Muito bem interpretado, dirigido e roteirizado. Bruna Linzmeyer está ótima nesta representação ficcional da Michelle Bolsonaro (risos). O problema é que as personalidades representadas são tão caricaturais que, em dado momento, o filme cansa, que é justamente quando ele adere às convenções do suspense, e se encerra de maneira anticlimática e súbita. As situações são muito bem desenvolvidas (mesmo o exagero psicótico envolvendo uma crendice popular) e a direção de arte é muito bem aproveitada. Assisti ao filme sem esperar muita coisa, e fiquei satisfeito com o resultado, que confirma o talento da diretora estreante em longas-metragens na condução deste tipo de temática. Tem muito a ver com MEDUSA, da Anita Rocha da Silveira, aliás. Imediatamente após a sessão, soube que evangélicas estão fazendo campanha contra o filme: tomara que isso alavanque a audiência (risos), ele merece! Em época eleitoral, este título cai como uma luva! (WPC>)
O que aconteceu com a diretora, aqui? Tudo bem que suas obsessões temáticas são identificáveis e que nota-se o esforço pela aplicação da sinestesia característica, mas o roteiro é uma esculhambação, sobretudo na segunda metade, quando beira o absurdo estético 'new age', de uma cafonice atroz, com 'flashbacks' atabalhoados e contraproducentes (mesmo em suas intenções "explicativas"). Qual a necessidade de aderir a esta internacionalização, com uma estapafúrdia utilização do idioma inglês, em contexto interiorano, e com gemidos altissonantes, confirmando uma lógica quase pornográfica de "confirmação" do prazer? Um filme caricato e vexatório, em enormes medidas. Esforcei-me para apreciar, no afã por encontrar traços autorais kawaseanos, mas é um filme canhestro e simplificador. Gosto de quando os membros da comunidade aparecem e quando o filme abandona o enredo, mesmo que a fotografia possua um cariz 'Discovery Channel', mas é um trabalho bastante aquém dos talentos envolvidos, infelizmente! (WPC>)
Gratíssima surpresa: um musical indiano em que a própria musicalidade é questionada, à guisa de maldição, em viés tramático. Há algumas quebras no ritmo e, por vezes, senti a duração, mas os atores são tão simpáticos e a direção (proveniente de alguém nonagenário) é impressionante. O roteiro é repleto de camadas, como sói acontecer nas narrativas bollywoodianas, e incomodou-me o tratamento concedido às massas populacionais, assaz manipuláveis. Não se pode reclamar de inverossimilhança, entretanto (risos tristes). Linda mensagem ecológica e enredo esperto e mui divertido. Minha mãe adorou! (WPC>)
O título do filme é primoroso e a sua sinopse é mais que prometedora - e cumpre: a atmosfera lynchiana é um pretexto para que, em registro eventualmente documental, conheçamos os dilemas e anseios (inclusive, eróticos) que "atendentes" que refugiam-se num lugar desertificado, fugindo da violência institucionalizada de homens violentíssimos. Muito bem definido em sua caracterização distópica, o roteiro evita explicar em excesso, permitindo que, em vez disso, conheçamos aquelas mulheres, identifiquemo-nos em relação a elas, percebamos que, mesmo num bordel, o sexo pode ser convertido em algo que permite prazer mútuo e abertura ao diálogo, ainda que sobre a égide do esquecimento titular. A protagonista Pietra Sousa (ao menos, nos primeiros 2/3 do filme, já que, depois disso, todas convertem-se em protagonistas) é ótima e a direção é magistral, tanto quando presta-se a observar quanto assume o olhar de personagem inserida naquela conjuntura de acolhimento sexualizado. Um roteiro deveras criativo, que serve-se de excelentes componentes técnicos (fotografia, trilha musical, direção de arte), desembocando num dos melhores filmes brasileiros desta década, desde já. Primoroso em intenções, feitura e discurso - e audácia, claro! (WPC>)
Quase tudo o que li sobre este filme enfatiza o sentimento de decepção (alguns textos, em relação à totalidade da obra dos realizadores), mas, depois do que senti vendo NA RÉDEA CURTA, até que apreciei a proposta e alguns aspectos, sobretudo porque conversa ambientalmente com VOLTEI!, dando a entender que os diretores substituíram as caricaturas da pretensa comédia "popular" pelo intimismo dramático/familiar que caracterizou o seu estilo conjunto, em trabalhos iniciais. Aqui, ILHA aparece como uma referência explícita, o que não funciona tanto conjunturalmente. Idem quanto ao preâmbulo sobre a tentativa de golpe bolsonarista, que validaria o contexto distópico da obra. Ocorre que nem faz diferença um aspecto nem o outro na construção do roteiro. Primeiro, porque o alegado fanatismo de Gustavo pela carreira do diretor dentro do filme soa esvaziado, baseado em um mero modismo (vide a cena da maconha, que "é melhor do que filmar"); segundo, porque a violência discursiva que aflige os personagens ocorre hoje, mesmo com a possibilidade de reeleição do Lula. Para piorar, a forçação de barra envolvendo terminologias (o embate entre "arco-íris" e "refrator de luz") transfere a politização do filme para uma lógica de Twitter, sem vigor. Até gosto da entrega dos atores aos personagens (não vou mentir: Lucas Leto surpreendeu-me), mas a excessiva teatralidade dos diálogos e a continuidade troncha entre as situações (numa noite, uma assassinato; noutra, uma masturbação; pela manhã, "vamos nadar na piscina?") chega a causar vergonha alheia no espectador. Minha mãe estava ao meu lado, na sessão, e torceu pelo romance, pelo acerto emocional entre os personagens, para que Henrique voltasse a andar, mas destetou o histrionismo (verossímil, infelizmente) dos pastores televisivos, cujo tempo de tela é excessivo e pleonástico. Não obstante eu lamentavelmente concordar com as críticas negativas, há algo no filme, à guisa de tentativa, que valida a minha defesa dos diretores, ainda: eles estão querendo "voltar", efetivamente. Hão de conseguir! (WPC>)
Neste terceiro contato, paradoxalmente, custei um tantinho até imergir por completo e ser seduzido pela exuberância deste filmaço. Como diferencial em relação às experiências anteriores, o fato de eu tê-lo visto sozinho, agora. O que é um crime: este espetáculo fílmico requer companhia, corações batendo em uníssono. Mas, mesmo em minha situação solitária, em determinado momento, a magnificência interpretativa de Martine Carol, em seu embate com o enorme Peter Ustinov, atingiu-me em cheio - e, daí para a frente, a genialidade da obra torna-se cada vez mais evidente. O píncaro do ophülsismo, sendo absolutamente plausível o arrebatamento de François Truffaut, que o reviu diversas vezes. O segmento do qual participam Anton Walbrook e Oskar Werner é primoroso. Todo o filme, aliás: aquele desfecho dói! Tanto que, por alguns instantes, relutamos em esboçar exclamações de júbilo, perante a supremacia daquele movimento de câmera que, como disse o crítico, "pela primeira vez, faz com que saiamos do cinema pela tela". Uau! (WPC>)
