Horror, horror, horror... Diante de filmes ultrajantes como este, infelizmente conseguimos entender o porquê de o fascismo estar instaurando-se de maneira célere e destrutiva pelo mundo: aqui, o fiapo de trama serve apenas como sub-pretexto para que pessoas (ás vezes, desconhecidas) sejam torturadas diante da tela, de modo que, antes que conheçamos os personagens centrais, anzóis rasgam os olhos de alguém, um rio coze os peixes e um mergulhador forçado, etc. Quando a narrativa se estabelece, esta vem acompanhada de um sobejo de teleologia que não convence, relacionada a minúcias da maldição que assola aquela família, e que converte-se numa justificativa canhestra para o machismo estrutural. É tudo exagerado, mas destinado ao gozo sádico do espectador, descumprindo uma cláusula pétrea do terror, que é a abordagem discursiva de como lidaríamos com a ausência de moral, na urgência pela sobrevivência. Para além de toda a minha insatisfação discursiva, o ritmo do filme é ruim, a duração é fraca, os movimentos de câmera são exibicionistas e desnecessários, o encadeamento roteirístico é canhestro, tudo neste filme só confirma e apregoa o pior da humanidade, enquanto torcida, enquanto projeto de malevolência. Horroroso em âmbito colossal - e ainda tem uma seqüência absolutamente insuportável de assassinato canino, glupt! (WPC>)
É muito complicado estabelecer uma distinção entre averiguação estética e reconhecimento da urgência discursiva, quando desgostamos de uma obra e admitimos que ela é uma importante ferramenta de convencimento, mas precisarei prestar-me a este papel, aqui: tenho problemas antigos com o Jan Komasa. Acho a sua 'mise-en-scène' simplista, totalmente aprisionada ao pretendido choque de seus enredos sob irrupção de violência no comportamento de seus protagonista e alguma possibilidade de redenção concedia a eles. Considero BOM GAROTO uma válida exceção, mas, em todos os seus demais filmes a que tive acesso, a fórmula é a mesma. Neste trabalho tão celebrado, o arco narrativo é invertido (começa-se com a festa titular, mergulha-se num terror progressivo a partir daí), mas a estrutura tramática é assaz mastigada, negligenciando algo que deveria ser central, o desenvolvimento dos personagens, já que há um flerte tangencial com a lógica de filme-painel. Trata-se de um filme urgente, entretanto, e que, para nosso choque, consegue ser verossímil, dado que os arremedos hodiernos de fascistas tendem às caricaturas. É o caso aqui e na realidade também: de maneira descarada, o enredo expõe o que já está em curso em diversos países (EUA trumpista, Argentina, etc.) e que pode também assolar o Brasil, caso o filho do pseudo-"imbrochável" seja eleito. Diane Lane esforça-se para dotar a sua personagem de credibilidade, mas a sua interpretação é automática, sem a intensidade ansiada (exceto em fidelidade ao que prega, em cariz defensivamente dogmático). Minha mãe viu o filme ao meu lado, e ficou atordoada, mas, por mais que a sinopse seja promissora, o deslindar das situações não é (vide, sobretudo, a má composição da personagem de McKenna Grace). Enquanto eu via o filme, porém, chegaram SMS recomendando-o. Fiz o mesmo assim que terminada a sessão: não gostei do filme, mas ele comunica algo. Pessoalmente, acho que ele imita algo que foi melhor explorado na minissérie britânica "Years and Years". Que o pior não ocorra... Se acontecer, que tenhamos alguém ao nosso lado, nas trincheiras! (WPC>)
O título do filme, por si, é mais que encantatório; a proposta sinóptica, idem. Pensei nos filmes do Eugène Green, pelo modo como se dão os encontros e diálogos, com forte verve intelectual, mas também obedecendo a algumas convenções românticas: é como se Nora Ephron filmasse um roteiro do casal Straub (ou vice-versa). A voz de Roger Koza é sedutora e confortadora, não obstante sua companheira de cena insistir em trazer à tona as preocupações quanto a uma conjuntura em que figuras nojosas como Javier Milei (ou, esperamos que não, Flávio Bolsonaro) conseguem se eleger, por vias democráticas, a partir da vontade de uma parcela considerável da população. O que desencadeou isso? Adianta ainda dedicar aos estudos e pesquisas? A partir de atravessamos biograficamente tangenciais referentes à vida de um dos precursores do direito laboral latino-americano, o roteiro entrega-se à labuta responsiva, às entrevistas com trabalhadores migrantes, a uma visita ao túmulo de Karl Marx, à música protestante de Atahualpa Yupanqui, ao amor enquanto sentimento-mor. Um filme que nos acalenta e instiga em diversas vias simultâneas: é romântico, mas não alienado; melancólico, mas não paralisante; extremamente político, mas também esteta. Trabalho magistral, um dos melhores do ano, desde já! (WPC>)
Cinema com C maiúsculo, de "cu latejante"... Fazia muito tempo que eu não ficava tão excitado (em todos os sentidos) vendo um filme: além de inserção das situações de sexo, nesta obra, obedecerem a uma lógica "necessária" (como se precisasse disso), a abordagem evita quaisquer convenções ou vícios de um alegado "nicho 'gay' ". Trata-se de um roteiro em que a sexualidade surge como problema a ser desvendado e enfrentado, como algo a ser compreendido e aceito, dentro de um cabedal de situações enredísticas permeadas pela noção de criminalidade. Filme de guerrilha afetiva, que humaniza de maneira singular e mui compreensiva uma profissão ainda negligenciada pela Sétima Arte, que são os caminhoneiros. Como convivo com alguns deles, em meu cotidiano, o modo como os dramas assemelham-se a "causos de estrada" que ouvi, pessoalmente, arrebatou-me em cheio. A direção é extraordinária, em sua guinada de "fluxo", e a dupla central de intérpretes é excelente, bem como a trilha musical/cancional incidental. Filme de mestre, com uma fotografia que lhe faz jus e um aproveitamento despudorado (leia-se naturalizado) da nudez masculina. Só não é uma obra-prima porque perde um pouco de seu impacto nos 'flashbacks' alucinógenos, mesmo que estes sejam importantes para a construção de tensões e compreensão das motivações do protagonista juvenil. O desfecho faz pensar no mesmo tipo de aflição que sentimos diante de trabalhos do Amat Escalante ou Carlos Reygadas. Filmaço!!! (WPC>)
