No debate sobre este curta afetivo, em presença de um dos destinatários (Fernando de Mendonça, maravilhoso), foi tematizada a questão do desparecimento. Como o filme termina com a câmera urgindo para filmar uma rua vazia, enquanto os membros do Alumbramento cantam, dançam, riem e conversam, o que permite uma interpretação mui peculiar do que fôra registrado, a partir de outros relatos complementares, compartilhados a posteriori pelo diretor. Minúsculo em duração, mas imenso no que transmite. Amor um tanto dodói, mas amor - e música! (WPC>)
Na revisão, as virtudes e apanágios contestatórios do filme crescem ainda mais: a direção é extremamente segura, o roteiro é repleto de camadas interpretativas, e a personificação de Ticiane Simões é sublime, prenhe de surpreendente graça (no sentido religioso do termo). O modo como os abusos comumente direcionados às mulheres é ressignificado aqui impressiona pela audácia, pela amoralidade, pela superação do modelo de opressão. Trabalho de gênia, a Mayra Costa começou por cima, mereceu todos os prêmios que recebeu - e que venham mais e mais. Sou fã absoluto! (WPC>)
OK, ao meu redor, gargalhavam, o filme chegou em quem ansiava por ele, despejou os seus chistes de incitação 'trash', com um pano de fundo "sociológico", reduzindo ao mero escracho o que engendrou uma aparente onda de regravações, após a empreitada do Costa-Gravas em O CORTE. As más condições de filmagem, justificadas pelo baixíssimo orçamento da produção, validam a impressão de "mal-feito de propósito", o que torna canhestra toda e qualquer tentativa de analisar com um mínimo de seriedade a obra. Para que, né? Não avançarei neste sentido, então. Não funcionou comigo, não curti a moral invertida de empoderamento, não acho engraçado o modo como a contagem de assassinatos aparece aqui (com uma lógica internamente falida, no que tange ao TOC da psicopatia) e, realmente, considero improdutiva a bazófia pleonástica, relacionada à punição direcionada à babaquice de um dos rapazes, justamente o que declina da vaga e que, portanto, poderia garantir a sua liberação na lista de eliminações "motivadas" pela necessidade de trabalhar. O vilão está lá fora (o empregador é ainda mais machista que os concorrentes da protagonista), mas é mais fácil investir na gaiatice competitiva dos grupos inferiorizados. "Ah, mas é só uma comédia, Wesley!". Aham! É assim que o cancelamentismo de Twitter segue vigorando... Até compreendo o auê que ele provoca, mas, comigo realmente não funciona! :( - WPC>
Fui pego de surpresa, aqui: realmente, não sabia o que esperar deste curta-metragem e deparei-me com uma aplicação mui contundente da realidade LGBTQIAPN+ em meio às limitações vinculadas aos embargos sofridos pelo povo cubano. Algo no desenvolvimento da narrativa fez com que eu pensasse nos ótimos filmes do pernambucano Henrique Arruda, sobretudo no recente ERA UMA VEZ DIVERSIONES. Porém, o que é trazido à tona nesta obra possui um viés melancólico, que é transcendido através do pulso da resistência. Não curto muito os espetáculos de 'lipsync', mas adorei a seleção de canções efetivadas pelas 'drag queens' do local. Queria estar lá, em verdade, para ajudar a iluminar a Elizabeth, em sua estréia. O fiz à distância, numa empolgada sessão em grupo. Foi bonito! (WPC>)
As idéias são boas, o clima de ficção científica, a crise de consciência robótica... Mas tudo decai por conta da insistência em tematizar um tipo de incomunicabilidade induzida pela má vontade das envolvidas (por questões traumáticas, que seja). Gostei bem mais da personagem da professora lidando com as suas possibilidades de adaptação no ambiente escolar tradicional que na toxicidade relacional entre cientistas e invenção feminina. Os diálogos chegam a ser risíveis, na busca de uma pela entrada HDMI da outra, na oferta "voyager", no pedido de entrada no 'feed' do simulacro materno travestido em amante nomenclaturalmente ressignificada. As pessoas que estava comigo na sessão ficaram repetindo os chistes involuntários do roteiro por bastante tempo. Não funcionou. Prefere o pantim pós-adolescente à reflexão conscienciosa, urgh! (WPC>)
Abordagem adulta e contundente, com uma denúncia que, justamente por ser acachapante, adere à obviedade discursiva, perdoada pela urgência do que é apresentado. A protagonista é muito boa e, por conta das subtramas cotidianas, este curta poderia ser expandido enquanto longa-metragem. É sempre interessante acompanhar novos olhares e abordagens sobre o trabalho. Dói, inclusive! (WPC>)
