Anatomia de um Crime é uma obra que se divide entre ser um típico noir com personagens dúbios e um drama de tribunal. Paul Biegler é um advogado que não é tão atuante assim, mas que de repente recebe um caso: Uma mulher extremamente extrovertida e fogosa foi severamente agredida e supostamente abusada sexualmente pelo dono de um bar. O marido da tal mulher, um militar agressivo e rude, executou o suposto agressor com vários tiros. Paul tem um assistente alcólatra a quem estima muito e ambos unem forças para defender o cliente e tantar ganhar o caso. Só que as coisas não são tão simples assim. Como eu disse anteriormente, os personagens são enigmáticos e é difícil saber quem está dizendo a verdade. Anatomia de um Crime é certamente um filme interpretativo em muitos aspectos. A minha interpretação é a seguinte:
Laura Manion (a suposta vítima) não foi abusada sexualmente. Reparem que em nenhum momento ela demonstra trauma ou algum outro sentimento forte em relação ao suposto abuso. Não a incomoda. Ela trata o assunto com a maior naturalidade do mundo. Cada pessoa tem a sua personalidade, mas duvido que alguma mulher no mundo agiria assim... Ela também demonstrou muitas incoerências graves em seu depoimento. Fora o fato de que nenhum teste científico apontou que houve o abuso. A única prova seria um teste no detector de mentiras, mas o próprio roteiro diz que uma pessoa pode ser capaz de burlar o detector de mentiras. Partindo deste princípio fica mais simples de entender todo o resto. Laura não foi abusada, mas com certeza foi espancada. Por quem? Por seu marido, Frederick Manion. Frederick demonstrou ser muito violento quando o nome de sua esposa está em jogo. Percebam que quando o filme está prestes a acabar, Laura diz em tom de brincadeira que nem liga se apanhar de novo ao voltar ao marido. Ele já a agrediu antes e ela o entregou sem querer. Por qual motivo Frederick espancou Laura? Ora, havia todo um boato de que Laura e o dono do bar eram amantes. Frederick certamente descobriu e a espancou. Laura, que revelou logo no começo que tinha medo dele, inventou a história do abuso. Frederick enfurecido foi até o bar e executou o dono. Agora vem a parte mais surpreendente: Eu acredito que Laura quis reatar mesmo depois de ter sido espancada (infelizmente acontece muito) e revelou tudo ao marido. Ambos conspiraram e manipularam o advogado desde o começo. Laura forçou um comportamento extrovertido bem exagerado em relação ao advogado para que o Paul pensasse que a personalidade dela seria sempre daquele jeito e que o dono do bar "confundiu" as coisas e a atacou. Uma cena chave é quando Frederick está espiando Paul e Laura por uma janela. A fisionomia dele parece ser de preocupação, como se estivesse checando se o plano estava dentro dos conformes. Em certas partes me fez lembrar de Primal Fear, com Richard Gere e Edward Norton.
Enfim, grande filme. Estou até pensando em rever para ver se capto maiores detalhes.
Amador é um filme metalinguístico bem interessante. Acredito que seja parcialmente baseado nas próprias experiências pessoais do diretor Krzysztof Kieślowski. Em Amador temos Filip Mosz, um pai de família comum que adquire uma câmera para registrar preciosos momentos relacionados ao nascimento da filha. Filip se apaixona cada vez mais pelo ato de filmar a ponto de ficar totalmente obcecado, o que causa grandes problemas familiares (pela ausência, pois passou a dedicar muito de seu tempo às filmagens) e até profissionais (pelo conteúdo inconvenientemente realista que ele passou a filmar). Amador é um filme que fala sobre encontrar uma vocação na vida por acaso. Eu também diria que é uma "carta de amor" ao cinema, principalmente o do tipo mais naturalista e focado em documentários, mas também alerta sobre os malefícios que um comportamento obsessivo pode trazer ao seu convívio pessoal e também mostra uma sociedade burocrática, conspiradora, corporativista e fiscalizadora que impede um artista de ter a sua tão sonhada liberdade de expressão e até o ameaça de uma forma covarde e indireta. Não me comoveu tanto pelo drama familiar em si, mas como estudo de personagem e crítica sociopolítica é uma obra bem complexa e inteligente.
Em uma outra análise que fiz sobre o filme Os Incompreendidos, obra-prima de François Truffaut, eu afirmei que um dos elementos mais significativos da obra é a incomunicabilidade entre os adultos e as crianças. Em Onde Fica a Casa do Meu Amigo?, obra-prima de Abbas Kiarostami, tal incomunicabilidade também exerce um papel fundamental para a trama. Onde Fica a Casa do Meu Amigo? também mostra uma prepotência irritante por parte dos adultos que pensam que conhecem os percalços da vida por completo e sentem que as suas autoridades jamais devem ser questionadas pelos mais jovens, mas se esquecem que as crianças são como livros com páginas em branco e devem ser escutadas e compreendidas para que elas sejam educadas mais eficientemente. O protagonista Ahmed é uma criança 100% pura que respeita a autoridade dos mais velhos e que tem muito caráter e noção de responsabilidade. Ele pega o caderno de seu colega de classe por engano e por conhecer toda a rigidez do professor (um dos adultos autoritários que não demonstram empatia) ele quer devolver o caderno a todo custo. Em teoria é uma tarefa simples, mas que se torna tortuosa pela falta de cooperação de todos os adultos ao seu redor. Ao meu ver, Kiarostami quis dizer que uma criança é um ser humano como qualquer outro e que em muitos casos já tem uma bondade intrínseca e uma noção de moralidade muito apurada que em hipótese nenhuma deve ser desprezada e sim reconhecida (em alguns casos até assimilada) e fortalecida pelos mais experientes. Ahmed é um grande herói. Fez uma ótima ação (por menor que teoricamente possa parecer teve um impacto muito grande na vida do colega) de forma anônima, sem alarde, elogios ou palmas. Mas ele fez. Ele tinha que fazer. Era o certo. É o que vale. Com certeza ele se tornará um adulto ainda mais valoroso. Kiarostami é um diretor muito delicado e filosófico e a forma como ele filma as belíssimas paisagens naturais ou um rústico e singelo vilarejo fez os meus olhos brilharem. Já vi três filmes do diretor (Onde Fica a Casa do Meu Amigo?, Close-Up e Gosto de Cereja) e os três são obras-primas.
Paisagem na Neblina é uma mistura de drama existencialista com filme de estrada muito poderoso, repleto de momentos poéticos e que conta com uns toques de surrealismo. O filme é sobre dois irmãos gregos (uma adolescente e um menino pequeno) que em um momento de impulso resolvem embarcar em um trem e ir atrás do pai (desconhecido por ambos) que supostamente vive na Alemanha. No árduo, incerto e longo caminho ambos amadurecem, encontram pessoas boas e ruins e aprendem de uma maneira muito pessoal sobre o lado bom e o lado ruim da vida. Paisagem na Neblina te faz viver todas as experiências destas duas crianças de uma maneira muito emocional e próxima. É um filme que me tocou profundamente, seja em seus momentos de beleza ou em seus momentos de dor. É o meu primeiro contato com o cinema do Theo Angelopoulos e ele é um diretor muito sensível que aposta muito no poder das imagens, que aqui são mais belas do que posso definir em palavras, diga-se de passagem.