Começo com um elogio à montagem: gostei muitíssimos dos efeitos cumulativos, na cena dos estabelecimentos vazios, quando o músico faz um concerto público pela primeira vez, e na chegada da Sra. Strauss à ópera. Só por estas duas seqüências, a direção do Duvivier se justificaria... Porém, os problemas também se acumulam. Vide a simplificação biográfica, anunciada no letreiro inicial, ou a tendência mui questionável de inserir letras banais às composições do famoso músico. É tudo muito rasteiro, banal, sobretudo em âmbito político, visto que é mencionada uma revolução em curso, mas esta não é devidamente explicada, e tudo resvala para a cantoria. Porém, o desfecho é interessante, no modo como associa a fama do compositor à sua necessidade de tomar partido perante o público. Luise Rainer, como de praxe, é hipnótica em cena, mas seu papel é curto, e o elã machista do roteiro incomoda negativamente. Sem muitas expectativas, pode fisgar alguns espectadores. Não foi o meu caso, infelizmente! (WPC>)
Acho que, desta série publicitária financiada pela marca Miu-Miu, este foi o curtinha que mais gostei: visual arrebatador; mensagem poderosa, ainda que truísta. Amanda Seyfried confirma a boa parceria com a diretora, revelando-se vigorosamente ao final. E, claro, a trilha musical de Daniel Blumberg é ótima. Direção de arte do cabrunco, de tão boa. Uau! (WPC>)
É o tipo de filme que, fosse dirigido com alguém menos conhecido, ninguém veria ou daria trela. Vindo de quem veio, e tendo a presença da grande artista da música anunciada desde o título, presta-se mais atenção. Mas é um exercício de estilo e percurso, que ganha validação e/ou significado a partir da autoria por detrás da direção. Gracioso e modesto em abordagem, mas gostoso de ser visto e ouvido, que talvez cresça com o tempo... As situações corriqueiras importam, afinal! (WPC>)
Estou entre aqueles que se emocionaram bastante no terceiro capítulo da franquia, mas que - ainda assim, ou talvez por isso mesmo - crê que a cinessérie poderia ter acabado ali, visto que a abordagem chegara ao seu ápice bem-sucedido. Li tantos elogios acerca deste capítulo, no que tange à análise da relação competitiva entre brinquedos analógicos e novas tecnologias, que fiz questão de conferir, com empolgação, a trama, prestando atenção em suas entrelinhas. De fato, há muito a ser elogiado e avaliado, aqui, em termos de averiguação adulta acerca do assunto, mas senti-me incomodado com a subtrama envolvendo as dezenas de astronautas de plástico que avançam em direção aos personagens. Para quê? Para salvá-los, 'ex machina', numa situação que requer a capacidade maquinal de voar? Conveniente, mais uma vez, como os roteiros hollywoodianos exigem. E foi aí que o filme me perdeu, no "excesso de roteiro", de variações de fuga, não obstante eu apreciar a construção adolescente de lesbianismo. Tecnicamente, é um primor, mas adere a um realismo imitativo que enfada, por vezes (como disse um amigo especialista em animações, qual o desafio, este sentido? Uma mera comparação?). Entretém e nos leva à reflexão (e também a certa desconfiança), mas, como disse a minha mãe, uma criança de 84 anos de idade, demora demais, "é cansativo!". Se eu o tivesse visto sem expectativas (repito: li muitos elogios entusiasmados!), talvez curtisse mais, Porém, concordo que é uma obra mui descritiva acerca dos apanágios da contemporaneidade. E gosto do (e concordo com) que ele tem a dizer! (WPC>)
Que gostosura de filme autoral: todas as marcas registradas do estilo raiminiano são aplicadas, numa progressão de efeitos visuais proporcionadores de nojo ou terror. A protagonista é ótima, e seu antagonista masculino/machista faz jus à repulsa necessária, bem como à torcida moral por reabilitação. O jogo de ambigüidades é ótimo, de modo que, em determinado momento, não temos idéia de como tudo terminará. Já vimos tramas semelhantes diversas vezes (de POR UM DESTINO INSÓLITO a TRIÂNGULO DA TRISTEZA), mas o diretor consegue surpreender mesmo assim, nesta revisão invertida de situações que ele ensaiara formalmente (e também discursivamente) em LEVE-ME PARA O INFERNO. Minha mãe ficou agoniadíssima, ao meu lado (risos). Divertido e assustador, em iguais medidas. Eis a Hollywood que eu quero e sinto falta! (WPC>)
Surpreendentemente, gosto do filme oitentista com a mesma personagem. Na verdade, tenho um carinho decorrente de memória afetiva, pois o vi N vezes, exibido no SBT, durante a minha pré-adolescência. Porém, se há carisma no anterior, aqui há repulsa: a protagonista é irritante e interpretativamente desenxabida. O roteiro é uma conjunção estapafúrdias de coincidências convenientes e mal exploradas. Não há continuidade sentimental (ou até mesmo procedimental) acerca das ações dos personagens. A garota cujos pais (vendedores de armas) foram mortos reclama de luto e necessidade de vingança, mas adere ao piadismo inconvincente do enredo. Jason Momoa aparece como uma coadjuvante absolutamente desnecessário e caricatural. Os seres alienígenas são todos canhestros e sub-caracterizados, enquanto arremedos inábeis de vilões que são extintos poucos instantes após as respectivas aparições. Os motes constantes de ação (um veículo que se quebra em meio a uma luta, durante uma tempestade, por exemplo) não se justificam em sua falsa periculosidade excessiva, pois tudo se resolve miraculosamente. Mesmo a kriptonita injetada no sangue da protagonista não se converte em legítima ameaça. O cão é artificial e sem a fofura prometida no material de divulgação. Imaginamos como o filme acabará três segundos após os créditos iniciais - e assim se confirma. A cada dez minutos, uma nova canção irrompe na trilha musical. Tudo é voltado à publicidade, mas sem paixão, entrega ou senso narrativo. Uma das obras mais vazias já realizadas, em muito tempo. Parece um experimento de desinteligência virtual, elevado à enésima potência. Escabroso! (WPC>)
