O conto do Ivan é simples: dois homens competem cantando em um bar. Um tem técnica, o outro é um camponês. No final, o camponês vence porque canta com a alma.
Acho que o diretor tentou trazer essa ideia de “camponeses” para hoje; pessoas comuns, descobertas nas redes sociais, colocadas dentro de um filme com produção de Hollywood. E isso, por si só, é interessante. Até porque todos eles são talentosos.
O problema é que ele não trouxe só as pessoas, trouxe também a linguagem. A estética do TikTok aparece o tempo todo: há cenas de dancinha, quase não há diálogo, e até os momentos dramáticos são construídos em gestos rápidos, pensados para impacto imediato.
No fim, em vez de transformar essa linguagem em cinema, o curta parece apenas reproduzi-la em um formato mais sofisticado. Fica como se ele tivesse filmado sua timeline.
“Guerreiras do K‑Pop” tenta se vender como uma aventura empoderadora, mas por trás do brilho neon e das coreografias estilizadas existe uma narrativa surpreendentemente desconfortável. O filme constrói um mundo onde um povo decide realizar uma limpeza étnica contra outro grupo considerado ‘essencialmente mau’. A justificativa é simples e perigosa: se eles nascem monstros, então merecem ser exterminados.
A protagonista, ao descobrir que é “meio monstra”, embarca numa jornada de autodescoberta que poderia ter sido uma crítica ao próprio sistema opressor. Ela encontra outro personagem monstro, que se sacrifica por ela, e isso a leva a compreender que sua natureza não determina sua moralidade. Até aqui, tudo aponta para uma virada ética: se ela não é má por nascer diferente, então o genocídio é injustificável.
Mas o filme vira de cabeça para baixo justamente nesse ponto. Em vez de questionar o sistema, ela o reforça. Em vez de romper com a lógica genocida, ela a executa até o fim — eliminando toda uma população. A mensagem final, portanto, não é sobre empatia, coexistência ou superação de preconceitos, mas sobre justificar violência extrema quando convenientemente enquadrada como “heroica”.
É uma inversão moral estranha, típica de certas narrativas hollywoodianas que confundem catarse com extermínio. O filme tenta nos fazer torcer por uma protagonista que, ao aceitar sua identidade, decide que o caminho é destruir o outro lado por completo. É uma conclusão que soa vazia, apressada e, no fundo, contraditória com o próprio arco emocional que o filme parecia construir.
No fim, “Guerreiras do K‑Pop” é visualmente chamativo, mas eticamente raso. Ele desperdiça a chance de explorar nuances e cai na solução mais fácil; e mais problemática. Sai-se do filme com a sensação de que a história queria dizer algo sobre identidade e aceitação, mas acabou entregando apenas mais um espetáculo de destruição embalado como triunfo moral. Tinha que ser estado-unidense.
A grande questão aqui não é se o filme é bom. Tecnicamente, a atuação de Timothée Chalamet é sólida e a montagem é impecável. O problema é o que o filme escolhe celebrar.
Marty Mauser não é apenas um anti-herói; ele é praticamente o arquétipo do narcisista contemporâneo: um homem impossível de torcer, que atropela leis, ética e pessoas em nome de uma obsessão cega pelo topo.
O filme parece operar sob a lógica de que, se você for implacável o suficiente, o mundo eventualmente se curvará aos seus pés. Nesse sentido, ele reflete perfeitamente o nosso tempo: uma era em que ego, autoconfiança performática e brutalidade competitiva frequentemente parecem valer mais do que competência real ou caráter. Ao transformar Marty em uma figura aceitável (ou até digna de um épico) Safdie flerta perigosamente com a ideia de que o sucesso justifica os meios.
Talvez a intenção seja crítica, claro. Mas aí lembro de como muita gente abraçou o Capitão Nascimento como herói absoluto, ignorando que Tropa de Elite também pretendia ser uma reflexão sobre violência e autoritarismo. Quando um personagem é apresentado com tanta aura de grandeza, até que ponto a crítica realmente chega ao público?
Marty Supreme acaba sendo um estudo de personagem fascinante, mas que deixa um gosto amargo. No fim, Marty não é só um indivíduo, ele é o espelho de uma sociedade que parou de questionar a moral dos vencedores e passou apenas a aplaudir seus troféus.
Se o cinema também serve como registro do seu tempo, esse filme parece capturar com precisão um mundo que premia o pior da humanidade, desde que venha acompanhado de uma vitória esmagadora.
Em #salverosa, o filme parece determinado a transformar Vera em heroína, mas quanto mais a história avança, mais essa tentativa soa artificial. A narrativa aposta na lógica de que, diante de uma vilã monstruosa como Dora, qualquer oposição a ela se torna automaticamente virtuosa. Só que o próprio roteiro sabota essa leitura.
Vera não age movida por altruísmo. Ela age movida por obsessão e inveja. Persegue Dora, monitora seus movimentos, invade sua casa, manipula situações, altera imagens de segurança, abusa do poder que tem como síndica. Não são deslizes morais isolados; é um padrão consistente de controle e violação. Ainda assim, o filme enquadra tudo como estratégia necessária para um “bem maior”, como se a intenção, nunca totalmente clara, anulasse a gravidade dos atos.
O que mais fragiliza essa suposta redenção é a motivação. Em nenhum momento Vera parece genuinamente preocupada com Rosa como indivíduo. Suas falas sobre Dora estão carregadas de fascínio e inveja, quase uma ânsia de decifrar a fórmula do sucesso. A impressão é menos de alguém tentando salvar uma criança e mais de alguém tentando aprender um método.
Isso torna o desfecho especialmente inquietante: quando Vera termina sorrindo ao lado da maca da ambulância em que Rosa está, a cena não transmite libertação ou acolhimento, mas substituição. Sai uma figura controladora, entra outra; mais sofisticada, mais articulada, mas ainda assim interessada em gerir um talento.
Há também uma ironia moral difícil de ignorar. O filme condena com razão a exploração explícita praticada por Dora, mas trata com naturalidade a exposição da própria filha de Vera nas redes sociais. Em uma cena, Vera entra no quarto e a filha criança grava um vídeo dançando sem shorts /de calcinha. A cena não é construída como crítica; é quase afetuosa. Vera demonstra orgulho, consciente de que a objetificação renderá curtidas.
A diferença parece residir mais na embalagem do que na essência. Dora é grotesca e direta. Vera é polida e discursivamente consciente. Ambas, porém, instrumentalizam crianças.
Talvez o filme quisesse construir uma personagem ambígua, alguém que opera nas zonas cinzentas da moralidade. Se era essa a intenção, faltou assumir o desconforto até o fim. O problema não é Vera ser complexa — é o roteiro premiar essa complexidade como se fosse virtude.
No fim, #salverosa denuncia a exploração infantil, mas tropeça ao romantizar quando essa exploração vem revestida de boas intenções e capital simbólico. Combater um monstro não transforma ninguém automaticamente em heroína. Às vezes, apenas muda quem ocupa o centro da narrativa.
Acabei de assistir quatro episódios longos pra descobrir que o caso continua exatamente como estava: não resolvido desde 1994. A série começa com um cold case… e termina com o mesmo cold case. Nenhuma conclusão, nenhum avanço definitivo. Só frustração.
Se fosse pra dar um nome mais honesto, poderia ser “Frustrações de um Cold Case”.
A produção escolhe focar nos investigadores no presente. Mostra cadeia de custódia, procedimentos, reanálise de provas, toda a parte técnica de uma investigação. Isso é interessante no começo — você entende como funciona o processo. Mas também escancara o quanto esse tipo de investigação é lento, burocrático e, muitas vezes, estagnado. E essa lentidão dita o ritmo da série inteira.
Tecnicamente, a série é bem feita. A edição tenta criar tensão, a trilha ajuda a dar movimento, as entrevistas são bem conduzidas. Mas como o caso não foi solucionado, a narrativa parece perdida também. Dá a sensação de que estavam acompanhando algo que talvez evoluísse… e simplesmente decidiram parar. Como se as gravações tivessem sido suspensas porque não havia mais o que mostrar.
No fim, não é que seja ruim. É frustrante. E talvez esse seja justamente o problema.
Saí de Good Boy com a sensação de que o verdadeiro “bom garoto” sou eu, por ter ficado sentado até o fim.
