Últimas opiniões enviadas
Escrachado: o mais novo CLÁSSICO do body horror. Irretocável. Brutal. Verossímil. Uma bela monstruosidade.
Destrinchar sobre 'The Substance' é como jogar ketchup em uma panela de molho de tomate: tudo aqui é explícito, sem rodeios, sem abertura à fabulosas interpretações. Explicar não se faz necessário.
É uma pena que algumas pessoas tenham perdido a conexão com o longa por detalhes completamente irrisórios: "— Como que a Sue aprendeu a construir um cofre no próprio banheiro?", "— Cadê a carteira de CLT da Sue?", "— De onde vem a origem da substância?"
"— Exigimos a explicação de tudo amanhã, no Globo Repórter!"
Meu, vocês assistiram um PARTO onde uma MULHER ADULTA saiu das COSTAS de uma outra mulher: é sério que necessitam de cenas que mostrem a Sue assistindo um tutorial no YouTube sobre engenharia para ficar coeso com a "realidade"? É sério isso?
Atemporal: você, definitivamente, não terá a mesma experiência assistindo ao filme com 20, 30, 40, 50 anos de idade. A cada etapa, vamos nos aproximar cada vez mais de Elisabeth e a dor no âmago da certeza de que o tempo é cruel, sádico e impiedoso: sem exceções.
'The Substance' foi criado e roteirizado para Demi Moore, assim como a mesma nasceu para dar vida à Elisabeth. Tornando o sofrimento da mesma tão autêntico: ao injetar a agulha em uma ferida já necrosada de Elisabeth é como girar a faca nas entranhas da própria Demi Moore: aclamada, na juventude, por sua extrema beleza; chegando a estrelar um longa chamado 'Striptease', do qual foi completamente objetificada - assim como Sue; posteriormente, passando por plásticas e lutando contra o vício em álcool, até se tornar esposa de Ashton Kutcher, com uma diferença de 15 anos de idade, sendo ferozmente criticada e tentando se moldar à juventude do, então, marido na época; depois, após madura, sendo descartada por Hollywood (como tantas outras).
Coralie Fargeat fez questão de finalizar o espetáculo com uma frase grifada: "Quem gostou, bate palmas. Quem não gostou, paciência."
"Thank you so much everybody! I'll see you next week. And in the meantime: take care of yourself."
Depois de ler alguns comentários alegando que o filme "deixa muitas pontas soltas", "é nonsense, raso e sem explicação alguma", resolvi deixar aqui algumas explicações e percepções, desde as mais óbvias até às mais "simbólicas" e interpretativas.
Eu não preciso explicar sobre todo o histórico que os americanos possuem por serem racistas, xenofóbicos e responsáveis por grande parte das catástrofes que causam ao mundo. Na dúvida, 'Oppenheimer' está aí como uma boa sugestão de filme. Mas, acima de tudo, essa aqui é uma visão sobre o que o filme nos mostrou:
Observação: não, não estou dizendo que somente os americanos são racistas, xenofóbicos, individualistas, etc. Mas o alvo de crítica do filme é bem óbvia: os americanos; ou, como os americanos interpretam catástrofes que podem estar acontecendo somente nos EUA (ou no mundo inteiro, quem sabe?).
1. Racismo: assim que G. H. e a sua filha aparecem na porta é nítido o desconforto que causam, não somente por surgirem em um momento em que a mansão estava alugada e serem dois desconhecidos para a família, mas, principalmente, pela relutância no qual a Amanda sente em dar credibilidade à ambos, afinal, dois negros possuindo uma mansão e um carro de luxo? — além de todo o sentimento de incômodo que a Amanda sente especialmente pela Ruth, por trazer falas sarcásticas e questionamentos que enfatizam esse racismo "velado". — E o oposto também acontece, quando Ruth propõe ao pai que expulse àquela família da mansão — "Eu quero que você se lembre de que se o mundo desmoronar, a confiança não deve ser distribuída facilmente a ninguém. Ainda mais aos brancos".