Um Condenado à Morte Escapou é o terceiro filme do Robert Bresson que assisto (os outros dois foram Mouchette, a Virgem Possuída e O Dinheiro) e o que dá para notar é que Bresson se apoia na ausência da exteriorização das emoções (tornando tudo muito mais apático e depressivo) e também no uso constante do minimalismo. Um Condenado à Morte Escapou em teoria é um filme simples, mas não simplório. Fontaine é um agente francês preso durante a ocupação nazista que se recusa a aceitar o destino dado a ele pelos nazistas, seja a prisão ou até mesmo a morte. Ele quer fazer o próprio destino e para conseguir tal feito se apoia totalmente na inteligência e na perseverança. Tempo ele tem. Só não sabe até quando... Um dos pontos fortes do filme é a sensação de incerteza/insegurança sentida pelo protagonista. A fragilidade da vida humana (principalmente pelo contexto de ser um prisioneiro e de estar cercado por outros prisioneiros que estão próximos, mas distantes ao mesmo tempo e que repentinamente deixam de existir) é um tema recorrente na obra. Fontaine é ferido no começo do filme e sua camisa ensanguentada permanece manchada até o final, como um lembrete de sua mortalidade. Outro aspecto muito interessante é que os oficiais nazistas são como forças invisíveis, sem faces ou identificações, porém numerosos e onipresentes. Não existe um lugar da prisão que seja totalmente seguro. Todo o planejamento de fuga é muito engenhoso e a estratégia se faz presente do começo ao final. É um grande filme, sem dúvidas. Para quem gostou, eu recomendo A Um Passo da Liberdade, outro filme francês sobre fuga de prisão que é ainda melhor.
Filmes que retratam a dureza do mundo de forma realista vista pela ótica inocente de uma criança sempre me fascinam e no caso de Os Incompreendidos não é diferente. O protagonista, Antoine Doinel, é complexo e alterna entre momentos de inocência e malícia. Ele pratica certos delitos, mas no fundo é apenas uma criança sem instrução que sofre muito com o abandono e a indiferença dos adultos. Sem dúvidas ele toma decisões equivocadas, mas vive um lar totalmente desestruturado e não conta nem com a simpatia de seu professor. As figuras que teoricamente representam autoridade, sabedoria e segurança emocional e financeira não fazem a mínima noção de como educar Antoine... Aliás, eles não querem nem ter a responsabilidade de ter que lidar com ele. Talvez a maior crítica de Os Incompreendidos seja em relação à desestruturação familiar (algo que infelizmente é cada vez mais comum no mundo moderno) onde não há uma comunicação decente entre os pais e os filhos, muito por conta da indiferença dos pais e da imaturidade natural dos filhos. Antoine é encarado como um estorvo e nós vemos em cenas extremamente sutis que ele tem dificuldades até em suas necessidades mais básicas, como comida e vestimentas. É o meu primeiro contato com François Truffaut e eu fiquei totalmente embasbacado como o diretor mostra uma França charmosa e encantadora, mas decadente e inóspita ao mesmo tempo. Antoine percorre por paisagens lindas (em planos abertos deslumbrantes com a melancólica trilha sonora de fundo) na maior parte do tempo, mas quase sempre sozinho, descocupado, fugindo por sentir que não se encaixa em nenhum lugar e procurando algo que ele não tem noção do que seja, mas que espera que seja melhor do que o mundo que ele conhece. Obra-prima.
De um lado temos Mathieu, um senhor rico de meia-idade carente que sente a necessidade de uma companhia feminina e está ávido por sexo. Ele é obsessivo e possessivo. Do outro lado temos Conchita, uma jovem manipuladora e oportunista que realiza jogos sádicos para poder manter Mathieu por muito tempo e sugar tudo o que ele tem. O interessante é que nenhum dos dois é flor que se cheire e o relacionamento em si é totalmente autodestrutivo, mas por motivos diferentes (e nada nobres) um se comporta como um parasita do outro.
Esse Obscuro Objeto de Desejo me soa como o elo entre Lolita do Kubrick e Lua de Fel do Polanski. É uma obra ácida, e em diversos momentos até cômica, sobre certos comportamentos humanos irracionais que são inexplicáveis. É mais um ótimo trabalho ousado e provocador do Buñuel, como de praxe.
O Circo é um dos filmes mais hilariantes do Charles Chaplin. As piadas aparecem em doses cavalares e são sempre criativas. É curioso como o acaso cumpre um papel importantíssimo em muitas das suas obras, algo que também pode ser comprovado em filmes como O Garoto, Tempos Modernos e O Grande Ditador. Na comédia tal aleatoriedade exige muita engenhosidade e sagacidade para funcionar plenamente e é o que o ocorre nos seus filmes. São várias as sequências inesquecíveis, como a do Carlitos fugindo da polícia ou armando uma baita confusão na apresentação de mágica, mas a da casa dos espelhos é simplesmente genial. Acredito que tenha influenciado a famosa cena de A Dama de Shangai do Orson Welles, mesmo que no caso de A Dama de Shangai a cena não seja cômica. Mesmo que o filme tenha romance e momentos bem tocantes, ele tenta fugir dos clichês e se encerra de um jeito um pouco amargo. Enfim, Charles Chaplin é sem dúvidas um dos grandes mestres do cinema e O Circo é mais um fantástico exemplar de sua filmografia.
O Sul é um drama muito elegante, sutil e tocante dirigido da forma mais sublime possível pelo grande Victor Erice. É o segundo filme do diretor que assisto (o outro foi a obra-prima suprema O Espírito da Colmeia) e seguramente ambos são filmes que merecem nota máxima. Com certeza me aprofundarei na filmografia deste grande diretor. Antes de tudo, O Sul é um filme sobre uma relação entre pai e filha e a tal relação (com os seus altos e baixos) é complexa e repleta de nuances. Estrella (uma criança curiosa e inteligente que vive em seu pequeno universo familiar e que desconhece o mundo exterior) nutre uma admiração e um fascínio repleto de curiosidade sobre a figura misteriosa de seu pai, Agustín. Porém, em certos momentos os bons sentimentos são estremecidos por certas atitudes questionáveis por parte de Agustín. Com o tempo, Estrella (que por mais que tenha maturidade, é apenas uma criança) cresce e passa a compreender melhor a personalidade do pai como um todo, com direito a qualidades, defeitos, desejos, frustrações, etc. Como eu disse acima, O Sul é extremamente sublime. Suas imagens deslumbrantes são pura poesia e a atmosfera melancólica é reforçada por uma trilha sonora belíssima e moderada, mas que sempre aparece nos momentos cruciais. Nada é exagerado, tudo é natural. Victor Erice com certeza teve muita influência de diretores como Satyajit Ray e Kenji Mizoguchi. Dá gosto ver uma obra tão bela em todos os sentidos. Favoritado.