O filme insiste em se vender como uma experiência imersiva ao adotar integralmente o ponto de vista do cachorro. A promessa é de radicalidade sensorial; o resultado é empobrecimento dramático. Ao limitar a percepção e ocultar sistematicamente os rostos humanos, a narrativa não se torna mais intensa — torna-se mais rasa. O que deveria ampliar a tensão e a complexidade emocional acaba reduzido a estímulo visual repetido.
Sem humanidade visível, não há humanidade dramática. O que sobra são sequências de susto que se acumulam sem construção real. Existe ali uma possível metáfora envolvendo a doença do dono do protagonista, mas o filme prefere sugerir profundidade em vez de realmente mergulhar nela.
E quando tenta intensificar o horror, surge uma mão de monstro cenográfica tão mal resolvida na iluminação que parece claramente uma pessoa de collant preto esticando o braço para dentro do quadro. Qualquer sensação de susto ou horror vai embora na mesma hora.
Vale dizer: usar a perspectiva de um cachorro já foi usada com muito mais sensibilidade em um único episódio de High Maintenance (ep03).
Em After the Hunt, a trilha sonora parece ter decidido disputar o protagonismo com o elenco e o roteiro. E, convenhamos, quando se tem Julia Roberts, um elenco de peso e um texto inteligente, por que escolher dar o holofote à música? O resultado é uma experiência sonora prepotente, quase soberba, que insiste em se impor sobre o filme, todo o tempo.
As escolhas musicais são, sem dúvida, sofisticadas: Caetano, Jobim, Morrissey, John Adams. Mas o problema não está na seleção, e sim na forma como ela é apresentada — em volume excessivo, sobrepondo diálogos cruciais e até obrigando o roteiro a justificar, em cena, por que determinada música precisa soar tão alta. É como se o filme dissesse: “não preste atenção no que estamos falando, concentre-se na música.”
Essa disputa entre música e atuação gera um desequilíbrio desconfortável. Em vários momentos, a trilha vence os atores. O ápice do exagero surge em cenas banais, como Julia Roberts caminhando pelo corredor de casa, embalada por uma música instrumental de suspense tocando no talo. Para quê transformar cada gesto cotidiano em uma explosão de estímulo sonoro? A impressão final é de um filme que aposta no overstimulation como estratégia: saturar o espectador para garantir atenção.
After the Hunt deixa a sensação de que a trilha sonora não acompanhou o filme; ela tentou dominá-lo. E, por mais brilhante que seja, música não deveria abafar mas sim complementar.
50 Segundos é um documentário tecnicamente caprichado, mas que me deixou desconfortável pela forma como escolhe contar a história. A série tenta mostrar “todos os lados”, mas acaba abrindo espaço demais para a versão dos rugbiers e de suas famílias.
Em vários momentos, o tom é tão compreensivo com eles que cheguei a sentir que, de tanto cuidado, o documentário estava preparando algum tipo de reviravolta — como se, de repente, eles fossem ser inocentados ou algo mudasse completamente o que já se sabe. Só que essa reviravolta nunca chega, porque ela simplesmente não existe.
A realidade do caso é clara: há vídeos, testemunhos, perícias e até a marca do tênis no rosto de Fernando. As provas são sólidas, a responsabilidade é estabelecida, e a condenação aconteceu por motivos bem fundamentados. Mesmo assim, o documentário insiste em dar destaque para uma narrativa que a defesa repetiu exaustivamente, mas que não se sustenta. Em vez de questionar esses argumentos, a série acaba tratando a versão dos condenados com um peso quase igual ao dos fatos comprovados.
Entendo a intenção de mostrar como o crime impactou várias vidas, mas isso não muda o fato de que só uma vida foi perdida — e de forma brutal. O foco excessivo na perspectiva dos rugbiers cria uma sensação de neutralidade artificial e enfraquece a força do próprio caso.
No geral, o documentário é assistível, mas falha onde mais importa: na escolha editorial de dar voz demais para quem passou anos negando algo registrado em vídeo. Para mim, ficou mais como um exercício de relativização do que como uma reconstrução honesta.
O final foi muito anticlimático. Poderiam ter escolhido pessoas que realmente estivessem interessadas em participar do reality e/ou que precisassem do dinheiro. Não sei se a Valkyrae foi demitida ou se ela meteu atestado, mas achei nada a ver ela não participar da final. O que deve ter rolado? O Fanum tava lá, sabe? Ficou parecendo que os Sidemen queriam apresentar o programa todo, mas não deixaram.
Sou fã do universo Alien. Amo a mitologia, o terror existencial, a estética decadente e a tensão claustrofóbica. Alien: Earth acerta em cheio no visual: a fotografia é linda, a direção respeita o legado, e os recursos de câmera — como os giros desconcertantes — são uma homenagem clara ao filme original. A estética retrô, com salas cheias de botões e tecnologia ultrapassada, me incomodou no início, mas fez sentido ao perceber que a série se passa antes do filme de 1979. Ponto pra coerência.
A série é parada, arrastada, e parece mais preocupada em parecer profunda do que em contar uma história envolvente. A escolha de colocar adultos interpretando crianças é, sinceramente, insuportável. Quando uma criança faz birra ou toma decisões burras, a gente releva — é parte da inocência. Mas quando um adulto faz isso, tentando emular uma mente infantil, o resultado é só raiva. A estupidez infantil, sem o carisma da infância, vira um fardo narrativo. Cenas e diálogos óbvios se acumulam, tornando tudo previsível e cansativo.
Alien: Earth tenta antropomorfizar os xenomorfos, suavizando sua natureza. A série os trata como “criaturas” — quase como animais exóticos — vítimas de exploração humana. Essa abordagem reflete a sensibilidade de 2025, onde animais não devem ser machucados, e tudo precisa ter uma camada ética. Mas isso dilui absurdamente o terror que os aliens sempre representaram. Eles deixam de ser o “outro absoluto”, a ameaça impessoal e implacável, e passam a ser quase compreensíveis. Isso enfraquece o horror visceral que fez da franquia um marco
Não só dilui o terror como contradiz diretamente o comportamento dos aliens nos filmes anteriores. A franquia sempre deixou claro: qualquer tentativa de humanizar, domesticar ou negociar com os xenomorfos termina em morte. O horror vinha justamente da impossibilidade de diálogo — e agora querem nos fazer sentir pena.
"Eles não são animais, são predadores perfeitos" como dizia Ash.
Alien: Earth é uma obra que respeita o visual da franquia, mas falha em capturar sua alma. É bonita, sim. Mas beleza sem substância não sustenta oito episódios de frustração. E quando até o alien deixa de ser assustador, talvez seja hora de repensar o que estamos chamando de terror.
Love Con Revenge tenta surfar na onda de The Tinder Swindler, mas entrega algo mais próximo de Catfish da MTV — só que sem a decência de assumir que é um reality show. Vendido como docuseries investigativo sobre golpes românticos, o que vemos é uma dramatização forçada, artificial e mal disfarçada.
O problema começa pela teatralidade. Uma das cenas “clímax” envolve uma armadilha armada pelas investigadoras para confrontar um golpista num parque. Ele aparece, percebe a situação e foge de carro. Parece eletrizante — até você lembrar que, se a imagem dele foi exibida, houve liberação de uso. Ou seja, no mínimo, a cena foi reconstituída. E isso dá à série um ar de teatro mal ensaiado.
Essa artificialidade se espalha por diálogos que soam decorados, cliffhangers forçados e recriações que lembram dramatizações baratas de programas policiais. A espontaneidade é inexistente, e a narrativa perde credibilidade. Parece que a produção não confia no peso das histórias reais e tenta compensar com suspense de quinta categoria.
E tem mais: em vários momentos, a série esconde informações como se a vítima estivesse completamente perdida, até que, graças à “incrível investigação”, os produtores descobrem um fato revelador. Mas quando vão conversar com a vítima com essa “descoberta”, ela já sabia de tudo e ainda explica melhor o que aconteceu. Ou seja, ou estão inventando mistérios para poder solucioná-los depois, ou são péssimos investigadores que não sabem fazer perguntas básicas. Em qualquer dos casos, o resultado é o mesmo — uma narrativa manipulada, que sacrifica a verdade em nome de um suspense barato.
E isso é lamentável, porque o tema é urgente e relevante. Golpes amorosos devastam vidas, arruínam finanças e deixam cicatrizes emocionais profundas. A série até toca nesses pontos, mas o impacto é diluído pela obsessão em “cinematizar” tudo. O que poderia ser um documentário potente sobre abuso e manipulação vira entretenimento plastificado.
