A cada nova experiência, defendo mais e mais a importância de rever filmes. Neste caso em particular, o problema foi outro: vi o único episódio até então existente e, de maneira isolada, ele não funcionou comigo. Assistindo à integralidade da obra, fiquei encantado perante a genialidade do Odilon, tão injustamente rejeitado (desconhecido, em verdade) pela cinefilia brasileira. Tive trabalho até para encontrar notícias biográfica, que dirá sobre a sua carreira. Felizmente, o acesso ao longa-metragem ocorreu numa mostra com debate, o que estimulou as novas gerações a conhecerem este petardo incrível, que, ao contrário do que tantos dizem, não "é mais fraca no drama que na comédia". Por mais que, sim, no segundo episódio, a ironia do diretor é elevada a patamares impressionantes, o que senti no episódio inicial, com o qual identifiquei-me bastante, em relação a situações de minha própria vida, foi dilacerador. Que controle extraordinário de todos os elementos fílmicos. Trabalho de gênio indubitavelmente: amei a direção de atores, os jogos com a perspectiva da câmera, a falta de pudor em apontar o capitalismo especulativo e o racismo estrutural como os vilões do enredo, tudo. Tudinho! Tanto que, no debate com a crítica Kênia Freitas, no evento local supracitado, pedi desculpas ao Odilon, por meu rechaço (involuntariamente) inorgânico anterior. Onde quer que tu estejas, querido pioneiro, meus parabéns - e obrigado por este filmaço! (WPC>)
Sempre tive muita curiosidade em conferir este filme, inclusive por ter sido realizado no mesmo ano de TOMMY, que adoro. Comprei o LP de presente para um amigo e, ao ouvi-lo, encantei-me pela trila musical de Rick Wakeman (que faz uma breve participação no filme). Porém, achei o resultado bastante insatisfatório: a direção de arte é primorosa e o roteiro faz alegações virulentas, mas - o que é mais defeito do espectador que da obra - é necessário conhecer aquelas situações e personalidades históricas para embarcar devidamente na trama ambiciosa - e, paradoxalmente, sobre ambição. Roger Daltrey, mais uma vez, cumpre bem o papel principal, mas, a despeito da extrema sexualização do longa-metragem, há um machismo indisfarçado na aplicação dos papéis de gênero, em que as mulheres aparecem como feiticeiras objetificadas e vilanizadas, enquanto os machos dependem de longos pênis artificiais para serem validados como artistas e provedores. Não concordo com a correlação imediata entre Richard Wagner e o nazismo sobrenatural, da maneira como aparece aqui, mas faz algum sentido, dentro da diegese. Pressinto que, numa revisão com menos expectativas, o filme cresça. Afinal, ele paga o devido tributo por conta de sua fama de 'cult'. E, obviamente, pesquisei sobre a biografia de Franz Liszt (e dos demais músicos citados) após a sessão! (WPC>)
Que grata surpresa: minha mãe gargalhou, enquanto via o filme, ao meu lado! Há algo de Ettore Scola, nesta adaptação argentina das chanchadas, com um toque muito peculiar, caro a esta cinematografia nacional: a coragem de encarar o Governo nacional, de nomear quem é responsável pela miserabilidade apresentada. A trama é muito pesada, no modo como expõe a pobreza daqueles habitantes, em confronto com um tipo de bem-estar direcionado a quem é corrupto e faz pactos com a "máfia", como diz um dos personagens. A personagem da avó (interpretada por um homem) é caricata e há algo de teatral na disposição dos atores e no modo como as situações surgem, como se fossem "atos" de um problema progressivo, mas é tudo muito divertido, engraçado aos borbotões. E inevitavelmente triste: como moro numa comunidade como aquela, identifiquei-me, contextualmente, em diversas situações. Muito bom! (WPC>)
Mais de 48 horas após a sessão, sigo pensando neste filme, incomodado pelo que ele me causou... Ansiava com muita expectativa pela conferição de uma obra que marcou a minha geração, mas, ainda que soubesse mais ou menos o que encontraria (por já conhecer outros filmes do realizador), fui sobremaneira maltratado por uma abordagem que revela-se machista, ao fazer com que a personagem-título seja coadjuvante em sua própria trama, um mero trampolim para que o macho protagonista converta seus traumas em arte (conforme aconteceu na obra literária que deu origem ao filme, né?). Gostei bastante que os atores estejam nus o tempo quase inteiro e fiquei apaixonadíssimo pela Béatrice Dalle, soberba da primeira à última aparição. Mas é um filme que dói, que esmaga, que rasga - e que não expõe suficientemente estes aspectos enquanto "contingências da época em que foi realizado", tem algo suspeitoso nas entrelinhas produtivas. Seja como for, A fotografia é fantástica e a trilha musical de Gabriel Yared faz jus ao auê que até hoje causa. É um filme que nos inebria que nos faz imergir, que apresenta uma versão mais palatável do 'amor fou' tão persistentemente abordado por Jacques Rivette, Andrzej Zulawski e afins. É um filme bonito, mas que, exatamente por isso, romantiza a toxicidade, a depressão, a degradação de uma mulher que faz de tudo para tornar o seu amado público, conhecido, famoso... Questionável em mensagem, talvez, mas indubitavelmente atrativo. Um paradoxo, conforme esperado do clássico que ele é. Quero ver a versão integral, com três horas de duração, aliás! (WPC>)
Fui contagiado pelo clima de "espera recompensada" do filme, devidamente historicizado ao demonstrar que algo parecido já acontecera no início do século XX. Gostei muito dos depoentes, da canção-tema, da justificativa emocional para a continuidade daquelas tradições, para o modo efusivo como a festa é abordada, mesmo sobre a extrema melancolia do início, em preto-e-branco, antes que as cores regressem, junto à alegria do frevo. É sério: fiquei com muita vontade de sair num carnaval vindouro. Tomara que eu consiga. Curti bastante, muito boa a abordagem os diretores, que dignificaram bastante aqueles depoentes. Spok é super carismático; Carlos da Burra, um militante orgânico. Dá-lhe, Pernambuco! (WPC>)