Gosto de Cereja é um drama existencialista bem intimista, introspectivo e realista sobre o valor da vida. O protagonista Badii é um homem bem-sucedido e aparentemente de ótima condição financeira, mas ao mesmo tempo se sente totalmente desiludido com a vida. O seu passado não é aprofundado e nem precisa, já que vemos as cicatrizes de sua alma em sua fisionomia. Ele é um homem que apresenta uma tremenda apatia, como se estivesse cansado de ter que suportar muito sofrimento por tanto tempo. Ele planeja que alguém o enterre depois que cometer suicídio e busca incessantemente por alguém que esteja apto a realizar tal pedido. No caminho, ele encontra alguns homens, os convida para um passeio de carro, faz a sua oferta, mas sempre os escuta. Cada um tem uma função diferente na sociedade e a sua própria visão de mundo, discursa sobre o valor da vida e tenta convencer Badii a desistir de se matar. É muito interessante o quanto Badii, pelo menos ao meu ver, se interessa imensamente pela história de vida de cada pessoa que embarca em seu carro. Ele não os interrompe e parece refletir sobre cada ponto de vista apresentado, mesmo que aparentemente ele se mostre irredutível em seu pensamento. Será que o que Badii realmente necessita e busca inconscientemente é fugir da solidão e encontrar calor humano? O que faz totalmente a diferença é a naturalidade como os encontros e os diálogos ocorrem. É tudo muito casual e verdadeiro. Eu tenho que confirmar, mas eu senti que com exceção do protagonista (que realmente dá a entender que é um ator experiente), os outros personagens não são interpretados por atores profissionais. Uma prática que era muito comum no neorrealismo italiano das décadas de 40, 50 e 60. Acredito que tenha sido uma grande influência. Gosto de Cereja é um filme de muita beleza (tanto visual quanto no seu discurso) e sensibilidade que não busca vitimizar ninguém ou fazer o telespectador cair em um choro fácil, mas que com certeza vai tocar a todos que assistirem.
Dust of Angels é um filme interessante. É sobre dois jovens que adentram irresponsavelmente o teoricamente excitante e extremamente perigoso universo do crime e descobrem que precisam lidar com as consequências dos seus atos. Eu não me senti tão envolvido assim com os personagens e nem com a trama. Ao meu ver, faltou uma narrativa mais coesa. Às vezes ela se torna muito dispersa, sem foco. Porém, a ambientação urbana estilizada e melancólica é sem dúvidas um grande atrativo. Em certos aspectos me fez lembrar dos filmes do Wong Kar-Wai, como Amores Expressos. As cenas de violência também são marcantes e bem secas. Talvez em uma revisão o filme suba no meu conceito. Vale a pena dar uma conferida.
Uma palavra que define Alemanha, Ano Zero perfeitamente é desolação. É interessante ver um filme em pleno ano de 1948 abordar o ponto de vista dos alemães em relação ao final da Segunda Guerra Mundial. Foi um evento traumático para todos os envolvidos. A trama em si é simples e o filme é relativamente curto, mas o grande trunfo de Alemanha, Ano Zero é sua ambientação arrasada, decadente e desprovida de vida. Só que a decadência vai muito além dos escombros e das ruínas da cidade e passa para o campo moral de toda uma sociedade, passando por crianças, jovens e adultos. A moralidade aqui é totalmente distorcida e temos personagens que não vivem, apenas sobrevivem, totalmente inertes e sem grandes aspirações. Temos Edmund Köhler, o protagonista. É uma criança que não tem a menor oportunidade de exercer o seu papel de criança e não tem sequer o direito a ser inocente. As circunstâncias e os homens inescrupulosos não permitem. Ele tem que se portar como adulto e encarar de frente dilemas morais que até os homens mais sábios teriam dificuldade em encarar. A questão é que o senso de inumanidade já está impregnado em todos, então a ausência de empatia já se tornou perigosamente natural.
Por exemplo: O pai de Edmund é um senhor de idade que se sente inútil por sua frágil condição de saúde e em determinado momento prefere até morrer do que ser mais uma boca a ser alimentada. O seu filho em determinado momento compactua deste sentimento. A obra realça muito bem esse cenário em que a vida humana tem tão pouco valor e detalha como isso já havia se tornado um problema que atravessou gerações.
É um retrato muito cruel e pessimista. Acredito que Alemanha, Ano Zero foi um filme muito importante e tenha sido influente para muitos outros grandes filmes, como Brinquedo Proibido, obra-prima francesa dirigida por René Clément. Enfim, é o meu primeiro contato com o cinema do Roberto Rossellini e foi um ótimo cartão de visitas.
Onibaba para mim não soou como um filme de terror padrão. Obviamente tem os seus momentos macabros e a ambientação é densa e sombria do começo ao final, mas para mim é muito mais um drama de guerra com toques sobrenaturais. Acredito que antes de tudo, Onibaba fala sobre o lado mais primitivo e bestial do ser humano. O lado que não pensa duas vezes antes de tirar uma vida para tirar proveito da situação, que pensa em se alimentar a qualquer custo para sobreviver e que anseia por até relações sexuais independentemente do caos que há ao redor. Dentro deste contexto caótico em que o instinto de sobrevivência mais primitivo possível fala mais alto temos personagens que praticam atos grotescos sem pensar em empatia ou moralidade. O que importa é a sobrevivência. Mas não podemos dizer que pessoas assim perderam o senso de humanidade e se tornaram demônios? Tais pessoas já eram demônios desde o começo ou os tempos difíceis de guerra é que as transformaram em demônios? Onibaba é um filme bem complexo sobre a natureza humana que traz muitos questionamentos interessantes.
Excitação é um filme de terror brasileiro bem interessante, mas que peca pela indecisão entre ser um drama erótico e um filme de terror sobre aparições fantasmagóricas. Há muita quebra de ritmo justamente por causa disso e faz o terror perder um pouco de sua força. Mas a trama é bem amarrada, os personagens são bem desenvolvidos, tem momentos assustadores e o final é muito satisfatório. É um bom filme que vale a pena ser visto.
A Turba é uma obra-prima que traz consigo o que há de mais criativo e inovador na era do cinema mudo. É um drama familiar poderoso e realista sobre temas bem diversificados como sonhos e quebra de expectativas, os altos e baixos da vida e as virtudes e os defeitos das pessoas e como o amor verdadeiro (mais do que um amor entre um homem e uma mulher ou um pai e um filho e sim um amor por tudo o que há de bom na sua própria existência) pode e deve passar por tudo isso. A trama, apesar de básica, é muitíssimo bem executada. A Turba é direto ao ponto, sem enrolação. Antes de qualquer coisa, é um filme lindíssimo sobre esperança e perseverança, mas sem ser piegas. O romance aqui existe e tem a sua importância, mas eu sinto que o filme vai muito além do romance. Tecnicamente é esplendoroso. O uso da câmera é extremamente dinâmico, inteligente e realça muito bem todos os cenários mais caóticos e movimentados com a famigerada multidão, mas também sabe explorar perfeitamente o rosto de cada ator nos momentos mais intimistas da trama. Me identifiquei muito com o personagem Johnny Sims (principalmente pelos defeitos) e a Mary, uma mulher de muito valor, é uma das personagens femininas mais encatadoras que já vi. Como ser mais do que apenas uma pessoa na multidão? É algo que você precisa conquistar todos os dias preparado para as vitórias e para as derrotas inevitáveis da vida. 5 estrelas e favoritado.