Olha, sem querer causar, mas o título do documentário Unknown Number: The High School Catfish me incomodou. O que aconteceu ali não parece exatamente catfishing. Catfishing é quando alguém se passa por outra pessoa, assume uma identidade falsa para enganar. No caso da Lauryn, a mãe não estava interpretando uma pessoa ou personagem específico, mas simplesmente se escondendo atrás do anonimato de um número mascarado.
Talvez tenha sido decisão de marketing: usar “catfishing” porque é um termo mais popular e chama atenção, ainda que não descreva corretamente o que houve? Ou então resolveram simplificar para o público, mas essa simplificação ensina errado. Afinal, são comportamentos digitais diferentes: um é impersonation, o outro é anonimato abusivo.
E acho que é importante a gente começar a dar nomes corretos para essas práticas digitais. É como comparar um homicídio cometido com uma faca e outro com uma arma de fogo: nos dois casos existe o crime, mas a forma de execução importa — muda a interpretação, a gravidade e até a pena. Do mesmo jeito, confundir catfishing com anonimato abusivo atrapalha o entendimento e dificulta uma futura criação de leis que responsabilizem cada tipo de abuso de forma adequada.
Se não existe uma palavra exata, paciência. Mas chamar isso de catfishing é forçar demais. Se quiser, eu até invento uma melhor: Anonning. Pronto, tá batizado.
A mãe assumiu toda a culpa, sem hesitar, mas até hoje ela insiste que não foi ela quem enviou as primeiras mensagens. Se não foi ela… então quem foi? A polícia investigou isso de verdade? O documentário não deixa claro se eles simplesmente ignoraram essa parte por ela já não ter credibilidade, ou se realmente verificaram e confirmaram que todas as mensagens saíram do celular da mãe. Faltou essa explicação.
O que fica evidente é que a Kendra, mãe da Lauryn, vive numa realidade paralela, com interpretações próprias dos fatos. Mas se ela não iniciou as mensagens, só pode ter sido a própria Lauryn. E se Lauryn sabia desde o começo, isso muda completamente a narrativa e explica vários comportamentos dela. Tipo, ela não parece surpresa ao descobrir que a própria mãe estava por trás de tudo.
Na verdade, me parece que Lauryn é extremamente carente e dependente da mãe. Por isso, prefiro acreditar que essa defesa incondicional que ela faz da mãe vem de um envolvimento direto e de uma certa culpa também — e não apenas de um apego disfuncional a alguém que claramente estava fazendo mal a ela.
Não quero aceitar que esse comportamento seja só resultado de carência e dependência afetiva. Tem algo mais aí.
E se, no fim das contas, Lauryn realmente não sabia de nada… então espero de coração que ela esteja em terapia intensa, cercada de pessoas que a ajudem a enxergar tudo com clareza. Porque viver sob a influência de alguém que distorce a realidade não é só doloroso — é perigoso.
The Better Sister acerta em muitos aspectos. As atuações são impecáveis, e o elenco realmente eleva o material — até em momentos em que o roteiro não entrega tudo o que poderia. É um daqueles casos em que a presença e entrega dos atores seguram a série e fazem dela uma experiência envolvente.
Minha principal crítica, no entanto, vai para a forma como a produção foi anunciada e conduzida. Vendida como minissérie, a expectativa natural era de uma narrativa fechada, com início, meio e fim definidos. Só que, ao invés de encerrar todos os pontos abertos da temporada, a série opta por um final em aberto, com um gancho evidente para uma possível segunda temporada.
Isso reflete uma tendência que tenho notado: parece que já não existem mais minisséries de verdade, apenas franquias em potencial. Mesmo quando a trama poderia se encerrar de maneira satisfatória, preferem deixar portas entreabertas, sacrificando a sensação de conclusão.
No caso específico de The Better Sister, os últimos dois minutos trazem um novo mistério — a morte de Jake, o amante de Chloe — que não dialoga com o arco principal e soa como um recurso artificial para manter o assunto vivo. Se a avaliarmos de fato como minissérie, como foi apresentada, esse gancho é desnecessário e até prejudica a força do desfecho.
Em resumo: The Better Sister tem grandes méritos, mas tropeça justamente no que deveria ser sua maior qualidade
Então, pra mim esse documentário não é true crime, é true trauma. O documentário é sobre dor coletiva e o esforço de uma cidade inteira em preservar um trauma pra tentar obter alguma resolução.
O ponto forte de Together é, sem dúvida, o casamento entre horror e comédia — e que casamento bem trabalhado! A mistura funciona muito bem, criando momentos que são ao mesmo tempo desconfortáveis e hilários. Não sabia que Dave Franco e Alison Brie são casados na vida real, mas a química entre eles é tão forte que parece impossível que não fossem. A conexão dos personagens é palpável e dá peso emocional à bizarrice da trama.
Um dos momentos que mais me marcou foi quando ele pega o álbum das Spice Girls. Como Wannabe é a primeira faixa, eu já estava esperando que fosse ela — achei que eles iam se fundir ao som de “yo I’ll tell you what I want…” Mas aí começa 2 Become 1 e eu simplesmente gritei aqui em casa. Foi a cereja do bolo: engraçado, inesperado e incrivelmente simbólico. Uma escolha musical que resume perfeitamente o absurdo e a ternura da situação.
CatBoy, dirigido por Cristian Sitjas, tenta se posicionar como uma crítica ao racismo e à exclusão dentro da comunidade LGBTQ+. A premissa é clara: Marc, um jovem negro e latino, sofre rejeições em aplicativos de namoro por conta da sua raça. Até aí, tudo bem — o tema é urgente e merece atenção. Mas o curta falha justamente onde deveria ser mais honesto: na sua própria contradição.
Marc se queixa de que homens brancos não querem sair com ele por ele ser racializado. Mas o desfecho do filme é ele transando com um homem branco, musculoso, padrão, com direito a cena explícita e idealização estética. A crítica ao racismo se dissolve num desejo que segue exatamente os mesmos padrões que o filme supostamente condena. Isso não é subversão — é conformismo disfarçado de denúncia.
O resultado é um exemplo claro de moralismo autocomplacente: o filme aponta o dedo para o racismo dos outros, mas não se questiona sobre o que significa desejar apenas corpos brancos e normativos. Não há qualquer reflexão sobre o racismo internalizado, nem sobre como o desejo também é político. O protagonista não quer mudar o jogo — só quer ser aceito por ele.
Visualmente, o curta tenta compensar sua fragilidade narrativa com estética de videoclipe e atmosfera de baile queer. Mas mesmo o espaço Ballroom, historicamente criado por pessoas negras e trans, é usado aqui como pano de fundo para reafirmar o desejo por corpos brancos e dominantes. É como se o filme quisesse usar a cultura marginalizada como cenário, sem realmente se comprometer com ela.
CatBoy não é ousado. É previsível. E sua tentativa de provocar acaba revelando mais sobre o que ele evita discutir: que criticar o racismo exige mais do que se sentir excluído — exige também revisar o que se deseja, quem se idealiza e por que.
Honestamente? Não considero isso um documentário de true crime de verdade — e muito menos uma obra centrada nas vítimas, como promete ser. O foco real é nas famílias das vítimas, nos amigos, vizinhos, conhecidos… praticamente qualquer um que pudesse fornecer um depoimento emocional. É uma sequência repetitiva de reações e lembranças, com cara de memorial. Pra mim, isso foi forçação de barra e enrolação emocional do início ao fim.
A narrativa, inclusive, é deliberadamente manipuladora. O primeiro episódio já estabelece uma tensão ao mostrar que as amigas das sobreviventes foram chamadas para ir até a casa pela manhã, antes da polícia ser acionada. Só que a série esconde por completo, até o último episódio, o fato de que Dylan — uma das sobreviventes — viu o assassino mascarado saindo da casa no meio da madrugada. Isso está documentado no mandado de prisão desde janeiro de 2023. Ou seja, não é uma reviravolta, é um fato escondido de propósito.
E o mais grave: os amigos e familiares já sabiam disso. Eles sabiam do carro branco, sabiam do que Dylan viu, sabiam que a polícia já tinha suspeitas sólidas. O próprio documentário já tinha esse conhecimento. Mas escolhe fingir que ninguém sabia de nada, como se o caso estivesse completamente em aberto, só para poder gastar episódios inteiros explorando rumores de internet e acusações aleatórias. Se esses fatos tivessem sido revelados desde o início, a série perderia a desculpa para alimentar o suspense artificial em cima de fofocas já descartadas.
