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Amador é um filme metalinguístico bem interessante. Acredito que seja parcialmente baseado nas próprias experiências pessoais do diretor Krzysztof Kieślowski. Em Amador temos Filip Mosz, um pai de família comum que adquire uma câmera para registrar preciosos momentos relacionados ao nascimento da filha. Filip se apaixona cada vez mais pelo ato de filmar a ponto de ficar totalmente obcecado, o que causa grandes problemas familiares (pela ausência, pois passou a dedicar muito de seu tempo às filmagens) e até profissionais (pelo conteúdo inconvenientemente realista que ele passou a filmar). Amador é um filme que fala sobre encontrar uma vocação na vida por acaso. Eu também diria que é uma "carta de amor" ao cinema, principalmente o do tipo mais naturalista e focado em documentários, mas também alerta sobre os malefícios que um comportamento obsessivo pode trazer ao seu convívio pessoal e também mostra uma sociedade burocrática, conspiradora, corporativista e fiscalizadora que impede um artista de ter a sua tão sonhada liberdade de expressão e até o ameaça de uma forma covarde e indireta. Não me comoveu tanto pelo drama familiar em si, mas como estudo de personagem e crítica sociopolítica é uma obra bem complexa e inteligente.
Em uma outra análise que fiz sobre o filme Os Incompreendidos, obra-prima de François Truffaut, eu afirmei que um dos elementos mais significativos da obra é a incomunicabilidade entre os adultos e as crianças. Em Onde Fica a Casa do Meu Amigo?, obra-prima de Abbas Kiarostami, tal incomunicabilidade também exerce um papel fundamental para a trama. Onde Fica a Casa do Meu Amigo? também mostra uma prepotência irritante por parte dos adultos que pensam que conhecem os percalços da vida por completo e sentem que as suas autoridades jamais devem ser questionadas pelos mais jovens, mas se esquecem que as crianças são como livros com páginas em branco e devem ser escutadas e compreendidas para que elas sejam educadas mais eficientemente. O protagonista Ahmed é uma criança 100% pura que respeita a autoridade dos mais velhos e que tem muito caráter e noção de responsabilidade. Ele pega o caderno de seu colega de classe por engano e por conhecer toda a rigidez do professor (um dos adultos autoritários que não demonstram empatia) ele quer devolver o caderno a todo custo. Em teoria é uma tarefa simples, mas que se torna tortuosa pela falta de cooperação de todos os adultos ao seu redor. Ao meu ver, Kiarostami quis dizer que uma criança é um ser humano como qualquer outro e que em muitos casos já tem uma bondade intrínseca e uma noção de moralidade muito apurada que em hipótese nenhuma deve ser desprezada e sim reconhecida (em alguns casos até assimilada) e fortalecida pelos mais experientes. Ahmed é um grande herói. Fez uma ótima ação (por menor que teoricamente possa parecer teve um impacto muito grande na vida do colega) de forma anônima, sem alarde, elogios ou palmas. Mas ele fez. Ele tinha que fazer. Era o certo. É o que vale. Com certeza ele se tornará um adulto ainda mais valoroso. Kiarostami é um diretor muito delicado e filosófico e a forma como ele filma as belíssimas paisagens naturais ou um rústico e singelo vilarejo fez os meus olhos brilharem. Já vi três filmes do diretor (Onde Fica a Casa do Meu Amigo?, Close-Up e Gosto de Cereja) e os três são obras-primas.
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Muito obrigado!
Salve Angelo, por onde vc assistiu esse filme, O Rosto?
Entendi! O grupo tá ficando chato msm, aceita aquelas postagens de memes, más não aceita as dê filmes. Sem falar nas postagens repitidas, quando alguém posta algo interessante, ninguém quase curte, más quando é esses filmes comerciais, (Pânico na Floresta, Olhos Famintos, Premonição, A Casa de Cera, Sobrenatural) todo mundo reage e comenta bastante. A galera parece que não sabe curtir um bom filme, tenha um bom dia amigo.
Anatomia de um Crime é uma obra que se divide entre ser um típico noir com personagens dúbios e um drama de tribunal. Paul Biegler é um advogado que não é tão atuante assim, mas que de repente recebe um caso: Uma mulher extremamente extrovertida e fogosa foi severamente agredida e supostamente abusada sexualmente pelo dono de um bar. O marido da tal mulher, um militar agressivo e rude, executou o suposto agressor com vários tiros. Paul tem um assistente alcólatra a quem estima muito e ambos unem forças para defender o cliente e tantar ganhar o caso. Só que as coisas não são tão simples assim. Como eu disse anteriormente, os personagens são enigmáticos e é difícil saber quem está dizendo a verdade. Anatomia de um Crime é certamente um filme interpretativo em muitos aspectos. A minha interpretação é a seguinte:
Laura Manion (a suposta vítima) não foi abusada sexualmente. Reparem que em nenhum momento ela demonstra trauma ou algum outro sentimento forte em relação ao suposto abuso. Não a incomoda. Ela trata o assunto com a maior naturalidade do mundo. Cada pessoa tem a sua personalidade, mas duvido que alguma mulher no mundo agiria assim... Ela também demonstrou muitas incoerências graves em seu depoimento. Fora o fato de que nenhum teste científico apontou que houve o abuso. A única prova seria um teste no detector de mentiras, mas o próprio roteiro diz que uma pessoa pode ser capaz de burlar o detector de mentiras. Partindo deste princípio fica mais simples de entender todo o resto. Laura não foi abusada, mas com certeza foi espancada. Por quem? Por seu marido, Frederick Manion. Frederick demonstrou ser muito violento quando o nome de sua esposa está em jogo. Percebam que quando o filme está prestes a acabar, Laura diz em tom de brincadeira que nem liga se apanhar de novo ao voltar ao marido. Ele já a agrediu antes e ela o entregou sem querer. Por qual motivo Frederick espancou Laura? Ora, havia todo um boato de que Laura e o dono do bar eram amantes. Frederick certamente descobriu e a espancou. Laura, que revelou logo no começo que tinha medo dele, inventou a história do abuso. Frederick enfurecido foi até o bar e executou o dono. Agora vem a parte mais surpreendente: Eu acredito que Laura quis reatar mesmo depois de ter sido espancada (infelizmente acontece muito) e revelou tudo ao marido. Ambos conspiraram e manipularam o advogado desde o começo. Laura forçou um comportamento extrovertido bem exagerado em relação ao advogado para que o Paul pensasse que a personalidade dela seria sempre daquele jeito e que o dono do bar "confundiu" as coisas e a atacou. Uma cena chave é quando Frederick está espiando Paul e Laura por uma janela. A fisionomia dele parece ser de preocupação, como se estivesse checando se o plano estava dentro dos conformes. Em certas partes me fez lembrar de Primal Fear, com Richard Gere e Edward Norton.
Enfim, grande filme. Estou até pensando em rever para ver se capto maiores detalhes.