Mais que constatar que, na revisão, o filme cresce, fiquei muito surpreso (e feliz) ao perceber que, na sessão onde estava, todos apreciaram bastante o filme. O que, claro, não implica em concordar com todas as situações: o patriotismo despejado enquanto fórmula narrativa ainda vigente (que empurra junto um "projeto de não" estadunidense, à guisa de entretenimento), a submissão excessiva da personagem feminina ao homem imaturo que ama (e que é redimido moralmente pela guerra) e as mudanças de tom (ora cômico, ora melodramático, ora belicista) ao longo da duração um tanto excessiva são os principais problemas, mas a direção é tão boa, a fotografia é tão inventiva, a cópia a que tivemos acesso estava tão boa que... Bingo! Consideramos justa a premiação que tornou esta obra tão famosa. Porém, é importante que o filem não fique apenas refém das estatísticas do Oscar, ele é bem melhor do que isto! (WPC>)
A demonstração efetiva de que boas intenções, às vezes, não são suficientes: por melhor que seja a ilustração lúdica do empoderamento feminino, neste caso, o fato de ser uma realização masculina implica em concessões problemáticas no discurso, conforme fica evidenciado na narração final, em que os acordos masculinos são prontamente aceitos, mas a reação defensiva das mulheres, quanto à "lei da vara", é posta em suspeição. Gosto da fotografia, da montagem, da inteligência risória dos 'close-ups' de bocas e orelhas, no instante da transmissão de notícias/fofocas, do fato de uma criança ser a porta-voz legislativa das mulheres, mas o clima fantasioso do enredo ("foi assim que me contaram...") converte em fabulação de um passo distante ("na época de meus tataravós"...) o que deveria ser transformação no presente. Na execução, infelizmente, elementos periféricos de manutenção do sexismo ficam indisfarçados. Mas a idéia é boa: este filme - que eu não conhecia - rende um ótimo debate. Vou divulgá-lo! (WPC>)
Apesar de ter amado o François Ozon na primeira fase de sua carreira, esta sua celeridade em ser prolífico está fazendo com que muitos filmes sem vigor sejam acumulados... Não foi bem o caso deste título, felizmente, irmão gêmeo do excelente FRANTZ: sou devoto da novela original do Albert Camus e desgosto da adaptação de Luchino Visconti. Gostei bem mais do que é efetivado aqui, de maneira surpreendentemente fiel à trama, aliás, exceto por um ou outro detalhe, o 'flashback' da abertura, os incrementos homoeróticos, etc. Talvez Benjamin Voisin tenha exagerado na inexpressividade que, se faz sentido na primeira metade do filme (muito, muito boa), estraga a pretensão dramatúrgica da segunda, com aqueles diálogos intensos, monólogos existenciais, e uma demorada seqüência de julgamento. Em defesa do diretor, ele respeita o que estava no livro. Mas a paixão por seu protagonista não justifica todas as suas opções estilísticas, não obstante crer que a fotografia em preto-e-branco seja mui acertada e que a trilha musical de Fatima Al Qadiri seja fascinante. É um filme bonito, porém que extenua, do meio para o final. Nem mesmo as aparições do impressionante Denis Lavant funcionam a contento. Funciona, sim. Não como poderia, mas funciona. Ainda creio em ti, Ozon. Talvez conviesse diminuir um pouco o ritmo - risos opinativos! (WPC>)
Gente, eu juro: apesar do horror que é o 'trailer' deste filme, adentrei a sessão de coração aberto. Não lembrava/sabia que o Daniel Ribeiro estava envolvido com a série "Todxs Nós", da HBO, mas, de fato, há muitas similaridades entre ambas as obras. A diferença é que, lá, o classismo não se instalava de maneira tão aberrante: a série contentava-se em ser narrativa, não metalingüístico-terapêutica, como acontece aqui. É difícil suportar aquele protagonista insuportável, esvaziado de sentido, vinculado a dilemas fúteis (brigas matrimoniais envolvendo "em qual restaurante iremos almoçar?", tensões associadas à preocupação em chegar atrasado às festas), pseudo-preocupado com questões econômicas aburguesadas (menciona-se a necessidade de pagar o aluguel, mas toma-se café em estabelecimentos chiques o tempo inteiro). Ninguém escreve naqueles aplicativos, não? A abordagem dos áudios e vídeos nas conversas simuladas, através do celular do protagonista, é vexatória. Idem quanto aos diálogos entre amigos, preocupados unicamente com a dança das cadeiras de parceiros homossexuais, numa lógica urbana progressivamente autofágica. Amedrontador! Mas, apesar de eu ter detestado este filme, um estranho consolo: algo no ritmo manteve-me minimamente entretido, querendo saber como esta atrocidade avançaria. Tem tudo a ver com as produções do Rafael Gomes, como o abominável 45 DIAS SEM VOCÊS, e com ALGUMA COISA ASSIM, co-dirigido pelo Esmir Filho. Tenho medo de tudo isso. Pavor!!!! (WPC>)
Tenho curiosidade em ver este filme faz tempo. Sempre gostei do Mario Casas (por motivos evidentes, aliás) e sinto maturidade nas entrevistas que ele concede. Em sua estréia directiva, o maior problema está na narrativa que opta por soluções "fáceis", automáticas e que, às vezes, não agrega nada à trama (tudo o que envolve o pai do protagonista, por exemplo). Gosto do trio central, torci para que o romance engrenasse, mergulhei nos clichês de juventude bandida. É um filme bem-feito, mas sem a autoralidade que o realizador apregoou aos quatro ventos. Mas até que ele se esforçou: vide o plano-seqüência na boate. Bonitinho, até que tem bons momentos. Curti a trilha cancional 'pop'! (WPC>)
Só eu que não tinha a mínima idéia de quem era este Tim Robinson? Li vários comentários destacando os seus apanágios cômicos, em evidência neste filme, que surpreende ao inserir Paul Rudd numa posição oposta à que ele ocupa em EU TE AMO, CARA , O VIRGEM DE 40 ANOS e afins. Venderam-me este filme como comédia, saí da sessão apavorado. Primeiro, porque houve uma perigosa identificação com a carência exacerbada do protagonista, mas isto é pessoal, eu que lide; segundo, porque os temas abordados nas entrelinhas (câncer da esposa, dificuldades empregatícias, inveja de macho, etc.) dão origem a uma abordagem que lembra aquele tipo de suspense evolvendo vizinhos psicopatas, que abundava na década de 1990 (O PADRASTO, MORANDO COM O PERIGO, etc.). Pressinto que, numa revisão, gostarei mais desta obra. Neste primeiro contato, escandalizo-me ao saber que insistem que este filme é "engraçadíssimo". Sério?! (WPC>)
Tem aspectos interessantes na narrativa, mas o excesso de requinte na execução dos crimes não convence, sobretudo quando descobrimos como eles ocorreram... A direção videoclipesca do Jonas nunca encontra o tom, não respeita a duração dos eventos, alia-se a uma montagem desnecessariamente picotada e desemboca num desfecho anticlimático, depois de uma revelação previsível. A impressão é que o orçamento acabou quando apenas 2/3 da obra haviam sido filmados. Nunca que eu imaginasse Dennis Quaid e Zhang Ziyi atuando juntos - ela até que está bem, mas esta personagem reles subestima as suas capacidades interpretativas, urgh! Mas dá para ver, se muitas expectativas... (WPC>)