Quando vi este filme pela primeira vez - ainda adolescente, em sessão dublada na TV Globo, gravada em VHS -, fui imediatamente arrebatado: testemunhei um tipo de exortação comportamental que seria determinante em minha vida adulta, tanto que já fui atacado inúmeras vezes por causa disso, por vigilantes etários que alegam que não adéquo-me às exigências de minha conformação atual. Dei de ombros, permaneço assim (ainda que não consiga deixar de ser negativamente afetado pelos araques). Revi o filme depois disso, junto a amigos do período do primeiro acesso, mas somente ontem, após quase duas décadas sem contato com a obra, voltei a ele - pela primeira vez, em versão original. E foi outro tipo de arrebatamento. Afinal, agora conheço detalhes dos bastidores, estudei a biografia do diretor, cotejo os vencedores do Oscar com outros títulos da safra competidora, etc. E, ainda assim, o filme demonstrou-se arrebatador para mim. Talvez até mais, pois aproximo-me de outra conformação etária, mais próxima dos patriarcas familiares (não obstante ser solteiro e não reprodutor). Terminada a sessão, eu estava possuído por tudo de potente que o filme me trouxe, em termos emocionais e analíticos (no que tange à conjuntura socioeconômica da época de produção e ao abismo político-partidário da contemporaneidade): que trabalho incrível de elenco conjunto; que direção assertiva, em suas expansões e retrações de preenchimento humano (e humanista) nos espaços; que aproveitamento sagaz do texto originalmente teatral... Não lembrava da cena dos garotinhos dançantes, no parque - e amei! Não lembrava que o James Stewart é quase eclipsado por seus companheiros de elenco, de tão alternativo à lógica vendável do star system' que esta obra é. Lembrava de - mas, ainda assim, encantei-me novamente perante - o modo como uma gaita servia como impulsionador objetal do reencontro de um personagem inicialmente vilanaz com os seus anseios de juventude e desejos de inserção comunitária... O filme que eu necessitava rever durante o luto eleitoral que nos assola. Maravilhoso! E ainda teve um diálogo entre os presentes (infelizmente, poucos) à sessão , logo em seguida. Obra-prima! (WPC>)
A ironia denuncista do co-realizador quanto aos desmandos autoritários do comunismo europeu permanece abundante e mui reconhecível nesta obra, mas senti falta de seu humor corrosivo e explícito, igualmente característico. Aqui, a abordagem é seríssima, ainda que parta de uma situação que beire o exagero canhestro (de lascar imaginar que aquilo, de fato, aconteceu, né?). Para se assistir após a (re)leitura de "A Câmara Clara", do Roland Barthes. Porém, mesmo assim, não curti tanto. Há algo de muito específico nas abordagem. Quem sabe em um novo contato... (WPC>)
Metáforas conjugadas em uma animação muito estilosa, numa estrutura narrativa em formato-painel, que termina com uma maravilhosa intervenção quiróptera. Lembrei de um clássico brasileiro de animação, - NOVELA (1992), de Otto Guerra - por causa das narrativas em comunhão interruptiva (genial o detalhe do 'wi-fi' que não carrega no avião). Ri sozinho, mas, do meio para o final, o traço existencial se sobressai. Inteligentíssimo e muito chique! (WPC>)
Acho o filme anterior da diretora um dos trecos mais hediondos já realizados neste Século XXI, algo que nos incita a largar a carreira espectatorial, mas ouvi tantos comentários positivos sobre este novo trabalho que, dada a boa sinopse, pensei que pudesse imergir... Abri o coração, e tentei, mas os entojos autobiográficos pretensiosos e pseudo-metafóricos são vomitados desde o início, no delineamento da protagonista viciada em jujubas e sucrilhos, com dificuldades para vestir uma luva. Ainda que, aqui, haja uma trama efetivamente acompanhável, a obsessão auto-terapêutica se sobrepõe à narrativa, aos eventos reconstituídos enquanto pasticho daquilo que se reclama. Ah, os 'slasher movies' são machistas, transfóbicos, etc.? Que tal refilmá-los nos mesmos moldes, mas protagonizados por alguém com "lugar de fala". Substitui-se o objeto, mas o mal-estar permanece, enquanto se justifica que tudo isso faz sentido, pois "o despertar 'queer' " de alguém com 8 anos de idade aconteceu vendo um filme desses. Baixa-se a saia e corre, com os seios balançando, portanto. Até aí, tudo bem (aspas imensas), até que chega a estapafúrdia e mui irritante cena da reunião de apresentação da proposta de filmagem dentro do filme. A metalinguagem é canhestra, sem espaço para qualquer reinterpretação sígnica. Filme de manipulação duvidosa em seu elã epidérmico, com uma meia-hora final tétrica, horrorosa, sem sentido, vexatória, pífia, tudo de ruim... Mas ao menos ritmicamente suportável, ao contrário daquele atentado à sanidade que batizaram como EU VI O BRILHO DA TV. Gillian Anderson está ótima, ao menos: acreditou em sua encarnação de uma Norma Desmond neo-geracional, "pela perspectiva do chuveiro". Aham! (WPC>)
A maturidade da direção surpreendeu-me bastante: a despeito do tema hipercodificado (os dilemas de uma relação profissional entre pai ausente porém competentíssimo no que faz e filha machucada pela ausência), o filme chama a atenção para si mesmo de maneira inteligente, modificando a bitola e/ou os registros de gravação e servindo-se de recursos sonoros assaz hábeis, como a reflexão advinda da gravação da faixa em áudio para o lançamento de um blu-ray ou a justificativa para se assistir a uma cena muda ("percebemos melhor o enquadramento, assim"). Fiquei absolutamente deslumbrado pela poderosa cena em que o diretor segue a filha com os olhos, enquanto ouve uma música recém-enviada por um de seus subordinados, o que será decisivo para o impacto dramático do desfecho. Javier Bardem está ainda mais supremo que o habitual e Victoria Luengo faz jus à alta responsabilidade que lhe é direcionada. Filme adulto, que cresce bastante após o encerramento... uau! (WPC>)
Lutei para gostar, mas todo o interesse esgota-se na sinopse, sendo o desenrolar do filme (se é que se pode dizer que há algum) totalmente dependente de uma situação previsível e pouco interessante, além de dependente do carisma da protagonista, que não revelou-se suficiente. Gosto da aparição aguardada (e mui breve) da Rosamaria Murtinho e dos acordes graves da trilha musical, e só: incrível como o cinema de terror brasileiro contemporâneo é tributário dos enredos classistas sobre bruxaria familiar, não é? Aff! (WPC>)