Além disso, me incomodou o cuidado excessivo com a imagem da sobrevivente. O documentário parece mais interessado em protegê-la de qualquer julgamento do que em expor os fatos de forma honesta. Mas não tem como ignorar a pergunta que todos já fizeram (mesmo que em silêncio):
Será que alguma vítima ainda estava viva?
Eles morreram na hora ou sangraram até a morte?
O documentário evita completamente essas questões, como se fossem proibidas de serem discutidas — o que, sinceramente, soa mais como controle narrativo do que empatia real.
No fim das contas, One Night in Idaho não informa, não investiga e não entrega nenhuma nova perspectiva. É uma dramatização emotiva construída em cima de omissões conscientes, que gasta tempo com teorias falsas e se recusa a lidar com os pontos difíceis do caso.
Eu entendo que documentários de crimes reais são muito criticados por explorarem o sofrimento alheio, e que aqui talvez tenham tentado construir uma versão mais cuidadosa e respeitosa diante das atrocidades que aconteceram. Mas, no fim, o caminho narrativo que a série escolheu acaba deixando o público com muito mais perguntas do que respostas. E em um caso como esse — com tantos fatos já disponíveis — isso parece mais uma escolha editorial do que uma limitação ética
Adorei o formato. Os roteiristas conseguiram capturar perfeitamente o humor característico da Phoebe, tornando a experiência envolvente e divertida. Também achei fascinante a abordagem feminina sobre o tema. Mas, sejamos sinceros—se colocassem a Phoebe para ler uma bula de remédio, eu ainda acharia interessante.
O que realmente me incomodou foi a escolha dos polvos como foco central. Por mais incríveis que sejam, já foram exaustivamente explorados em outros documentários, especialmente desde o hype de 2020. Claro, os pontos sobre antropomorfismo são válidos, mas, além disso, o que há de realmente novo aqui? A especulação de que, talvez um dia, um biólogo italiano consiga provar que existem polvos vivendo em comunidade no México?
Sinto que, se eu não soubesse absolutamente nada sobre esses animais, teria apreciado mais a obra.
O curta tem uma premissa interessante mas parece que quiseram terminar o curta com uma cena impactante ou surpreendente, o que, pra mim, desandou a história toda.
O filme termina com a Bia matando o Léo? Então a mensagem do curta é: Como se combate a transfobia? Matando os transfóbicos. Não sei se era essa a intenção mas essa mensagem parece um pouco distorcida e problemática.
Colocar a Bia como a assassina não faz sentido pois sua motivação parece fraca e desproporcional. Se o curta terminasse com o André matando o Léo, faria muito mais sentido, já que André sofreu violência física de Léo e a reação a traumas pode ser imprevisível.
Sei lá, o curta poderia ter terminado com a mensagem de que violência gera violência mas escolheu terminar com a mensagem de que se pode combater violência, com mais violência.
"Y2K" parece uma versão adolescente dos filmes da A24, mas infelizmente, esse tom mais leve e a falta de ousadia resultaram em um filme que se tornou muito infantilizado. Ele não se destaca nem como uma comédia, nem como um filme de terror, e acaba não agradando em nenhum desses gêneros.
As referências aos anos 2000 estão espalhadas por todo o filme, mas de maneira inconsistente. A cena inicial é, sem dúvida, bem legal, mostrando a realidade dos usuários de PC daquela época: gravando CDs, usando internet discada e esperando eternamente para carregar uma foto. No entanto, após essa introdução promissora, o filme se perde. Por exemplo, o pen drive, que só foi inventado depois dos anos 2000, é usado pela personagem principal para salvar o mundo. Naquela época, mal tínhamos DVDs, e para salvar o mundo, ela teria que gravar um CD. Provavelmente o vírus seria grande demais e precisaria ser dividido em dois CDs, o que teria sido uma representação mais precisa e divertida.
Outro ponto que me incomodou foi o uso de stop motion para os monstros. Os anos 90/00 marcaram o início do CGI, enquanto o stop motion era muito mais popular nos anos 80. Embora não haja problema em usar essa técnica, parece que o filme tentou transmitir uma vibe vintage, mas acabou passando uma sensação amadora e infantil, ao invés de ser "cool" como os criadores imaginaram.
No final, fiquei sem entender por que classificaram esse filme como para maiores de 18 anos. Não faz sentido, já que todo o filme parece ter sido feito para um público que não viveu essa época. Eles perderam a oportunidade de conectar melhor com a geração que realmente entende as nuances e os detalhes dos anos 2000.
É um filme legal, mas tenho que dizer que o título não ajuda muito. Primeiro, é super longo. Segundo, o nome faz parecer que o filme é sobre espaço, fantasia ou aventura.
E aí, quando assistimos, é um romance coming of age, mais voltado para o drama.
Outra coisa que me incomodou foi passar o filme todo querendo descobrir qual é o segredo do universo, para no final descobrir que é apenas o amor entre dois homens. No século XXI, acho problemático tratar o amor LGBTQIA+ como um segredo, em vez de algo natural e normal que acontece na vida de muitos.
Talvez no livro, a relação deles com as estrelas e o espaço seja mais bem trabalhada e faça mais sentido. Mas no filme, só tem uma cena em que eles usam um telescópio, o que não justifica o título.
Também não gostei muito da caracterização do Eugenio Derbez como o pai. Acho que no livro ele deve ter a barba e o cabelo brancos, e quiseram manter isso no filme, mas acabou ficando meio fantasia. Como ele tem cenas muito dramáticas, isso atrapalhou um pouco a seriedade da história.
Mas tirando isso, o filme é bem fofo e tem um elenco ótimo que eleva tudo.
Quando assisti ao filme fui confrontado por uma narrativa que me deixou bastante incomodado. A premissa do filme é que as conexões emocionais podem ser mais complicadas e profundas do que as categorias de identidade. Isso é interessante e, de fato, acredito que sentimentos humanos muitas vezes transcendem rótulos. No entanto, a forma como o filme aborda essa ideia levanta questões sérias.
A história de Adam, um jovem heterossexual que finge ser trans para se aproximar de uma garota lésbica, é problemática desde o início. Ver Adam mentir sobre sua identidade de gênero sem enfrentar consequências significativas trivializa a experiência das pessoas trans. Ele mente para se aproximar de Gillian, o que é uma grave violação de confiança e respeito. A falta de consequências para suas ações ao longo do filme foi um grande ponto de desconforto para mim.
O final do filme, onde Adam comenta que encontrou o skyline que estava procurando, e seu amigo trans o corrige dizendo que ele está olhando para New Jersey e não para NYC, pode ser visto como uma metáfora para tentar consertar os erros do filme? Isso simboliza como Adam tem percebido tudo errado desde o início? Ele acha que está no caminho certo, mas na verdade está perdido e confuso sobre o que realmente importa?
Essa cena final me deixou pensando que, talvez, o filme estivesse tentando mostrar que Adam ainda não entende a profundidade de suas ações e suas consequências. No entanto, isso não desculpa a falta de responsabilização ao longo do filme.
A ideia central de que as conexões emocionais podem transcender as identidades é válida. Sim, uma lésbica pode se apaixonar por um homem cis hetero. Mas isso não deveria justificar mentir sobre uma identidade tão fundamental.
Os Cantores
3.5 41 Assista AgoraO conto do Ivan é simples: dois homens competem cantando em um bar. Um tem técnica, o outro é um camponês. No final, o camponês vence porque canta com a alma.
Acho que o diretor tentou trazer essa ideia de “camponeses” para hoje; pessoas comuns, descobertas nas redes sociais, colocadas dentro de um filme com produção de Hollywood. E isso, por si só, é interessante. Até porque todos eles são talentosos.
O problema é que ele não trouxe só as pessoas, trouxe também a linguagem. A estética do TikTok aparece o tempo todo: há cenas de dancinha, quase não há diálogo, e até os momentos dramáticos são construídos em gestos rápidos, pensados para impacto imediato.
No fim, em vez de transformar essa linguagem em cinema, o curta parece apenas reproduzi-la em um formato mais sofisticado. Fica como se ele tivesse filmado sua timeline.
Guerreiras do K-Pop
3.7 211 Assista AgoraGente, eu vou ter que problematizar. Foi mal.