Estranhei um tanto a aparente "incoesão" dos pedaços de memórias, no início, mas logo a cadência fez pleno sentido, explodindo num clímax de poesia, que serve-se da pixelização da imagem numa seqüência genial, incandescente, correspondente, em sentido estético e discursivo, ao que Manoel de Oliveira fizera em UM FILME FALADO. Septuagenária, Rita Azevedo Gomes é uma das cineastas mais jovens e modernas em atividade, rigorosa na exposição, mas generosa na contemplação e contribuição, Assisti ao filme em grupo, antes e depois da leitura de um texto magistral da Susan Sontag sobre a ameaça de "morte do cinema e da cinefilia" e encontramos neste filme pura demonstração de renascença, de cura. profilaxia cinematográfica de primeiro quilate, para ser visto, revisto, sentido e praticado. Obra política e mui sensível. O Século XXI ainda permite que vivamos! (WPC>)
Vários amigos gostaram deste filme e, quando ele esteve em cartaz, fiquei surpreso com a recepção. Porém, achei a direção horrível e, definitivamente, João Guilherme não convence como um rapaz de 16 anos. O que nem é culpa de sua interpretação em si (ou da tal "falta de carisma"), mas do modo indecoroso como o seu personagem (real) é construído, através de uma narração cínica que se esforça por buscar uma empatia injustificada: o cara é um otário, insuportável e indefensável, em múltiplos aspectos. O tipo exemplar de bolsonarista que deseja parecer "isentão" e descolado. O filme, neste sentido, possui aquele humor pseudo-anarquista, que contribui para o fortalecimento da direita. Péssimo roteiro e ritmo capenga, que se estende por duas horas e quinze minutos de chatice, visto que a saga do anti-herói retratado é bem menos interessante do que ele próprio deseja fazer crer. Alarmista em proposta e esvaziado em discurso e sentido. Muito, muito ruim (em âmbito moral), além de esteticamente vinculado ao pior do cinema estadunidense. A trilha cancional em inglês é ultrajante de tão ruim! (WPC>)
Em meu primeiro contato com o filme, há mais de uma década, tinha gostado bastante, mas fiquei receoso que ele não funcionasse tanto numa revisão. De fato, incomodei-me com a falta de ritmo e com a longa duração, além da concepção chapa-branca do personagem real (muito bem personificado por William Powell). Porém, as interpretações são ótimas, sobretudo quando Luise Rainer está em cena, cativando-nos com seu carisma, por mais que a personagem beire o histrionismo. Ri em diversos instantes e aprecio o afresco histórico sobre a lógica dos espetáculos musicais estadunidenses. As seqüências de exposição dos números grandiloqüentes concebidos pelo protagonista antecipa o que, hoje, acostumamo-nos a ver em desfiles de escolas de samba (risos). 'Kitsch' ao extremo, mas fascinantes também. O que é feito ao som de "A Pretty Girl Is Like a Melody" impressiona, de fato, sendo o Oscar de Direção de Dança muitíssimo bem direcionado, neste sentido. É um personagem intrigante, o tal do Ziegfeld, quis saber mais sobre ele, numa abordagem menos santificada que esta. Ótima a aparição da verdadeira Fanny Brice, interpretando a si mesma. Hollywood em seu augem utilizando a breguice em favor do espetáculo. Julguem-me, mas mesmo achando exaustivo, gosto muito desta superprodução - acho-a injustiçada, aliás! (WPC>)
Quando eu descobri, nos créditos finais, que este filme provém de uma adaptação literária, fiquei impressionado: juro que eu pensava se tratar de uma atualização de MINHA VIDA SEM MIM, o que só demonstra o quão autoral é esta diretora na escolha e tratamento dos temas que lhe interessam. As interpretações são maravilhosas (quão cativante é Alba Rohrwacher!) e é incrível como o roteiro permite que mais de um personagem compartilhem os seus pontos de vista sobre a vida, não apenas a protagonista. Amei o uso das imagens ilustrativas das ruas de Roma ("a minha Roma", como diz Marta), a trilha musical de Alfonso de Vilallonga, a desenvoltura da trama circunstancial, a leveza da abordagem, o desfecho reconciliador... Até mesmo a intérprete da médica gastroenterologista brilha, de modo que anotei várias de suas falas. Lindíssimo filme, fiquei emocionado do início ao fim. O título original é ainda mais certeiro, ao enfatizar a relevância das tigelinhas que o então casal ganha de brinde, no início, numa visita corriqueira a um supermercado. Trabalho de mestra! (WPC>)
Não gosto dos filmes anteriores deste diretor, de modo que adentrei a sessão desconfiado, apenas para cumprir tabela. Mas gostei bastante de como o roteiro amalgama motes de O COLECIONADOR, LARANJA MECÂNICA e dos diversos livres que o protagonista lê e discute, em mais de uma situação. Aliás, que uso inteligente das referências e citações! O elenco está ótimo e a trilha musical ajuda a direcionar a identificação do espectador, em relação ao protagonista, quando a trama trafega do suspense para o drama, e/ou vice-versa. Amei que muitas perguntas permanecem irrespondidas, muitas situações não são explicadas... cabe ao espectador preencher as lacunas. O ritmo é ótimo e o desfecho é prenhe de sentido, enquanto reflexão sobre moralização forçada. Fiz as pazes com o realizador, aqui! (WPC>)
Há de se louvar o trabalho de adaptação: pelo tamanho do original literário, o roteiro foi hábil na condensação de situações e na manutenção do bom ritmo romântico e aventuresco. O problema é que, por mais que a redenção moral seja tematizada e que o contexto de época seja levado em consideração, é muito difícil simpatizar com a conjuntura colonial e as situações de extrema violência escravagista, quando a trama migra para Cuba e, depois, para um país africano indeterminado. Gosto muito do arco dramático envolvendo a personagem de Olivia de Havilland e, claro, fiquei impressionado perante a eloqüência vilanaz de Gale Sondergaard. Mas, a despeito de todos os elogios técnicos que eu possa elencar aqui, o filme cansou-me, sobretudo quando adere frontalmente à ideologia estadunidense (vide o desfecho). Enquanto exemplar de gênero, pioneiro em diversos aspectos! (WPC>)