Sim, Hyldon é um artista genial e o disco mencionado no título deste documentário é uma obra-prima, mas, infelizmente, o filme não quer ser "fílmico" - ou, se quer, não consegue sê-lo: achei de péssimo gosto a opção por aproveitar-se de imagens de outras obras para "imitar" aquilo que é narrado pelos depoentes, bem como as filmagens contemporâneas em Super-8, mas sem função efetiva no relato. Os depoentes são extraordinários, mas todos desperdiçados, exceto talvez quando cantam, mas mesmo isso surge de maneira redundante na obra, pois cantam algo que fôra cantado instantes antes pelo biografado. Por mais que se diga que o artista era difícil de se conviver, a abordagem é chapa-branca e há a forçação de barra na apresentação dos depoimentos desenxabidos de uma antiga musa, casada com outra pessoa. Gosto muito do que é apresentado (um disco perfeito, a pretensa exposição de conjuntura, o detalhamento da carreira do artista como produtor), mas não de como é apresentado: terminada a sessão, é tudo esquecido, de tal pouco expressiva que é a feitura documental da obra. Parece um programa de TV feito por encomenda. Decepcionante, infelizmente! (WPC>)
Cliquei na sessão de maneira extremamente casual, sem saber do lançamento do EP do artista e focando na curta duração da obra. Mas deixei-me fisgar pelo humor um tanto jarmuschiano do curta-metragem, pela celebração dos encontros, pela maestria de cenas simples, como a movimentação dos dedos fotocopiados em preto-e-branco... A trilha musical jazzística (afinal, central, em seu intuito publicitário extensivo) é muito bacana e o desfecho é gracioso e recompensador. Ótima surpresa! (WPC>)
Lembro que, quando foi lançado, a recepção foi prioritariamente negativa, de modo que eu terminei procrastinando a sessão, automaticamente. Ao conferir o filme com a minha mãe, a fim de confirmar a parentalidade titular, gostamos bastante do que vimos: apreciamos a tensão contínua, a pletora de "pistas falsas", o terror gráfico, os bons efeitos visuais, o aproveitamento inteligente do contexto histórico e a ótima entrega actancial de Marjorie Estiano, como de praxe. O roteiro, de fato, não sabe o que fazer com tantas deixas e abandona algumas delas enquanto subaproveita outras, mas, em nosso dia a dia permeado por inúmeros estímulos em competição, também não é assim? Como tal, referendo a qualidade elogiável do resultado e a obediência funcional às convenções de gênero. Terrorzão brazuca muito bem realizado! (WPC>)
Não revia este filme desde o seu lançamento, há mais de vinte anos, e, por conta de uma reflexão eleitoral, tive o prazer de estar numa audiência coletiva, atravessada por muitas risadas, o que é tematizado indiretamente, quando alguém comenta que "mesmo que o Governo do Lula não seja o melhor, com certeza será muito engraçado". Mesmo que eu não seja o mais apaixonado dos lulistas, não tem como não ficar impressionado perante o carisma sobressalente deste homem (político, sim, mas sobretudo um ser humano), muito hábil no manejo das palavras e das memórias, formado na práxis e consciente das contradições que atravessam a sua carreira de êxitos (e perseguições). Entretanto, o filme transcende o próprio objeto, pois, como é típico de seu diretor, ele direciona a reflexão para um viés metalingüístico, em termos de envergadura sociológica e psicanalítica. Porém, o objeto compete de igual para igual em atenção e importância: Lula abrilhanta-se a cada intervenção, cada fala acertada, cada comentário ácido e sincero, cada decisão orgânica... Filme magistral sobre registos íntimos de um dos maiores e mais competentes homens públicos do Brasil. Meu voto foi mais que validado aqui. Filmaço! (WPC>)
Ainda que eu não tenha apreciado o desfecho excessivamente resolutivo e de alguns furos no roteiro ficarem confusos (o que talvez funcione enquanto encadeamento metalingüístico, pois este é um dos componentes marcantes na composição da protagonista), gostei muito do que o filme me causou e, sim, cheguei a sentir medo nalguns instantes, pois estava sozinho em casa à noite, o eco reverberou. Pena que a trama insiste em se instaurar e acabar com o mistério, racionalizando aquela "lenda urbana" de maneira pouco convincente. Gostei do elenco, da direção, da indefinição entre 'found footage' e câmera objetiva, da beleza física traiçoeira de Yankel Stevan, da audácia em converter o Instagram em verdadeiro vilão conjuntural. Defeituoso? Que seja, gostei muitíssimo! (WPC>)
Pensei muito em O BANHEIRO DO PAPA, mas, aqui, sob o viés do consumidor afito (risos). Há aspectos políticos interessantes no substrato do roteiro - que têm a ver com a necessidade atual dos atuais defenderem uma santa católica no Brasil, por exemplo - e utiliza bem o misticismo religioso da redenção paranóica. O elenco é muito bom e a direção, eficiente. Mas tenho um distanciamento pessoal em relação ao cerne do enredo. Problema meu, lidarei com isso. Mas afetou a minha relação com filme, infelizmente. (WPC>)
A atmosfera 'queer' é fascinante e prometedora, mas não consegui mergulhar naquilo que é sinopticamente anunciado: o protagonista é tão insuportável, em seus pantins classistas e comportamentos omissos/invasivos, que a empatia erótica falha e, ao final, apesar das imagens interessantes, o filme falha, causou-me raiva e enfado. Uma pena! (WPC>)
Revi o filme e, mesmo assim, apesar de eu apreciar o discurso, gostar da abordagem temática na segunda metade e de compreender as simplificações tramáticas e biográficas, sinto que não lembrarei tanto dele em alguns dias: tudo na encenação é subserviente em relação ao roteiro, e abordagem fica melhor o protagonista não está em cena, de tão exagerada que é a interpretação do Paul Muni. Obedece às convenções ainda em estabelecimento do cinema clássico hollwyoodiano e é tecnicamente eficiente, conforme era caro às produções conduzidas pelo William Dieterle, mas está longe de ser um de meus favoritos nesta safra trintista. Ao menos, envelhece bem em termos de relevância: infelizmente, o que é mostrado na trama só piora! (WPC>)
A Morte do Demônio: Em Chamas