Mais um filme sutil e inteligente desta ótima cineasta húngara, a quem estou maratonando por convite de um cineclube: se, em sentido imediato, este filme não pareceu-me tão fascinante quanto outros da realizadora, nas entrelinhas, há tanto a ser averiguado, sentido, vivido, debatido... A partir da avaliação de um encontro entre mulheres de gerações distintas, uma averiguação potente sobre os males da burocratização da vida cotidiana, por derivação institucional, nas trajetórias daquelas pessoas. Surpreendeu-me que, a despeito da conformação inegavelmente feminista do roteiro, trata-se da produção quiçá mais "masculina" da Márta, no sentido de que, mesmo sendo um alcóolatra violento, o marido de uma das personagens revela-se extremamente sensato e impulsiona outra personagem a descobrir o próprio tesão. A seqüência que mostra o tratamento clínico ao qual este homem se submete é pesadíssima, algo entre o que acontece em LARANJA MECÂNICA e nos palcos da Igreja Universal. O desfecho em aberto, com aquele grito infantil, é sobremaneira pungente. Quanto mais eu penso no filme, mais percebo o quão relevante ele é. Mais que autoral, temos uma diretora política, orgânica, humanista. Na revisão, este filme tende a crescer, certeza! (WPC>)
Empreendi uma mini-maratona assaysiana neste feriado prolongado e amei o que descobri dele, filmes que estavam pendentes, aguardando a minha imersão. Quando cheguei nesta produção recente, a decepção abissal: que filme canhestro e entreguista, que, mesmo mantendo diversas características do estilo marcante do realizador, é traiçoeiro por conta de um elemento-chave, a narração em primeira pessoa, cínica e manipuladora, sem a ambigüidade que demarca roteiros anteriores. Temos um vilão-mor, ainda viva, e inúmeros vilões sustentaculares, numa representação da Rússia em que todo mundo é estereotipado, ambicioso ou enganado (porque quer, inclusive). A personagem de Alicia Vikander é mui preocupante por aquilo de misógino que revela-se suspeitoso desde TEMPO SUSPENSO. O roteiro serve-se do estratagema mais covarde e desnecessário, que é aquela intermediação por um jornalista estadunidense, para descambar para a chantagem emocional tardia, envolvendo a família do protagonista. A montagem célere e os diálogos rápidos parece parodiar, de maneira invejosa, o estilo scorseseano, numa versão político-partidária de A REDE SOCIAL. Vexatório em todos os sentidos, constrangedor ao extremo. Um horror! O que aconteceu com o Olivier Assayas, que, ainda assim, expõe-se como tal?! :( - WPC>
Apaixonado pelo diretor que confesso ser, finalmente conferi este filme tão recomendado por amigos, acerca do qual emiti tanta desconfiança, antes da sessão (Assayas 'apud' Netflix? Ixe!). Para o meu rápido e positivo espanto, as marcas registradas do diretor estão lá. Por mais abundantes que sejam as convenções de ação e suspense, a variação de pontos de vista e as correlações assimétricas entre crises íntimas e ações sociopolíticas são mantidas, de maneira autoral. O elenco não é efetivamente cubano, mas os venezuelanos, espanhóis, porto-riquenhos, mexicanos e brasileiros são conta do recado, de maneira primorosa. Elenco incrível; tomada de partida política, idem. Fui arrebatado pelas mudanças de tom, pelos diversos "recomeços" tramáticos. Muito, muito bom! (WPC>)
Antes de adentrar a sessão, sabia mais ou menos o que encontrariam já conhecendo o diretor. Ainda assim, estranhei o ritmo, a demora nas seqüências de interação romântica entre os personagens de Asia Argento e Michael Madsen. Não gostei tanto da química deles, mas o diretor chega a inserir elementos antonionianos (ou bertoluccianos?) na relação, que se estende, se expande e, de repente, uma reviravolta, que faz todo sentido, ao final. Amei as aparições de Kim Gordon, fiquei apaixonado pelo Carl Ng e, claro, amei as seqüências vinculadas à "insegurança perceptual", na qual o diretor é especializado (vide o que ocorre em meio a um karaokê). Que bonito aquele desfecho. Que ótimo uso da trilha original do Brian Eno e da canção de Sparks. Para que curte o ritmo de A SUPREMACIA BOURNE e de filmes de Jim Jarmusch (sobretudo OS LIMITES DO CONTROLE) e do Cronenberg atual (em especial, CRIMES DO FUTURO e O SENHOR DOS MORTOS), este filme é um deleite! (WPC>)
Não sabia (ou não lembrava) que o diretor Alejandro Amenábar é homossexual, o que poderia ser algo circunstancial, se este filme, de repente, se revelasse num testemunho de puro vigor homoerótico, num complemento militante da biografia de um dos maiores escritores de todos os tempos. Além de muitíssimo bem-feito enquanto trama de enfrentamento prisional e de ode às metanarrativas, este filme funciona pelos ótimos componentes técnicos (música, a cargo do próprio diretor; direção de arte, etc.) e pela lógica defensiva da amizade entre homens, além de equiparar os atos nefastos de ambos os grupos religiosos/nacionais mostrados (de um dos lados, pessoas vinculadas à Santa Inquisição, por exemplo). Miguel Rellán fez por merecer o prêmio de interpretação que recebeu, mas estão todos ótimos em seus papéis. Minha mãe gostou muitíssimo do filme e eu fiquei surpreso pela coragem e persistência na abordagem da pederastia. Adorei! (WPC>)
Que filme amargo, duro, melancólico, seco... Graças a um cineclube entre amigos, estamos assistindo a vários filmes desta realizadora, e, por mais que seus temas e estilo sejam assaz reconhecíveis aqui, achei o tom distinto, bem mais aflitivo no que tange à falta de perspectivas da protagonista, que trabalha, estuda, apaixona-se e, mesmo assim, parece a deriva numa sociedade que trata as mulheres como meros suportes para a rudeza masculina. Tristíssimo quem neste sentido, a protagonista fique dividida entre um homem possessivo e acumulador e um típico esquerdomacho hipócrita e covarde. Tudo o que acontece durante e após aquele parto é devastador: quando as fotografias paralisavam por instantes, na tela, mina respiração parava junto! (WPC>)
