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No interior de Alagoas, o filho de camponeses Paulo Honório, é um mascate que perambula pelo sertão a negociar com redes, gado, imagens, rosários e miudezas. Cria uma obsessão, arrancar a fazenda São Bernardo das mãos de seu inepto dono, o endividado Luiz Padilha, transformando este em seu empregado. Alcançando finalmente seu objetivo e, com muita astúcia e violência, Paulo Honório faz a fazenda prosperar e torna-se temido pelos empregados e fazendeiros vizinhos. Nesse momento, ele sente que precisa constituir família e vê essa possibilidade na professora esquerdista Madalena, a quem convida para visitar a fazenda. Casam-se, mas o humanismo e sensibilidade da professora se chocam com a rudeza de Paulo Honório, ficando no ar a suspeita de que ela o trai, física e politicamente. Daí por diante, Paulo Honório passa a viver dentro de um clima de ciúme motivado por sua imaginação possessiva.
Baseado na obra homônima de Graciliano Ramos.
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Estava com exibição gratuita num projeto de cinema itinerante, fui ver por curiosidade. Achei muito legal saber que o material é fruto de uma restauração, um cuidado com as nossas produções. Sério, que filme ótimo, que estética linda.
Mais um ótimo filme baseado na obra de Graciliano Ramos! O diretor Hirszman busca o tempo todo a fidelidade ao texto do escritor alagoano, a ponto de por em xeque uma maior naturalidade em prol do literário, mas acerta ao apostar na introspecção do fazendeiro Paulo, um homem bruto, tomado por pensamentos neuróticos e paranóicos (atuação magnífica de Othon Bastos, principalmente nos nos gestos e olhares), inclusive em relação à própria esposa, a idealista, culta e dedicada Madalena - aqui, ecos do Bentinho, de Dom Casmurro, e o seus ciúmes doentios. Trilha sonora econômica, praticamente uma cantiga dos camponeses mais um único canto a cargo de Caetano Veloso, mas que funciona a contento. O jeito contido e lento de filmar do diretor lembra europeus como Bergmann, Antonioni ou Tarkovski, mas com um tom bem de interior brasileiro.
02/05/2026
interessante
“Fiz tudo como negócio.”
🌵 Adaptando de maneira brilhante o incrível livro escrito por Graciliano Ramos, São Bernardo é uma pérola do cinema nacional. Um reflexo amargo e bastante fiel de tempos malucos que mais parecia distopia. Mal sabe Graciliano que ainda estamos à beira do mesmo abismo que esse imaginou. Os agentes do caos, os donos do mundo continuam ativos. Exploração, ambição e paranoia, uma coivara existencial que vai nos colocar em estado de choque.
"A culpa foi minha"
🌵 A realidade em São Bernardo é crua! Coronelismo, o amor não existe, o que nos resta são relações negociadas. Você tem um preço e vai ser explorado de qualquer maneira. Uma mulher sem religião é um perigo, pois o comunismo está à solta. Política, religião, dinheiro, estamos amaldiçoados, essa realidade é da muléstia. O Brasil continua doente, tentando estancar uma ferida que ainda não possui medicamentos para tal cura.
🌵 E o que falar da linguagem desse negócio! Da poesia e da selvageria dos diálogos. Claro que o livro vai ser mais didático em relação á isso, pois a cabeça de Paulo Honório está entrando em estágio de ferrugem. A relação de poder, a contradição de comportamento e principalmente de pensamento, exposto de modo febril.
🌵 A direção de Leon Hirszman é coisa fina. A minoria que não curte o filme, acha que o seu defeito é ser muito fiel ao livro, tirando um eventual senso de criatividade e originalidade na qual a linguagem do cinema poderia construir e adicionar a história. Eu concordo e discordo, no caso acho que o filme conseguiu capturar a essência do livro, mostrando de maneira direta a mensagem na qual Graciliano propôs.
Um filme no mínimo interessante
31.08.2025