Tempos Modernos, em termos de pura comédia, talvez seja o filme mais sagaz que vi do Chaplin até o momento. As piadas visuais são constantes, numerosas e a fluidez com que elas se intercalam é impressionante. O personagem Carlitos está mais atrapalhado do que nunca. Ele não se ajusta muito bem ao modo de vida automático e sem vida daquela sociedade burocrática e fria, "faz questão" de estar no lugar errado e na hora errada (mesmo esbanjando boas intenções) e isso resulta em cenas impagáveis e extremamente bem feitas, diga-se de passagem. Acredito que Chaplin mirou a sua crítica muito mais no processo insensível de desumanização geral (em todas as esferas da sociedade, independentemente de classe social) do ser humano (dos patrões até os empregados) do que no lado exploratório resultante dos excessos do capitalismo. Ele se utilizou deste mesmo argumento no clássico discurso de O Grande Ditador. É bem interessante a forma como Chaplin inseriu diálogos falados, mas sem deixar as características do cinema mudo de lado. Ele conseguiu extrair o melhor de ambos. Enfim, é sempre revigorante ver obras de Chaplin, o cinema como nós conhecemos hoje em dia deve muito a ele.
Os Meninos é um filme altamente atmosférico, enigmático e perturbador. Um casal de turistas resolve visitar uma pequena ilha e se depara com uma horda de crianças macabras e violentas. O que fez com que as crianças se comportassem daquele jeito? Onde estão os adultos? São perguntas interessantes que o filme sabiamente não tem pressa e nem a necessidade em responder. A tensão da obra é absurda, todo o mistério prende a atenção do telespectador e tudo acontece na hora certa. Em certos aspectos estruturais e narrativos me lembrou bastante de Os Pássaros do Hitchcock, por também ter uma revolta enigmática de seres que em um primeiro momento são infensivos, no caso os pássaros do título, mas que ao se juntarem se tornam perigosos. Detalhe: Tem uma referência muito interessante (e que se encaixou como uma luva) ao clássico A Doce Vida, do Fellini. Enfim, terror espanhol de primeira qualidade. Vale muito a pena ser descoberto.
A Profecia 2 tem uma trama até mais elaborada e cerebral do que o primeiro, mas falha miseravelmente no que diz respeito a ser um filme de terror. Damien com certeza teve um desenvolvimento muito interessante ao mostrar diversas facetas e o tom conspiracionista funciona ainda melhor, com muitos personagens suspeitos, mas as cenas de morte aqui tentam emular as clássicas cenas do original, mas infelizmente são mal feitas, forçadas e sem um pingo de originalidade. É interessante como continuação, funciona como um drama sobre crise existencial, mas tem muito pouco valor como filme de terror.
Rapaz, eu tinha uma recordação melhor sobre A Profecia. Continua sendo um baita filme de terror, mas na minha memória era uma obra-prima suprema do gênero e certamente não é o caso. Consegue desenvolver muito bem o drama familiar ao mesmo tempo que insere os elementos sobrenaturais gradualmente. As mortes são bem elaboradas e a atmosfera sombria que as cercam é muito boa. O elenco também correspondeu muito bem com nomes de peso como Gregory Peck, mas o destaque mesmo vai para a atuação do pequeno Damien. A trilha sonora é realmente marcante. Enfim, é um grande filme, mas me decepcionei um pouco ao rever.
Satyajit Ray é um dos maiores perfeccionistas da história do cinema. A forma como ele retrata a cena mais trivial possível de forma extremamente bela e poética é algo que me fascina a cada filme que vejo deste grande diretor. O Covarde tem uma trama simples, mas a narrativa de Ray é bem meticulosa e mesmo na simplicidade ele consegue criar algo muito bem desenvolvido e envolvente.
O protagonista Roy é alguém com uma ligação amorosa com a moça Karuna no passado, mas por insegurança por parte dele as coisas não deram certo. Karuna se casou com outro homem e por coincidência Roy a reencontra e os sentimentos do passado também retornam. Os comentários aqui focam muito em Roy e Karuna, mas a minha perspectiva ficou o tempo todo em cima do marido de Karuna, Bimal, um homem de personalidade peculiar, mas gentil, pacífico e hospitaleiro. A covardia citada no título também pode se referir ao fato do Roy ser traiçoeiro com Bimal e planejar roubar Karuna dele. O final amargo e realista é perfeito e foge totalmente do padrão tão comum na era de ouro de Hollywood. Às vezes você tem que aceitar as mudanças e a sua responsabilidade para que elas venham a acontecer.
Enfim, mais um excelente filme deste grande mestre que é Satyajit Ray.
Alexander Nevsky é claramente um filme panfletário e até certo ponto bem superficial. Os personagens não são tão bem desenvolvidos assim e caem nos mais profundos estereótipos. Você sente que todo o elenco não atua mal, mas carece totalmente de naturalidade. Os alemães aqui parecem demônios originários de um filme de terror, chega a ser cômico tal exagero em certos momentos. Mas o Eisenstein é um dos grandes diretores da história do cinema e consegue entregar momentos memoráveis com toda a sua intensidade, inventividade e técnica apurada que foram tão presentes em sua carreira. A batalha no gelo sem dúvidas foi um marco para o cinema e influenciou cenas de batalhas grandiosas presentes em muitas outras obras, como Falstaff - O Toque da Meia Noite, Spartacus, Ran e Coração Valente, por exemplo. Dou 3 estrelas e meia mais pela exuberante parte técnica (nesse aspecto Eisenstein nunca deixa a desejar) e pela inegável importância histórica, mas Alexander Nevsky não serve nem para limpar as botas de Ivan, o Terrível, por exemplo. Este sim, um filme extremamente complexo.
Hanyo, a Empregada é um filme bem interessante. Me prendeu do início ao fim (aliás, e que final, hein?). Bom, o que posso dizer é que é um drama muito intenso e poderoso com ares até novelescos (e até certo ponto exagerados), mas a forma como é dirigido faz toda a diferença, muito mais do que a trama em si que não traz nada de tão inovador assim. A edição é extremamente dinâmica, inteligente e moderna. A composição de cada ambiente é meticulosa e a forma como os personagens interagem com os cenários é bem engenhosa. É aquele típico caso em que as imagens dizem muito mais do que as palavras. Os personagens são todos complexos e não há como dizer quem é mocinho e quem é vilão. A atmosfera sombria e tensa faz com que o telespectador mergulhe de cabeça em uma trama que trata de uma maneira muito dolorosa da destruição familiar utilizando-se de temas como ambição, conspiração, culpa, desejo, manipulação, obsessão, etc. É um grande filme, sem dúvidas.
Algumas das imagens mais espetaculares já registradas pelo homem se encontram neste documentário. O antes e o depois da guerra e as sequelas deixadas pelos conflitos mostradas por um olhar poético quase sobrenatural, poderia dizer até divino. Herzog é uma das figuras mais importantes para o cinema.
A 36ª Câmara de Shaolin é um ótimo filme de artes marciais. Confesso que o início soou bem confuso para mim, pois não sou tão bem informado sobre o contexto histórico e político daquele período da China, mas acredito que o foco do filme seja mais do que política ou vingança pessoal e sim demonstrar gradualmente a evolução espiritual, física e mental do protagonista em uma jornada de autoconhecimento. Toda a sequência do treinamento é simplesmente genial. Cada câmara tem uma finalidade e coube ao protagonista superar cada adversidade com persistência, mas também com inteligência.
Quando ele superou todos os obstáculos e se tornou um mestre, o que ele ganhou de mais precioso foi a sabedoria.
A 36ª Câmara de Shaolin com certeza influenciou muitas obras não apenas no mundo do cinema, mas também em outras mídias. Vale muito a pena ver. Disponível no NetMovies.