Descobri este filme numa página sobre valorização da cultura homossexual. ao longo dos anos, e duvidei que as cenas de nudez fossem tão abundantes. Fiquei impressionado, neste quesito, mas o roteiro é atroz, no sentido como antecipa o projeto hitlerista de 'Olympia', produzido a partir das Olímpiadas imediatamente posteriores... Realmente não reconheci a Ida Lupino, com apenas 16 anos. Encantei pela beleza do protagonista e gosto de um ou outro aspecto do modo como a discussão sobre moralidade aparece aqui, com todas as contradições vendáveis possíveis. A seqüência dancical à la Busby Berkeley é fascinante e o final é engraçado, mas o modo como todos os vencedores de concursos de beleza são irrevogavelmente brancos é assustador. Filme eugenista, perigoso. Pontualmente divertido, mas discursivamente reprovável! (WPC>)
Eu detestei o retorno do Danny Boyle ao filme inicial desta franquia inusitada, que amo, de modo que não interessei-me por esta continuação direta. Temi que o horror fosse advindo de situações intencionalmente provocadas, a partir de testes de valentia e/ou hombridade, o que pareci confirmar-se no início. De repente, o incômodo provocado pelo histrionismo satânico do personagem de Jack O'Connell cedeu espaço para uma reflexão interessante sobre a origem humana da malevolência, para o fascínio pela tortura... No cotejo com a trama paralela, da relação entre o médico vivido por Ralph Fiennes e o zumbi progressivamente domesticado, o filme cresce por, mais que aderir a um humanismo inaudito e corajoso, filiar-se à corrente recente de obras que apregoam os benefícios da mídia física (a coleção de vinis do Dr. Kelson é quase um personagem à parte!) e correlacionar o vírus da ira ao aumento da velocidade induzida do olhar. Neste sentido, o performático clímax ao som de "The Number of the Beast" merece toda a comoção que causou. Idem para a seqüência legítima (e orgânica) de ensinamento, na derradeira seqüência. Paguei a língua: gostei bastante d filme do meio para o final. O diálogo entre a trilha musical de Hildur Guðnadóttir e os temas originais de John Murphy é primoroso, uau! (WPC>)
É inevitável não pensar em UM FILME PARA NICK, por causa da proposta. Mas a metodologia é completamente distinta: a diretora deixa claro que aceitou a empreitada ensaística enquanto encomenda - e faz questão de reiterar junto ao seu personagem real o porquê. Surgem, então, os melhores diálogos, quando uma diz que "filma para se sentir viva" e o outro complementa que "se permite ser filmado para prolongar a vida" . Naomi Kawase é safa na maneira como lida com a doença de Nishii, sem qualquer vitimização ou comiseração, mas expondo as dores, vômitos, tosses e angústias físicas por tempo prolongado. Porém, não há promessa de sobrevivência à doença: logo no início, registros sem som do funeral, que voltam no desfecho, expandindo-se através de um movimento de câmera (e inserção de som) que cumpre a premissa de outra sobrevivência, via imagem, como se fosse uma versão nipônica dos ensaios de Roland Barthes em "A Câmara Clara". Ao invés da emoção costumeiramente associada aos dias de agonia de um moribundo, a racionalidade de quem odeia os aprisionamentos conceituais da palavra "documentário" na lógica do passado. Um tratado político-afetivo e um manifesto artístico, ao mesmo tempo! (WPC>)
Pode-se reclamar que o filme é primário em termos de linguagem cinematográfica (direto demais, limitando-se a acompanhar os afazeres de seus personagens) e que as eventuais brigas mencionadas por uma das personagens reais não surgem na tela, no sentido de que tudo se resolve fácil e harmonicamente, mas, mesmo assim, a abordagem é tão humanizada, tão sincera, que eu percebi-me encantado, tamanha a simpatia que senti por aquelas mulheres. Ótimos depoimentos, projeto fascinante (que bom que foi devidamente implementado) e discurso político assertivo, dentro de sua assumida vinculação partidária. Achei ótimo que este filme estréie nos cinemas num período tão delicado da competição eleitoral, como esse de agora: é o empurrão definitivo que o Lula precisava! (WPC>)
A associação entre ano e país de produção leva-nos a adentrar a sessão com muita desconfiança, o que fica ainda mais suspeitoso no desfecho algo triunfalista, com a frases de efeito em defesa da "vontade e das necessidades do povo". A despeito disso, Werner Krauss está maravilhoso como o protagonista e, em razão de eu estar lendo um romance que aborda tangencialmente o ideário de Paracelso, apaixonei-me pela abordagem, pela descrição do personagem, pelas situações reconstituídas (mesmo que sob a égide da inacurácia histórica), pela trilha musical, pela ambientação expressionista e pelo modo como somos manipulados a torcer pelo protagonista, vítima de algumas injustiças que foram corrigidas pelo tempo (tanto que o filme foi produzido em celebração ao quadringentésimo aniversário de seu falecimento). O que enfada é a subtrama paralela envolvendo o romance entre um assistente do médico e a filha de um ricaço, mas, exceto por isso, adorei a estranheza deste filme, percursor da coreografia de "Thriller", como bem notaram... (WPC>)
Fui de coração aberto: a sinopse é promissora e a derivação de HQ assegurou o estilo descolado da obra. A direção feminina, idem. Porém, a despeito da promessa titular (para que em inglês, gente?) e das manifestações biográficas dos personagens, as situações e pessoas são suplantadas pela ação incessante - e nem sempre interessante. Gosto da direção de arte, do uso dos espaços, das figurações fantasmagóricas dos usuários de 'crack', de toda a mitologia vampiresca, das relações de amizade ofertadas, mas tudo decai quanto as brigas começam, a disputa automática de territórios, e o filme se perde numa inverossimilhança que trai até mesmo as convenções da diegese. Tem ritmo, ao menos. Minha mãe curtiu até a metade. E é sempre muito válido que realizadores brasileiros invistam no terror! (WPC>)
