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É um filme meio absurdo em vários momentos, mas é justamente isso que faz ele funcionar. Ele não tenta te deixar confortável, pelo contrário, abraça o estranho e transforma esse lado meio voyeur em algo quase hipnótico. Tudo gira em torno de contrastes: luz e sombra, luxo e decadência, desejo e repulsa.
O Oliver olha praquele mundo da elite com uma mistura de admiração e incômodo, como alguém que sempre esteve de fora, mas quer muito fazer parte. Só que ele não fica esperando oportunidade, ele vai lá e ocupa, se infiltra e muda as coisas ao redor dele. As atuações ajudam muito nisso. O Barry Keoghan está estranho na medida certa, segurando bem essa tensão o tempo todo, e o resto do elenco acompanha bem.
Come with me to Saltburn!
"Uma vez, a vovó me disse que carne bovina era a comida favorita dela. Mas, quando você era criança, vivia doente. Ela pediu a deusa Guanyin para cuidar de você e para que fosse forte e saudável. Em troca, ela não comeria carne bovina."
Eu acredito que filmes, de uma maneira geral, perpassam pelas pessoas de maneiras diferentes, dependendo das vivências e do contexto de cada um.
Dito isso, estou sem palavras para esse filme. Ele me atravessou de um jeito que eu esperava. E, por isso, adiei bastante vê-lo. É daqueles filmes que terminam, mas continuam dentro da gente.
O longa toca em assuntos que talvez só quem viveu o luto de perto consiga compreender completamente. Os conflitos por herança, o papel da mulher dentro da família como cuidadora, as relações que se transformam diante da possibilidade da perda e, principalmente, toda a história de uma família que parece ir embora junto com quem está partindo.
Porque, no fim, quando alguém morre, não é apenas uma pessoa que se vai. Vão também as histórias que ela carregava, os lugares que ocupava, as memórias que só existiam porque ela estava ali.
Talvez por isso esse filme doa tanto. Ele fala sobre a morte, mas, sobretudo, fala sobre tudo aquilo que a morte revela sobre quem fica.
"Se eu morrer e você espalhar as flores de qualquer jeito, voltarei para assombrá-lo."