É muito delicado (ou melhor, indelicado?) reagir de maneira não tão positiva a uma obra que goza de uma recepção tão aclamada em relação ao público, mas seria igualmente injusto aclamar algo de maneira entusiástica quando, a despeito das virtudes evidentes (observadas isoladamente), a incoesão salta aos olhos. Como não é a nossa intenção atacar as pessoas esforçadas que envolveram-se na produção, mas, sim, compreender onde as debilidades formais e/ou conteudísticas se instauraram, espero que a baixa cotação que atribuí ao filme não dê a entender que a minha recepção foi completamente reprovadora. Não deveria ser: o filme é tecnicamente bem executado nos seus aspectos "industriais" (neste sentido, a equipe interdisciplinar está de parabéns), mas o fato de haver três diretores pesou na "mistura". A caracterização de Severo d'Acelino está excelente como Agostinho e Fabíola dos Santos brilha em cena, mas o roteiro e os diálogos não acompanham o mesmo elã: os personagens perdem-se em contradições decisórias (que estão além da progressiva condição ébria dos mesmos) e consideram "profundas" e filosóficas frases banais, apenas porque proferidas de maneira solene por um personagem mais velho, que, naquelas condições, está previsivelmente associado ao que é oferecido como reviravolta sobrenatural. A variação entre os elementos cômicos (predominantes) e dramáticos (o luto do pai, a tristeza da mulher abandonada) desperdiça aquilo que surge como discurso geral da obra ('memento mori') nos créditos finais, no sentido de que o aspecto preciosista da realização se sobrepõe ao que o filme efetivamente nos comunica. Boas intenções que não se cumprem ou, quiçá, algum indicativo de conflitos produtivos? Num primeiro contato, a balança valorativa pende para a segunda hipótese, metaforizada pelo modo como os personagens brigam e se reconciliam (o que chama a atenção para um aspecto de câmera que não funcionou tanto, quando as ameaças de agressão são mostradas por câmeras de vigilância). Enquanto exercício de estilo de estudantes de cinema, uma tentativa válida, que agradou à maior parte do público. É o que interessa, na prática! (WPC>)
Que grata (e divertidíssima) surpresa! Sou amigo do realizador e acompanho os seus vídeos experimentais, com excertos de situações que têm a ver com o que ele pesquisa no Mestrado, de modo que, sempre que ele pede que eu veja algo seu, sei mais ou menos o que vou encontrar. Aqui, há um pequeno desvio, pois é um tema familiar, e parte de uma homenagem a uma pessoa querida, recém-falecida. Temática e contexto têm muito a ver com VAILAMIDEUS, da Ticiana Augusto Lima, mas, em meio àquilo que se assemelha na conjuntura familiar aburguesa, Daniel conseguiu acrescentar toques próprios, como o apêndice, com a avó solitária, após a festividade, o que acentua o caráter performático (e exterior) das festividades opulentas. Mas é mesmo aquela declaração para a câmera que torna este curta-metragem impagável e delicioso, além de um tantinho melancólico também. Foi ótimo conferi-lo numa sessão em que as pessoas gargalhavam na platéia! (WPC>)
Gostei bastante do paralelismo estabelecido entre o surgimento e estabelecimento da cena 'ballroom' em Sergipe e a feitura de uma peça de artesanato em barro. Com isso, a diretora consegue driblar, de maneira inteligente, uma reclamação bastante recorrente, a de que aquilo que é mostrado não seria "local" o suficiente. A abordagem é didática, mas a opção por não especificar as distintas casas já formadas no Estado, por exemplo, incorre numa parcialidade (o 'ballroom' possui uma faceta assaz competitiva, não esqueçamos!) que desemboca numa longa seqüência de auto-apreciação (os personagens reais reagindo a filmagens anteriores de seus eventos e apresentações públicas) que prejudica o ritmo do filme. A diretora citou um documentário de Edgar Morín como uma de suas influências e é ótimo que ela evite o tom de reportagem televisiva, a que muitos realizadores acadêmicos recaem em suas abordagens documentais, mas fica a impressão de que a ótima idéia merece uma execução mais prolongada. Enquanto testemunho de um fenômeno cultural ainda em ascensão no Estado, o filme cumpre um papel legítimo de incitação: saímos da sessão querendo saber bem mais sobre a cultura 'ballroom'! (WPC>)
Na apresentação do filme, a diretora explicou que, ao deparar-se com a potência poética da obra, não gostaria que ela ficasse limitada ao caráter "contratual" da empreitada, inicialmente, um vídeo de divulgação identitária. Há uma expansão lingüística deste intento inicial, de fato - e que a diretora tenha uma experiência duradora com a dança contribui bastante para a assertividade de algumas soluções -, mas, mesmo assim, o curta-metragem permanece carregado de influências publicitárias, que justificam a extrema beleza das imagens, mas trava um pouco a amplitude do discurso, o alcance do tesão pretendido. O elenco está muito bem na entrega aos personagens dotados de muita carga simbólica, mas, para quem desconhece a mitologia apresentada (e faz parte do processo de assimilação espectatorial esta limitação de arcabouço, que pode ser sanada mediante pesquisa íntima e revisões), o convite aberto perante os nossos sentidos talvez não conduza aos mesmos caminhos oferecidos em tela. Por motivos pessoais, gostei muitíssimo do dendê e da pimenta, mas desapreciei a cerveja e a cachaça. A fotografia é deslumbrante e a trilha musical é muito bem escolhida, mas há algo no projeto que o deixa frágil, em termos cinematográficos gerais. A adesão do público foi massiva, entretanto. Sucesso para as pessoas e entidades envolvidas, portanto! (WPC>)
Mais um filme que, a cada novo contato, a cada nova experiência acrescida, intensifica-se, demonstra-se ainda mais previdente e providencial. Em tese, um procedimento simples, dois rapazes vagueiam pela cidade e conversam sobre tédios e frustrações monetárias, enquanto falam sobre cinema e escolhem o filme que querem ver, enquanto o tempo passa; ou melhor, conversam sobre o porquê de não quererem (re)ver alguns filmes, enquanto percebem tédios e frustrações monetárias, que se refletem nos filmes, enquanto o tempo passa. Análise de conjuntura ditatorial e provocação cinefílica. Um tratado estético e político de primeiríssima qualidade! (WPC>)