“Guerreiras do K‑Pop” tenta se vender como uma aventura empoderadora, mas por trás do brilho neon e das coreografias estilizadas existe uma narrativa surpreendentemente desconfortável. O filme constrói um mundo onde um povo decide realizar uma limpeza étnica contra outro grupo considerado ‘essencialmente mau’. A justificativa é simples e perigosa: se eles nascem monstros, então merecem ser exterminados.
A protagonista, ao descobrir que é “meio monstra”, embarca numa jornada de autodescoberta que poderia ter sido uma crítica ao próprio sistema opressor. Ela encontra outro personagem monstro, que se sacrifica por ela, e isso a leva a compreender que sua natureza não determina sua moralidade. Até aqui, tudo aponta para uma virada ética: se ela não é má por nascer diferente, então o genocídio é injustificável.
Mas o filme vira de cabeça para baixo justamente nesse ponto. Em vez de questionar o sistema, ela o reforça. Em vez de romper com a lógica genocida, ela a executa até o fim — eliminando toda uma população. A mensagem final, portanto, não é sobre empatia, coexistência ou superação de preconceitos, mas sobre justificar violência extrema quando convenientemente enquadrada como “heroica”.
É uma inversão moral estranha, típica de certas narrativas hollywoodianas que confundem catarse com extermínio. O filme tenta nos fazer torcer por uma protagonista que, ao aceitar sua identidade, decide que o caminho é destruir o outro lado por completo. É uma conclusão que soa vazia, apressada e, no fundo, contraditória com o próprio arco emocional que o filme parecia construir.
No fim, “Guerreiras do K‑Pop” é visualmente chamativo, mas eticamente raso. Ele desperdiça a chance de explorar nuances e cai na solução mais fácil; e mais problemática. Sai-se do filme com a sensação de que a história queria dizer algo sobre identidade e aceitação, mas acabou entregando apenas mais um espetáculo de destruição embalado como triunfo moral.
Tinha que ser estado-unidense.
Marty Supreme
3.7 315 Assista AgoraA grande questão aqui não é se o filme é bom. Tecnicamente, a atuação de Timothée Chalamet é sólida e a montagem é impecável. O problema é o que o filme escolhe celebrar.
Marty Mauser não é apenas um anti-herói; ele é praticamente o arquétipo do narcisista contemporâneo: um homem impossível de torcer, que atropela leis, ética e pessoas em nome de uma obsessão cega pelo topo.
O filme parece operar sob a lógica de que, se você for implacável o suficiente, o mundo eventualmente se curvará aos seus pés. Nesse sentido, ele reflete perfeitamente o nosso tempo: uma era em que ego, autoconfiança performática e brutalidade competitiva frequentemente parecem valer mais do que competência real ou caráter. Ao transformar Marty em uma figura aceitável (ou até digna de um épico) Safdie flerta perigosamente com a ideia de que o sucesso justifica os meios.
Talvez a intenção seja crítica, claro. Mas aí lembro de como muita gente abraçou o Capitão Nascimento como herói absoluto, ignorando que Tropa de Elite também pretendia ser uma reflexão sobre violência e autoritarismo. Quando um personagem é apresentado com tanta aura de grandeza, até que ponto a crítica realmente chega ao público?
Marty Supreme acaba sendo um estudo de personagem fascinante, mas que deixa um gosto amargo. No fim, Marty não é só um indivíduo, ele é o espelho de uma sociedade que parou de questionar a moral dos vencedores e passou apenas a aplaudir seus troféus.
Se o cinema também serve como registro do seu tempo, esse filme parece capturar com precisão um mundo que premia o pior da humanidade, desde que venha acompanhado de uma vitória esmagadora.
#Salve Rosa
2.7 80 Assista AgoraEm #salverosa, o filme parece determinado a transformar Vera em heroína, mas quanto mais a história avança, mais essa tentativa soa artificial. A narrativa aposta na lógica de que, diante de uma vilã monstruosa como Dora, qualquer oposição a ela se torna automaticamente virtuosa. Só que o próprio roteiro sabota essa leitura.
Vera não age movida por altruísmo. Ela age movida por obsessão e inveja. Persegue Dora, monitora seus movimentos, invade sua casa, manipula situações, altera imagens de segurança, abusa do poder que tem como síndica. Não são deslizes morais isolados; é um padrão consistente de controle e violação. Ainda assim, o filme enquadra tudo como estratégia necessária para um “bem maior”, como se a intenção, nunca totalmente clara, anulasse a gravidade dos atos.
O que mais fragiliza essa suposta redenção é a motivação. Em nenhum momento Vera parece genuinamente preocupada com Rosa como indivíduo. Suas falas sobre Dora estão carregadas de fascínio e inveja, quase uma ânsia de decifrar a fórmula do sucesso. A impressão é menos de alguém tentando salvar uma criança e mais de alguém tentando aprender um método.
Isso torna o desfecho especialmente inquietante: quando Vera termina sorrindo ao lado da maca da ambulância em que Rosa está, a cena não transmite libertação ou acolhimento, mas substituição. Sai uma figura controladora, entra outra; mais sofisticada, mais articulada, mas ainda assim interessada em gerir um talento.
Há também uma ironia moral difícil de ignorar. O filme condena com razão a exploração explícita praticada por Dora, mas trata com naturalidade a exposição da própria filha de Vera nas redes sociais. Em uma cena, Vera entra no quarto e a filha criança grava um vídeo dançando sem shorts /de calcinha. A cena não é construída como crítica; é quase afetuosa. Vera demonstra orgulho, consciente de que a objetificação renderá curtidas.
A diferença parece residir mais na embalagem do que na essência. Dora é grotesca e direta. Vera é polida e discursivamente consciente. Ambas, porém, instrumentalizam crianças.
Talvez o filme quisesse construir uma personagem ambígua, alguém que opera nas zonas cinzentas da moralidade. Se era essa a intenção, faltou assumir o desconforto até o fim. O problema não é Vera ser complexa — é o roteiro premiar essa complexidade como se fosse virtude.
No fim, #salverosa denuncia a exploração infantil, mas tropeça ao romantizar quando essa exploração vem revestida de boas intenções e capital simbólico. Combater um monstro não transforma ninguém automaticamente em heroína. Às vezes, apenas muda quem ocupa o centro da narrativa.
O Caso Melissa Witt: Em Busca de um Assassino
2.8 2 Assista AgoraEra pra ser um filme.
Acabei de assistir quatro episódios longos pra descobrir que o caso continua exatamente como estava: não resolvido desde 1994. A série começa com um cold case… e termina com o mesmo cold case. Nenhuma conclusão, nenhum avanço definitivo. Só frustração.
Se fosse pra dar um nome mais honesto, poderia ser “Frustrações de um Cold Case”.
A produção escolhe focar nos investigadores no presente. Mostra cadeia de custódia, procedimentos, reanálise de provas, toda a parte técnica de uma investigação. Isso é interessante no começo — você entende como funciona o processo. Mas também escancara o quanto esse tipo de investigação é lento, burocrático e, muitas vezes, estagnado. E essa lentidão dita o ritmo da série inteira.
Tecnicamente, a série é bem feita. A edição tenta criar tensão, a trilha ajuda a dar movimento, as entrevistas são bem conduzidas. Mas como o caso não foi solucionado, a narrativa parece perdida também. Dá a sensação de que estavam acompanhando algo que talvez evoluísse… e simplesmente decidiram parar. Como se as gravações tivessem sido suspensas porque não havia mais o que mostrar.
No fim, não é que seja ruim. É frustrante. E talvez esse seja justamente o problema.
Bom Menino
2.9 155 Assista AgoraSaí de Good Boy com a sensação de que o verdadeiro “bom garoto” sou eu, por ter ficado sentado até o fim.
O filme insiste em se vender como uma experiência imersiva ao adotar integralmente o ponto de vista do cachorro. A promessa é de radicalidade sensorial; o resultado é empobrecimento dramático. Ao limitar a percepção e ocultar sistematicamente os rostos humanos, a narrativa não se torna mais intensa — torna-se mais rasa. O que deveria ampliar a tensão e a complexidade emocional acaba reduzido a estímulo visual repetido.
Sem humanidade visível, não há humanidade dramática. O que sobra são sequências de susto que se acumulam sem construção real. Existe ali uma possível metáfora envolvendo a doença do dono do protagonista, mas o filme prefere sugerir profundidade em vez de realmente mergulhar nela.