Anatomia de um Crime
4.1 149 Assista AgoraAnatomia de um Crime é uma obra que se divide entre ser um típico noir com personagens dúbios e um drama de tribunal. Paul Biegler é um advogado que não é tão atuante assim, mas que de repente recebe um caso: Uma mulher extremamente extrovertida e fogosa foi severamente agredida e supostamente abusada sexualmente pelo dono de um bar. O marido da tal mulher, um militar agressivo e rude, executou o suposto agressor com vários tiros. Paul tem um assistente alcólatra a quem estima muito e ambos unem forças para defender o cliente e tantar ganhar o caso. Só que as coisas não são tão simples assim. Como eu disse anteriormente, os personagens são enigmáticos e é difícil saber quem está dizendo a verdade. Anatomia de um Crime é certamente um filme interpretativo em muitos aspectos. A minha interpretação é a seguinte:
Laura Manion (a suposta vítima) não foi abusada sexualmente. Reparem que em nenhum momento ela demonstra trauma ou algum outro sentimento forte em relação ao suposto abuso. Não a incomoda. Ela trata o assunto com a maior naturalidade do mundo. Cada pessoa tem a sua personalidade, mas duvido que alguma mulher no mundo agiria assim... Ela também demonstrou muitas incoerências graves em seu depoimento. Fora o fato de que nenhum teste científico apontou que houve o abuso. A única prova seria um teste no detector de mentiras, mas o próprio roteiro diz que uma pessoa pode ser capaz de burlar o detector de mentiras. Partindo deste princípio fica mais simples de entender todo o resto. Laura não foi abusada, mas com certeza foi espancada. Por quem? Por seu marido, Frederick Manion. Frederick demonstrou ser muito violento quando o nome de sua esposa está em jogo. Percebam que quando o filme está prestes a acabar, Laura diz em tom de brincadeira que nem liga se apanhar de novo ao voltar ao marido. Ele já a agrediu antes e ela o entregou sem querer. Por qual motivo Frederick espancou Laura? Ora, havia todo um boato de que Laura e o dono do bar eram amantes. Frederick certamente descobriu e a espancou. Laura, que revelou logo no começo que tinha medo dele, inventou a história do abuso. Frederick enfurecido foi até o bar e executou o dono. Agora vem a parte mais surpreendente: Eu acredito que Laura quis reatar mesmo depois de ter sido espancada (infelizmente acontece muito) e revelou tudo ao marido. Ambos conspiraram e manipularam o advogado desde o começo. Laura forçou um comportamento extrovertido bem exagerado em relação ao advogado para que o Paul pensasse que a personalidade dela seria sempre daquele jeito e que o dono do bar "confundiu" as coisas e a atacou. Uma cena chave é quando Frederick está espiando Paul e Laura por uma janela. A fisionomia dele parece ser de preocupação, como se estivesse checando se o plano estava dentro dos conformes. Em certas partes me fez lembrar de Primal Fear, com Richard Gere e Edward Norton.
Enfim, grande filme. Estou até pensando em rever para ver se capto maiores detalhes.
Cinemaníaco
4.2 47Amador é um filme metalinguístico bem interessante. Acredito que seja parcialmente baseado nas próprias experiências pessoais do diretor Krzysztof Kieślowski. Em Amador temos Filip Mosz, um pai de família comum que adquire uma câmera para registrar preciosos momentos relacionados ao nascimento da filha. Filip se apaixona cada vez mais pelo ato de filmar a ponto de ficar totalmente obcecado, o que causa grandes problemas familiares (pela ausência, pois passou a dedicar muito de seu tempo às filmagens) e até profissionais (pelo conteúdo inconvenientemente realista que ele passou a filmar). Amador é um filme que fala sobre encontrar uma vocação na vida por acaso. Eu também diria que é uma "carta de amor" ao cinema, principalmente o do tipo mais naturalista e focado em documentários, mas também alerta sobre os malefícios que um comportamento obsessivo pode trazer ao seu convívio pessoal e também mostra uma sociedade burocrática, conspiradora, corporativista e fiscalizadora que impede um artista de ter a sua tão sonhada liberdade de expressão e até o ameaça de uma forma covarde e indireta. Não me comoveu tanto pelo drama familiar em si, mas como estudo de personagem e crítica sociopolítica é uma obra bem complexa e inteligente.
Onde Fica a Casa do Meu Amigo?
4.2 163 Assista AgoraEm uma outra análise que fiz sobre o filme Os Incompreendidos, obra-prima de François Truffaut, eu afirmei que um dos elementos mais significativos da obra é a incomunicabilidade entre os adultos e as crianças. Em Onde Fica a Casa do Meu Amigo?, obra-prima de Abbas Kiarostami, tal incomunicabilidade também exerce um papel fundamental para a trama. Onde Fica a Casa do Meu Amigo? também mostra uma prepotência irritante por parte dos adultos que pensam que conhecem os percalços da vida por completo e sentem que as suas autoridades jamais devem ser questionadas pelos mais jovens, mas se esquecem que as crianças são como livros com páginas em branco e devem ser escutadas e compreendidas para que elas sejam educadas mais eficientemente. O protagonista Ahmed é uma criança 100% pura que respeita a autoridade dos mais velhos e que tem muito caráter e noção de responsabilidade. Ele pega o caderno de seu colega de classe por engano e por conhecer toda a rigidez do professor (um dos adultos autoritários que não demonstram empatia) ele quer devolver o caderno a todo custo. Em teoria é uma tarefa simples, mas que se torna tortuosa pela falta de cooperação de todos os adultos ao seu redor. Ao meu ver, Kiarostami quis dizer que uma criança é um ser humano como qualquer outro e que em muitos casos já tem uma bondade intrínseca e uma noção de moralidade muito apurada que em hipótese nenhuma deve ser desprezada e sim reconhecida (em alguns casos até assimilada) e fortalecida pelos mais experientes. Ahmed é um grande herói. Fez uma ótima ação (por menor que teoricamente possa parecer teve um impacto muito grande na vida do colega) de forma anônima, sem alarde, elogios ou palmas. Mas ele fez. Ele tinha que fazer. Era o certo. É o que vale. Com certeza ele se tornará um adulto ainda mais valoroso. Kiarostami é um diretor muito delicado e filosófico e a forma como ele filma as belíssimas paisagens naturais ou um rústico e singelo vilarejo fez os meus olhos brilharem. Já vi três filmes do diretor (Onde Fica a Casa do Meu Amigo?, Close-Up e Gosto de Cereja) e os três são obras-primas.
Paisagem na Neblina
4.3 131Paisagem na Neblina é uma mistura de drama existencialista com filme de estrada muito poderoso, repleto de momentos poéticos e que conta com uns toques de surrealismo. O filme é sobre dois irmãos gregos (uma adolescente e um menino pequeno) que em um momento de impulso resolvem embarcar em um trem e ir atrás do pai (desconhecido por ambos) que supostamente vive na Alemanha. No árduo, incerto e longo caminho ambos amadurecem, encontram pessoas boas e ruins e aprendem de uma maneira muito pessoal sobre o lado bom e o lado ruim da vida. Paisagem na Neblina te faz viver todas as experiências destas duas crianças de uma maneira muito emocional e próxima. É um filme que me tocou profundamente, seja em seus momentos de beleza ou em seus momentos de dor. É o meu primeiro contato com o cinema do Theo Angelopoulos e ele é um diretor muito sensível que aposta muito no poder das imagens, que aqui são mais belas do que posso definir em palavras, diga-se de passagem.