Faço questão de ser muito cuidado, sempre que deparo-me com a tarefa de criticar alguma curta-metragem sergipano, pois, por muito tempo, foi dito que, no Estado em que eu vivo, não havia uma tradição ficcional sólida. As novas gerações, sobretudo após a instauração do curso de Cinema na UFS, estão apressando-se em demonstrar o contrário, mas, claro, há alguns desafios a contornar: com o pioneirismo, vêm juntas muitas dificuldades. As diretoras, felizmente, contornam a principal delas, com galhardia: a questão das interpretações. Cercaram-se de um ótimo elenco feminino, que segura com garra a dramaticidade das situações, ainda que haja uma assimetria no desenvolvimento das personagens, que dependem da intervenção de Lígia Borges para tornarem-se mais críveis, em termos relacionais e sentimentais. Porém, a direção de arte foi mui acertada ao inserir alguns detalhes no quarto da jovem protagonista (aquele pôster do clássico da Cheryl Dunye que o diga!) e o desfecho emociona, em sua reviravolta mais desejada que previsível (quem não torceu por aquilo, tem um coração maltratador!). Pensei muito no recente SALOMÉ, enquanto via este filme, por conta de questões afins, envolvendo o enfrentamento das mágoas entre mãe e filha. Porém, se tenho vários elogios para fazer a este trabalho, há também problemas recorrentes, em nossa emergente filmografia ficcional sergipana. Enfatizo três: a obsessão por mostrar cartazes, para demarcar os locais das filmagens (necessidade de conferir publicidade a quem patrocinou a obra?); a insistência na montagem picotada (que, aqui, dirime o impacto afetivo da cena em que mãe e filho dançam forró); e a tendência à digressão subtramática (o encontro no restaurante, entre as amigas mais velhas, por exemplo). Mas são questões que não estragam a nossa adesão. É um filme que mexe com emoções elementares, ao mesmo tempo em que projeta outras (o romance tímido entre as mocinhas, por exemplo). Bem realizado, que receba o merecido sucesso! (WPC>)
Mas, gente, que filme fofinho... Eu não conhecia o Wallace A. Carlson (simplesmente, nunca tinha ouvido falar!), mas achei este curta animado pioneiro uma gracinha: identifiquei-me bastante com o protagonista, convertido em platônico por causa da falta de dinheiro em meio à paixonite (risos) enterneci-me quanto às palmadas do desfecho. Maravilhoso o cachorrinho. Que descoberta maneira: já quero mais do diretor! (WPC>)
Vi por acaso, graças à insistência de um amigo cineclubista, e, logicamente, fiquei emocionado pela validação de um projeção, pela emoção legítima dos camponeses gargalhando diante do Carlitos, pela efetivação de algo que segue tão (ou mais) necessário nos dias de hoje. Cinematograficamente, o curta-metragem não quer nem precisa ser pouco mais que uma reportagem bem-sucedida e entusiasmada, mas há brilho ali, há algo que deu certo. Isso nos faz seguir acreditando... Obrigado, cubanos, por darem valiosos primeiros passos! (WPC>)
A crítica Claire Allouche fez uma menção muito simpática a meu filme na revista Cahiers du Cinéma (que honra, meu Deus!), de modo que já adentrei a sessão disposto a me apaixonar por ela, mas fui arrebatado por sua narração conscienciosa e por sua entonação argentina perfeita. Adorei a entonação ensaística da obra, as referências abundantes (desde o título cortazariano), as reflexões históricas, o retorno às origens familiares (e aos questionamentos de classe associados), o elã ensaístico (que não fica devendo nada a Chris Marker, por exemplo), o uso sagaz das músicas escolhidas (entre elas, "Spiegel im Spielgel", de Arvo Pärt)... Maravilhoso desnudamento pós-kafkaniano: a seqüência do cemitério é primorosa! (WPC>)
A idéia é muito boa. O modo como a protagonista contorna a situação, idem. As brincadeiras com os nomes das personagens, também. O desfecho, super inspirado. As referências e emulações tramáticas austenianas são primorosas. Pois demonstram que, por detrás da narrativa acessível, ela contesta, ela esbraveja enquanto mulher. Grande autora, homenagem bem-vinda. Só não curti que o tom cômico fosse tão exagerado e zombasse da intenção, afinal possível, enquanto delírio corretivo anacrônico mas bem-vindo. É divertido, assertivo e discursivamente poderoso. Fiquei imaginando como a obra seria, se optasse pelo viés dramático, efetivamente. Do jeito que está, fez-me pensar, refletir, valorizar um curta-metragem com alcance garantido de público. Que chegue a mais pessoas, urgentemente! (WPC>)
Sempre que deparo-me com os indicados norte-americanos nas categorias documentais e de curtas-metragens, penso bastante se vale a pena conferir estes filmes, no sentido de que a linguagem jornalística sobrepõe a linguagem documental. É como se o tema fosse mais que suficiente para a apreciação, de modo que os prêmios parecem entregues por apreciação de sinopses. Aqui, surpreendi-me bastante: como o ponto de vista é o de um jornalista acostumado a mostrar o lado bom da vida em situações inusitadas de enfrentamento, há uma metalinguagem dupla: primeiro, no que tange à própria reflexão sobre as funções e intervenções do Jornalismo; segundo, porque seria um cinismo atroz afirmar que algo de inifitesimalmente bom pode ser extraído de um tiroteio em colégio. O diretor, ao invés disso, oferta-nos um mostruário emocionante de ausências, a partir do modo como pais "órfãos" de filhos lidam com as perdas precoces de seus promissores entes queridos. Ao final, o enfoque otimista foi implementado, de maneira primorosa e sem subestimar a nossa inteligência e/ou sensibilidade. Filme muito bonito. Quem diria? (WPC>)