E quando tenta intensificar o horror, surge uma mão de monstro cenográfica tão mal resolvida na iluminação que parece claramente uma pessoa de collant preto esticando o braço para dentro do quadro. Qualquer sensação de susto ou horror vai embora na mesma hora.
Vale dizer: usar a perspectiva de um cachorro já foi usada com muito mais sensibilidade em um único episódio de High Maintenance (ep03).
Estilo tem. História, quase não.
Depois da Caçada
2.9 116 Assista AgoraEm After the Hunt, a trilha sonora parece ter decidido disputar o protagonismo com o elenco e o roteiro. E, convenhamos, quando se tem Julia Roberts, um elenco de peso e um texto inteligente, por que escolher dar o holofote à música? O resultado é uma experiência sonora prepotente, quase soberba, que insiste em se impor sobre o filme, todo o tempo.
As escolhas musicais são, sem dúvida, sofisticadas: Caetano, Jobim, Morrissey, John Adams. Mas o problema não está na seleção, e sim na forma como ela é apresentada — em volume excessivo, sobrepondo diálogos cruciais e até obrigando o roteiro a justificar, em cena, por que determinada música precisa soar tão alta. É como se o filme dissesse: “não preste atenção no que estamos falando, concentre-se na música.”
Essa disputa entre música e atuação gera um desequilíbrio desconfortável. Em vários momentos, a trilha vence os atores. O ápice do exagero surge em cenas banais, como Julia Roberts caminhando pelo corredor de casa, embalada por uma música instrumental de suspense tocando no talo. Para quê transformar cada gesto cotidiano em uma explosão de estímulo sonoro? A impressão final é de um filme que aposta no overstimulation como estratégia: saturar o espectador para garantir atenção.
After the Hunt deixa a sensação de que a trilha sonora não acompanhou o filme; ela tentou dominá-lo. E, por mais brilhante que seja, música não deveria abafar mas sim complementar.
50 Segundos: O Caso Fernando Báez Sosa (1ª Temporada)
3.4 750 Segundos é um documentário tecnicamente caprichado, mas que me deixou desconfortável pela forma como escolhe contar a história. A série tenta mostrar “todos os lados”, mas acaba abrindo espaço demais para a versão dos rugbiers e de suas famílias.
Em vários momentos, o tom é tão compreensivo com eles que cheguei a sentir que, de tanto cuidado, o documentário estava preparando algum tipo de reviravolta — como se, de repente, eles fossem ser inocentados ou algo mudasse completamente o que já se sabe. Só que essa reviravolta nunca chega, porque ela simplesmente não existe.
A realidade do caso é clara: há vídeos, testemunhos, perícias e até a marca do tênis no rosto de Fernando. As provas são sólidas, a responsabilidade é estabelecida, e a condenação aconteceu por motivos bem fundamentados. Mesmo assim, o documentário insiste em dar destaque para uma narrativa que a defesa repetiu exaustivamente, mas que não se sustenta. Em vez de questionar esses argumentos, a série acaba tratando a versão dos condenados com um peso quase igual ao dos fatos comprovados.
Entendo a intenção de mostrar como o crime impactou várias vidas, mas isso não muda o fato de que só uma vida foi perdida — e de forma brutal. O foco excessivo na perspectiva dos rugbiers cria uma sensação de neutralidade artificial e enfraquece a força do próprio caso.
No geral, o documentário é assistível, mas falha onde mais importa: na escolha editorial de dar voz demais para quem passou anos negando algo registrado em vídeo. Para mim, ficou mais como um exercício de relativização do que como uma reconstrução honesta.
A Vizinha Perfeita
3.5 208 Assista AgoraQue mulher louca, mas faltou explicar o que houve com o iPad/Tablet.
Inside: EUA (1ª Temporada)
1.5 3O final foi muito anticlimático.
Poderiam ter escolhido pessoas que realmente estivessem interessadas em participar do reality e/ou que precisassem do dinheiro.
Não sei se a Valkyrae foi demitida ou se ela meteu atestado, mas achei nada a ver ela não participar da final. O que deve ter rolado? O Fanum tava lá, sabe?
Ficou parecendo que os Sidemen queriam apresentar o programa todo, mas não deixaram.
Alien: Earth (1ª Temporada)
3.2 274 Assista AgoraSou fã do universo Alien. Amo a mitologia, o terror existencial, a estética decadente e a tensão claustrofóbica. Alien: Earth acerta em cheio no visual: a fotografia é linda, a direção respeita o legado, e os recursos de câmera — como os giros desconcertantes — são uma homenagem clara ao filme original. A estética retrô, com salas cheias de botões e tecnologia ultrapassada, me incomodou no início, mas fez sentido ao perceber que a série se passa antes do filme de 1979. Ponto pra coerência.
Mas é aí que os elogios param.
A série é parada, arrastada, e parece mais preocupada em parecer profunda do que em contar uma história envolvente. A escolha de colocar adultos interpretando crianças é, sinceramente, insuportável. Quando uma criança faz birra ou toma decisões burras, a gente releva — é parte da inocência. Mas quando um adulto faz isso, tentando emular uma mente infantil, o resultado é só raiva. A estupidez infantil, sem o carisma da infância, vira um fardo narrativo. Cenas e diálogos óbvios se acumulam, tornando tudo previsível e cansativo.
E o pior de tudo:
Alien: Earth tenta antropomorfizar os xenomorfos, suavizando sua natureza. A série os trata como “criaturas” — quase como animais exóticos — vítimas de exploração humana. Essa abordagem reflete a sensibilidade de 2025, onde animais não devem ser machucados, e tudo precisa ter uma camada ética. Mas isso dilui absurdamente o terror que os aliens sempre representaram. Eles deixam de ser o “outro absoluto”, a ameaça impessoal e implacável, e passam a ser quase compreensíveis. Isso enfraquece o horror visceral que fez da franquia um marco
Não só dilui o terror como contradiz diretamente o comportamento dos aliens nos filmes anteriores. A franquia sempre deixou claro: qualquer tentativa de humanizar, domesticar ou negociar com os xenomorfos termina em morte. O horror vinha justamente da impossibilidade de diálogo — e agora querem nos fazer sentir pena.
"Eles não são animais, são predadores perfeitos" como dizia Ash.
Alien: Earth é uma obra que respeita o visual da franquia, mas falha em capturar sua alma. É bonita, sim. Mas beleza sem substância não sustenta oito episódios de frustração. E quando até o alien deixa de ser assustador, talvez seja hora de repensar o que estamos chamando de terror.
Amor, Golpe e Vingança
3.1 5 Assista AgoraLove Con Revenge tenta surfar na onda de The Tinder Swindler, mas entrega algo mais próximo de Catfish da MTV — só que sem a decência de assumir que é um reality show. Vendido como docuseries investigativo sobre golpes românticos, o que vemos é uma dramatização forçada, artificial e mal disfarçada.
O problema começa pela teatralidade. Uma das cenas “clímax” envolve uma armadilha armada pelas investigadoras para confrontar um golpista num parque. Ele aparece, percebe a situação e foge de carro. Parece eletrizante — até você lembrar que, se a imagem dele foi exibida, houve liberação de uso. Ou seja, no mínimo, a cena foi reconstituída. E isso dá à série um ar de teatro mal ensaiado.
Essa artificialidade se espalha por diálogos que soam decorados, cliffhangers forçados e recriações que lembram dramatizações baratas de programas policiais. A espontaneidade é inexistente, e a narrativa perde credibilidade. Parece que a produção não confia no peso das histórias reais e tenta compensar com suspense de quinta categoria.
E tem mais: em vários momentos, a série esconde informações como se a vítima estivesse completamente perdida, até que, graças à “incrível investigação”, os produtores descobrem um fato revelador. Mas quando vão conversar com a vítima com essa “descoberta”, ela já sabia de tudo e ainda explica melhor o que aconteceu. Ou seja, ou estão inventando mistérios para poder solucioná-los depois, ou são péssimos investigadores que não sabem fazer perguntas básicas. Em qualquer dos casos, o resultado é o mesmo — uma narrativa manipulada, que sacrifica a verdade em nome de um suspense barato.
E isso é lamentável, porque o tema é urgente e relevante. Golpes amorosos devastam vidas, arruínam finanças e deixam cicatrizes emocionais profundas. A série até toca nesses pontos, mas o impacto é diluído pela obsessão em “cinematizar” tudo. O que poderia ser um documentário potente sobre abuso e manipulação vira entretenimento plastificado.