3.1 322 Assista AgoraHorror, horror, horror... Diante de filmes ultrajantes como este, infelizmente conseguimos entender o porquê de o fascismo estar instaurando-se de maneira célere e destrutiva pelo mundo: aqui, o fiapo de trama serve apenas como sub-pretexto para que pessoas (ás vezes, desconhecidas) sejam torturadas diante da tela, de modo que, antes que conheçamos os personagens centrais, anzóis rasgam os olhos de alguém, um rio coze os peixes e um mergulhador forçado, etc. Quando a narrativa se estabelece, esta vem acompanhada de um sobejo de teleologia que não convence, relacionada a minúcias da maldição que assola aquela família, e que converte-se numa justificativa canhestra para o machismo estrutural. É tudo exagerado, mas destinado ao gozo sádico do espectador, descumprindo uma cláusula pétrea do terror, que é a abordagem discursiva de como lidaríamos com a ausência de moral, na urgência pela sobrevivência. Para além de toda a minha insatisfação discursiva, o ritmo do filme é ruim, a duração é fraca, os movimentos de câmera são exibicionistas e desnecessários, o encadeamento roteirístico é canhestro, tudo neste filme só confirma e apregoa o pior da humanidade, enquanto torcida, enquanto projeto de malevolência. Horroroso em âmbito colossal - e ainda tem uma seqüência absolutamente insuportável de assassinato canino, glupt! (WPC>)
O Aniversário
3.6 210 Assista AgoraÉ muito complicado estabelecer uma distinção entre averiguação estética e reconhecimento da urgência discursiva, quando desgostamos de uma obra e admitimos que ela é uma importante ferramenta de convencimento, mas precisarei prestar-me a este papel, aqui: tenho problemas antigos com o Jan Komasa. Acho a sua 'mise-en-scène' simplista, totalmente aprisionada ao pretendido choque de seus enredos sob irrupção de violência no comportamento de seus protagonista e alguma possibilidade de redenção concedia a eles. Considero BOM GAROTO uma válida exceção, mas, em todos os seus demais filmes a que tive acesso, a fórmula é a mesma. Neste trabalho tão celebrado, o arco narrativo é invertido (começa-se com a festa titular, mergulha-se num terror progressivo a partir daí), mas a estrutura tramática é assaz mastigada, negligenciando algo que deveria ser central, o desenvolvimento dos personagens, já que há um flerte tangencial com a lógica de filme-painel. Trata-se de um filme urgente, entretanto, e que, para nosso choque, consegue ser verossímil, dado que os arremedos hodiernos de fascistas tendem às caricaturas. É o caso aqui e na realidade também: de maneira descarada, o enredo expõe o que já está em curso em diversos países (EUA trumpista, Argentina, etc.) e que pode também assolar o Brasil, caso o filho do pseudo-"imbrochável" seja eleito. Diane Lane esforça-se para dotar a sua personagem de credibilidade, mas a sua interpretação é automática, sem a intensidade ansiada (exceto em fidelidade ao que prega, em cariz defensivamente dogmático). Minha mãe viu o filme ao meu lado, e ficou atordoada, mas, por mais que a sinopse seja promissora, o deslindar das situações não é (vide, sobretudo, a má composição da personagem de McKenna Grace). Enquanto eu via o filme, porém, chegaram SMS recomendando-o. Fiz o mesmo assim que terminada a sessão: não gostei do filme, mas ele comunica algo. Pessoalmente, acho que ele imita algo que foi melhor explorado na minissérie britânica "Years and Years". Que o pior não ocorra... Se acontecer, que tenhamos alguém ao nosso lado, nas trincheiras! (WPC>)
Às Vezes Sinto Tristeza, Outras Vezes Revolta
4.5 1O título do filme, por si, é mais que encantatório; a proposta sinóptica, idem. Pensei nos filmes do Eugène Green, pelo modo como se dão os encontros e diálogos, com forte verve intelectual, mas também obedecendo a algumas convenções românticas: é como se Nora Ephron filmasse um roteiro do casal Straub (ou vice-versa). A voz de Roger Koza é sedutora e confortadora, não obstante sua companheira de cena insistir em trazer à tona as preocupações quanto a uma conjuntura em que figuras nojosas como Javier Milei (ou, esperamos que não, Flávio Bolsonaro) conseguem se eleger, por vias democráticas, a partir da vontade de uma parcela considerável da população. O que desencadeou isso? Adianta ainda dedicar aos estudos e pesquisas? A partir de atravessamos biograficamente tangenciais referentes à vida de um dos precursores do direito laboral latino-americano, o roteiro entrega-se à labuta responsiva, às entrevistas com trabalhadores migrantes, a uma visita ao túmulo de Karl Marx, à música protestante de Atahualpa Yupanqui, ao amor enquanto sentimento-mor. Um filme que nos acalenta e instiga em diversas vias simultâneas: é romântico, mas não alienado; melancólico, mas não paralisante; extremamente político, mas também esteta. Trabalho magistral, um dos melhores do ano, desde já! (WPC>)
No Caminho
3.5 39 Assista AgoraCinema com C maiúsculo, de "cu latejante"... Fazia muito tempo que eu não ficava tão excitado (em todos os sentidos) vendo um filme: além de inserção das situações de sexo, nesta obra, obedecerem a uma lógica "necessária" (como se precisasse disso), a abordagem evita quaisquer convenções ou vícios de um alegado "nicho 'gay' ". Trata-se de um roteiro em que a sexualidade surge como problema a ser desvendado e enfrentado, como algo a ser compreendido e aceito, dentro de um cabedal de situações enredísticas permeadas pela noção de criminalidade. Filme de guerrilha afetiva, que humaniza de maneira singular e mui compreensiva uma profissão ainda negligenciada pela Sétima Arte, que são os caminhoneiros. Como convivo com alguns deles, em meu cotidiano, o modo como os dramas assemelham-se a "causos de estrada" que ouvi, pessoalmente, arrebatou-me em cheio. A direção é extraordinária, em sua guinada de "fluxo", e a dupla central de intérpretes é excelente, bem como a trilha musical/cancional incidental. Filme de mestre, com uma fotografia que lhe faz jus e um aproveitamento despudorado (leia-se naturalizado) da nudez masculina. Só não é uma obra-prima porque perde um pouco de seu impacto nos 'flashbacks' alucinógenos, mesmo que estes sejam importantes para a construção de tensões e compreensão das motivações do protagonista juvenil. O desfecho faz pensar no mesmo tipo de aflição que sentimos diante de trabalhos do Amat Escalante ou Carlos Reygadas. Filmaço!!! (WPC>)
A Grande Valsa