Quase um exercício de estilo, em curta duração, mas com muita personalidade e uma entrega quíntupla fascinante da Michelle Yeoh. Queria que demorasse mais, de tanto que eu fiquei embebido pelo avançar dramático/emocional de pelos menos três daquelas personagens (a garçonete, sobretudo, mas também a cozinheira e a influenciadora digital). Senti que a cantora e a crítica gastronômica não são igualmente desenvolvidas, mas o conjunto tem um charme singular. Gracioso! (WPC>)
A idéia é muito boa, a fotografia é linda, a progressão descritiva daquela distopia é fascinante, mas achei desenvolvimento e conclusão do filme frustrante por dois motivos: 1 - ficamos querendo saber mais sobre aquele contexto, de modo que haveria potencial suficiente para ser convertido em longa-metragem; e 2 - a narrativa afetiva que se estabelece nos interstícios daquela conjuntura futurista de abusos consumistas e repressivos não funciona tão bem quando os demais elementos técnicos do filme. Mas instiga, deixa a gente pensativo ao final da sessão... Bacana! (WPC>)
Atmosfera teatral bem instaurada, atores competentes, aproveitamento inteligente da progressão climática das apresentações musicais... Mas o sobejo de abraços, da maneira súbita como acontece, deixou-me uma impressão de autocondescendência excessiva, como se as doenças atuais tornassem "desnecessárias" as investigações concernentes a outros estágios de suas personalidades eminentemente masculinas. Na conjuntura aviltante de machismo estrutural em que estamos inseridos, o discurso do filme soou-me um tanto perigoso e/ou contraproducente. Mas pode ser bitolação de minha parte também, visto que lidamos com uma mensagem de acolhimento. A pergunta (ideológica) é: isso basta? (WPC>)
Que substância fílmica incrível e alucinante: no início, claro, teci associações sonoras com artistas musicais que tendem a se juntar à minha amada Björk (e, nalguns aspectos, o curta-metragem parece uma versão militante do videoclipe de "Pagan Poetry", numa versão ainda mais croneberguiana e transexual, voltada para questões identitárias íntimas), porém, o filme prossegue num crescente alucinante e alucionógeno, como se nós próprios fôssemos alvos da tal "seringa jorrante" que é mencionada na sinopse (aliás, soberba). Filme de imersão, de empréstimo ocular e sensório, de sinestesia erótica, de prazer obtido (e treinado) após a submissão não voluntária a doses cavalares de dor. Estou com os barulhinhos ainda "fritando" meu cérebro, enquanto escrevo estas linhas. Adorei: experimentalismo narrativo existe, a história que se conta aqui é pessoal (mas não exclusiva - o que explica a existência de corpos plurais em cena, conforme indicam os créditos finais). Como deve ser maneiro assistir a este filme em tela grande como som em volume acachapante... Uau! (WPC>)
Gosto dos elementos, do modo como a elaboração dos anseios se instaura. Porém, a opção pela dublagem de canções pré-existentes e os insertos de músicas de outros autores (que não dos próprios partícipes) distanciaram-me da emoção inerente ao projeto. Mas é o tipo de filme que, justamente por desafiar as nossas crenças ou rótulos do que seria uma peça cinematográfica, cresce em potência transformadora do real (vide a importância do que está creditado na direção). Num primeiro contato, sou obrigado a dizer que não gostei muito, mas sinto que, em revisões, ele crescerá, ele provará que fui equivocado e precipitado em minha categorização. Afinal, é um filme que não é sobre isso: ele busca a semeadura, não a repressão. Projeto vivo, mais que cinematográfico. Que este coletivo siga produzindo, fazendo, agindo... Molha, represa! (WPC>)
Tem algo interessante acontecendo, uma vontade de narrar que não se rende às convenções. Gosto das intenções, do que parece gritante no projeto (fiquei com vontade de conhecer o material literário original). Mas, infelizmente, na translação actancial, algo se perdeu. E é difícil entender o enredo, juntar os nós da previsão descortinada em trama passional. Mas tem belezas no percurso. Voltarei a encontrar os envolvidos nesta produção adiante, em obras melhor acabadas, eis uma certeza previdente! (WPC>)
Quase como um 'spin-off' do SOFIA FOI, um filme sobre vazios, esperas e a implantação de novos vazios (e, por dedução, novas esperas). Poderia ser pessimista, mas não há: algo algo ali que preenche a tela por válidos instantes - e estes importam. Achei simples mas bonito. Bonito porque simples. Fez-me bem! (WPC>)
Carta do Ceará #02