Número Desconhecido: Catfishing na Escola
3.4 140 Assista AgoraE outra coisa rapidinho,
Olha, sem querer causar, mas o título do documentário Unknown Number: The High School Catfish me incomodou. O que aconteceu ali não parece exatamente catfishing. Catfishing é quando alguém se passa por outra pessoa, assume uma identidade falsa para enganar. No caso da Lauryn, a mãe não estava interpretando uma pessoa ou personagem específico, mas simplesmente se escondendo atrás do anonimato de um número mascarado.
Talvez tenha sido decisão de marketing: usar “catfishing” porque é um termo mais popular e chama atenção, ainda que não descreva corretamente o que houve? Ou então resolveram simplificar para o público, mas essa simplificação ensina errado. Afinal, são comportamentos digitais diferentes: um é impersonation, o outro é anonimato abusivo.
E acho que é importante a gente começar a dar nomes corretos para essas práticas digitais. É como comparar um homicídio cometido com uma faca e outro com uma arma de fogo: nos dois casos existe o crime, mas a forma de execução importa — muda a interpretação, a gravidade e até a pena. Do mesmo jeito, confundir catfishing com anonimato abusivo atrapalha o entendimento e dificulta uma futura criação de leis que responsabilizem cada tipo de abuso de forma adequada.
Se não existe uma palavra exata, paciência. Mas chamar isso de catfishing é forçar demais. Se quiser, eu até invento uma melhor: Anonning. Pronto, tá batizado.
Número Desconhecido: Catfishing na Escola
3.4 140 Assista AgoraGente, talvez seja coisa da minha cabeça, mas fiquei com várias dúvidas depois de assistir.
A mãe assumiu toda a culpa, sem hesitar, mas até hoje ela insiste que não foi ela quem enviou as primeiras mensagens. Se não foi ela… então quem foi?
A polícia investigou isso de verdade? O documentário não deixa claro se eles simplesmente ignoraram essa parte por ela já não ter credibilidade, ou se realmente verificaram e confirmaram que todas as mensagens saíram do celular da mãe. Faltou essa explicação.
O que fica evidente é que a Kendra, mãe da Lauryn, vive numa realidade paralela, com interpretações próprias dos fatos. Mas se ela não iniciou as mensagens, só pode ter sido a própria Lauryn. E se Lauryn sabia desde o começo, isso muda completamente a narrativa e explica vários comportamentos dela. Tipo, ela não parece surpresa ao descobrir que a própria mãe estava por trás de tudo.
Na verdade, me parece que Lauryn é extremamente carente e dependente da mãe. Por isso, prefiro acreditar que essa defesa incondicional que ela faz da mãe vem de um envolvimento direto e de uma certa culpa também — e não apenas de um apego disfuncional a alguém que claramente estava fazendo mal a ela.
Não quero aceitar que esse comportamento seja só resultado de carência e dependência afetiva. Tem algo mais aí.
E se, no fim das contas, Lauryn realmente não sabia de nada… então espero de coração que ela esteja em terapia intensa, cercada de pessoas que a ajudem a enxergar tudo com clareza. Porque viver sob a influência de alguém que distorce a realidade não é só doloroso — é perigoso.
A Melhor Irmã (1ª Temporada)
3.4 42The Better Sister acerta em muitos aspectos. As atuações são impecáveis, e o elenco realmente eleva o material — até em momentos em que o roteiro não entrega tudo o que poderia. É um daqueles casos em que a presença e entrega dos atores seguram a série e fazem dela uma experiência envolvente.
Minha principal crítica, no entanto, vai para a forma como a produção foi anunciada e conduzida. Vendida como minissérie, a expectativa natural era de uma narrativa fechada, com início, meio e fim definidos. Só que, ao invés de encerrar todos os pontos abertos da temporada, a série opta por um final em aberto, com um gancho evidente para uma possível segunda temporada.
Isso reflete uma tendência que tenho notado: parece que já não existem mais minisséries de verdade, apenas franquias em potencial. Mesmo quando a trama poderia se encerrar de maneira satisfatória, preferem deixar portas entreabertas, sacrificando a sensação de conclusão.
No caso específico de The Better Sister, os últimos dois minutos trazem um novo mistério — a morte de Jake, o amante de Chloe — que não dialoga com o arco principal e soa como um recurso artificial para manter o assunto vivo. Se a avaliarmos de fato como minissérie, como foi apresentada, esse gancho é desnecessário e até prejudica a força do desfecho.
Em resumo: The Better Sister tem grandes méritos, mas tropeça justamente no que deveria ser sua maior qualidade
— o caráter fechado da história. Se o público deve encarar a obra como minissérie, esse final aberto é um erro.
Os Assassinatos da Loja de Iogurte
3.4 3 Assista AgoraEntão, pra mim esse documentário não é true crime, é true trauma.
O documentário é sobre dor coletiva e o esforço de uma cidade inteira em preservar um trauma pra tentar obter alguma resolução.
Juntos
3.3 389O ponto forte de Together é, sem dúvida, o casamento entre horror e comédia — e que casamento bem trabalhado! A mistura funciona muito bem, criando momentos que são ao mesmo tempo desconfortáveis e hilários. Não sabia que Dave Franco e Alison Brie são casados na vida real, mas a química entre eles é tão forte que parece impossível que não fossem. A conexão dos personagens é palpável e dá peso emocional à bizarrice da trama.
Um dos momentos que mais me marcou foi quando ele pega o álbum das Spice Girls. Como Wannabe é a primeira faixa, eu já estava esperando que fosse ela — achei que eles iam se fundir ao som de “yo I’ll tell you what I want…” Mas aí começa 2 Become 1 e eu simplesmente gritei aqui em casa. Foi a cereja do bolo: engraçado, inesperado e incrivelmente simbólico. Uma escolha musical que resume perfeitamente o absurdo e a ternura da situação.
Catboy
3.0 3CatBoy, dirigido por Cristian Sitjas, tenta se posicionar como uma crítica ao racismo e à exclusão dentro da comunidade LGBTQ+. A premissa é clara: Marc, um jovem negro e latino, sofre rejeições em aplicativos de namoro por conta da sua raça. Até aí, tudo bem — o tema é urgente e merece atenção. Mas o curta falha justamente onde deveria ser mais honesto: na sua própria contradição.
Marc se queixa de que homens brancos não querem sair com ele por ele ser racializado. Mas o desfecho do filme é ele transando com um homem branco, musculoso, padrão, com direito a cena explícita e idealização estética. A crítica ao racismo se dissolve num desejo que segue exatamente os mesmos padrões que o filme supostamente condena. Isso não é subversão — é conformismo disfarçado de denúncia.
O resultado é um exemplo claro de moralismo autocomplacente: o filme aponta o dedo para o racismo dos outros, mas não se questiona sobre o que significa desejar apenas corpos brancos e normativos. Não há qualquer reflexão sobre o racismo internalizado, nem sobre como o desejo também é político. O protagonista não quer mudar o jogo — só quer ser aceito por ele.
Visualmente, o curta tenta compensar sua fragilidade narrativa com estética de videoclipe e atmosfera de baile queer. Mas mesmo o espaço Ballroom, historicamente criado por pessoas negras e trans, é usado aqui como pano de fundo para reafirmar o desejo por corpos brancos e dominantes. É como se o filme quisesse usar a cultura marginalizada como cenário, sem realmente se comprometer com ela.
CatBoy não é ousado. É previsível. E sua tentativa de provocar acaba revelando mais sobre o que ele evita discutir: que criticar o racismo exige mais do que se sentir excluído — exige também revisar o que se deseja, quem se idealiza e por que.
Uma Noite em Idaho: Os Assassinatos na Faculdade
3.5 4Honestamente? Não considero isso um documentário de true crime de verdade — e muito menos uma obra centrada nas vítimas, como promete ser. O foco real é nas famílias das vítimas, nos amigos, vizinhos, conhecidos… praticamente qualquer um que pudesse fornecer um depoimento emocional. É uma sequência repetitiva de reações e lembranças, com cara de memorial. Pra mim, isso foi forçação de barra e enrolação emocional do início ao fim.