Visto pela terceira vez, mantenho o meu entusiasmo acerca das qualidades técnicas e pelo modo como a trama central permite variações de gênero, transitando entre o filme de aventuras navais , o drama histórico, o idílio insular romântico (mui problemático, acrescentamos) e o desfecho advocatício, em que Franchot Tone brilha. A caracterização de Charles Laughton é magistral e o recém-oscarizado Clark Gable demonstrou que ele é, de fato, um ator, não apenas um astro. A montagem é ótima e o ritmo do filme entretém e nos causa a indignação pretendida, quanto às situações apresentadas e à confusão recorrente entre autoridade e maus tratos. Frank Lloyd é um diretor que merece atenção e aplausos. Trata-se de um filme que envelheceu muito bem, a despeito dos problemas ideológicos escamoteados pela lógica literária, adaptada de eventos verídicos e mui relevantes, que alavancaram modificações na maneira como as instruções britânicas conduziam a sua sanha colonizadora, ao redor do mundo. Típico produto destinado à "Sessão da tarde" (bons tempos), com desempenhos memoráveis e uma avaliação percuciente das relações hierárquicas. (WPC>)
A diva Grace Passô demonstra uma segurança ímpar na condução deste longa-metragem, o que não é casual: como trata-se da adaptação cinematográfica de uma peça teatral de sua autoria, o percurso emocional é conhecido, culminando numa cena poderosíssima de imersão coletiva, que é quando todos os familiares recitam um mesmo texto, casual em origem (um áudio de WhatsApp), mas poderosíssimo em impacto (a tentativa de manutenção mnemônica de alguém ausente). A aparição de Mateus Aleluia, logo no começo, demarca o tom de suspense dramático que permeia toda a obra, com uma câmera quase invasiva, em seu anseio por saber mais do que está sendo mostrado - levando à frente a instauração do segredo anunciado desde o título. Efraim Santos é mui simpático e eloqüente (amei as suas perguntas de cariz surpreendentemente melancólico) e os diálogos que se deslocam da narrativa são ótimos (vide a fala do personagem de Juan Queiroz, sobre quando finalmente passou a se considerar bonito). Infelizmente, quando o tal segredo é desvelado, o filme perde um pouco de sua cadência, por acreditar/demonstrar que foi desvelado, quando as entrelinhas é que o sustenta(va)m. A trilha musical de Amaro Freitas é quase um personagem à parte, assaz penetrante. Que bom que a estréia deste filme ocorrerá imediatamente após os prêmios recebidos em Gramado: é o tipo de realização corajosa que depende deste empurrãozinho na incitação do interesse de público. Hipnótico, ainda que irregular em desvelamento! (WPC>)
Não conhecia este filme e, amante do Jornalismo que sou, gostei bastante da premissa: adorei a amoralidade inicial do protagonista, que logo é erigido à condição de mártir profissional. A fotografia é charmosa e o enredo avança com celeridade e alguns atropelos, mas consegue enfatizar o que é, de fato, relevante: a importância do comprometimento midiático em relação aos valores constitucionais, com ênfase na independência opinativa. Algo i8nevitavelmente ingênuo, quiçá utópico, mas que se justifica bem sob a lógica hollywoodiana. Do meio para o final, a trama fica bastante movimentada, e entulhada das convenções narrativas policiais do período. Gostei! (WPC>)
Depois de frustrar-me parcialmente com alguns aspectos do primeiro filme, apressei-me em ver o segundo. E fiquei deslumbrado: a primeira meia-hora é impressionante! Sublime(s) seqüência(s) de dança, magistral a ambigüidade progressiva e tormentosa do vilão apaixonado. O protagonista torna-se mais ativo - e até bonito - nesta continuação, mas, quando o enredo passa a dedicar mais tempo de cena à sua irmã e seu cunhado, o interesse fica periclitante. Nada que não se resolva na opulência da 'mise-en-scène', afinada aos grandes momentos da carreira languiana. Fui um tanto expelido, em termos de interesse primário no desenrolar da narrativa, durante os acontecimentos da meia-hora final, que forçam a nossa "suspensão da descrença", mas é um filme que resolve muito bem os destinos de seus personagens -e , por extensão, de uma nação cinematográfica expandida, composta por espectadores inebriados perante o exotismo das situações e cenários... (WPC>)
Sempre quis ver este filme e sabia que ficaria fascinado pelas cores e pelo exotismo. Mas isto revelou-se um problema: pois o colonialismo é indisfarçado e, da maneira como aparece, o anacronismo conta ponto contra a adesão narrativa, o que é elementar num filme de aventuras. Para piorar, achei o protagonista insosso e excessivamente passivo. Encantava-me sempre que Debra Paget estava em cena e gosto da ambigüidade do vilão, triste em seu anseio criminal por ser amado... A fotografia é deslumbrante e a direção de arte, idem. Fritz Lang é garantia de qualidade, mas algo me incomodou no ritmo do filme, no que tange à coesão entre as seqüências, nas conseqüências de algumas situações (vide o que acontece após a morte do tigre). De fato, Spielberg chupou tudo o que interessa aqui, em termos de estilo. Pressinto que, numa revisão, eu gostarei bastante, mas, neste primeiro contato, não fui macmahonista o suficiente - e nem quis! (WPC>)
Juro, gente: fui com o coração aberto, cria realmente que gostaria... Porém, havia uma desconfiança gritante acerca de algo que parece imediatamente associado às produções românticas de cunho homossexual no Brasil - principalmente, quando adolescentes: a conjuntura de classe, que soa muito mais inverossímil que qualquer situação em si. Diego Lira é muito bonito e carismático, enquanto o personagem de Miguel Lallo chega a ser insuportável, de tão antipático e mimado. Felizmente, isto é tematizado explicitamente pelo roteiro, quando a sua mãe reclama que ele não é gentil consigo mesmo. Um ponto positivo para o filme, que possui um ponto de partida forçado, mas belas imagens de Cataguases, em Minas Gerais. O problema é, por vezes, parece nem ser no Brasil, de tão imitativa que a trama é, em relação aos moldes cinematográficos. O que é piorado pelo fato de o diretor possuir uma experiência marcadamente televisiva. Gosto de como a contagem numérica aparece nos cenários, compreendi a utilização de sucessos da "nova MPB" (Jão, Marina Sena, AnaVitória, Johnny Hooker) na trilha cancional e achei divertido o modo como cenas imaginadas de filmes invadem o cotidiano de Felipe, quase como uma versão adolescente do homossexual de O BEIJO DA MULHER-ARANHA. Porém, há pouco de eminentemente "brasileiro" no filme, as relações familiares são artificiais, a assexualidade da paixão entre os garotos é inconvicente e a dramaticidade eventual chega a ser constrangedora. Tentei, gente, mas não desceu. Desculpem-me! (WPC>)
Virtuosas