2. Xenofobia: uma mulher latina pedindo ajuda à um americano que, por sinal, não entende absolutamente nada de espanhol, e sendo completamente deixada para trás. Além de todo o levantamento que fazem sobre ser uma conspiração dos coreanos e o "resto de nós". E sim, você e eu estamos inclusos nesse resto, afinal, tudo abaixo dos EUA é resto.
3. Os animais: instintivamente, cervos se agrupam em manadas em meio à catástrofe. Flamingos sempre estão em bandos. O surgimento desses animais é uma clara alusão em como animais, em luta pela sobrevivência, agem em coletivo, enquanto seres humanos agem de forma individualista. O fato deles surgirem ao redor da mansão é óbvia: a mansão fica em meio à uma floresta, logo, é uma motivação para que os animais surjam ali e, claro, enfatizar ainda mais uma reflexão sobre o comportamento individualista dos seres humanos em comparação aos animais.
4. Tecnologia: é impressionante como um blackout é capaz de reduzir toda uma população a: nada. E é nesse momento que percebemos em como toda a nossa estrutura está interligada à tecnologia, e como isso pode ser desfeito facilmente, fazendo com que o ser humano retorne à sua própria natureza. Sem acesso à internet e sem eletricidade, carros inteligentes perdem o rumo, ocasionando colisões. Chamadas telefônicas não podem ser realizadas. Acesso as notícias através do Google é impossível. Em meio à esse vazio, o sujeito tende a lidar unicamente com a sua própria existência e inadequação — "Eu não tenho ideia do que fazer agora. Não consigo fazer quase nada sem meu celular e meu GPS. Eu sou um homem inútil".
5. Rose e o paralelo com a série 'Friends': apesar de transparecer uma personagem dispersa aos acontecimentos, ela tem algo a nos dizer. Por ser a mais jovem, Rose representa uma geração que se molda facilmente aos acontecimentos. Em meio à catástrofe, ela é a única a querer buscar um refúgio seguro (e é a primeira a encontrar o bunker), enquanto os adultos relutam em permanecer na mansão, alimentados pela esperança de que o sistema resolveria tudo. Inclusive, esse impulso de Rose é citado através de um episódio de 'The West Wing'. E para Rose, a maior tragédia que poderia acontecer em meio à esse caos é não ter a oportunidade de assistir o último episódio de 'Friends' — e existe um entretenimento clássico americano maior do que dar risadas enquanto assiste 'Friends'? — finalizando assim, 'O Mundo Depois de Nós', e esse desfecho não nos traz um sentimento familiar? Para Rose, assistir o último episódio da série é o que traz esse sentimento de completude, em paralelo à isso, esse desfecho brusco nos traz esse sentimento de que gostaríamos de ver mais sobre tudo o que estava acontecendo, assim, proporcionando um sentimento de completude com 'O Mundo Depois de Nós'. Através da Rose, pudemos constatar que a angústia e irritação que a personagem sentia é similar ao que a maioria está sentindo por não ter mais um episódio de 'Friends', ou, 'O Mundo Depois de Nós'.
É importante salientar que aqui não se trata do que está acontecendo de fato, nem antes e nem depois das possíveis causas e motivações, mas sim, proporcionar uma visão de como os seres humanos podem agir diante do que não se sabe, não se entende, não se tem "tato". O caos, o medo, a desinformação, as teorias de conspirações e as paranoias são o suficiente para nos mostrar como uma desordem pode ser facilmente instalada e como podemos nos voltar uns contra os outros para sobreviver. Sendo assim, 'O Mundo Depois de Nós' não apenas nos faz constatar sobre o que somos e o que poderíamos ser em meio à um eminente apocalipse, mas é cirúrgico em nos proporcionar reflexões e nos trazer para mais próximo dos sentimentos vivenciados pelos personagens, ainda que possamos negá-los ou não percebe-los: estão ali. No mas, não está na minha lista de filmes favoritos com essa temática, porém, não o torna menos interessante e incisivo.
/media/accounts/photos/2026/04/01/10911f1e43cc8880d620bfb331540358-2496334420.jpg)
No momento em que ambos se fundiram ao som de '2 Become 1', das Spice Girls, eu gritei: "— ABSOLUTE CINEMA!"