Revi por acaso, numa sessão televisiva do Canal Brasil, e fiquei ainda mais encantado que no primeiro contato. Cheguei mesmo a experimentar uma gostosa nostalgia por aquele período oitentista, para além das privações econômicas vigentes. O motivo: havia também um estímulo á cultura dos mutirões, que aparece como tema recorrente nesta obra, que conta cm ótimas participações de Geny Prado e Dionísio Azevedo. Amei os seus bordões; amei Fernanda Torres, mui fascinante em cada aparição; amei Regina Casé , inspiradíssima em sua personificação lasciva. Filmaço demarcador de uma década, felizmente descoberto pelas novas gerações. Primoroso e delicioso, um filme feliz, mesmo quando aborda situações de exigüidade. Lindo, lindo, lindo! (WPC>)
Impressionante descoberta: já havia me deparado com este DVD em inúmeras oportunidades, mas não imaginava que era dirigido pela Marta... Gosto muito da Edith Stein, e a descobri graças a uma jovem quase fundamentalista, em seu cristianismo, que trabalhou comigo na época do telemarketing. Adentrei a sessão desconfiado, mas fui logo fisgado pela abordagem de confinamento, estendida ao longo da narrativa, nas três fases (a das aulas interditadas por decreto nazista, a da forçação monasterial, e a do campo de concentração propriamente dito). A direção é sagaz, na inserção das obsessões pessoais da diretora, fascinada pelas redescobertas de maternidade. É uma trama muitíssimo autoral, mas que respeita a biografada, inteligentíssima, uma santa acadêmica. Filme adulto, comercializado como artigo religioso nas editoras Paulinas. Vou em busca do DVD agora, preciso rever este filmaço à frente: muito forte, comovente, tocante. Uma demonstração pragmática do que é epifania, que dialoga bastante com os trabalhos em parceria de Margarethe von Trotta e Barbara Sukowa! (WPC>)
Muitíssimo contundente a atuação da Gizele Martins, sempre intercedendo e agindo, auxiliando os irmãos de moradia e vivência. Minha respiração ficou sufocada em diversos instantes (como dói acompanhar aquele tipo de julgamento; como maltrata testemunhar os moradores impedidos de caminhar onde vivem; como maltratam-nos os gritos desamparados daquelas mães!), mas é importantíssimo que tudo isso seja mostrado. Amei a entoação de "Indo pro Lar" no desfecho. Vítor Santiago é de uma simpatia acachapante, resiliente ao extremo, além de mui competente enquanto músico. Ótimo que as palavras de Marielle ainda ressoem, tão poderosas quanto mostradas aqui, neste documentário contundente, ainda que convencional enquanto formato: importa a sua mensagem gritante, que chega a quem está interessado. Eu e minha mãe ficamos tocados. Aplaudi de pé no instante da merecida premiação para a Gizele! (WPC>)
O que aconteceu com o Tim Burton de outrora? Seguimos nos perguntando, nostalgicamente... Mas, revendo o filme, depois de ter lido o romance original, admito que, aqui, ele tentou. Estranhei a mudança das funções de alguns personagens, na adaptação, e ficou muito sintético, o que causa um estranhamento estilístico na meia-hora final, em que tudo é muito acelerado, quando a conjuntura fantasiosa serve apenas á ação juvenil, não necessariamente à reflexão sobre as diferenças, como era um traço peculiar do autor (ou ex-autor?). Seja como for, gosto de algumas escolhas, achei o elenco acertado (exceto talvez pela vilania caricata de Samuel L. Jackson). Há algo de esquecível na conjuntura de adesão contemporânea, mas o contato com o livro fez com que o carinho em relação ao filme aumentasse (creio que gostei mais dele, em verdade). A ausência de Danny Elfman é sentida, mas os músicos contratados, aqui, esforçam-se por emulá-lo. E há auto-citações burtonianas na direção de arte. É uma tentativa válida, reitero. Falha, porém válida. Parece muito mais um treinamento de seriado que um longa-metragem em si... Ao menos, o desfecho é fechadinho, ao contrário da obra de Ramson Riggs, que quer vender mais livros, às custas os sofrimentos de quem não é similar aos demais! (WPC>)
Indo direto ao ponto: uma das piores coisas já produzidas. Isto é chover no molhado, já que ninguém parece ter apreciado este ultraje? Pois bem, elaboro: apesar de eu desgostar do Jack Black, confesso ter apreciado o início, quando a construção humana de seu personagem é validade pelo apoio dos amigos e familiares aos seus sonhos de juventude. Mas quando Paul Rudd entra em cena, tudo decai. Quando Steve Zahn junta-se a eles, então, o saldo é irreversível - e péssimo! Triste quando Selton Mello aparece, em situações constrangedoras; triste também que o filme finja brincar com reviravoltas de mais de um gênero (a vexatória subtrama de ação envolvendo a personagem de Daniela Melchior, cuja construção simplesmente não faz sentido, na maior parte das cenas); e ainda mais triste que a cobra titular seja quase figurante em seu próprio filme. Tudo é pretexto para que os grandes estúdios hollywoodianos relembrem sobre o poderio dos direitos autorais e zombem da falta de idéias, como algo defensável. Uma nojeira absoluta, uma mistureba em que nada funciona. Nem minha mãe gostou! :( - WPC>
Não sou o maior fã de 'slasher', mas fiquei intrigado ao saber da direção feminina. Imaginei que haveria um combate à objetificação dos corpos das mocinhas, mas isto ocorre em verve irônica, pois, afinal, era necessário obedecer às convenções de gênero. Mas as diferenças são notáveis: percebemos mulheres exercendo profissões comumente atribuídas aos homens; o sexo é posto em segundo plano (apesar da nudez abundante); o desfecho é irresolvível (aqueles 'close-ups' cumulativos nos rotos das sobreviventes é intrigante!)... Há muitos elementos interessantes no filme, mas, infelizmente, no saldo geral, o que prevalece é um exemplar do subgênero, como quase todos os outros, em que somos "treinados" para torcer pela ocorrência de mortes, pelas situações "divertidas" de violência. Neste sentido, apesar da subversão pretendida, é tão enfadonho quanto a maioria dos 'slashers'. Mas, havendo um bom debate, ele cresce na apreciação discursiva... (WPC>)
Um é Pouco, Dois é Bom