3.5 12Muito bem interpretado, dirigido e roteirizado. Bruna Linzmeyer está ótima nesta representação ficcional da Michelle Bolsonaro (risos). O problema é que as personalidades representadas são tão caricaturais que, em dado momento, o filme cansa, que é justamente quando ele adere às convenções do suspense, e se encerra de maneira anticlimática e súbita. As situações são muito bem desenvolvidas (mesmo o exagero psicótico envolvendo uma crendice popular) e a direção de arte é muito bem aproveitada. Assisti ao filme sem esperar muita coisa, e fiquei satisfeito com o resultado, que confirma o talento da diretora estreante em longas-metragens na condução deste tipo de temática. Tem muito a ver com MEDUSA, da Anita Rocha da Silveira, aliás. Imediatamente após a sessão, soube que evangélicas estão fazendo campanha contra o filme: tomara que isso alavanque a audiência (risos), ele merece! Em época eleitoral, este título cai como uma luva! (WPC>)
Vision
2.9 21O que aconteceu com a diretora, aqui? Tudo bem que suas obsessões temáticas são identificáveis e que nota-se o esforço pela aplicação da sinestesia característica, mas o roteiro é uma esculhambação, sobretudo na segunda metade, quando beira o absurdo estético 'new age', de uma cafonice atroz, com 'flashbacks' atabalhoados e contraproducentes (mesmo em suas intenções "explicativas"). Qual a necessidade de aderir a esta internacionalização, com uma estapafúrdia utilização do idioma inglês, em contexto interiorano, e com gemidos altissonantes, confirmando uma lógica quase pornográfica de "confirmação" do prazer? Um filme caricato e vexatório, em enormes medidas. Esforcei-me para apreciar, no afã por encontrar traços autorais kawaseanos, mas é um filme canhestro e simplificador. Gosto de quando os membros da comunidade aparecem e quando o filme abandona o enredo, mesmo que a fotografia possua um cariz 'Discovery Channel', mas é um trabalho bastante aquém dos talentos envolvidos, infelizmente! (WPC>)
Sing Geetham
4.0 1Gratíssima surpresa: um musical indiano em que a própria musicalidade é questionada, à guisa de maldição, em viés tramático. Há algumas quebras no ritmo e, por vezes, senti a duração, mas os atores são tão simpáticos e a direção (proveniente de alguém nonagenário) é impressionante. O roteiro é repleto de camadas, como sói acontecer nas narrativas bollywoodianas, e incomodou-me o tratamento concedido às massas populacionais, assaz manipuláveis. Não se pode reclamar de inverossimilhança, entretanto (risos tristes). Linda mensagem ecológica e enredo esperto e mui divertido. Minha mãe adorou! (WPC>)
Sabes de Mim, Agora Esqueça
3.1 1O título do filme é primoroso e a sua sinopse é mais que prometedora - e cumpre: a atmosfera lynchiana é um pretexto para que, em registro eventualmente documental, conheçamos os dilemas e anseios (inclusive, eróticos) que "atendentes" que refugiam-se num lugar desertificado, fugindo da violência institucionalizada de homens violentíssimos. Muito bem definido em sua caracterização distópica, o roteiro evita explicar em excesso, permitindo que, em vez disso, conheçamos aquelas mulheres, identifiquemo-nos em relação a elas, percebamos que, mesmo num bordel, o sexo pode ser convertido em algo que permite prazer mútuo e abertura ao diálogo, ainda que sobre a égide do esquecimento titular. A protagonista Pietra Sousa (ao menos, nos primeiros 2/3 do filme, já que, depois disso, todas convertem-se em protagonistas) é ótima e a direção é magistral, tanto quando presta-se a observar quanto assume o olhar de personagem inserida naquela conjuntura de acolhimento sexualizado. Um roteiro deveras criativo, que serve-se de excelentes componentes técnicos (fotografia, trilha musical, direção de arte), desembocando num dos melhores filmes brasileiros desta década, desde já. Primoroso em intenções, feitura e discurso - e audácia, claro! (WPC>)
Todo o Sentimento
1.5 1Quase tudo o que li sobre este filme enfatiza o sentimento de decepção (alguns textos, em relação à totalidade da obra dos realizadores), mas, depois do que senti vendo NA RÉDEA CURTA, até que apreciei a proposta e alguns aspectos, sobretudo porque conversa ambientalmente com VOLTEI!, dando a entender que os diretores substituíram as caricaturas da pretensa comédia "popular" pelo intimismo dramático/familiar que caracterizou o seu estilo conjunto, em trabalhos iniciais. Aqui, ILHA aparece como uma referência explícita, o que não funciona tanto conjunturalmente. Idem quanto ao preâmbulo sobre a tentativa de golpe bolsonarista, que validaria o contexto distópico da obra. Ocorre que nem faz diferença um aspecto nem o outro na construção do roteiro. Primeiro, porque o alegado fanatismo de Gustavo pela carreira do diretor dentro do filme soa esvaziado, baseado em um mero modismo (vide a cena da maconha, que "é melhor do que filmar"); segundo, porque a violência discursiva que aflige os personagens ocorre hoje, mesmo com a possibilidade de reeleição do Lula. Para piorar, a forçação de barra envolvendo terminologias (o embate entre "arco-íris" e "refrator de luz") transfere a politização do filme para uma lógica de Twitter, sem vigor. Até gosto da entrega dos atores aos personagens (não vou mentir: Lucas Leto surpreendeu-me), mas a excessiva teatralidade dos diálogos e a continuidade troncha entre as situações (numa noite, uma assassinato; noutra, uma masturbação; pela manhã, "vamos nadar na piscina?") chega a causar vergonha alheia no espectador. Minha mãe estava ao meu lado, na sessão, e torceu pelo romance, pelo acerto emocional entre os personagens, para que Henrique voltasse a andar, mas destetou o histrionismo (verossímil, infelizmente) dos pastores televisivos, cujo tempo de tela é excessivo e pleonástico. Não obstante eu lamentavelmente concordar com as críticas negativas, há algo no filme, à guisa de tentativa, que valida a minha defesa dos diretores, ainda: eles estão querendo "voltar", efetivamente. Hão de conseguir! (WPC>)
Lola Montes
4.0 24 Assista AgoraNeste terceiro contato, paradoxalmente, custei um tantinho até imergir por completo e ser seduzido pela exuberância deste filmaço. Como diferencial em relação às experiências anteriores, o fato de eu tê-lo visto sozinho, agora. O que é um crime: este espetáculo fílmico requer companhia, corações batendo em uníssono. Mas, mesmo em minha situação solitária, em determinado momento, a magnificência interpretativa de Martine Carol, em seu embate com o enorme Peter Ustinov, atingiu-me em cheio - e, daí para a frente, a genialidade da obra torna-se cada vez mais evidente. O píncaro do ophülsismo, sendo absolutamente plausível o arrebatamento de François Truffaut, que o reviu diversas vezes. O segmento do qual participam Anton Walbrook e Oskar Werner é primoroso. Todo o filme, aliás: aquele desfecho dói! Tanto que, por alguns instantes, relutamos em esboçar exclamações de júbilo, perante a supremacia daquele movimento de câmera que, como disse o crítico, "pela primeira vez, faz com que saiamos do cinema pela tela". Uau! (WPC>)