3.5 1No debate sobre este curta afetivo, em presença de um dos destinatários (Fernando de Mendonça, maravilhoso), foi tematizada a questão do desparecimento. Como o filme termina com a câmera urgindo para filmar uma rua vazia, enquanto os membros do Alumbramento cantam, dançam, riem e conversam, o que permite uma interpretação mui peculiar do que fôra registrado, a partir de outros relatos complementares, compartilhados a posteriori pelo diretor. Minúsculo em duração, mas imenso no que transmite. Amor um tanto dodói, mas amor - e música! (WPC>)
Entre Corpos
4.5 1Na revisão, as virtudes e apanágios contestatórios do filme crescem ainda mais: a direção é extremamente segura, o roteiro é repleto de camadas interpretativas, e a personificação de Ticiane Simões é sublime, prenhe de surpreendente graça (no sentido religioso do termo). O modo como os abusos comumente direcionados às mulheres é ressignificado aqui impressiona pela audácia, pela amoralidade, pela superação do modelo de opressão. Trabalho de gênia, a Mayra Costa começou por cima, mereceu todos os prêmios que recebeu - e que venham mais e mais. Sou fã absoluto! (WPC>)
Quatro Cadeiras
1.0 1OK, ao meu redor, gargalhavam, o filme chegou em quem ansiava por ele, despejou os seus chistes de incitação 'trash', com um pano de fundo "sociológico", reduzindo ao mero escracho o que engendrou uma aparente onda de regravações, após a empreitada do Costa-Gravas em O CORTE. As más condições de filmagem, justificadas pelo baixíssimo orçamento da produção, validam a impressão de "mal-feito de propósito", o que torna canhestra toda e qualquer tentativa de analisar com um mínimo de seriedade a obra. Para que, né? Não avançarei neste sentido, então. Não funcionou comigo, não curti a moral invertida de empoderamento, não acho engraçado o modo como a contagem de assassinatos aparece aqui (com uma lógica internamente falida, no que tange ao TOC da psicopatia) e, realmente, considero improdutiva a bazófia pleonástica, relacionada à punição direcionada à babaquice de um dos rapazes, justamente o que declina da vaga e que, portanto, poderia garantir a sua liberação na lista de eliminações "motivadas" pela necessidade de trabalhar. O vilão está lá fora (o empregador é ainda mais machista que os concorrentes da protagonista), mas é mais fácil investir na gaiatice competitiva dos grupos inferiorizados. "Ah, mas é só uma comédia, Wesley!". Aham! É assim que o cancelamentismo de Twitter segue vigorando... Até compreendo o auê que ele provoca, mas, comigo realmente não funciona! :( - WPC>
Babilônia
3.0 1Fui pego de surpresa, aqui: realmente, não sabia o que esperar deste curta-metragem e deparei-me com uma aplicação mui contundente da realidade LGBTQIAPN+ em meio às limitações vinculadas aos embargos sofridos pelo povo cubano. Algo no desenvolvimento da narrativa fez com que eu pensasse nos ótimos filmes do pernambucano Henrique Arruda, sobretudo no recente ERA UMA VEZ DIVERSIONES. Porém, o que é trazido à tona nesta obra possui um viés melancólico, que é transcendido através do pulso da resistência. Não curto muito os espetáculos de 'lipsync', mas adorei a seleção de canções efetivadas pelas 'drag queens' do local. Queria estar lá, em verdade, para ajudar a iluminar a Elizabeth, em sua estréia. O fiz à distância, numa empolgada sessão em grupo. Foi bonito! (WPC>)
Notas sobre a Identidade
2.0 1As idéias são boas, o clima de ficção científica, a crise de consciência robótica... Mas tudo decai por conta da insistência em tematizar um tipo de incomunicabilidade induzida pela má vontade das envolvidas (por questões traumáticas, que seja). Gostei bem mais da personagem da professora lidando com as suas possibilidades de adaptação no ambiente escolar tradicional que na toxicidade relacional entre cientistas e invenção feminina. Os diálogos chegam a ser risíveis, na busca de uma pela entrada HDMI da outra, na oferta "voyager", no pedido de entrada no 'feed' do simulacro materno travestido em amante nomenclaturalmente ressignificada. As pessoas que estava comigo na sessão ficaram repetindo os chistes involuntários do roteiro por bastante tempo. Não funcionou. Prefere o pantim pós-adolescente à reflexão conscienciosa, urgh! (WPC>)
Benedita
3.2 1Abordagem adulta e contundente, com uma denúncia que, justamente por ser acachapante, adere à obviedade discursiva, perdoada pela urgência do que é apresentado. A protagonista é muito boa e, por conta das subtramas cotidianas, este curta poderia ser expandido enquanto longa-metragem. É sempre interessante acompanhar novos olhares e abordagens sobre o trabalho. Dói, inclusive! (WPC>)
Beberete
1.5 1É muito delicado (ou melhor, indelicado?) reagir de maneira não tão positiva a uma obra que goza de uma recepção tão aclamada em relação ao público, mas seria igualmente injusto aclamar algo de maneira entusiástica quando, a despeito das virtudes evidentes (observadas isoladamente), a incoesão salta aos olhos. Como não é a nossa intenção atacar as pessoas esforçadas que envolveram-se na produção, mas, sim, compreender onde as debilidades formais e/ou conteudísticas se instauraram, espero que a baixa cotação que atribuí ao filme não dê a entender que a minha recepção foi completamente reprovadora. Não deveria ser: o filme é tecnicamente bem executado nos seus aspectos "industriais" (neste sentido, a equipe interdisciplinar está de parabéns), mas o fato de haver três diretores pesou na "mistura". A caracterização de Severo d'Acelino está excelente como Agostinho e Fabíola dos Santos brilha em cena, mas o roteiro