4.1 2A cada nova experiência, defendo mais e mais a importância de rever filmes. Neste caso em particular, o problema foi outro: vi o único episódio até então existente e, de maneira isolada, ele não funcionou comigo. Assistindo à integralidade da obra, fiquei encantado perante a genialidade do Odilon, tão injustamente rejeitado (desconhecido, em verdade) pela cinefilia brasileira. Tive trabalho até para encontrar notícias biográfica, que dirá sobre a sua carreira. Felizmente, o acesso ao longa-metragem ocorreu numa mostra com debate, o que estimulou as novas gerações a conhecerem este petardo incrível, que, ao contrário do que tantos dizem, não "é mais fraca no drama que na comédia". Por mais que, sim, no segundo episódio, a ironia do diretor é elevada a patamares impressionantes, o que senti no episódio inicial, com o qual identifiquei-me bastante, em relação a situações de minha própria vida, foi dilacerador. Que controle extraordinário de todos os elementos fílmicos. Trabalho de gênio indubitavelmente: amei a direção de atores, os jogos com a perspectiva da câmera, a falta de pudor em apontar o capitalismo especulativo e o racismo estrutural como os vilões do enredo, tudo. Tudinho! Tanto que, no debate com a crítica Kênia Freitas, no evento local supracitado, pedi desculpas ao Odilon, por meu rechaço (involuntariamente) inorgânico anterior. Onde quer que tu estejas, querido pioneiro, meus parabéns - e obrigado por este filmaço! (WPC>)
Lisztomania
3.7 16Sempre tive muita curiosidade em conferir este filme, inclusive por ter sido realizado no mesmo ano de TOMMY, que adoro. Comprei o LP de presente para um amigo e, ao ouvi-lo, encantei-me pela trila musical de Rick Wakeman (que faz uma breve participação no filme). Porém, achei o resultado bastante insatisfatório: a direção de arte é primorosa e o roteiro faz alegações virulentas, mas - o que é mais defeito do espectador que da obra - é necessário conhecer aquelas situações e personalidades históricas para embarcar devidamente na trama ambiciosa - e, paradoxalmente, sobre ambição. Roger Daltrey, mais uma vez, cumpre bem o papel principal, mas, a despeito da extrema sexualização do longa-metragem, há um machismo indisfarçado na aplicação dos papéis de gênero, em que as mulheres aparecem como feiticeiras objetificadas e vilanizadas, enquanto os machos dependem de longos pênis artificiais para serem validados como artistas e provedores. Não concordo com a correlação imediata entre Richard Wagner e o nazismo sobrenatural, da maneira como aparece aqui, mas faz algum sentido, dentro da diegese. Pressinto que, numa revisão com menos expectativas, o filme cresça. Afinal, ele paga o devido tributo por conta de sua fama de 'cult'. E, obviamente, pesquisei sobre a biografia de Franz Liszt (e dos demais músicos citados) após a sessão! (WPC>)
Esperando o Rabecão
3.6 28 Assista AgoraQue grata surpresa: minha mãe gargalhou, enquanto via o filme, ao meu lado! Há algo de Ettore Scola, nesta adaptação argentina das chanchadas, com um toque muito peculiar, caro a esta cinematografia nacional: a coragem de encarar o Governo nacional, de nomear quem é responsável pela miserabilidade apresentada. A trama é muito pesada, no modo como expõe a pobreza daqueles habitantes, em confronto com um tipo de bem-estar direcionado a quem é corrupto e faz pactos com a "máfia", como diz um dos personagens. A personagem da avó (interpretada por um homem) é caricata e há algo de teatral na disposição dos atores e no modo como as situações surgem, como se fossem "atos" de um problema progressivo, mas é tudo muito divertido, engraçado aos borbotões. E inevitavelmente triste: como moro numa comunidade como aquela, identifiquei-me, contextualmente, em diversas situações. Muito bom! (WPC>)
Betty Blue
4.1 84Mais de 48 horas após a sessão, sigo pensando neste filme, incomodado pelo que ele me causou... Ansiava com muita expectativa pela conferição de uma obra que marcou a minha geração, mas, ainda que soubesse mais ou menos o que encontraria (por já conhecer outros filmes do realizador), fui sobremaneira maltratado por uma abordagem que revela-se machista, ao fazer com que a personagem-título seja coadjuvante em sua própria trama, um mero trampolim para que o macho protagonista converta seus traumas em arte (conforme aconteceu na obra literária que deu origem ao filme, né?). Gostei bastante que os atores estejam nus o tempo quase inteiro e fiquei apaixonadíssimo pela Béatrice Dalle, soberba da primeira à última aparição. Mas é um filme que dói, que esmaga, que rasga - e que não expõe suficientemente estes aspectos enquanto "contingências da época em que foi realizado", tem algo suspeitoso nas entrelinhas produtivas. Seja como for, A fotografia é fantástica e a trilha musical de Gabriel Yared faz jus ao auê que até hoje causa. É um filme que nos inebria que nos faz imergir, que apresenta uma versão mais palatável do 'amor fou' tão persistentemente abordado por Jacques Rivette, Andrzej Zulawski e afins. É um filme bonito, mas que, exatamente por isso, romantiza a toxicidade, a depressão, a degradação de uma mulher que faz de tudo para tornar o seu amado público, conhecido, famoso... Questionável em mensagem, talvez, mas indubitavelmente atrativo. Um paradoxo, conforme esperado do clássico que ele é. Quero ver a versão integral, com três horas de duração, aliás! (WPC>)
O Ano em que o Frevo Não Foi pra Rua
3.2 1Fui contagiado pelo clima de "espera recompensada" do filme, devidamente historicizado ao demonstrar que algo parecido já acontecera no início do século XX. Gostei muito dos depoentes, da canção-tema, da justificativa emocional para a continuidade daquelas tradições, para o modo efusivo como a festa é abordada, mesmo sobre a extrema melancolia do início, em preto-e-branco, antes que as cores regressem, junto à alegria do frevo. É sério: fiquei com muita vontade de sair num carnaval vindouro. Tomara que eu consiga. Curti bastante, muito boa a abordagem os diretores, que dignificaram bastante aqueles depoentes. Spok é super carismático; Carlos da Burra, um militante orgânico. Dá-lhe, Pernambuco! (WPC>)
Asas
4.0 103Mais que constatar que, na revisão, o filme cresce, fiquei muito surpreso (e feliz) ao perceber que, na sessão onde estava, todos apreciaram bastante o filme. O que, claro, não implica em concordar com todas as situações: o patriotismo despejado enquanto fórmula narrativa ainda vigente (que empurra junto um "projeto de não" estadunidense, à guisa de entretenimento), a submissão excessiva da personagem feminina ao homem imaturo que ama (e que é redimido moralmente pela guerra) e as mudanças de tom (ora cômico, ora melodramático, ora belicista) ao longo da duração um tanto excessiva são os principais problemas, mas a direção é tão boa, a fotografia é tão inventiva, a cópia a que tivemos acesso estava tão boa que... Bingo! Consideramos justa a premiação que tornou esta obra tão famosa. Porém, é importante que o filem não fique apenas refém das estatísticas do Oscar, ele é bem melhor do que isto! (WPC>)