Um Condenado à Morte Escapou
4.3 73 Assista AgoraUm Condenado à Morte Escapou é o terceiro filme do Robert Bresson que assisto (os outros dois foram Mouchette, a Virgem Possuída e O Dinheiro) e o que dá para notar é que Bresson se apoia na ausência da exteriorização das emoções (tornando tudo muito mais apático e depressivo) e também no uso constante do minimalismo. Um Condenado à Morte Escapou em teoria é um filme simples, mas não simplório. Fontaine é um agente francês preso durante a ocupação nazista que se recusa a aceitar o destino dado a ele pelos nazistas, seja a prisão ou até mesmo a morte. Ele quer fazer o próprio destino e para conseguir tal feito se apoia totalmente na inteligência e na perseverança. Tempo ele tem. Só não sabe até quando... Um dos pontos fortes do filme é a sensação de incerteza/insegurança sentida pelo protagonista. A fragilidade da vida humana (principalmente pelo contexto de ser um prisioneiro e de estar cercado por outros prisioneiros que estão próximos, mas distantes ao mesmo tempo e que repentinamente deixam de existir) é um tema recorrente na obra. Fontaine é ferido no começo do filme e sua camisa ensanguentada permanece manchada até o final, como um lembrete de sua mortalidade. Outro aspecto muito interessante é que os oficiais nazistas são como forças invisíveis, sem faces ou identificações, porém numerosos e onipresentes. Não existe um lugar da prisão que seja totalmente seguro. Todo o planejamento de fuga é muito engenhoso e a estratégia se faz presente do começo ao final. É um grande filme, sem dúvidas. Para quem gostou, eu recomendo A Um Passo da Liberdade, outro filme francês sobre fuga de prisão que é ainda melhor.
Os Incompreendidos
4.4 658 Assista AgoraFilmes que retratam a dureza do mundo de forma realista vista pela ótica inocente de uma criança sempre me fascinam e no caso de Os Incompreendidos não é diferente. O protagonista, Antoine Doinel, é complexo e alterna entre momentos de inocência e malícia. Ele pratica certos delitos, mas no fundo é apenas uma criança sem instrução que sofre muito com o abandono e a indiferença dos adultos. Sem dúvidas ele toma decisões equivocadas, mas vive um lar totalmente desestruturado e não conta nem com a simpatia de seu professor. As figuras que teoricamente representam autoridade, sabedoria e segurança emocional e financeira não fazem a mínima noção de como educar Antoine... Aliás, eles não querem nem ter a responsabilidade de ter que lidar com ele. Talvez a maior crítica de Os Incompreendidos seja em relação à desestruturação familiar (algo que infelizmente é cada vez mais comum no mundo moderno) onde não há uma comunicação decente entre os pais e os filhos, muito por conta da indiferença dos pais e da imaturidade natural dos filhos. Antoine é encarado como um estorvo e nós vemos em cenas extremamente sutis que ele tem dificuldades até em suas necessidades mais básicas, como comida e vestimentas. É o meu primeiro contato com François Truffaut e eu fiquei totalmente embasbacado como o diretor mostra uma França charmosa e encantadora, mas decadente e inóspita ao mesmo tempo. Antoine percorre por paisagens lindas (em planos abertos deslumbrantes com a melancólica trilha sonora de fundo) na maior parte do tempo, mas quase sempre sozinho, descocupado, fugindo por sentir que não se encaixa em nenhum lugar e procurando algo que ele não tem noção do que seja, mas que espera que seja melhor do que o mundo que ele conhece. Obra-prima.
Esse Obscuro Objeto do Desejo
4.1 96 Assista AgoraEsse Obscuro Objeto de Desejo é um filme interessantíssimo sobre o lado psicológico mais obscuro do ser humano.
De um lado temos Mathieu, um senhor rico de meia-idade carente que sente a necessidade de uma companhia feminina e está ávido por sexo. Ele é obsessivo e possessivo. Do outro lado temos Conchita, uma jovem manipuladora e oportunista que realiza jogos sádicos para poder manter Mathieu por muito tempo e sugar tudo o que ele tem. O interessante é que nenhum dos dois é flor que se cheire e o relacionamento em si é totalmente autodestrutivo, mas por motivos diferentes (e nada nobres) um se comporta como um parasita do outro.
O Circo
4.4 234 Assista AgoraO Circo é um dos filmes mais hilariantes do Charles Chaplin. As piadas aparecem em doses cavalares e são sempre criativas. É curioso como o acaso cumpre um papel importantíssimo em muitas das suas obras, algo que também pode ser comprovado em filmes como O Garoto, Tempos Modernos e O Grande Ditador. Na comédia tal aleatoriedade exige muita engenhosidade e sagacidade para funcionar plenamente e é o que o ocorre nos seus filmes. São várias as sequências inesquecíveis, como a do Carlitos fugindo da polícia ou armando uma baita confusão na apresentação de mágica, mas a da casa dos espelhos é simplesmente genial. Acredito que tenha influenciado a famosa cena de A Dama de Shangai do Orson Welles, mesmo que no caso de A Dama de Shangai a cena não seja cômica. Mesmo que o filme tenha romance e momentos bem tocantes, ele tenta fugir dos clichês e se encerra de um jeito um pouco amargo. Enfim, Charles Chaplin é sem dúvidas um dos grandes mestres do cinema e O Circo é mais um fantástico exemplar de sua filmografia.
O Sul
4.2 26 Assista AgoraO Sul é um drama muito elegante, sutil e tocante dirigido da forma mais sublime possível pelo grande Victor Erice. É o segundo filme do diretor que assisto (o outro foi a obra-prima suprema O Espírito da Colmeia) e seguramente ambos são filmes que merecem nota máxima. Com certeza me aprofundarei na filmografia deste grande diretor. Antes de tudo, O Sul é um filme sobre uma relação entre pai e filha e a tal relação (com os seus altos e baixos) é complexa e repleta de nuances. Estrella (uma criança curiosa e inteligente que vive em seu pequeno universo familiar e que desconhece o mundo exterior) nutre uma admiração e um fascínio repleto de curiosidade sobre a figura misteriosa de seu pai, Agustín. Porém, em certos momentos os bons sentimentos são estremecidos por certas atitudes questionáveis por parte de Agustín. Com o tempo, Estrella (que por mais que tenha maturidade, é apenas uma criança) cresce e passa a compreender melhor a personalidade do pai como um todo, com direito a qualidades, defeitos, desejos, frustrações, etc. Como eu disse acima, O Sul é extremamente sublime. Suas imagens deslumbrantes são pura poesia e a atmosfera melancólica é reforçada por uma trilha sonora belíssima e moderada, mas que sempre aparece nos momentos cruciais. Nada é exagerado, tudo é natural. Victor Erice com certeza teve muita influência de diretores como Satyajit Ray e Kenji Mizoguchi. Dá gosto ver uma obra tão bela em todos os sentidos. Favoritado.