e os diálogos não acompanham o mesmo elã: os personagens perdem-se em contradições decisórias (que estão além da progressiva condição ébria dos mesmos) e consideram "profundas" e filosóficas frases banais, apenas porque proferidas de maneira solene por um personagem mais velho, que, naquelas condições, está previsivelmente associado ao que é oferecido como reviravolta sobrenatural. A variação entre os elementos cômicos (predominantes) e dramáticos (o luto do pai, a tristeza da mulher abandonada) desperdiça aquilo que surge como discurso geral da obra ('memento mori') nos créditos finais, no sentido de que o aspecto preciosista da realização se sobrepõe ao que o filme efetivamente nos comunica. Boas intenções que não se cumprem ou, quiçá, algum indicativo de conflitos produtivos? Num primeiro contato, a balança valorativa pende para a segunda hipótese, metaforizada pelo modo como os personagens brigam e se reconciliam (o que chama a atenção para um aspecto de câmera que não funcionou tanto, quando as ameaças de agressão são mostradas por câmeras de vigilância). Enquanto exercício de estilo de estudantes de cinema, uma tentativa válida, que agradou à maior parte do público. É o que interessa, na prática! (WPC>)
O Enigma de Gilgamesh
4.5 1Que grata (e divertidíssima) surpresa! Sou amigo do realizador e acompanho os seus vídeos experimentais, com excertos de situações que têm a ver com o que ele pesquisa no Mestrado, de modo que, sempre que ele pede que eu veja algo seu, sei mais ou menos o que vou encontrar. Aqui, há um pequeno desvio, pois é um tema familiar, e parte de uma homenagem a uma pessoa querida, recém-falecida. Temática e contexto têm muito a ver com VAILAMIDEUS, da Ticiana Augusto Lima, mas, em meio àquilo que se assemelha na conjuntura familiar aburguesa, Daniel conseguiu acrescentar toques próprios, como o apêndice, com a avó solitária, após a festividade, o que acentua o caráter performático (e exterior) das festividades opulentas. Mas é mesmo aquela declaração para a câmera que torna este curta-metragem impagável e delicioso, além de um tantinho melancólico também. Foi ótimo conferi-lo numa sessão em que as pessoas gargalhavam na platéia! (WPC>)
SergipeWay: do Barro ao Mangue
2.5 1Gostei bastante do paralelismo estabelecido entre o surgimento e estabelecimento da cena 'ballroom' em Sergipe e a feitura de uma peça de artesanato em barro. Com isso, a diretora consegue driblar, de maneira inteligente, uma reclamação bastante recorrente, a de que aquilo que é mostrado não seria "local" o suficiente. A abordagem é didática, mas a opção por não especificar as distintas casas já formadas no Estado, por exemplo, incorre numa parcialidade (o 'ballroom' possui uma faceta assaz competitiva, não esqueçamos!) que desemboca numa longa seqüência de auto-apreciação (os personagens reais reagindo a filmagens anteriores de seus eventos e apresentações públicas) que prejudica o ritmo do filme. A diretora citou um documentário de Edgar Morín como uma de suas influências e é ótimo que ela evite o tom de reportagem televisiva, a que muitos realizadores acadêmicos recaem em suas abordagens documentais, mas fica a impressão de que a ótima idéia merece uma execução mais prolongada. Enquanto testemunho de um fenômeno cultural ainda em ascensão no Estado, o filme cumpre um papel legítimo de incitação: saímos da sessão querendo saber bem mais sobre a cultura 'ballroom'! (WPC>)
Barà
3.0 1Na apresentação do filme, a diretora explicou que, ao deparar-se com a potência poética da obra, não gostaria que ela ficasse limitada ao caráter "contratual" da empreitada, inicialmente, um vídeo de divulgação identitária. Há uma expansão lingüística deste intento inicial, de fato - e que a diretora tenha uma experiência duradora com a dança contribui bastante para a assertividade de algumas soluções -, mas, mesmo assim, o curta-metragem permanece carregado de influências publicitárias, que justificam a extrema beleza das imagens, mas trava um pouco a amplitude do discurso, o alcance do tesão pretendido. O elenco está muito bem na entrega aos personagens dotados de muita carga simbólica, mas, para quem desconhece a mitologia apresentada (e faz parte do processo de assimilação espectatorial esta limitação de arcabouço, que pode ser sanada mediante pesquisa íntima e revisões), o convite aberto perante os nossos sentidos talvez não conduza aos mesmos caminhos oferecidos em tela. Por motivos pessoais, gostei muitíssimo do dendê e da pimenta, mas desapreciei a cerveja e a cachaça. A fotografia é deslumbrante e a trilha musical é muito bem escolhida, mas há algo no projeto que o deixa frágil, em termos cinematográficos gerais. A adesão do público foi massiva, entretanto. Sucesso para as pessoas e entidades envolvidas, portanto! (WPC>)
Documentário
3.9 31Mais um filme que, a cada novo contato, a cada nova experiência acrescida, intensifica-se, demonstra-se ainda mais previdente e providencial. Em tese, um procedimento simples, dois rapazes vagueiam pela cidade e conversam sobre tédios e frustrações monetárias, enquanto falam sobre cinema e escolhem o filme que querem ver, enquanto o tempo passa; ou melhor, conversam sobre o porquê de não quererem (re)ver alguns filmes, enquanto percebem tédios e frustrações monetárias, que se refletem nos filmes, enquanto o tempo passa. Análise de conjuntura ditatorial e provocação cinefílica. Um tratado estético e político de primeiríssima qualidade! (WPC>)