Modesta
3.0 1A demonstração efetiva de que boas intenções, às vezes, não são suficientes: por melhor que seja a ilustração lúdica do empoderamento feminino, neste caso, o fato de ser uma realização masculina implica em concessões problemáticas no discurso, conforme fica evidenciado na narração final, em que os acordos masculinos são prontamente aceitos, mas a reação defensiva das mulheres, quanto à "lei da vara", é posta em suspeição. Gosto da fotografia, da montagem, da inteligência risória dos 'close-ups' de bocas e orelhas, no instante da transmissão de notícias/fofocas, do fato de uma criança ser a porta-voz legislativa das mulheres, mas o clima fantasioso do enredo ("foi assim que me contaram...") converte em fabulação de um passo distante ("na época de meus tataravós"...) o que deveria ser transformação no presente. Na execução, infelizmente, elementos periféricos de manutenção do sexismo ficam indisfarçados. Mas a idéia é boa: este filme - que eu não conhecia - rende um ótimo debate. Vou divulgá-lo! (WPC>)
O Estrangeiro
3.5 16Apesar de ter amado o François Ozon na primeira fase de sua carreira, esta sua celeridade em ser prolífico está fazendo com que muitos filmes sem vigor sejam acumulados... Não foi bem o caso deste título, felizmente, irmão gêmeo do excelente FRANTZ: sou devoto da novela original do Albert Camus e desgosto da adaptação de Luchino Visconti. Gostei bem mais do que é efetivado aqui, de maneira surpreendentemente fiel à trama, aliás, exceto por um ou outro detalhe, o 'flashback' da abertura, os incrementos homoeróticos, etc. Talvez Benjamin Voisin tenha exagerado na inexpressividade que, se faz sentido na primeira metade do filme (muito, muito boa), estraga a pretensão dramatúrgica da segunda, com aqueles diálogos intensos, monólogos existenciais, e uma demorada seqüência de julgamento. Em defesa do diretor, ele respeita o que estava no livro. Mas a paixão por seu protagonista não justifica todas as suas opções estilísticas, não obstante crer que a fotografia em preto-e-branco seja mui acertada e que a trilha musical de Fatima Al Qadiri seja fascinante. É um filme bonito, porém que extenua, do meio para o final. Nem mesmo as aparições do impressionante Denis Lavant funcionam a contento. Funciona, sim. Não como poderia, mas funciona. Ainda creio em ti, Ozon. Talvez conviesse diminuir um pouco o ritmo - risos opinativos! (WPC>)
13 Sentimentos
2.6 56 Assista AgoraGente, eu juro: apesar do horror que é o 'trailer' deste filme, adentrei a sessão de coração aberto. Não lembrava/sabia que o Daniel Ribeiro estava envolvido com a série "Todxs Nós", da HBO, mas, de fato, há muitas similaridades entre ambas as obras. A diferença é que, lá, o classismo não se instalava de maneira tão aberrante: a série contentava-se em ser narrativa, não metalingüístico-terapêutica, como acontece aqui. É difícil suportar aquele protagonista insuportável, esvaziado de sentido, vinculado a dilemas fúteis (brigas matrimoniais envolvendo "em qual restaurante iremos almoçar?", tensões associadas à preocupação em chegar atrasado às festas), pseudo-preocupado com questões econômicas aburguesadas (menciona-se a necessidade de pagar o aluguel, mas toma-se café em estabelecimentos chiques o tempo inteiro). Ninguém escreve naqueles aplicativos, não? A abordagem dos áudios e vídeos nas conversas simuladas, através do celular do protagonista, é vexatória. Idem quanto aos diálogos entre amigos, preocupados unicamente com a dança das cadeiras de parceiros homossexuais, numa lógica urbana progressivamente autofágica. Amedrontador! Mas, apesar de eu ter detestado este filme, um estranho consolo: algo no ritmo manteve-me minimamente entretido, querendo saber como esta atrocidade avançaria. Tem tudo a ver com as produções do Rafael Gomes, como o abominável 45 DIAS SEM VOCÊS, e com ALGUMA COISA ASSIM, co-dirigido pelo Esmir Filho. Tenho medo de tudo isso. Pavor!!!! (WPC>)
Minha Solidão Tem Asas
2.9 8 Assista AgoraTenho curiosidade em ver este filme faz tempo. Sempre gostei do Mario Casas (por motivos evidentes, aliás) e sinto maturidade nas entrevistas que ele concede. Em sua estréia directiva, o maior problema está na narrativa que opta por soluções "fáceis", automáticas e que, às vezes, não agrega nada à trama (tudo o que envolve o pai do protagonista, por exemplo). Gosto do trio central, torci para que o romance engrenasse, mergulhei nos clichês de juventude bandida. É um filme bem-feito, mas sem a autoralidade que o realizador apregoou aos quatro ventos. Mas até que ele se esforçou: vide o plano-seqüência na boate. Bonitinho, até que tem bons momentos. Curti a trilha cancional 'pop'! (WPC>)
Amizade Tóxica
3.0 28 Assista AgoraSó eu que não tinha a mínima idéia de quem era este Tim Robinson? Li vários comentários destacando os seus apanágios cômicos, em evidência neste filme, que surpreende ao inserir Paul Rudd numa posição oposta à que ele ocupa em EU TE AMO, CARA , O VIRGEM DE 40 ANOS e afins. Venderam-me este filme como comédia, saí da sessão apavorado. Primeiro, porque houve uma perigosa identificação com a carência exacerbada do protagonista, mas isto é pessoal, eu que lide; segundo, porque os temas abordados nas entrelinhas (câncer da esposa, dificuldades empregatícias, inveja de macho, etc.) dão origem a uma abordagem que lembra aquele tipo de suspense evolvendo vizinhos psicopatas, que abundava na década de 1990 (O PADRASTO, MORANDO COM O PERIGO, etc.). Pressinto que, numa revisão, gostarei mais desta obra. Neste primeiro contato, escandalizo-me ao saber que insistem que este filme é "engraçadíssimo". Sério?! (WPC>)
Os Cavaleiros do Apocalipse
3.0 335 Assista AgoraTem aspectos interessantes na narrativa, mas o excesso de requinte na execução dos crimes não convence, sobretudo quando descobrimos como eles ocorreram... A direção videoclipesca do Jonas nunca encontra o tom, não respeita a duração dos eventos, alia-se a uma montagem desnecessariamente picotada e desemboca num desfecho anticlimático, depois de uma revelação previsível. A impressão é que o orçamento acabou quando apenas 2/3 da obra haviam sido filmados. Nunca que eu imaginasse Dennis Quaid e Zhang Ziyi atuando juntos - ela até que está bem, mas esta personagem reles subestima as suas capacidades interpretativas, urgh! Mas dá para ver, se muitas expectativas... (WPC>)