Fuck the polis
4.0 1Estranhei um tanto a aparente "incoesão" dos pedaços de memórias, no início, mas logo a cadência fez pleno sentido, explodindo num clímax de poesia, que serve-se da pixelização da imagem numa seqüência genial, incandescente, correspondente, em sentido estético e discursivo, ao que Manoel de Oliveira fizera em UM FILME FALADO. Septuagenária, Rita Azevedo Gomes é uma das cineastas mais jovens e modernas em atividade, rigorosa na exposição, mas generosa na contemplação e contribuição, Assisti ao filme em grupo, antes e depois da leitura de um texto magistral da Susan Sontag sobre a ameaça de "morte do cinema e da cinefilia" e encontramos neste filme pura demonstração de renascença, de cura. profilaxia cinematográfica de primeiro quilate, para ser visto, revisto, sentido e praticado. Obra política e mui sensível. O Século XXI ainda permite que vivamos! (WPC>)
O Rei da Internet
3.4 27 Assista AgoraVários amigos gostaram deste filme e, quando ele esteve em cartaz, fiquei surpreso com a recepção. Porém, achei a direção horrível e, definitivamente, João Guilherme não convence como um rapaz de 16 anos. O que nem é culpa de sua interpretação em si (ou da tal "falta de carisma"), mas do modo indecoroso como o seu personagem (real) é construído, através de uma narração cínica que se esforça por buscar uma empatia injustificada: o cara é um otário, insuportável e indefensável, em múltiplos aspectos. O tipo exemplar de bolsonarista que deseja parecer "isentão" e descolado. O filme, neste sentido, possui aquele humor pseudo-anarquista, que contribui para o fortalecimento da direita. Péssimo roteiro e ritmo capenga, que se estende por duas horas e quinze minutos de chatice, visto que a saga do anti-herói retratado é bem menos interessante do que ele próprio deseja fazer crer. Alarmista em proposta e esvaziado em discurso e sentido. Muito, muito ruim (em âmbito moral), além de esteticamente vinculado ao pior do cinema estadunidense. A trilha cancional em inglês é ultrajante de tão ruim! (WPC>)
Ziegfeld - O Criador de Estrelas
3.5 40Em meu primeiro contato com o filme, há mais de uma década, tinha gostado bastante, mas fiquei receoso que ele não funcionasse tanto numa revisão. De fato, incomodei-me com a falta de ritmo e com a longa duração, além da concepção chapa-branca do personagem real (muito bem personificado por William Powell). Porém, as interpretações são ótimas, sobretudo quando Luise Rainer está em cena, cativando-nos com seu carisma, por mais que a personagem beire o histrionismo. Ri em diversos instantes e aprecio o afresco histórico sobre a lógica dos espetáculos musicais estadunidenses. As seqüências de exposição dos números grandiloqüentes concebidos pelo protagonista antecipa o que, hoje, acostumamo-nos a ver em desfiles de escolas de samba (risos). 'Kitsch' ao extremo, mas fascinantes também. O que é feito ao som de "A Pretty Girl Is Like a Melody" impressiona, de fato, sendo o Oscar de Direção de Dança muitíssimo bem direcionado, neste sentido. É um personagem intrigante, o tal do Ziegfeld, quis saber mais sobre ele, numa abordagem menos santificada que esta. Ótima a aparição da verdadeira Fanny Brice, interpretando a si mesma. Hollywood em seu augem utilizando a breguice em favor do espetáculo. Julguem-me, mas mesmo achando exaustivo, gosto muito desta superprodução - acho-a injustiçada, aliás! (WPC>)
Três Vezes Adeus
4.0 5Quando eu descobri, nos créditos finais, que este filme provém de uma adaptação literária, fiquei impressionado: juro que eu pensava se tratar de uma atualização de MINHA VIDA SEM MIM, o que só demonstra o quão autoral é esta diretora na escolha e tratamento dos temas que lhe interessam. As interpretações são maravilhosas (quão cativante é Alba Rohrwacher!) e é incrível como o roteiro permite que mais de um personagem compartilhem os seus pontos de vista sobre a vida, não apenas a protagonista. Amei o uso das imagens ilustrativas das ruas de Roma ("a minha Roma", como diz Marta), a trilha musical de Alfonso de Vilallonga, a desenvoltura da trama circunstancial, a leveza da abordagem, o desfecho reconciliador... Até mesmo a intérprete da médica gastroenterologista brilha, de modo que anotei várias de suas falas. Lindíssimo filme, fiquei emocionado do início ao fim. O título original é ainda mais certeiro, ao enfatizar a relevância das tigelinhas que o então casal ganha de brinde, no início, numa visita corriqueira a um supermercado. Trabalho de mestra! (WPC>)
Bom Garoto
3.5 43 Assista AgoraNão gosto dos filmes anteriores deste diretor, de modo que adentrei a sessão desconfiado, apenas para cumprir tabela. Mas gostei bastante de como o roteiro amalgama motes de O COLECIONADOR, LARANJA MECÂNICA e dos diversos livres que o protagonista lê e discute, em mais de uma situação. Aliás, que uso inteligente das referências e citações! O elenco está ótimo e a trilha musical ajuda a direcionar a identificação do espectador, em relação ao protagonista, quando a trama trafega do suspense para o drama, e/ou vice-versa. Amei que muitas perguntas permanecem irrespondidas, muitas situações não são explicadas... cabe ao espectador preencher as lacunas. O ritmo é ótimo e o desfecho é prenhe de sentido, enquanto reflexão sobre moralização forçada. Fiz as pazes com o realizador, aqui! (WPC>)
Adversidade
3.5 6Há de se louvar o trabalho de adaptação: pelo tamanho do original literário, o roteiro foi hábil na condensação de situações e na manutenção do bom ritmo romântico e aventuresco. O problema é que, por mais que a redenção moral seja tematizada e que o contexto de época seja levado em consideração, é muito difícil simpatizar com a conjuntura colonial e as situações de extrema violência escravagista, quando a trama migra para Cuba e, depois, para um país africano indeterminado. Gosto muito do arco dramático envolvendo a personagem de Olivia de Havilland e, claro, fiquei impressionado perante a eloqüência vilanaz de Gale Sondergaard. Mas, a despeito de todos os elogios técnicos que eu possa elencar aqui, o filme cansou-me, sobretudo quando adere frontalmente à ideologia estadunidense (vide o desfecho). Enquanto exemplar de gênero, pioneiro em diversos aspectos! (WPC>)
A Conquista da Beleza