A Minha Saudade num Retrato Eu Guardei
3.8 1Faço questão de ser muito cuidado, sempre que deparo-me com a tarefa de criticar alguma curta-metragem sergipano, pois, por muito tempo, foi dito que, no Estado em que eu vivo, não havia uma tradição ficcional sólida. As novas gerações, sobretudo após a instauração do curso de Cinema na UFS, estão apressando-se em demonstrar o contrário, mas, claro, há alguns desafios a contornar: com o pioneirismo, vêm juntas muitas dificuldades. As diretoras, felizmente, contornam a principal delas, com galhardia: a questão das interpretações. Cercaram-se de um ótimo elenco feminino, que segura com garra a dramaticidade das situações, ainda que haja uma assimetria no desenvolvimento das personagens, que dependem da intervenção de Lígia Borges para tornarem-se mais críveis, em termos relacionais e sentimentais. Porém, a direção de arte foi mui acertada ao inserir alguns detalhes no quarto da jovem protagonista (aquele pôster do clássico da Cheryl Dunye que o diga!) e o desfecho emociona, em sua reviravolta mais desejada que previsível (quem não torceu por aquilo, tem um coração maltratador!). Pensei muito no recente SALOMÉ, enquanto via este filme, por conta de questões afins, envolvendo o enfrentamento das mágoas entre mãe e filha. Porém, se tenho vários elogios para fazer a este trabalho, há também problemas recorrentes, em nossa emergente filmografia ficcional sergipana. Enfatizo três: a obsessão por mostrar cartazes, para demarcar os locais das filmagens (necessidade de conferir publicidade a quem patrocinou a obra?); a insistência na montagem picotada (que, aqui, dirime o impacto afetivo da cena em que mãe e filho dançam forró); e a tendência à digressão subtramática (o encontro no restaurante, entre as amigas mais velhas, por exemplo). Mas são questões que não estragam a nossa adesão. É um filme que mexe com emoções elementares, ao mesmo tempo em que projeta outras (o romance tímido entre as mocinhas, por exemplo). Bem realizado, que receba o merecido sucesso! (WPC>)
Dud Leaves Home
3.0 1Mas, gente, que filme fofinho... Eu não conhecia o Wallace A. Carlson (simplesmente, nunca tinha ouvido falar!), mas achei este curta animado pioneiro uma gracinha: identifiquei-me bastante com o protagonista, convertido em platônico por causa da falta de dinheiro em meio à paixonite (risos) enterneci-me quanto às palmadas do desfecho. Maravilhoso o cachorrinho. Que descoberta maneira: já quero mais do diretor! (WPC>)
Pela Primeira Vez
4.1 1Vi por acaso, graças à insistência de um amigo cineclubista, e, logicamente, fiquei emocionado pela validação de um projeção, pela emoção legítima dos camponeses gargalhando diante do Carlitos, pela efetivação de algo que segue tão (ou mais) necessário nos dias de hoje. Cinematograficamente, o curta-metragem não quer nem precisa ser pouco mais que uma reportagem bem-sucedida e entusiasmada, mas há brilho ali, há algo que deu certo. Isso nos faz seguir acreditando... Obrigado, cubanos, por darem valiosos primeiros passos! (WPC>)
Carta a una Señorita en Paris
4.0 1A crítica Claire Allouche fez uma menção muito simpática a meu filme na revista Cahiers du Cinéma (que honra, meu Deus!), de modo que já adentrei a sessão disposto a me apaixonar por ela, mas fui arrebatado por sua narração conscienciosa e por sua entonação argentina perfeita. Adorei a entonação ensaística da obra, as referências abundantes (desde o título cortazariano), as reflexões históricas, o retorno às origens familiares (e aos questionamentos de classe associados), o elã ensaístico (que não fica devendo nada a Chris Marker, por exemplo), o uso sagaz das músicas escolhidas (entre elas, "Spiegel im Spielgel", de Arvo Pärt)... Maravilhoso desnudamento pós-kafkaniano: a seqüência do cemitério é primorosa! (WPC>)
O Drama Menstrual de Jane Austen
3.6 30 Assista AgoraA idéia é muito boa. O modo como a protagonista contorna a situação, idem. As brincadeiras com os nomes das personagens, também. O desfecho, super inspirado. As referências e emulações tramáticas austenianas são primorosas. Pois demonstram que, por detrás da narrativa acessível, ela contesta, ela esbraveja enquanto mulher. Grande autora, homenagem bem-vinda. Só não curti que o tom cômico fosse tão exagerado e zombasse da intenção, afinal possível, enquanto delírio corretivo anacrônico mas bem-vindo. É divertido, assertivo e discursivamente poderoso. Fiquei imaginando como a obra seria, se optasse pelo viés dramático, efetivamente. Do jeito que está, fez-me pensar, refletir, valorizar um curta-metragem com alcance garantido de público. Que chegue a mais pessoas, urgentemente! (WPC>)
Quartos Vazios
