pior do que as forçadíssimas utilizações “simbólicas” da casa de Psicose e dos letreiros de Hollywood. Entendemos que a Meca do cinema estadunidense salvou a ex-pastorinha e ex-atrix pornô, com uma pequena mãozinha do Estado, mas não terminamos o filme sentindo tanto assim que fomos salvos pela Arte. Faltou adequar o conteúdo com a forma.
Capitão América: Admirável Mundo Novo
2.7 378Estranho e nem tão “admirável” é este “mundo novo” em que séries de tv/streaming parecem filmes para cinema e cinema parece TV. Não que as produções cinematográficas da Marvel não adotassem já há muito um esquema de aventuras serializadas nesse grande universo compartilhado, que se construía e expandia em episódios menores e atingia seus climaxes em filmes-evento como os dos Vingadores. Mas, a partir de sua fase quatro, com a Disney+ no jogo e a necessidade de despejos frequentes de conteúdo das suas principais marcas na plataforma, surgiram as séries blockbuster Marvel studios/Disney+ (a começar por Wandavision, Falcão e o Soldado Invernal e Loki), que tinham valores de produção impressionantes e eram basicamente filmes divididos em capítulos em sua estrutura. Muitas fizeram relativo sucesso, enquanto os últimos anos na tela grande foram muito mais fracos para o MCU, com produções que inclusive pareciam mais baratas e descartáveis (como Capitã Marvel 2 e Homem-Formiga 3). Eis a inversão cinema-TV que comecei falando sobre.
Infelizmente, Capitão América: Admirável Mundo Novo (2025) parece mesmo mais uma temporada de Falcão/Capitão América e o Soldado Invernal (só que sem o Soldado Invernal desta vez). Não que a única real temporada tenha sido ruim, muito pelo contrário. Funcionava muito bem até, e se aprofundava em alguns assuntos interessantes, alguns dos quais seguem no novo filme (o principal deles: o Capitão América esquecido Isaiah Bradley, homem negro explorado e depois descartado por seu governo). Porém, é muito estranha a sensação desse lançamento que era pra ser tão maior parecer tão pequeno.
E é muito triste ver um filme com tanto potencial e boas ideias prometer tanto, em termos de relevância social e algum tipo de sátira ou comentário político mais pungente, e entregar um resultado final tão medíocre e covarde. A equipe tava com a faca e o queijo na mão, mas fizeram de Sam Wilson só mais um herói de ação (é impressionante como a questão racial está literalmente na pele do protagonista e é tão pouco uma questão), Joaquim só mais um sidekick (latino), Thadeus Ross só mais um presidente americano genérico (relativamente bem intencionado mas manipulado e com anger e daughter issues), Coral só mais um mercenário, Ruth só mais uma viúva negra (israelita), Samuel Sterns só mais um cientista louco. Eram símbolos prontos para a elaboração de metáforas e diálogos com o nosso mundo atual e suas múltiplas crises, mas que o filme escolhe ignorar ou então planificar ao máximo em nome de um “em cima do murismo” ridiculo e de um worldbuilding fraco, fraco.
Finalmente usaram o Celestial morto encalhado no oceano índico desde Eternos (2021) para alguma coisa. Ok. Ele ser a fonte do metal adamantium e isso instalar uma crise entre as potências globais e abrir uma janela de oportunidade para Ross, representando os EUA, buscar a recuperação da liderança e hegemonia americana no mundo me pareceu fazer algum sentido e ser alguma tentativa de comentário político, mesmo que raso. Beleza, válido. Além disso, há uma amarração bastante próxima deste filme com O Incrível Hulk (2008) por conta da trama com Ross e Stein. Foi uma escolha. O MCU tá andando, tá legal. Mas nem a cena pós-créditos empolga pra valer (personagens descobrindo a esta altura do campeonato sobre o multiverso é surreal, enquanto a gente já tá até enjoado do conceito).
A ação tampouco se destaca, com coreografias de luta que são ok e ficam um pouco mais interessantes quando sabem utilizar o traje do Capitão, seu escudo, suas asas de vibranium. Este Capitão América ter sido Falcão e ter incorporado as asas no traje talvez seja o maior diferencial dele, um toque de personalidade. A lógica talvez seja essa: como tá tendo muito pouco desenvolvimento dramático, que pelo menos na ação ele brilhe com as suas acrobacias no ar. Porém a direção, a trilha sonora, o design de produção e a fotografia são apenas burocráticos. Parece até... TV. A velha, não a (admirável e) nova.
Ao menos alguns cenários são bem aproveitados na composição das cenas de ação e destaco o combate aéreo e marítimo em torno do Ilha-Celestial e a luta contra o Hulk Vermelho, a parte inicial na Casa Branca e a parte final entre as cerejeiras. Esses seriam os momentos mais de espetáculo do filme, que ele consegue entregar. Na realidade, ao fim e ao cabo e em geral, o filme entrega sim o feijão com arroz e farofa de um blockbuster de herói; tá bem na média do MCU, inclusive. Mas, já que estamos falando de multiverso e cinema que parece TV e o escambau, adoraria muito mais ver um episódio da série animada What if que mostrasse alguma das versões prévias do roteiro que certamente existiram com mais o que dizer, mais sangue e mais sangue nos olhos.