2.8 2Descobri este filme numa página sobre valorização da cultura homossexual. ao longo dos anos, e duvidei que as cenas de nudez fossem tão abundantes. Fiquei impressionado, neste quesito, mas o roteiro é atroz, no sentido como antecipa o projeto hitlerista de 'Olympia', produzido a partir das Olímpiadas imediatamente posteriores... Realmente não reconheci a Ida Lupino, com apenas 16 anos. Encantei pela beleza do protagonista e gosto de um ou outro aspecto do modo como a discussão sobre moralidade aparece aqui, com todas as contradições vendáveis possíveis. A seqüência dancical à la Busby Berkeley é fascinante e o final é engraçado, mas o modo como todos os vencedores de concursos de beleza são irrevogavelmente brancos é assustador. Filme eugenista, perigoso. Pontualmente divertido, mas discursivamente reprovável! (WPC>)
Extermínio: O Templo dos Ossos
3.3 271 Assista AgoraEu detestei o retorno do Danny Boyle ao filme inicial desta franquia inusitada, que amo, de modo que não interessei-me por esta continuação direta. Temi que o horror fosse advindo de situações intencionalmente provocadas, a partir de testes de valentia e/ou hombridade, o que pareci confirmar-se no início. De repente, o incômodo provocado pelo histrionismo satânico do personagem de Jack O'Connell cedeu espaço para uma reflexão interessante sobre a origem humana da malevolência, para o fascínio pela tortura... No cotejo com a trama paralela, da relação entre o médico vivido por Ralph Fiennes e o zumbi progressivamente domesticado, o filme cresce por, mais que aderir a um humanismo inaudito e corajoso, filiar-se à corrente recente de obras que apregoam os benefícios da mídia física (a coleção de vinis do Dr. Kelson é quase um personagem à parte!) e correlacionar o vírus da ira ao aumento da velocidade induzida do olhar. Neste sentido, o performático clímax ao som de "The Number of the Beast" merece toda a comoção que causou. Idem para a seqüência legítima (e orgânica) de ensinamento, na derradeira seqüência. Paguei a língua: gostei bastante d filme do meio para o final. O diálogo entre a trilha musical de Hildur Guðnadóttir e os temas originais de John Murphy é primoroso, uau! (WPC>)
Carta de Uma Cerejeira Amarela em Flor
4.2 10É inevitável não pensar em UM FILME PARA NICK, por causa da proposta. Mas a metodologia é completamente distinta: a diretora deixa claro que aceitou a empreitada ensaística enquanto encomenda - e faz questão de reiterar junto ao seu personagem real o porquê. Surgem, então, os melhores diálogos, quando uma diz que "filma para se sentir viva" e o outro complementa que "se permite ser filmado para prolongar a vida" . Naomi Kawase é safa na maneira como lida com a doença de Nishii, sem qualquer vitimização ou comiseração, mas expondo as dores, vômitos, tosses e angústias físicas por tempo prolongado. Porém, não há promessa de sobrevivência à doença: logo no início, registros sem som do funeral, que voltam no desfecho, expandindo-se através de um movimento de câmera (e inserção de som) que cumpre a premissa de outra sobrevivência, via imagem, como se fosse uma versão nipônica dos ensaios de Roland Barthes em "A Câmara Clara". Ao invés da emoção costumeiramente associada aos dias de agonia de um moribundo, a racionalidade de quem odeia os aprisionamentos conceituais da palavra "documentário" na lógica do passado. Um tratado político-afetivo e um manifesto artístico, ao mesmo tempo! (WPC>)
Não Existe Almoço Grátis
3.7 6Pode-se reclamar que o filme é primário em termos de linguagem cinematográfica (direto demais, limitando-se a acompanhar os afazeres de seus personagens) e que as eventuais brigas mencionadas por uma das personagens reais não surgem na tela, no sentido de que tudo se resolve fácil e harmonicamente, mas, mesmo assim, a abordagem é tão humanizada, tão sincera, que eu percebi-me encantado, tamanha a simpatia que senti por aquelas mulheres. Ótimos depoimentos, projeto fascinante (que bom que foi devidamente implementado) e discurso político assertivo, dentro de sua assumida vinculação partidária. Achei ótimo que este filme estréie nos cinemas num período tão delicado da competição eleitoral, como esse de agora: é o empurrão definitivo que o Lula precisava! (WPC>)
Paracelsus
3.6 4A associação entre ano e país de produção leva-nos a adentrar a sessão com muita desconfiança, o que fica ainda mais suspeitoso no desfecho algo triunfalista, com a frases de efeito em defesa da "vontade e das necessidades do povo". A despeito disso, Werner Krauss está maravilhoso como o protagonista e, em razão de eu estar lendo um romance que aborda tangencialmente o ideário de Paracelso, apaixonei-me pela abordagem, pela descrição do personagem, pelas situações reconstituídas (mesmo que sob a égide da inacurácia histórica), pela trilha musical, pela ambientação expressionista e pelo modo como somos manipulados a torcer pelo protagonista, vítima de algumas injustiças que foram corrigidas pelo tempo (tanto que o filme foi produzido em celebração ao quadringentésimo aniversário de seu falecimento). O que enfada é a subtrama paralela envolvendo o romance entre um assistente do médico e a filha de um ricaço, mas, exceto por isso, adorei a estranheza deste filme, percursor da coreografia de "Thriller", como bem notaram... (WPC>)
Love Kills
2.3 7Fui de coração aberto: a sinopse é promissora e a derivação de HQ assegurou o estilo descolado da obra. A direção feminina, idem. Porém, a despeito da promessa titular (para que em inglês, gente?) e das manifestações biográficas dos personagens, as situações e pessoas são suplantadas pela ação incessante - e nem sempre interessante. Gosto da direção de arte, do uso dos espaços, das figurações fantasmagóricas dos usuários de 'crack', de toda a mitologia vampiresca, das relações de amizade ofertadas, mas tudo decai quanto as brigas começam, a disputa automática de territórios, e o filme se perde numa inverossimilhança que trai até mesmo as convenções da diegese. Tem ritmo, ao menos. Minha mãe curtiu até a metade. E é sempre muito válido que realizadores brasileiros invistam no terror! (WPC>)
O Grande Motim