Gosto de Cereja
4.0 239 Assista AgoraGosto de Cereja é um drama existencialista bem intimista, introspectivo e realista sobre o valor da vida. O protagonista Badii é um homem bem-sucedido e aparentemente de ótima condição financeira, mas ao mesmo tempo se sente totalmente desiludido com a vida. O seu passado não é aprofundado e nem precisa, já que vemos as cicatrizes de sua alma em sua fisionomia. Ele é um homem que apresenta uma tremenda apatia, como se estivesse cansado de ter que suportar muito sofrimento por tanto tempo. Ele planeja que alguém o enterre depois que cometer suicídio e busca incessantemente por alguém que esteja apto a realizar tal pedido. No caminho, ele encontra alguns homens, os convida para um passeio de carro, faz a sua oferta, mas sempre os escuta. Cada um tem uma função diferente na sociedade e a sua própria visão de mundo, discursa sobre o valor da vida e tenta convencer Badii a desistir de se matar. É muito interessante o quanto Badii, pelo menos ao meu ver, se interessa imensamente pela história de vida de cada pessoa que embarca em seu carro. Ele não os interrompe e parece refletir sobre cada ponto de vista apresentado, mesmo que aparentemente ele se mostre irredutível em seu pensamento. Será que o que Badii realmente necessita e busca inconscientemente é fugir da solidão e encontrar calor humano? O que faz totalmente a diferença é a naturalidade como os encontros e os diálogos ocorrem. É tudo muito casual e verdadeiro. Eu tenho que confirmar, mas eu senti que com exceção do protagonista (que realmente dá a entender que é um ator experiente), os outros personagens não são interpretados por atores profissionais. Uma prática que era muito comum no neorrealismo italiano das décadas de 40, 50 e 60. Acredito que tenha sido uma grande influência. Gosto de Cereja é um filme de muita beleza (tanto visual quanto no seu discurso) e sensibilidade que não busca vitimizar ninguém ou fazer o telespectador cair em um choro fácil, mas que com certeza vai tocar a todos que assistirem.
Dust of Angels
3.5 2Dust of Angels é um filme interessante. É sobre dois jovens que adentram irresponsavelmente o teoricamente excitante e extremamente perigoso universo do crime e descobrem que precisam lidar com as consequências dos seus atos. Eu não me senti tão envolvido assim com os personagens e nem com a trama. Ao meu ver, faltou uma narrativa mais coesa. Às vezes ela se torna muito dispersa, sem foco. Porém, a ambientação urbana estilizada e melancólica é sem dúvidas um grande atrativo. Em certos aspectos me fez lembrar dos filmes do Wong Kar-Wai, como Amores Expressos. As cenas de violência também são marcantes e bem secas. Talvez em uma revisão o filme suba no meu conceito. Vale a pena dar uma conferida.
Alemanha, Ano Zero
4.3 99 Assista AgoraUma palavra que define Alemanha, Ano Zero perfeitamente é desolação. É interessante ver um filme em pleno ano de 1948 abordar o ponto de vista dos alemães em relação ao final da Segunda Guerra Mundial. Foi um evento traumático para todos os envolvidos. A trama em si é simples e o filme é relativamente curto, mas o grande trunfo de Alemanha, Ano Zero é sua ambientação arrasada, decadente e desprovida de vida. Só que a decadência vai muito além dos escombros e das ruínas da cidade e passa para o campo moral de toda uma sociedade, passando por crianças, jovens e adultos. A moralidade aqui é totalmente distorcida e temos personagens que não vivem, apenas sobrevivem, totalmente inertes e sem grandes aspirações. Temos Edmund Köhler, o protagonista. É uma criança que não tem a menor oportunidade de exercer o seu papel de criança e não tem sequer o direito a ser inocente. As circunstâncias e os homens inescrupulosos não permitem. Ele tem que se portar como adulto e encarar de frente dilemas morais que até os homens mais sábios teriam dificuldade em encarar. A questão é que o senso de inumanidade já está impregnado em todos, então a ausência de empatia já se tornou perigosamente natural.
Por exemplo: O pai de Edmund é um senhor de idade que se sente inútil por sua frágil condição de saúde e em determinado momento prefere até morrer do que ser mais uma boca a ser alimentada. O seu filho em determinado momento compactua deste sentimento. A obra realça muito bem esse cenário em que a vida humana tem tão pouco valor e detalha como isso já havia se tornado um problema que atravessou gerações.
Onibaba: A Mulher Demônio
4.1 134 Assista AgoraOnibaba para mim não soou como um filme de terror padrão. Obviamente tem os seus momentos macabros e a ambientação é densa e sombria do começo ao final, mas para mim é muito mais um drama de guerra com toques sobrenaturais. Acredito que antes de tudo, Onibaba fala sobre o lado mais primitivo e bestial do ser humano. O lado que não pensa duas vezes antes de tirar uma vida para tirar proveito da situação, que pensa em se alimentar a qualquer custo para sobreviver e que anseia por até relações sexuais independentemente do caos que há ao redor. Dentro deste contexto caótico em que o instinto de sobrevivência mais primitivo possível fala mais alto temos personagens que praticam atos grotescos sem pensar em empatia ou moralidade. O que importa é a sobrevivência. Mas não podemos dizer que pessoas assim perderam o senso de humanidade e se tornaram demônios? Tais pessoas já eram demônios desde o começo ou os tempos difíceis de guerra é que as transformaram em demônios? Onibaba é um filme bem complexo sobre a natureza humana que traz muitos questionamentos interessantes.
Excitação
3.6 40Excitação é um filme de terror brasileiro bem interessante, mas que peca pela indecisão entre ser um drama erótico e um filme de terror sobre aparições fantasmagóricas. Há muita quebra de ritmo justamente por causa disso e faz o terror perder um pouco de sua força. Mas a trama é bem amarrada, os personagens são bem desenvolvidos, tem momentos assustadores e o final é muito satisfatório. É um bom filme que vale a pena ser visto.
A Turba
4.3 29A Turba é uma obra-prima que traz consigo o que há de mais criativo e inovador na era do cinema mudo. É um drama familiar poderoso e realista sobre temas bem diversificados como sonhos e quebra de expectativas, os altos e baixos da vida e as virtudes e os defeitos das pessoas e como o amor verdadeiro (mais do que um amor entre um homem e uma mulher ou um pai e um filho e sim um amor por tudo o que há de bom na sua própria existência) pode e deve passar por tudo isso. A trama, apesar de básica, é muitíssimo bem executada. A Turba é direto ao ponto, sem enrolação. Antes de qualquer coisa, é um filme lindíssimo sobre esperança e perseverança, mas sem ser piegas. O romance aqui existe e tem a sua importância, mas eu sinto que o filme vai muito além do romance. Tecnicamente é esplendoroso. O uso da câmera é extremamente dinâmico, inteligente e realça muito bem todos os cenários mais caóticos e movimentados com a famigerada multidão, mas também sabe explorar perfeitamente o rosto de cada ator nos momentos mais intimistas da trama. Me identifiquei muito com o personagem Johnny Sims (principalmente pelos defeitos) e a Mary, uma mulher de muito valor, é uma das personagens femininas mais encatadoras que já vi. Como ser mais do que apenas uma pessoa na multidão? É algo que você precisa conquistar todos os dias preparado para as vitórias e para as derrotas inevitáveis da vida. 5 estrelas e favoritado.