3.5 10 Assista AgoraComeço com um elogio à montagem: gostei muitíssimos dos efeitos cumulativos, na cena dos estabelecimentos vazios, quando o músico faz um concerto público pela primeira vez, e na chegada da Sra. Strauss à ópera. Só por estas duas seqüências, a direção do Duvivier se justificaria... Porém, os problemas também se acumulam. Vide a simplificação biográfica, anunciada no letreiro inicial, ou a tendência mui questionável de inserir letras banais às composições do famoso músico. É tudo muito rasteiro, banal, sobretudo em âmbito político, visto que é mencionada uma revolução em curso, mas esta não é devidamente explicada, e tudo resvala para a cantoria. Porém, o desfecho é interessante, no modo como associa a fama do compositor à sua necessidade de tomar partido perante o público. Luise Rainer, como de praxe, é hipnótica em cena, mas seu papel é curto, e o elã machista do roteiro incomoda negativamente. Sem muitas expectativas, pode fisgar alguns espectadores. Não foi o meu caso, infelizmente! (WPC>)
Discipline
4.0 1Acho que, desta série publicitária financiada pela marca Miu-Miu, este foi o curtinha que mais gostei: visual arrebatador; mensagem poderosa, ainda que truísta. Amanda Seyfried confirma a boa parceria com a diretora, revelando-se vigorosamente ao final. E, claro, a trilha musical de Daniel Blumberg é ótima. Direção de arte do cabrunco, de tão boa. Uau! (WPC>)
Avec Kim
3.0 1É o tipo de filme que, fosse dirigido com alguém menos conhecido, ninguém veria ou daria trela. Vindo de quem veio, e tendo a presença da grande artista da música anunciada desde o título, presta-se mais atenção. Mas é um exercício de estilo e percurso, que ganha validação e/ou significado a partir da autoria por detrás da direção. Gracioso e modesto em abordagem, mas gostoso de ser visto e ouvido, que talvez cresça com o tempo... As situações corriqueiras importam, afinal! (WPC>)
Toy Story 5
3.9 258 Assista AgoraEstou entre aqueles que se emocionaram bastante no terceiro capítulo da franquia, mas que - ainda assim, ou talvez por isso mesmo - crê que a cinessérie poderia ter acabado ali, visto que a abordagem chegara ao seu ápice bem-sucedido. Li tantos elogios acerca deste capítulo, no que tange à análise da relação competitiva entre brinquedos analógicos e novas tecnologias, que fiz questão de conferir, com empolgação, a trama, prestando atenção em suas entrelinhas. De fato, há muito a ser elogiado e avaliado, aqui, em termos de averiguação adulta acerca do assunto, mas senti-me incomodado com a subtrama envolvendo as dezenas de astronautas de plástico que avançam em direção aos personagens. Para quê? Para salvá-los, 'ex machina', numa situação que requer a capacidade maquinal de voar? Conveniente, mais uma vez, como os roteiros hollywoodianos exigem. E foi aí que o filme me perdeu, no "excesso de roteiro", de variações de fuga, não obstante eu apreciar a construção adolescente de lesbianismo. Tecnicamente, é um primor, mas adere a um realismo imitativo que enfada, por vezes (como disse um amigo especialista em animações, qual o desafio, este sentido? Uma mera comparação?). Entretém e nos leva à reflexão (e também a certa desconfiança), mas, como disse a minha mãe, uma criança de 84 anos de idade, demora demais, "é cansativo!". Se eu o tivesse visto sem expectativas (repito: li muitos elogios entusiasmados!), talvez curtisse mais, Porém, concordo que é uma obra mui descritiva acerca dos apanágios da contemporaneidade. E gosto do (e concordo com) que ele tem a dizer! (WPC>)
Socorro!
3.2 440 Assista AgoraQue gostosura de filme autoral: todas as marcas registradas do estilo raiminiano são aplicadas, numa progressão de efeitos visuais proporcionadores de nojo ou terror. A protagonista é ótima, e seu antagonista masculino/machista faz jus à repulsa necessária, bem como à torcida moral por reabilitação. O jogo de ambigüidades é ótimo, de modo que, em determinado momento, não temos idéia de como tudo terminará. Já vimos tramas semelhantes diversas vezes (de POR UM DESTINO INSÓLITO a TRIÂNGULO DA TRISTEZA), mas o diretor consegue surpreender mesmo assim, nesta revisão invertida de situações que ele ensaiara formalmente (e também discursivamente) em LEVE-ME PARA O INFERNO. Minha mãe ficou agoniadíssima, ao meu lado (risos). Divertido e assustador, em iguais medidas. Eis a Hollywood que eu quero e sinto falta! (WPC>)
Supergirl
2.8 290 Assista AgoraSurpreendentemente, gosto do filme oitentista com a mesma personagem. Na verdade, tenho um carinho decorrente de memória afetiva, pois o vi N vezes, exibido no SBT, durante a minha pré-adolescência. Porém, se há carisma no anterior, aqui há repulsa: a protagonista é irritante e interpretativamente desenxabida. O roteiro é uma conjunção estapafúrdias de coincidências convenientes e mal exploradas. Não há continuidade sentimental (ou até mesmo procedimental) acerca das ações dos personagens. A garota cujos pais (vendedores de armas) foram mortos reclama de luto e necessidade de vingança, mas adere ao piadismo inconvincente do enredo. Jason Momoa aparece como uma coadjuvante absolutamente desnecessário e caricatural. Os seres alienígenas são todos canhestros e sub-caracterizados, enquanto arremedos inábeis de vilões que são extintos poucos instantes após as respectivas aparições. Os motes constantes de ação (um veículo que se quebra em meio a uma luta, durante uma tempestade, por exemplo) não se justificam em sua falsa periculosidade excessiva, pois tudo se resolve miraculosamente. Mesmo a kriptonita injetada no sangue da protagonista não se converte em legítima ameaça. O cão é artificial e sem a fofura prometida no material de divulgação. Imaginamos como o filme acabará três segundos após os créditos iniciais - e assim se confirma. A cada dez minutos, uma nova canção irrompe na trilha musical. Tudo é voltado à publicidade, mas sem paixão, entrega ou senso narrativo. Uma das obras mais vazias já realizadas, em muito tempo. Parece um experimento de desinteligência virtual, elevado à enésima potência. Escabroso! (WPC>)
Do Mundo Nada Se Leva