Duas Mulheres
3.3 1Mais um filme sutil e inteligente desta ótima cineasta húngara, a quem estou maratonando por convite de um cineclube: se, em sentido imediato, este filme não pareceu-me tão fascinante quanto outros da realizadora, nas entrelinhas, há tanto a ser averiguado, sentido, vivido, debatido... A partir da avaliação de um encontro entre mulheres de gerações distintas, uma averiguação potente sobre os males da burocratização da vida cotidiana, por derivação institucional, nas trajetórias daquelas pessoas. Surpreendeu-me que, a despeito da conformação inegavelmente feminista do roteiro, trata-se da produção quiçá mais "masculina" da Márta, no sentido de que, mesmo sendo um alcóolatra violento, o marido de uma das personagens revela-se extremamente sensato e impulsiona outra personagem a descobrir o próprio tesão. A seqüência que mostra o tratamento clínico ao qual este homem se submete é pesadíssima, algo entre o que acontece em LARANJA MECÂNICA e nos palcos da Igreja Universal. O desfecho em aberto, com aquele grito infantil, é sobremaneira pungente. Quanto mais eu penso no filme, mais percebo o quão relevante ele é. Mais que autoral, temos uma diretora política, orgânica, humanista. Na revisão, este filme tende a crescer, certeza! (WPC>)
O Mago do Kremlin
3.0 8Empreendi uma mini-maratona assaysiana neste feriado prolongado e amei o que descobri dele, filmes que estavam pendentes, aguardando a minha imersão. Quando cheguei nesta produção recente, a decepção abissal: que filme canhestro e entreguista, que, mesmo mantendo diversas características do estilo marcante do realizador, é traiçoeiro por conta de um elemento-chave, a narração em primeira pessoa, cínica e manipuladora, sem a ambigüidade que demarca roteiros anteriores. Temos um vilão-mor, ainda viva, e inúmeros vilões sustentaculares, numa representação da Rússia em que todo mundo é estereotipado, ambicioso ou enganado (porque quer, inclusive). A personagem de Alicia Vikander é mui preocupante por aquilo de misógino que revela-se suspeitoso desde TEMPO SUSPENSO. O roteiro serve-se do estratagema mais covarde e desnecessário, que é aquela intermediação por um jornalista estadunidense, para descambar para a chantagem emocional tardia, envolvendo a família do protagonista. A montagem célere e os diálogos rápidos parece parodiar, de maneira invejosa, o estilo scorseseano, numa versão político-partidária de A REDE SOCIAL. Vexatório em todos os sentidos, constrangedor ao extremo. Um horror! O que aconteceu com o Olivier Assayas, que, ainda assim, expõe-se como tal?! :( - WPC>
Wasp Network: Rede de Espiões
3.1 119 Assista AgoraApaixonado pelo diretor que confesso ser, finalmente conferi este filme tão recomendado por amigos, acerca do qual emiti tanta desconfiança, antes da sessão (Assayas 'apud' Netflix? Ixe!). Para o meu rápido e positivo espanto, as marcas registradas do diretor estão lá. Por mais abundantes que sejam as convenções de ação e suspense, a variação de pontos de vista e as correlações assimétricas entre crises íntimas e ações sociopolíticas são mantidas, de maneira autoral. O elenco não é efetivamente cubano, mas os venezuelanos, espanhóis, porto-riquenhos, mexicanos e brasileiros são conta do recado, de maneira primorosa. Elenco incrível; tomada de partida política, idem. Fui arrebatado pelas mudanças de tom, pelos diversos "recomeços" tramáticos. Muito, muito bom! (WPC>)
Traição em Hong Kong
3.0 20 Assista AgoraAntes de adentrar a sessão, sabia mais ou menos o que encontrariam já conhecendo o diretor. Ainda assim, estranhei o ritmo, a demora nas seqüências de interação romântica entre os personagens de Asia Argento e Michael Madsen. Não gostei tanto da química deles, mas o diretor chega a inserir elementos antonionianos (ou bertoluccianos?) na relação, que se estende, se expande e, de repente, uma reviravolta, que faz todo sentido, ao final. Amei as aparições de Kim Gordon, fiquei apaixonado pelo Carl Ng e, claro, amei as seqüências vinculadas à "insegurança perceptual", na qual o diretor é especializado (vide o que ocorre em meio a um karaokê). Que bonito aquele desfecho. Que ótimo uso da trilha original do Brian Eno e da canção de Sparks. Para que curte o ritmo de A SUPREMACIA BOURNE e de filmes de Jim Jarmusch (sobretudo OS LIMITES DO CONTROLE) e do Cronenberg atual (em especial, CRIMES DO FUTURO e O SENHOR DOS MORTOS), este filme é um deleite! (WPC>)
O Cativo
3.2 9 Assista AgoraNão sabia (ou não lembrava) que o diretor Alejandro Amenábar é homossexual, o que poderia ser algo circunstancial, se este filme, de repente, se revelasse num testemunho de puro vigor homoerótico, num complemento militante da biografia de um dos maiores escritores de todos os tempos. Além de muitíssimo bem-feito enquanto trama de enfrentamento prisional e de ode às metanarrativas, este filme funciona pelos ótimos componentes técnicos (música, a cargo do próprio diretor; direção de arte, etc.) e pela lógica defensiva da amizade entre homens, além de equiparar os atos nefastos de ambos os grupos religiosos/nacionais mostrados (de um dos lados, pessoas vinculadas à Santa Inquisição, por exemplo). Miguel Rellán fez por merecer o prêmio de interpretação que recebeu, mas estão todos ótimos em seus papéis. Minha mãe gostou muitíssimo do filme e eu fiquei surpreso pela coragem e persistência na abordagem da pederastia. Adorei! (WPC>)
Nove Meses
3.8 5 Assista AgoraQue filme amargo, duro, melancólico, seco... Graças a um cineclube entre amigos, estamos assistindo a vários filmes desta realizadora, e, por mais que seus temas e estilo sejam assaz reconhecíveis aqui, achei o tom distinto, bem mais aflitivo no que tange à falta de perspectivas da protagonista, que trabalha, estuda, apaixona-se e, mesmo assim, parece a deriva numa sociedade que trata as mulheres como meros suportes para a rudeza masculina. Tristíssimo quem neste sentido, a protagonista fique dividida entre um homem possessivo e acumulador e um típico esquerdomacho hipócrita e covarde. Tudo o que acontece durante e após aquele parto é devastador: quando as fotografias paralisavam por instantes, na tela, mina respiração parava junto! (WPC>)