A narrativa, inclusive, é deliberadamente manipuladora. O primeiro episódio já estabelece uma tensão ao mostrar que as amigas das sobreviventes foram chamadas para ir até a casa pela manhã, antes da polícia ser acionada. Só que a série esconde por completo, até o último episódio, o fato de que Dylan — uma das sobreviventes — viu o assassino mascarado saindo da casa no meio da madrugada. Isso está documentado no mandado de prisão desde janeiro de 2023. Ou seja, não é uma reviravolta, é um fato escondido de propósito.
E o mais grave: os amigos e familiares já sabiam disso. Eles sabiam do carro branco, sabiam do que Dylan viu, sabiam que a polícia já tinha suspeitas sólidas. O próprio documentário já tinha esse conhecimento. Mas escolhe fingir que ninguém sabia de nada, como se o caso estivesse completamente em aberto, só para poder gastar episódios inteiros explorando rumores de internet e acusações aleatórias. Se esses fatos tivessem sido revelados desde o início, a série perderia a desculpa para alimentar o suspense artificial em cima de fofocas já descartadas.
Além disso, me incomodou o cuidado excessivo com a imagem da sobrevivente. O documentário parece mais interessado em protegê-la de qualquer julgamento do que em expor os fatos de forma honesta. Mas não tem como ignorar a pergunta que todos já fizeram (mesmo que em silêncio):
Será que alguma vítima ainda estava viva?
Eles morreram na hora ou sangraram até a morte?
O documentário evita completamente essas questões, como se fossem proibidas de serem discutidas — o que, sinceramente, soa mais como controle narrativo do que empatia real.
No fim das contas, One Night in Idaho não informa, não investiga e não entrega nenhuma nova perspectiva. É uma dramatização emotiva construída em cima de omissões conscientes, que gasta tempo com teorias falsas e se recusa a lidar com os pontos difíceis do caso.
Eu entendo que documentários de crimes reais são muito criticados por explorarem o sofrimento alheio, e que aqui talvez tenham tentado construir uma versão mais cuidadosa e respeitosa diante das atrocidades que aconteceram. Mas, no fim, o caminho narrativo que a série escolheu acaba deixando o público com muito mais perguntas do que respostas. E em um caso como esse — com tantos fatos já disponíveis — isso parece mais uma escolha editorial do que uma limitação ética
Polvo!
4.3 1 Assista AgoraMinha opinião sobre este documentário é mista.
Adorei o formato. Os roteiristas conseguiram capturar perfeitamente o humor característico da Phoebe, tornando a experiência envolvente e divertida. Também achei fascinante a abordagem feminina sobre o tema. Mas, sejamos sinceros—se colocassem a Phoebe para ler uma bula de remédio, eu ainda acharia interessante.
O que realmente me incomodou foi a escolha dos polvos como foco central. Por mais incríveis que sejam, já foram exaustivamente explorados em outros documentários, especialmente desde o hype de 2020. Claro, os pontos sobre antropomorfismo são válidos, mas, além disso, o que há de realmente novo aqui? A especulação de que, talvez um dia, um biólogo italiano consiga provar que existem polvos vivendo em comunidade no México?
Sinto que, se eu não soubesse absolutamente nada sobre esses animais, teria apreciado mais a obra.
WC Masculino
2.6 16O curta tem uma premissa interessante mas parece que quiseram terminar o curta com uma cena impactante ou surpreendente, o que, pra mim, desandou a história toda.
O filme termina com a Bia matando o Léo? Então a mensagem do curta é: Como se combate a transfobia? Matando os transfóbicos. Não sei se era essa a intenção mas essa mensagem parece um pouco distorcida e problemática.
Colocar a Bia como a assassina não faz sentido pois sua motivação parece fraca e desproporcional. Se o curta terminasse com o André matando o Léo, faria muito mais sentido, já que André sofreu violência física de Léo e a reação a traumas pode ser imprevisível.
Sei lá, o curta poderia ter terminado com a mensagem de que violência gera violência mas escolheu terminar com a mensagem de que se pode combater violência, com mais violência.
Y2K: O Bug do Milênio
2.2 66 Assista Agora"Y2K" parece uma versão adolescente dos filmes da A24, mas infelizmente, esse tom mais leve e a falta de ousadia resultaram em um filme que se tornou muito infantilizado. Ele não se destaca nem como uma comédia, nem como um filme de terror, e acaba não agradando em nenhum desses gêneros.
As referências aos anos 2000 estão espalhadas por todo o filme, mas de maneira inconsistente. A cena inicial é, sem dúvida, bem legal, mostrando a realidade dos usuários de PC daquela época: gravando CDs, usando internet discada e esperando eternamente para carregar uma foto. No entanto, após essa introdução promissora, o filme se perde. Por exemplo, o pen drive, que só foi inventado depois dos anos 2000, é usado pela personagem principal para salvar o mundo. Naquela época, mal tínhamos DVDs, e para salvar o mundo, ela teria que gravar um CD. Provavelmente o vírus seria grande demais e precisaria ser dividido em dois CDs, o que teria sido uma representação mais precisa e divertida.
Outro ponto que me incomodou foi o uso de stop motion para os monstros. Os anos 90/00 marcaram o início do CGI, enquanto o stop motion era muito mais popular nos anos 80. Embora não haja problema em usar essa técnica, parece que o filme tentou transmitir uma vibe vintage, mas acabou passando uma sensação amadora e infantil, ao invés de ser "cool" como os criadores imaginaram.
No final, fiquei sem entender por que classificaram esse filme como para maiores de 18 anos. Não faz sentido, já que todo o filme parece ter sido feito para um público que não viveu essa época. Eles perderam a oportunidade de conectar melhor com a geração que realmente entende as nuances e os detalhes dos anos 2000.
Os Segredos do Universo por Aristóteles e Dante
3.4 52 Assista AgoraÉ um filme legal, mas tenho que dizer que o título não ajuda muito. Primeiro, é super longo. Segundo, o nome faz parecer que o filme é sobre espaço, fantasia ou aventura.
E aí, quando assistimos, é um romance coming of age, mais voltado para o drama.
Outra coisa que me incomodou foi passar o filme todo querendo descobrir qual é o segredo do universo, para no final descobrir que é apenas o amor entre dois homens. No século XXI, acho problemático tratar o amor LGBTQIA+ como um segredo, em vez de algo natural e normal que acontece na vida de muitos.
Talvez no livro, a relação deles com as estrelas e o espaço seja mais bem trabalhada e faça mais sentido. Mas no filme, só tem uma cena em que eles usam um telescópio, o que não justifica o título.
Também não gostei muito da caracterização do Eugenio Derbez como o pai. Acho que no livro ele deve ter a barba e o cabelo brancos, e quiseram manter isso no filme, mas acabou ficando meio fantasia. Como ele tem cenas muito dramáticas, isso atrapalhou um pouco a seriedade da história.
Mas tirando isso, o filme é bem fofo e tem um elenco ótimo que eleva tudo.
O Verão de Adam
3.0 7 Assista AgoraQuando assisti ao filme fui confrontado por uma narrativa que me deixou bastante incomodado. A premissa do filme é que as conexões emocionais podem ser mais complicadas e profundas do que as categorias de identidade. Isso é interessante e, de fato, acredito que sentimentos humanos muitas vezes transcendem rótulos. No entanto, a forma como o filme aborda essa ideia levanta questões sérias.
A história de Adam, um jovem heterossexual que finge ser trans para se aproximar de uma garota lésbica, é problemática desde o início. Ver Adam mentir sobre sua identidade de gênero sem enfrentar consequências significativas trivializa a experiência das pessoas trans. Ele mente para se aproximar de Gillian, o que é uma grave violação de confiança e respeito. A falta de consequências para suas ações ao longo do filme foi um grande ponto de desconforto para mim.
O final do filme, onde Adam comenta que encontrou o skyline que estava procurando, e seu amigo trans o corrige dizendo que ele está olhando para New Jersey e não para NYC, pode ser visto como uma metáfora para tentar consertar os erros do filme? Isso simboliza como Adam tem percebido tudo errado desde o início? Ele acha que está no caminho certo, mas na verdade está perdido e confuso sobre o que realmente importa?
Essa cena final me deixou pensando que, talvez, o filme estivesse tentando mostrar que Adam ainda não entende a profundidade de suas ações e suas consequências. No entanto, isso não desculpa a falta de responsabilização ao longo do filme.
A ideia central de que as conexões emocionais podem transcender as identidades é válida. Sim, uma lésbica pode se apaixonar por um homem cis hetero. Mas isso não deveria justificar mentir sobre uma identidade tão fundamental.