4.2 118 Assista AgoraQuando vi este filme pela primeira vez - ainda adolescente, em sessão dublada na TV Globo, gravada em VHS -, fui imediatamente arrebatado: testemunhei um tipo de exortação comportamental que seria determinante em minha vida adulta, tanto que já fui atacado inúmeras vezes por causa disso, por vigilantes etários que alegam que não adéquo-me às exigências de minha conformação atual. Dei de ombros, permaneço assim (ainda que não consiga deixar de ser negativamente afetado pelos araques). Revi o filme depois disso, junto a amigos do período do primeiro acesso, mas somente ontem, após quase duas décadas sem contato com a obra, voltei a ele - pela primeira vez, em versão original. E foi outro tipo de arrebatamento. Afinal, agora conheço detalhes dos bastidores, estudei a biografia do diretor, cotejo os vencedores do Oscar com outros títulos da safra competidora, etc. E, ainda assim, o filme demonstrou-se arrebatador para mim. Talvez até mais, pois aproximo-me de outra conformação etária, mais próxima dos patriarcas familiares (não obstante ser solteiro e não reprodutor). Terminada a sessão, eu estava possuído por tudo de potente que o filme me trouxe, em termos emocionais e analíticos (no que tange à conjuntura socioeconômica da época de produção e ao abismo político-partidário da contemporaneidade): que trabalho incrível de elenco conjunto; que direção assertiva, em suas expansões e retrações de preenchimento humano (e humanista) nos espaços; que aproveitamento sagaz do texto originalmente teatral... Não lembrava da cena dos garotinhos dançantes, no parque - e amei! Não lembrava que o James Stewart é quase eclipsado por seus companheiros de elenco, de tão alternativo à lógica vendável do star system' que esta obra é. Lembrava de - mas, ainda assim, encantei-me novamente perante - o modo como uma gaita servia como impulsionador objetal do reencontro de um personagem inicialmente vilanaz com os seus anseios de juventude e desejos de inserção comunitária... O filme que eu necessitava rever durante o luto eleitoral que nos assola. Maravilhoso! E ainda teve um diálogo entre os presentes (infelizmente, poucos) à sessão , logo em seguida. Obra-prima! (WPC>)
Shot Reverse Shot
3.0 1A ironia denuncista do co-realizador quanto aos desmandos autoritários do comunismo europeu permanece abundante e mui reconhecível nesta obra, mas senti falta de seu humor corrosivo e explícito, igualmente característico. Aqui, a abordagem é seríssima, ainda que parta de uma situação que beire o exagero canhestro (de lascar imaginar que aquilo, de fato, aconteceu, né?). Para se assistir após a (re)leitura de "A Câmara Clara", do Roland Barthes. Porém, mesmo assim, não curti tanto. Há algo de muito específico nas abordagem. Quem sabe em um novo contato... (WPC>)
The End
4.0 1Metáforas conjugadas em uma animação muito estilosa, numa estrutura narrativa em formato-painel, que termina com uma maravilhosa intervenção quiróptera. Lembrei de um clássico brasileiro de animação, - NOVELA (1992), de Otto Guerra - por causa das narrativas em comunhão interruptiva (genial o detalhe do 'wi-fi' que não carrega no avião). Ri sozinho, mas, do meio para o final, o traço existencial se sobressai. Inteligentíssimo e muito chique! (WPC>)
Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte
3.1 122 Assista AgoraAcho o filme anterior da diretora um dos trecos mais hediondos já realizados neste Século XXI, algo que nos incita a largar a carreira espectatorial, mas ouvi tantos comentários positivos sobre este novo trabalho que, dada a boa sinopse, pensei que pudesse imergir... Abri o coração, e tentei, mas os entojos autobiográficos pretensiosos e pseudo-metafóricos são vomitados desde o início, no delineamento da protagonista viciada em jujubas e sucrilhos, com dificuldades para vestir uma luva. Ainda que, aqui, haja uma trama efetivamente acompanhável, a obsessão auto-terapêutica se sobrepõe à narrativa, aos eventos reconstituídos enquanto pasticho daquilo que se reclama. Ah, os 'slasher movies' são machistas, transfóbicos, etc.? Que tal refilmá-los nos mesmos moldes, mas protagonizados por alguém com "lugar de fala". Substitui-se o objeto, mas o mal-estar permanece, enquanto se justifica que tudo isso faz sentido, pois "o despertar 'queer' " de alguém com 8 anos de idade aconteceu vendo um filme desses. Baixa-se a saia e corre, com os seios balançando, portanto. Até aí, tudo bem (aspas imensas), até que chega a estapafúrdia e mui irritante cena da reunião de apresentação da proposta de filmagem dentro do filme. A metalinguagem é canhestra, sem espaço para qualquer reinterpretação sígnica. Filme de manipulação duvidosa em seu elã epidérmico, com uma meia-hora final tétrica, horrorosa, sem sentido, vexatória, pífia, tudo de ruim... Mas ao menos ritmicamente suportável, ao contrário daquele atentado à sanidade que batizaram como EU VI O BRILHO DA TV. Gillian Anderson está ótima, ao menos: acreditou em sua encarnação de uma Norma Desmond neo-geracional, "pela perspectiva do chuveiro". Aham! (WPC>)
O Ser Querido
3.5 4A maturidade da direção surpreendeu-me bastante: a despeito do tema hipercodificado (os dilemas de uma relação profissional entre pai ausente porém competentíssimo no que faz e filha machucada pela ausência), o filme chama a atenção para si mesmo de maneira inteligente, modificando a bitola e/ou os registros de gravação e servindo-se de recursos sonoros assaz hábeis, como a reflexão advinda da gravação da faixa em áudio para o lançamento de um blu-ray ou a justificativa para se assistir a uma cena muda ("percebemos melhor o enquadramento, assim"). Fiquei absolutamente deslumbrado pela poderosa cena em que o diretor segue a filha com os olhos, enquanto ouve uma música recém-enviada por um de seus subordinados, o que será decisivo para o impacto dramático do desfecho. Javier Bardem está ainda mais supremo que o habitual e Victoria Luengo faz jus à alta responsabilidade que lhe é direcionada. Filme adulto, que cresce bastante após o encerramento... uau! (WPC>)
Herança de Narcisa
3.0 15Lutei para gostar, mas todo o interesse esgota-se na sinopse, sendo o desenrolar do filme (se é que se pode dizer que há algum) totalmente dependente de uma situação previsível e pouco interessante, além de dependente do carisma da protagonista, que não revelou-se suficiente. Gosto da aparição aguardada (e mui breve) da Rosamaria Murtinho e dos acordes graves da trilha musical, e só: incrível como o cinema de terror brasileiro contemporâneo é tributário dos enredos classistas sobre bruxaria familiar, não é? Aff! (WPC>)
As Dores Do Mundo: Hyldon