A Marvada Carne
3.6 115 Assista AgoraRevi por acaso, numa sessão televisiva do Canal Brasil, e fiquei ainda mais encantado que no primeiro contato. Cheguei mesmo a experimentar uma gostosa nostalgia por aquele período oitentista, para além das privações econômicas vigentes. O motivo: havia também um estímulo á cultura dos mutirões, que aparece como tema recorrente nesta obra, que conta cm ótimas participações de Geny Prado e Dionísio Azevedo. Amei os seus bordões; amei Fernanda Torres, mui fascinante em cada aparição; amei Regina Casé , inspiradíssima em sua personificação lasciva. Filmaço demarcador de uma década, felizmente descoberto pelas novas gerações. Primoroso e delicioso, um filme feliz, mesmo quando aborda situações de exigüidade. Lindo, lindo, lindo! (WPC>)
A Sétima Morada - Santa Edith Stein
3.9 4Impressionante descoberta: já havia me deparado com este DVD em inúmeras oportunidades, mas não imaginava que era dirigido pela Marta... Gosto muito da Edith Stein, e a descobri graças a uma jovem quase fundamentalista, em seu cristianismo, que trabalhou comigo na época do telemarketing. Adentrei a sessão desconfiado, mas fui logo fisgado pela abordagem de confinamento, estendida ao longo da narrativa, nas três fases (a das aulas interditadas por decreto nazista, a da forçação monasterial, e a do campo de concentração propriamente dito). A direção é sagaz, na inserção das obsessões pessoais da diretora, fascinada pelas redescobertas de maternidade. É uma trama muitíssimo autoral, mas que respeita a biografada, inteligentíssima, uma santa acadêmica. Filme adulto, comercializado como artigo religioso nas editoras Paulinas. Vou em busca do DVD agora, preciso rever este filmaço à frente: muito forte, comovente, tocante. Uma demonstração pragmática do que é epifania, que dialoga bastante com os trabalhos em parceria de Margarethe von Trotta e Barbara Sukowa! (WPC>)
Cheiro de Diesel
3.4 3Muitíssimo contundente a atuação da Gizele Martins, sempre intercedendo e agindo, auxiliando os irmãos de moradia e vivência. Minha respiração ficou sufocada em diversos instantes (como dói acompanhar aquele tipo de julgamento; como maltrata testemunhar os moradores impedidos de caminhar onde vivem; como maltratam-nos os gritos desamparados daquelas mães!), mas é importantíssimo que tudo isso seja mostrado. Amei a entoação de "Indo pro Lar" no desfecho. Vítor Santiago é de uma simpatia acachapante, resiliente ao extremo, além de mui competente enquanto músico. Ótimo que as palavras de Marielle ainda ressoem, tão poderosas quanto mostradas aqui, neste documentário contundente, ainda que convencional enquanto formato: importa a sua mensagem gritante, que chega a quem está interessado. Eu e minha mãe ficamos tocados. Aplaudi de pé no instante da merecida premiação para a Gizele! (WPC>)
O Lar das Crianças Peculiares
3.3 1,5KO que aconteceu com o Tim Burton de outrora? Seguimos nos perguntando, nostalgicamente... Mas, revendo o filme, depois de ter lido o romance original, admito que, aqui, ele tentou. Estranhei a mudança das funções de alguns personagens, na adaptação, e ficou muito sintético, o que causa um estranhamento estilístico na meia-hora final, em que tudo é muito acelerado, quando a conjuntura fantasiosa serve apenas á ação juvenil, não necessariamente à reflexão sobre as diferenças, como era um traço peculiar do autor (ou ex-autor?). Seja como for, gosto de algumas escolhas, achei o elenco acertado (exceto talvez pela vilania caricata de Samuel L. Jackson). Há algo de esquecível na conjuntura de adesão contemporânea, mas o contato com o livro fez com que o carinho em relação ao filme aumentasse (creio que gostei mais dele, em verdade). A ausência de Danny Elfman é sentida, mas os músicos contratados, aqui, esforçam-se por emulá-lo. E há auto-citações burtonianas na direção de arte. É uma tentativa válida, reitero. Falha, porém válida. Parece muito mais um treinamento de seriado que um longa-metragem em si... Ao menos, o desfecho é fechadinho, ao contrário da obra de Ramson Riggs, que quer vender mais livros, às custas os sofrimentos de quem não é similar aos demais! (WPC>)
Anaconda
2.5 252Indo direto ao ponto: uma das piores coisas já produzidas. Isto é chover no molhado, já que ninguém parece ter apreciado este ultraje? Pois bem, elaboro: apesar de eu desgostar do Jack Black, confesso ter apreciado o início, quando a construção humana de seu personagem é validade pelo apoio dos amigos e familiares aos seus sonhos de juventude. Mas quando Paul Rudd entra em cena, tudo decai. Quando Steve Zahn junta-se a eles, então, o saldo é irreversível - e péssimo! Triste quando Selton Mello aparece, em situações constrangedoras; triste também que o filme finja brincar com reviravoltas de mais de um gênero (a vexatória subtrama de ação envolvendo a personagem de Daniela Melchior, cuja construção simplesmente não faz sentido, na maior parte das cenas); e ainda mais triste que a cobra titular seja quase figurante em seu próprio filme. Tudo é pretexto para que os grandes estúdios hollywoodianos relembrem sobre o poderio dos direitos autorais e zombem da falta de idéias, como algo defensável. Uma nojeira absoluta, uma mistureba em que nada funciona. Nem minha mãe gostou! :( - WPC>
Slumber Party - O Massacre
3.0 146 Assista AgoraNão sou o maior fã de 'slasher', mas fiquei intrigado ao saber da direção feminina. Imaginei que haveria um combate à objetificação dos corpos das mocinhas, mas isto ocorre em verve irônica, pois, afinal, era necessário obedecer às convenções de gênero. Mas as diferenças são notáveis: percebemos mulheres exercendo profissões comumente atribuídas aos homens; o sexo é posto em segundo plano (apesar da nudez abundante); o desfecho é irresolvível (aqueles 'close-ups' cumulativos nos rotos das sobreviventes é intrigante!)... Há muitos elementos interessantes no filme, mas, infelizmente, no saldo geral, o que prevalece é um exemplar do subgênero, como quase todos os outros, em que somos "treinados" para torcer pela ocorrência de mortes, pelas situações "divertidas" de violência. Neste sentido, apesar da subversão pretendida, é tão enfadonho quanto a maioria dos 'slashers'. Mas, havendo um bom debate, ele cresce na apreciação discursiva... (WPC>)