3.7 38 Assista AgoraSempre que deparo-me com os indicados norte-americanos nas categorias documentais e de curtas-metragens, penso bastante se vale a pena conferir estes filmes, no sentido de que a linguagem jornalística sobrepõe a linguagem documental. É como se o tema fosse mais que suficiente para a apreciação, de modo que os prêmios parecem entregues por apreciação de sinopses. Aqui, surpreendi-me bastante: como o ponto de vista é o de um jornalista acostumado a mostrar o lado bom da vida em situações inusitadas de enfrentamento, há uma metalinguagem dupla: primeiro, no que tange à própria reflexão sobre as funções e intervenções do Jornalismo; segundo, porque seria um cinismo atroz afirmar que algo de inifitesimalmente bom pode ser extraído de um tiroteio em colégio. O diretor, ao invés disso, oferta-nos um mostruário emocionante de ausências, a partir do modo como pais "órfãos" de filhos lidam com as perdas precoces de seus promissores entes queridos. Ao final, o enfoque otimista foi implementado, de maneira primorosa e sem subestimar a nossa inteligência e/ou sensibilidade. Filme muito bonito. Quem diria? (WPC>)
Sandiwara
4.0 3Quase um exercício de estilo, em curta duração, mas com muita personalidade e uma entrega quíntupla fascinante da Michelle Yeoh. Queria que demorasse mais, de tanto que eu fiquei embebido pelo avançar dramático/emocional de pelos menos três daquelas personagens (a garçonete, sobretudo, mas também a cozinheira e a influenciadora digital). Senti que a cantora e a crítica gastronômica não são igualmente desenvolvidas, mas o conjunto tem um charme singular. Gracioso! (WPC>)
Duas Pessoas Trocando Saliva
3.6 31A idéia é muito boa, a fotografia é linda, a progressão descritiva daquela distopia é fascinante, mas achei desenvolvimento e conclusão do filme frustrante por dois motivos: 1 - ficamos querendo saber mais sobre aquele contexto, de modo que haveria potencial suficiente para ser convertido em longa-metragem; e 2 - a narrativa afetiva que se estabelece nos interstícios daquela conjuntura futurista de abusos consumistas e repressivos não funciona tão bem quando os demais elementos técnicos do filme. Mas instiga, deixa a gente pensativo ao final da sessão... Bacana! (WPC>)
Os Cantores
3.5 41 Assista AgoraAtmosfera teatral bem instaurada, atores competentes, aproveitamento inteligente da progressão climática das apresentações musicais... Mas o sobejo de abraços, da maneira súbita como acontece, deixou-me uma impressão de autocondescendência excessiva, como se as doenças atuais tornassem "desnecessárias" as investigações concernentes a outros estágios de suas personalidades eminentemente masculinas. Na conjuntura aviltante de machismo estrutural em que estamos inseridos, o discurso do filme soou-me um tanto perigoso e/ou contraproducente. Mas pode ser bitolação de minha parte também, visto que lidamos com uma mensagem de acolhimento. A pergunta (ideológica) é: isso basta? (WPC>)
Trivakra
4.5 1Que substância fílmica incrível e alucinante: no início, claro, teci associações sonoras com artistas musicais que tendem a se juntar à minha amada Björk (e, nalguns aspectos, o curta-metragem parece uma versão militante do videoclipe de "Pagan Poetry", numa versão ainda mais croneberguiana e transexual, voltada para questões identitárias íntimas), porém, o filme prossegue num crescente alucinante e alucionógeno, como se nós próprios fôssemos alvos da tal "seringa jorrante" que é mencionada na sinopse (aliás, soberba). Filme de imersão, de empréstimo ocular e sensório, de sinestesia erótica, de prazer obtido (e treinado) após a submissão não voluntária a doses cavalares de dor. Estou com os barulhinhos ainda "fritando" meu cérebro, enquanto escrevo estas linhas. Adorei: experimentalismo narrativo existe, a história que se conta aqui é pessoal (mas não exclusiva - o que explica a existência de corpos plurais em cena, conforme indicam os créditos finais). Como deve ser maneiro assistir a este filme em tela grande como som em volume acachapante... Uau! (WPC>)
Mydzé
1.5 1Gosto dos elementos, do modo como a elaboração dos anseios se instaura. Porém, a opção pela dublagem de canções pré-existentes e os insertos de músicas de outros autores (que não dos próprios partícipes) distanciaram-me da emoção inerente ao projeto. Mas é o tipo de filme que, justamente por desafiar as nossas crenças ou rótulos do que seria uma peça cinematográfica, cresce em potência transformadora do real (vide a importância do que está creditado na direção). Num primeiro contato, sou obrigado a dizer que não gostei muito, mas sinto que, em revisões, ele crescerá, ele provará que fui equivocado e precipitado em minha categorização. Afinal, é um filme que não é sobre isso: ele busca a semeadura, não a repressão. Projeto vivo, mais que cinematográfico. Que este coletivo siga produzindo, fazendo, agindo... Molha, represa! (WPC>)
Mãe Santíssima
1.0 1Tem algo interessante acontecendo, uma vontade de narrar que não se rende às convenções. Gosto das intenções, do que parece gritante no projeto (fiquei com vontade de conhecer o material literário original). Mas, infelizmente, na translação actancial, algo se perdeu. E é difícil entender o enredo, juntar os nós da previsão descortinada em trama passional. Mas tem belezas no percurso. Voltarei a encontrar os envolvidos nesta produção adiante, em obras melhor acabadas, eis uma certeza previdente! (WPC>)
Pequeno Jogo
3.0 1Quase como um 'spin-off' do SOFIA FOI, um filme sobre vazios, esperas e a implantação de novos vazios (e, por dedução, novas esperas). Poderia ser pessimista, mas não há: algo algo ali que preenche a tela por válidos instantes - e estes importam. Achei simples mas bonito. Bonito porque simples. Fez-me bem! (WPC>)