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Na obra "A Gaia Ciência" (1882), Friedrich Nietzsche apresenta uma das passagens mais impactantes da filosofia moderna: o parágrafo do homem louco. Na cena, um homem acende uma lanterna em pleno dia e corre ao mercado gritando "Onde está Deus?". Quando as pessoas riem dele, o louco responde: "Eu vou lhes dizer! Nós o matamos - você e eu. Somos todos seus assassinos. Mas como fizemos isso? Como conseguimos beber o mar? Quem nos deu a esponja para apagar o horizonte inteiro? O que fizemos quando desatamos esta terra de seu sol?". Percebendo que chegou cedo demais, ele conclui: "Meu tempo ainda não chegou. Este tremendo acontecimento ainda está a caminho."
Este documentário captura precisamente o dilema antevisto pelo filósofo alemão. Durante séculos, assistimos a revoluções que prometiam libertar a humanidade da tutela religiosa - derrubaram reis ungidos por Deus, criaram sociedades laicas onde o poder nasceria do povo. Mas o que o filme revela, com uma clareza perturbadora, é que não basta "matar Deus" sem saber o que colocar no lugar.
A câmera nos mostra como, paradoxalmente, as revoluções contemporâneas parecem seguir o caminho oposto: em vez de secularização, testemunhamos o ressurgimento de messianismos políticos, cultos de personalidade e fundamentalismos ideológicos. A estrutura da fé permaneceu intacta, apenas mudou de altar - do divino para o Estado, do sagrado para o mercado, da transcendência para o algoritmo.
O que torna este documentário particularmente poderoso é como ele revela a arrogância por trás da crença iluminista de que a racionalidade automaticamente libertaria a humanidade da religião. Em vez disso, assistimos ao surgimento de novas formas de idolatria: influenciadores digitais como profetas, partidos políticos como igrejas, teorias conspiratórias como liturgias.
O homem da lanterna de Nietzsche não era um ateu militante, mas um visionário trágico que percebia as trevas que viriam com a morte de Deus. Este filme nos coloca na mesma posição desconfortável: somos nós os loucos que enxergam o vazio, ou aqueles que riem, ainda anestesiados pela ilusão de que matamos os velhos deuses sem criar novos ídolos?
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Saudações de Goiânia, Rodrigo. Abraços!
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O final em si, com a ideia do ciclo de Samsara, foi bom e fez sentido dentro da proposta da série. O problema é que o episódio final força demais a barra: tem tanta situação implausível, tanta conveniência de roteiro e tanta coisa inverossímil acontecendo em sequência que a experiência acaba azedando. A conclusão conceitual é boa, mas a execução foi tão capenga que derrubou muito a nota da série.