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Eu sou fã de filmes de terror. Psicológico, slasher, zumbi, found footage, gore, espíritos, possessão, casa mal assombrada, enfim...
Minha mãe na adolescência (década de 70), também era fã de filmes do gênero. Até esse filme. kkkkk
Ela me conta que estava sozinha na sala assistindo a esse filme. E no final, a reviravolta, a cara da Kim, do padre... Ela gritava e gritava sem parar. Meus avós pularam da cama para acudi-la. Desde então, minha mãe nunca mais procurou assistir filmes de terror. Finalmente consegui encontrar esse filme e consegui adicionar essa pérola, que fez parte da juventude da minha mãe, ao meu repertório. O filme é mesmo incrível.
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Também estou no Letterboxd:
Sei lá mano, Eu gostei do filme. Mas devo ter dado a nota num momento ruim. LOL.
A introdução do filme já deixa claro o que ele quer dizer:
“Esta história é baseada em uma antiga lenda, sobre guerras e tragédias, mostra o aspecto primitivo que derrubou a civilização. Um buraco, negro e profundo, cuja escuridão persiste desde os tempos remotos até hoje.”
E, pra entender o que vem depois, a gente precisa olhar para dois elementos que são o coração desse filme: o buraco e a máscara de oni.
O buraco, além de existir fisicamente ali no meio daquelas cortadeiras sufocantes, funciona como um símbolo direto do fundo do poço — um espaço de queda moral onde o ser humano despenca quando as circunstâncias apertam. E aqui as circunstâncias são extremas: guerra, fome, desigualdade, caos social. É esse desmoronamento humano que justifica os atos das personagens: matar, roubar, jogar os corpos ali dentro e seguir a vida. O buraco vira praticamente um “mecanismo” da sobrevivência, uma boca faminta da guerra que consome cadáveres e devolve comida. É um ciclo violento que se retroalimenta, assim como a própria guerra.
E a natureza ao redor não está aí à toa. Aquele matagal fechado não é só cenário; é um mar primitivo e alienígena que aprisiona. O vento constante nas folhas cria uma trilha sonora de ansiedade, uma pulsação selvagem que nunca para. A repetição dos caminhos no meio do labirinto de cortadeiras, a falta de horizonte… tudo isso cria uma claustrofobia que reflete a própria condição das personagens. A moita esconde e revela, como a moral de cada um. Não existe saída — só sobrevivência no modo primitivo. É exatamente isso que a introdução diz sobre o “aspecto primitivo que derrubou a civilização e persiste até hoje”. E persiste mesmo: apesar de antigo, Onibaba não é um filme datado. A crítica dele continua viva, especialmente se a gente lembra que ele nasceu no Japão pós-guerra, carregando a memória de um trauma coletivo. O buraco pode ser essa violência histórica que nunca sara.
Agora, a máscara de oni. No folclore japonês, os oni são demônios, ogros, torturadores de almas no inferno. Mas aqui eles funcionam muito mais como um símbolo da desfiguração moral. A primeira aparição da máscara, no rosto do samurai abandonado pelos próprios soldados, já aponta para isso: por trás da nobreza aparente existe crueldade, orgulho, violência. E quando a velha retira a máscara dele, o filme praticamente anuncia que aquela desfiguração — aquela monstruosidade humana — logo será dela também.
A cena em que o samurai diz:
“Que campo de cortadeiras enorme… só de saber que aqui vivem demônios e serpentes”,
e a velha responde:
“Também há monstros como você vagando por aqui”,
carrega uma ironia enorme, porque o filme já está sugerindo que ela também se tornará um demônio. Ou melhor: que ela só vai revelar o demônio humano que já estava lá.
E tudo isso tem a ver com o desejo, que no filme aparece de maneira crua, tátil e desesperada. A gente sente o suor, a respiração ofegante, a lama, a carne. O filme é visceral. A velha não é movida só por ciúme da nora; ela teme perder o único vínculo que garante sua sobrevivência. O sexo vira ameaça, vira ruptura, vira instinto. O filme deixa claro que, quando tudo é tirado — comida, estrutura social, espiritualidade, esperança — o que sobra são os impulsos mais básicos. E não é coincidência que não exista religião no filme: nenhum templo, nenhum kami, nenhum Buda. A única “espiritualidade” é a máscara demoníaca, usada como interface para a mentira e o terror. Ou seja, o divino desaparece, e o humano fica exposto em seu estado mais cru, nu e desesperado.
No fim, o destino da velha se iguala ao do samurai: ambos marcados pela própria maldade, com a “face desfigurada” no fundo do poço — literal ou simbolicamente.
E tem mais um detalhe importante: “baba”, no japonês, significa “velha” de forma depreciativa — algo como “megera”, “bruxa”. É o oposto de “obachan”, que é carinhoso. Hachi usa “baba” várias vezes, e isso deixa clara a formação do título Onibaba: a velha que se tornou demônio.
Por isso, no desfecho, quando a nora foge gritando “Oni! Oni!”, e a velha desesperada responde “Eu não sou um demônio, eu sou um ser humano!”, essa frase é devastadora. Porque o filme não está dizendo que ela virou um monstro sobrenatural; está dizendo que tudo aquilo — ódio, ganância, ciúmes, manipulação, medo — não vem do além. Vem do próprio ser humano quando arrancam tudo dele. A máscara era só um espelho da monstruosidade que já estava lá dentro.
E é aí que Onibaba vira, de fato, um conto moral sobre as profundezas da alma humana. Uma história que, como o buraco, parece simples por fora, mas é negra, profunda e persistente até hoje.