3.2 1Sim, Hyldon é um artista genial e o disco mencionado no título deste documentário é uma obra-prima, mas, infelizmente, o filme não quer ser "fílmico" - ou, se quer, não consegue sê-lo: achei de péssimo gosto a opção por aproveitar-se de imagens de outras obras para "imitar" aquilo que é narrado pelos depoentes, bem como as filmagens contemporâneas em Super-8, mas sem função efetiva no relato. Os depoentes são extraordinários, mas todos desperdiçados, exceto talvez quando cantam, mas mesmo isso surge de maneira redundante na obra, pois cantam algo que fôra cantado instantes antes pelo biografado. Por mais que se diga que o artista era difícil de se conviver, a abordagem é chapa-branca e há a forçação de barra na apresentação dos depoimentos desenxabidos de uma antiga musa, casada com outra pessoa. Gosto muito do que é apresentado (um disco perfeito, a pretensa exposição de conjuntura, o detalhamento da carreira do artista como produtor), mas não de como é apresentado: terminada a sessão, é tudo esquecido, de tal pouco expressiva que é a feitura documental da obra. Parece um programa de TV feito por encomenda. Decepcionante, infelizmente! (WPC>)
7 Piano Sketches
4.0 1Cliquei na sessão de maneira extremamente casual, sem saber do lançamento do EP do artista e focando na curta duração da obra. Mas deixei-me fisgar pelo humor um tanto jarmuschiano do curta-metragem, pela celebração dos encontros, pela maestria de cenas simples, como a movimentação dos dedos fotocopiados em preto-e-branco... A trilha musical jazzística (afinal, central, em seu intuito publicitário extensivo) é muito bacana e o desfecho é gracioso e recompensador. Ótima surpresa! (WPC>)
Abraço de Mãe
2.9 145 Assista AgoraLembro que, quando foi lançado, a recepção foi prioritariamente negativa, de modo que eu terminei procrastinando a sessão, automaticamente. Ao conferir o filme com a minha mãe, a fim de confirmar a parentalidade titular, gostamos bastante do que vimos: apreciamos a tensão contínua, a pletora de "pistas falsas", o terror gráfico, os bons efeitos visuais, o aproveitamento inteligente do contexto histórico e a ótima entrega actancial de Marjorie Estiano, como de praxe. O roteiro, de fato, não sabe o que fazer com tantas deixas e abandona algumas delas enquanto subaproveita outras, mas, em nosso dia a dia permeado por inúmeros estímulos em competição, também não é assim? Como tal, referendo a qualidade elogiável do resultado e a obediência funcional às convenções de gênero. Terrorzão brazuca muito bem realizado! (WPC>)
Entreatos
4.0 80 Assista AgoraNão revia este filme desde o seu lançamento, há mais de vinte anos, e, por conta de uma reflexão eleitoral, tive o prazer de estar numa audiência coletiva, atravessada por muitas risadas, o que é tematizado indiretamente, quando alguém comenta que "mesmo que o Governo do Lula não seja o melhor, com certeza será muito engraçado". Mesmo que eu não seja o mais apaixonado dos lulistas, não tem como não ficar impressionado perante o carisma sobressalente deste homem (político, sim, mas sobretudo um ser humano), muito hábil no manejo das palavras e das memórias, formado na práxis e consciente das contradições que atravessam a sua carreira de êxitos (e perseguições). Entretanto, o filme transcende o próprio objeto, pois, como é típico de seu diretor, ele direciona a reflexão para um viés metalingüístico, em termos de envergadura sociológica e psicanalítica. Porém, o objeto compete de igual para igual em atenção e importância: Lula abrilhanta-se a cada intervenção, cada fala acertada, cada comentário ácido e sincero, cada decisão orgânica... Filme magistral sobre registos íntimos de um dos maiores e mais competentes homens públicos do Brasil. Meu voto foi mais que validado aqui. Filmaço! (WPC>)
No Me Sigas
2.3 16 Assista AgoraAinda que eu não tenha apreciado o desfecho excessivamente resolutivo e de alguns furos no roteiro ficarem confusos (o que talvez funcione enquanto encadeamento metalingüístico, pois este é um dos componentes marcantes na composição da protagonista), gostei muito do que o filme me causou e, sim, cheguei a sentir medo nalguns instantes, pois estava sozinho em casa à noite, o eco reverberou. Pena que a trama insiste em se instaurar e acabar com o mistério, racionalizando aquela "lenda urbana" de maneira pouco convincente. Gostei do elenco, da direção, da indefinição entre 'found footage' e câmera objetiva, da beleza física traiçoeira de Yankel Stevan, da audácia em converter o Instagram em verdadeiro vilão conjuntural. Defeituoso? Que seja, gostei muitíssimo! (WPC>)
Spiritus Sanctus
2.5 1Pensei muito em O BANHEIRO DO PAPA, mas, aqui, sob o viés do consumidor afito (risos). Há aspectos políticos interessantes no substrato do roteiro - que têm a ver com a necessidade atual dos atuais defenderem uma santa católica no Brasil, por exemplo - e utiliza bem o misticismo religioso da redenção paranóica. O elenco é muito bom e a direção, eficiente. Mas tenho um distanciamento pessoal em relação ao cerne do enredo. Problema meu, lidarei com isso. Mas afetou a minha relação com filme, infelizmente. (WPC>)
Stallion Y la Bola de Cristal
1.5 1A atmosfera 'queer' é fascinante e prometedora, mas não consegui mergulhar naquilo que é sinopticamente anunciado: o protagonista é tão insuportável, em seus pantins classistas e comportamentos omissos/invasivos, que a empatia erótica falha e, ao final, apesar das imagens interessantes, o filme falha, causou-me raiva e enfado. Uma pena! (WPC>)
A Vida de Emile Zola
3.7 46 Assista AgoraRevi o filme e, mesmo assim, apesar de eu apreciar o discurso, gostar da abordagem temática na segunda metade e de compreender as simplificações tramáticas e biográficas, sinto que não lembrarei tanto dele em alguns dias: tudo na encenação é subserviente em relação ao roteiro, e abordagem fica melhor o protagonista não está em cena, de tão exagerada que é a interpretação do Paul Muni. Obedece às convenções ainda em estabelecimento do cinema clássico hollwyoodiano e é tecnicamente eficiente, conforme era caro às produções conduzidas pelo William Dieterle, mas está longe de ser um de meus favoritos nesta safra trintista. Ao menos, envelhece bem em termos de relevância: infelizmente, o que é mostrado na trama só piora! (WPC>)