Tempos Modernos
4.4 1,2K Assista AgoraTempos Modernos, em termos de pura comédia, talvez seja o filme mais sagaz que vi do Chaplin até o momento. As piadas visuais são constantes, numerosas e a fluidez com que elas se intercalam é impressionante. O personagem Carlitos está mais atrapalhado do que nunca. Ele não se ajusta muito bem ao modo de vida automático e sem vida daquela sociedade burocrática e fria, "faz questão" de estar no lugar errado e na hora errada (mesmo esbanjando boas intenções) e isso resulta em cenas impagáveis e extremamente bem feitas, diga-se de passagem. Acredito que Chaplin mirou a sua crítica muito mais no processo insensível de desumanização geral (em todas as esferas da sociedade, independentemente de classe social) do ser humano (dos patrões até os empregados) do que no lado exploratório resultante dos excessos do capitalismo. Ele se utilizou deste mesmo argumento no clássico discurso de O Grande Ditador. É bem interessante a forma como Chaplin inseriu diálogos falados, mas sem deixar as características do cinema mudo de lado. Ele conseguiu extrair o melhor de ambos. Enfim, é sempre revigorante ver obras de Chaplin, o cinema como nós conhecemos hoje em dia deve muito a ele.
Os Meninos
3.9 114Os Meninos é um filme altamente atmosférico, enigmático e perturbador. Um casal de turistas resolve visitar uma pequena ilha e se depara com uma horda de crianças macabras e violentas. O que fez com que as crianças se comportassem daquele jeito? Onde estão os adultos? São perguntas interessantes que o filme sabiamente não tem pressa e nem a necessidade em responder. A tensão da obra é absurda, todo o mistério prende a atenção do telespectador e tudo acontece na hora certa. Em certos aspectos estruturais e narrativos me lembrou bastante de Os Pássaros do Hitchcock, por também ter uma revolta enigmática de seres que em um primeiro momento são infensivos, no caso os pássaros do título, mas que ao se juntarem se tornam perigosos. Detalhe: Tem uma referência muito interessante (e que se encaixou como uma luva) ao clássico A Doce Vida, do Fellini. Enfim, terror espanhol de primeira qualidade. Vale muito a pena ser descoberto.
Damien: A Profecia 2
3.3 174 Assista AgoraA Profecia 2 tem uma trama até mais elaborada e cerebral do que o primeiro, mas falha miseravelmente no que diz respeito a ser um filme de terror. Damien com certeza teve um desenvolvimento muito interessante ao mostrar diversas facetas e o tom conspiracionista funciona ainda melhor, com muitos personagens suspeitos, mas as cenas de morte aqui tentam emular as clássicas cenas do original, mas infelizmente são mal feitas, forçadas e sem um pingo de originalidade. É interessante como continuação, funciona como um drama sobre crise existencial, mas tem muito pouco valor como filme de terror.
A Profecia
3.9 632 Assista AgoraRapaz, eu tinha uma recordação melhor sobre A Profecia. Continua sendo um baita filme de terror, mas na minha memória era uma obra-prima suprema do gênero e certamente não é o caso. Consegue desenvolver muito bem o drama familiar ao mesmo tempo que insere os elementos sobrenaturais gradualmente. As mortes são bem elaboradas e a atmosfera sombria que as cercam é muito boa. O elenco também correspondeu muito bem com nomes de peso como Gregory Peck, mas o destaque mesmo vai para a atuação do pequeno Damien. A trilha sonora é realmente marcante. Enfim, é um grande filme, mas me decepcionei um pouco ao rever.
O Covarde
3.8 11Satyajit Ray é um dos maiores perfeccionistas da história do cinema. A forma como ele retrata a cena mais trivial possível de forma extremamente bela e poética é algo que me fascina a cada filme que vejo deste grande diretor. O Covarde tem uma trama simples, mas a narrativa de Ray é bem meticulosa e mesmo na simplicidade ele consegue criar algo muito bem desenvolvido e envolvente.
O protagonista Roy é alguém com uma ligação amorosa com a moça Karuna no passado, mas por insegurança por parte dele as coisas não deram certo. Karuna se casou com outro homem e por coincidência Roy a reencontra e os sentimentos do passado também retornam. Os comentários aqui focam muito em Roy e Karuna, mas a minha perspectiva ficou o tempo todo em cima do marido de Karuna, Bimal, um homem de personalidade peculiar, mas gentil, pacífico e hospitaleiro. A covardia citada no título também pode se referir ao fato do Roy ser traiçoeiro com Bimal e planejar roubar Karuna dele. O final amargo e realista é perfeito e foge totalmente do padrão tão comum na era de ouro de Hollywood. Às vezes você tem que aceitar as mudanças e a sua responsabilidade para que elas venham a acontecer.
Alexander Nevsky
3.9 32 Assista AgoraAlexander Nevsky é claramente um filme panfletário e até certo ponto bem superficial. Os personagens não são tão bem desenvolvidos assim e caem nos mais profundos estereótipos. Você sente que todo o elenco não atua mal, mas carece totalmente de naturalidade. Os alemães aqui parecem demônios originários de um filme de terror, chega a ser cômico tal exagero em certos momentos. Mas o Eisenstein é um dos grandes diretores da história do cinema e consegue entregar momentos memoráveis com toda a sua intensidade, inventividade e técnica apurada que foram tão presentes em sua carreira. A batalha no gelo sem dúvidas foi um marco para o cinema e influenciou cenas de batalhas grandiosas presentes em muitas outras obras, como Falstaff - O Toque da Meia Noite, Spartacus, Ran e Coração Valente, por exemplo. Dou 3 estrelas e meia mais pela exuberante parte técnica (nesse aspecto Eisenstein nunca deixa a desejar) e pela inegável importância histórica, mas Alexander Nevsky não serve nem para limpar as botas de Ivan, o Terrível, por exemplo. Este sim, um filme extremamente complexo.
Hanyo, a Empregada
3.5 47Hanyo, a Empregada é um filme bem interessante. Me prendeu do início ao fim (aliás, e que final, hein?). Bom, o que posso dizer é que é um drama muito intenso e poderoso com ares até novelescos (e até certo ponto exagerados), mas a forma como é dirigido faz toda a diferença, muito mais do que a trama em si que não traz nada de tão inovador assim. A edição é extremamente dinâmica, inteligente e moderna. A composição de cada ambiente é meticulosa e a forma como os personagens interagem com os cenários é bem engenhosa. É aquele típico caso em que as imagens dizem muito mais do que as palavras. Os personagens são todos complexos e não há como dizer quem é mocinho e quem é vilão. A atmosfera sombria e tensa faz com que o telespectador mergulhe de cabeça em uma trama que trata de uma maneira muito dolorosa da destruição familiar utilizando-se de temas como ambição, conspiração, culpa, desejo, manipulação, obsessão, etc. É um grande filme, sem dúvidas.
Lições da Escuridão
4.3 17Algumas das imagens mais espetaculares já registradas pelo homem se encontram neste documentário. O antes e o depois da guerra e as sequelas deixadas pelos conflitos mostradas por um olhar poético quase sobrenatural, poderia dizer até divino. Herzog é uma das figuras mais importantes para o cinema.
A Câmara 36 de Shaolin
3.9 67 Assista AgoraA 36ª Câmara de Shaolin é um ótimo filme de artes marciais. Confesso que o início soou bem confuso para mim, pois não sou tão bem informado sobre o contexto histórico e político daquele período da China, mas acredito que o foco do filme seja mais do que política ou vingança pessoal e sim demonstrar gradualmente a evolução espiritual, física e mental do protagonista em uma jornada de autoconhecimento. Toda a sequência do treinamento é simplesmente genial. Cada câmara tem uma finalidade e coube ao protagonista superar cada adversidade com persistência, mas também com inteligência.
Quando ele superou todos os obstáculos e se tornou um mestre, o que ele ganhou de mais precioso foi a sabedoria.