3.9 61Visto pela terceira vez, mantenho o meu entusiasmo acerca das qualidades técnicas e pelo modo como a trama central permite variações de gênero, transitando entre o filme de aventuras navais , o drama histórico, o idílio insular romântico (mui problemático, acrescentamos) e o desfecho advocatício, em que Franchot Tone brilha. A caracterização de Charles Laughton é magistral e o recém-oscarizado Clark Gable demonstrou que ele é, de fato, um ator, não apenas um astro. A montagem é ótima e o ritmo do filme entretém e nos causa a indignação pretendida, quanto às situações apresentadas e à confusão recorrente entre autoridade e maus tratos. Frank Lloyd é um diretor que merece atenção e aplausos. Trata-se de um filme que envelheceu muito bem, a despeito dos problemas ideológicos escamoteados pela lógica literária, adaptada de eventos verídicos e mui relevantes, que alavancaram modificações na maneira como as instruções britânicas conduziam a sua sanha colonizadora, ao redor do mundo. Típico produto destinado à "Sessão da tarde" (bons tempos), com desempenhos memoráveis e uma avaliação percuciente das relações hierárquicas. (WPC>)
Nosso Segredo
3.7 10A diva Grace Passô demonstra uma segurança ímpar na condução deste longa-metragem, o que não é casual: como trata-se da adaptação cinematográfica de uma peça teatral de sua autoria, o percurso emocional é conhecido, culminando numa cena poderosíssima de imersão coletiva, que é quando todos os familiares recitam um mesmo texto, casual em origem (um áudio de WhatsApp), mas poderosíssimo em impacto (a tentativa de manutenção mnemônica de alguém ausente). A aparição de Mateus Aleluia, logo no começo, demarca o tom de suspense dramático que permeia toda a obra, com uma câmera quase invasiva, em seu anseio por saber mais do que está sendo mostrado - levando à frente a instauração do segredo anunciado desde o título. Efraim Santos é mui simpático e eloqüente (amei as suas perguntas de cariz surpreendentemente melancólico) e os diálogos que se deslocam da narrativa são ótimos (vide a fala do personagem de Juan Queiroz, sobre quando finalmente passou a se considerar bonito). Infelizmente, quando o tal segredo é desvelado, o filme perde um pouco de sua cadência, por acreditar/demonstrar que foi desvelado, quando as entrelinhas é que o sustenta(va)m. A trilha musical de Amaro Freitas é quase um personagem à parte, assaz penetrante. Que bom que a estréia deste filme ocorrerá imediatamente após os prêmios recebidos em Gramado: é o tipo de realização corajosa que depende deste empurrãozinho na incitação do interesse de público. Hipnótico, ainda que irregular em desvelamento! (WPC>)
Sob o Manto da Intriga
3.2 3Não conhecia este filme e, amante do Jornalismo que sou, gostei bastante da premissa: adorei a amoralidade inicial do protagonista, que logo é erigido à condição de mártir profissional. A fotografia é charmosa e o enredo avança com celeridade e alguns atropelos, mas consegue enfatizar o que é, de fato, relevante: a importância do comprometimento midiático em relação aos valores constitucionais, com ênfase na independência opinativa. Algo i8nevitavelmente ingênuo, quiçá utópico, mas que se justifica bem sob a lógica hollywoodiana. Do meio para o final, a trama fica bastante movimentada, e entulhada das convenções narrativas policiais do período. Gostei! (WPC>)
O Sepulcro Indiano
3.8 13Depois de frustrar-me parcialmente com alguns aspectos do primeiro filme, apressei-me em ver o segundo. E fiquei deslumbrado: a primeira meia-hora é impressionante! Sublime(s) seqüência(s) de dança, magistral a ambigüidade progressiva e tormentosa do vilão apaixonado. O protagonista torna-se mais ativo - e até bonito - nesta continuação, mas, quando o enredo passa a dedicar mais tempo de cena à sua irmã e seu cunhado, o interesse fica periclitante. Nada que não se resolva na opulência da 'mise-en-scène', afinada aos grandes momentos da carreira languiana. Fui um tanto expelido, em termos de interesse primário no desenrolar da narrativa, durante os acontecimentos da meia-hora final, que forçam a nossa "suspensão da descrença", mas é um filme que resolve muito bem os destinos de seus personagens -e , por extensão, de uma nação cinematográfica expandida, composta por espectadores inebriados perante o exotismo das situações e cenários... (WPC>)
O Tigre de Bengala
3.7 10Sempre quis ver este filme e sabia que ficaria fascinado pelas cores e pelo exotismo. Mas isto revelou-se um problema: pois o colonialismo é indisfarçado e, da maneira como aparece, o anacronismo conta ponto contra a adesão narrativa, o que é elementar num filme de aventuras. Para piorar, achei o protagonista insosso e excessivamente passivo. Encantava-me sempre que Debra Paget estava em cena e gosto da ambigüidade do vilão, triste em seu anseio criminal por ser amado... A fotografia é deslumbrante e a direção de arte, idem. Fritz Lang é garantia de qualidade, mas algo me incomodou no ritmo do filme, no que tange à coesão entre as seqüências, nas conseqüências de algumas situações (vide o que acontece após a morte do tigre). De fato, Spielberg chupou tudo o que interessa aqui, em termos de estilo. Pressinto que, numa revisão, eu gostarei bastante, mas, neste primeiro contato, não fui macmahonista o suficiente - e nem quis! (WPC>)
Quinze Dias
3.7 109 Assista AgoraJuro, gente: fui com o coração aberto, cria realmente que gostaria... Porém, havia uma desconfiança gritante acerca de algo que parece imediatamente associado às produções românticas de cunho homossexual no Brasil - principalmente, quando adolescentes: a conjuntura de classe, que soa muito mais inverossímil que qualquer situação em si. Diego Lira é muito bonito e carismático, enquanto o personagem de Miguel Lallo chega a ser insuportável, de tão antipático e mimado. Felizmente, isto é tematizado explicitamente pelo roteiro, quando a sua mãe reclama que ele não é gentil consigo mesmo. Um ponto positivo para o filme, que possui um ponto de partida forçado, mas belas imagens de Cataguases, em Minas Gerais. O problema é, por vezes, parece nem ser no Brasil, de tão imitativa que a trama é, em relação aos moldes cinematográficos. O que é piorado pelo fato de o diretor possuir uma experiência marcadamente televisiva. Gosto de como a contagem numérica aparece nos cenários, compreendi a utilização de sucessos da "nova MPB" (Jão, Marina Sena, AnaVitória, Johnny Hooker) na trilha cancional e achei divertido o modo como cenas imaginadas de filmes invadem o cotidiano de Felipe, quase como uma versão adolescente do homossexual de O BEIJO DA MULHER-ARANHA. Porém, há pouco de eminentemente "brasileiro" no filme, as relações familiares são artificiais, a assexualidade da paixão entre os garotos é inconvicente e a dramaticidade eventual chega a ser constrangedora. Tentei, gente, mas não desceu. Desculpem-me! (WPC>)